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Fúrio Camilo – Plutarco – Vidas Paralelas


Índice

Plutarco – Vidas Paralelas

VIDA DE CAMILO

 

Denominado o segundo fundador de Roma.

 

Desde o ano 308 até o ano 339 de Roma, trezentos e sessenta e cinco anos antes de Jesus Cristo.

 

MARCO FÚRIO CAMILO

I. Dignidades acumuladas sobre Camilo sem o consulado.

Entre as muitas grandes coisas que se dizem de Fúrio Camilo, parece a mais nova e a mais estranha a de ter exercido os primeiros cargos de seu país, realizando muitos altos e gloriosos feitos, como o de ter sido eleito cinco vezes e o de ter triunfado quatro, adquirindo o título de segundo fundador de Roma sem jamais todavia ter sido cônsul. Resulta isso do estado em que se encontrava, por esse tempo, a coisa pública romana porque, mantendo-se o povo em dissensão contra o senado, não queria mais eleger cônsules, elegendo porém, outros governadores que se chamavam tribunos militares, os quais, ainda que fizessem todas as coisas com autoridade e poder semelhante ao dos cônsules, não eram contudo tão odiosos ao povo em razão do nome, porque, colocar a direção dos negócios na mão de seis oficiais e não na de dois somente, era de algum conforto para aqueles que suportavam de má vontade o domínio da nobreza pouco numerosa, Camilo estando assim, durante esse tempo, no auge do seu prestígio, e na maior glória dos seus atos, não desejou ser cônsul contra a vontade do povo, embora durante o tempo em que êle se manteve em voga, tenha havido cônsules eleitos, por muitas vezes.

II. Sua moderação; sua bravura.

II. Em todos os outros cargos e ofícios, entretanto, que êle exerceu de toda a espécie, comportou-se de tal maneira que enquanto esteve só, a autoridade era comum, e quando teve companheiro, a glória do que se fazia recaía apenas sobre êle. De ve-se isso, de um lado, à sua moderação, porque êle comandava sem arrogância, e de outro à sua grande prudência e eficiência, pelo que os demais lhe cediam voluntariamente o primeiro lugar. Não sendo ainda a casa dos Fúrios (1) muito célebre, foi êle o primeiro que de si próprio começou a elevá-la, quando em uma grande batalha travada contra os equos e os volscos, como simples homem de armas, sob o ditador Postúmio Tuberto (2), foi o primeiro a carregar, avançando na frente de todo o exército, e ferido na coxa, não recuou, mas arrancando, êle próprio, o pedaço de dardo que lhe ficara enterrado, atirou-se sobre os homens mais valentes do inimigo e combateu tão valorosamente que os fêz dar as costas.

 

III. Ele é nomeado censor.

III. Nessa ocasião, além de outras honras e recompensas obtidas, foi êle eleito censor, ofício que já a esse tempo, era de preeminência e dignidade. Realizou Camilo nessa censura, dois atos notáveis: um honesto, quando induziu os homens, não casados, a esposar as mulheres viúvas, muito numerosas por causadas guerras, levando-os a aquiescer, em parte por solicitações que lhes fêz, em parte por ameaças de condená-los a multa; o outro necessário quando fêz lançar impostos sobre as crianças órfãs as quais antes dele jamais tinham sido tributadas. O motivo da medida decorria da continuidade das guerras, em virtude das quais a república era obrigada a fazer grandes despesas, especialmente no cerco da cidade dos Veienses, denominados por alguns, (3) venetaneanos, que mais urgia no momento, porque a cidade era a capital de toda a Toscana, a qual em quantidade de armas e em número de combatentes não era de forma alguma inferior a Roma, e engran-decendo-se com a suai opulência e delícias, tinha antes combatido muitas vezes contra esta em muitas grandes batalhas, pela glória e pelo império. Sentindo-se porém, enfraquecida a esse tempo, em razão de numerosos combates em que fora vencida, abandonava sua primeira ambição de sair contra os romanos em campo raso. Tendo os habitantes levantado e guarnecido adequadamente as muralhas com boa provisão de armas, dardos, trigo e outras munições necessárias, sustentavam ousadamente, sem temor de nada esse sítio (4), que já se prolongava muito, e não era menos penoso e difícil para os sitiantes do que para os sitiados; porque, enquanto, em tempos anteriores não costumavam os combatentes manter-se em campo senão no estio, retirando-se no inverno para suas casas, foram então, pela primeira vez, constrangidos pelos capitães e tribunos militares a edificar fortes e a murar seu acampamento, dentro do próprio território dos inimigos, passando aí, tanto inverno (5) como verão.

IV. Cerco ds Veios.

IV. Ora, já durava o cerco sete anos inteiros, e censurados os capitães por não cumprirem o dever de conduzi-lo com o devido calor, foram eles, finalmente depostos dos seus cargos elegendo-se outros em seu lugar para terminá-lo, entre os quais Camilo que, instituído tribuno militar pela segunda vez, nada tinha feito ainda nesse assédio, porque lhe coubera em sorte, fazer a guerra aos falerianos e cape-nates, os quais, promovendo correrias em suas terras enquanto os romanos se achavam impelidos em outro lugar, haviam nos molestado e prejudicado seriamente durante todo o tempo da guerra Toscana. Cam:lo, porém, batendo grande número deles que encontrou em campo, expulsou os demais, encerrando-os no interior de suas muralhas.

V. Enchentes e extravasamento do lago de Alba.

V. Entrementes, o acidente do lago Albaniano (6), sobrevindo ao tempo em que a guerra da Toscana se desenvolvia com mais vigor, estarreceu pro-fundamente os romanos, não sendo menos de admi-rar do que as mais estranhas e incríveis coisas que se pudessem ouvir contar, porque não é possível con-ceber para o caso, nenhuma razão comum, nem causa com fundamento natural. Estava-se já no princípio do outono e terminava o verão que não fora muito chuvoso, nem excessivamente desagradável em virtude dos ventos sulinos. Existindo na Itália muitos lagos, muitos ribeiros e rios, muitas fontes e outras águas, umas secaram totalmente, outras mal resistiram à seca, estando os rios muito baixos como acontece ordinariamente no verão, havendo bem pouca água. Ao contrário, porém, o lago de Alba que não tem origem em outra fonte, nem transborda de si mesmo, cercado totalmente por encostas e montanhas, onde a terra é bem boa, começou a encher e levantar-se à vista de olhos, sem causa nenhuma a não ser oculta e divina, e continuou assim, crescendo cada vez mais ao longo das encostas até atingir o mais alto nível, subindo sempre serenamente, sem agitação nem tormenta qualquer.

VI. Isso produziu, a princípio, um grande espanto, nos pastores e boiadeiros que guardavam seus animais na região, mas quando a terra de uma das encostas que sustinham o lago como um dique e o impediam de espalhar-se pelo campo, veio, finalmente, a romper-se pelo peso e grande quantidade de água, a qual se foi descarregar no mar com uma violencia e ímpeto inauditos, através.das terras lavradias e das herdades arborizadas; então, não somente os romanos, mas todos os habitantes da Itália se aterraram, julgando que era sinal e presságio de algum grande acontecimento futuro, e não falavam de outra coisa dentro do campo que sitiava a cidade de Veios de forma que o rumor penetrou até mesmo os sitiados.

VII. E como sucede ordinariamente em cercos que duram excessivamente, onde os de fora se comunicam muitas vezes com os de dentro, houve um romano que conseguiu aproximar-se, habituando-se a tratar familiarmente com um dos da cidade, que conhecia muitas coisas antigas, e era considerado como mais entendido na arte de adivinhar do que nenhum outro. O romano falou-lhe então, certo dia, nessa enchente do lago de Alba, e vendo que o outro, depois de ter ouvido, dava mostras de grande alegria zombando do assédio, disse-lhe que esse espantoso acidente não fora o único sucedido aos romanos por esse tempo, havendo muitos outros ainda mais estranhos que êle desejaria comunicar-lhe, para ver se não haveria meio de conseguir viessem a bom termo seus negócios particulares, uma vez que os públicos iam tão mal. Ü veietaneano respondeu qué-de boa vontade os ouviria e se dispôs a isso atentamente, esperando receber do romano algum grande segredo. Mas este, atraindo-o a si de conversa em conversa sempre caminhando, ao vê-lo bastante longe das portas da cidade segurou-o subitamente, e, sendo mais forte que êle, dominou-o, levando-o aos capitães, ajudado por outros que acorreram do acampamento. Vendo-se assim forçado, e sabendo também que não se pode evitar o destino fatal, começou este homem a declarar e revelar aos romanos, antigos oráculos e profecias relativos à sorte da sua cidade, nos quais se afirmava que jamais ela seria tomada antes dos inimigos fazerem voltar para trás a água do lago de Alba que transbordaria, e antes de provocarem um desvio dessa água em outra direção, de forma que não viesse mais a descarregar-se no mar.

VIII. A notícia transmitida ao Senado de Roma, foi sujeita à deliberação do Conselho, que decidiu se enviasse alguém ao oráculo de Apolo na cidade de Delfos, para perguntar-lhe o que deveria ser feito. Foram, para isso, enviados Cosso Licínio, Valério Potito, e Fábio Ambusto, grandes e notáveis personagens, as quais, teita a viagem por mar e obtida a resposta solicitada, voltaram ao país trazendo um oráculo, entre outros, revelando que, por negligência, tinham sido omitidas algumas antigas cerimônias das férias latinas (7); e outro determinando que se evitasse por todos os meios imagináveis, que a água do lago de Alba entrasse no mar, fazendo-a voltar, se possível, ao seu antigo leito e desviando-a, em caso contrário, por meio de muitas fossas e valos a fim de que ela se perdesse pelo campo.

IX. Primeira ditadura de Camilo.

IX. Ouvidos os oráculos os sacerdotes deram provimento à parte relativa ao serviço divino, e o povo se dirigiu à água do lago para desviá-la. Feito isso, o Senado, no décimo ano da guerra contra os Veienses, demitiu todos os outros e instituiu Camilo ditador (8). Nomeou este como orientador e chefe da cavalaria, a Cornélio Cipião, e antes de qualquer manobra prometeu aos deuses que se lhes agradasse dar um fim favorável a essa guerra, ele Camilo, faria celebrar grandes jogos em sua honra, bem como edificar um templo à deusa denominada pelos romanos Matuta (9), parecendo ser aquela que nós chamamos Leucotéia, tendo em vista as práticas dos seus sacrifícios, porque eles fazem entrar no templo uma camareira em quem dão bofetadas e fazendo-a sair depois, abraçam os filhos de seus irmãos, de preferência aos próprios, realizando muitas outras cerimônias semelhantes às que se oferecem às amas de Baco, bem como às dificuldades pelas quais passou Ino por causa da concubina de seu marido.

X. Derrota do Faliscos.

X. Feitos esses votos e orações, entrou Camilo, com seu exército, pela terra dos , aos quais derrotou em uma grande batalha juntamente com os capenates que os tinham vindo socorrer; dirigiu-se dali para o cerco da cidade de Veios onde. vendo que a sua tomada de assalto era coisa muito perigosa e difícil, começou a miná-la, verificando ser a terra da região própria para escavações e para minas tão profundas que os inimigos nada podiam perceber. Realizando-se o plano, de acordo com suas esperanças, Camilo fez dar um assalto geral à muralha para obrigar a virem sobre ela todos os da cidade, e, enquanto pretendiam defendê-la, seus homens entraram secretamente pelas minas até o interior da praça no templo de Juno, que era o maior de toda a cidade, e ao qual os habitantes dedicavam a maior devoção. Conla-se que exatamente nesse momen o. o capitão dos toscanos fazia aí um sacrifício aos deuses, tendo seu adivinho, gritado alto, considerando as entranhas dos animais imolados, que os deuses dariam a vitória a quem surgisse durante o sacrifício.

