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Resumo e download da dissertação A Morte de Deus e a morte do homem no pensamento de Nietzsche e de Michel Foucault, de José Guilherme Dantas Lucariny


Página  de resumo da dissertação de mestrado de José Guilherme Dantas Lucariny

                            apresentada ao Departamento de Filosofia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro


 
 

Título: A de Deus e a do homem no pensamento de e de
 

RESUMO



A dissertação parte do pensamento de Nietzsche, notadamente do pensamento trágico, da crítica à consciência e à linguagem e da morte de Deus e da morte do homem, para caracterizar uma nova atitude de suspeita e de crítica à racionalidade. Com isso, identifica o âmbito do pensamento no qual também se situa Michel Foucault, estudado em seguida do ponto de vista da recuperação da interpretação e da linguagem, bem como da compreensão, na esfera da literatura, de um vazio que se dá com a noção de sujeito. São também apreciadas a crítica foucaultiana às ciências humanas e ao humanismo, sua compreensão ontológica da , e sua reflexão acerca dos saberes e da racionalidade moderna.
O texto assim preparado permite falar do Nietzsche ligado a Foucault, ou seja, de como as teses de Foucault aparecem em Nietzsche, de como Foucault é esclarecido por Nietzsche, o que caracteriza a continuidade de uma crítica que nasce na Alemanha do final do século passado, reafirmada e aperfeiçoada na França contemporânea do pós-guerra. Conclui por ver a obra de Michel Foucault extender-se a partir do pensamento de Nietzsche, como a querer demonstrar, com a problematização da modernidade, o que Nietzsche esboçara: que, uma vez morto Deus, o homem só também vai desaparecer; isso que se pensava fundamentá-lo – a racionalidade – talvez não se sustente.



DEDICATÓRIA

Dedico este trabalho às esquerdas brasileiras.
JGDL

Uma coisa é certa e deve aqui ser registrada: ambos, Nietzsche e Foucault, são mestres da incitação à crítica e do aguçamento em nós da santa vontade de ir além. A filosofia adquire um enorme sentido ao podermos utilizá-la para interpretar o nosso mundo, transcender mesmo o pensamento de nossos mais caros filósofos inspiradores. Pois bem: – Aude saper! – aqui fazemos isso; assim pretende quem em toda sua vida vê confirmarem-se as teses sobretudo de Nietzsche e de Foucault. Aqui, refletimos sobre o momento presente em que essa dissertação está sendo concluída, no ano de 1998, há 98 anos da morte de Nietzsche e há 14 da morte de Foucault.

O que nos vem a dizer de nosso mundo, especialmente de nosso mundo brasileiro, à luz do que cogitamos nesta monografia? O que é possível dizer da inquietação que ora nos acomete? – Que a razão estertora miúda, ávida por novos deuses? Que, hoje, nenhuma grande palavra mais parece se sustentar? E que a racionalidade busca ávida e desesperadamente algo em que ainda possa se fundamentar? Que, hoje, o deus por ela criado se chama Dinheiro? Que não mais a cruz mas o cifrão impera como símbolo de uma fé no mundo? Que, no Brasil, a Santíssima Trindade configura-se pelo Dólar, o Real e o Mercado? E que esse Deus impiedoso e frio fundamenta hoje toda uma racionalidade  excludente voltada para o plano econômico em que o homem queda esquecido, morto?

Hoje, o homem está morto diante da Economia; não é mais ele que importa. A linguagem da Economia é o que prevalece, soando única, triunfalista, alienante e alienada sobre as pessoas, as nações e as culturas. Hoje, parece que vivemos de uma forma negativa o que Foucault intuira: a morte do homem e o brilhar mais forte do ser da linguagem. Negativa porque a linguagem da Economia não parece ser a linguagem da superação nietzscheana, mas sim a linguagem do último homem, merceeiro mesquinho, adorador do deus Dinheiro.

Porque, o discurso da Economia, como está hoje posto, não parece estar voltado para a vida. Constitui-se numa metafísica, a metafísica dos sacerdotes “executivos” vestidos de terno escuro, ar circunspecto, pesado, falar comedido – o próprio espírito de gravidade – e que sonham com férias na Disneylândia… – Não será hoje a Disneylândia a mais ridícula evidência do ideal ascético do qual falava Nietzsche? Ganhar dinheiro para ir gastá-lo em  Disneyland, USA, por que lá é um paraíso? Ganhar as bênçãos de Deus e ir usufruí-las no ? Vontade de paraíso? Vontade de nada? Ou será viver em  refrigerados gabinetes funcionais o ascetismo maior? Assessorados por submissos e entorpecidos empregados, cordeiros do rebanho, a entabular negociações e projetos de nenhum compromisso com a vida, e a exigir comportamento de máquina das pessoas, e a excluir pessoas; viver de rituais em magníficos almoços e jantares prolongados onde o Dinheiro é o assunto a não mais poder. Dinheiro, o assunto da mídia … e Poder. Dinheiro é Poder e Time is money, estes, os dísticos dos oráculos contemporâneos?

