CONSOLANDO O ESPECIALISTA – PAUL FEYERABEND
NOTAS
1. Uma versão anterior deste ensaio foi lido no seminário do Professor Popper em março de 1967 na London School of Economics. Eu gostaria de agradecer ao Professor Popper a oportunidade bem como sua crítica circunstanciada. Confesso-me também grato aos Srs. Howson e Worall pela valiosa ajuda editorial e estilística.
2. A crítica de alguns traços da metodologia contemporânea, que aparece em meus ensaios "Problems in Empiricism, part 2", de 1969, e "Classical Empiricism", de 1970, é apenas um efeito secundário atrasado.
3. Cf. meu ensaio de 1970, "Against Method".
Alguns dos quais foram travados no ora desaparecido Café Olá Europe na Telegraph Avenue e divertia sobremodo os demais fregueses pela sua amistosa veemência
5. Veja, por exemplo, Reagan, "Basic and Applied Research: A meaning-ful Distinction?", 1967, p.1385. Afirma ele: "Nós [isto é, nós, os cientistas sociais] estamos no que Kuhn poderia denominar um estádio "pré-paradigmá-tico" de desenvolvimento, em que o consenso ainda tem de surgir de conceitos básicos e suposições teóricas."
6. A neurofisiologia, a fisiologia e certas partes da psicologia estão muito adiante da física contemporânea no sentido de que conseguem fazer da discussão de fundamentos uma parte essencial até da pesquisa mais específica. Os conceitos nunca se estabilizam de todo mas permanecem abertos e são elucidados, ora por uma, ora por outra teoria. Não há indicação de que o progresso é estorvado pela atitude mais "filosófica" que, de acordo com Kuhn, fundamenta um procedimento dessa natureza (cf. este volume, p. 11). (Desse modo a falta de clareza acerca da idéia de percepção conduziu a muitas investigações empíricas interessantes, algumas das quais deram resultados de todo inesperados e muitíssimo importantes. Cf. Epstein, Varieties of Perceptual Learning, 1967, mormente as pp. 6-18.) Muito ao contrário, encontramos uma consciência maior dos limites do nosso conhecimento, da sua conexão com a natureza humana, e encontramos também uma familiaridade maior com a história do tema e a capacidade não só de registrar, mas também de usar ativamente idéias passadas para o avanço de problemas contemporâneos. Não devemos admitir que tudo isso contraste de’ modo muito favorável com a dedicação sem humor e com o estilo constipado de uma ciência "normal"?
7. Cf. este volume, p. 12.
8. Cf. o ensaio de Kuhn de 1961 intitulado: "The Function of Dogma in Scientific Research", p. 357.
9. Dillinger aprimorou consideravelmente a técnica dos assaltos aos bancos encenando ensaios gerais com modelos em tamanho natural dos bancos que pretendia assaltar e que construía em sua fazenda. Refutou, por esse modo, o "Pioneirismo não Compensa" de Andrew Carnegie.
10. Kuhn, "The Function of Dogma in Scientific Research", 1961, p. 363.
11. Neste volume, p. 15; cf. também p. 12 e nota de pé de pág. n.° 7, à p. 9.
12. Neste volume, p. 9.
13. Neste volume, p. 12; cf. também o livro de Kuhn, The Structure of Scientific Revolutions, 1962, p. 79.
14. "Estou fazendo o que estou fazendo" era uma observação favorita de Austin.
15. Kuhn, "The Function of Dogma in Scientific Research", 1961, p. 363.
16. "Se qualquer um oferece conjecturas acerca da verdade das coisas partindo da mera possibilidade da hipótese, não vejo como se pode determinar a certeza em qualquer ciência; pois é sempre possível engenhar hipóteses, uma depois da outra, que conduzem, segundo se verifica, a novas dificuldades" (Newton, Carta a Pardies, de 10.6.1672).