XI. Tomada de Veios.

XI. Os romanos, dentro da mina, ouvindo essa exclamação romperam imediatamente a terra, lançan-do-se para fora bradando e fazendo barulho de armas. Os inimigos aterrados fugiram, e eles, tomando as entranhas, levaram-nas a Camilo. Embora isso se assemelhe muito aos contos de imaginação, tendo Camilo tomado a cidade por esse meio, vendo do alto do castelo como os romanos pilhavam e saqueavam a enorme riqueza que havia na cidade, começou a chorar de compaixão. Como aqueles que estavam ao redor dele falassem na sua felicidade, Camilo levantou as mãos para o céu, fazendo a seguinte prece: «Oh! altíssimo e vós ó deuses que vedes e julgais as boas e as más ações dos homens, sabeis bastante que nós outros não iniciamos esta guerra voluntariamente, sem razão e sem causa, mas justamente e constrangidos a isso, para vingar-nos de uma cidade inimiga que nos fizera muitos ultrajes. Mas se, por acaso, entretanto, nos é predestinada alguma desgraça, como contrapeso desta prosperidade, eu vos suplico que em lugar de fazê-la cair sobre toda a cidade de Roma, ou sobre todo o seu exército, seja de vosso agrado permitir, com o menor mal possível, que ela caia apenas sobre mim.»

XII. Tendo pronunciado essas palavras quis êle virar-se para a direita, como é costume dos romanos quando fazem suas súplicas e orações aos deuses, mas, ao voltar-se sofreu uma grande queda no meio da praça. Os assistentes perturbaram-se, tomando esse acidente por mau presságio mas Camilo, levan-tando-se, disse-lhes que tinha-lhe acontecido o que pedira aos deuses: era um pequeno mal, contrabalançando uma grande felicidade.

XIV. Triunfo de Camilo. Ele se opõe à proposta da evacuar uma parte de Roma para ir habitar Veies.

XIII. Pilhada e saqueada toda a cidade, Camilo quis transportar também para Roma, a imagem de Juno, segundo o voto que fizera. Tendo enviado operários para esse fim, sacrificou primeiramente à deusa, rogando-lhe quisesse aceitar e ter por agradável o bom afeto dos romanos, indo voluntariamente habitar entre os outros deuses que mantinham Roma sob a sua proteção. Há quem diga ter a imagem respondido estar satisfeita com isso, embora Lívio (10) escreva que Camilo fêz essa prece tocando a imagem, tendo os assistentes respondido que ela estava de acordo e iria de boa vontade. Aqueles, entretanto que afirmam ter sido a resposta dada pela própria imagem, tendendo para o milagre, têm um grande argumento para ajudar a prová-lo, na sorte da cidade de Roma, a qual, de um começo tão humilde e pequeno não poderia jamais subir a tão alta glória e tão desmedido poder, sem o especial favor dos deuses, que se revelou de uma forma evidente em muitas grandes e expressas demonstrações. E alegam além disso, muitas outras maravilhas semelhantes, como a de terem imagens produzido, outrora, gotas de suor, terem sido ouvidas suspirar, terem-se virado de lado ou feito alguns sinais com os olhos como se vê em muitas histórias antigas. Nós mesmos poderíamos contar muitos prodígios semelhantes, (11) ouvidos a homens de nosso tempo, os quais não são para rejeitar nem condenar levianamente. Quanto a tais coisas há o perigo de darmos a elas muito crédito ou muito pouco, em virtude da tolice da natureza humana, a qual não tem limites precisos, não podendo conter-se a si mesma, deixando-se algumas vezes expandir-se em vaidade ou superstição, e outras em desprezo e recusa das coisas divinas, pelo que, manter-se com cautela sem muita precipitação neste campo, como em tudo o mais, é o melhor.

XIV. Camilo, entrementes, seja porque a grandeza da obra concluída o tivesse envaidecido, por ter tomado uma cidade que disputava de igual para igual com Roma, e isso após dez anos de sítio, ou porque as palavras daqueles que o abençoavam e engrandeciam o tivessem encorajado, levando-o a fazer de si mesmo, uma opinião mais presunçosa do que a que comportava a dignidade de um magistrado da república, sujeito às leis, preparou um triunfo soberbo, e magnífico em todo o seu aparelhamento, principalmente em ter-se feito conduzir através de Roma em um carro triunfal tirado por quatro corcéis brancos, o que nenhum capitão ousara antes dele, nem o ousou depois, por considerar-se esse veículo como sagrado e destinado apenas ao rei e pai dos deuses. Essa atitude gerou a malquerença dos seus concidadãos não habituados a um tal desafio. Se houve ainda outro motivo que o tornou malquisto, foi sua oposição à lei projetada de dividir-se a cidade de Roma, porque os tribunos populares propuseram um edito (12), para que fossem separados o povo e o em duas partes, man-uado-se em Roma aqueles escolhidos pela sorte, indo os outros habitar a cidade de Veios, recentemente conquistada, alegando, para persuadi-los, que uns e outros se tornariam mais ricos, e guardariam mais facilmente suas terras e seus bens das incursões dos inimigos, por meio dessas duas grandes cidades. O povo que já se multiplicara muito (13) e tinha cumprido devidamente sua tarefa, achou o projeto o melhor do mundo e não fazia outra coisa senão gritar em tumulto diante da tribuna de onde se faziam as arengas, pedindo se submetesse a lei à votação e ao sufrágio popular. Mas o senado, conjuntamente, e toda a gente de bem entre os cidadãos, considerando que esta proposta dos tribunos seria a destruição e não o desdobramento da cidade de Roma, não podiam suportar o progresso dessa lei, recorrendo a Camilo que, com medo de experimentar se ela passaria ou não, ia sempre inventando novos motivos e impedimentos, pelos quais adiava e transferia sempre para mais tarde a sua complementação, sendo, por essa razão odiado, pela plebe. Mas a causa principal, a mais visível e não sem algum fundamento, da malquerença do povo contra êle, resultou da décima dos despojos, embora, em verdade, fosse injustamente que o povo o quis mal por isso. Porque, quando Camilo se viu diante da vila de Veios, fêz votos de oferecer aos deuses o dízimo (14) da prêsr. que se conquistasse na tomada desta cidade, caso a pudesse tomar. Quando, porém, ela foi tomada e pilhada, fosse por constrangimento de molestar seus concidadãos, ou porque, pelo grande número de outros assuntos, tivesse esquecido seu voto, Camilo permitiu que os homens de guerra repartissem entre si os despojos, realizando seu proveito. Depois de estar, já havia algum tempo fora do cargo, advertiu o senado do fato, enquanto, ao mesmo tempo, os adivinhos revelaram que, pelos sinais dos sacrifícios, percebiam certa irritação e descontentamento dos deuses, sendo necessário reconciliar-se com eles e pacificá-los.

XV. Descontentamento do povo.

XV. Ciente do fato, o senado ordenou que cada um trouxesse, mediante juramento, o décimo do seu ganho, sendo como era, inviável a apresentação das próprias coisas recebidas como parte da presa, para nova partilha. Houve, em conseqüência, muito atrito e foi necessário usar violência para os pobres soldados, que muito haviam trabalhado e sofrido nessa guerra, devolverem uma tão grande porção do seu lucro, tendo em vista especialmente que muitos o tinham já gasto, motivo pelo qual todos protestavam contra Camilo. Não encontrando este outra razão melhor para cobrir-se foi constrangido a usar a mais fraca e descabida das desculpas, confessando ter agido assim por esquecimento. O povo. entretanto, não deixava por isso de irritar-se asperamente, dizendo que êle oferecera então, aos deuses o dízimo dos bens dos inimigos, e queria, agora, dizimar seus próprios concidadãos. Não obstante isso. cada um trouxe o que devia de sua parte e foi decidido fundir-se uma taça de ouro maciço, para ser enviada ao templo de Apolo, na cidade de Delfos. Como porém, houvesse bem pouco ouro na cidade de Roma, e os oficiais estivessem impedidos de o procurar onde podia ser encontrado, as damas romanas, de si mesmas, decidiram entre elas contribuir com o ouro de suas jóias, para empregá-lo na fabricação dessa oferenda que pesou oito talentos (15). Em recompensa de seu ato, o senado ordenou, para homenageá-las que elas fossem louvadas em público nos discursos fúnebres, por ocasião de sua morte, nem mais nem menos do que se fazia com os grandes homens honrados, quando vinham a falecer, não sendo antes costume elogiar-se assim publicamente as damas nos seus funerais. Foram enviadas três das personagens mais notáveis da cidade, para ir apresentar a oferenda, em uma galera muito bem equipada de bons remadores, e, além disso, paramentada e provida triunfalmente. Tanto, porém, em virtude de tormenta, como no bom tempo posterior, vieram eles a passar por grande perigo pessoal, porque após terem-se quase afogado na tempestade, cairam noutra aventura, quando o vento amainou, da qual também escaparam, contra toda a esperança, pois aconteceu que perto da ilha de Eolo, as galeras dos liparianos atacaram-nos como se fossem corsários (16). Quando, entretanto, os liparianos viram que eles não se defendiam mas imploravam estendendo-lhes as mãos, não carregaram mais contra eles, mas ligaram apenas a sua galera às deles e arrastando-a para terra expuseram publicamente à venda em leilão, os bens e as pessoas que trazia, depois de tê-las declarado , e tudo teria sido vendido se não fosse a prudência e autoridade de Timasíteo, a esse tempo capitão da praça, o qual teve muita dificuldade em persuadir o povo a que os deixasse ir. Não só o conseguiu entretanto, como ainda determinou fossem lançados ao mar alguns navios a êle pertencentes, com os quais os acompanhou nessa viagem, ajudando-os a fazer sua oferenda. Por esse motivo foram-lhe depois prestadas grandes homenagens em Roma, como êle merecia.

XVI. Ora, por esse tempo, recomeçavam os tribunos do povo a propor a lei referente à divisão dos habitantes da cidade. Sobreveio entretanto, a guerra dos faliscos bem oportunamente, conferindo aos nobres meios de eleger os magistrados que entenderam. Foi assim eleito Camilo tribuno militar (17) em companhia de outros cinco, uma vez que o momento exigia um comandante de reputação e austeridade já adquiridas numa longa experiência em assunto de armas. Tendo o povo autorizado a eleição, Camilo entrou imediatamente no país dos faliscos com o exército romano onde foi sitiar a sua cidade que era bem fortificada e provida de todas as coisas exigidas e necessárias para a guerra. Consciente perfeitamente, de que não era fácil tomá-la, nem empresa para ser levada a cabo em pouco tempo Camilo pretendeu manter os seus concidadãos ocupados em alguma coisa, distraindo-os de forma a não terem folga, com demorada permanência em suas casas, para promover sedições e lutas. Os romanos usavam sabiamente este remédio, vôltando para fora, como os bons médicos, os humores que ameaçavam perturbar o repouso da .

