Consciência - Filosofia e Ciências Humanas

BIOGRAFIA DE CAIO MÁRIO – Plutarco – Vidas dos Homens Ilustres


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LXXIIL Mário foi tomado dé uma dor e de uma tristeza tão profundas, após ouvir esta proibição, que não teve ânimo para responder, permanecendo em silêncio durante algum tempo, lançando no oficial olhares terríveis, Tendo o litor lhe perguntado, finalmente, qual a resposta que deveria levar ao governador, êle lhe disse, após soltar um profundo suspiro: "Dirás a Sextílio que viste Mário, banido de seu país, sentado entre as ruínas da cidade de Cartago". Com esta resposta, ressaltou sabiamente, aos olhos de Sextílio, a sorte desta grande cidade e a sua, como dois exemplos das vicis-situdes humanas, advertindo-o assim do que lhe poderia acontecer no futuro.

LXXIV. Entrementes, Hiempsal, rei dos númidas, não sabendo que decisão tomar, tratava de maneira honrosa o jovem Mário, e os que o acompanhavam; mas quando anunciavam a sua intenção de partir, o rei achava sempre algum pretexto para os reter; e via-se claramente que a sua insistência   não   prenunciava   intenções   favoráveis.

Salvou-os, no entanto, uma circunstância banal. A beleza de Mário fêz com que uma das concubinas de Hiempsal se interessasse pelas suas desventuras; e este interesse foi o começo e o pretexto do amor que êle lhe inspirou, O jovem repeliu, a princípio, as suas primeiras tentativas de aproximação; mas, em seguida, vendo que era o único caminho para a fuga, e que o amor desta mulher tinha por motivo um desejo honesto de servi-lo, não sendo assim uma paixão abjeta, aceitou os testemunhos de sua ternura. Ela proporcionou-lhe, finalmente, os meios para fugir com seus amigos, e êle foi ao encontro de seu pai. Depois de se cumprimentarem e abraçarem, puseram-se ambos a caminhar ao longo da costa; em determinado momento, viram dois escorpiões lutando, o que pareceu a Mário um mau presságio. Apressaram-se a subir para um barco de pescador, seguindo para a ilha de Cercina (1), que não fica muito distante do continente. Logo depois de sua partida, viram cavaleiros chegarem ao mesmo lugar que haviam deixado. Eram soldados enviados pelo rei Hiempsal, e Mário confessou que esse fora um dos maiores perigos por que havia passado.

(1)   Presentemente a ilha de Querqueni.

 

LXXV. Entretanto, em Roma, ao ser divulgada a notícia de que Sila se empenhara em guerra na Beócia contra os generais de Mitrídates, os cônsules (1) entraram em dissensão travando luta armada. Otávio, que se revelou o mais forte, ganhando a batalha, expulsou Cina, que tentara exercer um poder tirânico, e nomeou para as funções de cônsul, em seu lugar, Cornélio Mérula. Cina, não se conformando com a derrota, recrutou soldados no seio dos outros povos da Itália, e deu início a uma guerra contra os dois cônsules. Mário, logo que teve conhecimento do que ocorria, decidiu partir o mais depressa possível; e reunindo alguns cavaleiros da Mauritânia, e alguns italianos, que tinham conseguido deixar o seu país, perfazendo um total de mil homens, êle se fêz ao mar e foi ter ao porto de Telamão, na Etrúria; imediatamente após o seu desembarque, fêz anunciar, ao som de trombeta, que daria a liberdade aos escravos que se juntassem a êle. Os lavradores e os pastores da região, todos de condição livre, acorreram à costa, atraídos pela fama de Mário; este escolheu dentre eles os mais dispostos e robustos, e, depois de dirigir-lhes belas palavras, conquistou-os para a sua causa, conseguindo, assim, em poucos dias, formar um exército, o qual embarcou em quarenta navios.

(1)   Otávio e  Cina, cônsules no ano 667, de Roma.

