Das Principais Vantagens da Deseducação para a Coletividade e para o Indivíduo
Das Principais Vantagens da Deseducação para a Coletividade e para o Indivíduo
THIAGO FELIPE SEBBEN
Introdução
A proposta desse texto: mostrar as principais vantagens da deseducação para a coletividade e para o indivíduo, de modo a valorizá-la como instrumento que permita a afirmação da vida em seu mais alto grau de importância, incentivando a implantação dessa forma assistemática de educação. Tal proposta justifica-se pelo entendimento de que a vida digna é o valor máximo do humano e que qualquer forma de organização e sistematização social – incluindo suas macroestruturas, como é o caso da educação – que subleve esse valor é sintoma da decadência humana que assola a cultura ocidental. Ora, esclarecido o “o quê” e o “porque”, resta saber o “como”. E aqui adentro no campo filosófico-artístico: o aforismo. Forma da linguagem que permite a interação entre o objetivo e o subjetivo, entre a filosofia e a psicologia, entre o racionalmente-construído e o artisticamente-fabricado; o aforismo tem espaço para o devaneio do autor que enseja imaginações nos leitores, bem como para conceitos objetivos que estabelecem critérios e medidas. A opção por tal forma de se fazer conhecimento se dá, certamente, em consonância com a proposta de experimentar o pensamento, de criar o novo, mesmo que, num primeiro momento, seja apenas criação teórica.
O que é “vantagem”?
Antes de prosseguir, uma pausa – importante pausa, que nos leva ao estabelecimento de um critério inicial do que pode se considerar uma “vantagem” e o que não pode. Ora, a vantagem sempre surge num dado momento da realidade. Isso é justamente a “situação” na qual surge a “vantagem”, seu plano de existência. É como se existisse um plano de fundo, um cenário, e dali extraíssemos uma cena na qual se manifesta a vantagem. E ela possui seus atributos, seus elementos de composição – variáveis especificamente conforme a situação: o que ela é, para quem ela opera, e mais, genealogicamente, qual seu sentido e valor. Pensar, então, na situação – como plano de fundo - e no ajuste dos elementos da “vantagem” – como composição da mesma - no caso específico da deseducação – ou seja, para que se evidencie as vantagens da deseducação -, seria criar um critério que tornasse possível a análise “valor da educação tradicional x valor da deseducação”. A criação dessa lupa – o critério de “vantagem” – através da qual olhamos para a relação das formas de educação é a maneira mais eficaz de se afirmar as principais vantagens da deseducação. Imagine a seguinte situação: a realidade dualística do mundo enquanto negação da vida na cultura ocidental – na medida em que valoriza mais a razão especulativa do que a vida como instrumento de sabedoria -, isso sendo considerado a decadência – pois afirma valores anti-vitais -, todos os elementos da cultura ocidental se derivam dessa visão de mundo corrompida – a moral, o cristianismo, a lógica, as ciências positivas, a filosofia tradicional. Nessa situação, o que seria vantajoso? A vantagem seria a destruição dos valores anti-vitais e a afirmação dos valores da vida – a vitória da atividade x reatividade, do original x imitação. Ela operaria em favor da deseducação que é, justamente, a macroestrutura social da educação regulada em favor dos valores da vida – a educação pelo e para o ócio. Seu sentido seria o de uma coletividade que possuísse igualdades nos campos onde isso fosse necessário – campos político e econômico – e diferenças nos campos onde isso fosse inevitável – campos filosófico e artístico. O valor dessa vantagem seria a criação de uma coletividade onde fosse possível e opcional o vir-a-ser individual, onde a vida se manifestasse como infinitas possibilidades, combinações e ajustes de forças possíveis; como natureza multicolorida impossível de ser descrita pelos símbolos conhecidos do inventário humano, a não ser pelos mais superiores artistas em suas obras magníficas. Porém, não é menos importante deixar claro que isso que foi descrito só é “vantagem” – ou seja, uma qualidade do que está adiante ou é superior – porque a vida é o que consideramos como sendo superior para buscar conhecimento para… a própria vida!