XVII. Guerra dos Faliscos.

XVII. Os falerianos porém, confiando na resistência de sua cidade, forte de todos os lados faziam tão pouco caso do sítio, que, aqueles que não estavam de guarda nos muros, passeavam desarmados pela cidade levando seus filhos à escola, cujo mestre os conduzia freqüentemente a passeio fora da cidade para brincar ou exercitar-se ao longo das muralhas. Porque eles tinham um mestre-escola comum para toda a cidade, como ainda os têm os , querendo que seus filhos se acostumassem, desde o início, a comerem juntos e a conversarem sempre reunidos. Esse professor aguardando ocasião de causar mal aos falerianos, levava todos os dias seus filhos para divertir-se fora da cidade, a princípio não longe das muralhas, reconduzindo-os depois para dentro após terem brincado e feito exercício. Saindo com eles o professor os conduzia cada dia um pouco mais longe para atribuir-lhes confiança, dando-lhes a entender que não havia perigo, até que finalmente, tendo certa vez consigo, todas as crianças da cidade, avançou até a guarda do campo romano, a quem entregou seus escolares, solicitando-lhes que o levassem ao seu general, o que foi feito. Quando êle se viu diante de Camilo começou a dizer que era mestre e preceptor dessas crianças mas considerava de maior importância cair em suas boas graças, do que cumprir o dever imposto por esses títulos, motivo pelo qual vinha entregar-lhe a cidade pondo as crianças em suas mãos.

XVIII. Ouvindo essas palavras Camilo considerou o ato miserável e mau, dizendo aos circunstantes que a guerra era coisa bem ruim onde se cometiam muitas violências e ultrajes mas que entretanto havia ainda entre gente de bem, algumas leis e alguns direitos bélicos, não se devendo procurar a vitória com avidez tal, que não se evitassem as contingências de usar meios tão nefandos e condenáveis, sendo necessário a um grande capitão, fazer a guerra confiando na própria virtude e não na maldade de outrem. Ordenou assim a seus lictores (18) que rasgassem as vestes daquele homem mau, atan-do-lhe as mãos atrás das costas, distribuindo às crianças varas e correias para que elas tangessem o miserável traidor, chicoteando-o até a cidade. Ora, mal os falerianos tiveram notícias de que o mestre-escola os havia traído, toda a cidade cobriu-se imediatamente de luto, como se pode avaliar em uma tão grave perda, correndo homens e mulheres de roldão para as muralhas e portas da cidade, sem saber o que faziam, tão perturbados estavam. Perceberam dali seus filhos que chicoteavam de volta o mestre, nu e amarrado, chamando Camilo seu pai, seu deus e seu salvador. Não somente os pais e as mães das crianças, mas também todos os outros cidadãos conceberam assim, em conjunto, uma grande admiração e singular afeto pela probidade, bondade e justiça de Camilo, razão pela qual reuniram imediatamente o Conselho sendo aí resolvido prontamente, enviar-se embaixadores a êle Camilo, para colocar-se a si mesmos e aos próprios bens à sua discrição.

XX. Nova tentativa para fazer habitar Veios palos Romanos.

XIX. Camilo enviou os embaixadores a Roma onde lhes foi concedida audiência pelo Senado, na qual disseram que, tendo os romanos preferido a justiça à vitória, haviam-lhes ensinado que era melhor para eles submeter-se do que manter a própria liberdade, declarando terem sido dominados, mais por sua virtude, do que pela sua força e poder. O Senado entregou o assunto a Camilo para agir e decidir como bem lhe aprouvesse. Fazendo os fale-rianos pagar uma soma em dinheiro, Camilo firmou paz e aliança com o resto dos faliscos, voltando em seguida à Roma. A gente de guerra ficou muito descontente com a solução, por ter concebido a esperança de pilhar a cidade dos falerianos, e percebendo assim que era preciso voltar para a casa com as mãos vazias, começou em Roma, a acusar Camilo, junto aos demais cidadãos, dizendo que êle não amava a plebe e, por inveja, tinha tirado aos pobres o meio de realizarem seu proveito.

XX. Como os tribunos populares, por outro lado, tivessem proposto de novo sua lei, referente à divisão dos habitantes de Roma. e pretendessem fazê-la passar pelo sufrágio do povo, Camilo, sem medo de incidir na malquerença popular, fêz e disse livremente, às claras, tudo quanto foi possível contra essa lei, tornando-se assim, manifestamente, pela sua grande insistência, a causa principal do povo recusá-la, mau grado êle próprio. A plebe manteve-se entretanto, tão asperamente indgnada contra êle, que mesmo em relação ao acidente que sofreu em casa, onde um de seus filhos morreu de doença, não suavizou, por piedade sua ira. muito embora, Camilo que era de boa e afetuosa natureza, sentisse essa perda muito amargamente, de tal forma que, chamado pela justiça, não se moveu de casa, mantendo-se fechado com as mulheres, de luto pela morte do filho. Quem o acusava era Lúcio Apuleio inculpando-o de ter subtraído e desviado parte dos despojos de Toscana, afirmando-se que tinham sido vistas em sua casa, algumas portas de bronze, trazidas dali.

XXI. Ora, o povo estava tão fortemente irritado contra êle que era evidente e do conhecimento de todos que, se alguma vez o pudesse apanhar entre as mãos por qualquer motivo, certamente o condenaria. Reunindo, por isso, seus amigos e os que tinham estado na guerra sob seu comando, ou em missão com êle, os quais eram muito numerosos, rogou-lhes que não permitissem fosse êle assim, baixamente condenado por imputações, que falsamente lhe atribuíam, nem escarnecido e difamado por seus inimigos. Seus amigos, confabulando e discutindo entre si, responderam-lhe que, quanto ao julgamento, não viam como podê-lo socorrer, mas caso fosse condenado, declaravam que eles se cotizariam todos, de boa vontade, para ajudá-lo a pagar a multa. Não podendo Camilo suportar tamanha indignidade, resolveu, colérico, sair da cidade e exilar-se. Após despedir-se de sua mulher e de seu filho saiu de casa, dirigindo-se à porta da cidade sem dizer palavra; quando ali chegou porém, deteve-se subitamente, e voltando-se para trás, estendeu as mãos na direção do Capitólio, rogando aos deuses, se não fosse por justiça, mas iniquamente que o povo, por inveja, o constrangia a sair vergonhosamente da cidade, que bem cedo se arrependessem os romanos e que, lamentando publicamente a sua perda, viessem a tratar de novo com êle.

XXII. Camilo é condenado e banido.

XXII. Depois de ter feito essa prece contra seus concidadãos, como contra os Gregos, Camilo partiu, e foi condenado, por contumácia, a uma multa de quinze mil asses (19) em moeda romana que equivalem na grega a mil e quinhentas dracmas de prata, uma vez que o asse era uma pequena moeda, correspondente a um décimo do dinheiro de Roma. Mas não há romano que não creia firmemente que a punição não se tenha seguido incontinenti, e que a injustiça a êle feita não tenha sido logo vingada com uma vingança nada agradável de recordar, mas dura e mordente, notável e célebre; aliás, tais foram as desgraças que tombaram subitamente sobre a cidade de Roma, e de tal forma lhe trouxe esse tempo ruína e perigo, de mistura com vergonha e infâmia, seja por mero acaso ou porque corresponda à missão própria de algum deus, não permitir que a virtude seja assim ingratamente ultrajada, sem vingança.

XXIII. Invasão dos Gauleses.

XXIII. O primeiro sinal que os ameaçou então, do grande desastre futuro, foi a morte de Júlio, um dos censores, porque os romanos veneram especialmente e consideram santo e sagrado o ofício dos censores. O segundo sinal, revelado um pouco antes do exílio de Camilo, foi uma personagem sem grande importância, não pertencendo ao corpo do Senado, embora homem de bem e de boa consciência, chamado Marco Seditio, ter advertido os tribunos militares de uma coisa que bem merecia ser meditada, porque êle lhes disse que na noite precedente, quando seguia seu caminho ao longo da rua nova, ouviu alguém chamá-lo em alta voz, e quando se voltou para ver quem era, nada viu mas ouviu somente uma voz mais forte que a humana dizer-lhe: «Marco Seditio, vá amanhã aos tribunos militares para adverti-los de que esperem ter logo aqui os .» Os tribunos não fizeram senão ouvir e zombar dessa advertência, sobrevindo logo depois a condenação de Camilo.

XXIV. Ora, quanto aos gauleses (20) pertenciam eles, como se diz, à nação Céltica e não sendo seu país suficiente para sustentar e nutrir sua multidão, tinham saído a procura de outras terras onde habitar. Havia entre eles muitos milhares de jovens de serviço e bons combatentes, mas ainda maior número de mulheres e crianças. Desses, uns se lançaram do lado do oceano Setentrional, passaram os montes Rifeus (21) e ocuparam as partes extremas da Europa. Outros se detiveram entre os montes Pireneus e as grandes montanhas dos Alpes, junto aos senones e celtorianos, onde permaneceram muito tempo, até que aconteceu experimentarem o vinho a eles trazido da Itália, e de tal forma acharam boa a bebida que se sentiram transportados pelo desejo e volúpia de bebê-la, e tomando repentinamente armas seguiram com mulheres e crianças pelo caminho dos Alpes, para procurar o país produtor de um tal fruto, considerando toda outra terra estéril e selvagem.

XXV. Penetram na Toscana.

XXV. Conta-se que foi um certo toscano, chamado Arronte, quem primeiro levou-lhes o vinho, quando foi solicitar-lhes que passassem à Itália. Era Arronte homem nobre, não sendo aliás, de má natureza. Sucedera-lhe entretanto o seguinte desastre: êle era tutor de um menino órfão chamado Lucumo, o mais rico existente em todo o país da Toscana, e além ‘ disso de uma maravilhosa beleza. Foi este assim, tratado desde a primeira infância, na casa de Arronte, e depois de ter atingido a adolescência, não quis sair dali, simulando achar-se muito bem em sua companhia, mas pela razão verdadeira de, há já muito tempo, entreter relações secretas com a mulher de Arionte, a quem amava, sendo também amado. Esse amor, todavia desenvolveu-se tanto, finalmente, que eles já não podiam afastar-se um do outro, e ainda mesmo dissimulá-lo, razão pela qual o jovem raptou-a enfim, e a reteve pela força. Arronte o chamou a juízo, mas foi mal sucedido, porque Lucumo o venceu e suplantou por meio de amigos, dinheiro, presentes e gastos. Arronte sofreu tão grande mágoa, que abandonou seu país e tendo ouvido falar nos gauleses juntou-se a eles e os guiou à Itália, onde conquistaram imediatamente toda a região mantida antigamente pelos toscanos, a qual começa ao pé das montanhas, estendendo-se de um a outro mar que cerca a Itália como os próprios nomes o testemunham, porque o mar voltado para o norte ainda se chama Adriático, em virtude de uma cidade denominada Adria, fundada pelos toscanos, chamando-se o outro, situado em frente, olhando para o sul, mar da Toscana.

