Consciência - Filosofia e Ciências Humanas

Vida e escritos de Aristóteles – História da Filosofia na Antiguidade – Hirschberger



História da Filosofia na Antiguidade –

3 — ARISTÓTELES: A    IDÉIA  NO    MUNDO                                 

Vida

Aristóteles não é ateniense de nascimento, mas é originário de Estagira, na Trácia, onde nasceu em 384. O pai era médico particular do rei macedônio Amintas, e o próprio Aristóteles vinculou o destino externo da sua vida aos desígnios macedônicos, com os quais também cairá. Aos 18 anos vem à Academia, onde permanece durante vinte anos, até a morte de . No decurso da vida do mestre, altamente o honrou. Na Eegia que lhe dedicou, refere-se á amizade que os ligou a ambos, dizendo ser um homem tão excelso que digno de o louvar não será qualquer um, mas somente quem se digno de tal. O fato de Aristóteles ter, pelo seu modo próprio de pensar, se afastado dele mais tarde, nenhum detrimento trouxe a essa veneração e amizade. "Se ambos são meus amigos” ( e a verdade), diz êle na Ética; a Nicômaco (1096a l6), "pio dever é estimar ainda mais altamente s verdade". Tem-se, contudo, a impressão de nem sempre ser sina ira et studio a crítica contra Platão. De propósito, freqüentemente a suscita, nem sempre com necessidade, e, às vezes, sendo até mesquinho. Depois da morte de Platão, Aristóteles retira-se para. Assos no país da Tróade, junto do príncipe. Hermias de Arames, fundando aí, junto com outros membros   da  Academia,   uma   espécie   de  sucursal   da  escola platônica. Apenas por três anos permaneceu Aristóteles em Assos. Passando por Mitilene, onde se encontra com o seu futuro sucessor Teofrasto, vai, em 342, para a corte de Filipe da , onde assume a educação de , então com 18 anos de idade. Quando este toma as rédeas do governo, volta para Atenas, onde funda, em 335, no local consagrado a Apoio Lício, a sua escola chamada, por isso, . É, à semelhança da Academia, um thiasos, uma comunidade para prestar culto em honra das Musas. Os membros desta escola foram chamados, mais tarde, peripatéticos, quando também se disse que esta denominação procedeu de um pretenso costume de Aristóteles dar as suas lições andando de um lado para outro. Mais verossímil é que, como as antigas denominações de escolas — Academia, Liceu, Estoa, Quepos — também o apelido () provém de um local, i. é, da galeria de passeio (Peripatos), existente ao lado do Liceu. Aristóteles publicou muito na sua mocidade; mas, durante a sua atividade no Liceu, já não é tanto escritor, mas sobre tudo professor e organizador científico. Aí organiza unia comunidade para indagações científicas, em grande estilo. Os seus membros, sol) a sua direção, colecionaram e trabalharam materiais filosóficos, histórico-filosóficos, de ciências naturais, médicos, históricos, arquivísticos, políticos e filológicos. Só assim se explicam os imensos conhecimentos particularizados, que Aristóteles, nos seus escritos, pressupõe e utiliza. Apenas doze anos durou essa frutuosa atividade. Depois da morte de Alexandre (323) veio a dominar, em Atenas, o partido antimacedônico, e Aristóteles preferiu fugir, antes ‘de’ lhe ser intentado o processo de asebia, "não fossem os atenienses pecar, uma segunda vez, contra a Filosofia", como disse, aludindo a Sócrates. Já um ano depois, em 322, morria êle em Calcis, na Eubéia.     