Educando para a Felicidade
A educação encarada como instrumento de (trans)formação individual e coletiva. Essa instituição, que transmite valores e molda a compreensão da própria realidade, tradicionalmente vem sendo utilizada para fins degradantes da vida. O principal deles: formar para o trabalho. Tanto tecnicamente, ensinando-se o utilitarismo dos instrumentos de trabalho, como também no modo de viver, através da disciplina do caráter, a educação tradicional visa formar indivíduos capazes de sobreviver graças ao seu trabalho. Não que esse não seja papel da educação: proporcionar ao indivíduo capacidades para a sobrevivência parece ser um papel da educação, no entanto, o que não parece se enxergar é que essa mesma educação mais parece uma prisão de espíritos, em que aqueles que almejam a liberdade de pensar, sentir e fazer suas próprias vontades ficam presos pelos grilhões da moral petrificada e da cultura de massas. Prova cabal disso são as próprias relações trabalhistas que, de modo geral, se estabelecem no sistema de vida ocidental: a escravidão física substituída historicamente pela escravidão psicológica, em que um indivíduo chega a dispor parte de seu tempo semanal para fazer atividades que muitas vezes não gostaria de fazer, simplesmente porque as atividades que ele gosta e sente prazer em fazer – que provavelmente coincidem com as atividades que ele faz melhor - não lhe proporcionam condições financeiras de sobrevivência ao modo que deseja. E mais: aquilo que ele deseja é também fruto de uma avaliação balizada pelos valores da cultura de massa, que coloca como positivo o consumo desenfreado dos bens. Fica claro que é um processo de retro-alimentação do sistema muito eficaz: forma-se para produzir e também para consumir o que é produzido. Mas um olhar atento sobre essa situação revela um notório erro de organização social: o indivíduo citado não está sendo aproveitado plenamente pela coletividade em suas habilidades, certamente estará infeliz e tendendo a estados psicológicos terríveis - como a depressão, a insônia e o estresse, situações que só deprimem e esvaziam de colorido a própria vida. Exposto isso, pergunto: como uma coletividade pode ser feliz com essa organização que parece ignorar os infelizes? Felicidade é certamente algo subjetivo, no entanto, é também certo que está ligada a algo prazeroso, e o prazer podemos estimar fisiologicamente em cada ser humano. Existem hormônios que são liberados naturalmente pelas nossas glândulas em situações de prazer, e à medida que esses hormônios causam seus efeitos no corpo, esse prazer tende a aumentar. Talvez a isso se pudesse chamar de uma situação de alegria, mas ainda assim, várias situações repetidas de alegria – mas não o estado permanente, o que considero impossível, dada às outras naturalidades fisiológicas de nosso corpo – poderia ser a felicidade. Então a felicidade advém da experiência de situações constantes de prazer em nossas vidas, o que ainda não ajuda muito, visto que ainda assim a felicidade permanece no campo da subjetividade, uma vez que as experiências que dão prazer variam de pessoa para pessoa. Parece claro, então, que não adianta a coletividade perder seu tempo tentando padronizar a felicidade das pessoas com bens de consumo propagados pela cultura de massa e valores morais tradicionais e estáticos através de uma educação equipada para propagar essa fórmula. Não sei se foi um mendigo ou um doutor que disse: “não existe fórmula da felicidade”. Mas quem disse não importa, porque o que foi dito é perceptível a qualquer ser humano com um mínimo de discernimento entre seu modo de vida e o do outro.
