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LVII.
De volta a Roma, Mário mandou
construir uma casa perto da praça pública, seja porque, como dizia, desejava
poupar àqueles que quisessem cumprimentá-lo uma longa caminhada, seja porque
considerava o afastamento de sua residência como um obstáculo a que um grande
número de pessoas se apresentasse à sua porta. Mas não era este o motivo da
pequena afluência de romanos à sua casa; a verdadeira causa era que, devido à
sua falta de inclinação para as coisas civis, e à ausência nele desta
afabilidade que caracterizava os outros cidadãos de sua categoria, não era
tratado com grande consideração em tempo de paz, como se fosse um instrumento
útil apenas para a guerra,

LVIII Mário não se mostrava muito afetado por ver sua
reputação eclipsada pela de muitos outros: mas não conseguia suportar o fato de
ter sido o ódio dos nobres contra êle á causa da elevação de Sila, e de não
dever o seu rival a sua força no governo senão às divergências que com êle
tivera. Mas quando Boco, rei da Numídia, que fora declarado e reconhecido pelo
Senado como amigo e aliado dos romanos, ofereceu ao templo do Capitólio
estátuas da Vitória, as quais eram acompanhadas de troféus, e que junto dela
foram colocadas imagens de ouro reproduzindo a cena da entrega de Jugurta à
Sila, por aquele soberano, Mário foi tomado de tal cólera, ao ver que seu
rival se atribuía a glória de seus feitos, que se mostrou disposto a empregar a
violência para retirar e destruir aquelas imagens. Sila, de seu lado,
obstinava-se em conservá-las no lugar onde haviam sido colocadas, e, assim, a
guerra civil só não irrompeu em Roma, sendo adiada por algum tempo, devido ao
súbito início da guerra dos Aliados (1). As nações mais belicosas da Itália,
aquelas cuja população era mais numerosa, tinham se rebelado contra os
romanos, e, unindo à força das armas e ao número de homens, a audácia e a capacidade de seus capitães, que não eram
em nada inferiores aos mais renomados generais de Roma, por pouco não
subverteram o império. Esta guerra, fecunda em acontecimentos e surpreendente
pela diversidade dos acidentes a que deu lugar, na mesma medida em que aumentou
a glória e a reputação de Sila, diminuiu as de que gozava Mário. Este se
mostrava lento e irresoluto em tudo o que empreendia, tendendo sempre para o
adiamento e o recuo; e isto acontecia, seja porque, tendo ultrapassado os
sessenta e cinco anos, a velhice extinguira nele o calor e a capacidade de
ação, seja porque, como êle próprio dizia, tornara-se gotoso e vítima de uma
moléstia de nervos; de modo que somente se decidiu a suportar as fadigas desta
guerra, que estavam acima de suas forças, para evitar a vergonha da ociosidade.

(1)   No ano 663, de Roma.

 

LIX.
Entretanto, apesar de seu estado, êle
conseguiu, alcançar uma grande vitória, num combate em que seis mil soldados
inimigos foram mortos, E durante toda a guerra jamais se deixou dominar pelo
adversário, suportando pacientemente a escavação de trincheiras em volta de
suas forças, as zombarias e as provocações para o combate, permanecendo sempre
senhor de si mesmo e não se deixando dominar pela cólera. Conta-se, a
propósito, que Pompédio Silo, o mais considerado e prestigioso dos capitães
inimigos, disse-lhe um dia: "Mário, se és na realidade um grande capitão,
deixa o teu acampamento e vem combater contra
nós". Mário respondeu-lhe com estas palavras: "E, quanto a ti, se
fores mesmo um grande general, faze-me sair de meu acampamento, e empenhar-me
em combate contigo, contra a minha vontade". De outra feita, tendo os
romanos deixado de aproveitar uma oportunidade que se lhes ofereceu para
atacar o inimigo com vantagem, Mário, depois que os dois exércitos voltaram aos
seus respectivos acampamentos, mandou reunir os seus soldados e disse-lhes:
"Não sei a quem deva considerar mais covardes, se a vós ou a nossos
inimigos; pois eles não ousaram olhar-vos quando lhes virastes as costas, e vós
receastes encará-los pela retaguarda". Finalmente, êle foi forçado a
deixar o seu posto de comandante, pois a sua debilidade impedia-lhe agir.