Ainda possuímos o seu testamento. É um símbolo do homem e da sua Filosofia. Lançado na vida concreta e tomando conhecimento -das suas particularidades, contudo, longe de se perder, assim, a si mesmo, vive uma. vida inspirada numa nobre formação do espírito e do coração. De maneira comovedora dispõe o filósofo, isolado e no exílio, da sua casa; cuida de seus dois filhos, Pítias e Nicômaco, como também da mãe deste último; lembra-se, amigavelmente, dos seus , alforriando a maior parte deles; os que lhe serviram pessoalmente poderiam continuar na casa, até chegarem à idade conveniente, devendo então ser libertados.   Desfilam no documento as recordações da casa paterna, lembranças da mãe e do irmão, cedo desaparecidos, e da esposa morta, Pítias. Onde fôr êle sepultado, para aí deverão também ser levados os ossos dela, "conforme o desejo por ela própria manifestado". A última disposição prevê que Nicanor, seu irmão adotivo, que serviu como oficial no quartel general de Alexandre, cumpra o voto que Alexandre fêz por êle: depois do seu regresso feliz à pátria, deveria êle consagrar, em Estagira, estátuas de pedra, de quatro côvados de altura, a Zeus, o Salvador, e a Atena, a Salvadora.

Escritos

Dos escritas de Aristóteles muitos se perderam, e o que possuímos não se acha em boa ordem. Do ponto de vista da sua publicação, distinguimos escritos que Aristóteles formalmente publicou, chamados exotéricos ( εξωτερικοι λογοι ενδεδομενοι λογοι ); e outros que êle, formalmente, não publicou, Chamados acroamáticos, ou também esotéricos ou didáticos (pragmáticos). Os primeiros eram destinados a um largo público, obras literárias artísticas, na maior parte meros diálogos da sua juventude. Ainda, possuímos fragmentos deles. Os últimos oram, somente, uns esboços delineados, às pressas, para o fim do ensino em Assos ou particularmente no Liceu. Foram publicados, pela primeira vez, por Andrônico de Rodes, cerca de 60-50 a. C., depois de terem jazido enterrados durante muito tempo. Desde que Coram descobertos, a antigüidade se serviu deles e deixou de lado as obras da juventude. Donde resultou o perder-se de vista a evolução do pensamento de Aristóteles, pondo-se os escritos indiscriminadamente, como se tivessem todos seus escritos sob o mesmo ponto de vista. Só depois .do aparecimento do livro de Jaeger — "Aristotele Grundenung einer Geschichte seiner Entwicklung", e que veio, de novo, valorizar os fragmentos  das primeiras obras, podemos apreciar a evolução do pensamento de Aristóteles e lhe compreender os escritos, inclusivamente as πραγματεια, em correlação com a sua seqüência cronológica. Assim considerando, distinguimos três períodos: a época da Academia; a época de transição e  a da sua atividade do Liceu.

a) Academia. — No seu primeiro período, o pensamento de Aristóteles é inteiramente platônico.   No diálogo Eudemo, p.ex., ensina a pré-existência e a , com argumentos semelhantes aos do Fédon de Platão; ensina a contemplação das Idéias e a anamnesis e considera próprio õ essencial ao homem somente a existência incorpórea da alma. Corpo e alma são tidos, ainda, numa concepção totalmente dualista, como .substancias separadas. O Protreptikos é, a seguir, uma exortação a uma conduta de vida puramente filosófica, com o fito nas Idéias eternas, conforme ao lema da República platônica: "No céu há existente um modelo, que todos os de boa vontade devem contemplar e, por ele, dirigir o seu próprio ser". O Protreplico foi muito lido na antigüidade. Jâmblico dele se serviu, para compor o .seu próprio Protréptica Cícero, para o seu Hortensius, e, através deste, chegou a influenciar Sto. Agostinho. Outros escritos deste tempo são os diálogos: Sobre a Justiça, o Político, o Sofista, o Symposion, Sobre o Bem, Sobre as Idéias, Sobre a Oração.

β) Época de transição — A época de transição espelha-se nos escritos de Assos, Lesbos e da corte macedônica. Importante é, então, o diálogo "Sobre a Filosofia"’. No segundo livro desta obra critica a doutrina das Idéias. No 8." livro, já Aristóteles expõe os princípios fundamentais da sua. concepção do mundo, e já deixa transparecer o conceito central da sua metafísica própria, o do motor imóvel (segundo W. Jaeger, contestado por H. v. Arnim). Mas ainda se move dentro das concepções da Filosofia platônica posterior, como se expressa no Epinomis. A este tempo pertencem as primeiras partes das obras didáticas, que W. Jaeger considera como constituindo a primeira metafísica, a ética primitiva, a política primitiva e a física primitiva.

