RELAÇÃO ENTRE CLASSE E COR: ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE A ASCENSÃO SOCIAL DO NEGRO NO BRASIL

RELAÇÃO ENTRE CLASSE E COR: ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE A ASCENSÃO SOCIAL DO NEGRO NO BRASIL

RELAÇÃO
ENTRE CLASSE E COR: ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE A ASCENSÃO SOCIAL DO NEGRO NO
BRASIL

 

Francisco Fernandes
Ladeira
Licenciado
em Geografia – UNIPAC
Especialista
em: Brasil, Estado e Sociedade – UFJF
Email:[email protected]

 

Resumo:

O presente trabalho apresenta uma
análise sobre a relação entre classe e cor no Brasil. A partir de constatações
cotidianas, dados estatísticos e pesquisa de bibliografia pertinente ao tema
proposto, busca-se aferir de que maneira a cor da pele influencia na mobilidade
e aceitabilidade social do elemento negro em nossa sociedade. Deste modo, duas
linhas de pensamento sobre a questão racial no Brasil são confrontadas. De um
lado, o pensamento “classicista”, que acredita que no país o preconceito social
é maior do que o preconceito racial. Por outro lado, para o chamado “pensamento
revisionista” sobre as relações raciais no Brasil, mesmo quando desfruta de uma
situação econômica privilegiada, o negro continua vítima de todo tipo de
preconceito. Destarte, tendo os dois paradigmas em questão como fulcro,
pretende-se apresentar algumas considerações sobre a situação do negro
brasileiro.

 

Palavras Chave: Negro.
Ascensão social. Relações Raciais. Classicismo. Revisionismo.

Considerações Iniciais

É praticamente unânime a ideia de que existe racismo no Brasil. Mesmo não
legitimado juridicamente[1],
como nas leis “Jim Crow” e no Apartheid, que vigoraram nos Estados Unidos e na
África da Sul respectivamente, em nosso país se desenvolveu uma forma velada
depreconceito racial. Ou seja, mesmo não sendo legalmente discriminada a
população negra foi “naturalmente” segregada[2].
O arquétipo do negro social e economicamente inferior faz parte do inconsciente
coletivo do brasileiro.

   

 Muitas
vezes se evita debater o racismo no Brasil. De acordo com o célebre aforismo de
Florestan Fernandes, “o brasileiro tem o preconceito de não ter preconceito”. 
Alguns se abstêm a discutir o tema por receio de expor ou até desvendar
preconceitos internalizados. “Temos o medo de falar sobre racismo e avistamos
no outro o preconceito que está em nós”. (DEUS, 2000: 5).

 

  Em
2003 uma pesquisa realizada pela Fundação Perseu Abramo constatou que 87% dos
brasileiros admitem haver discriminação racial no país, mas apenas 4% da
população se considera racistas.

 

  Através
de supostos eufemismos como “moreninho”, “jambo” e mulato, a origem étnica de
um indivíduo é escamoteada, como se fosse desonroso, e não motivo de lisonjeio,
ser qualificado como negro.

 

 Dados
estatísticos e constatações empíricas corroboram a presença de práticas
racistas no Brasil. Estudos mostram que nas escolas primárias, importantes
instituições tanto para socialização quanto para a sociabilidade de um
indivíduo, freqüentemente estudantes negros vivem situações constrangedoras[3]
e são tratados com indiferença por colegas e professores[4].
Manifestações culturais com matrizes africanas, como o candomblé e a umbanda[5],
são menosprezadas por boa parte da população. Nos meios de comunicação de massa,
principalmente em telenovelas, os negros geralmente estão associados a antigos
estereótipos como a “mulata sensual” ou o “negro malandro”; e a profissões
socialmente inferiores, como empregadas domésticas e jardineiros. No mercado de
trabalho é considerável o número de negros barrados pelo subjetivo, e muitas
vezes racista, pré-requisito “boa aparência”. Os negros, principalmente os
morados de favelas, são as maiores vítimas de violência policial. Expressões
como “o negro quando não suja na entrada, suja na saída” ou “fulano é um negro
de alma branca” infelizmente ainda estão presentes em nosso cotidiano.

De
acordo com a interpretação de Oracy Nogueira, enquanto nos Estados Unidos o
racismo se refere à ancestralidade de um indivíduo, “basta a suposição de que o
indivíduo descende de certo grupo étnico, para que sofra as conseqüências do
preconceito” (NOGUEIRA, 1979: 79);no Brasil o preconceito racial é exercido
em relação a aparência, “quando toma por pretexto para as suas manifestações os
traços físicos do indivíduo, a fisionomia, os gestos, o sotaque (…)”. (IDEM).

Durante um período considerável imperou no pensamento sociológico
brasileiro o paradigma da “democracia racial”, tese que partia do pressuposto
de que as diferentes “raças”[6]
no Brasil conviveriam em relativa harmonia[7],
consolidado principalmente a partir do lançamento do clássico “Casa-Grande e
Senzala” de Gilberto Freire.[8]
A intensa miscigenação[9]
verificada na sociedade brasileira é utilizada como principal argumento por
aqueles que apregoam a inexistência de preconceito racial no Brasil[10].

