Consciência - Filosofia e Ciências Humanas

ALTERNATIVAS PARA UMA NOVA ESQUERDA




ALTERNATIVAS PARA UMA NOVA ESQUERDA

Francisco Fernandes Ladeira
Graduado em Geografia pela Universidade Presidente Antônio Carlos (UNIPAC), especialista em: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), professor de Geografia do Centro Educacional Aprendiz.

 franciscoladeira@bol.com.br

Resumo: O artigo em questão apresenta algumas colocações sobre a esquerda política. O conteúdo exposto abrange a origem histórica do termo esquerda, no final do século XVIII, e suas posteriores acepções ao longo dos anos. Durante um período considerável as ideias marxistas foram predominantes no pensamento de esquerda. Esta postura ideológica, de certa forma, prejudicou as ações de seus militantes, limitando o discurso esquerdista à luta de classes e à revolução socialista. As profundas transformações político-econômicas ocorridas nas últimas décadas, como o colapso do comunismo soviético e a crise financeira capitalista, colocam novas questões para a esquerda global. Deste modo, a partir do confronto de ideias presentes nas obras de importantes intelectuais, buscam-se apresentar possíveis alternativas para os movimentos esquerdistas neste início de século.  

Palavras-chave: esquerda; socialismo; Marx; marxismo; União Soviética.

Abstract: The article in question points some placements about the political left. The content displayed covers the historical origin of the left term, in the end of the eighteenth century, and its subsequent meanings over the years. During a considerable period, the Marxist ideas were prevalent in left thinking. This ideological stance, to some extent, harmed the actions of their militants, limiting the leftist discourse to the class struggle, and to the socialist revolution. The profound political and economic changes that have occurred in recent decades, as the collapse of Soviet communism and   capitalist financial crisis, pose new questions for the global left. Thus, from the clash of ideas presents in the works of important intellectuals, we seek to present possible alternatives for leftist movements in this new century.

Keywords: left. Socialist. Marx. Marxist. Soviet.

Introdução

           

            O termo “esquerda”, relacionado ao espectro político, tal como seu antípoda “direita”, surge a partir dos acontecimentos que desencadeariam na Revolução Francesa, no final do seculo XVIII.   

                                                                                                              

                   Na época os adjetivos esquerda e direita foram utilizados em referência à disposição dos assentos na Assembleia dos Estados Gerais. O Terceiro Estado[1], defensor de reformas liberais, posicionou-se à esquerda do rei.  Já os setores da sociedade francesa favoráveis à manutenção do status quo dominante, clero e nobreza (respectivamente Primeiro e Segundo Estado), estavam à direita do monarca.

Após a queda da Bastilha a esquerda foi vinculado à corrente jacobina: “revolucionários radicais”, que aspiravam, entre outras mudanças, à adoção do regime republicano, à secularização do Estado e à concessão de benefícios às camadas populares. Por outro lado, a direita ficou associada aos girondinos: “revolucionários moderados”, que pretendiam garantir as conquistas da Revolução apenas para a burguesia, excluindo os setores sociais menos abastados das principais decisões políticas.

No decorrer dos anos novas acepções foram incorporadas aos conceitos de esquerda e direita. Para Touraine (1999), a direita enfatiza o crescimento econômico, e a esquerda, o desenvolvimento social. Sader (1997) ressalta que os adeptos da direta aceitam, convivem e justificam as crescentes desigualdades entre os homens, relacionando os destinos de cada indivíduo à lógica do mercado; em contrapartida, os adeptos da esquerda assumem a luta por justiça social.  Segundo Edgar Morin: “a direita polariza as soluções de ordem, hierarquia, conformidade; e a esquerda, as soluções de liberdade, igualdade, solidariedade.” (MORIN, 1986, p. 61).                                                                                                                                                

Já de acordo com Norberto Bobbio, “[...] esquerdistas são os partidários da melhoria das condições de vida da maioria da população, enquanto direitistas são os partidários da conservação dos privilégios das elites tradicionais”. (BOBBIO apud POMPEU, 2007, p. 31).