 

LXXVL Mário sabia que Otávio era um homem de bem, o qual não queira outra autoridade senão aquela que lhe era dada pelas leis e pela justiça;   sabia   também   que   ao   contrário,   Cina   era suspeito a Sila, e que queria derrubar o governo e introduzir inovações na administração. Resolveu por isso juntar-se a este com todas as suas forças, e, primeiramente, mandou-lhe dizer que estava disposto a obedecer-lhe, como a um cônsul, e a executar tudo que fosse por êle ordenado. Cina recebeu-o com alegria, deu-lhe o titulo de procônsul e enviou-lhe os lictores e os feixes de varas, bem como todas as outras insígnias da autoridade pública. Mário, no entanto, não quis aceitá-los, dizendo que estes ornamentos não convinham à miséria de sua situação: continuou a vestir roupas muito pobres e a deixar crescer os cabelos, o que vinha fazendo desde o dia em que foi banido, na idade de mais de setenta anos. Êle caminhava lenta e pesadamente, a fim de provocar compaixão àqueles que o viam; mas, sob esta aparência lamentável, transparecia sempre o ar de altivez que lhe era natural, e que parecia destinado a inspirar mais terror do que piedade; sua própria tristeza demonstrava que os reveses tinham antes aguçado do que abatido a sua coragem.

LXXVIL Depois de cumprimentar Cina e falar aos soldados, êle começou a agir sem perda de tempo, e em poucos dias toda a situação se modificou. Em primeiro lugar, tomando posição no mar com seus navios, êle apresava os comboios, pilhava os negociantes que levavam trigo e outros víveres para Roma, tornando-se assim senhor das provisões necessárias à subsistência de todos.  Apoderou-se em seguida das cidades marítimas, subindo a costa, e, finalmente, pilhou e mandou matar a maior parte dos habitantes da cidade de Óstia, a qual ocupou graças a uma traição. Lançou depois uma ponte sobre o rio Tibre, e desfez completamente a esperança de seus inimigos de receberem provisões pelo mar. Marchou logo depois com seu exército sobre Roma, apoderando-se do monte Janículo,. devido a um erro de Otávio, o qual comprometia a sua situação, menos por incapacidade do que por um apego escrupuloso às normas da justiça, a uma obediência servil às leis, agindo assim contra a utilidade pública. Àqueles que o aconselhavam a oferecer a liberdade aos escravos a fim dè estes tomarem as armas em defesa da República, êle respondia que não daria aos escravos qualquer direito de cidadania, da qual mantinha Mário afastado para manter a autoridade das leis.

LXXVIII. Chegou, entrementes, a Roma, Cecílio Metelo, filho de Metelo, o Numídico, que havia começado a guerra da África, contra Jugurta, e que fora exilado por Mário; e como todos os soldados o considerassem um general muito superior a Otávio, abandonaram este cônsul, e se dirigiram a êle, pedindo-lhe que assumisse o comando e salvasse a cidade, prometendo-lhe que, quando tivesse à sua frente um capitão ativo e experimentado, combateriam com coragem, e triunfariam sobre o inimigo,    Cecílio Metelo, vivamente ofendido ante tal proposta, disse aos soldados que voltassem a obedecer ao cônsul; mas eles, despeitados, ban dearam-se para o inimigo. Vendo que a situação na cidade não era boa, e que seria difícil enfrentar o adversário, Cecílio deixou Roma; mas Otávio, persuadido por alguns caldeus, adivinhos e sibilistas, (1), os quais lhe disseram que tudo correria bem para êle, resolveu permanecer na cidade. Este cônsul, dotado de tanto bom-senso quanto qualquer outro romano de seu tempo, e que sempre manteve íntegra a dignidade consular, insensível ao veneno da lisonja, seguindo os costumes e as leis do país como fórmulas invariáveis, tinha lamentavelmente, um fraco pela adivinhação, e passava, ao que me parece, mais tempo em companhia de adivinhos e charlatães, do que com os militares e os estadistas. Mário, antes de entrar em Roma, enviou assalariados à cidade, os quais, depois de arrancar à força Otávio da tribuna, mataram-no na praça pública. Foi encontrado, junto ao seu peito, ao que se conta, um horóscopo de seu nascimento feito por um caldeu; e, diante do que se passou, pareceu singular (2) o fato  de que,  destes  dois  generais,  um,  Mário,  foi amparado, e o outro, Otávio, arruinado pela mesma confiança na adivinhação.

(1)     Este termo é notável e mostra o descrédito em que haviam caído no tempo de Plutarco as Sibilas, os livros sibilinos e seus seguidores.

(2)     N ão existe singularidades: Otávio, comportou-se como mau e Mário como bom político.           