XXVI. Toda esta província é bem arborizada e tem belas e boas pastagens para alimento do gado, sendo banhada e irrigada por muitos rios e continha, desde esse tempo, dezoito cidades belas e grandes, todas muito bem colocadas tanto para enriquecer seus habitantes pelo tráfico de mercadorias, como para sustentá-los opulentamente. Os gauleses tinham ocupado todas essas cidades, das quais expulsaram os toscanos, havia já muito tempo. Nesse momento porém, tendo avançado mais para o interior da Toscana, estavam cercando a cidade de Clusio, e como os clusios, recorrendo ao auxílio dos romanos, lhes tivessem rogado quisessem enviar cartas e embaixadores a esses bárbaros, em seu favor, foram mandados três das melhores e mais honradas personagens da cidade, todos três da casa dos Fabianos. Os gauleses os receberam com bondade em virtude do nome de Roma e cessando de bater e assaltar a cidade, deram-lhes audiência na qual os embaixadores romanos lhes perguntaram que mal tinham feito os clusios. para eles virem fazer-lhes a guerra.

XXVII. Breno, rei dos gauleses, se pôs a rir a esta pergunta, e respondeu-lhes: «Os clusios nos prejudicam em serem poucos e não poderem lavrar muitas terras, querendo apesar disso, ocupá-las, sem concordar em partilhá-las conosco que somos estrangeiros fora do nosso país e que temos necessidade delas. O mesmo erro praticavam antigamente em relação a vós outros romanos, os de Alba, os fidenates e os ar-deates, e agora os veienses, os capenates e parte dos faliscos e volscos, contra os quais tomastes armas e ainda as tomais todas as vezes que eles não querem repartir convosco os seus bens, escravizais suas pessoas, pilhais suas riquezas e destruís sua cidade; e, agindo assim, não praticais ultrajes nem injustiça nenhuma, mas seguis a lei mais antiga deste mundo, a qual entrega sempre aos mais fortes o que é dos mais fracos, começando com os deuses e terminando com os animais, entre os quais por natureza, os mais potentes querem sempre obter vantagem sobre os mais fracos. Cessai portanto, de apiedar-vos de ver os clusios sitiados, por temor a que possais ensinar os gauleses, a ter compaixão daqueles que oprimis.»

XXVIII. Temeridade dos Fabianos.Os Gauleses marcham contra Roma.

XXVIII. Perceberam os romanos, com essa resposta, que não havia meios de entrarem em acordo com o rei Breno. Recolheram-se, em conseqüência, à cidade de Clusio, onde levantaram a coragem dos habitantes e os incitaram a fazer com eles uma sortida contra os bárbaros, seja pelo desejo de experimentar a valentia dos gauleses ou de mostrar a própria. Fizeram assim os da cidade um ataque e houve um grande choque bem junto às muralhas, no qual um dos Fabianos, chamado Quinto Fábio Ambusto. montado em um cavalo lançou-se de encontro a um belo e aqiqantado gaulês, que se tinha precipitado muito adiante da tropa. O fato não foi conhecido a princípio, tanto por ter sido o choque repentino, como também porque o brilho de suas armas ofuscava a vista dos assistentes. Depôs, porém, que êle venceu o gaulês e veio despojá-lo, Breno o reconheceu e protestou contra êle, chamando os deuses em testemunho de que tinha violado as leis e o direito das gentes tendo vindo como embaixador e praticado ato de inimigo. Fêz assim cessar no mesmo instante a luta, e levantando o cerco de Clusio, conduziu seu exército diretamente contra a própria Roma, e para não pensarem que os gauleses estavam satisfeitos com a ofensa que lhes fora feita, a qual lhes dava um protesto honesto para começar a guerra contra os romanos, enviou adiante dele um arauto, pedindo a entrega daquele que praticara o insulto, para ser punido, e, enquanto isso, avançou atrás dele em marchas reduzidas.

XXIX. O Senado, à vista disso, reuniu-se em Assembléia, onde houve muitos senadores que censuraram a temeridade dos Fabianos, sobretudo os sacerdotes denominados Feciais que deram grande importância ao caso, por tocar a religião e a honra dos deuses, demonstrando que o Senado, para descarregar e absolver o resto da cidade do crime desse atentado, devia fazer refluir todo o seu peso sobre quem o tinha cometido. O rei Numa Pompilio, o mais justo e o mais pacífico de todos os reis romanos, foi quem instituiu o colégio deste Feciais e determinou fossem eles os guardas da paz, bem como juízes para conhecer e aprovar as causas pelas quais se poderia, com justiça, começar a guerra. O Senado, todavia, transferiu a decisão do assunto à vontade e julgamento do povo, diante de quem os Feciais acusaram da mesma forma a Fábio Ambusto. O povo, entretanto, deu tão pouca importância à religião e à honra dos deuses, nesse caso, que em lugar de entregar o mencionado Fábio aos inimigos o elegeu um dos tribunos militares juntamente com seus irmãos. Cientes do fato, os gauleses, ficaram tão revoltados e irritados que já não quiseram de forma alguma contemporizar, mas marcharam com toda celeridade sobre Roma.

XXX. Ora, os povos que ficavam no caminho por onde eles passavam, espantados de vê-los em tão grande número e com tão belo equipamento, e temendo a violência da sua ira, supunham que a terra viesse a ser inicialmente destruída por eles, e que as próprias cidades o seriam imediatamente depois; mas eles, ao contrário, não se apropriaram de coisa alguma da região nem fizeram mal, nem desprazer a ninguém, e passando ao lado das cidades gritavam que iam a Roma e não queriam guerra senão contra os romanos, desejando quanto aos demais, manter-se amigos de todo o mundo.

XXXI. Batalha de Ália.

XXXI. Avançando então os bárbaros, com esta intenção contra Roma, os tribunos militares fizeram sair a campo o exército romano, para combatê-los. Não eram em menor número do que os gauleses, porque havia perto de quarenta mil combatentes a pé, cuja maior parte, entretanto, era de homens novos e não aguerridos, jamais antes tendo lidado com armas. Houve ainda, de sua parte, displicência e desprezo pelas coisas pertencentes à religião dos deuses, porque ninguém se preocupou nem em obter os sinais favoráveis dos sacrifícios, nem de inquirir dos adivinhos o que era do costume antes de uma batalha. Mas além de tudo isso, o número excessivo de capitães, iguais em poder, prejudicou a ação tanto ou mais que nenhuma outra causa, tendo em vista que, muitas vezes antes, em assuntos de muito menor importância e menos perigosos, fosse hábito eleger magistrados únicos, com poder soberano, denominados ditadores, conhecendo-se muito bem, qual a importância, em tempos de crise, de haver um único chefe no comando, com toda a autoridade da justiça nas próprias mãos, sem ser obrigado a prestar contas do que faz.

XXXIII. Observação sobre os dias de desgraça.

XXXII. O mal que tinham feito, ingratamente, a Camilo, causou-lhes também, então um prejuízo muito grande, porque, depois disso, os outros capitães não ousaram mais comandar rudemente o povo nada mais fazendo do que lisonjeá-lo. Saindo pois a campo, eles acamparam ao longo de um ribeiro chamado Alia, aproximadamente cinco léguas e meia longe da cidade, não distante do local onde o dito ribeiro desemboca no Tibre. Encontraram-se ali com os bárbaros que os venceram em batalha, em virtude da má ordem existente em seu exército, porque a ala esquerda de sua linha foi incontinenti rompida pelos gauleses, os quais a forçaram com tal violência, que a lançaram no rio, enquanto a ala direita tendo-se retirado antes do choque, um pouco para fora do terreno plano, sobre algumas encostas próximas, foi menos prejudicada, salvando-se dela a maior parte, que se retirou para Roma. Dos demais entretanto, os que puderam escapar após os inimigos terem-se cansado de matar, retiraram-se, à noite, para a cidade de Veios, supondo perdida a de Roma e passados a espada todos quantos ali se encontravam. Essa derrota se deu em pleno verão, em tempo de lua cheia, no mesmo dia em que, antes, sucedera o grande desastre dos Fabianos, quando houve trezentos, todos do mesmo nome, mortos em um dia pelos toscanos. O dia foi depois chamado Aliada, (22) do nome do ribeiro, ao lado do qual se deu esta segunda catástrofe.

XXXIII. Quanto à diferença dos dias porém, se é verdade que há alguns naturalmente desfavoreveis, ou se o filósofo Heráclito repetiu com a boa razão o poeta Hesíodo, que os declara, uns auspiciosos, outros infaustos, como se não considerasse igual a natureza de todos, nós tratamos e discutimos o assunto em outro lugar (23). Em relação à matéria que se oferece agora, entretanto, não será fora de propósito aduzir ao acaso, alguns exemplos apenas. Aconteceu outrora aos beocianos ganharem duas vitórias, muito gloriosas, no quinto dia do mês que eles chamam Hipódromo, e é chamado pelos atenienses Heca-tombeon, isto é, o mês de junho. Em cada uma dessas vitórias eles restauraram de novo a liberdade dos gregos. Uma foi a de Leuctres (24) e a outra de Ge-resto, verificada mais de duzentos anos (25) antes, quando venceram em batalha, latânios e os tessalia-nos. Os persas, ao contrário, foram vencidos pelos gregos em batalha, no sexto dia do mês de agosto (26) na jornada de Maratona; no terceiro, na de Platéia (27) e, no mesmo dia, perto de Mcale; no vigésimo quinto dia na de Arbela (28). Os atenienses ganharam a batalha naval perto da ilha de Na-xos, sob o comando de Chabrias, mais ou menos no plenilúnio do mês de agosto (29) e no dia vinte desse mês, a de Salamina (30), como noticiamos mais amplamente, no tratado que fizemos sobre a diferença dos dias.

XXXIV. Assim também, e de forma semelhante, o mês de abril (31) trouxe aos bárbaros perdas bem notáveis, porque o Grande, bateu os comandantes do rei da Pérsia na jornada de Gra-nico nesse mês, e os cartagineses foram derrotados na Sicília por Timoleon no dia 27 (32) e nesse mesmo dia considera-se como tendo sido tomada a cidade de Tróia, assim como o escrevem Éforo, Calístenes, Damastes, Pilarco. Ao contrário também, o mês de julho (33), que os beocianos chamam Pa-nemo, não foi favorável aos gregos, porque no dia sete desse mês, foram eles vencidos por Antipater na batalha de Cranon, que se transformou em sua ruina total, e antes, tinham sido batidos, no mesmo mês, junto à cidade de Queronéia pelo rei Filipe (34) e no mesmo dia, mês e ano, os que tinham passado à Itália com o rei Arquidamo, (35) aí foram derrotados pelos bárbaros do país. E os cartagineses temem o dia 27 (36) como o que outrora lhes trouxe os maiores desastres e desgraças. Ao contrário também, não ignoro que, por ocasião da festa dos Mistérios, a cidade de Tebas (37) foi destruída por , e que os atenienses foram constrangidos a receber guarnição em sua cidade nas proximidades do dia 20 de agosto, quando se faz a santa procissão mística de Baco. (38) É também de notar que os romanos perderam, no mesmo dia, o seu exército com o chefe Cipião (39) batido pelos Cimbros e que depois, conduzidos por Lúculo venceram o rei Tigrano e os armênios; e que Átalo e Pompeu morreram ambos em dia correspondente ao do seu nascimento. Poder-se-iam, em resumo, aduzir muitos exemplos de pessoas às quais, coube notáveis acidentes de boa e má fortuna, após as mesmas revoluções de tempo.

XXXV. Para voltar à nossa história porém, o dia desta derrota é um dos que os romanos consideram mais nefastos, em virtude da mesma. Outros (40) dois dias ainda, em cada mês, foram também reputados de mau agouro, tendo-se estendido para diante o temor e a superstição, em virtude desse sinistro acontecimento, como acontece ordinariamente. Sobre isso, porém, escrevemos mais ampla e cuidadosamente no livro em que demos razão dos costumes e maneira de agir dos romanos (41).