Poder + Liberdade = Ócio
Se não adianta a coletividade perder tempo na criação ilusória de uma felicidade igual para todos, onde então investir o tempo para que se tenha uma felicidade coletiva real, fruto da felicidade de cada ser humano? Na vida digna. Esse modo de vida é mais nobre do que meramente o sobreviver, pois a pessoa experimenta o ócio. O ócio é o próprio sentido da vida e seu entendimento enquanto categoria de “vida digna” revela sua importância. É vida digna porque o ócio possui valor, enquanto momento do tempo no qual o ser humano é realmente livre para fazer aquilo que quer. Não confundir o ócio enquanto oposição ao trabalho: a pessoa pode até querer trabalhar em seu ócio, mas se o fizer, o fará porque quis, não porque foi obrigado - por questões de sobrevivência no sistema capitalista -, sendo o trabalho, dessa forma, também uma atividade de ócio. Sobre a vontade, Nietzsche nos fala que, instintivamente, o que o ser humano quer é tornar-se mais forte e mais vivo. Dedicando-se à auto-superação criativa e, como conseqüência de um processo contínuo de auto-superação, o ser humano vem a tornar-se quem ele é. Através desse fenômeno o individuo obtém prazer, alegria e, em última instância – caso essa auto-superação criativa seja constante ao longo do tempo – também a felicidade. Isso é o que Nietzsche chama de vontade de poder, ou seja, o ser humano possui naturalmente a vontade de poder fazer o que quiser. E isso eu chamo de liberdade. Ora, todo ser humano quer ser livre. Quando Sartre fala que somos condenados a ser livres, ele esquece que plenamente livres são aqueles que possuem condições de ter uma vida digna, desfrutando do ócio, em que a existência é guiada pelas próprias vontades. Todo ser humano é condenado a ser livre sim, Sartre, mas não essa liberdade balizada pela moral decadente do trabalho e pela cultura de massa, à qual denuncio e renuncio em minha existência. Ao valorizar-se positivamente o trabalho – e chega-se ao ponto de, com a associação da ética protestante e do espírito capitalista, moralizá-lo – é negado o acesso gradual de toda a humanidade à vida digna. Fica claro, então, que o trabalho e a educação que educa em função dele são aparatos sociais que negam a própria vida. A forma para valorizar novamente a vida é a libertação gradual do trabalho – através da utilização da tecnologia para isso – e a educação pelo e para o ócio, para que quando os indivíduos tiverem acesso ao ócio saibam o que fazer com ele. Essa educação já foi denominada, em outros idos, de deseducação.
Um despertar para o Ócio e a Deseducação
O ócio é magnífico: valoriza a vida de forma nobre, proporcionando, além da vida, a dignidade: a “vida digna”. A experimentação do ócio: um verdadeiro degustar o mundo, a realidade, as interpretações; um frutificar a consciência; um criar-se a si próprio; um momento no qual o que é desejado é estar em consonância com as próprias vontades e que essas vontades sejam as vontades tipicamente naturais e que afirmem a própria existência. Se chamarmos os momentos de nossas vidas nos quais temos a autonomia de expressar nossas vontades livremente de momentos de ócio, de vida digna, então é certo que só é feliz quem possui esses momentos. Não que todos que tenham ócio sejam felizes, isso é para poucos, pouquíssimos, em verdade! No entanto, todas as pessoas que são felizes o são porque vivem como querem, vivem conforme suas vontades, vivem no ócio. Portanto, é necessário que a humanidade adquira a consciência da importância da vida digna para a vida e para a felicidade múltipla. Se ela prestar atenção, verá que existem condições para que essa condição seja maximizada, multiplicada: a tecnologia. Se ela for aplicada gradualmente de modo a substituir o trabalho humano pelo trabalho da máquina, em pouco tempo teríamos jornadas de trabalho inferiores a 4 horas/dia, conforme os estudos de Bertrand Russel, e aí o tempo livre para experimentar o ócio seria grande. Porém, isso ainda não é ócio, apenas tempo livre – como dito. O ócio só surge quando surge também a maximização da igualdade econômica, o que poderia acontecer através da implantação de uma solução política conhecida como “renda básica de cidadania”, aliada ao espírito cooperativista. Trata-se de criação de um fundo no qual a renda é distribuída igualmente entre todos os cidadãos envolvidos, sem distinções. Em nível global e otimizado, seria como se toda a produção da humanidade fosse distribuída igualmente entre todos os cidadãos. Isso poderia acontecer, ainda, de forma fracionada, através da conversão das empresas em cooperativas. Logicamente, trata-se aqui apenas de uma idéia, de um esboço, no entanto afirmo convictamente que o caminho a seguir para valorização da vida é esse. Mas aí surge a questão: como implantar essa visão dentro de uma cultura decadente como a ocidental? A resposta: a deseducação. Mas o que é isso afinal de contas, como funciona, qual o valor da deseducação?
