A ESTEPE (História de uma viagem) – Novela de Tchecov
Antón Tchecov
A ESTEPE
(HISTÓRIA DE UMA
VIAGEM)
Tradução de Costa Neves. Fonte: Clássicos Jackson.
I
DA cidade de N, na província de Z…, saiu ruidosamente, numa bela manhã de julho, e tomou a estrada da posta uma briska sem molas, suja, arrebentada, um desses veículos anti-diluvianos em que, na Rússia, só viajavam, então, os representantes comerciais, os negociantes de gado e os padres pobres. A briska rinchava ao menor movimento. O balde amarrado à retaguarda, respondia tristemente. Por esses rinchos e pelos míseros pedaços de couro a se balançar sobre sua carcassa sem pintura, boa para o fogo, podia-se julgar o seu tempo de serviço.
Na briska estavam sentados dois moradores de N…; um negociante barbeado, de óculos, chapéu de palha, Ivanovitch Kusmitchov, parecendo mais um funcionário público do que um homem de negócios, e o padre Cristóforo Siriiski, arcipreste da igreja de São Nicolau. Era um velhote de cabelos compridos, trajando um cafetan de grosseiro pano cinzento, chapéu de copa alta e abas largas e cinto de cor, bordado. O primeiro viajante parecia absorvido em seus pensamentos e sacudia a cabeça para afugentar a sonolência que o vencia. Em seu rosto, a sequidão habitual dos homens de negócios lutava com a benévola placidez de um cidadão que acaba de despedir-se dos seus e bebeu razoavelmente. O segundo viajante contemplava com seus pequeninos olhos hú-midos o mundo de Deus e sorria tão amplamente que se tinha a impressão de que o seu sorriso tocasse as bordas de seu alto chapéu de forma. Tinha o rosto vermelho como se fizesse frio. Ambos, tanto o padre Cristóforo como Kusmitchov, iam vender lã. Ao deixarem seus parentes, tinham comido sonhos com creme azedo, e, apesar da hora matinal, já haviam virado bastante voãka... Estavam os dois com excelente disposição de ânimo.
Com esses personagens que acabamos de descrever, e o cocheiro Denisska, que fustigava incessantemente um belo par de nervosos cavalos, baio-escuros, encontrava-se ainda, na brisha, um outro viajante. Um menino de dez anos, de rosto trigueiro, inundado de lágrimas. Era Iegôruchka, sobrinho de Kusmitchov.
Com o consentimento de seu tio e acompanhado da bênção do padre Cristóforo, partia ele não sabia para onde, a fim de ingressar no liceu. Sua mãe, Olga Ivánovna, viúva de um funcionário civil, e irmã de Kusmitchov, admirava as pessoas cultas e de boa sociedade. Suplicara, insistentemente, ao irmão de levar Iegôruchka em sua companhia para interná-lo no liceu. Entretanto o menino, assentado ali, ao lado de Denisska, não percebia nem para onde ia nem o motivo de sua viagem. Segurava o cocheiro pelo cotovelo para não cair, e. pulava como uma chaleira a ferver sobre o fogo. Em vista da velocidade do carro, sua camisa vermelha se intumescia sobre o peito como um balão e o chapéu de postilhão, novo em folha, com vistosa pena de pavão, tombava-lhe a cada instante sobre a nuca. Tudo isto o fazia imensamente infeliz e o fazia chorar.
Quando a briska passou diante da prisão, Iegô-ruchka viu os sentinelas que faziam tranqüilamente seu plantão junto da alta muralha branca, as pequenas janelas gradeadas e a cruz que lhe encimava o tecto. Lembrou-se de que certa vez, coisa de semana, no dia de Nossa Senhora de Kazan, havia ido com sua mãe à igreja da prisão, por ser dia de sua padroeira. Lembrou-se ainda de que, uma outra vez, fora à prisão com Denisska e a cozinheira Liudmila, e levara aos prisioneiros presentes de Páscoa, ovos coloridos, fígado e carne assada. Os prisioneiros lhe agradeciam persignando-se e um deles fez-lhe presente de botões de chumbo para punho, de sua fabricação.
O garoto procurava cuidadosamente ver todos os recantos que conhecia, mas a detestável briska voava, deixando tudo num instante para trás. Depois da prisão, apareceram e desapareceram as forjas, negras e fumarentas; em seguida o cemitério, risonho e verdejante, cercado por um paredão de grandes pedras, atrás do qual surgiam alegremente as cruzes e os mausoléus brancos, escondidos no verdor das cerejeiras, lembrando, ao longe, pintas brancas. Iegô-ruchka lembrou que, quando amadureciam as cerejas, as cruzes e os mausoléus ficavam salpicados de pontos vermelhos como sangue. Por trás daquele muro dormiam noite e dia seu pai e sua avó, Zinaida Danilovna. Quando morreu sua avó, deitaram-na num comprido e estreito caixão, e sobre seus olhos que não se queriam fechar puseram duas moedas de cinco copeks.