LX. Depois de quase inteiramente submetidos todos os
povos da Itália, vários generais se puseram a utilizar do prestígio dos
oradores populares para conseguir a sua indicação para dirigir as operações
contra Mitrídates, quando, subitamente, com grande surpresa para toda gente, o
tribuno Sulpicio, homem de singular audácia, aventou o nome de Mário, e o
indicou para conduzir a guerra contra aquele príncipe, com o título e a
autoridade procônsul. O povo dividiu-se em duas partes: uns queriam escolher
Mário, outros eram partidários de Sila, dizendo que Mário não podia pensar em
outra coisa senão nos banhos quentes de Baias, a fim de tratar de seu corpo
enfraquecido, como êle próprio afirmava, pelas doenças e pela velhice. Mário
possuía, perto do monte Miseno uma soberba casa de campo, onde levava uma vida
de prazeres mais afeminada do que convinha a um homem que em tão grande número
de expedições e combates se tinha assinalado pelos seus feitos. Cornélia,
segundo se conta, adquiriu-a depois pela soma de setenta e cinco mil dracmas,
e, mais tarde, foi vendida a Lúculo por quinhentas mil e duzentas dracmas.
Vê-se, assim, como, em conseqüência dos rápidos progressos feitos pór uma vida
de prazeres, luxo e suntuosidade, subiram em Roma os preços dos imóveis. Entretanto,
Mário, cuja ambição o levava a lutar com a debilidade e a velhice, descia todos
os dias ao campo de Marte, a fim de ali fazer exercícios com os jovens romanos,
exibindo o seu corpo ainda ágil e ligeiro no manejo das armas e na equitação,
não obstante mais pesado e volumoso com a idade.

LXL Agradou assim a certo número de pessoas que iam ao
campo expressamente para assistir aos exercícios e serem testemunhas de seus
esforços no sentido de fazer melhor do que os outros. Mas as pessoas sensatas
consideravam com pena esta ambição, este desejo insaciável de glória, num homem
que, tendo de uma situação obscura chegado aos mais altos postos, à maior
opulência, não sabia estabelecer limites à sua prosperidade; e que, podendo
gozar tranqüilamente da consideração e da estima públicas, e os bens imensos
que possuía, queria, como se tudo lhe faltasse, ir, após tantos triunfos e
tanta glória, arrastar na Capadócia e no Ponto Euxino os restos lânguidos de
sua velhice, para ali combater Arquelau e Neoptólemo, sátrapas de Mitrídates. É
verdade que, para se justificar, apresentava certas razões, as quais eram, no
entanto, inteiramente vãs: alegava que desejava êle próprio instruir seu filho
no exercício das armas e ensinar-lhe a arte da guerra.

LX1L
Foi isso que revelou a existência de
uma enfermidade secreta no seio de Roma, onde se encontrava oculta fazia já
muito tempo. E Mário ofereceu a ocasião para que essa enfermidade, se tornasse
conhecida, pois encontrou na audácia de Sul-pício o instrumento mais apropriado
para provocar a ruína da República. Este tribuno, que admirava e seguia
Saturnino em tudo o mais, censurava-lhe duas coisas na administração: sua
timidez e sua lentidão. Quanto a êle, que não gostava de perder tempo, tinha
sempre à sua disposição seiscentos cavaleiros romanos, os quais lhe serviam de
guarda e eram por êle chamados o anti-Senado. Um dia em que os cônsules
presidiam na praça a uma assembléia do povo, Sulpício para ali se dirigiu com
soldados armados, obrigando os magistrados a fugirem; e, um dos soldados,
apoderando~se do filho de Pompeu, matou-o com suas próprias mãos.    Sila, o outro cônsul (1), vivamente perseguido pelos facciosos,
ao atingir a casa de Mário nela entrou, contra a expectativa de todos, sem ser
visto pelos que o perseguiam, os quais, em sua precipitação, ultrapassaram-na,
correndo. Diz-se que o próprio Mário fê-lo sair pela porta dos fundos, em
segurança, seguindo dali para o seu acampamento. Sila, no entanto, em seus Comentários, não diz que se dirigiu à casa de Mário para refugiar-se;
narra que para ali foi levado para deliberar sobre aquilo que Sulpício queria
forçá-lo a fazer contra a sua vontade, cercado de espadas desembainhadas; e
acrescenta que, tendo sido desse modo conduzido à casa de Mário, dali não saiu
senão para ir à praça pública para de acordo com a exigência do tribuno,
revogou o edito que êle e seu colega (2) tinham promulgado e através do qual
ordenavam a suspensão dos negócios e da administração da justiça.

