ANTÔNIO FELICIANO DE CASTILHO – Vida e Obras



 

ANTÔNIO FELICIANO DE CASTILHO (Lisboa, 1800-1875). Poeta, prosador, historiador, crítico, verdadeiro polígrafo, este eminente vulto das letras portuguesas formou-se em Direito, não obstante a cegueira que o feriu aos seis anos de idade.

Em sua primeira fase clássica escreveu as Cartas de Eco a Narciso, os poemetos da Primavera e o Amor e Melancolia, narrativa íntima; e traduziu as Metamorfoses e os Amores de Ovídio. Pagando tributo ao romantismo, compôs a Noite do Castelo e os Ciúmes do Bardo. Vieram depois os Quadros Históricos, as biografias e estudos que exornam a Biblioteca Clássica, o Tratado de Metrificação e outros muitos opúsculos. Interessando-se pelo ensino popular, dele tratou com paciente esmero. Depois dos sessenta anos, ainda produziu a Chave do Enigma, a tradução dos Fastos ovidianos, o Outono, coleção de poesias originais, a Lírica de Anacreonte e tradução de comédias de Molière e do Fausto de Goethe.

Operário e mestre infatigável, só descansou pouco antes de morrer: e assim na prosa como no verso é corretíssimo escritor e profundamente versado nosarcanos melódicos do idioma.

O Padre Manuel Bernardes

O engenho, que nele madrugou (179) como quem tinha jornada larga que fazer, começou desde a puerícia a estremá-lo singular (180) entre todos os alunos das primeiras escolas.

Pelos estudos da língua latina correu com admiração dos mestres, parecendo mais recordar do que aprender; folgando com as dificuldades, para as desatar; colhendo e enfeixando caladamente no ânimo, como hoje podemos conjeturar, as flores que de tão formoso idioma deviam vir enfeitar o nosso; formando o seu gosto no versar diurno e noturno dos prosadores e poetas, a quem a lima surda do tempo não fizera senão acrescentar lustre; aparelhando-se naquele comércio com engenhos tão irmãos do seu, para algum dia exceder a muitos deles, e igualar-se com os melhores.

Do Latim, que, sendo estudado, como cumpre, é só por si um bom curso de Lógica, Retórica e todas as humanidades, passou, já armado de ponto em branco, para as palestras da Filosofia. Se a que no seu tempo se costumava é havida de modernos, (181) e com razão, por nebulosa, vã, enredadora e sofística, nem por isso se há de negar que adelgaçava singularmente os espíritos, acostumava a uma grande atenção, e não coroava com os seus lauréis semifantásticos senão a talentos mui reais.

Dos extremos que faria em tal ciência o nosso Manuel Bernardes, podem-se ver os documentos em todas as suas obras, se na íntegra as quiserem ler; neste florilégio não, que mui de indústria o expurgamos de todos esses novos esperdícios de argúcia, de todo esse brutesco arrepiado de fórmulas escolásticas, de toda essa pobre riqueza que, segundo a moda de então, constituía metade de cada ciência; a Física, a História Natural, a Medicina, a Jurisprudência e a Teologia punham maior vulto do que tinham de peso substancial; todas se arrebicavam (182) ao mesmo espelho; todas prolixamente se afeitavam por um protótipo sabido, que se chama discreta subtileza. A todas e a cada uma se podia bem perguntar, como àquela dama da aula (183) de , de calçado alto, de riçado alteroso, de mangas tufadas, de ancas e ilhargas postiças:

— Tudo isso sois vós, ou é vós tudo isso, senhora minha?

Não queremos dizer que no que assim deixamos de fora, não haja ainda provas e amostras de relevante engenho.

Pelo contrário; ninguém mais do que nós admira esse esvoaçar tão sustido e ligeiro no meio do vácuo tenebroso; mas outros tempos, outras idéias, outro gosto. O da nossa idade é mais voraz e positivo.