A
grande repercussão internacional da obra freyriana e os relatos admirados de
pesquisadores internacionais, principalmente estadunidenses, sobre as
“cordiais” interações inter-raciais no Brasil, ensejaram na década de 1950 uma
série de estudos patrocinados pelo UNESCO, sobre a questão racial brasileira.
Intitulado “Programa de Pesquisa sobre Relações no Brasil” esse projeto
foi “(…) pioneiro em indicar o racismo ocultado sob o discurso da democracia
racial”. (COSTA, 2002: 46).

Assim, vários estudos sociológicos (destacadamente a obra de Florestan
Fernandes) começam a questionar o mito da democracia racial. Surgira então o
chamado “pensamento revisionista” sobre as relações raciais no Brasil, tendo
como base a Escola Sociológica da USP.

Segundo
Fernando Henrique Cardoso nos anos de 1950 e 1960 havia uma espécie de debate
com a obra de Gilberto Freyre, o grande nome das Ciências Sociais no Brasil até
então. Freyre tinha uma visão amena da escravidão, marcada pela glorificação da
Casa-Grande e pela mistificação da Senzala. “Nós não aceitávamos esse lado
ideológico. Florestan [Fernandes] procurou mostrar que a escravidão no Brasil
tinha aspectos de violência, gerou preconceito. Nossos trabalhos foram nessa
direção”. (CARDOSO, 2004)[11].

Para Osório (2004:13) esses estudos sobre relações raciais e
desigualdades sociais obtiveram o mérito de demonstrar que, ao contrário do que
se pregava até então,o Brasil não era um “paraíso racial”. “O fato de o preconceito
não traduzir na separação total (…) de brancos e negros, como em outros
países, não significava que ele não existia, (…) simplesmente era de outro
tipo”.

Ascensão
social do Negro

 

 A ascensão social dos negros no Brasil, embora de maneira tímida, é
fato. De cada seis negros que se movem na pirâmide social do país, cinco
melhoram sua condição de vida. A população negra corresponde a um terço da
classe média do país. (PEREIRA, 2005: 66). Um estudo realizado a partir de
dados do IBGE por economistas do Ibmec demonstra que entre os chefes de família
que ganham mais de R$ 1.384 os negros representam 14,69%. De acordo com a
Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), do IBGE, entre 1992 e 2001
quase dobrou, entre os que ganham mais de cinco salários mínimos, o número dos
chefes de família negros. (BARBI, FERNANDES, 2003).

Embora muito aquém do esperado, vários trabalhos demonstram que negros já
ascendem socialmente desde o período colonial.

 Roberta
Fragoso Kaufmann identifica uma ordem de 1731, emanada de dom João V, em que
era concebido a um negro o importante cargo de procurador-geral da Coroa,
“(…) dizendo que ser negro não era impedimento para assumir função pública”.
(KAUFMANN, 2008: 7).

No século XVIII, a relativa flexibilidade da sociedade mineradora
propiciou aos cativos, sobretudo para aqueles que encontrassem metais
preciosos, a possibilidade de conquistar a liberdade através das Cartas de
Alforria.

No
entanto, pesquisas historiográficas confirmam que na
região das minas, como no restante do país, os libertos eram minoria. “Por
volta da terceira década do século XVIII, no apogeu da economia mineradora, os
escravos alforriados não ultrapassavam 2% da população”. (MAESTRI, 2001:142).

Por outro lado, no polêmico livro “Não somos racistas: uma reação aos
que querem nos transformar numa nação bicolor”
, Ali Kamel aponta uma grande
mobilidade social dos negros durante o período escravista. Destaca a região de
Campos, onde (segundo recenseamentos da época), na virada para o século XIX, um
terço da classe senhorial era de “pessoas de cor”. “(…) Uma vez alforriados,
a cor não era impedimento para que os negros fossem aceitos como iguais pelos
brancos e pudessem comparecer ao mercado de escravos na condição de compradores
(…)”. (KAMEL, 2009: 86).

 Ao
estudar a Bahia do Período Colonial, Luiz Viana Filho (1976) salienta que na
capitania muitos negros se orgulhavam de ter escravos. Segundo o autor, a
singularidade da sociedade portuguesa instalada nos trópicos, “onde não havia ideais
absolutos nem preconceitos inflexíveis”, facilitaria a ascensão social do
negro.

Em “Sobrados e Mucambos”, publicado em 1936, Gilberto Freyre relaciona a
ascensão social do mulato ao processo de modernização do país, registrado após
a segunda metade do século XIX. A paulatina transferência dos poderes político,
econômico e cultural do campo para a cidade[12]
traria como consequência a real possibilidade de mobilidade social para os
estratos inferiores. “A urbanização do Império (…) tornou quase impossível o
equilíbrio antigo [organização social essencialmente estamental], da época de
ascendência quase absoluta dos senhores de escravo sobre todos os elementos da
sociedade (…).” (FREYRE, 2000: 601). Surgiram assim, novos estilos de vida,
mais próximos da ideologia burguesa do que dos valores rurais e patriarcais. No
ambiente citadino, elementos como a ascendência de um indivíduo, perdem
importância como fatores de valorização social. Freyre identifica uma “nobreza
emergente” nesse novo contexto, formada basicamente por doutores e bacharéis.
Além da advocacia; a carreira militar e o casamento inter-étnico[13]
foram os principais meios de ascensão social de mulatos e negros (em menor
escala) no Brasil da segunda metade do século XIX e nas primeiras décadas do
século seguinte.