17. Kuhn, The Structure of Scientific Revolutions, 1962, p. 13.
18. Cf. mais adiante, seção 9.
19. É assim que as doutrinas religiosas ou as doutrinas políticas eram freqüentemente substituídas. O princípio subsiste ainda hoje, conquanto o assassinato já não seja o método aceito. O leitor deve também refletir no reparo de Max Planck segundo o qual as velhas teorias desaparecem porque morrem os seus defensores.
20. Essa formulação do princípio foi sugerida por uma objeção levantada por Isaac Levi contra uma versão anterior.
O princípio de tenacidade, tal como foi formulado no texto, não deve ser confundido com a regra de tenacidade de Putnam (Putnam, " ‘Degree of Confirmation’ and Inductive Logic", 1963, p. 772). Pois ao passo que a regra de Putnam exige que uma teoria seja conservada "a não ser que ela se torne incompatível com os dados" (o grifo é dele), a tenacidade, tal como Kuhn e eu a compreendemos, exige que ela seja conservada ainda que haja dados incompatíveis com ela. Essa versão mais forte cria problemas que não aparecem na metodologia de Putnam e que, sugiro eu, só poderão ser resolvidos se estivermos preparados para utilizar uma multiplicidade de teorias mutuamente incompatíveis a qualquer momento do desenvolvimento do nosso conhecimento. Parece-me que nem Kuhn nem Putnam estão preparados para dar esse passo. Mas enquanto Kuhn vê a necessidade de usar alternativas (veja mais adiante) Putnam exige que o número delas seja sempre reduzido a um ou a zero {ibid. pp, 770 e seguintes).
Lakatos diverge do relato apresentado no texto
em dois sentidos. Distingue
entre teoria e programas de
pesquisa. E só aplica a tenacidade aos programas
de pesquisa. –’
Ora, se bem eu admita que a distinção e o uso que ele faz dela possam aumentar a clareza, continuo inclinado a permanecer fiel ao meu termo "teoria", muito mais vago, (sobre uma explicação parcial desse termo, ei. minha nota de rodapé n.° 5, "Reply to Criticism", 1965) que tanto abrange a§ "teorias" quanto os "programas de pesquisa" de Lakatos, para ligá-lo com. tenacidade, e eliminar de todo as formas mais simples de refutação. Uma razão dessa preferência é dada pelo próprio Lakatos; até simples refutações envolvem uma pluralidade de teorias (veja especialmente o seu ensaio neste volume, pp. 147 e seguintes). Outra razão é a minha crença de que só a interação ativa de "teorias" diferentes gera o progresso, o que, naturalmente, presume que o componente "programa de pesquisa" não aparece de vez em quando, mas está presente o tempo todo (cf. também mais adiante, seção 9).
21. Foi preciso que se passassem uns vinte e cinco anos para que as perturbações da repetição da experiência de Michelson e Morley por D. C. Miller fossem explicadas de modo satisfatório. H. A. Lorentz havia desistido, desesperado, muito antes disso.
22. Cf. o seu ensaio de 1968, "Changes in the Problem of Inductive Logic".
23. Sobre pormenores relativos à "diferença de fase" entre as teorias e as ciências auxiliares correspondentes, cf. meu trabalho intitulado "Problems in Empiricism, part 2". A idéia já ocorre no ensaio de Lakatos de 1963-4, "Proofs and Refutations"; é um lugar-comum para Lenin e Trotsky (cf. meu ensaio de 1969, "Problems in Empiricism, part 2").
24. Claro está que essa não é toda a história — mas este esboço é mais do que suficiente para o nosso propósito.Observe-se que o argumento de Kuhn em favor da tenacidade (necessidade de um fundo racional de raciocínio) também não é violado, visto que a melhor teoria também fornecerá, naturalmente, melhores padrões de racionalidade e excelência.
25. Kuhn, "The Function óf Dogma in Scientific Research", 1961, p. 349.
26. Ibid. p. 393.
27. lbid. p. 350.
28. Ibid. p. 393.
29. Kuhn, "The Function of Dogma in Scientific Research", 1961, p. 363.
30. Neste volume, p. 9.
31. Neste volume, p. 12; cf. também Kuhn, The Structure of Scientific Revolutions, p. 79.
32. Kuhn, "The Function of Dogma in Scientific Research", 1961, p. 388.
33. Neste volume, p. 12.
34. "Filosófico" no sentido de Kuhn (e de Popper) e não no sentido, digamos, da filosofia lingüística contemporânea.