 γ) O Liceu. — Ao período do Liceu pertencem os escritos didáticos, com exceção das partes do primeiro período criador de Aristóteles, conforme constam da sua atual versão. Como devemos classificá-las, é matéria muito controvertida. Aqui distinguimos: 1- Escritos lógicos: Κατηγοριαι (Catego riae, Praedicamenta); Περι ερμηνειαζ (De interpretatione); ‘Αναλυτιχα προτερα’ e ‘Αναλυτιχα υστερα’ (Analytica priora e posteriora); Τοπιχα (Tópica); Περι Σοφιστικον ελεγχωον (De sophisticis cienchis). Mais tarde, todas estas obras foram incluídas na denominação geral de "Organon"’, porque se considerava a   lógica como o instrumento para .se proceder, retamente,   na   indagação   científica.: 2  —  Escritos   metafísicos:  (Physica- ausutatio), obra de Filosofia naral  do ponto de vista metafísico, em 8 livros;  (Metaphysica),   ou   a  doutrina   geral   de Aristóteles sobre o  ser  como   tal,   suas   propriedades   e   causas,   em  14 livros, cujo título é puramente casual, e apenas significa que estes  livros,   na   edição   das   obras  didáticas   de  Andrônico, vinham  depois dos livros  da Física, mas,  ao mesmo  tempo, de a indicação metódico-real de que, na ordem do conhecimento,   devem   ler-se  depois   (uercí)   das   obras   de  física;   e o seu objeto é o que, por natureza  (πον φγσει) vem em 1º lugar, chama-se, por isso, "Filosofia primeira"’.   3 —
Escritos sobre ciências naturais:  (De Coelo);Escritos sobre as ciências naturais: Generatione et corruptione);    (Metereologica),  espécie de geografia física;   (Historia  animalium),  zoologia sistemática, em dez, livros;  (De partibus animatium);  sobre as partes dos  animais;    De incessu animalium),  sobre o andar dos animais;     (Do motu animalimn), sobre o movimento dos animais;   (De generatione animalium), sobre a geração dos animais;    (De anima), sobre a alma, em 3 livros;  além disso, uma série de escritos de pequenos tratados de ciências naturais (Parva naturatia), cujos títulos são: De sensu et sensbilibus;  De memória et reminiscentia; De  Somno  et   Vigília;  De Insomniis;  De Divinatione per Somnum; De Longitude et Brcevitate Vitae; De vita et Morte;  De Respirarione.   4 - Escritos éticos e políticos:           (Ethica Nicomachea), uma ética sistemática em 10 livros, publicada pelo filho de Aristóteles, Nicômaco,  que lhe deu o nome;    (Politheia), 8 livros sobre sociologia,  Filosofia  do  Estado  e Filosofia  do  direito, como as concebia Aristóteles;   (Atheniesium res publica), a única constituição que chegou até nós, das 158 que  Aristóteles colecionou.   Foi  descoberta em 1891.

Fazem  parte   do   Corpus   Aristotelicum-   a  (Ethica Eudemia)   (Magna Moralia),  sendo a primeira,  provavelmente, a primitiva Ethica aristotélica e, a segunda, a post-aristotélica. 5 – Escritos filológicos:      (Ars   rhetorica),   sobre   a   arte   de   falar;     Περι Ροηετικηζ  (Ars poetica), sobre a arte poética.