Apartar-se da vida, negar a vida, eis o que parecem querer essas “madres superioras”, movidas pela moral dos merceeiros. Resguardar-se com base numa racionalidade engendrada; apoderar-se de uma razão e de suas regras, tornar-se detentor da verdade e encarapitar-se numa posição metafísica; e fazer com aquilo que sua racionalidade engendrou o próprio fundamento dessa racionalidade. Não é isso que se dá com o “plano” de todo e qualquer déspota, mesmo esclarecido? Kant, ingenuamente talvez, ou com fé demais, propunha ao déspota de seu tempo (Frederico II) um tipo de contrato: “um certo tipo de despotismo racional com a razão livre”. Mas a razão… a razão não é livre, direi. A razão é instrumento. E Kant parece sequer ter desconfiado de que o seu déspota poderia ter ódio: da vida!

Porque a vida é incerta, na vida tem protestos de manifestantes da CUT e reivindicações dos Sem-Terra, tem vaias, corre-se o risco de ter que se exilar, de ter sua conta bancária escarafunchada numa CPI, de não se reeleger e de ficar desamparado, desacreditado, de ficar desempregado, vale dizer, sem sentido, de passar fome, de se enlamear. Na vida tem mendigos, tem assaltos, tem sujeira, tem criança largada nas ruas, tem covardia, tem assassinos de crianças, tem hospitais infecciosos, tem podridão, tem calor, tem fome, tem enchentes, tem povo fedorento, tem coceira, tem barata…

“Comer a barata”, tal qual no desfecho vivido por G.H. – que bem poderia ser F.H. – em sua paixão, personagem de Clarice Lispector , ao cair no mundo, eis uma outra possibilidade – gesto “louco” e pleno de sentido de comunhão com a vida. Se hoje vivemos negativamente a morte do homem pela via da linguagem da Economia, poderemos muito bem viver uma outra morte, esta sim positiva, verdadeira superação, é o que nos sugere Clarice. Cometer um gesto louco, de pura abertura estética: talvez aí resida a “salvação”; um caminho para quem ama a vida e se tornou poeta e desprezador das verdades racionais, tal qual  Friedrich Nietzsche e  –  por que não- ? Michel Foucault.

Para finalizar, desejo aqui considerar o retorno das esquerdas, inspirado no que está a configurar-se como o prenúncio da morte de mais uma divindade: a situação vexatória em que se encontra o mundo e as recentes tendências de opinião em várias partes deste mesmo mundo; o resultado das eleições recentes na Inglaterra – berço do Liberalismo – e na França – berço do Iluminismo – e também no México! – berço de experiências malogradas que acabam também brasileiras – e, ora vejam, também na Argentina! – aquilo que, segundo virou costume dizer, é o que seremos amanhã.

Desejo aqui considerar o retorno das esquerdas. Sim, das es-querdas brasileiras, para quem esse trabalho vai dedicado, as perple-xas esquerdas brasileiras, entendendo-se por tal todos aqueles que em nosso país se indignam com a arrogância, a prepotência e os sofismas do poder, e que por isso se inquietam, se sentem gauche na vida; e que sonham com um Brasil menos ascético e mais leve. Sim, mais leve, meus senhores, mais leve… Para esses, o caminho talvez seja “comer a barata” como na história de Clarice Lispector: largar mão da pureza e da metafísica (porque as esquerdas também têm – ou tinham – a sua) e cair no mundo. Cair no mundo como ele é, convertendo-se num  desprezador para poder tornar-se um criador – um criador de valores – como o são os poetas, os artistas! O mundo, meus senhores, está a requerer criadores, porque os deuses antigos estão para morrer!

Alegria criadora! Talvez seja com esta dinamite que o triste deus Dinheiro será implodido. Tirar o seu sentido! Desmascarar mais esta esfinge! Desbaratar estes trasmundanos com alegria, com leveza, com riso e com dança, coisa que eles não possuem porque o seu  mundo é triste, meus senhores. O deus deles é triste, e breve chegará o dia em que a nenhum homem mais trará consolo! Fazer isto amando o jogo da vida, não propriamente “sem medo de ser feliz” mas, sobretudo, “sem medo de tornar-se o que se é”. Eis a superação.