No ensaio “As elites de cor: um estudo de ascensão social”,
publicado na década de 1950, Thales de Azevedo se propõe a estudar a mobilidade
social do negro na cidade de Salvador. Apesar de reconhecer o preconceito de
cor na capital baiana, “mais brando do que o registrado em outras nações”,
Azevedo descreve uma sociedade flexível à ascendência social do negro.
Apresenta a aceitabilidade dos negros e mestiços perante a elite
soteropolitana, principalmente quando bem educados, “(…) educação no duplo
sentido de boas maneiras e de uma instrução de elevado nível (…)”. (AZEVEDO,
1955: 198). “Nas camadas mais altas da sociedade baiana (…) em geral a pessoa
de cor não sofre humilhações” (IDEM, p. 67). Como canais de ascensão social
utilizados pela população negra são citados a burocracia, as artes, o comércio
e os esportes, dentre outras atividades.

Para a corrente “revisionista”, ocorreu justamente o contrário do
promulgado por Gilberto Freyre, Luiz Viana Filho e Thales de Azevedo. Ao ascender
socialmente, ao entrar na acirrada competição capitalista com os brancos, os
negros viram o preconceito, antes camuflado pelas relações patriarcais,
tornar-se latente. A competição direta no mercado de trabalho com os brancos e
a presença em lugares raramente frequentados pelas pessoas de cor mostrou a
população negra a verdadeira face das relações raciais no Brasil [14].

O “preço” pago pelos negros emergentes na
pirâmide social foi incorporar ideologias impostas pela elite branca, como a
democracia racial. Não obstante, foram obrigados a negar suas origens,
principalmente os mulatos mais claros, deveriam “comportar-se como brancos”. Para
ingressar no “mundo dos brancos”, negros e mestiços se submeteram a um
“branqueamento” psicossocial e moral. (OSÓRIO, 2004). Lembrando expressões
citadas pelo próprio Gilberto Freyre, se nos Estados Unidos quem “escapa de
branco, negro é”, no Brasil “quem escapa de negro, branco é”. Ou seja, os
“quase brancos”, para todos os efeitos, se classificam como caucasianos. “Os
negros que ocupavam uma oposição de classe superior identificavam a si mesmos
como membros da comunidade branca”. (COSTA, 1999: 379). No seminal
trabalho “A integração do negro na sociedade de classes”, Florestan
Fernandes registra uma ínfima mobilidade social das pessoas de cor nas décadas
posteriores a abolição (restrita, quase exclusivamente, aos negros e mulatos
“protegidos” por influentes famílias brancas)[15].
Para Florestan, ao contrário do pensamento de Gilberto Freyre, o desenvolvimento
da “sociedade de classes” em detrimento da “sociedade de castas”, não
apresentou como apanágio a possibilidade de melhoria econômica para os
descendentes de escravos. Em geral, negros e mulatos foram excluídos da
“revolução burguesa” brasileira.

Na medida em que a ordem social competitiva e a
urbanização estavam em plena emergência (…) os negros e os mulatos ficaram à
margem ou se viram excluídos da prosperidade geral (…) porque não tinham
condições para entrar nesse jogo e sustentar suas regras. (…) Viveram
dentro da cidade
, mas não progrediam com ela e através dela.
Constituíram uma congérie social (…) e só partilhavam em comum uma existência
árdua, obscura e muitas vezes deletéria. (FERNANDES, 1978: 99).

Influenciados pelo “Mestre” Florestan, Fernando Henrique Cardoso e Otávio
Ianni, ao realizarem um estudo sobre as relações raciais e a mobilidade social
em Florianópolis, apontam que mesmo o advento de uma economia baseada no
trabalho assalariado não alterou a posição de inferioridade social dos negros naquela
cidade e tampouco acabara com o preconceito de cor. Assinalam a conservação de
um “sistema de acomodação inter-racial”, em que os negros continuaram exercendo
as mesmas funções para os quais a ideologia racial os consideravam
“naturalmente” aptos. Ou seja, atividades manuais, socialmente desprestigiadas,
que desempenhavam desde o período escravocrata. “(…) A discriminação que se exercia primeira e naturalmente quanto ao
escravo transferia-se para os negros em geral e seus descendentes mestiços”. (CARDOSO,
IANNI apud. KAMEL, 2006: 33).

Nas últimas décadas, a maior presença de negros nos meios de comunicação,
principalmente em anúncios publicitários, reflete a maior importância econômica
dos afro-descendentes. Membros do Movimento Negro creditam essa maior
participação à militância do grupo junto ao Ministério Público.

Entretanto é bastante ingênuo aferir essa maior presença negra apenas ao
lobby étnico. Certamente não consiste em principal escopo do mercado promover a
igualdade racial. Como salientou Adam Smith, os agentes capitalistas não agem
movidos por sentimentos altruístas, mas sim pela famélica busca por lucro.