XXXVI. Consterinação dos Romanos.

XXXVI. Ora, depois desta derrota, se os gauleses tivessem perseguido com calor os fugitivos, nada poderia ter salvo a cidade de Roma e estaria ela inteiramente perdida e destruída, sendo passados a fio de espada todos os seus moradores, de tal forma os que escaparam em rápida fuga. vieram trazer o terror aos que os receberam, enchendo a cidade de confusão, pavor e perplexidade. Mas os bárbaros, não percebendo sua vitória como sendo tão grande, como tinha sido e divertindo-se em passar bem nessa tão grande alegria e além disso em repartir entre si os despojos encontrados no campo dos inimigos deram tempo e sossego à multidão que fugiu da cidade para retirar-se, à sua vontade, recolhendo-se a lugar seguro, e aos que ali permaneceram, para ter ainda esperança de salvação, tomando providências e preparando-se para isso, porque, abandonando todo o resto da cidade, entrincheiraram e fortificaram o monte do Capitólio, provendo-o de toda a sorte de armas. Antes de qualquer ação, todavia, levaram esta parte das coisas santas e sagradas para dentro do dito forte do Capitólio, e as virgens religiosas da deusa Vesta, trouxeram para ali o fogo santo com as suas outras coisas sagradas, embora haja quem pretenda não terem elas outra coisa em sua guarda, senão esse fogo eterno, por instituição do rei Numa, o qual quis e ordenou que fosse o fogo venerado, como o princípio e o começo de todas as coisas (42), tendo em vista que é a substância mais móvel existente na natureza, como a querer significar que a geração é um movimento, ou pelo menos que ela não se realiza sem algum movimento, e que toda outra matéria, quando lhe falta o calor, mantém-se inerte e imóvel, sem ação nenhuma como coisa morta, apetecendo e procurando o rigor do fogo, como a própria alma, a qual recobrada, permite-lhe então começar a mover-se de alguma forma, dispondo-se a atuar ou a suportar alguma atuação. Essa foi a razão pela qual, Numa, tendo sido, como dizem, homem de grande conhecimento e que por sua sabedoria tinha fama de comunicar-se com as musas, consagrou o fogo e quis fosse êle conservado sem que o deixassem extinguir-se, nem mais nem menos do que como uma imagem viva do poder eterno, que rege e governa todo este mundo.

XXXVII. Dizem outros, que havia togo sempre ardente, diante das coisas sagradas, para fim e símbolo de purificação, como também os gregos o têm, havendo porém, no interior, coisas escondidas as quais não é permitido a ninguém ver, senão a essas virgens consagradas, chamadas Vestais. Há muitos que insistem em dizer que o Paládio de Tróia, isto é, a imagem de Palas, trazida por Enéias à Itália, está aí escondido. Há outros que contam que, quando Dardano edificou inicialmente a cidade de Tróia, levou para lá as santas imagens dos deuses Samotra-cios, onde os consagrou, mas que Enéias, depois, quando a cidade foi tomada os subtraiu, guardándoos consigo até vir habitar a Itália. Outros, simulando saber sobre o assunto mais do que comumente se sabe, afirmam haver lá dois tonéis, não grandes, dos quais um está vazio e aberto, o outro fechado e cheio, podendo, porém, vê-los, apenas essas virgens sagradas. Consideram outros estarem estes últimos enganados no que dizem, porque na verdade as Vestais lançaram, nessa ocasião, dentro dos tonéis, tudo quanto aí puderam encerrar, escondendo-os sob a terra no templo de Quirino, razão pela qual o lugar ainda hoje tem o nome dos tonéis (43), mas tomando consigo o que era mais importante e mais venerável, fugiram margeando todo o rio. Lúcio Albino, homem popular que também fugia levando em um carro sua mulher e filhos pequenos, com seus móveis mais necessários encontrou-as ali e assim que percebeu essas virgens sagradas, inteiramente sós, levando entre os braços as jóias santas dedicadas ao serviço dos deuses, com grande dificuldade para caminhar, fêz descer incontinenti sua mulher, seus filhos e seus bens, exortando-as a tomarem o carro e a fugirem para uma das cidades gregas. Pareceu-me por isso que não devia continuar, sem fazer, de passagem, uma ligeira menção à reverência e devoção aos deuses, revelada por esse Albino em tempos de perigo tão extremo.

XXXVIII. Quanto ao resto, os sacerdotes dos outros deuses e os velhos mais respeitáveis da cidade que haviam, outrora, sido cônsules ou tinham obtido a honra do triunfo, vestindo suas mais belas roupas sagradas, sem coragem de abandonar Roma, voltaram-se a si mesmos e por assim dizer, se sacrificaram voluntariamente ao destino, para o bem de seu país, e repetindo certas palavras e preces que Fabio, o soberano pontífice, lhes recitou, foram assim vestidos, sentar-se em cadeiras de marfim, na grande praça, esperando lhes fosse enviado o que aprouvesse aos deuses.

XXXIX. Os Gauleses entram em Roma e a destroem. Manilo salva o Capitólio.

XXXIX. Três dias depois entretanto, chegou Breno com seu exército, e encontrando as portas da cidade inteiramente abertas com as muralhas sem guarda, teve medo, a princípio, de que fosse um ardil ou uma emboscada, não podendo acreditar, estivessem os romanos tão abatidos a ponto de abandonarem sua cidade. Depois, porém, que se informou exatamente da verdade, entrou pela porta Colina e tomou Roma, pouco mais de 360 anos após (44) sua primeira fundação, se é possível que até hoje tenha restado qualquer certeza relativa à conta desse tempo, tendo em vista que a perplexidade e a confusão dominantes na época, tornaram duvidosas muitas coisas mais modernas do que estas. É positivo, todavia, que o rumor dessa conquista repercutiu imediatamente ainda que obscura e incerta, na Grécia, porque, Heraclides o Pontico, que viveu não muito distante desse tempo, conta, em um tratado sobre a alma, ter vindo notícia, do lado do poente, que um exército saído de além dos Hiperboreanos, tomara uma cidade grega chamada Roma, construída no país à beira do grande mar. Não me admiro, porém, se Heraclides que escreveu tantas outras fábulas e mentiras, exagerou a notícia verdadeira da tomada de Roma, acrescentando aí, como coisa sua. os Hiperboreanos e o grande mar. É coisa certa que o filósofo Aristóteles soube positivamente da conquista dos gauleses, declarando, todavia, que quem a salvou depois, se chamava Lúcio, quando em realidade chamava-se Marco Camilo e não Lúcio. Tudo isso porém, não é dito senão como conjectura.

XL . Camilo batie um grande contingente gaulés perto da Arcléia.

XL. Entrando em Roma, Breno ordenou a parte de sua gente que mantivesse sitiados os do Capitólio, enquanto êle com os demais, desceu à praça, assombrando-se muito ao ver esses homens sentados assim em suas cadeiras, com toda gravidade sem dizer palavra especialmente quando não se levantaram, vendo os inimigos em armas, dirigir-se para êles nem alteraram de forma alguma o rosto, nem a côr, apoiando-se, calmamente, sobre os bastões mantidos entre as mãos, sem revelar espanto, nem terror diante de coisa alguma, contemplando-se uns aos outros. Os gauleses perturbaram-se muito, a princípio com a estranha conduta dessa gente, hesitando, por algum tempo, em aproximar-se e tocá-la, temendo fossem deuses, até que um deles teve bastante ousadia para chegar junto a Marco Papírio, e passar-lhe suavemente a mão pela barba loura. Deu-lhe Papírio com o bastão, tão forte pancada sobre a cabeça que o feriu, levando o bárbaro, irritado a desembainhar sua espada e matá-lo. Os outros, imitando-o mataram também em seguida todos os demais e permanecendo muitos dias pilhando e saqueando tudo o que havia nas casas, atearam-lhes depois fogo, arruinando-as por despeito contra os que se mantinham firmes no Capitólio, os quais sem querer render-se à sua intimação, tinham-nos repelido muito bem quando se aproximaram da muralha. Eles, por isso, demoliram inteiramente a cidade, passando a fio de espada todas as pessoas que lhes cairam nas mãos, tanto mulheres como homens, crianças e velhos.

XLI. Ora, prolongando-se muito o assédio, começaram os víveres a escassear para os gauleses e foi-lhes necessário procurá-los fora, razão pela qual se dividiram, mantendo-se uma tropa com o rei no cerco do Capitólio, e indo os demais correr o país para abastecer-se. pilhando as aldeias da região, não em conjunto mas em bandos separados, uns cá outros lá, sem preocupar-se com nada, nem manter-se prevenidos, de tal forma se fiavam em sua fortuna. A maior parte dessas tropas, entretanto, dirigiu-se, por acaso, para a cidade de Ardéia, onde se encontrava Camilo, vivendo como homem privado, sem imiscuir-se, de maneira alguma, em negócios, desde o seu exilio até o momento em que começou a ter esperança e a pensar, não como quem se contentasse em manter-se escondido e em segurança, escapando à mão dos inimigos, mas como quem espreitasse os meios de liquidá-los se a ocasião se apresentasse. Vendo em consequência, que os habitantes de Ardéia constituíam número assaz respeitável, faltando-lhe porém coração e audácia por causa da covardia de seus governadores e capitães que não tinham experiência alguma de guerra, Camilo começou a espalhar entre os jovens que não se devia considerar a desgraça dos romanos como decorrente do valor dos gauleses, nem a calamidade que caíra sobre eles, por não terem seguido bom conselho, como sendo obra daqueles que nada tinham, de sua parte, que lhes tornassem merecida a vitória, devendo-se reconhecer que não se tratava de outra coisa senão só da sorte que quisera mostrar seu poder, sendo empresa bela e honrosa expulsar para fora do país, ainda que com perigo, estrangeiros bárbaros, tendo em vista que eles não tinham outro fim em sua vitória, senão o de perder e consumir como o fogo tudo quanto caía em suas mãos. Se eles pois, quisessem revelar coragem apenas, esforçando-se para isso, êle Camilo lhes daria a vitória a tempo e hora, sem nenhum perigo.

XLII.. É chamado do exílio e nomeado ditador.

XLII. Os jovens consideram esses propósitos como os melhores do mundo, razão pela qual Camilo dirigiu-se também aos oficiais e aos do conselho, e, tendo-os persuadido, fez armar todos quantos estavam em idade de envergar o escudo, sem permitir que nenhum sequer saísse da cidade, temendo que os inimigos, próximos dali, o percebessem. Porque após correrem todo o país, carregados com a pilhagem de toda a sorte de presas, foram os inimigos acampar negligentemente, sem prevenir-se, em campo aberto, onde, depois de embriagar-se, puseram-se a dormir, havendo grande silêncio em seu acampamento. Camilo constantemente advertido por seus espias, fêz sair então a campo os ardeatas, e tendo transposto, em silêncio o caminho que ia da cidade ao acampamento dos gauleses, chegou aí justamente por volta da meia-noite, fazendo sua gente lançar, incontinenti. gritos e soar trombetas de todos os lados para aterrar os inimigos, que, ainda assim, mal podiam acordar com o grande barulho, tão bêbados estavam. Houve entretanto alguns que se acordaram com medo e em sobressalto, e que, voltando a si, tomaram armas para fazer frente a Camilo, sendo mortos em combate. Outros, porém, em muito maior número, deitados aqui e ali pelo campo, sem armas, tomados ainda pelo sono e pelo vinho, foram passados à espada sem combater. Aqueles que fugiram do campo, à noite, bem poucos aliás, foram também liquidados no dia seguinte pela cavalaria que os perseguiu e os matou, encontrando-os errantes pelos campos.