Para Dino Confrancesco, “[...] o homem de direita é aquele que se preocupa [...] em salvaguardar a tradição; o homem de esquerda [...] pretende [...] libertar seus semelhantes das cadeias a eles impostas pelos privilégios de raça, classe, etc.”. (CONFRANCESCO, 1990, p. 403 apud BOBBIO, 2001, p. 97).                                                                                                  Deste modo, todos aqueles que anelam por uma sociedade mais justa e equilibrada, que garanta o direito da grande maioria ao acesso à cidadania plena, podem ser considerados, sob o ponto de vista ideológico, esquerdistas.

            No entanto muitos ainda cometem o equívoco de relacionar a esquerda exclusivamente ao pensamento marxista[2] e aos ideais socialistas (como se os termos socialismo e esquerda fossem intercambiáveis, ou mesmo sinônimos). De acordo com este ponto de vista, pertencer a esquerda significaria coadunar (muitas vezes de maneira axiomática) com as ideias de Marx. Já outras aferições relacionam a esquerda à frustrada experiência socialista na antiga União Soviética.

            Assim talvez o grande erro de boa parte da esquerda e de seus intérpretes seja reduzir a plataforma esquerdista aos preceitos socialistas e marxistas.

Marx, marxismo e socialismo

Evidentemente não se pretende aqui negar a importância de Karl Marx. Sem dúvida o filósofo prussiano foi um dos nomes mais influentes da história. Sua obra mudou de maneira radical o pensamento político da humanidade. O diagnóstico por ele realizado acerca do sistema capitalista é grande referência para diversos estudos em ciências sociais e para a conscientização e organização dos trabalhadores.                                                              Todavia é plausível questionar alguns pontos-chave do pensamento marxiano, como o materialismo histórico e a revolução do proletariado.                                                              Para Marx, o fenômeno material é o fator primordial ao qual estão subordinadas as ideias. De acordo com o materialismo histórico toda a estrutura política, jurídica e religiosa (superestrutura) de uma determinada sociedade é consequência de sua organização econômica (infraestrutura). Logo a ideologia dominante de uma época será sempre a ideologia da classe detentora dos meios de produção (no caso capitalista, a burguesia) [3].                                          A partir destes pressupostos, Marx lançou as bases de uma teoria economicista que fora sistematicamente questionada pelos seus críticos:

[...] Os fatores da história são tão complexos e interligados que toda doutrina simplista, pretendendo determinar qual o principal dentre eles, conduz sempre a conclusões e aplicações errôneas. Sobretudo quando [...] entende por “fator principal” um fator que será sempre causa, isto é, suscetível de influenciar os outros sem ser nunca por eles influenciado. (BOUTHOUL; MOSCA, 1968, p.280). 

            Segundo o pensamento marxiano a história se desenvolve de forma linear, em diferentes etapas, movidas, sobretudo, pelas contradições originadas da organização do sistema de produção (luta de classes). “Em um caráter amplo, os modos de produção asiático, antigo, feudal e burguês moderno podem ser considerados como épocas progressivas da formação econômica da sociedade”. (MARX, 1977, p. 23).

Cada fase do desenvolvimento da humanidade produz o germe de sua destruição. No sistema feudal essa função coube à burguesia.  No sistema capitalista, a classe operária, explorada pelos patrões, deveria se organizar e promover a revolução socialista, transformando os meios de produção em propriedades coletivas.

As relações de produção burguesas são a última forma contraditória do processo de produção social, contraditória não no sentido de uma contradição individual, mas de uma contradição que nasce das condições de existência social dos indivíduos. No entanto, as forças produtivas que se desenvolvem no seio da sociedade burguesa criam ao mesmo tempo as condições materiais para resolver esta contradição. Com esta organização social termina, assim, a Pré-História da sociedade humana. (MARX, 1977, p. 23).

                                              

Instaurado o regime socialista, caberia ao proletariado apoderar-se do aparelho estatal e eliminar as diferenças sociais originadas pelo sistema capitalista.[4] Corrigidas as distorções sociais, instituições como o Estado, o mercado e a propriedade privada deixariam de existir. Surgiria então a derradeira etapa do desenvolvimento da humanidade: o comunismo. “[...] No lugar da sociedade burguesa antiga, com suas classes, teremos uma associação na qual o desenvolvimento livre de cada um é a condição para o desenvolvimento livre de todos.” (MARX; ENGELS, 1998, p. 47).