 

Se
o negro está cada vez mais presente na mídia, é prova concreta da melhoria de
sua situação financeira. O mercado publicitário cada vez mais direciona
anúncios para esse consumidor. Atualmente é possível observar modelos negros
divulgando produtos que há algum tempo eram consumidos por um pequeno grupo de
brancos. (PEREIRA, 2005: 66). “Quem fecha os olhos para o negro vira um fóssil.
Hoje não há espaço para piadas ou posturas racistas. O negro tem dinheiro e
paga pelo produto que quer”. (GUANAES apud. PEREIRA, 2005:66). Em depoimento
para o documentário “A Negação Brasil”, que aborda a maneira
estereotipada como o negro é retratado nas telenovelas brasileiras, o ator
Milton Gonçalves ressalta que os comerciais não estão simplesmente incluindo o
modelo negro, mas sim atraindo um novo segmento para o mercado consumidor.

 

 

“Classicismo”:
no Brasil o preconceito social é mais intenso do que o preconceito racial

 

Em sociedades predominantemente capitalistas como a brasileira, em que o
status social de um indivíduo está intrinsecamente atrelado à sua situação
financeira e a capacidade de ostentar bens materiais, deve-se levar em conta a
hipóteses de que a classe social pode sobrepor-se a outros fatores como origem
étnica ou a crença religiosa[16]
Na “tirania do mercado”, a liberdade permitida é a “liberdade de consumo”. “O
pior dos preconceitos (…) apresenta-se cruelmente e sem artifícios: a
discriminação social, regida e controlada pelo dinheiro”. (RABUSKE, 2003).

Sergio Guimarães Ferreira, pesquisador do Ibmec, afirma que “a
dificuldade de ascensão social no Brasil não é apenas racial. Ao contrário do
que se imagina, é muito difícil o filho de um pobre ficar mais rico que o pai”.
(FERREIRA apud. BARBI e FERNANDES, 2003).

Principalmente após a eleição de Barack Obama para a presidência dos
Estados Unidos[17],
a ideia de que vivemos em um mundo “pós-racial”, onde as diferenças relacionadas
à cor da pele não são tão significativas nas interações humanas, tem sido
bastante difundida. Além do caso estadunidense, negros bem sucedidos como Joaquim Benedito Barbosa Gomes, ministro do Supremo Tribunal Federal, e Kofi Annan, ex Secretário-Geral da ONU são
citados como exemplos que corroboram esse pensamento.

Críticos da expressão “mundo pós-racial” argumentam que o
conceito retrata a visão de um ideal para a convivência humana, e não a
realidade propriamente dita. “(…) A ideia de mundo pós-racial não passa de
(…) uma ingênua e otimista visão de como gostaríamos que o mundo fosse e não
como ele é”. (CABRAL, apud. Gombata e Werneck, 2008). Obviamente
o racismo não foi eliminado da sociedade. O sonho de Martin Luther King de um
mundo onde o ser humano possa ser julgado pelo conteúdo de seu caráter e não
pela cor de sua pele[18]
está longe de ser concretizado.

 No
entanto, é cada vez maior o número de negros que afirmam não enfrentar
obstáculos sociais por causa de sua cor[19].

A pedagoga Flávia Siqueira afirma não ter passado por
situações constrangedoras por ser negra: “Nunca fui alvo de preconceito (…).
Tive uma boa educação, aulas de ‘boas maneiras’, acesso a bons livros (…). Sei
que faço parte de uma minoria. Ocupo um cargo importante em meu setor, e a cor
não foi obstáculo para tal atividade”.

Situação análoga é observada pelo cardiologista Jocelino Soares, morador
da Barra da Tijuca, zona nobre do Rio de Janeiro. Para ele “o preconceito não é
agressivo, é mais uma questão de estereótipo”. Aponta o estranhamento causado
pelos pacientes ao se deparar com um médico negro, “porque não era o que
esperavam encontrar”, e ressalta a ausência de preconceito entre seus colegas.
(BARBI e FERNANDES 2003).

O geógrafo Milton Santos, ex docente da USP, ao ser perguntado em um
programa televisivo se já fora alvo de preconceito no ambiente acadêmico foi
enfático: “A universidade é sempre uma ‘ilha’ (…) onde o exercício da
hipocrisia nas relações cotidianas é uma regra”. Se houve algum tipo de racismo
em relação ao professor, tal sentimento não foi demonstrado. Para Santos o
racismo varia de acordo com o ambiente social.

Segundo Antonio M. Calderazzi (1970) à medida que o nível sócio-econômico
da população branca aumenta, o preconceito em relação aos negros tende a
diminuir.Os antagonismos mais acirrados em relação aos negros são
provenientes dos estrados inferiores da classe trabalhadora, principalmente
devido à ameaça da concorrência negra nos postos de trabalho.

Se a
competição por postos de trabalho consiste em uma das principais causas das
animosidades contra os negros, algumas questões se tornam inevitáveis: a adoção
generalizada do sistema de cotas para afro-descentes em universidades, empresas
e nos meios de comunicação poderá ensejar a eclosão ou o acirramento de tensões
raciais entre brancos e negros? Brancos preteridos por negros através das ações
afirmativas não tenderiam a desenvolver certo ressentimento pelos mesmos?

Para
alguns pesquisadores do tema a resposta é positiva. A procuradora Roberta
Fragoso Kaufmann cita o exemplo dos Estados Unidos, onde o sistema de cotas foi
abolido justamente porque gerou maior ódio racial do que efetivamente integrou
o negro na sociedade. “As cotas são inconstitucionais porque ofendem a
igualdade”. (KAUFMANN, 2008: 7).    