 

LXXIX, Nesta conjuntura crítica, o Senado reuniu-se e decidiu enviar embaixadores a Mário e a Cina, a fim de pedir-lhes que entrassem na cidade pacificamente, sem derramar o sangue dos cidadãos. Cina recebeu-os em audiência, em sua cadeira, como cônsul, e respondeu às suas palavras com muita humanidade; Mário, de pé, mantinha-se silencioso. A sua fisionomia severa e seus olhares ferozes mostravam, no entanto, que êle iria em breve cobrir a cidade de sangue. Após a audiência, Cina entrou em Roma, cercado pelos seus guardas; Mário, parando junto à porta da cidade, disse com uma ironia inspirada pela cólera que fora banido de sua pátria de acordo com as leis e mediante processo judicial; assim, se julgassem que sua presença era necessária, era preciso anular, com um novo decreto, aquele que o havia banido, como se fosse um escru-puloso observador das leis e como se a liberdade reinasse então em Roma. O povo foi em seguida reunido na praça pública, a fim de que seu pedido fosse atendido. Mas três ou quatro grupos da população ainda não haviam dado o seu voto, quando Mário, tirando a máscara, e deixando de simular que desejava realmente ser chamado do exílio através das formalidades legais, penetrou na cidade cercado por um grupo de assalariados, recrutados entre os escravos mais dissolutos e audaciosos que haviam tomado o seu partido, e aos quais chamava bardeus. A uma só palavra, a um piscar de olho, a um sinal que Mário lhes fizesse com a cabeça, eles trucidavam indistintamente todos aqueles que lhes indicasse. Um senador, chamado Ancário, que tinha sido pretor, foi morto a golpes de espada aos pés de Mário, por não ter este respondido ao cumprimento que lhe havia sido dirigido. Este foi um sinal para que fossem massacrados nas ruas todos aqueles a cujos cumprimentos Mário não respondesse ou a quem não dirigisse a palavra. Assim, mesmo seus amigos dele se aproximavam com verdadeiro pavor, pois que receavam que não respondesse ao seu cumprimento.

LXXX. Como já fosse grande o número de mortos, Cina, saciado de tanto sangue e com o seu ódio já apaziguado, quis pôr termo à matança; Mário, porém, cuja cólera se tornava cada dia maior e maior a sua sede de vingança, continuava a mandar assassinar todos aqueles que lhe eram suspeitos; e não havia nenhuma cidade ou estrada onde não se vissem assalariados de Mário à procura, como se fossem cães de caça, de pessoas escondidas ou em fuga. Demonstrou, então, a experiência, que a fidelidade aos liames da amizade e hospitalidade raramente resiste à má fortuna; pois poucas foram as pessoas que não denunciaram aqueles que lhes haviam solicitado asilo. Este fato torna ainda mais digno de nossa admiração e de nossa estima os escravos de Comuto, os quais, tendo escondido o seu senhor em sua casa, para ali levaram um dos que tinham sido mortos na rua, dependuraram-no pelo pescoço, puseram-lhe no dedo um anel de ouro, e mostraram-no aos satélites de Mário; promoveram depois os funerais, como se fossem os de seu próprio senhor, e enterram-no sem que ninguém de nada desconfiasse. Comuto, salvo deste modo pelos servidores, refugiou-se na .

LXXXL O orador Marco Antônio (1), que também tinha encontrado um amigo fiel, não teve a mesma sorte que Comuto. Este amigo era um homem do povo, muito pobre, o qual, tendo em sua casa uma das principais personagens de Roma, quis tratá-la do melhor modo que lhe era possível, e mandou seu escravo comprar vinho numa taverna das vizinhanças. O escravo provou e apreciou o vinho em maior quantidade do que habitualmente fazia, e como pedisse uma qualidade melhor e mais cara, o taberneiro perguntou-lhe porque êle não levava, como de costume, vinho novo e comum, mas ao contrário, fazia questão de bebida melhor e mais cara. O escravo respondeu-lhe com simplicidade, tratando-se de um homem a quem conhecia havia muito tempo e tinha como amigo, que seu senhor desejava tratar bem Marco Antônio, o qual se encontrava oculto em sua casa.    Mal o escravo voltara-lhe as costas, o taberneiro, homem mau e desleal, foi correndo à casa de Mário, que estava à mesa, ceando; levado à sua presença, anunciou-lhe que ia entregar-lhe Marco Antônio. Ao ouvir estas palavras, Mário soltou um grito e bateu palmas, tal sua alegria, por pouco não abandonando’ a mesa para ir pessoalmente ao local; mas seus amigos o retiveram, e êle contentou-se em enviar um de seus oficiais, Ânio, à frente de alguns soldados, com ordem de trazer-lhe, sem demora, a cabeça de Marco Antônio, Após chegar à casa onde se encontrava escondido o orador, guiado pelo taverneiro, Ânio ficou junto à porta e ordenou aos soldados que subissem ao quarto; encontraram ali Marco Antônio, mas nenhum deles teve a coragem de desferir o primeiro golpe, e puseram-se a se encorajar uns aos outros; e isto porque a eloqüência do famoso orador, como uma mágica sereia, tinha tanta doçura e encanto, que, logo ao abrir êle a boca para pedir a vida a estes soldados, não houve um sequer com ânimo bastante para olhá-lo de frente, conservando todos os olhos baixos e cheios de lágrimas. Ânio, impacientado pela demora, subiu ao quarto, onde viu os soldados encantados e comovidos ante a eloqüência de Marco Antônio; e, após exprobrar-lhes a covardia, dirigiu-se furioso ao lugar onde se encontrava o orador, e cortou-lhe a cabeça com as próprias mãos.