Escritos espúrios: Catefforias 10-15 (Postpracdicamenta), são, de ordinário, consideradas como espúrias, poderiam, contudo, ser autênticas; o livro IV dos Meteorológicos, De mundo (influenciado pelo estoicismo, aparecido entre 50 e 100 P.O.)} o livro X e talvez também os livros VII, o VIII, cap. 21-30 Q o livro IX da História dos Animais; Sobre algumas notáveis percepções auditivas; Sobre as plantas; Sabre m Si-tuação e o Nome dos Ventos; Sobre os Som; Sobre a Respiração; Sobre a Moeidade e a Velhice; Sobre as cores; Sobre as linhas insecáveis; Mecânica; Economia; Fisiognômica; Rethorica ad Alexandrum; Sobre Xenófanes, Zenão e Górgias. O livro A da Metaphysica e o H da Physica são escritos de alunos seus. Os Problemata são pós-aristotélicos, mas se inspiram em notas aristotélicas.

Bibliografia.

Edições gerais: Aristotelis Opera. Edidit Academia Regia Borus-sica. 5 Bde. Mit lateinisehen Überscteung, Scholien und des Grossen Index vom Bonitz (1831-1870) : O Index de Bonita apareceu cm 1955, em reprodução (Wissenschaftl. Buchges. Darmstad). Aristotle, Works with English Translation. De diversos editores em Loeb Classical Líbrary (London 1947 ss.). As mais importantes das obras de Aristóteles, publicadas em separado, existem agora na Bibliotheca Oxoniensiis, já que as antigas edições teubnerianas não são mais acessíveis. Os Fragmentos, segundo V. Rose und R. Walzer, e agora em W. D. Rosa, Fragmenta Seleota   (Oxoni,   1955).

Traduções: alemãs, a de Rolfes, em Meiners Phillos. Bibliothek; de Gohlke, em Scliüningli-, Paderhorn, (1948 ss.) ; a de O. Gigon, em Arthcmi$-Verlar/-Zürich (1950 ss.) a de E. Grumach e outros (Berlin und Darmstad 1950 ss.). Inglesas: Smith-Ross, 12 vol. (Oxford 1908-1952). — Comentários: os antigos Commentaria in Arirtotelicum Graeca, 23 Bde. (1882-1903). E mais o Supplementum Aristotelicum, 8 bde. (1882-1903). Dos modernos, são particularmente valiosos Kommentare sur metaphysik, de SCHWEGLER (Tübingen 1847-48) e Bonitz (Bonn 1848-49), e os grandes comentários, em inglês, de Grant, Ste-ward, Burnet, Joachim, à Ética; os de W. L. Newman, à Política; os de W. D. Ross, à Metafísica, Physica, à Analítica e Parva Natu ralia; os de Joachim, ao De penerationc et corruptione. Os dois primeiros volumes da tradução feita por Grumach ( e Parva Naturalia) contêm, igualmente, um valioso e extenso comentário (Fr.   Dielmeikr).