Com a adoção do sistema de cotas o mérito deixa de ser predominante como
condição para ingressar no ensino superior. Muitos consideram as ações
afirmativas como um paliativo que além de beneficiar alguns poucos negros de
classe média, “o negro pobre é excluído no primário” (IDEM), funcionam como
argumento para que as autoridades posterguem políticas públicas destinadas à
melhoria do ensino básico. “A política de cotas destina-se a adiar para um
futuro incerto os investimentos maciços em saúde, educação e emprego que
interessam de fato aos negros (e brancos) pobres”. (MAGNOLI, 2003).

Segundo Kamel (2009) quando os brancos pobres começarem a se sentir
preteridos apenas porque não têm a pele escura, estará dada a cisão racial da
pobreza no Brasil.

Por outro
lado, os defensores das ações afirmativas afirmam que a política de cotas para
minorias em universidades, repartições públicas e na mídia é um mecanismo para
o Poder Público corrigir desigualdades históricas, visto que o Estado Brasileiro
jamais realizou políticas efetivas para a inclusão do negro na sociedade.

  

  Durante séculos africanos e seus descendentes
foram escravizados no Brasil.[20]
Com a Lei Áurea em 1888, foi concedida a liberdade aos cativos. Todavia não lhes proporcionaram meios
de sobrevivência. “Promovida principalmente por brancos, ou por negros
cooptados pela elite branca, a abolição libertou os brancos do fardo da
escravidão e abandou os negros à sua própria sorte”. (FERNANDES, 1964 apud.
COSTA, 1999: 364).

Ao invés de
educar e qualificar a população negra, o governo brasileiro optou por
incentivar a vinda de mão-de-obra estrangeira.[21]
Estudos como o de Lopes (2006) e de Kowarick (1994) apontam que à medida que a
economia brasileira se transformava de escravocrata para assalariada, novos
preconceitos foram revitalizados e outros surgiram:[22]
mitos que proclamavam a inerente indolência do negro e sua inaptidão para
trabalhos especializados passaram a ser difundidos por todo o país. “O
incentivo do Estado à imigração para substituir o negro (…) causou a
exclusão, colocando mais uma vez a população negra a margem do processo
produtivo, sendo transferida das senzalas para a favela”. (LOPES, 2006: 38).

    

 

Ainda
nos dias hodiernos é vetado ao negro o exercício pleno da cidadania e das atividades
de trabalhador livre, visto que não possui fácil acesso ao mercado de trabalho,
universidades e a participação nas decisões políticas. A sociedade brasileira continua
norteada por uma lógica herdada do período escravocrata, em que o preconceito
continua de maneira discreta e branda. Destarte, segundo seus defensores, o
sistema de cotas consiste em única maneira de começar a reverter, em curto
prazo, esse quadro desfavorável em relação à população negra.

A exclusão do
negro no Ensino Superior é latente: 97% dos atuais universitários brasileiros
são brancos, contra 2% de negros e 1% de amarelos. Tal disparidade, num país em
que 45% da população é formada por negros, deixa claro que são necessárias
medidas urgentes para inserção do negro no ambiente acadêmico. (CARVALHO apud.
HENRIQUES 2003).  

 “Há poucos negros na universidade e isso dificulta que eles se unam para
lutar por seus direitos. É preciso mudar o tipo de relação que existe na
academia. E isso só vai acontecer quando houver vários negros lá dentro”.
(IDEM).

 

 

“Revisionismo”:
no Brasil o preconceito racial é mais intenso do que o preconceito social

Membros de movimentos negros e influentes nomes do pensamento sociológico
como Fernando Henrique Cardoso, Florestan Fernandes e Oracy Nogueira apontam o
fator racial como importante entrave para a mobilidade social no Brasil. Deste
modo, mesmo a ascensão social do negro, não minimiza o preconceito racial; pois
a presença do elemento de cor em um meio social “impróprio à sua origem étnica”
contribui para aumentar ainda mais a discriminação.

Para esses cientistas sociais a constituição da nação brasileira está
estruturada, dentre outros pilares, a partir do mito da democracia racial.

 Assim,
“a crença de que a cultura brasileira antecipa a possibilidade de um mundo sem
raças” (BERNARDINO), corrobora os estudos que apontam ser o critério racial irrelevante
para definir as chances de qualquer cidadão no Brasil. “(…) Uma parcela
expressiva da sociedade brasileira compartilha a crença de ter construído uma
nação (…) não caracterizada por conflitos raciais abertos”. (IDEM).

Estudos contestam a tese de que o racismo está
necessariamente vinculado à pobreza. O negro é vitima de preconceito mesmo
possuindo uma situação econômica privilegiada. Florestan Fernandes, o grande
nome dessa abordagem entre classe e raça no Brasil, nos fala:

 

 

 

Existem duas barreiras na sociedade
brasileira que são muito fortes. Uma é social, a barreira de classes, que o
homem branco vence quando ele consegue uma oportunidade de se escolarizar, se
profissionalizar, de “subir” socialmente. Já o negro tem a barreira social e a
barreira racial. Ele tem duas barreiras a enfrentar e a vencer. Por isso é que
classe e raça estão tão interdependentes. E depois do negro conseguir êxito na
profissão, ele ainda precisa lutar por sua auto-afirmação como pessoa. Foram,
por exemplo, os homens e mulheres negros de classe média que descobriram as
manifestações mais chocantes do preconceito e da discriminação. (FERNANDES, 2004)[23].