Por pouquíssimo que houvéssemos entremeado, nos quadros que demos, uns desenfeites daquele teor, já o público nô-los houvera de todo repugnado, punindo-nos de nosso desatino.

Naquela Filosofia, pois, saiu graduado mestre pela Universidade de Coimbra, onde se passou ao estudo do Direito pontifício, na qual granjeou duplicados créditos e o grau de bacharel.

Com estes preparos entrou no curso de Teologia; saiu nela qual atestam suas obras, e ordenou-se de presbítero.

Já então, com a fama da sua copiosa ciência, corria desde Coimbra por todo o reino a de suas muitas virtudes; o que moveu o bispo de Viseu, D. João de Melo, a tomá-lo por confessor e guia seu no espinhoso caminho que êle também trilhava afervorado para a bem-aventurança.

(A. F. de Castilho, obra Livraria Clássica: Vida e obras de M. Bernardes).

Paralelo enfre Bernardes e Vieira

É Vieira sem contradição mestre guapíssimo de nossa língua, e o mesmo Bernardes assim o conceituava; que, porém, a si o propusesse como exemplar, nem o indica, nem consta, nem se pode com indução plausível suspeitar; eram ambos engenhosos no discorrer, puros e esmerados no exprimir; — eis aí a sua única semelhança; — no demais pareciam-se como entre si se podem parecer duas árvores de espécies diversíssimas.

Lendo-os com atenção, sente-se que Vieira, ainda falando do céu, tinha os olhos nos seus ouvintes; Bernardes, ainda falando das criaturas, estava absorto no Criador. Vieira vivia para fora, para a cidade, para a corte, para o mundo, e Bernardes para a cela, para si, para o seu coração. Vieira estudava graças a louçainhas de estilo; achava-as, é verdade, tinha boa mão no afeiçoá-las e uma graça no vesti-las como poucos; Bernardes era como estas formosas de seu natural que se não cansam com alindamentos, a quem tudo fica bem; que brilham mais com uma flor apanhada ao acaso, do que outras com pedrarias de grande custo. Vieira fazia a eloqüência; a poesia procurava a Bernardes. Em Vieira morava o gênio; em Bernardes o amor, que, em sendo verdadeiro, é também gênio. Vieira sacrificava tudo à sua necessidade suprema, ao empenho de ser original e único; sacrificava-lhe a verdade, sacrificava-lhe a verosseme-lhança; sacrificava-lhe até a possibilidade; não hesitava em propor o princípio mais absurdo, como fosse ou parecesse novo,

e como para lá não achava caminho pela lógica, fabricava-o com pontes sobre pontes, através de um oceano de sofismas, de argú-cias, de puerilidades, de indecências, de quase heresias, e, contente de lá chegar por entre os aplausos, não se detinha a refletir se não tinha sido aquilo um grandíssimo abuso da grande alma que Deus lhe dera, uma dúplice vaidade aos olhos da religião e da filosofia, um exemplo ruim, mais perigoso pelo agigantado de quem o dava. Bernardes não tomava tese que da consciência lhe não brotasse, e a desenvolvê-la aplicava todas as suas faculdades intelectuais, que eram muitas, e todas as faculdades morais que eram mais, tresdobradamente. Vieira zomba freqüentes vezes da nossa credulidade, podemos desconfiar da convicção de Vieira, ainda quando nos fala certo; Bernardes é um amigo cândido e liso, que, ainda quando nos ilude, não nos mente.

Por tudo isso se admira Vieira: a Bernardes admira-se e ama-se. (184).

{Idem).