Teorias concernentes à cronologia

Desde o livro de Jaeger sobre a evolução de Aristóteles, acham-se  as  indagações  num  movimento  violento   e,   muitas vezes, cheio de contradições. O pensamento fundamental de W. Jaeger é o seguinte: Aristóteles, na sua mocidade ainda platônico, evolui afastando-se cada vez mais do seu mestre, embora conserve certas idéias essenciais à Filosofia platônica. Filosòficamente falnndo, o supra-sensível do mundo das idéias, na concepção platônica, perde cada vez mais a importância no decurso do tempo, ao passo que sobe o interesse pelo nosso inundo, e sua indagação empírica. Neste mundo espácio-temporal é que Aristóteles acabou, finalmente, por se fixar. Em conseqüência, dentre as suas obras, são tidas como as primeiras aquelas onde predomina o pensamento de Platão. E são posteriores aquelas onde essa influência desaparece, a) Daí, são inteiramente platônicos os dialogas da mocidade, quando Aristóteles ainda pertencia, ã Academia, b) Mas, também na época de transição, embora já se manifestem novas idéias, Aristóteles ainda é tido como platônico. A este período pertence a chamada Física primitiva (Phys. A, B; De caelo; De generatione et corruptione); a Metafísica primitiva (Met. A, B, K 1-8, A, com exceção do cap, 8, M 9-10, N); a Ética primitiva (Et. Eud. A, B, T, H e a Política primitiva (Polit. B, Γ, Η, Θ). c) Todas as outras obras pertencem ao tempo do Liceu: Agora, a metafísica), já não é a teoria do mundo supra–sensível, luas a da substância singular, sensivelmente perceptível, como se vê na Metaf. Ζ Η,Θ . E a psicologia, a ética . e a política ocupam-se também com a realidade concreta e os seus dados positivos. — H. v. Arnim interpreta a evolução aristotélica de maneira totalmente diferente. Os livros Iv, A, N da Met. são os primitivos; os outros pertencem ao tempo do Liceu, mesmo os livros A e B, que atualmente estão ao lado dos livros Ζ Η, Θ ; enquanto para Jaeger, estes são obras posteriores. Em lugar da Ética Eudêmica, são as Magna Moralia a Ética primitiva, ao passo que aquela pertence à segunda estada era Atenas. — "W. D. Ross interpreta na mesma linha de Jaeger: a) Tempo da Academia: Diálogos de inspiração platônica; b) Tempo de Assos, Lesbos, Messênia aquelas obras que chegaram até nós, e que ainda são platonizantes, e são, para Ross: A. Física, o De coele, De generatione et corruptione, De anima, livro III, Ética Eudêmica, as partes mais antigas da Metafísica e a Política, talvez ainda as partes mais antigas da História- dos Animais. As partes mais antigas da Metafísica seriam, então M A, K 1-8, A, N; As da Política os livros: Η e Θ. c) O tempo do Liceu leva, finalmente, à conclusão das obras começadas no período intermediário, e, antes de tudo, da Metafísica; em seguida, a Ética a Nicômaco, a Política e a , a coleção das Constituições Políticas, os Meteorológicos, assim como as obras psicológicas e biológicas.

Ross descobre a linha geral, também, num movimento que, partindo de "um outro e além-mundo, acentua um interesse crescente pelos fatos concretos da natureza e da história; e na convicção de que a forma e o sentido do mundo não se separam da matéria, mas devem achar-se incorporados nela". Tinia evolução semelhante também a descobre Ross no próprio Platão, mas ao inverso: quanto mais êle se afasta de Sócrates, tanto mais se acentua a transcendência das idéias, i.é, a total separação do supra-sensível. Donde a volta, agora, em Aristóteles, do supra-sensível para o sensível. Exagera-se, então, a idéia do supra-sensível, isto é, a Metafísica não significa já uma "separação" total, mas uma separação completamente específica, realizada de determinado modo. Esta falsa idéia de metafísica encontra-se, porém, muito disseminada. E por aqui se vê como ela também ainda influencia, a formação histórico-literária do pensamento.

A teoria de Gohlke se manifesta diversamente: a) O período platônico domina o pensamento de Aristóteles, desde o começo até aos quarenta anos. A partir de então, toma Aristóteles, rapidamente, um rumo que o leva a trilhar caminho inteiramente próprio, contudo, já previamente preparado, b) Na partida de Atenas paia Assos, Aristóteles se volta para a constituição das suas idéias ético-políticas; é de então o primeiro plano das Magna-Moralia; a seguir vêm os livros mais antigos da lógica e da metafísica, entre os quais as Categorias e os Tópicos 3-0. Mas, filosòficamente, encontra-se ainda no terreno da teoria, das idéias, c) Depois da volta para Atenas, manifesta-se, logo, na sua própria escola, a tendência para a substância das coisas concretas e singulares. Com o surgir da doutrina do ato e da potência, que se nota com a introdução de uma idéia nova, a δυναμιζ, fêz com que Aristóteles, partindo da idéia de potência, pudesse aceitar, de novo, a idéia do eidos. Mas a mudança mais radical está em que a ciência da substância como ser concreto veio a transformar-se numa teologia. Ao contrário do que afirma Jaeger, este Aristóteles empírico interessa-se agora, e de novo, pelo princípio do ser, tornando-se então um teólogo, e mesmo um teólogo monoteísta. (Met. À, e De Mundo, que Gohlke, apesar de toda a crítica filológica, tem como autêntico). Na cronologia da Metafísica, Gohlke distingue 4 fases: l) a primitiva Metafísica (A 1-9, B, V, A, Z, na concepção antiga, e I). 2) a média Metafísica (A 1-7 e 10, B-E, Z, na antiga concepção, e I, M ab, 10S6 a 21, N). 3) o chamado "esboço" (K, A). 4) A forma de uma incipiente e nova elaboração, reconhecível pelos acréscimos à média Metafísica, particularmente em Z, e assim como em trechos inteiramente novos (α, H, M até 1086 a 21). Para a Física, sua cronologia é: A, E, Z-©, na antiga concepção, sem o "motor imóvel", B-A e, finalmente, a nova concepção de © e a composição do todo.