Entretanto, é anacrônico e ingênuo pensar que em pleno século XXI os trabalhadores se organizarão para tomar os meios de produção dos patrões e posteriormente promover uma sociedade igualitária.                                                                                                            Numa época em que a crescente robotização fabril diminui as ofertas de emprego e o processo produtivo muda incessantemente de um país para outro, é difícil conceber uma solidariedade global entre o proletariado. “[Marx] errou em sua idealização romântica da classe trabalhadora, o que foi resultado de um plano puramente teórico e não da observação humana da classe trabalhadora”. (FROMM, 1983, p. 254).  

            Karl Popper (1987) questiona a cientificidade e a legitimidade empírica dos preceitos marxistas. De acordo com o autor, o método científico tem como pressuposto detectar a falseabilidade, e não a veridicidade, das hipóteses de que parte; verificando assim até que ponto elas resistem a hipóteses contrárias. O marxismo, por ser uma teoria que se abstém de qualquer teste empírico negativo, não é “falsificável”; consequentemente não pode ser qualificado como ciência, mas como pseudociência. Adeptos do marxismo não procuram adequar suas ideias à realidade, mas a realidade às suas ideias:

           

Um marxista não era capaz de olhar para um jornal sem encontrar em todas as páginas, desde os artigos de fundo até os anúncios, provas que consistiam em verificações da luta de classe; e encontrá-las-ia sempre também (e em especial) naquilo que o jornal não dizia. (POPPER, 1987, p. 180).  

Em contrapartida, para Adolfo Sánchez Vázquez (2001), o marxismo oferece a alternativa mais racional, eficaz e fecunda para fomentar uma sociedade mais justa, sem exploração nem dominação de qualquer tipo. Segundo o autor, o marxismo permite não apenas entender, mas também transformar a realidade.  “[...] Enquanto existir a realidade que torna necessária e justifica sua existência - o capitalismo, a alienação dos indivíduos, a exploração dos homens e dos povos -, o marxismo não pode deixar de existir”. (VÁZQUEZ, 2001, p. 251).

Experiência soviética

Como já abordado anteriormente, Marx acreditava que o advento do socialismo seria possível apenas em países adiantados e industrializados. Nestas nações a classe trabalhadora, “bem organizada e cada vez mais pobre, [...] teria razões, desejo e a necessária força para derrotar o capitalismo”. (FISCHER, 1969, p. 05).

[...] Com o desenvolvimento da indústria, o proletariado não apenas se multiplica; concentra-se em massas cada vez maiores, sua força aumenta e ele sente mais tudo isso. Os interesses, as condições de existência no interior do proletariado igualam-se cada vez mais, à medida que a maquinaria elimina todas as distinções de trabalho e reduz, quase por toda parte, os salários a um mesmo nível baixo. [...] O progresso da indústria [...] substitui o isolamento dos operários, resultante da concorrência, por sua união revolucionária resultante da associação. [...] O desenvolvimento da grande indústria abala sob os pés da burguesia a própria base sobre a qual ela produz e se apropria dos produtos. A burguesia produz, acima de tudo, seus próprios coveiros. Seu declínio e a vitória do proletariado são igualmente inevitáveis. (MARX; ENGELS, 2000, p. 53; 57).

Engels certa vez escreveu: “quem diz que uma revolução socialista pode ser realizada em um país onde não haja proletariado ou burguesia prova, com essa declaração, que ainda precisa aprender o básico do socialismo”. (ENGELS apud MACKENZIE, 1967, p. 173).

Ao contrário do previsto por Marx e Engels, a primeira insurreição de cunho socialista da história ocorreu em outubro de 1917 [5] na atrasada Rússia[6] (onde o proletariado industrial, predestinado coveiro do capitalismo segundo os pressupostos marxianos, era apenas uma pequena minoria).