Conselhos do Conde D. Henrique a seu Filho

Já passou meia-noite. Pelas ruas caladas e ermas de Braga só ressoa o piso de dois cavalos possantes e velozes, montados de dois varões gigantes, que emparelhados e taciturnos demandam a catedral. Colheram rédeas, saltaram em terra: pelas trevas da sonora crasta se embrenham com religioso recolhimento. Luz de lâmpada, que aí pende de um archete (185) sobre um túmulo, lhes chama os olhos e os passos. Não havia outro clarão nem vida em todo o espaçoso recinto, porque a luz do alto, meio velada de nuvens densas (186), nem chegava a debuxar pelas lájeas a corpulência da arcada. Como houveram acabado sua reza, só ouvida de Deus e dos quietos ossos que ali jaziam: "Filho (disse o mais idoso, enxugando lágrimas de que se não envergonhava, e olhando com gosto para as muitas que manavam dos olhos do seu companheiro), filho de D. Henrique, aí tens teu pai! E tu, que a meu amor o cometeras, (Í87) cavaleiro modelo de cavaleiros cristãos, reconhece o teu filho, coroa a minha obra de teu valimento, e inspira-lhe lá dos céus virtudes por onde te exceda. (188). Infante, escutai-me. Vem desabrochando em vós a adolescência; daqui a poucos dias, mercê de Deus, sereis já cavaleiro; à vossa espera está a lança pesada de vosso pai, a vitória que junto dela dorme; à vossa espera os novos destinos deste largo senhorio, de que vos profetizo fareis um reino independente e glorioso. Para Zamora caminhamos, onde para tamanhos fins ides vestir as armas. Entendi que daria bons auspícios à vossa jornada, se vos trouxesse a tomar primeiro a bênção de vosso pai, e a ouvir dele mesmo conselhos de que haveis mister. Sim, recolhei o ânimo, e ponde o coração atento, que o ides ouvir". (189). — E aqui, tirando do seio um pergaminho, e beijando-o como relíquia santa de uma alma:

"Aí tendes palavras suas, e por sua mão escritas para vós: é o testamento de sua experimentada sabedoria; é a escritura da vossa futura fama. Tomai-o; mas antes que o leais, reparai em todas as circunstâncias que vo-lo tornam solene.

Diante de vós o sepulcro do descendente por varonia dos reis de França, a quem deveis o ser, e dobradamente venerando, porque é finado; ao pé de vós e como testemunha, vosso aio, D. Egas Moniz, eu; por cima de nós, as estrelas, a lua, o céu de Deus, a hora religiosa da meia-noite; e neste templo, edificação de vosso pai, entre as alâmpadas, (190) que alumiam a sua calada vastidão, a presença do Altíssimo! Nunca tão mergulhado estivestes no mundo espiritual, no mundo invisível que envolve, enche, vivifica e rege este orbe de terra e morte, onde trazemos os pés. Entendo o alvoroço do vosso rosto, a luz estranha dos vossos olhos, o desusado tremer de todo vosso sujeito!… (191). Hora é esta de inspiração; hora daquelas mui raras que só transvoam pela mocidade virtuosa, e na solidão. Filho de Deus e de Henrique, pai dos reis e da pátria, lede".