 

(1)   O famoso orador Marco Antônio, pai do triúnviro.

 

LXXXII Catulo Lutácio, que fora colega de Mário no consulado, e com êle partilhara as honras do triunfo sobre os cimbros, recorreu aos amigos a fim de que intercedessem em seu favor; Mário, no entanto, não lhes deu outra resposta senão esta: . "É preciso que êle morra". Catulo fechou-se então num pequeno quarto, e ateou fogo a uma certa quantidade de carvão, e o fumo produzido sufocou-o. Os corpos daqueles a quem se cortavam as cabeças eram atirados à rua, e pisados; e este espetáculo, não provocava somente a compaixão dos que o viam, mas gelava igualmente todos os corações de medo. Mas nada desagradava e afligia tanto o povo quanto a brutalidade, a insolência e a devassidão dos bar deus os quais, depois de penetrarem à força nas casas e degolarem os seus donos, violavam-lhes os filhos e desonravam-lhes as mulheres, sem que ninguém aparecesse para reprimir a sua crueldade e luxúria insaciáveis. Finalmente, Cina e Sertório resolveram agir, e, numa noite em que dormiam em seu acampamento, massacraram-nos.

LXXXHL Nesta situação deplorável, como que anunciando uma reviravolta nos acontecimentos, chegou, de vários pontos, a notícia de que Sila, depois de terminar a guerra contra Mitrídates, e recuperar as províncias de que este se havia apoderado, estava de regresso à Itália com um poderoso exército. Esta notícia fêz cessar por algum tempo os males e  os  tormentos  indescritíveis  de  que  era teatro  a infeliz Roma, e isto porque aqueles que eram por eles responsáveis viram que estariam em breve às voltas com uma guerra. Mário foi assim eleito cônsul pela sétima vez; e ao sair de sua residência, no dia primeiro de janeiro, que assinalava o começo do ano, para tomar posse do cargo, fêz com que Sexto Lucino se precipitasse do alto da rocha Tar-péia, Esta violência foi como um presságio, um sinal dos horrores e das misérias que ainda iam ocorrer e de que seriam vítimas também os partidários de Mário. Êle próprio, esgotado pelos esforços e fadigas do passado, e com o espírito acabru-nhado pelos sofrimentos e atormentado pela idéia da nova guerra e dos combates que teria de sustentar, dos perigos, das amarguras e das canseiras que teria de enfrentar, e cuja intensidade a sua experiência lhe permitia prever, êle não pôde suportar a cruel inquietação que p assaltava. Considerava que não teria de combater contra um Otávio ou um Mérula, capitães que tinham às suas ordens apenas uma turba sediciosa reunida ao acaso, mas contra Sila, que outrora o havia expulso da pátria e que acabava de repelir Mitrídates até à última extremidade do Ponto Euxino.

LXXXIV. Oprimido sob o peso destas reflexões, e fazendo desfilar diante dos olhos o seu longo exílio, suas fugas, os perigos por que passara em terra e no mar, êle mergulhou na mais cruel das angústias, e tais foram o acabrunhamento e a inquietação de seu espírito que terrores noturnos e sonhos pavorosos lhe impediam o repouso; e supunha ouvir sempre uma voz ameaçadora  gritar-lhe ao  ouvido:

Do  altivo  leão   a   morada   terrível
Mesmo quando ausente parece-nos temível.

Mas como a insônia o apavorasse, começou a promover banquetes extemporâneos, comendo e bebendo além do que ccnvinha à sua idade. Procurava deste modo atrair o sono, no qual encontrava um remédio para os seus males. Chegaram-lhe, finalmente, notícias, vindas do mar, as quais o encheram de novos terrores.