Uma espiada em Summerhill
É chegado o momento de olhar para escolas libertárias, como é o caso de Summerhill. Lá as crianças vão para as lições quando querem e não por obrigação – a presença -, como é o caso das escolas tradicionais. No tempo em que as crianças de Summerhill não estão nas lições, estão experimentando a realidade conforme interesse próprio: brincam, dançam, constroem, jogam, fazem travessuras, inventam coisas. A criatividade e a curiosidade, que são as principais características das crianças, se manifestam livremente. As crianças aprendem quando querem independentemente do ensino que recebam. Em Summerhill não existe preocupação para formar trabalhadores para serem absorvidos pelo mercado de trabalho: lá forma-se para a vida e para a busca da felicidade. Como a felicidade é subjetiva, então que cada um tenha as melhores condições de vida possíveis de buscar essa subjetividade. Certamente que essas melhores condições são quando as pessoas têm liberdade de serem elas mesmas, com o mínimo de coerção e disciplina, com o mínimo de medo e ansiedade. Os membros de Summerhill, desde alunos das mais variadas idades até professores e funcionários, se reúnem semanalmente em assembléia para deliberar sobre os problemas que amadureceram durante esse espaço de tempo. Nessas assembléias todos possuem o poder de pedir a palavra e argumentar livremente: é o debate sendo travado, como era na democracia ateniense, por exemplo. Isso faz com que a escola se adapte ao aluno e não o contrário. Eis alguns princípios da deseducação experimentados em Summerhill.
Ateando fogo na educação tradicional
O temor pelo castigo: é isso que queremos ensinar às nossas crianças? Se a resposta a essa pergunta for não, então abandonemos nossos modelos de ensino que são aplicados atualmente, porque não são esses modelos que vão trazer à tona as vontades mais subjetivas na trilha que cada um toma rumo à felicidade. Iludido está aquele que acredita na felicidade vendida pela mídia, felicidade que é vontade de consumo e concretização dessa vontade. Que desabem todos os pilares que sustentam essa educação voltada para o trabalho e para o consumo: eduquemos para que cada um desenvolva sua própria maneira de ser feliz. Vista sob esse aspecto, Summerhill possui vários casos de sucesso, de grandiosos e notáveis seres humanos. Houve o caso em que o garoto se formou sem ao menos saber ler, mas tornou-se um excelente e feliz mecânico. Enquanto as crianças das escolas tradicionais estavam aprendendo a ler na sala de aula, ele estava aprimorando seus conhecimentos em mecânica na oficina. Teve um outro que se tornou o melhor camera-man de uma produtora de filmes: enquanto seus colegas pediam folga, ele ia trabalhar, pois gostava do que fazia. Só fazia por isso: porque gostava, lhe dava prazer, sentia alegria. Logo se vê que essa pedagogia libertária, que valoriza e respeita a vontade de cada um, leva à formação de pessoas que buscam vir-a-ser quem elas são, agindo conforme suas próprias vontades, expressando-se de maneira mais autêntica e original. Uma pessoa que tem esse conhecimento e consegue discernir entre as vontades que lhe dá prazer e as que não – naturalmente optando pelas primeiras – fatalmente estará mais capacitada a atingir seu estado de felicidade subjetivo. É esse o valor da deseducação, como o valor de Summerhill também: através de uma organização coletiva que proporcione a liberdade máxima da busca pela felicidade, com tolerância a ousadias, com a plasticidade da moral, criar um ambiente em que seja possível e desejável a pessoa que molda a si própria na medida em que suas vontades o levem a fazê-lo. A educação que proporcione o conhecimento para quem quer – e todos os curiosos por natureza haverão de querer. A educação que educa para que cada um aja conforme suas próprias vontades – e, ao agir assim, experimente o ócio. A educação que ensina a conhecer para a vida, na medida em que a própria vida pede mais conhecimento.
Uma cultura de grandes homens: os Super-Homens
Qual é a importância da deseducação para a coletividade? Ora, enquanto modelo pouco sistemático de educação – ou libertário -, a deseducação proporciona à pessoa que está nela submersa uma maior capacidade de decisão, uma maior autonomia de expressar suas vontades. Sendo essas vontades expressas como aquilo que a pessoa gosta de fazer e, considerando que existe grande chance da pessoa gostar de fazer aquilo que ela se sai melhor, é considerável a possibilidade da deseducação entregar à coletividade indivíduos em suas melhores condições individuais. Alexander Neill, fundador de Summerhill e grande experimentador da deseducação, costumava dizer que “criadores aprendem o que desejam aprender para ter os instrumentos que o seu poder de inventar e o seu gênio exigem”. Quando essas pessoas chegam ao estágio de desenvolvimento da alteridade, ou seja, quando elas naturalmente deixam de lado os anseios do ego, buscam se posicionar no coletivo de modo a utilizar suas criações da melhor maneira possível. E aí todos desfrutam dos resultados que isso pode trazer. Essa é a cultura que forma grandes homens ou, para utilizar o jargão nietzscheano, forma Super-Homens!