O príncipe, tomando respeitosamente o pergaminho, esten-dendo-o sobre o monumento, e despegando a custo a vista do estirado vulto de pedra, que sobre êle jazia figurando o Conde, leu, entre outras, estas palavras que, representando-se-lhe (192) vir dos lábios moribundos, lhe desciam ungidas a se encarnar no coração: — "Filho, esta hora derradeira que Deus me concede, e após a qual te deixarei vivo e sem a mim no mundo, resume toda a minha alma e afetos em ti; mas o preço dos momentos ninguém melhor o conhece que o agonizante, e não quero desbaratar em saudades tempo que para os avisos me poderia logo falecer. (193). Já quando isto leres, não serei eu entre os vivos; mas estarei donde te observe (194) e de dentro da tua consciência me ouvirás falar-te. Filho, hás de saber que não fêz Deus os príncipes para os príncipes, senão para os povos, e lhes cometeu, (195) sob graves penas, que sem falta lhes serão tomadas, o sossego dos bons e a repressão dos maus. Sê justo com uns e outros: o prêmio anima os bons e lhes aumenta o número; o castigo diminui o dos maus e os refreia. Não conheças grandes nem pequenos no julgar; todos os homens são grandes para se lhes guardar seu direito; e todos pequenos para não haver cobardia em os punir. Nenhuma razão de amor ou ódio te desvie nunca da justiça, que, se um dia te separares dela um palmo, logo ao seguinte se arredará ela do teu coração uma braçada. Nenhum homem deixa de pôr os olhos no que fazem suas mãos: as mãos dos príncipes são os oficiais a cuja conta anda a polícia e regimento das terras; observa-os, e nos que em teu nome vexarem o povo, dá aos outros exemplo com que vingues o povo, e desagraves o teu nome. Se outra coisa fizeres, por muito mais que por ti, haverás de responder perante Deus. Não te arrisques a perder por desmérito o divino auxílio, sem o qual não há poder nem saber que te aproveite: da mão de Deus somos isso que somos, e o que temos não teríamos, se da sua mão e bondade o não tivéssemos. Da terra que te deixo não percas uma polegada, que a ganhei eu com grande fadiga e trabalho; mas, recobra o que dela se nos perdeu e acrescenta quanto mais puderes para a tua gente e para a Fé. Filho, toma do meu coração um pouco, porque sejas esforçado e sem medo".

Aqui (196) o infante lançou involuntariamente os olhos para a parte onde deixara seu fogoso cavalo, acudindo com a mão à cinta, onde ainda não pendia espada; e logo corando, e perguntando mudamente ao semblante de seu mestre se porventura havia feito mal, e vendo-o sereno e satisfeito, prosseguiu a ler e concluiu com o mais religioso respeito uma lição de que em toda sua vida não se havia de esquecer.

Ao despontar do sol, estava aquele sepulcro ainda orvalhado de algumas lágrimas, e o guerreiro simulacro de pedra coroado, na cabeça e nas armas, de louros frescos e viçosos: os cavaleiros eram partidos (197) caminho de Zamora.

(Quadros Históricos, pp. 40-42).