Entre 1918 e 1922 o país foi palco de uma sangrenta guerra civil entre os exércitos  branco (defensor das ideias burguesas) e vermelho (defensor do sistema comunista). O Exército Vermelho sagrou-se vencedor do conflito, e em dezembro de 1922, sob o comando bolchevique, foi instituída a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS).                      A partir de então, com a estabilidade política, o governo de teria a oportunidade inédita de colocar em prática as ideias marxianas.                                                  

A Revolução de Outubro produziu de longe o mais formidável movimento revolucionário organizado da história moderna. [...] O comunismo soviético proclamou-se um sistema alternativo e superior ao capitalismo, e destinado a triunfar sobre ele. [...] Uma onda de revolução varreu o globo nos anos após Outubro [“sovietes” formados por operários em Cuba, organizações estudantis revolucionários irromperam na China e na Argentina, movimentos de libertação na Indonésia]. [...] “Essa ação do povo russo”, disse um jornal de província turco, “um dia no futuro se tornará um sol e iluminará toda a humanidade”. [...] Em suma, a Revolução de Outubro foi universalmente conhecida como um movimento que abalou o mundo. (HOBSBAWM, 1995, p. 62; 63; 74).

Nicolai Berdiaev, importante intelectual russo do século passado, acreditava que a revolução socialista em seu país poderia ensejar o surgimento de uma sociedade sem contrastes econômicos:  

[Berdiaev via] na revolução marxista [...] a possibilidade de criação de uma nova sociedade [...] um sinal de libertação tanto espiritual quanto social do homem, uma ascensão do espírito de liberdade [...] um plano para a reconstrução da vida no mundo [...] [em que] o homem deve trabalhar para a criação de uma sociedade sem classes, onde possa estar mais preocupado com o bem da comunidade que com seus interesses pessoais. (BERDIAEV apud KÜHNER, 1972, p. 219, 220).

Porém a primeira nação socialista do planeta não promoveu a almejada sociedade igualitária. Muito pelo contrário: só veio a aumentar a exploração do homem pelo homem[7], sustentar um aparelho estatal extremamente centralizado e burocratizado, oprimir liberdades individuais e promover vastos genocídios contra minorias étnicas em seu território. O Estado soviético foi uma poderosa máquina de extermínio que matou mais de 20 milhões de pessoas. A “[...] mais impiedosa organização estatal que o mundo moderno jamais viu [...]” (FROMM, 1983, p. 250).

 “Se o socialismo real instaura uma opressão pior do que a dos sistemas capitalistas do Ocidente liberal, e mais duradoura que a da pior das ditaduras militares na América Latina, perde-se o sentido evidente da expressão ‘revolução socialista’.” (MORIN, 1986, p. 64).  

            Problemas políticos, econômicos e conflitos étnicos contribuíram para o colapso da URSS em 1991. Este fato histórico também representou o término da Guerra Fria, conflito ideológico entre o capitalismo estadunidense e o socialismo soviético.                                      O fenecer do “socialismo real” foi utilizado pela direita como argumento para justificar a impossibilidade de regimes voltados para melhorias e reformas sociais.                Para Francis Fukuyama, o capitalismo e a democracia burguesa enfim triunfaram, e a humanidade havia atingido o estágio final de sua evolução. Segundo Thomas Friedman, o término da Guerra Fria “inclinou a balança do poder mundial para o lado dos defensores da governança democrática, consensual, voltada para o livre mercado, em detrimento dos adeptos do governo autoritário, com economias de planejamento centralizado” (FRIEDMAN, 2007, p. 67). Joana Andrade e Alexandre da Silva (2003) ressaltam que, nas últimas décadas do século XX, o slogan “there is no alternative” [não há alternativa, além do sistema capitalista] passou a ser corrente entre a nova direita neoliberal, sobretudo a partir da queda do Muro de Berlim e do colapso da União Soviética.

            O sistema capitalista é realmente a única saída para a humanidade? Estaríamos fadados a viver em uma sociedade cada vez mais voltada para o consumo?