Seguindo essa linha de raciocínio, para Paula Miranda
Ribeiro “somente dinheiro e prestígio não eliminam o racismo: jogadores negros
bem pagos são alvos de racismo pelos colegas brancos, igualmente bem pagos”.
(RIBEIRO, 2006:377).

Em sua pesquisa de doutorado, denominada “Negros de classe média em São Paulo: estilo de vida e identidade negra”, o antropólogo Reinaldo da Silva Soares
busca relacionar identidade racial, identidade de classe e estilo de vida.
Soares perguntou a vinte e quatro negros de classe média, todos ligados a
grupos organizados em torno da questão racial, se a sua condição social
privilegiada os faria imunes à discriminação. O resultado foi unânime: todos os
entrevistados afirmaram que mesmo tendo um padrão de consumo considerável, são
discriminados. “O ambiente de trabalho é onde surge a maior parte das denúncias
de racismo na pesquisa” (SOARES 2004 apud. VERÍSSIMO 2005), sobretudo pela
concorrência entre negros e brancos por cargos de chefia e de nível superior.

Entretanto, cabe aqui uma ressalva sobre o trabalho realizado por Soares.
Como todos os entrevistados pertencem a grupos sociais mobilizados a partir da
questão racial, o resultado obtido pode não representar, necessariamente, uma
amostra das interações entre negros e brancos pertencentes à mesma classe
social.

    

Assim
como marxistas ortodoxos reduzem a realidade ao determinismo econômico e à luta
de classes, e psicanalistas atribuem boa parte das ações humanas a mecanismos
inconscientes; militantes mais exacerbados de movimentos negros tendem a
relacionar todos os aspectos das relações sociais às diferenças de cor.É legítimo lutar para derrubar mitos como a democracia
racial. Todavia ao se criticar determinada linha de pensamento pode-se
incorrer no erro de cair em uma posição radicalmente inversa.

Obviamente há preconceito racial no Brasil, mas alguns enxergam o Brasil
como um país marcado por aguçadas animosidades racial, como se somente o fator
étnico determinasse a posição do indivíduo na escala social.

Costa (2002) mostra que outros fatores como a classe, a origem e o gênero
são tão importantes quanto a raça para se compreender as desigualdades sociais
existentes no Brasil. Desse modo o agrupamento dos diferentes grupos
populacionais nos pólos branco/não-branco, recurso indispensável para revelar a
dimensão racial das desigualdades sociais no Brasil, torna-se insuficiente como
matriz analítica explicativa das múltiplas estruturas hierárquicas existentes
no país.

Considerações
Finais

 

Extremamente conturbada é a tarefa de abordar a questão racial no Brasil.
O tema é polêmico, gera acirrados debates. Preconceitos, estereótipos e
maniqueísmos vêm à tona quando se fala da situação do negro brasileiro. Tão
importante quanto eliminar o racismo é evitar opiniões radicais, ou dotadas de
forte teor passional. O presente trabalho buscou uma posição moderada, não
aderindo de maneira axiomática a nenhum paradigma acerca da relação entre
mobilidade social e relações raciais.

Aferir a questão racial como fator determinante para se compreender o
Brasil, ou como se ações afirmativas para negros e indígenas por si só
resolveriam grande parte dos problemas do nosso país, consiste em simplificar
demasiadamente a complexa formação da sociedade brasileira.

É
evidente que qualquer análise que se pretenda mostrar contundente sobre o país
deve passar, necessariamente, pela questão racial. Afinal foram séculos de
regime escravista, fomos uma das últimas nações do planeta a decretar a
abolição da escravatura. Tal herança perniciosa não desaparece tão facilmente,
seus corolários ainda ecoam pela sociedade brasileira.  

Porém,
ao se privilegiar somente um aspecto do social, ou direcionar as políticas
públicas (principalmente as chamadas “ações afirmativas”) para um segmento
específico da sociedade, pode-se incorrer no erro de afastar ou não beneficiar
também outras minorias, que assim como os negros, são vertiginosamente
segregadas e vítimas de preconceito.

Certamente a herança escravista é um dos piores fardos carregados pelo
Estado Brasileiro. A escravidão foi uma das bases do desenvolvimento da América
Portuguesa. Também é importante ressaltar a presença do latifúndio exportador,
outra infeliz herança colonial, ainda presente nos dias hodiernos. Portanto não
tem como dizer que a questão racial é mais importante ou urgente que a questão
fundiária. Um grave erro de quem observa somente a questão racial no Brasil é
escamotear outros graves problemas (como a homofobia e a misoginia) que assolam
a sociedade brasileira.

   

Quase
tão pernicioso quanto o racismo é o “complexo de inferioridade” desenvolvido
por alguns negros. Ao relacionar todas as suas frustrações e preterições à sua
cor, um indivíduo não só introjeta uma espécie de bloqueio para o seu
desenvolvimento, como compactua, implicitamente, com as pseudo-teorias que
promulgam a superioridade do caucasiano em relação ao negróide.