M. Wündt, em grande parte de acordo com Gohlke, Coloca igualmente no começo dos anos de magistério, no Liceu, a convicção de Aristóteles de que as coisas singulares concretas e sensíveis significam o ser, no sentido primitivo; | o que vemos no livro das Categorias, todo êle dos primeiros tempos. Nisso permanece, mas, de outro lado, nasce, em Aristóteles, a preocupação de saber se não deve admitir, também, uma forma de essência, a supra-sensível. Por isso, podemos circunscrever a Filosofia de Aristóteles entre dois pólos — o singular concreto e o universal; o que bem claramente se vê na questão do conceito de metafísica e da concepção da ουσια. A primeira questão corresponde o problema, da matéria, das αρχαι e do movimento, problema esse já posto pelos jônios.; à segunda, o problema do ser como tal, da forma e do ειδοζ universal, problemas estes que já foram formulados pela Filosofia itálica e platônica. A influência platônica, perceptível, talvez, na Física B e Met. F, E e À é muito mais recente, pois aí emerge, pela primeira vez, o duplo conceito de δυναμιζ ενεργεια que Aristóteles,, só mais tarde, descobriu, como o demonstra Gohlke. A influência jônica, perceptível talvez em Fís. A e Met. A1-2 ou A é mais recuada no tempo. Do contato dessas duas esferas de pensamento teriam nascido as da Metafísica. Aristóteles procura resolvê-las pela dupla de conceitos δυναμιζ ενεργεια. Essa dualidade de conceitos é a sua primeira e mais própria realização, e é a esta luz   que   devemos   interpretar   a   sua  discussão  com   Platão.

Livros que não contêm essa dualidade de conceitos são sempre lidos como os mais antigos. Que Met. E e A. sejam mais recentes, deduz-se do fato de que, aí, recorre-se à idéia do motor imóvel, o que levou Hans v. Arnim a afirmar que Aristóteles só posteriormente o descobriu. Êle poderia tê-lo entendido, de acordo com os jônios, como a causa primeira, e, de acordo com Platão, como o ser que só existe por si mesmo. Bem no começo se deve colocar Met. Z, que pressupõe a idéia, fundamental de que a substância é, propriamente, a substância primeira e, com ela é, ao mesmo tempo, encontrado o tão desejado objeto da metafísica. Uma substância singular, a saber, a divina, constitui a pedra de fecho da Metafísica. Ela se distingue das substâncias singulares comuns, como o incondicionado, do condicionado. O sentido de toda a Metafísica está nessa elevação da substância individual, sensível e condicionada, para a substância incondicionada do primeiro motor. Segundo J. Zuercher, tudo quanto de autêntico ainda se encontra, no Corpus Aristotelicum reproduz a Filosofia platônica. E isso constituiria, certamente, apenas cerca de 25% de todo o Corpus. Tudo o mais é acréscimo posterior de Teofrasto, que, durante trinta, anos, trabalhou com o inventário da obra do seu mestre, e a teria alterado fundamentalmente.

Bibliografia

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