CONCLUSÃO
 

Para nós, pensar a morte dos deuses parece constituir-se numa maneira bastante interessante de se compreender a transição das épocas históricas e das mudanças na forma de ver e de explicar o mundo. Este trabalho, assim orientado, pode subsidiar o próprio estudo da história das idéias, tornando mais rica a filosofia.

Terá sido o estudo dos tempos remotos de nossa civilização, da língua grega e da Grécia Antiga, em particular, o que possibilitou, talvez, uma primeira compreensão deste fato: de que, por detrás das mortes dos deuses, encontramos as rupturas, as transições, as mudanças históricas.

Outrora, existiu na Grécia uma maneira de ver e de explicar o mundo que não é mais a de hoje. Essa maneira mudou. Outrora, múltiplos eram os deuses, fortes, guerreiros – eles eram tais quais os homens gostariam de ser, e governavam o mundo, ou melhor, aspectos do mundo, assim constituindo seu fundamento. Nos tempos mitológicos contados por Hesíodo e Homero, o que prevalecia era a força, o embate, a luta, o empenho aventureiro, a espontaneidade do herói, a coragem, o jogo. E esses deuses morreram? “Morreram de rir, ao ouvir um Deus dizer que era único” – ironizava Nietzsche. Mas o fato é que  morreram. Os imortais morreram. Os , que também foram os deuses dos romanos, a uma certa época viram-se enfraquecidos, esquecidos, destronados, mortos. No seu lugar, assume o Deus cristão.

Com a vitória da Judéia sobre Roma, são os deuses do Olimpo, sobretudo, que perdem importância e morrem. E eis que um novo deus surge, um deus que parece ter sido arquitetado para todos, um deus de aceitação universal. Contrariamente ao antigo deus hebreu, vingativo e forte, esse apresenta-se fraco, sem pecado, sem vontade. Um deus que morre na cruz, um deus à imagem e semelhança de um povo escravo. No entanto, esse deus venceu, passou a ser aquele a ser imitado, um  mito – Jesus Cristo, o crucificado, o que morreu na cruz para nos salvar.

Sem dúvida, a ascensão do cristianismo na história da humanidade é concomitante com a ascensão de uma nova maneira de ser e de ver o mundo: niilismo, culpa, ressentimento, racionalismo, eis as marcas do novo tempo. Eis que a mentalidade do homem europeu racional desenvolve-se na era cristã, eivada de uma vontade de nada, de  ressentimento e culpa, o que caracteriza enorme decadência em contraposição ao pensamento dos gregos antigos, pura afirmação do devir.

Mas trata-se do homem racional segundo nós nos temos, ou melhor, tivemos. Ora, a racionalidade, aquilo que se coloca como a essência do homem, revela-se um instrumento engendrado por ele para que possa obter uma “salvação” dos perigos da vida e das aparências do instante. O homem, para se “salvar” das incertezas, do caos e do devir que sente, antes de tudo, dentro de si mesmo, no pulsar de suas veias e no rodopiar de seu próprio coração, o homem engendra um terreno novo, um terreno como que “mapeado”, e, assim, mais conhecido e menos temível. Este terreno situa-se no plano das idealidades, no mesmo plano onde veio se situar o Deus cristão. Ocorre que esse plano não se dá propriamente na vida, está fora da vida, está fora da phýsis grega (natureza), constituindo-se numa metafísica. Ora, admitir esse plano, querer metafísica, é de alguma forma querer fugir da vida, é negar a vida, é negar as aparências da vida. O que possibilita isto é a racionalidade. Nietzsche mostrou muito bem como isto se dá, considerando a consciência, a razão na linguagem, bem como a metafísica e termos correlatos como “ser”, “coisa em si”, “unidade”, “identidade”, “substância”, “alma”, como enredados num mesmo erro: um erro da razão.

Mas, eis que, constituída a metafísica, é a própria razão que se vê por ela fundada, a razão, obra de Deus, a Palavra Primeira. Eis a metafísica e eis a racionalidade tão intimamente imbricadas, tal qual irmãs siamesas.