É necessário que determinado grupo social ou minoria, não fiquem presos
somente à sua razão especificamente. Negros, operários, mulheres, por exemplo,
lutam por causas e reivindicações diferentes, mas têm em comum a opressão e a
falta de apreço de brancos, patrões e da sociedade machista. Unificar as causas
das minorias, por mais complexo que possa parecer, é importante para a concretização
de seus anseios. Amalgamar à causa do Movimento Negro questões pertinentes a
outros segmentos sociais excluídos como os “brancos pobres”, a necessidade de
um ensino público de qualidade para a população em geral (sem distinção de cor),
com certeza locupletaria ainda mais o movimento e angariaria mais adeptos às
suas ideias.

Em
suma, além da barreira social, o negro enfrenta também a barreira racial, é
fato. Quando um negro e um branco apresentam a mesma posição social, ainda é
possível identificar práticas racistas, principalmente se ambos concorrerem
para uma mesma função dentro de uma empresa, por exemplo. Nesse aspecto pode-se
falar que ainda há preconceito, ou seja, que o negro apesar de ter vencido o
entrave social, não consegue, basicamente, livrar-se do estigma étnico.

 

Por
outro lado, é plausível relativizar a relação entre classe e cor em nosso país.
Se formos comparar o “prestígio social” de um negro rico e um branco pobre,
nota-se maior vantagem para o primeiro, o que vem a confirmar que o fator raça,
apesar de ser importante condicionante para a aceitação de um indivíduo perante
a sociedade, não é determinante. Ou seja, outras variáveis, principalmente
situação econômica, são tão importantes quanto à origem étnica para se entender
o status individual no Brasil.


NOTAS

[1]
Pelo contrário, há uma série de leis que abominam qualquer prática relacionada
à discriminação de um indivíduo por causa de sua cor.

 

[2]
Segundo lideranças do Movimento Negro, no Brasil produziu-se a forma mais
perversa de racismo que existe no mundo.

 

[3]
“Nascida em família de classe média alta, a atriz [Taís
Araujo] tem pai branco e economista e mãe negra e pedagoga. Ela estudou em
colégios caros no Rio de Janeiro, e, como todos os demais negros de classe
média, passou por algumas situações explícitas de preconceito. ‘Perguntavam se
era a patroa de minha mãe quem pagava as mensalidades’, afirma Taís”
(VALLADARES, 2004).

 

[4]
“A escola, em geral, lida mal com as diferenças e tende a silenciá-las e neutralizá-las.
Preconceitos e diferentes formas de discriminação estão presentes no cotidiano
escolar e precisam ser problematizados, desvelados, desnaturalizados, caso
contrário, a escola estará a serviço da reprodução de padrões de conduta
reforçadores dos processos de discriminação em curso na sociedade.” (SAAVENDRA, 2003).  

 

[5]
“As transformações sociais sofridas pela macumba ilustram cabalmente essas
interpretações. Não possuindo autonomia social para associar-se através de
valores culturais próprios, de cunho autenticamente ‘sagrado’ e ‘tradicional’,
a ‘população negra’ perdeu a possibilidade de zelar pela pureza de seus cultos
e acabou assistindo a perversão da macumba pelo branco. (BASTIDE, 1946: 51-112
apud. FERNANDES, 1978: 69).

 

[6]
No presente trabalho o termo “raça” é utilizado em sua dimensão social e
política e não como um conceito biológico.

 

[7]
Na obra “Porque me ufano de meu país” Afonso Celso “(…) menciona os
negros que se destacaram como amigos dos portugueses, declara que contribuíram
com tantos serviços para o Brasil, que graças a eles, aqui não existe
preconceito de cor (…)” (CELSO, 1997 Apud. CHAUÍ, 2000: 53).

 

[8]
Kamel (2009) refuta a tese de que Gilberto Freyre teria contribuído para
difundir o mito da “democracia social” no Brasil: “[Freyre] (…) via como
realidade era a mestiçagem e não o convívio sem conflito entre raças estanques.
(…) Casa-Grande e senzala (…) dedica páginas e mais páginas ao relato das
atrocidades que se fizeram contra os escravos. (…) O que Freyre fez foi
resgatar a importância do negro para a construção da nossa identidade nacional
(…)”. Para a antropóloga Yvone Maggie a obra de Gilberto Freyre está inserida
no contexto do ideal de nação do movimento modernista, que via a mestiçagem
como uma virtude da sociedade brasileira.(KAMEL, 2009: 21,22).

 

[9]
“Pois os casamentos de brancos com mulheres de cor ‘comum nas classes médias e
inferiores’, observam-se algumas vezes ‘nas classes mais elevadas’. Quando
mulher branca de família rica e considerada, desposa homem de cor muito escura,
havia, algum escândalo: porém ‘espanto’ mais do que ‘cesura’”. (FREYRE,
2000:643). Principalmente nas gerações mais idosas, ainda é comum encontrar
exemplos de repúdio a casamentos entre pessoas de origens étnicas distintas.
Sobre a união de Helena Buarque, filha do cantor Chico Buarque, e Carlinhos
Brown, músico negro, certa vez uma senhora comentou: “Como pôde uma moça de
família tão tradicional casar com ‘esse negro’? Deve ter sido uma decepção para
seus familiares”.