(184) São passivas as três orações desse período, todas com o pronome apassivador se, pois que os respectivos verbos são transitivos, O que há por notar é que o sujeito das duas últimas (Bernardes) está precedido de preposição. Esta é, porém, expletiva: é a preposição que antecederia o objeto direto por elegância: alguém admira e ama [a] Bernardes, e, pois, admira-se e ama-se Bernardes. O trecho é, pois, todo passivo, nem se pudera querer achar aí no se o símbolo de indeterminação do sujeito, pois isso só se dá junto a verbos intransitivos e objetivos indiretos. O trecho poderia ter, pois, a seguinte construção: "Por tudo isso Vieira é admirado; Bernardes é admirado e amado". A preposição expletiva — a — é aí puramente enfática. (185) archete = pequeno arco, em arquitetura; do fr. archet. (186) meio velada = pouco velada, um tanto velada: meio aí é advérbio, e, pois, geralmente invariável; mas são muitos os exemplos em que se dá flexão numérica e genérica aos advérbios. Vide M. Barreto, Novos Estudos, 2.a ed., p. 263 e seguintes. (187) que a meu amor o cometeras — Entre os sentidos vários do verbo cometer (praticar, efetuar ou fazer; acometer; arrostar), depara-se o de entregar, confiar, aqui empregado. Rui escreveu na Réplica: "Nunca até então se cometera a um professor de línguas, profano em coisas jurídicas, a redação de um código civil", (n. 2, p. 10, da l.a ed.). (188) virtudes por onde te exceda. O pron. relat. onde, que não é mais do> que o advérbio latino unde e que no português pode preceder-se das preposições a, de, por, para, até (: a casa aonde fui, donde vim, por onde passei, para onde me dirijo, até onde caminhei), traz geralmente a idéia de lugar, pois onde é igual a em que, no qual, e o advérbio onde significa em que lugar. A língua, todavia, emprega onde com referência a idéias, fatos e cousas que não representam lugar. Comprova essa alteração o exemplo acima, no qual por onde significa pelas quais. Em Rui: "um debate onde se questiona dos direitos’* (Répl., introd. in princ), "reformas fiscais onde assentou a mão" (Pombal, pp. 24-25), "os assuntos onde penetrou" (ibid., 45); "princípios onde estriba o sistema" (Elog. Acad., p. 211); "uma existência por onde se precipitam idéias" (A Impr. e o Dever da Verd., p. 10); "uma lei onde se autorize" (Parecer, obras do porto, p. 29). Onde, portanto, é apenas em que, como pronome, e perde a preposição em, implícita, quando precedido de outra: de onde = do qual, da qual; para onde = para o qual, para os quais. (189) que o ides ouvir ou que ides ouvi-lo: equilibram-se as atrações: da causal que, que pede a próclise e do infinitivo, que pede a ênclise. (190) alampada forma antiga, que coexiste até hoje com lâmpada. Esse — a —prostético, de feição arcaica, ou é forma intermédia (acá < aque (eccu) hac; alá < ad illac), ou se antepôs ao radical de várias palavras, representando ou o próprio artigo aglutinado nelas, ou simples acréscimo puramente expletivo. Assim: alagoa (lat. lacuna), abobada (*volvita), abesana (*versana) aban-tesma (phantasma), ameia (moenia), arruda (ruta), amora (mora de morum), aleijão (laesione), avenca (vinca), abutre (vulture), abrunho (*pruneu), atai (tale), atanto (tantu), acipreste (cypressu), acredor (creditore), ametade (medietate), alanterna (lanterna), ateima (tema), alambor (tambul. Dalgado), arraia (raia), anuído (rugitu) etc. (191) sujeito significa aí pessoa. (192) representando-se-lhe — o gerundio independente pede enclítico o pronome, quando não houver negação. (193) falecer = faltar: "espinhosa missão para a qual me falecem vigor e capacidade". (Rui, Répl., introd.). Por extensão, falecer passou a significar morrer, como acabar (chegar ao cabo), fenecer e finar-se (chegar ao fim), extinguir (apagar, anular, abolir), perecer (da raiz de perire: ir por, passar através, ou sair de) e expirar (exalar, evolar [a alma ou a vida]. (194) estarei [onde = no lugar] donde te observe: o primeiro adjunto de lugar onde diluiu-se no segundo, de lugar donde. Em Os Lusíadas: "Vá cair donde nunca se alevante". (I, 83). é esse um meio de simplificar a frase. Raimundo Correia, escreveu, entretanto: "como quem para quem bastava aquilo", esquivando a construção antiga com lhe = a quem, que se vê eím Man. Bernardes: "levantemos o vôo e mudemos a casa, que vem quem lhe dói a fazenda", (neste vol.). (195) V. a n. 187. (196) aqui (advér. de tempo = nesse momento, nessa ocasião. V. a nota 199. (197) O verbo partir (como acontece com outros intransitivos), está aí com feição depoente, isto é, tem forma passiva e significação ativa: eram partidos zz tinham partido. Em Camões: "antes que chegado / seja este capitão" (Lus., I, 76), "que da paternal coxa, foi nascido" (I, 73), "muitos com tenção santa eram partidos". (III, 58); "Olha que dezessete Lusitanos / neste outeiro subidos, se defendem" (VIII, 35): — locuções que correspondem exatamente às formas verbais ativas tenha chegado, nasceu, haviam partido, que subiram, respectivamente. Em Fr. Luís de Sousa: "Disseram-lhe que era ido a tirar esmola"… (Hist. de S. Dom., p. 2.a, livro 4.a, cap. V); "…correu o alcaide d’Alcácere à vila em tempo que o conde era saído a montear às aldeias". Id., Anais de D. João 111, L. II, Cap. XVI); e em Camilo: "…os Portugueses eram ali vindos com intenções pacíficas". (Hist. de Gabriel Malagrida, cap. VIII, p. 54 — ap. M. Barreto, Factos, p. 200). Essa construção já se não usa hoje senão por imitação. A depoência vige apenas em participios passados (um homem lido, crianças sabidas. senhoras viajadas, rapazes bem dormidos etc.), nos quais à forma passiva se dá significação ativa (um homem que tem lido, crianças que sabem mais do que é comum) etc.