35. Cf. o ensaio de Kuhn de 1961 intitulado "Measurement in Modern Physical Science" e também o meu reconhecimento no meu ensaio, "Explana-tion, Reduction and Empiricism", de 1962, p. 32.
36. Um distúrbio de menor importância, ainda acessível ao tratamento, pode ver-se, de outro ponto de vista, como exemplo contrário, e assim, como causa de crise" (Kuhn, The Structure of Scientific Revolutions, p. 79). "A proposta astronômica de Copérnico… criou uma crise crescente para… o paradigma de que ela se originara" {ibid. p. 74; o grifo é meu). "Os paradigmas não são corrigíveis pela ciência normal de maneira alguma" (ibid. p. 121; o grifo é meu).
37. Kuhn, The Structure of Scientific Revolutions, 1962, pp. 80 e seguintes e p. 145.
38. Cf. minha discussão na seção VI do meu ensaio de 1965, "Probleras of Empiricism".
39. Poder-se-á objetar que a atividade de resolução de enigmas, embora insuficiente para provocar uma revolução, é necessária, pois cria o material que acaba conduzindo à dificuldade: a resolução de enigmas é responsável por algumas condições de que depende o progresso científico. Os pré-socráticos que progrediram (suas teorias não se limitaram a mudar, foram também aprimoradas) sem dar a menor atenção a enigmas refutam essa objeção. Está visto que eles não produziram o padrão: ciência normal-revolução-ciência normal-revolução, etc, em que a estupidez profissional é periodicamente substituída por explosões filosóficas só para voltar de novo a um "nível mais elevado". Não há dúvida, porém, de que esta é uma vantagem, que nos permite ter a mente aberta durante o tempo todo e não apenas no meio de uma catástrofe. Além disso — não é a "ciência normal" cheia de "fatos" e "enigmas" qüe pertence, não ao paradigma vigente, mas a alguns predecessores? E não se dá também o caso de fatos anômalos serem freqüentemente apresentados pelos críticos de um paradigma, em lugar de serem usados por eles como ponto de partida da crítica? E se isso é verdade, disso não se segue que a proliferação, muito mais que o padrão normaíídade-proliferação-normalidade, caracteriza a ciência? De modo que a posição de Kuhn seria não só metodologicamente insustentável (veja a seção anterior) mas também historicamente falsa?
40. Os filósofos analíticos modernos estão tentando mostrar que essa avaliação é até logicamente impossível. Nisto são apenas seguidores de Hegel — com uma diferença: falta-lhes o saber, a perceptividade e o espírito do mestre.
41. Creio que a análise de Lakatos pode ser ainda aperfeiçoada se se abandonar a distinção entre teorias e programas de pesquisa (cf. mais acima, p. 252, nota de rodapé n.° 20) e se admitir a incomensurabilidade (saltando da quantidade para a qualidade na linguagem do materialismo dialético). Melhorada dessa maneira, seria um relato verdadeiramente dialético do nosso conhecimento.
42. Para tomar apenas um exemplo, Kuhn escreve (neste volume, p. 11) que "os profissionais são treinados para a prática normal e não para a prática extraordinária da ciência; se se mostram, apesar disso, eminentemente bem–sucedidos no suplantar e no substituir as teorias de que depende a ciência normal, essa é uma singularidade que precisa ser explicada". É, sem dúvida, uma singularidade no relato de Kuhn. Em nosso relato só precisamos chamar a atenção para o fato de serem as revoluções feitas, em sua maioria, por membros do componente filosófico que, embora cônscios da prática normal, são também capazes de pensar de maneira diferente (no caso de Einstein a capacidade autoprofessada de escapar do treinamento normal era essencial à na liberdade de pensamento e a suas descobertas).