LXIII Sulpício, tornando-se senhor da situação, fêz
atribuir a Mário através dos votos do povo, a conduta da guerra contra
Mitrídates. Mário, enquanto se preparava para partir, enviou dois de seus
oficiais ao encontro de Sila, a fim de ordenar-lhe que lhes entregasse seu
exército, constituído de trinta mil infantes e cinco mil cavaleiros, Sila, após
exacerbar os ânimos de seus soldados contra Sila no consulado.

Mário, sublevou-os, e os fez marchar sobre Roma.. Eles
começaram por trucidar os dois oficiais que Mário tinha mandado; este, por sua
vez, em sinal de represália, mandou matar, no interior de Roma, vários amigos e
partidários de Sila, e prometeu, a som de trombeta, a liberdade a todos os
escravos que quisessem pegar,em armas, em seu favor. No entanto, somente três
se apresentaram; e Mário, após uma ligeira resistência contra Sila, quando este
entrava em Roma, fugiu precipitadamente. Mal saíra da cidade, e viu-se abandonado
por todos os que o acompanhavam, e que se dispersaram em várias direções. E
como fosse noite, retirou-se para uma pequena casa de campo chamada Salônio, e
que ficava perto da propriedade de Múcio, sogro de seu filho, para onde enviou
este, a fim de arranjar algumas provisões. Seguiu, todavia, logo depois, para
Ostia, onde Numério, um de seus amigos, preparara-lhe uma embarcação, e nela
partiu sem esperar pelo jovem Mário, levando consigo apenas um filho de sua
mulher, chamado Grânio.

 

(1)       Pompeu Rufo, colega de

 

LXIV. O jovem Mário, após chegar à propriedade de seu sogro
Múcio, cuidou de reunir algumas provisões e empacotá-las a fim de levá-las
consigo. Surpreendido pelo dia, por pouco náo foi descoberto pelos seus
inimigos. Alguns cavaleiros, desconfiando que Mário estivesse na casa, foram
ali procurá-lo. Mas o intendente de Múcio, tendo-os visto de longe, ocultou o
jovem numa carroça carregada de favas, à qual jungiu seus bois, e tomou com [o
veículo a direção de Roma, antes que os cavaleiros chegassem. O jovem Mário foi
assim conduzido até à casa de sua mulher, onde pegou tudo o que lhe era
necessário; e, após dirigir-se, à noite para a beira-mar, embarcou num navio
que seguia para a África. ‘

LXV,
Entrementes, o velho Mário,
fazendo-se ao mar, seguia ao longo das costas italianas, impelido por ventos
favoráveis; receando, contudo, cair nas mãos de um dos principais moradores de
Terracina, chamado Gemínio, seu rancoroso inimigo, disse aos marinheiros que
evitassem aportar naquele lugar. Eles estavam mais do que desejosos de obedecer
às suas ordens; mas o vento mudou de direção, e, começando a soprar do alto
mar, provocou tão violenta tempestade que recearam não suportar o navio o
ímpeto das vagas. Além disso, Mário estava sofrendo muito com o enjôo. Rumaram,
então, com dificuldade, para a costa, atingindo a praia de Circéia (1). A
tempestade, que se tornava cada vez mais violenta, e a escassez de víveres,
forçaram-nos a descer em terra; e puseram-se depois a andar de um lado para
outro, sem um objetivo certo. E, como sempre acontece nas situações perigosas,
procuraram evitar, como mais ameaçador, o lugar onde se encontravam no momento,
e punham suas esperanças naqueles que não conheciam. À terra não era para eles
menos perigosa que o mar; e, se receavam encontrar homens, eles também temiam
não encontrá-los, na extrema penúria de víveres em que se achavam. Finalmente,
ao anoitecer, viram alguns boeiros, que nada tinham para dar-lhes, mas que,
tendo reconhecido Mário, aconselharam-no a afastar-se dali o mais depressa possível,
pois tinham visto passar vários cavaleiros que o procuravam por toda parte. Não
obstante estar privado de quaisquer recursos, e preocupado sobretudo com a
situação dos que o acompanhavam, ameaçados todos de morrer de fome, deixou a estrada
principal e penetrou numa mata espessa, onde passou a noite. No dia seguinte,
forçado pela necessidade, e desejando utilizar suas forças antes que elas o
abandonassem inteiramente, Mário pôs-se a caminho de novo, ao longo da costa.
Enquanto caminhava, ia encorajando os que os acompanhavam, pedindo-lhes que não
se desesperassem, e que alimentassem uma longa esperança, manifestando a sua
confiança em algumas predições feitas muito tempo antes pelos adivinhos.