ANTÔNIO FELICIANO DE CASTILHO (Vide al." parte, pág. 151).

Cântico da Noite – Poesia de Antônio Feliciano de Castilho

Sumiu-se o sol esplêndido
Nas vagas rumorosas!
Em trevas o crepúsculo
Foi desfolhando as rosas !
Pela ampla terra alargar-se
Calada solidão!
Parece o mundo um túmulo
Sob estrelado manto!
Alabastrina lâmpada,
Lá sobe a lua! Entanto
Gemidos d’aves lúgubres
Soando a espaços vão!
Hora dos melancólicos,
Saudosos devaneios!
Hora que aos gostos íntimos
Abres os castos seios!
Infunde em nossos ânimos
Inspiração da fé!
De noite, se um revérbero (683)
De Deus nos alumia,
Destila-se de lágrimas
A prece, a profecia!
A alma elevada em êxtase
Terrena já não é!
Antes que o sono tácito (684)
Olhos nos cerre, e os sonhos
Nos tomem no seu vórtice,
Já rindo, e já medonhos,
Hora dos céus, conserva-me
No extinto e no porvir.
Onde os que amei? sumiram-se.
Onde o que eu fui? deixou-me.
Deles, só vãs memórias;
De mim, só resta um nome:
No abismo do pretérito (685)
Desfez-se choro e rúy
Desfez-se! e quantas lágrimas
Brotaram de alegrias! Desfez-se!
e quantos júbilos
Nasceram de agonias!
Teu curso, ó Providência,
Quem no previu jamais?
Que horas dest’hora tácita
Me irão desabrochando?
Quantos nos fêz cadáveres
Num leito o sono brando!
Vir-me-ão co’a aurora próxima
As saudações, os ais?
Se o penso, tremo, aterro-me;
Porém, se ao Pai Supremo
Remonto o meu espírito,
Exulto; já não tremo,
A alma lhe dou; reclino-me
No sono sem pavor. Chama-me?
Ascendo à pátria; Poupa-me?
Aspiro a ela. (686)
Servir-te! ou ver-te e amarmo-nos!
Que sorte, ó Deus, tão bela!
Vem, cerra as minhas pálpebras,
Virgem do casto amor!

(Estréias Poético-musicais, p. 21)

(683) revirbero — reflexo, rescaldo, brilho, fulgor: de reverberar, refletir luz ou calor. A forma verbal é naturalmente grave: reverbero. (684) tácito = calado, silencioso, que não está expresso: de tacitu- part. do v. lat. tacêre, calar-se, permanecer silencioso: ruas tácitas, conclusão tácita, consentimento tácito. O v./ tacè~re produziu taire no fr. e lacere no ital.; dessa raiz é ainda o termo reticência, ação de calar-se, de deter-se, de não prosseguir no que se vinha dizendo. (685) — pretérito (de itu, do v. lat. ire com o pref. praeter — além) — o que vai para além, para trás: o passado. V. n. 145. Preterir é ir além, ultrapassar, deixar alguém atrás. (686) Aspiro a ela — Aspirar, no sentido de desejar, anelar, exige prepos. antes do complemento e recusa a forma lhe lhes: "que a tão altas empresas aspirara" (í.hj., IV,’"52); "Pelo senso comercial aspirou à aquisição do orbe".

 


 

Seleção e Notas de Fausto Barreto e Carlos de Laet. Fonte: Antologia nacional, Livraria Francisco Alves.

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