Atrás do cemitério fumegavam as olarias. Uma fumaça espessa e negra saía em grandes flocos de debaixo de seus longos telhados de caniço, achatados sobre a terra, e elevava-se preguiçosamente no ar. O céu por cima das usinas e do cemitério era fusco e as grandes sombras dos penachos de fumo deslizavam sobre os campos e sobre a estrada. No meio dessa fumaça, perto dos tectos, moviam-se homens e cavalos, cobertos de poeira vermelha.
Depois das usinas, começava a campina. Iegôru-chka virou-se ainda uma vez para a cidade, apoiou a cabeça no ombro de Denisska e começou a chorar amargamente.
— Vamos, menino mimado, ainda não choraste bastante?… repreendeu-lhe o tio. Se não queres ir, fica aqui; ninguém te leva à força.
— Não é nada, não é nada, meu menino, resmungou vivamente o padre Cristóforo; não é nada, Iegôruchka… Chama por Deus!… Não partes para praticares o mal, e sim para praticares o bem. O estudo, como se diz, é a luz, e a ignorância são as trevas… Em verdade te digo…
— Queres voltar 1 perguntou Kusmitchov.
— Eu… eu… quero, sim, respondeu Iegôruchka a soluçar.
— Pois bem, volta!… Porque, desse jeito, é fazer uma viagem inútil. Não vale a pena, como se costuma dizer, fazer-se sete verstas para comer um pouco de geléia.
— Não é nada, não é nada, meu pequeno!… repetiu o padre Cristóf oro; chama por Deus… Lomonôssov deixou sua casa mais ou menos como tu, com alguns negociantes de peixe, e tornou-se um homem conhecido em toda a Europa. Os conhecimentos que a gente obtém com a fé dão frutos agradáveis a Deus. Que dizemos na oração: "Pela glória do Criador; pela consolação de nossos pais; pelo proveito da Igreja e da Pátria…’"? Àí está.
— O proveito não é o mesmo para todos…, observou Ivusmitchov, acendendo um cigarro de má qualidade. A uns a ciência dá proveito, a outros só serve para confundir o espírito. Minha irmã é uma mulher sem compreensão. Ela aspira a tudo que é nobre e quer fazer de Iegôruchka um sábio; e não compreende que eu, no meu negócio, faria a felicidade desse menino por toda a vida. Paço esta observação a ti, porque se todos quisessem tornar-se sábios não haveria mais gente para o comércio e para semear o trigo. Morreria o mundo inteiro de fome.
— Mas se todos fizerem o comércio e semearem trigo, não sobrará ninguém para os estudos.
E pensando, ambos, que tivessem dito algo de decisivo, Kusmitchov e o padre Cristóforo tomaram ares de suma gravidade e tossiram ao mesmo tempo. Denisska, que havia prestado atenção à conversa sem nada compreender, sacudiu a cabeça, ergueu-se na boleia e fustigou os dois baios. O silêncio voltou a reinar.
Enquanto isto, diante dos olhos dos viajantes descortinou-se uma vasta planície cortada por uma cadeia de colinas. Apertadas, parecendo espiar umas por cima das outras, essas colinas terminavam num planalto que se prolongava à direita da estrada até o horizonte e desaparecia na distância violácea Anda-se, anda-se, e não se pode perceber nem onde este planalto começa nem onde termina… O sol, por detrás da cidade, já lançara sobre a terra o seu primeiro olhar e, docemente, sem pressa, entregou-se à faina diária. A princípio, longe ainda, no local onde o céu se junta à terra, perto das pequenas colinas e do moinho de vento que na distância parece um homenzinho agitando os braços, ele traça no solo uma larga faixa de um amarelo vivo. Um minuto depois, uma faixa semelhante brilhou mais perto, deslizou à direita e alcançou as colinas. Algo quente bateu no ombro de Iegôruchka. Uma faixa de luz, vindo furtivamente por trás do carro, caiu sobre ele e os cavalos, correu celeremente ao encontro cie outras faixas e, de repente, toda a vasta estepe, despojando-se da penumbra matinal, sorriu e resplandeceu com o orvalho.