A multiplicação das diferenças entre os indivíduos
A principal vantagem da deseducação enquanto maneira de transmissão do conhecimento, do saber, é a criação de uma via de mão dupla no processo ensino-aprendizagem – isso tanto na esfera do indivíduo como na esfera do coletivo. Essa via estabelece-se quando notamos que na deseducação não existe emissor e receptor do conhecimento – como existe no modelo tradicional de ensino: o emissor representado na figura do “professor” e o receptor na figura do “aluno”. O que existe é um cenário social fomentado pelo tempo livre e pela noção de ócio e, nesse cenário, fica permitido a livre troca de informações, conhecimentos e saberes entre os indivíduos, na medida em que eles próprios queiram fazer isso. Dessa forma, a deseducação não se presta a ser apenas uma troca de informações técnicas que permitem o trabalho – como é a educação tradicional. A deseducação é a multiplicação das diferenças entre os indivíduos, onde cada um ganha a possibilidade de vir-a-ser quem se é através da expressão livre de suas vontades. Compreender o vir-a-ser cosmologicamente é compreender a “transformação” como processo vital do fenômeno vida. Dessa forma, compreende-se também que a consciência de cada um, que é formada através de uma interpretação constante da realidade, acaba sendo algo plástico, mutável, flexível por excelência. Com a educação tradicional, que visa a formação de um determinado “tipo ideal” através da transmissão de selecionados valores – os da fraqueza, do rebanho, os anti-vitais, anti-naturais, decadentes -, diminui-se a possibilidade da consciência ser essa coisa plástica, visto que a consciência acaba sendo construída por critérios e avaliações padronizados – certa interpretação de mundo “verdadeira”. A inserção do indivíduo numa cultura com esse tipo de educação só pode resultar na massificação do indivíduo, resultando também na apatia – as pessoas têm medo de ser quem elas são. E aí se encontra a necessidade de mecanismos sociais e psicológicos de fuga, como a valorização do “parecer que tem” e do próprio “ter”, em lugar do “vir-a-ser”. Resta perguntar: que tipo de coletividade pode existir sendo ela é constituída de um conjunto de indivíduos descaracterizados, desumanizados? Invoco aqui, uma imagem – talvez remetendo a certa composição artística do rock: num muro construído com vários tijolos iguais, começam a surgir rachaduras. Essas rachaduras, ao mesmo tempo em que diferenciam os tijolos, rompem gradualmente com o muro. Para quem percebe nessa imagem uma coletividade ruindo em torno das diferenças individuais, a supressão dessa coletividade – o muro – é inevitável, a não ser que desejemos continuar sendo rebanho dos valores tradicionais. Aí se arranja uma massa – algum tipo de ilusão coletiva, como o consumismo, por exemplo – para disfarçar as rachaduras no muro e mantê-lo em pé. Caso contrário – o desejo seja fortalecer os valores vitais, dos fortes, criativos -, aí surge a possibilidade de aproveitar cada rachadura nos tijolos para fazer do muro algo ainda mais original.