Suspeitar da racionalidade é indagar se não será ela a marca maior da fraqueza humana, da queda, da decadência. O homem racional, não estaria ele procurando uma escora para se apoiar ou uma capa para se proteger ou se acautelar? Uma proteção feita de palavras, de argumentos, de arrazoados, de frases, de idéias, tudo para fugir, ou melhor, para se resguardar de algo temível e no entanto  mais básico e de mais valor: a vida, a concretude da vida em toda a sua crueza,  gratuidade e inocência? Será, no entanto, diante da tragédia – que se dá no plano da vida – que todo o trabalho elocubrativo da razão cai por terra. Diante da tragédia não há palavras, toda razão é vã. A razão não resiste à tragédia.

Mas é a própria razão que vemos endeusada explícitamente a certa altura da história, talvez no ápice de sua fé – lembremos da deusa Razão do Iluminismo a ocupar papel central nos cultos religiosos da França da Revolução, e lembremos também da tragédia que se sucedeu. Mas não terá sido antes, bem antes do Iluminismo, que Deus começou a morrer? Mas quando, exatamente? Eis aí uma boa questão.

Mas, eis o fato: apesar de todas as peripécias desvalorizadoras da figura de Deus que se pode observar na história da filosofia, foi Nietzsche quem, no final do século XIX, em  alto e bom tom, proclamou a sua morte. Deus morreu, é fato, constata Nietzsche. Deus não é mais o fundamento, isso é fato. E essa transição ocorre na Era Moderna. Substitui-o o homem. Mas será também Nietzsche quem irá suspeitar que, em conseqüência da morte de Deus, também o homem morrerá.

Ora, matar Deus, como o homem o fez, é negar a dimensão última da própria racionalidade, da Palavra, daquilo que, em última instância, a fundamenta. O que o homem fez foi ficar só com sua palavra. Mas é isso que parece não se sustentar. Metafísica e racionalidade, uma implica a outra; o fim de uma parece implicar o desmoronamento da outra, a existência de uma parece exigir a outra. Eis, assim, o porquê da suspeita de Nietzsche de que por detrás da morte de Deus está a morte do  homem: morte do homem racional, morte deste homem, tal qual o é o homem ocidental moderno, o último homem.

Será sobre essa questão, ainda com tantos aspectos a explorar, que Foucault irá se concentrar: a questão do homem sem Deus. O Foucault, leitor de Nietzsche, parece a cada momento querer demostrar o que Nietzsche apenas esboçara: que o homem, com sua razão, vai desaparecer; que a razão parece não se sustentar; que aí configura-se uma falência; que isso que fundamenta o homem não é algo tão sólido quanto se pensava outrora.

Esse “outrora” foucaultiano refere-se a uma época relativamente recente, época em que não mais Deus, mas já o próprio homem constitui-se como fundamento. É nesta perspectiva que Foucault irá trabalhar. Foucault situa-se na era do último homem nietzscheano.
Concluindo As Palavras e as Coisas, Foucault escreveu:

Em nossos dias, e ainda aí Nietzsche indica de longe o ponto de inflexão, não é tanto a ausência ou a morte de Deus que é afirmada, mas sim o fim do homem (…) uma vez que é na morte de Deus que ele fala, que ele pensa e existe, seu próprio assassinato está condenado a morrer; deuses novos, os mesmos, já avolumam o Oceano futuro; o homem vai desaparecer. Mais que a morte de Deus – ou antes no rastro dessa morte e segundo uma correlação profunda com ele, o que anuncia o pensamento de Nietzsche é o fim de seu assassino; é o esfacelamento do rosto do homem no riso e o retorno das máscaras; é a dispersão do profundo escoar do tempo, pelo qual ele se sentia transportado e cuja pressão ele suspeitava no ser mesmo das coisas; é a identidade de Retorno do Mesmo.

Será Kant quem marca, para Foucault, o início da modernidade, ao ser o primeiro a perceber que é o sujeito cognoscente que, ao levantar-se das ruínas da metafísica, prescreve-se a si mesmo. Mas isso se dá já dentro de uma consciência de que as forças do homem são finitas, muito embora seu projeto de conhecimento seja infinito. Sobrecarrega-se, assim, o sujeito, que cai numa forma antropocêntrica de conhecimento, o que caracteriza o surgimento das ciências humanas. Estas, por sua vez, configuram perigosa fachada de um saber universal, escondendo, porém, um turbilhão de vontades que desejam, em última instância, não mais que o poder do conhecimento.