LXXXV, Temendo pelo futuro e abatido pelo peso do infortúnio presente, não foi precisj senão a mais ligeira agravação de seus males para fazê-lo cair gravemente enfermo. Foi atacado de pleurisia, em conseqüência da qual morreu, segundo conta o filósofo Posidônio, que foi vê-lo. em seu leito, a fim de tratar com ele das questões que o tinham levado, numa embaixada, a Roma. Todavia, o historiador Caio Pisão escreve que, um dia, após a ceia, Mário, passeando com alguns amigos, pôs-se a contar as suas aventuras, desde o começo de sua vida; relatou as vicissitudes de bem e de mal que a fortuna o fizera experimentar, concluindo que um homem bem avisado não devia nela confiar, tal a sua inconstância.   Após dizer estas palavras, despedira-se dos amigos, e deitou-se, permanecendo no leito sete dias, findos os quais morreu.

LXXXVI Conta-se que, delirando durante a enfermidade, sua ambição se manifestou de uma maneira estranha. Êle dizia estar comandando o exército romano contra Mitrídates e executava em seu leito os mesmos movimentos, tomava as mesmas atitudes, soltava os mesmos gritos, enfim, fazia tudo o que costumava fazer quando estava no auge de uma batalha: tal a intensidade do desejo de receber o comando naquela guerra, desejo aceso em sua alma pela sua inveja natural e pela sede de mando. E tal era a sua ambição que, na idade de setenta anos, tendo sido o primeiro romano a ser eleito sete vezes para as funções de cônsul, possuindo riquezas que teriam bastado para vários reis, êle se queixou da fortuna, como se ela o tivesse feito morrer pobre e antes de haver obtido o que desejava.

LXXXVII Muito diversa foi a atitude do sábio Platão quando se aproximou o momento da morte. Êle louvou e agradeceu aos deuses e à sua boa fortuna o fato de haver nascido homem e não animal, grego e não bárbaro; e, sobretudo, por ter nascido na mesma época em que vivia Sócrates. De modo semelhante, conta-se que Antípatro de Tarso, recordando, poucos instantes antes da morte, os acontecimentos felizes de sua vida, não se esqueceu de mencionar, entre outras coisas, a feliz viagem por mar que fizera de sua pátria a Atenas; isto demonstrava que êle tinha em grande conta mesmo os menores favores da fortuna, conservando-os até o fim em sua memória, o depositário mais fiel a que o homem possa confiar os seus bens.

LXXXVIIL No entanto, os insensatos e os ingratos para com os deuses e a natureza, deixam passar com o tempo a lembrança de tudo aquilo que lhes acontece; e como nada colocam de reserva em sua memória, vivem sempre destituídos de bens presentes, sempre cheios de esperanças, com os seus olhares invariavelmente voltados para o futuro, e, deixam ao mesmo tempo, fugir o presente. A razão, porém, desejaria que eles fizessem o contrário, porque a fortuna, que lhes pode tirar o futuro, não pode privá-los do passado. Entretanto, eles repelem, expulsando-os de sua memória, os bens que dela já receberam, como se lhes fossem estranhos; e sonham sem cessar com um futuro incerto: justo castigo para a sua ingratidão. Demasiado apressados em acumular o mais que podem destes bens exteriores, antes de lhe dar por fundamento e apoio a razão e a boa doutrina, eles não podem depois satisfazer a sede insaciável de sua alma.

LXXXIX. Mário morreu no décimo-sétimo dia de seu sétimo consulado, e sua morte causou, a princípio, em Roma, uma grande alegria, pois a cidade, retomando coragem, cuidava ter-se livrado de uma sangrenta e cruel tirania. Mas pouco tempo depois, os romanos verificaram, à sua custa, que não tinham senão trocado um senhor velho e alquebrado, prestes a deixar este mundo, por um senhor jovem e cheio de vigor, que não acabava senão de chegar: tantas foram as crueldades e selvagerias praticadas pelo filho de Mário, que fêz morrer as pessoas mais ilustres pelo seu nascimento e pelas suas virtudes. A audácia e a intrepidez diante dos perigos fizeram com que fosse chamado o filho de Marte; mas, em seguida, as suas ações revelaram nele qualidades inteiramente opostas, e foi por isso chamado o filho de Vênus (1). Finalmente, foi cercado por Sila na cidade de Perusa, e como foram vãos todos os seus esforços para salvar a vida e a queda da cidade não lhe deixasse nenhuma esperança de fuga, êle matou-se com suas próprias mãos.

 

 

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