A loucura da Deseducação
A loucura da auto-determinação, a loucura do “torna-te aquilo que tu és”, a loucura do “faça o que tu queres pois é tudo da lei”: a loucura acompanha a deseducação. Isso ocorre porque a deseducação não é a busca da sabedoria, mas sim o encontro de si próprio, a busca da felicidade subjetiva. Ela não se baliza por um determinado tipo normal de indivíduo; ela parte do princípio que cada humano é único e, como tal, anormal, louco. Em verdade a loucura é, por definição, aquilo que é anormal, estando, dessa forma, em consonância com uma coletividade formada pela multiplicidade individual. O diferente e a tolerância para com esse diferente revela, senão, a maior característica do ser humano: o reconhecimento de outro ser humano. A partir daí tem-se a supressão do normal, do padrão, do tipo ideal. Quem toma lugar agora é o indivíduo anormal – aquele que moldou a si próprio, como o escultor que modela a escultura –, em certa condição de normalidade: o normal é ser anormal, diferente, resultado de transformação constante – através da auto-superação criativa – guiada pela loucura. Mas veja bem: o que importa aqui não é discutir a questão de se o “normal” ainda existe ou se ele deixou de existir - como bem poderiam questionar alguns filósofos do entendimento tradicional. O interesse é deixar notável que, a compreensão e aceitação do indivíduo diferente eleva o “anormal” à um estado aceitável – na medida em que a sua própria loucura o distingue, bem como entendendo que essa loucura é resultado da transformação constante rumo ao tornar-se aquilo que se é. A proposta aqui é deixar claro que a deseducação, ao incentivar a loucura, está resgatando a possibilidade de cada indivíduo ser único – isso porque na cultura de massas que estamos inseridos, cultura esta que busca padronizar o indivíduo dentro de uma compreensão inerte da vida e da própria realidade, é possível encontrar a visão da não-existência do indivíduo (como Adorno, por exemplo).
O poder de poder
Mas a principal vantagem da deseducação para o indivíduo é lhe proporcionar um conjunto de valores mínimos necessários para a convivência em coletividade, bem como deixar a mercê de suas próprias vontades o desenvolvimento de suas habilidades e capacidades. Isso se dá precisamente porque, quando é dada ao indivíduo chance dele fazer aquilo que sente vontade, ele fará mais frequentemente aquilo que faz de melhor, pois isso lhe dá mais poder e lhe faz bem. Trata-se da auto-determinação, da expressão das próprias vontades, do agir conforme a vontade. Isso é vivenciar a “vida digna”, é experimentar o ócio, e o ócio é o próprio poder – o poder de fazer aquilo que se tem vontade ou, em outras palavras, o poder de poder. Nesse entendimento, o ócio, ao mesmo tempo que é poder, é também liberdade, e aqui se constitui no melhor estado que um indivíduo pode gozar ao longo de sua vida. Gozando do ócio, o indivíduo naturalmente criará meios coletivos para que esse estado seja mantido, e aí frutificam os valores morais e a cultura necessária para tanto. Seria ingenuidade tentar arriscar qualquer valor moral e qualquer formato de cultura para que esse estágio seja atingido e mantido, visto que isso pode variar de sociedade para sociedade. No entanto, cabe arriscar algumas diretrizes iniciais, conforme a situação que existe no presente. Para isso, é necessário evidenciar o processo de formação da característica da alteridade nas pessoas, ou seja, quando a pessoa começa a olhar para seus semelhantes e reconhecer neles pessoas que deveriam estar com condições de vida digna, de ócio. Na educação tradicional, a formação da alteridade se dá de maneira forçada – através da disciplina e da coerção –, muitas vezes atropelando as necessidades egocêntricas naturais da existência humana. Resultado: essa pessoa se tornará altera artificialmente e, nas situações que exijam um julgamento do que mais importa para ela, tomará decisões egoístas. Já na deseducação, a formação da alteridade se dá de maneira natural, respeitando o ritmo que cada pessoa tem para desenvolver seus interesses coletivos. Talvez isso até demore mais a acontecer, no entanto, quando for obtida essa condição – uma vez visto que, se a pessoa vive em coletividade, ela acabará por se envolver nesse meio inevitavelmente, mais cedo ou mais tarde -, a pessoa terá se tornada altera naturalmente e, quando isso for colocado à prova, o agir com alteridade acarretará também numa satisfação do ego. É a condição única necessária para que a busca pela felicidade individual seja também a busca pela felicidade coletiva. É a chave dos gregos para, a partir do eudaemonion, obter o agathon.