O centeio, ceifado, as ervas, o eufórbio, o cânhamo bravo, tudo o que o calor havia crestado, secado, quase matado, revivescia regado pelo orvalho e acariciado pelo sol, para novamente murchar. Sobre a estrada, procelárias árcticas voejavam com gritos alegres. Na vegetação, pequenos animais se entre-chamavam. Algures, os pavões russos pareciam chorar. Um bando de perdizes, espantadas com a briska, voou com o seu brando trrr em direção das colinas. Os grilos, os gafanhotos, os bezouros começaram dentro da erva sua canção rangente e monótona.
Mas passou-se algum tempo e o orvalho evaporou-se; o ar tornou-se calmo e a estepe, decepcionada, readquiriu seu tristonho aspecto de julho. A erva inclinou-se; cessou a vida. As colinas tostadas, de um verde barrento, lilases ao longe, com seus tons severos; a planície, que se perdia em vaporosidades e sobre a qual o céu parecia dobrar-se — céu que na estepe, onde não há nem bosques nem montanhas, parece terrivelmente profundo e transparente — surgiam agora sem fim, impregnadas de tristeza… Como o ar está pesado e triste! O carro vai em disparada e Iegôruchka vê sempre a mesma coisa: o céu, a planície, as colinas… A música cessou na vegetação. Foram-se embora as procelá-rias. Não mais se vêem as perdizes. Por cima da vegetação murcha, rodopiam, sem saber o que fazer, gralhas semelhantes umas às outras, tornando a estepe ainda mais monótona.
Um milhaíre roça o solo, a bater as asas com regularidade, e de repente paira no ar como se pensasse na tristeza da vida; depois sacode as asas e voa precipitadamente sobre a estepe. E fica-se sem saber por que ele voa e de que ele necessita. Ao longe, um moinho roda as suas asas.
(1) Há na estepe enormes estátuas, primitivas, que vieram não se sabe de onde.
Para variar, brilha entre as ervas um crânio branco ou um calhau de bom tamanho. Por um instante, surge uma estátua de mulher, de pedra cinzenta, gasta pelo tempo (1), ou um salgueiro ressequido onde se vê pousado, no mais alto ramo, um gaio azul. Uma marmota atravessa a estrada. E de novo, diante deles, a alta vegetação, as colinas e as gralhas…
Mas, Deus do céu, eis que chega uma carroça com feixes de trigo! Em cima vem deitada uma jovem. Sonolenta, extenuada, ela levanta a cabeça e olha os viajantes. Denisska a contempla. Os baios esticam os íoeinhos para o trigo. A briska roça, a ranger, a carroça e as espigas, picantes como uma vassoura de bétula, arrepiam o chapéu de copa alta do padre Cristóforo.
— Oh, desgraçado, tu te lanças em cima da gente l berrou-lhe Denisska. Tens o nariz tão vermelho que parece mordido por uma vespa!
Meio adormecida, a moça sorriu e, após resmungar qualquer coisa, tornou-se a recostar… Mas eis, erguido sobre a colina, um olmo. Quem o plantou e por que está ali ? Deus o sabe! É difícil desviar-se os olhos de sua silhueta esbelta e de sua roupagem verde. Será feliz aquela bela árvore? No verão, o calor; no inverno, as tempestades de neve. No outono, as noites tenebrosas e medonhas, em que só há escuridão e zune o vento sem motivo algum. E principalmente viver toda a sua vida sozinho, sozinho !…
Atrás do olmo, como um tapete de berrante amarelo estende-se, do alto da colina até o caminho, o campo de trigo. Sobre a colina, o trigo já está ceifado e empilhado em feixes. Mas em baixo, ceifa-se de rijo… Seis ceifeiros, em linha, brandem as foices, que brilham alegremente e fazem um ruído sibilante e ritmado: vji, vji… Pelo movimento das mulheres que amarram os feixes, pela fisionomia dos ceifeiros, pelo brilho das foices, vê-se que o calor queima e sufoca. Um cachorro preto, de língua pendente, abandonando os ceifeiros, lança-se sobre a briska com a intenção de latir; mas pára no meio do caminho, e olha com indiferença Denisska que o ameaça com o chicote: faz demasiado calor para latir. Uma das mulheres se levanta, sustentando com as duas mãos as costas cansadas, e acompanha com os olhos a camisa vermelha de Iegôruchka. A cor lhe teria agradado ou se lembrava dos filhos1? Fica durante muito tempo imóvel, seguindo-o com o olhar…
Mas também o trigo ficou à retaguarda. Novamente as planícies crestadas, as colinas pardas, o céu em brasa. À distância, como dantes, o moinho gira as suas asas, sempre a parecer um honienzinho agitando os braços; é enfadonho olhar-se e parece que jamais se chegará até onde ele está pois que foge diante do carro.