XLIII. A fama deste desastre correu incontinenti por todas as cidades próximas, fazendo com que muitos jovens viessem juntar-se à tropa de Camilo, principalmente romanos que tinham fugido para a cidade de Veios após a derrota de Alia e ali se lamentavam entre si, dizendo: «Ó deuses! que capitão o destino arrebatou a Roma para honrar, com proezas e belos feitos de Camilo, a cidade de Ardéia, enquanto aquela que o gerou e o criou, acha-se. entretanto, perdida e destruída. E nós, faltos de chefe que nos conduza, estamos aqui sem fazer nada, encerrados dentro de muralhas alheias, permitindo todavia, que se arruine a Itália diante de nossos olhos. Por que não irmos então, pedir de volta o nosso capitão aos ardeatas ou não tomarmos nossas armas para nos juntarmos a êle, uma vez que não está mais banido, nem somos nós mais cidadãos, porque a nossa cidade está em poder e na posse dos nossos inimigos?» Puseram-se assim de acordo com este conselho, e enviaram a Camilo uma súplica para que aceitasse o cargo de capitão, mas este lhes fêz responder que não o aceitaria antes de aqueles, cercados no Capitólio, o confirmarem legitimamente, por seus votos e sufrágios, uma vez que esses, enquanto se mantivessem, representavam o corpo da cidade; sendo, contudo, determinado por êlcs a aceitar, obedeceria porém, de boa vontade. De outra forma entretanto, contra sua aquiescencia, e sem sua ordem, ele Camilo não se intrometeria. Conhecida a resposta, não houve entre os romanos quem não louvasse e estimasse altamente a probidade e a grande fidelidade à lei que movia Camilo, mas não sabiam como comunicar-se com os sitiados do Capitólio, porque parecia de todo impossível entrar um mensageiro na fortaleza assediada, rendo em vista que os inimigos dominavam a cidade.

XLIV. Houve todavia, entre os jovens um, chamado Pôncio Cominio, de estirpe modesta, mas, quanto ao mais ansioso de honra e de glória, que se ofereceu voluntariamente para arriscar-se à empresa. Deixou assim de levar consigo cartas para os sitiados, temendo se fosse, por ventura, surpreendido, revelassem elas a intenção de Camilo. Vestindo-se, porém, com uma roupa vulgar sob a qual escondeu alguns pedaços de cortiça, e pondo-se a caminho em pleno dia, avançou sempre, sem temor, até atingir as cercanias de Roma quando já era noite fechada. Como não pudesse passar pela ponte, guardada pelos bárbaros, enrolou ao pescoço suas vestes escassas e não pesadas, lançou-se a nado sobre a cortiça que trouxera e conseguiu atravessar o rio, no local onde está situada a cidade e afastando-se sempre dos lugares em que supunha dormirem inimigos por ver luz de fogo e ouvir rumor, dirigiu-se à porta Carmental onde havia mais silêncio do que nas outras e junto à qual o Capitólio era mais áspero c escarpado, porque há ali rochedos muito difíceis de escalar, pelos quais, não obstante, êle subiu, chegando, com muito trabalho, até a muralha da fortaleza num lugar onde era menos intensa a guarda, c ali, saudando as sentinelas, declarou-lhes quem era, sendo guiado por elas e conduzido aos que então exerciam as magistraturas, os quais decidiram convocar imediatamente o Senado, onde Cominio deu-lhes a notícia da vitória de Camilo, desconhecida ainda de todos, expondo-lhes também o pensamento da gente de guerra romana que se mantinha do lado de fora, a qual pretendia atribuir a autoridade suprema a Camilo, e os admoestou a que também a deferissem e confirmassem porque era o único homem a quem os cidadãos de fora consentiam em obedecer.

XLV. Ouvindo isso, os sitiados, depois de deliberarem, elegeram Camilo ditador e reenviaram o mesmo mensageiro Pôncio Cominio pelo caminho por que tinha vindo. Teve este, na volta, a mesma ventura que tivera na vinda, e sem ser de forma alguma perseguido pelos inimigos, transmitiu aos de fora o que o Senado tinha ordenado, enchendo-os de alegria. Veio assim Camilo a encarregar-se dos negócios e encontrando já, vinte mil combatentes em armas e reunindo ainda outros com o apoio dos aliados e confederados, preparou-se dia por dia para ir ao assalto dos inimiqos. Eis como Camilo se eleqeu ditador pela segunda vez, seguindo para a cidade de Veios onde dirigiu a palavra à gente de guerra romana que aí estava, aumentando ainda mais o número de aliados, para ir, o quanto antes, dar batalha aos adversários.

XLVI. Entrementes, todavia, dentro de Roma. passando por acaso alguns bárbaros por onde, à noite, subira Pôncio Cominio, perceberam em muitos lugares, sinais dos seus pés e mãos nos pontos onde se agarrara subindo encosta acima, e viram também ervas e arbustos pisados e a terra revolvida e foram comunicá-lo ao rei que, pessoalmente, dirigiu-se ao lugar e tendo-o observado cuidadosamente, nada fêz no momento. Mais tarde, porém, quando veio a noite, êle reuniu uma tropa dos gauleses mais ágeis, e mais acostumados a galgar montanhas, e lhes disse: «Os próprios inimigos nos mostram o caminho que não podíamos encontrar para surpreendê-los, e tendo subido por eles nos dão bastante a entender que não é impossível subir: seria grande vergonha para nós, depois de ter começado tão bem, falhar na hora do arremate, abandonando este lugar como inexpugnável, porque, se a escalada foi fácil a um só, deve ser menos difícil a muitos, que sobem uns após outros, tendo em vista o auxílio que um oferece ao outro. Comunico-lhes pois, que, quem cumprir o seu dever, subindo, será remunerado com presentes e honras adequadas à sua proeza »

XLVII. Feito o discurso pelo rei, esses gauleses empreenderam ousadamente a escalada, e cerca de meia-noite começaram a subir a rocha morro acima, em numerosa fila, no maior silêncio possível, aderindo como melhor podiam ao declive muito rude do rochedo, embora mais acessível e fácil todavia, do que haviam suposto a princípio, até que tendo os primeiros chegado ao ponto mais alto, estavam já prontos a tomar a muralha, atacando os guardas que dormiam, porque não houve nem homem nem cão que os tivesse escutado. Havia porém, ali, os gansos sagrados, criados no templo de Juno, que, antes, alimentados abundantemente, eram então tratados muito mal, ninguém fazendo conta deles, uma vez que só a duras penas, se conseguiam víveres para os homens, e ainda assim, muito racionadamente.

Ora, esses animais que já de natureza têm o sentido do ouvido muito agudo, sendo também muito tímidos, mantinham-se, pela fome que suportavam, ainda mais acordados e eram mais fáceis de espantar-se. Sentiram eles incontinenti a suprêsa dos inimigos, e começaram a correr e gritar, de tal forma, ao encontro deles, que acordaram os do castelo. Vendo-se os gauleses descobertos não se preocuparam mais em evitar o barulho e avançaram da maneira mais terrível que puderam. Ouvindo o alarme, os romanos, tomaram cada um o primeiro bastão que prontamente encontraram à mão e correram imediatamente em apoio do local de onde ouviram o estrépito, sendo entre todos o primeiro um certo Manlio, homem consular forte e robusto, de grande coração, o qual avançou sobre dois bárbaros juntos e assim que o primeiro levantou a acha para golpeá-lo na cabeça, impediu-o, cortando-lhe o punho com sua espada, ferindo tão rudemente o outro no rosto, com o escudo, que o fêz cambalear para trás despenhan-do-se rochedo abaixo. Com os demais que tinham também acorrido e apareceram depois a seu lado, na muralha, Manlio repeliu o resto dos bárbaros dos quais não eram ainda muitos os que tinham atingido o cume, nem deram grande prova de audácia.

XLVIII. Escapando assim os romanos a esse perigo, lançaram, no dia seguinte de manhã, de cima do castelo, pelos rochedos abaixo o capitão que estava essa noite encarregado da sentinela, e atribuíram a Manlio, em recompensa do bom serviço prestado, uma renda, mas de honra que de proveto: cada um contribuiu, em seu favor, com meia libra de trigo do país, que eles chamam «far», e com a quarta parte de uma medida de vinho denominada pelos gregos «cotyle», a qual podia equivaler, mais ou menos, a uma «chopine», e correspondia ao que cada um tinha em sua ração diária para viver. Após esse revés começaram os gauleses a perder o ânimo, porque, de um lado tinham falta de víveres, não ousando mais sair à busca de provisões pelos campos, por temor a Camilo, e de outro porque a peste começou a atacá-los, alojados como estavam, entre grande número de corpos mortos jazendo aqui e ali sem sepultura, e entre ruinas de casas queimadas onde a cinza muito alta revolvida pelos ventos e pela veemência do calor, tornava o ar seco e penetrante, lesando-lhes gravemente o corpo quando a aspiravam. Mais que tudo entretanto, foi-lhes prejudicial a mudança de sua maneira acostumada de viver, porque eles vinham de país fresco, onde tinham retiros adequados para evitar os incômodos do verão, e encontravam-se ali em lugares baixos e maus para residir na estação do outono. Tudo isto, com o prolongamento do tempo gasto nesse cerco do Capitólio, os dispôs para doenças, porque já corriam o sétimo mês, sobrevindo tal mortalidade em seu campo que devido ao grande número de pessoas mortas aí cada dia, já não eram mais enterradas.

XLIX. Os negócios dos sitiados, entretanto, não iam melhor apesar de tudo isso, porque a fome crescia cada vez mais, e eles não ouviam notícias de Camilo o que os punha em grande desespero porque não podiam enviar-lhe mensageiros, de tal forma os bárbaros mantinham guarda no interior da cidade. Encontrando-se assim as duas partes em tal estado, trocaram algumas palavras de entendimento, pr:.Jei-ro por intermédio das sentinelas que conversaram entre si, e depois com o consentimento dos principais. Sulpício, tribuno dos romanos, veio a parlamentar com Breno Nesse contacto foi acordado que os sitiados pagariam em ouro o peso de mil libras (45) e os sitiantes, imediatamente depois de o ter recebido, sairiam da cidade e de todo o seu território. O acordo passado e jurado, foi trazido o ouro e quando se começou a pesá-lo, os gauleses, de começo, faziam dissimuladamente gestos de má fé, passando logo depois, abertamente, a segurar o peso, impedindo que a balança jogasse livremente, provocando a ira dos romanos. Breno então, como zombaria e escárnio è para despeitá-los ainda mais, descingiu a espada e a pôs, com cintura e tudo, dentro da balança do lado onde se achava o peso. Sulpício, vendo-o, perguntou-lhe o que significava aquilo, e Breno respondeu-lhe: «Que outra coisa poderia significar senão, miséria aos vencidos?» Essa frase manteve-se sempre depois, na boca do povo, que dela fêz um provérbio comum.