            Talvez Fukuyama, Friedman, e os direitistas em geral tenham sido atingidos pelo calor dos fatos; é extremamente complicado e controverso realizar determinada análise histórica sem o distanciamento temporal necessário. O fracasso do socialismo soviético não significa necessariamente que o modelo capitalista tenha sido bem sucedido.                                Como bem lembrou Bruno Latour no livro Jamais Fomos Modernos, o “triunfo capitalista” foi efêmero. Concomitante à queda do socialismo no Leste Europeu e na União Soviética, as primeiras conferências sobre o estado ambiental do planeta frustraram as esperanças capitalistas de conquista ilimitada sobre a natureza.  

Segundo o historiador Eric Hobsbawm, no princípio da década de 1990, o mundo capitalista “[...] viu-se novamente às voltas com os problemas da época do entreguerras que a Era de Ouro parecia ter eliminado: desemprego em massa, depressões cíclicas severas, contraposição cada vez mais espetacular de mendigos sem teto a luxo abundante [...]. (HOBSBAWM, 1995, p. 19).

De acordo com Bresser-Pereira (2000), o paradigma neoliberal, insistentemente defendido pela direita nas últimas décadas, mostrou-se economicamente equivocado e politicamente desastroso:

[...] A Nova Direita neoliberal não conseguiu cumprir suas promessas. Mercados descontrolados produziram graus de insegurança social e de concentração de renda sem precedentes, sem que houvesse, em contrapartida, crescimento econômico. (BRESSER-PEREIRA, 2000, p. 150).

Também é importante salientar que a atual crise econômica capitalista, iniciada com o estouro da bolha imobiliária nos Estados Unidos, evidenciou um sistema não tão sólido quanto aparenta.

[Há] uma queda na confiança no capitalismo. Com a crise financeira e seus efeitos sobre a economia global, a confiança no capitalismo de livre mercado está em seu pior momento em décadas, e há um crescente apelo por uma fiscalização regulamentar mais rigorosa. Há um notável recuo no pêndulo referente às formas extremas de liberalismo econômico [...]. (YAZIJI, 2010, p. 12).

 

Assim como a esquerda de alguma forma ficou constrangida com a queda do Muro de Berlim; atualmente a direita precisa explicar uma crise econômica provocada justamente pelo excesso de liberdade do mercado. A crença de Adam Smith em um mercado autorregulável que promove o bem estar dos homens é tão falaciosa quanto a sociedade comunista de Marx.

Novas estratégias

Diante deste complexo e desafiador quadro de incertezas, quais estratégias poderiam ser utilizadas pela esquerda para o século XXI?                                                                                   Conforme o apontado anteriormente, as recentes transformações político-econômicas ocorridas nas últimas décadas, principalmente o colapso do comunismo soviético e a crise financeira capitalista, colocam novas questões para o pensamento político global.                         Neste contexto, a “velha esquerda” - marxista, socialista e revolucionária por excelência – mostra-se obsoleta e incapaz de interpretar e agir de forma consistente sobre o mundo contemporâneo. “A Esquerda necessita de uma visão [...] simultaneamente mais abrangente e mais exigente que a de Marx.” (ROGERS; STREECK, 1997, p. 184).  Doravante, é imprescindível amalgamar novas ideias a sua plataforma.

A liquidação da esquerda anterior, [...] por sua relativa debilidade, abriu campo para o surgimento de uma nova esquerda, desvinculada dos erros mais gritantes daquela força derrotada. Dentre eles estavam o atrelamento ao aparelho do Estado, as alianças subordinadas com frações burguesas, as posições internacionais de vinculação acrítica à URSS, a rigidez organizativa, a falta de criatividade política e cultural. (SADER, 1997, p. 11).

Diversos analistas asseveram a necessidade de uma esquerda mais moderada e menos ortodoxa. Para estes pensadores – ao contrário de setores da “antiga esquerda”, que apregoam o fim do Estado, do mercado e da propriedade privada – é preciso “reestruturar” e não “eliminar” tais instituições. Defendem também a via democrática em detrimento da via insurrecional como o melhor caminho para a esquerda chegar ao poder.   