43. É plausível presumir que uma das causas da transição para a ciência madura com suas várias tradições "quase independentes" deve ser procurada no decreto da Igreja Católica Apostólica Romana contra o ponto de vista coperniciano. "Isso há de ser levado em conta pelos que tentam explicar o desenvolvimento especial das muitas ciências individuais e a ausência de uma base filosófica consciente e segura considerando-a como peculiaridade da cultura italiana do século XVII… Uma interpretação dessa natureza presume… que a condenação de Galileu foi apenas uma pressão externa, que não poderia ter influído no desenvolvimento de assuntos espirituais. Entretanto, considerou-se o julgamento romano como restrição de consciência que só se poderia quebrar com risco de vida e da salvação… Era permitido o desenvolvimento de disciplinas individuais. Ninguém foi impedido de esquadrinhar os céus, estudar os fenômenos físicos, pensar matematicamente… e promover a cultura material por meio de uma atividade dessa natureza. Sacerdotes e ordens religiosas, e até os jesuítas, responsáveis pelo destino de Galileu, exerceram, diligentes, essas tarefas restritas. Mas a consciência individual, assim como os onipresentes "directeurs de conscience", os funcionários, as escolas, as igrejas, o Estado observavam com cuidado essa luta simples pelo saber a fim de que ninguém se atrevesse a utilizar-lhe os resultados na especulação filosófica". (Leonardo Olschki, Gerschinchte der neusprachlichen wissenschaftli-chen Literatur, J, Galilei und seine Zeit, 1927, p. 400). Foi assim que a "ciência madura" veio a existir, pelo menos nos países católicos. Cf. também o capítulo IX de Galileo und sein Kamp für die Kopernikanische Lehre, 2, 1926, de Wohlwill, onde o desenvolvimento depois da morte de Galileu é esboçado com minúcias.
44. Cf. mais acima, p. 252, nota de pé de página n.° 20.
45. Os índices são projetados como crítica irônica de Lakatos, "Criticism and the Methodology of Scientific Research Programmes", 1968, em que foi apresentada pela primeira vez a prática de dividir um sujeito em três. (Cf. também neste volume, p. 224.) Essa prática criou muita confusão e retardou os filósofos que tentavam encontrar os pontos fracos do racionalismo crítico.
46. Neste volume, pp. 164, 194 e 214.
47. Popper, "Fact, Standards, and Truth: a further criticism of relati-vism", 1961, p. 388.
48. Loc. cit. p. 390.
49. Loc. cit. p. 390.
50. Loc. cit. p. 391,
51. Popper, The Opcn Society and its Encmics, 1945, capítulo 24.
52. Neste volume, p. 220.
53. Neste volume, p. 222.
54. Aqui me refiro aos ensaios de Popper intitulados "Epistemology without a Knowing Subject" e "On the Theory of the Objective Mind", ambos de 1968. No primeiro se atribuem ninhos de passarinho ao "Terceiro Mundo" (p. 341) e presume-se uma interação entre eles e os mundos restantes. São atribuídos ao Terceiro Mundo por causa da sua função. Mas também se encontram pedras e rios nesse terceiro mundo, pois um pássaro pode pousar numa pedra ou banhar-se num rio. Em realidade, tudo o que é notado por algum organismo (e, portanto, desempenha um papel em seu Vmwelt) será encontrado no terceiro mundo que conterá, por conseguinte, todo o mundo material e todos os erros que a humanidade cometeu. Conterá também a "psicologia das multidões".
55. Cf. meu ensaio "Problems in Empiricism, part 2", de 1969.
56. Loc. cit. p. 391,
57. Popper, The Opcn Society and its Encmics, 1945, capítulo 24.
58. Neste volume, p. 220.
59. A área debaixo de T’ deveria ser imaginada como se jazesse defronte da área debaixo de T, ou atrás dela, de modo que não há sobreposição.
60. Ê possível basear as estruturas de espaço e tempo unicamente nesse novo elemento e evitar a contaminação por modos anteriores de pensar. A única coisa que precisamos fazer é substituir distâncias por tempos-luz e tratar os intervalos de tempo da maneira relativista, por exemplo, usando o Cálculo-K.