[10]
Paradoxalmente, a miscigenação foi defendida por pensadores racistas como
Oliveira Viana. Este via a mestiçagem como uma forma de “embranquecimento” da
população brasileira. Assim, à medida que o sangue branco predominasse sobre o
sangue negro e indígena, segundo o autor (que era mulato), seria possível
construir uma civilização no Brasil. Viana acreditava que os “(…) negros só
criam civilizações se tiverem um pouco de sangue branco misturado”. (VIANA
apud. SANTOS, 1991:31).

 

[11]
Depoimento de Fernandes Henrique Cardoso, In: Florestan Fernandes – “O
Mestre”. Brasília: TV Câmara. 2004.

[12]
Na linguagem freyriana: a ascendência do sobrado e a decadência da casa-grande.

 

[13]
“Pela beleza física e pela atração sexual exercida sobre o branco do sexo
oposto é que, em grande número de casos, se elevou socialmente o mulato em
nosso meio (…) (FREYRE, 2000:620).

 

[14]
“(…) Com a gradual derrocada do sistema de clientela e patronagem e com o
desenvolvimento de um sistema competitivo, torna-se mais difícil para negros e
brancos evitar situações em que o preconceito e a discriminação tornar-se-iam
visíveis. Se a manifestação de preconceito era basicamente incompatível com o
velho sistema de clientela e patronagem, numa sociedade competitiva ela
transforma-se num instrumento natural usado pelos brancos contra os negros”.
(COSTA, 1999:382).

 

[15]
“(…) Os empregos mais valorizados não eram obtidos em regime de concorrência
e por causa das qualificações intelectuais dos ‘candidatos de cor’, mas graças
à proteção dos brancos”. (FERNANDES, 1978: 220)

 

[16]
“O advento de uma economia do dinheiro, alega Marx, dissolve os vínculos e
relações que compõem as sociedades “tradicionais”, de modo que o “dinheiro se
transforma na própria comunidade” (MARX apud. HARVEY, 98).

 

[17]
O publicitário Paulo Rogério Nunes observa que a eleição de Obama pode sugerir
duas conclusões: A primeira é que os Estados Unidos não são tão racistas como
parecem, visto que políticas governamentais corrigiram distorções sociais,
melhorando a condição social dos negros naquele país. “A situação dos negros
americanos não foi completamente resolvida até hoje, mas não há como negar o
grandioso avanço na integração dos afro-americanos à economia”.  A segunda
conclusão é que o Brasil é mais racista do que se imagina. “(…) Não foi
criada no Brasil uma plataforma social capaz de inserir os afro-brasileiros nas
esferas de poder, talvez o motivo de nunca termos cogitado um presidente negro,
nem mesmo na ficção televisiva”. “Um presidente não surge sem base social e econômica.
Para Obama chegar aonde chegou foram cruciais as contribuições de negros que
ocupam lugares de destaque, como empresários, jornalistas, acadêmicos e
diplomatas, que chegaram a esses espaços impulsionados pelas ações afirmativas
– aqui tão criticadas”.

 

[18]
Discurso realizado em 28 de agosto de
1963, em Washington, EUA, no Lincoln Memorial .

 

 

[19] (…) O uso da noção de raça como matriz explicativa
última de todas as adscrições sociais negativas faz com que diferentes
processos de segregação sejam inapropriadamente traduzidos como um racismo
fundado na oposição branco/ não-branco. (COSTA, 2002:55).

 

[20]
Mesmo sendo o ator social a ser alienado na relação dialética senhor/escravo, o
negro conseguiu manter suas tradições e costumes. “O negro não se fez de vítima
e nem se propôs a fazer tal papel. (…) Resistir à escravidão era parte
intrínseca da condição do escravo. O negro era visto como mercadoria e resistir
era a maneira de se mostrar como ser humano. (…) Diante de tudo que a
história narra, o mais importante é saber que o negro não aceitou esse
regime”.(LOPES, 2006: 11, 14-15). Florestan Fernandes destaca que o
afro-descendente pode ser duplamente revolucionário – como proletário e como
negro. (FERNANDES, 1989: 11).

 

[21]
“O trabalho livre não contou com uma fonte de libertação do homem e da mulher
negros: ele os coloca em competição com os imigrantes em condições desiguais.
Os empregadores consideravam os ‘trabalhadores livres’ recém-chegados uma opção
melhor, mais racional e compensadora. (…) Empurrado para as franjas dos
piores trabalhos e de baixa remuneração, ele [negro] se sentiu, subjetivamente,
como se ainda estivesse condenado à escravidão”. (FERNANDES, 1989: 21,22).

 

[22]
“[Após a Abolição] velhos estereótipos foram revitalizados e (…) surgiram
outros novos que identificavam o ‘liberto’ como ‘negro’ e o ‘negro’ como
‘vagabundo’, ‘desordeiro’, ‘cachaceiro’, ‘mulher à-toa’. (…) [O negro] já não
aparecia como ‘inimigo da ordem’, porque conspirasse pela liberdade; mas, como
ameaça ao decoro, à propriedade e à segurança das pessoas.” (FERNANDES, 1978:
80,81)

 

[23]
Depoimento de Florestan Fernandes, In: Florestan Fernandes – “O Mestre”.
Brasília: TV Câmara. 2004.

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