A supressão do Estado pelo Ócio
De onde provém o poder do Estado, cuja meta está além do exame e do egoísmo do indivíduo? Locke e Rousseau defendem a tese de que é o contrato social que permite o poder do Estado. Diferentemente desses dois, Nietzsche conclui que é a violência que legitima e possibilita o Estado, na medida em que o ideal cristão/ascético e a moral domesticam o ser humano, submetendo-o a um processo de aprendizagem e cultivo dos valores tradicionais. Isso leva a crer que a maior violência do Estado encontra-se na escola e nos métodos tradicionais de ensino, como forma de propagação dos citados valores. Porém, a meta aqui não é pensar “com” Nietzsche, mas sim “através” dele. Fazer isso nos remete à deseducação. Essa refinada forma de formação dos indivíduos, que em verdade é transformação constante de todos os indivíduos ao mesmo tempo – enorme pulsar de vida – permite a supressão do Estado através da instauração dos valores vitais, naturais do ser humano – em contraposição aos valores anti-vitais, anti-naturais, que são os valores tradicionais. Mas aí, surge uma preocupação na cabeça daqueles que pensam na noção de contrato social: quem irá gerir as desavenças sociais? A supressão do Estado não poderia gerar uma sociedade minada pela violência coletiva, o caos extremo, a barbárie? É necessário reconhecer que isso poderia acontecer – afinal não somos videntes do futuro -, mas a tarefa do pensador é minimizar essa possibilidade, visto que a violência é atitude que coloca em cheque a vida de outro ser e, se essa é a sociedade que coloca a vida como valor primordial, seria desconexo pensar numa sociedade em que fosse permitida a violência gratuita. A solução é pensar e desejar a sociedade do igual e do diferente. Igual nos campos onde a igualdade é meta, diferente nos campos onde a diferença permanece intacta, tangendo o impossível. Igual no poder político individual, no acesso ao ócio, à cultura, na possibilidade de criar a si próprio. Diferente nas formas individuais de interpretar a realidade – isso soa como um pleonasmo, visto que uma interpretação da realidade é sempre subjetiva, logo, individual -, na consciência de cada um, nos modos de vir-a-ser, no estilo; enfim, que cada indivíduo seja uma gama única de habilidades e maneiras de agir. E como essa sociedade do igual e do diferente se coloca como solução do problema da violência generalizada que poderia existir numa sociedade anárquica? Para resolver essa questão é necessário notar que a maior parcela da violência que poderia acontecer nesse cenário, seria uma violência em busca de interesses econômicos e políticos individuais – ou seja, uma luta pela maximização da igualdade de condições de vida. Porém, essa luta não seria mais necessária, afinal de contas, com a supressão do valor do trabalho e exaltação do valor do ócio – com a tecnologia colocada em seu devido lugar, quer seja, libertar o ser humano do trabalho – as macroestruturas existiriam em prol do ócio e isso representaria a igualdade econômica e política. Econômica na medida em que a economia ocupa-se com o estudo das maneiras de se produzir mais víveres em menos tempo, bem como garantir a distribuição e o acesso a esses víveres por todos os humanos, libertando gradualmente os indivíduos para fazerem aquilo que eles querem – ou seja, a economia existe para promover o ócio. E política na medida em que os indivíduos poderão exercer o debate livre, sem medo de repressão por autoridade alguma pelo fato de expressar opiniões diferentes – o indivíduo é soberano -, bem como através da livre associação com outros indivíduos através do espírito cooperativista, no sentido de algum interesse em comum que os una politicamente. O Estado seria suprimido e exorcizado da história, o medo pela anarquia destrutiva seria aniquilada: eis o ócio exercendo sua força. Ora, para tudo isso o primeiro passo é a implantação de uma educação no sentido da deseducação, como forma de incluir esses valores na cultura – repito: os valores vitais, naturais. E vejam bem se isso não é uma grande vantagem da deseducação para a coletividade: a supressão do Estado, da autoridade.