L. Alguns dos romanos despeitaram-se tanto com essa insolência barbaresca, que quiseram, a toda a força, retomar o ouro e voltar para a fortaleza, e ali sustentar de novo o assédio como antes; eram outros de aviso que convinha suportar resignadamente essa indignidade, sem considerar-se que a vergonha consistisse em pagar mais do que tinha sido prometido, mas reputando apenas o fato de pagar a que haviam sido constrangidos pela miseria do tempo, como sendo mais necessário que honroso.

LI. Expulsa os gauleses e os derrota.

LI. Enquanto durava esse debate dos romanos, tanto entré si como com os bárbaros, chegou Camilo às portas da cidade com seu exército, e sabendo do que aí se passava, determinou ao resto da tropa que o seguisse lentamente em formação, enquanto êle, com a elite de sua gente, avançava com a maior diligência. Mal os outros romanos o perceberam, abriram alas incontinenti e o receberam com grande reverência, sem dizer palavra, como se tivesse chegado o seu capitão soberano, detentor de todo o poder; e êle, recolhendo o ouro que estava sobre a balança, o entregou à sua gente, determinando aos gauleses que tomassem seus pesos e sua balança, e se retirassem: «porque, disse êle, não é costume dos romanos conservar o seu país pelo ouro, mas sim. pelo ferro». Breno então, tomado de colera, disse que era mal feito contrariar o acordo já passado e jurado. Respondeu-lhe Camilo que esse acordo não se tinha efetuado legitimamente, não sendo válido em conseqüência, porque êle, tendo sido antes, instituido ditador, suprimira-se com a sua eleição qualquer outro oficial e magistrado, e por essa razão tinham os gauleses tratado com gente sem autoridade nem poder para agir, cabendo-lhes falar, a êle Camilo, se quisessem alguma coisa, porque vinha com plenos poderes para perdoá-los caso se arrependessem e pedissem perdão, ou bem para castiqá-los e fazê-los pagar a pena adequada aos excessos e aos danos praticados por eles no país. Essas palavras puseram Breno fora de si, até o ponto de lançar mão das armas. Vieram assim, uns e outros a tirar as espadas e a entrechocar-se como podiam, dentro das casas e entre ruas onde não era possível alinhar um exército em batalha. Breno, entretanto, tendo repentinamente percebido que a coisa não ia bem para êle, retirou-se incontinenti para o seu campo com sua gente, antes de sofrer uma perda considerável. Na noite seguinte deixou a cidade com todo seu exército, e foi acampar a mais ou menos três léguas e meia dali, sobre a estrada que vai à cidade dos gábios, onde Camilo com o seu exército em boa ordem o foi encontrar ao raiar do dia e, reencorajados os romanos, deu-lhes batalha que durou longo tempo muito áspera, até que os gauleses foram, por fim, batidos, e o seu campo tomado com grande morticínio, porque aqueles que escaparam ao furor da batalha foram mortos, uns, pelos próprios romanos que os perseguiram acaloradamente depois de sua dispersão, outros, na maior parte, pela gente das cidades e vilas da região que caiu sobre eles quando fugiam espalhados, aqui e ali pelos campos.

LII. Prepara os templos e reconstrói Rema.

LII. Eis como a cidade de Roma, tendo sido estranhamente tomada, foi também, depois, estranhamente recuperada, após ter ficado sete meses nas mãos dos bárbaros: porque eles entraram aí por volta do dia quinze de julho (46) e foram expulsos no dia 13 de fevereiro, aproximadamente (47). Triunfou assim Camilo, como cabia a quem tinha salvo e libertado o seu país das mãos dos inimigos, restaurando em si mesma a cidade de Roma; porque aqueles que, durante o assédio, se tinham mantido fora, reentraram seguindo o seu carro triunfal, e os que tinham sido cercados dentro do Capitólio onde pensaram morrer de fome, caminharam diante dele abra-çando-se uns aos outros e chorando de alegria. Os sacerdotes e ministros dos templos trouxeram de novo, em sua totalidade, as jóias sagradas, das quais algumas tinham sido escondidas na terra, dentro da própria cidade, e outras levadas com eles durante sua fuga. O povo contemplava tudo satisfeito e com a maior alegria, como se os próprios deuses tivessem voltado para dentro da cidade. E depois de ter sacrificado a eles rendendo-lhes graças, e de ter purificado a praça segundo o ensinamento dos entendidos em tais coisas, Camilo fêz reparar os templos já antes existentes, além dos quais edifvou mais um ao deus Aio Locucio, no lugar onde Marcos Se-dicio ouvira a voz, denunciando-lhe a vinda dos bárbaros. Os locais dos ditos templos, foram assim descobertos a grande custo, em virtude de boa diligência de Camilo, e da grande solicitude e trabalho dos sacerdotes, mas quando se veio a reconstruir também o resto da cidade que estava inteiramente demolida e destruída, o povo sentiu-se desencorajado, adiando sempre o momento de pôr mãos a obra, tanto pela falta de todas as coisas indispensáveis como por ter mais necessidade de repouso e relaxamento após tantos trabalhos, do que de recomeçar outra vez a trabalhar, matando-se de corpo e alma, sem pessoas dispostas, nem bens suficientes para o seu suprimento.

LIII. Inclinavam-se, por isso, voluntàriamen-te para a cidade de Veios que tinha sido totalmente poupada e estava provida de todas as coisas para recebê-los, dando motivo aos pregadores, acostumados sempre a pregar e falar ao agrado do povo, a que renovassem esse alvitre, começando-se já a prestar ouvidos a certas palavras sediciosas e rebeldes que se diziam contra Camilo, atribuindo-se à sua ambição particular o querer privá-los de uma cidade inteiramente pronta, e os constranger a morar em ruínas e a restaurar uma demolição tão grande feita pelo fogo, a fim de que o chamassem, não somente de capitão e general dos romanos, mas também o fundador de Roma, denegando a Rómulo esse título de honra.

LIV. O Senado, vendo isso e temendo que se levantasse alguma sedição, não quis permitir que Camilo depusesse seu cargo de ditador antes do fim do ano (48), embora ninguém nele tivesse jamais ultrapassado seis meses, e assumiu também, de resto, o dever por sua parte, de reconfortar e apaziguar a plebe, rogando-lhe que ficasse e apontando-lhe com o dedo a sepultura dos seus ancestrais, e restaurando em sua memória os lugares sagrados dedicados aos deuses e santificados pelo rei Numa, ou Rómulo, ou pelos outros reis. Entre os argumentos tirados das coisas religiosas e divinas porém, não deixaram de referir-se à cabeça de homem encontrada em perfeito estado debaixo da terra, quando se faziam as fundações do Capitólio, como indicando o lugar fatalmente destinado a ser, futuramente, a cabeça de toda a Itália. Referiram-se também ao fogo sagrado da deusa Vesta que, tendo sido reacendido após a guerra pelas santas Virgens Vestais, viria a ser novamente extinto por eles se abandonassem a cidade do seu nascimento, além da grande censura e desonra que consistiria para eles vê-la habitada no futuro, por algum inesperado estrangeiro, ou bem, reduzida ao abandono e à pastagem de animais. Tais eram as lamentações e queixas alegadas constantemente à plebe pela gente de bem, em forma privada ou em público. O povo, todavia, em contraste, rompia-lhes também o coração de piedade, quando expunha diante dos seus olhos a pobreza e indigência na qual se encontrava, suplicando-lhes não quisessem forçá-los a reunir e juntar as peças de uma cidade destruída, como um naufrágio de onde tivessem escapado inteiramente nus. não salvando senão suas pessoas. tendo em vista, especialmente, que eles tinham outra cidade inteira e pronta para recolhê-los.

LV. Faz rejeitar a proposta de habitar Veios.

LV. Camilo foi assim de parecer que se reunisse o Senado para deliberar e resolver esse assunto de forma peremptória, o que foi feito. Êle próprio deduziu nesse conselho, muitas razões pelas quais não se devia, de maneira alguma, abandonar o lugar do seu nascimento, o mesmo fazendo os demais senadores que o desejaram. Após todas essas advertências, finalmente, êle determinou a Lúcio Lucrécio que tinha o costume de falar em primeiro lugar nessas assembléias, que se levantasse para dar seu parecer, dando-o também os outros por ordem, consecutiva-mert*. Silenciaram todos, e no instante mesmo em que Lucrécio pretendia falar, passou, por acaso, diante do local onde se reunia o conselho, um centu-rião, de ronda nesse dia com a sua tropa, o qual deu ordem, em alta voz, a seu porta-bandeira que marchava na vanguarda que se detivesse e plantasse ali sua insígnia porque, disse êle, «ficaremos muito bem neste lugar». Esta frase dita e ouvida, referindo-se exatamente ao ponto em relação ao qual havia dúvida e no momento da grande expectativa do que se resolveria sobre a questão, levou Lucrécio a dizer que, agradecendo devotamente a deus, aprovava seu bom conselho. Cada um dos demais repetiu por sua vez o mesmo e houve também uma maravilhosa alteração e mudança na vontade da multidão, porque ia cada um admoestando e encorajando o companheiro a pôr, vivamente, mãos a obra, de maneira que, sem esperar se dividissem as ruas, indi-cando-se a cada um sua posição adequada para construir, puseram-se todos a ocupar os lugares que mais lhes agradaram ou lhes pareceram mais cômodos para a construção, sem qualquer outra regra ou distribuição. Resultou da excessiva precipitação que as ruas se tornaram confusas, sendo as casas reconstruídas sem ordem nenhuma. Porque, segundo se conta, dentro de um ano a cidade foi toda reedificada, tanto os edifícios públicos como os particulares. Aqueles porém, a quem Camilo encarregava de descobrir e demarcar os locais sagrados onde haviam sido os templos na confusão de todas as coisas, atingiram, ao contornar o monte Palatino, o local onde estivera situada a capela de Marte, totalmente arruinada e queimada pelos bárbaros como as outras, e aí escavando e limpando o lugar, encontraram, por acaso, o bastão augurai (49) de Rómulo no meio de um alto monte de cinzas. É esse um bastão curvo em uma das extremidades, denominado «Lituus», e é usado, pelos adivinhos, para designar as regiões do céu quando querem contemplar o , para prever as coisas futuras. Rómulo que era entendido na arte de adivinhar, usava esse bastão e depois de ter desaparecido de entre os homens, os sacerdotes o tomaram e guardaram religiosamente, sem deixar ninguém tocá-lo, como uma santa relíquia. Ao encontrá-lo então, perfeito e inteiro ali, onde todas as demais coisas tinham perecido, consumidas pelo fogo, alegraram-se muito, interpretando o fato como um sinal que prometia eterna duração à cidade de Roma.