(1)   Perto  do Monte 
Circello,  onde estava localizada  a  antiga morada de Circe.

 

LXVL
Contou-lhes, então, que, um dia, na
sua infância, e quando ainda morava no campo, recolhera numa dobra de sua roupa
o ninho de uma águia, dentro do qual havia sete filhotes; seus pais, surpresos
ante tal singularidade, consultaram os adivinhos, os quais predisseram que aquele menino se
tornaria um dos homens mais famosos do mundo, e que, sem dúvida nenhuma,
obteria a suprema magistratura do país e gozaria da maior autoridade. Afirmam
alguns que esta coisa prodigiosa aconteceu realmente a Mário; porém, segundo
outros, os homens que o acompanharam, nessa e em outras fugas, tendo ouvido
dele o relato, acreditaram em suas palavras, e depois passaram-nas para o papel
como coisa verdadeira; no entanto, não se trataria senão de uma fábula de sua
invenção, pois a águia não tem de cada vez mais de dois aguiotos. O poeta Museo
também foi chamado de mentiroso por | ter dito a respeito desta ave:

Três ovos põe a águia, mas dois ela exclui,

A fim de, em seu ninho, apenas de um cuidar.

Seja como fôr, todos estão de acordo em que Mário, por várias vezes, durante a sua fuga, assegurou que seria cônsul pela sétima vez,

LXVII
Quando se encontravam a cerca de
vinte estádios da cidade de Minturnas (1), na Itália, avistaram, eles, ao
longe, um grupo de. cavaleiros que vinha em sua direção, e viram ao mesmo tempo
duas barcas velejando perto da costa. Correram o mais rapidamente possível na
direção do mar. Atirando-se a água, ganharam a nado um dos dois navios precisamente
aquele a bordo do qual se achava Grânio, e rumaram para a ilha de Enária,
situada em frente da costa. Quanto a Mário, devido ao seu peso e ao fato de não
se achar bem disposto, só com muita dificuldade foi mantido por dois escravos
sobre a água, sendo levado para o outro barco, aonde chegou precisamente no
momento em que. os cavaleiros, após atingir a praia, puseram-se a dizer, aos
gritos, aos marinheiros, que voltassem com a embarcação para terra, ou, então,
atirassem Mário ao mar, acrescentando que depois poderiam prosseguir em seu
caminho. Mário suplicou então, humildemente, e com lágrimas nos olhos, aos
marinheiros, que não o entregassem aos seus inimigos; os donos do barco, após
tomarem várias resoluções, umas contrariando as outras, tal a sua hesitação,
declararam, finalmente, aos cavaleiros, que não entregariam Mário. Logo depois
de haverem os cavaleiros partido, furiosos, os marinheiros mudaram de opinião,
e, dirigindo-se para terra, aportaram perto da embo-cadura do Líris, cujas
águas, saindo de seu leito, formam um paul. Aconselharam Mário a descer, a fim
de tomar a sua refeição em terra, descansar um pouco, e restabelecer suas
forças esgotadas pela viagem, até que o vento passasse a soprar favoravelmente;
o que, acrescentaram, ocorreria, sem dúvida, a uma certa hora em que o vento do
mar perdia a força e do pântano se erguia um vento fresco, que bastava para
levar o navio até o mar alto.

 

(1)   Junto à embocadura do rio Líris.