Manuel Escudero (1997) ressalta que a esquerda deve evitar a tentação utópica de construir sistemas globais perfeitos, e rejeitar qualquer concepção progressiva e determinista da história. Para David Miliband, mais do que criticar as injustiças do presente, é preciso fornecer esperanças realistas de mudança no futuro.  “A tarefa da esquerda é [...] menos mostrar que a reforma é necessária do que mostrar que ela é possível”. (MILIBAND, 1997, p. 20).

Joana Andrade e Alexandre da Silva (2003) descrevem como principais características da nova esquerda: o abandono progressivo de vários pressupostos básicos das teses marxistas, a adoção de um “discurso único” em defesa do aperfeiçoamento gradual do sistema capitalista através de reformas legislativas e a renúncia ao método revolucionário.

Michel Rocard (1997), Gérald Collomb (2005) e Robert Kuttner (1997) enfatizam que o mercado (instituição historicamente repudiada e combatida por setores da esquerda tradicional) não deve ser abolido, mas organizado e regulado pelo poder estatal e pela sociedade.                                                                                                                                 Segundo Rocard, para haver uma economia bem sucedida não há alternativa fora do mercado. No entanto, como a livre circulação de mercadorias e capitais geralmente acentua as desigualdades sociais, faz-se necessário uma maior regulamentação dos mercados por parte do Estado. Collomb defende uma economia mundial baseada em um mercado racionalizado, voltado para a promoção do bem público. Já Kuttner adverte que o mercado, por ser instrumento de poderosos atores privados cujos interesses não coincidem com os anseios da maioria da população, deve ser socialmente controlado e dirigido. “A Esquerda tem de representar um paradigma alternativo. Deve argumentar que os mercados são instáveis, ineficientes e injustos”. (KUTTNER, 1997, p. 204).                                                  

Norberto Bobbio (1983) propõe um modelo político que combine socialismo, democracia e liberdade. Apesar de aparentemente contraditórios, tanto o socialismo quanto a democracia enfatizam as aspirações coletivas em detrimento dos interesses individuais; logo, segundo o autor, podem ser conciliados.

A exigência de democracia nasce da constatação de que em uma sociedade socialista os abusos do poder são tão possíveis quanto em uma sociedade capitalista. [...] Se é verdade que um dos argumentos a favor da democracia é que ela permite melhor descobrir quais são, em determinadas circunstâncias, os interesses coletivos, não se compreende como se possa pensar que democracia e socialismo não estejam destinados a seguir juntos e de acordo, [...] a separação dos dois seria nociva à própria noção de socialismo, já que, como se afirma, o socialismo é um sistema que permite satisfazer as necessidades das pessoas em maior medida que o sistema capitalista. (BOBBIO, 1983, p. 87).

Portanto, uma democracia sem o equilíbrio econômico socialista e também um socialismo sem a liberdade de escolha democrática são, respectivamente, uma democracia e um socialismo imperfeitos.

Para Vázquez (2001), a democracia política é condição necessária, mas não suficiente, para fomentar uma sociedade melhor. Deste modo, os preceitos democráticos não devem se resumir apenas à participação formal e ao sistema representativo; é preciso a democratização de todas as esferas da vida social e econômica: socializar o poder político e os meios de produção, aumentar a participação efetiva dos cidadãos nas principais tomadas de decisão e garantir o controle do Estado pela sociedade.                                                                                 Já Giddens (1996) defende uma democracia dialógica onde as relações sociais que envolvem diferentes níveis hierárquicos – como entre pais e filhos, patrões e empregados, homens e mulheres – possam ser intermediados pelo diálogo entre ambas as partes em questão, e não pela imposição das ideias dos atores sociais mais poderosos.

Boaventura de Souza Santos (2008) afirma que a luta política dos esquerdistas deve ir além da clássica dicotomia proletariado versus capitalistas[8]. Devido à grande complexidade e diversidade do mundo atual, as reivindicações dos que advogam pelas causas sociais devem amalgamar os anseios de todos os setores excluídos. Além de pleitear por justiça social, é preciso reivindicar cidadania digna para os grupos que historicamente são alvos de preconceito (negros, mulheres, homossexuais, trabalhadores rurais sem-terra e comunidades indígenas).