(Cf. o capítulo II do ‘ensaio de Synge intitulado "Introduction to General Relativity", de 1964. Sobre o cálculo-K, cf. o livro de Bondi publicado em 1967 Assumption ad Myth in Physical Theory, pp. 29 e seguintes, bem como D capítulo XXVI da obra de Bohm publicada cm 1965, The Special Theory of Relativity). Os conceitos resultantes (de distância, velocidade, tempo, etc.) são uma parte necessária da relatividade no sentido de que todas as idéias ulteriorcs, como a do comprimento definido pelo transporte de hastes rígidas precisam ser mudadas c adaptadas a eles. Eles bastam, portanto, para explicar a relatividade.
Marzke e Wheeler. em seu ensaio de 1963, "Gravitation and Geometry: lhe geometry of space-time and geomctrodynamical standard meter", apresentaram um relato circunstanciado da maneira com que a teoria da relatividade pode ser libertada de ingredientes externos. Adotam o princípio, que atribuem a Bohr e Rosenfeld, de "que toda teoria adequada deve prover por si mesma aos próprios meios para definir as quantidades com que lida. De acordo com esse princípio, à relatividade geral clássica cumpriria admitir aferições de espaço e tempo livres de qualquer referência ao quantum de ação [para relógios atômicos ou distâncias mínimas]" ou "hastes rígidas" como as descritas, digamos, pela teoria não-rclativista da elasticidade (p. 48). Eks passam a construir relógios c medidores que só usam as propriedades das trajetórias da luz e da partícula inerte (pp. 53-6). A igualdade das distâncias medidas por esses relógios e medidores é intransitiva num universo clássico, transitiva num universo relativista. Os resultados das medidas de distância desse tipo são invariantes de translações num universo relativista, porém menos invarian-tes num universo clássico. Dois acontecimentos diferentes são sempre separados por uma distância finita num universo relativista, mas nem sempre são tão separados num universo clássico. A unidade de mensuração no universo relativista é o intervalo entre os dois cquinócios efetivos de 1900 e pode ser comparada com qualquer intervalo (espacial ou temporal) de um modo inva-riante. Nenhuma comparação dessa natureza é possível no caso clássico (p. 62). O número 3.108 nunca aparece. A importância dos raios de luz e do cone de luz na geometria intrínseca da física vem mais diretamente à superfície. A verdadeira função da velocidade da luz já não .se confunde com à tarefa trivial de relacionar duas unidades separadas de intervalo, o metro e o segundo, de origem puramente histórica e acidental" (p. 56). A teoria da relatividade geral, portanto, como se vê, "prove aos próprios meios de definir intervalos de espaço e tempo" (p. 62) e os intervalos assim definidos são incomensuráveis com os intervalos clássicos.
A falta de espaço não nos permite apresentar com detalhes este caso interessante, mas espera-se que os que giram em torno do problema da inco-mnsurabilidade se utilizem de Marzke e Wheeler como base para uma discussão concreta.
58. Sobre este ponto e sobre argumentos adicionais, cf. o livro de Ed-dington, The Mathematical Theory of Relativity (1924), p. 33.
59. Isto liquida uma objeção que John Watkins levantou em várias ocasiões.
60. Sobre outros pormenores, especialmente relativos ao conceito de massa, à função das "leis de ponte" ou "regras de correspondência", e ao modelo de duas linguagens, cf. seção IV do meu ensaio de 1965, "Problems of Empiricism". É claro que, dada a situação descrita no texto, não podemos derivar a mecânica clássica da relatividade, nem mesmo aproximadamente (por exemplo, não podemos derivar a lei clássica da conservação da massa de uma lei relativista correspondente). A possibilidade de ligar as fórmulas das duas disciplinas de modo capaz de satisfazer a um matemático puro (ou a um instrumentálísta) não está, porém, excluída. Sobre uma situação análoga no caso da mecânica quântica cf. a seção n.° 3 do meu ensaio de 1968-9, "On a Recent Critique of Complementarity". Cf. também a seção n.° 2 do mesmo ensaio sobre considerações mais gerais.