LXVIIL Mário supôs que os marinheiros diziam a verdade e
seguiu o seu conselho; foi então levado para a praia, onde se deitou sobre a
relva, não prevendo nem de longe o que ia acontecer-lhe. Os marinheiros,
voltando incontinenti para seu navio, levantaram as âncoras, e fizeram-se ao
mar, para fugir. Eles acharam que não era honesto entregar Mário aos seus
inimigos, mas, ao mesmo tempo, não quiseram salvá-lo, receando pela sua própria
segurança. Abandonado, assim, por todos, ele permaneceu durante muito tempo
deitado na praia, sem proferir uma palavra. Enfim, recuperando, não sem
esforço, a sua coragem, levantou-se e começou a percorrer lugares onde não
havia estradas e nem trilhas. Depois de atravessar brejos extensos e fossas
cheias de água e de lama, foi ter à cabana de um pobre velho, que trabalhava na
região. Mário atirou-se aos seus pés, suplicando-lhe que socorresse e salvasse
uma pessoa aflita que, caso conseguisse escapar às suas dificuldades presentes,
recompensá-lo-ia um dia de maneira que excederia de muito as suas esperanças. O
velho, seja que conhecesse já havia muito tempo Mário, seja que seu aspecto
majestoso lhe indicasse tratar-se de uma grande personagem, disse-lhe, que,
caso ele desejasse apenas repousar, sua pequena cabana bastaria: mas se porventura
estivesse vagueando daquela maneira para escapar a inimigos, então o ocultaria
em lugar mais seguro  e  mais tranqüilo.     Mário  pediu-lhe  que  o escondesse,
e o bom homem levou-o através dos pântanos até um ponto baixo situado ao longo
do rio, onde o fêz deitar, cobrindo-o em seguida com grande quantidade de
caniços e outras plantas leves, para. que o peso não o incomodasse. Não havia
ainda passado muito tempo, e ele, de seu esconderijo, ouviu um grande ruído do
lado da cabana do pobre velho. Gemínio de Terracina tinha mandado numerosos
cavaleiros à sua procura, em várias direções, alguns dos quais foram ali ter;
e, para amedrontar o ancião, disseram-lhe, aos gritos, que êle recebera e
estava ocultando um inimigo do povo romano.

LXIX. Mário, que ouviu essas palavras, deixou o lugar onde o
velho o havia colocado, e, depois de despir-se, entrou no pântano num ponto
onde a água era mais espessa e lodosa, e aí foi encontrado pelos que o
procuravam. Os cavaleiros retiraram-no inteiramente nu do pântano, todo coberto
de lodo, e o levaram, no estado em que se encontrava, para Minturnas, onde o
entregaram às autoridades; pois o decreto do Senado ordenando a todos os
romanos que o perseguissem e o matassem, caso fosse encontrado, já tinha sido
publicado em todas as cidades da Itália. Todavia, os magistrados de Minturnas,
antes de dar execução ao decreto, decidiram deliberar, e enquanto isso mandaram
levar Mário para a casa de uma mulher chamada Fânia,   a   qual   era  
considerada   como   sua   grande inimiga, por motivo de uma pendência já
antiga, Fânia tivera como marido um homem chamado Tínio, do qual quis se
separar, exigindo dele a devolução do seu dote, que era grande, O marido, a fim
de evitar tal devolução, acusou-a de adultério, e a questão foi levada ao
conhecimento de Mário, quando no exercício de seu sexto consulado. De acordo
com o processo, verificou-se que Fânia, antes de seu casamento, levara uma vida
irregular; isto não impediu, contudo, que Tínio, conhecedor de seu passado, a
desposasse e com ela vivesse durante muito tempo. Mário, julgando-os,
considerou ambos culpados, condenando o marido a restituir o dote e a mulher,
após cobri-la de infâmia, a pagar a multa de uma moeda de cobre. Entretanto,
Fânia, nessa ocasião, não se portou como mulher ofendida: logo que teve Mário
entre suas mãos, longe de testemunhar-lhe qualquer ressentimento, procurou
auxiliá-lo e fazer com que recuperasse a sua coragem. Mário agradeceu-lhe a
generosidade, e disse-lhe que estava cheio de confiança, pois tivera um
presságio favorável, o qual lhe narrou. Quando o conduziam para a casa de
Fânia, e dela já se aproximava, mal a porta tinha sido aberta êle viu sair um
asno, o qual foi correndo beber numa fonte situada nas proximidades. O animal
parará diante de Mário, olhara-o com um ar satisfeito, e, em sua alegria, pusera-se
a zurrar com todas as suas forças, e a dar saltos em volta dele.    Mário
conjeturou, diante disso, que os deuses quiseram desse modo significar que a sua
salvação viria antes do mar que da terra; e isto porque o asno, ao sair de
perto dele, não cuidara de pastar, indo diretamente beber na fonte.