Para Souza Santos, o Fórum Social Mundial, evento que representa um contraponto à globalização hegemônica, sintetiza as causas dos movimentos sociais contemporâneos:                        

O FSM constitui uma das mais consistentes manifestações de uma sociedade civil global contra-hegemônica [...]. Apesar de se apresentar como agente de mudança social [...], [ao contrário de Marx] rejeita o conceito de um sujeito histórico privilegiado [...] não confere prioridade a nenhum actor social específico neste processo de mudança. Não obedece a nenhuma ideologia claramente definida. [...] [Privilegia] o inconformismo em detrimento da revolução. [...] [Defende] a democracia [...] em detrimento de modelos fechados como o do socialismo de Estado. (SANTOS, 2008, p. 415; 416; 418).

Eric Hobsbawm (1992) elege como plataformas sociais para o século XXI: a causa ecológica, diminuir a desigualdade econômica entre países desenvolvidos e países subdesenvolvidos e a não subordinação da humanidade à economia.                             

Por outro lado, ecologistas radicais e alguns setores da esquerda ainda apregoam a negação de todo avanço tecnológico propiciado pelo modo de produção capitalista. Idealizam uma possível volta rousseauniana   do ser humano ao seu estado natural; uma espécie de comunismo primitivo em que todos são felizes e onde não existam exploradores e explorados.    Jonathan Porritt e David Winner, citados por Giddens (1996), asseveram a necessidade de “uma revolução não-violenta para derrubar toda nossa sociedade industrial poluidora, saqueadora e materialista e, em seu lugar, criar uma nova ordem social e econômica que permitirá aos seres humanos viverem em harmonia com o planeta”. (PORRITT; WINNER apud GIDDENS, 1996, p. 237).

            Contudo, se utilizarmos o mínimo senso de realidade, concluiu-se que tal cenário é bastante improvável. O vertiginoso processo de modernização ao qual passa a humanidade é praticamente irreversível. Somente uma grande catástrofe natural, ou uma série de acontecimentos singulares, poderiam ensejar a volta do ser humano à natureza.  

            As inovações tecnológicas são inexoráveis, não há como negar. Sendo assim, é preciso utilizá-las da maneira mais proveitosa possível:  

[Cabe] aos homens criar mecanismos para que os efeitos positivos, benéficos e desejáveis do progresso, da modernidade e dos avanços tecnocientíficos, consigam alcançar o maior número possível de pessoas no planeta [...]. (ALMEIDA, 2005).

O espaço virtual, por exemplo, é utilizado tanto para difundir valores e hábitos de consumo capitalistas, como pode ser um instrumento para aqueles que, de alguma forma, não concordam com o sistema vigente. Portanto, este meio de comunicação é um importante elo entre os diversos movimentos de esquerda do planeta.  “O ciberespaço não somente permite que qualquer um se exprima, como autoriza um grau de acesso à informação superior a tudo aquilo que se podia experimentar antes”. (LEVY apud STYCER, 2003, p. 57).

            Todavia, apesar de sua inegável importância, o espaço virtual ainda se mostra ineficiente como mecanismo para a conscientização da grande maioria da população. É necessária uma completa democratização dos meios de comunicação de massa. Meios estes que estão monopolizados por políticos conservadores e poderosos empresários que direcionam suas concessões midiáticas de acordo com os interesses do grande capital e da ideologia direitista. “O horizonte para um outro mundo possível não poderá abrir mão de políticas públicas democráticas para os serviços e espaços de comunicação [...].” (MORAES apud STYCER, 2003, p. 57).

Não foi o intuito do presente trabalho delinear um quadro definitivo de estratégias a serem seguidas pelos movimentos de esquerda. Tampouco apresentar as ideias aqui esboçadas como as únicas viáveis. Este artigo aponta, e não mais do que isso, apenas algumas possíveis alternativas para renovar o pensamento esquerdista. O conteúdo aqui exposto está aberto à contestação.

            É importante ressaltar que a plataforma da esquerda pode ir além de Marx e do socialismo: a realidade não se resume à luta de classes. As reivindicações de outros segmentos sociais excluídos, além dos operários, precisam ser incorporadas aos discursos esquerdistas.       A obra marxiana, ao explicitar a exploração do trabalho alheio como fator inerente ao capitalismo, é indubitavelmente importante referencial teórico para compreender a dinâmica do sistema. Em contrapartida, ao propor a via insurrecional como meio para a superação do capitalismo e assim chegar a uma sociedade mais justa, mostra-se inviável como projeto de transformação social.