61. Cf. Carnap, "The Methodological Character of Theoretical Concepts, 1956, p. 47.
62. Um princípio ainda mais conservador é às vezes usado quando se discute a possibilidade de linguagens com uma lógica diferente da nossa. Assim, no ensaio que escreveu em 1968, "Convencionalism and the Indeter-minacy of Translation", discutindo, e não apenas expondo o princípio, diz Strout que "qualquer possibilidade presumivelmente nova precisa poder ajustar-se ao nosso atual aparelho conceituai ou lingüístico, ou ser compreendida em função desse aparelho"; disso se segue que "qualquer ‘alternativa’ é alguma coisa que já compreendemos e que tem sentido para nós, ou não é nenhuma alternativa". O que se passa por alto é que uma alternativa inicialmente não compreendida pode ser aprendida do modo pelo qual aprendemos uma língua nova e não-familiar, não por tradução, mas por vivermos com os membros da comunidade em que a língua é falada.
63. À guisa de exemplo, convida-se o leitor a consultar Piaget, The Construction of Reality in the Child, 1954.
64. Piaget, The Consíruction of Reality in the Child (1954), pp. 5 e seguintes.
65. Cf. o ensaio de Lakatos, neste volume, à p. 222, nota de pé de página n.° 335.
66. Sobre a condição da pesquisa formulada na última sentença, cf. a seção n.° 8 de meu ensaio "Reply to Criticism", de 1965. Sobre o papel da observação, cf. a seção n.° 7 do mesmo trabalho. Sobre a aplicação da obra de Piaget à física e, mais especialmente, à teoria da relatividade, cf. o apêndice do livro de Bohm, The Special Theory of Relativity (1965). Bohm e Schu-macher também analisaram as diferentes estruturas informais que fundamentam nossas teorias. Uma das principais conclusões da sua obra é que Bohr e Einstein argumentaram de pontos de vista incomensuráveis. Visto desse modo, o caso de Einstein, Podolski e Rosen não pode refutar a interpretação de Copenhaguc, nem pode ser refutado por ela. Temos assim duas teorias, uma que nos permite formular a experiência-pensamento de Einstein-Podolski-Rosen, outra que não fornece a maquinaria necessária a essa formulação, de modo que precisamos encontrar meios independentes de decidir qual delas adotar. Sobre novos comentários acerca desse problema, cf. a seção n.° 9 do meu ensaio "On a Recent Critique of Complementarity", de 1968-9.
67. Sobre o que se segue, veja também minha Crítica da "Structure of Science", de Nagel.
68. Carnap, "The Methodological Character of Theoretical Concepts" (1956), p. 40. Cf. também Hempel, Philosophy of Natural Science (1966), pp. 74 e seguintes.
69. Sobre exemplos dessas descrições cf. Synge, "Introduction to General Relativity" (1964).
70. Sobre este ponto cf. a 1." seção do meu ensaio "Reply to Criticism", bem como o meu ensaio "Problems of Empiricism", ambos de 1965.
71. Sobre este problema de "alienação" cf. Marx, Nationalõkonomie und Philosophie e "Zur Kritik der Hegelschen Rechtsphilosophie", ambos os trabalhos de 1844.
72. Popper tem reiterado, tanto nas conferências quanto nos escritos que enquanto há progresso nas ciências não há progresso nas artes. Ele baseia sua afirmativa na crença de que o conteúdo de teorias que se sucedem pode ser comparado e que é possível fazer um julgamento de verossimilhança. A refu-tação dessa crença elimina uma diferença importante (talvez a única diferença importante) entre a ciência e as artes e permite que se fale em estilos e preferências na primeira e em progresso nas segundas.
73. Cf. Brecht, "Über das Zerpflücken von Gedichten" (1964), p. 119. Nas conferências que tenho pronunciado sobre minha teoria do conhecimento costumo apresentar e discutir a tese de que descobrir uma nova teoria para determinados fatos é como descobrir uma nova produção para uma peça conhecida. Sobre pintura, cf. também Gombrich, Art and Illusion, 1960.
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