LXX. Depois de expor tal interpretação a Fânia, êle quis
repousar, e pediu-lhe que ó deixasse só, e que fechasse a porta de seu
aposento. Entre-mentes, os magistrados e os decuriões da cidade, após longas
deliberações, resolveram executar sem demora o decreto, ou seja, mandar matar
Mário. Todavia, tomada esta resolução, nenhum cidadão aceitou a incumbência de
executá-la. Finalmente, apresentou-se um cavaleiro gaulês ou cimbro (afirma-se
uma coisa e outra), o qual, com a espada desembainhada na mão, penetrou no
quarto onde Mário repousava. O aposento recebia pouca luz, estando por. isso
escuro; e o cavaleiro, ao que se afirma, viu saírem chamas brilhantes dos olhos
de Mário, e, ao mesmo tempo, ouviu erguer-se, daquele lugar tenebroso, uma voz
terrível, que lhe disse; "Ousas tu, miserável, matar Caio Mário?" O
bárbaro, ouvindo estas palavras, saiu precipitadamente do quarto, e, atirando
longe sua espada, gritou: "Não posso matar Caio Mário!" A surpresa em
primeiro lugar, e em seguida a compaixão e o arrependimento, dominaram logo
toda a cidade. Os magistrados censuraram-se a si mesmos pela resolução tomada,
considerando-a como um ato de injustiça e de ingratidão em relação a um homem
que havia salvo a Itália e a quem não se podia sem crime recusar auxílio.
"Deixemo-lo ir para onde queira, disseram eles, para enfrentar em outros
lugares aquilo que o destino lhe trouxer; e pecamos aos deuses que não nos
punam pelo fato de afastarmos Mário, nu e desprovido de recursos, de nossa
cidade".

LXXL Depois de fazerem considerações como estas, os
minturnenses dirigiram-se em grande número ao quarto de Mário, e, fazendo-o
sair, cercaram-no para o acompanhar até à praia. E como todos quisessem
auxiliá-lo, dando-lhe uns e outros certas coisas que lhe poderiam ser úteis,
passou-se um tempo considerável; e isto também se verificou porque existia no
caminho que ia da cidade ao mar um bosque sagrado, da ninfa Maricá, venerado de
modo singular por todos os minturnenses, os quais evitavam dele retirar tudo o
que porventura para o seu interior fosse levado, Não podendo, assim, atravessá-lo,
para atingir o mar teria sido necessário dar uma longa volta, o que levaria
muito tempo. Finalmente, um dos cidadãos mais idoso da comitiva, começou a
dizer, aos brados, que não havia caminho pelo qual fosse proibido passar
para salvar Mário. E êle próprio, tomando a iniciativa, e levando consigo
algumas das provisões destinadas à viagem, seguiu pelo caminho, através do
bosque. Com o mesmo zelo e rapidez foi proporcionado a Mário tudo o de que
necessitava;  e um certo Beleu lhe forneceu um navio para a viagem. Mais tarde, êle
mandou reprodízir toda esta história num grande quadro, o qual dedicou ao tempo
de Maricá, do qual saíra para tomar o navio.

LXXII. Levado por vento favorável, êle chegou à ilha de
Enária, onde se encontrou com Grânio e alguns outros amigos, com os quais prosseguiu
viagem, rumando para a África. Entretanto, tendo-lhes faltado água, foram
obrigados a aportar na Sicília, perto da cidade de Erix (1). Ali se encontrava
um questor romano encarregado de guardar a costa, o qual por pouco não se
apoderou de Mário, quando este, e vários membros de sua comitiva, desceram à
terra para obter água; dezesseis dos que o acompanhavam foram, no entanto,
mortos. Mário partiu precipitadamente, atravessou o mar, e fundeou na ilha de
Meninge (2), onde soube que seu filho, e que conseguido escapar de Roma com Ce
tego, e que ambos tinham se dirigido à corte de Hiempsal, rei da Numídia, a fim
de implorar o seu auxilio. Encorajado por esta notícia favorável, ousou sair de
Meninge, seguindo para as costas de Cartago, A África tinha então um governador
romano chamado Sextílio. Mário, que não lhe fizera jamais nem bem nem mal,
supunha que somente a compaixão poderia proporcionar-lhe algum auxílio.

Todavia, mal pusera o pé em
terra, com algumas das pessoas que o acompanhavam, e veio ao seu encontro um
litor de Sextílio, o qual parando à sua frente, disse-lhe: "Sextílio,
governador e pretor da África, proíbe-vos de pordes, o pé nesta província; caso
contrário, adverte-vos de que fará executar os decretos do Senado contra vós,
tratando-vos como inimigo de Roma".

(1)       
San Giuliano, na costa ocidental da
Sic ília,

(2)    
A ilha de Zerbi entre Tr ípoli e
Tunfe.

 

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