Foucault irá realizar, dessa forma, um trabalho intenso e obstinado de exame da racionalidade moderna, estudo esse pela via daquilo que mais a põe em cheque: estudar a razão, como ele dizia, em seus limites, abandonar o conforto das verdades terminais e interrogar sobre as experiências limites. Estudar a história da loucura para, de uma certa forma, anistiar a desrazão e constatar que esta irrompe ocasionalmente, permitindo-nos a possibilidade de transcender a razão, salvando-nos  com violência. Estudar a história do olhar médico, para constatar que aí se dá, pela primeira vez, o conhecimento do homem sobre si mesmo, com base em sua própria finitude, dentro de uma linguagem criada pela abertura de sua própria eliminação. Estudar autores literários que caracterizam a falência da linguagem, manifestação da razão, autores esses que exploraram o vazio, a agonia do significante na busca de parcos signos para apontar significados múltiplos e infinitos. Estudar as ciências humanas, e ver sua constituição dentro de enigmáticas finitudes que constituem o homem. Estudar a história do saber humano, e rejeitar a consciência como origem transcendental de um dizer expressivo, propondo a dispersão do sujeito. Estudar as interdições que atingem o discurso do homem e sobretudo o discurso da sexualidade. Estudar o poder, e ver que o homem é simples joguete, à mercê de relações de forças, que se dão no âmbito de uma microfísica onde se encontra inserido socialmente.

Foucault, a cada momento, parece querer demonstrar que a racionalidade, agora vista estritamente pelo ângulo da modernidade, confirma a  precariedade, a fraqueza, a decadência, o disparate que Nietzsche já acusara. Mas Foucault também, a cada momento, parece querer resgatar a experiência trágica da loucura para o seu lugar de nobreza, como que a honrar Nietzsche em seu final de vida, Nietzsche louco, Nietzsche criança, última máscara afinal ? Nietzsche e todos os loucos que fizeram da loucura uma libertação.

Nietzsche, com sua filosofia, propugnara a saída positiva do Übermensch (Super-Homem), o além-do-homem, o homem-superação, o homem-devir, o homem trágico. Para tal, será necessária a efetuação de uma transvaloração de todos os valores; uma transvaloração tal, que o pensamento trágico prevaleça sobre o pensamento racional. O homem, herói trágico lançado na vida, amante das aparências e desprezador das verdades, criança afinal, deverá viver por pura criação estética, fazendo da vida uma obra de arte, eis Nietzsche. Foucault, por sua vez, nos fala de sua suspeita, apontando para a epistémê moderna, e assim ele escreve concluindo Les mots et les choses:

(…) a epistémê moderna – aquela que se formou por volta do fim do século XVIII e serve ainda de solo positivo ao nosso saber, aquela que constituiu o modo de ser singular do homem e a possibilidade de conhecê-lo empiricamente ? toda essa epistémê estava ligada ao desaparecimento do Discurso e de seu reino monótono, ao deslizar da linguagem para o lado da objetividade e ao seu reaparecimento múltiplo. Se essa mesma linguagem surge agora com insistência cada vez maior numa unidade que devemos mas que não podemos ainda pensar, não será isto o sinal de que toda essa configuração vai agora deslocar-se, e que o homem está em vias de perecer, na medida em que brilha mais forte em nosso horizonte o ser da linguagem?

Mas, o que será mesmo que Foucault quer dizer com este perecer do homem “na medida em que brilha mais forte em nosso horizonte o ser da linguagem”? É que Foucault viu um fato novo entrar no campo do pensamento no fim do século XIX e que jamais poderá ser doravante desprezado: um fato novo com Nietzsche a perguntar: “Quem fala?”; e com a responder: “O que fala é a própria palavra”. Não quererá, então, isso dizer que, doravante, toda e qualquer pretensão de verdade da linguagem revela-se vã, pretensão esta que se estende ao dizer do homem sobre si mesmo? Que, doravante, na linguagem, o que pode ser considerado é tão somente a sua aparência? E, considerar a linguagem pela sua aparência, não será tão somente tê-la por arte? literatura?

Vida-literatura, dizer-se de si na infinita maneira de interpretar o mundo, poesia?

Vida-literatura, vida-vazio, vida-transgressão, vida-salto, vida-loucura, é o que Foucault parece intuir para o futuro do homem. Não mais o homem como o reconhecíamos, não mais a pretensão de verdade no dizer, mas o vazio, o permanente estado de suspensão, o salto do dizer.

E, para lembrar Nietzsche uma vez mais: “flechas de anseio pela outra margem” – não será isto que Foucault está querendo dizer? Uma metafísica de artista.

Haverá filosofia mais bela?
 
 
 

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