Cultura x Estado
O entendimento da realidade como embate de forças pode proporcionar um instrumento vital ao filósofo: a experimentação do pensamento. Isso se dá, precisamente, quando se olha para um embate de forças e percebe-se que o interessante não é ver a força vencedora, mas sim perceber a melhor regulagem desse embate – conforme o sentido que quer se dar. Cabe notar – sobre o sentido – que ele é caminho por onde se trilha, e não o fim ao que se chega, porque pensar em um fim é desconhecer a cosmovisão do vir-a-ser. Ao se pensar num “sentido” e não em um “fim”, o pensamento adquire movimento, pois agora ele aceita a hipótese da transformação durante o caminho – não sendo absolutizado através de um “fim ideal”. É necessário observar, ainda, que o “sentido” possui uma tendência considerada “natural” e que ela pode ser potencializada se assim for desejável. Essa tendência natural foi identificada como sendo a auto-superação criativa, isso porque todo ser vivo quer superar-se, quer mais vida. A proposta aqui é justamente colocar o valor da vida como central para a humanidade – a naturalidade dos embates de força. Então, sobre o embate da Cultura x Estado, a pergunta é: qual a melhor regulagem dentre essas duas forças seria a melhor para a afirmação da vida através do fomento aos tipos superiores de seres humanos? Ora, a resposta a essa pergunta nos leva a descartar o Estado e ficar somente com a Cultura. Qual o valor do Estado enquanto instituição que cristaliza valores em leis enquanto que esses valores são criados dentro da Cultura? É como se existisse um plano originário de valores – a cultura – e outro plano reflexivo de valores, refletindo os valores do plano originário – o Estado através das leis. Destruído o Estado, alguns podem pensar que seja necessário planejar um mecanismo que seja eficiente na transmissão dos valores através das gerações para manutenção da moral e, com isso, da possibilidade do convívio social. Porém, esse mecanismo já existe – basta ser posto em prática: é a deseducação. Ela é justamente a percepção que não há necessidade do citado mecanismo “transmissor de valores”: a deseducação é o fomento para que cada um crie seus próprios valores. Ela é a compreensão de que a vida é transformação constante e de que os valores também poderiam se comportar assim – num vir-a-ser eterno. Destruída a necessidade do citado mecanismo, então, o melhor dentro da perspectiva de afirmação da vida e fomento aos tipos superiores de humanos, seria o estado anárquico – sem governo e sem educação padronizada. Tal cenário permitiria que a cultura fosse o plano em que toda a criatividade, a originalidade individual, a espontaneidade coletiva e a difusão dos valores acontecessem. A Cultura é o multiplicador dos tipos superiores por excelência: basta coloca-la nesse sentido. E aqui não se trata de um vencedor no embate Cultura x Estado, mas sim na regulagem da força-cultura ao máximo e da força-estado ao mínimo.
A supressão da Moral pelo Ócio
Partindo-se da seguinte questão: “o que permite o convívio em sociedade?”, podemos inferir a resposta como sendo a moral: os valores compreendidos em forma de leis ou de tradições culturais, transmitidos através de gerações, os quais são desejáveis para a formação de um “tipo ideal” de indivíduo e pelos quais esse mesmo indivíduo é julgado pela sua conduta. Essa tábua de valores absoluta possui um problema: por ser considerada verdadeira e melhor, ela não é colocada em questão – na realidade esquece-se de encarar os valores que estão sendo transmitidos dentro de uma sociedade. Porém, esses valores devem ser colocados em favor da vida, da afirmação dela. E isso seria considerar a criação e disseminação de valores de forma espontânea e difusa na sociedade. Não é o que se observa com a prática do sistema moral: os valores não são criados, eles são apenas reproduzidos. Já com o ócio, a multiplicidade de valores será tanto mais elevada quanto mais humanos criativos e com vontade de auto-superação tiverem por aí. E, naturalmente, esses indivíduos assumirão uma posição de respeito – pelos que com seus valores concordarem, ou seja, por aqueles que possuem instinto reativo e não conseguem ou não querem criar seus próprios valores – dentro da coletividade. Esses são os líderes, os criadores, os grandes homens: os transvaloradores de todos os valores, tal qual Nietzsche gostaria que fossem chamados. Não que seja necessário a criação de um cargo estatal com esse nome e essa função, a ser ocupado por esses indivíduos: isso aconteceria num estado anárquico. Mas que valor possui esse ócio: destruidor da Moral, supressor do Estado, colocador do Trabalho e da Tecnologia em seus devidos lugares, valorizando o que existe de natural na vida e, o mais importante, semeando a Cultura dos grandes homens!







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Gostei da amplitude aplicada ao tema. É muito difícil uma análise sobre o ócio, ainda mais se considerarmos a prenoção pejorativa inerente à tal postura. Cumprimentos, e votos de crescente sucesso.
Abril 28th, 2008 at 8:16 amParabéns Thiago Felipe, vc parece um escritor mesmo, porque não escreve um livro sobre o ócio, serei a primeira a comprá-lo….
Espero sempre seus links, adoro suas matérias….
Auguroni ragazzo….
Abril 30th, 2008 at 1:54 am