Deve-se rejeitar o totalitarismo soviético como exemplo a ser seguido. A história nos revela que nenhum outro fator substitui a liberdade, o bem supremo do ser humano.            

Os militantes esquerdistas precisam se renovar: romper com algumas posições ortodoxas do passado, concentrar suas atividades mais em ações do que em utopias. Em outros termos: é necessário ser mais pragmático e menos idealista.                                                         Enquanto pensarmos que um mundo melhor só é possível através de processos revolucionários estaremos fadados a viver de sonhos. Por outro lado, talvez as melhorias sociais realmente possam vir a acontecer se nos apegarmos a situações mais condizentes à realidade: buscar mudanças dentro do próprio sistema ao invés de solapá-lo.



NOTAS

 

 

[1] Composto pela grande massa ativa da nação, trabalhadores ocupados nos setores de produção e o comércio: camponeses, artesões, pequenos proprietários e burgueses, entre outros. 

 

[2] Pensamento marxista: escritos de autores seguidores da obra de Marx. Pensamento marxiano: escritos de Marx e em conjunto com Friedrich Engels.

 

[3] “O conjunto [das] relações de produção constitui a estrutura econômica da sociedade, a base concreta sobre a qual se eleva uma superestrutura jurídica e política e à qual correspondem determinadas formas de consciência social. O modo de produção da vida material condiciona o desenvolvimento da vida social, política e intelectual em geral. Não é a consciência dos homens que determina o seu ser; é o seu ser social que, inversamente, determina a sua consciência”. (MARX, 1977, p. 23).

 

[4] Marx utiliza a expressão ‘ditadura do proletariado’ para designar a forma de Estado que corresponde ao período transição do capitalismo para o comunismo: “Entre a sociedade capitalista e a sociedade comunista situa-se o período de transformação revolucionária da primeira na segunda. A este período corresponde também um período político de transição, cujo Estado não pode ser outro que não a ditadura revolucionária do proletariado” (MARX, p. 23 apud VÁZQUEZ, 2001, p. 77)

 

[5] Na época a Rússia seguia o calendário juliano, treze dias atrasado em relação ao calendário gregoriano, adotado pelo ocidente. Assim, a “Revolução de Outubro” ocorreu em novembro de acordo com o calendário ocidental.

 

[6] “[...] O paradoxo do socialismo é que seus êxitos se deram justamente naquelas sociedades onde o capitalismo era fraco, onde quase não havia proletariado e onde a revolução foi feita pela aliança de intelectuais com camponeses ávidos por terras. Medidas socialistas não vieram como uma resposta à industrialização, mas antes como um meio de consegui-la por métodos totalitários”. (MACKENZIE, 1967, p. 173).

 

[7] “O Estado burocrático soviético imprimiu forte sentido militar à organização do trabalho: os campos de trabalho forçado, também chamados ‘campos de reeducação pelo trabalho’, acabaram se tornando uma questão delicada para a União Soviética, que, por longo tempo, os ocultou. [...] Nesse tipo de trabalho forçado o número de mortos era enorme. [...] Na União Soviética [...] o trabalhador era apenas um simples executor de tarefas impostas pelo Estado. [...] A classe operária, desprovida de direitos políticos, civis e sindicais, era assediada pela ‘propaganda oficial mentirosa’, que pressionava e controlava os trabalhadores, a fim de impedi-los de contestar, de maneira explícita e aberta, a ordem social vigente”. (CARMO, 1992, p. 55; 58)

 

[8] “As pessoas não identificam mais seus interesses sociais exclusivamente em termos de classe; a classe não pode servir como um dispositivo discursivo ou uma categoria mobilizadora através da qual todos os variados interesses e todas as variadas identidades das pessoas possam ser reconhecidas e representadas”. (HAAL, 2006, p. 20, 21). 

 

 

REFERÊNCIAS

 

 

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