O padre Cristóforo mantinha-se calado. Denisska chicoteava os baios e lhes enviava um grito de quando em quando. Iegôruchka não chorava mais, olhando com indiferença para todos os lados. O calor e a tristeza da estepe o tinham cansado. Parecia-lho que rodava e saltava havia muito tempo e que havia muito tempo o sol lhe queimava as costas. Não haviam feito ainda dez verstas e ele já pensava: "Seria bom parar". Desaparecera pouco a pouco do rosto de seu tio a expressão benévola; restava apenas a rigidez do homem de negócios; e para um rosto barbeado, magro, de óculos, com as têmporas e o nariz recobertos de poeira, tal rigidez emprestava um ar inquisitorial, implacável. O padre Cristóforo não cessava de contemplar com espanto o imenso mundo e de sorrir. Pensava silenciosamente em alguma coisa boa e alegre, e um sorriso benfazejo e bom fixara-se sobre suas feições. Tinha-se a impressão de que o calor fizera parar em seu cérebro o pensamento correspondente a esse sorriso.
— Muito bem,
Denisska, indagou Kusmitchov,
será que alcançaremos hoje as carroças?
Denisska olhou o céu, ergueu-se um pouco, espicaçou os cavalos e só então respondeu:
— De noite, se Deus quiser, os
pegaremos…
Ecoou um latido. Seis enormes cães pastores, das estepes, surgiram de
repente como de uma emboscada e lançaram-se com uivos furiosos sobre o
veículo. Todos extraordinariamente maus, com fo-cinhos que lembravam aranhas
cabeludas, e olhos rubros de cólera, rodearam a briska e empurrando-se
ciumentamente uns aos outros davam roucos latidos. Pareciam prestes a reduzir a
frangalhos as pessoas, os cavalos e a briska. Denisska, maldoso, e que
gostava de usar o chicote, sentiu-se feliz com tal oportunidade. Assumindo
uma expressão de provocante alegria, abaixou-se e deu uma lambada num dos cães.
A matilha pôs-se a uivar com mais força; os cavalos pinotearam, e Iegôruchka,
que se mantinha com dificuldade na boleia e examinava os olhos e os dentes das
feras, compreendia que se caísse no chão seria instantaneamente reduzido a
pedaços. Mas não sentia medo e os olhava com alegria tão maldosa quanto a de
Denisska; e sentia não ter também um chicote. .
A briska chegou perto de um rebanho de ovelhas.
— Pára.! bradou Kusmitchov. Segura os cavalos! Oh, oh, oh!
Denisska lançou-se para trás com toda a força de seu corpo e parou os baios; a briska se imobilizou.
— Vem aqui! gritou Kusmitchov ao pastor… Acalma teus cães; bichos malditos!
O velho pastor, esfarrapado e descalço, com um gorro de inverno, uma bolsa suja a tiracolo e um longo bastão retorcido, uma perfeita figura do Antigo Testamento, sossegou os cães. E tendo tirado o gorro, acercou-se do carro. Uma idêntica figura bíblica, mantinha-se imóvel do outro lado do rebanho; mirava os viajantes com indiferença.
— De quem é esse rebanho ? inquiriu Kusmitchov,
— De Varlâmov, respondeu o velho com voz forte.
— De Varlâmov, repetiu a outra figura bíblica.
— Varlâmov passou por aqui ontem’?
— Não, senhor… Seu empregado passou, sem dúvida…
— Toca!
A briska afastou-se, e os pastores e seus cães malvados ficaram para trás. Iegôruchka olhava maquinalmente diante de si o distante tom violáceo e começava a lhe parecer que o moinho se aproximava sempre a agitar os braços; ia crescendo, ia crescendo. Afinal mostrou-se de talhe inteiro e pôde-se distinguir perfeitamente suas duas asas. Uma era velha, remendada, a outra, recentemente refeita de madeira nova, reluzia ao sol.
A briska voava em linha reta e o moinho parecia escapar pela esquerda; andava-se, andava-se, e ele sempre escapando pela esquerda, sem nunca desaparecer.Boltva construiu um belo moinho para o filho, observou Denisska.
— Mas não se vê a sua fazenda?
— Fica lá em baixo, atrás da colina.
Não tardou a se mostrar a fazenda de Boltva; o moinho de vento ainda não desaparecera, não arredava pé; fitava Iegôruchka com sua asa reluzente e rodava, rodava… Que feiticeiro!
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