LVI. Guerra dos Equos. dos Volscor. dos Latinos. Terceira ditadura de Camilo.

LVI. Antes de terem terminado suas construções, entretanto, surgiu-lhes uma nova guerra, porque os équos, os volscos, e os latinos entraram, repentinamente, em armas pelas suas terras a dentro, indo também os toscanos cercar a cidade de Sutrio, sua aliada e confederada. Como os tribunos militares saídos com seu exército tivessem ido acampar no monte marciano, foram assediá-los ali os latinos, tão estreitamente que eles se viram em perigo de perder sua tropa, sendo constrangidos a enviar emissários a Roma para virem socorrê-los. Camilo, em conseqüência, foi eleito ditador pela terceira vez. De resto, quanto ao resultado dessa guerra, é êle narrado de duas maneiras, das quais mencionarei em primeiro lugar, a que me parece lendária. Conta-se que os latinos, ou porque procurassem algum pretexto para começar a guerra, ou porque, em verdade, desejassem conjugar de novo seus povos mediante novas alianças de casamento, mandaram pedir aos romanos moças de livre condição para desposá-las. Os romanos ficaram muito constrangidos, não sabendo o que fazer, temendo muito a guerra por não se terem ainda recuperado totalmente, e desconfiando que esse pedido relativo a suas moças não fosse mais do que uma intimação para a entrega de reféns, disfarçada sob o nome de aliança conjugal. Contam assim, ter havido uma serva chamada Tutola ou, como outros querem, Filotis, a qual se dirigiu aos magistrados da cidade, aconselhando-lhes enviassem com certo número de outras servas jovens e belas, ataviadas como moças de boa estirpe, deixando-a agir, quanto ao resto. Acharam os oficiais bom o conselho e escolheram servas no número indicado por ela, e vestindo-as com boas vestes e adornando-as com belas jóias de ouro, entregaram-nas depois, nas mãos dos latinos, acampados não muito longe da cidade. Quando veio a noite, enquanto as outras moças esconderam as espadas dos inimigos, esta Tutola ou Filotis, como quer que a chamem, subiu numa figueira selvagem de onde mostrou aos romanos um facho aceso, estendendo atrás dele uma roupa qualquer, para que os latinos nada pudessem ver, porque esse era o sinal convencionado com os magistrados de Roma, sem que os demais soubessem de coisa alguma, dando causa a que a gente de guerra, quando chamada a sair a campo à noite, o fizesse em confusão e tumulto porque, premidos por seus capitães, chamavam-se uns aos outros, tendo dado muito trabalho colocá-los em formação de batalha. Foram assim surpreender os inimigos dormindo em seu campo sem desconfiar de nada, matando a maior parte deles.

LVII. Isso aconteceu no quinto dia (50) do mês chamado então Quintilis e agora julho, no qual se celebra uma festa até o presente, em comemoração deste ato, ocasião em que, logo ao sair da cidade, vão todos gritando em alta voz os nomes mais comuns do país, como Caio, Marco, Lúcio, reproduzindo a cena de terem saído da cidade em grande pressa, chamando-se uns aos outros. Servas depois, vestidas distintamente, vão pela cidade cantando e fazendo graça aos que encontram no caminho, simulando finalmente que combatem entre si, representando terem então ajudado a derrotar os latinos. Elas são, em seguida, festejadas com ramagens de galhos de figueira selvagem, denominando-se o dia dessa festa, Nonas Capratinas (51), no dizer de alguns, por causa da figueira selvagem, de onde a serva mostrou aos romanos o facho aceso, e isso porque eles romanos, chamam a figueira selvagem Caprífico. Dizem outT^s que todas essas coisas se celebram e dizem em comemoração do acidente ocorrido a Rómulo, quando, no mesmo dia, desapareceu fora das portas da cidade, ao levantar-se uma tempestade com uma nuvem negra, ou como contam outros, ao surgir um eclipse do sol, considerando ter sido o dia chamado Nonas Capratinas, porque Capra, em linguagem romana, significa cabra, e Rómulo desapareceu dentre os homens quando pregava ao povo, perto do lugar chamado o pântano da cabra, como escrevemos mais extensamente em sua vida (52).

LVIII. A outra maneira pela qual a maior parte dos historiadores descreve o fim dessa guerra, é a de que Camilo, eleito ditador pela terceira vez, sabendo estarem os tribunos militares com o seu exército, sitiados pelos latinos e volscos, em posição crítica, foi constrangido a armar os velhos, já isentos, em virtude da idade, de ir à guerra, e fazendo um grande circuito em torno do monte marciano para não ser percebido pelo inimigo, foi alojar-se atrás deles, e ali fêz acender muitos fogos para tornar os sitiados cientes de sua chegada, o que, tendo sido notado por eles, os fêz recuperar a coragem, deliberando combater. Os latinos e volscos porém, mantiveram-se dentro do acampamento onde se entrincheiraram e fortificaram com um muro de madeira e muitas árvores cruzadas de atravessado, ao se verem assim assaltados pela frente e pela retaguarda, resolvendo esperar o reforço de outro exército de sua gente, bem como socorro dos toscanos. Camilo, vendo isso e temendo que fizessem com êle o mesmo que fizera aos outros ao cercá-los por detrás, pensou na necessidade de evitá-lo, e considerando que o muro com que eles tinham vedado e fortificado seu acampamento era de madeira, e que todas as manhãs se levantava geralmente um grande vento do lado das montanhas, fêz provisão considerável de tochas’ de fogo, e pondo seu exército em campo ao levantar do dia, ordenou a uma parte dele o assalto contra os inimigos por um dos lados, com grandes gritos e lançamento de dardos, enquanto êle, com a outra parte que devia pôr fogo do lado oposto por onde o vento costumava vir, mantinha-se esperando a hora oportuna. Mal viu levantar-se o sol, começando o vento a soprar de acordo com o previsto, do lado das montanhas, e travada a escaramuça do outro lado, fêz também dar sinal a seus comandados para correr sobre o inimigo, lançando contra o seu muro muitos potes e lanças incendiárias de maneira que a chama, encontrando material para inflamar-se nessa cerca de madeira e árvores cruzadas, levantou-se inco? ‘ nenti muito alta e foi avançando por todo o circuito. Como os latinos não estavam providos de nenhum meio para extinguir as chamas, vendo seu campo todo incendiado em volta deles, concentraram-se juntos em um espaço bem pequeno, sendo entretanto constrangidos finalmente, a sair em terreno livre onde encontraram seus inimigos bem armados e alinhados em batalha, de tal forma que escaparam bem poucos dentre os que saíram, tendo sido totalmente consumidos pelo fogo os que se mantiveram no acampamento, até que os próprios romanos o apagaram para pilhagem dos bens que aí se encontravam.

LIX. Cidade tomada e retomada no mesmo dia. Triunfo de Camilo.

LIX. Feito isso, Camilo deixou seu filho para guardar os prisioneiros e os despojos, enquanto êle mesmo, com o resto do exército foi correr o país dos inimigos, onde apoderou-se da cidade dos équos. Depois também de ter reduzido os volscos a seu arbítrio, levou incontinenti o exército para a cidade de Sutrio, sem nada saber ainda do que tinha acontecido aos sutrinos, mas apressando-se a ir socorrê-los, supondo que ainda estivessem cercados pelos toscanos. Já tinham eles porém, entregado a sua cidade, mediante acordo, salvando, de todos os seus bens, apenas as vestes que traziam consigo. Encontraram assim Camilo pelo caminho, quando iam lamentando sua sorte com suas mulheres e crianças, provocando-lhe grande compaixão, ao vê-los em tão lamentável estado. Percebendo além disso que os romanos também choravam de piedade por essa pobre gente que estava com eles, revelando grande mágoa pela sua derrota, resolveu, consigo mesmo, não adiar a vingança, mas avançar diretamente nesse mesmo dia, até a cidade de Sutrio, calculando encontrar os toscanos em desordem, sem manter-se prevenidos, nem pensando em outra coisa senão em passar bem, por terem acabado de tomar uma cidade opulenta e rica onde não havia ficado inimigo nenhum, não imaginando que, de fora, se pudesse vir assaltá-la. Camilo não calculou mal, porque, não somente atravessou todo o território da cidade sem que os de dentro o advertissem, mas atingiu suas portas e se apoderou de suas muralhas antes de eles perceberem qualquer coisa, uma vez que não tinham colocado sentinela nem guarda de espécie alguma mantendo-se dispersos, aqui e ali pelas casas, a empanturrar-se e embriagar-se. Quando eles souberam que os inimigos estavam já dentro da cidade, achavam-se tão fartos e ébrios, que a maior parte deles não teve nem a preocupação de fugir, mas esperou que os fossem matar ou prender muito vulgarmente no interior das casas.

LX. A cidade de Sutrio foi assim tomada duas vezes no mesmo dia e aconteceu que quem a tinha conquistado a perdeu e os que a tinham perdido a recuperaram por intermédio de Camilo, merecedor da honra de entrar em triunfo em Roma, não lhe tendo trazido essa entrada, menos simpatia, grandeza e glória, do que as duas primeiras, porque os piores malignos invejosos que pretendiam atribuir seus mais belos feitos precedentes, mais ao favor da sorte do que à sua virtude, foram então constrangidos a confessar pelos resultados, que o louvor era devido ao seu bom senso e valentia.

LXI. Ambição de Mânlio.

LXI. O mais declarado dos seus invejosos e adversários, era Marco Manlio, o que primeiro repelira os gauleses na noite em que pretenderam penetrar na fortaleza do Capitólio, razão pela qual fora cognominado Capitolino. Querendo ser o primeiro da cidade e não podendo conseguir, por caminho reto, suplantar a glória de Camilo, êle se colocou na estrada daqueles que prepararam a tirania, que é a de bajular a plebe, especialmente os endividados, defendendo suas causas, pleiteando por eles em juízo contra os credores e fazendo-os escapar de sua:* mãos, arrebatando-lhes pela força aqueles que por falta de pagamento, lhes eram adjudicados como escravos conforme o rigor da lei. Por esses meios Manlio reuniu em pouco tempo, em torno dele, grande número de homens dessa espécie, pobres e necessitados, os quais causavam muito medo à gente de bem e de honra, pelas insolências que praticavam, e pelas confusões e tumultos que excitavam, freqüentemente, na praça. Tal foi o terror gerado, que, em virtude disso, se elegeu ditador Quinto Capitolino (53), o qual fêz deter, incontinenti, o dito Manlio, constituindo-o prisioneiro, razão pela qual o povo, mudou de roupa o que não era costume a não ser nas grandes calamidades públicas. O Senado, temendo sucedesse alguma perturbação sediciosa, fê-lo soltar. Êle porém, saindo da prisão, não se tornou por isso nada melhor nem mais prudente, continuando a excitar e amotinar a comuna, mais audaciosa e sediciosamente do que nunca.

LXII. Ele é precipitado de alto do Capitolio que linha salvo.

LXII. Camilo foi então eleito, de novo, tribuno militar, (54) sendo Manlio, em seu tempo, chamado à barra da justiça. Quando porém, veio a discutir-se a causa, a visão do Capitólio prejudicou muito os acusadores, porque o exato local onde Manlio tinha repelido os gauleses à noite, defendendo o mesmo Capitólio, via-se da praça onde se dava a audiência, e êle próprio o mostrava a seus juízes estendendo as mãos e, chorando copiosamente, relembrava-lhes como tinha exposto sua vida combatendo por eles, enternecendo-lhes assim o coração de piedade, de tal forma, que sem saber o que fazer, adiavam a causa seguidamente, sem querer absolvê-lo, tendo em vista que era inculpado por provas de extrema evidência, e sem poder usar o rigor e severidade das leis, por terem diante dos olhos o local onde Manlio tinha prestado tão grandes serviços à coisa pública. Camilo, percebendo a situação, fêz transportar a sede desse julgamento para fora da cidade em um local chamado Bosque Petiliano, de onde não se podia ver o Capitólio, e lá, prosseguindo os acusadores vivamente, em sua acusação, e voltando, de novo, à memória dos juízes, as más ações que êle tinha praticado, conceberam justa indignação para puni-lo segundo seus deméritos. Manlio foi então condenado, por sentença, a morrer, sendo conduzido ao monte do Capitólio de onde foi precipitado pelos rochedos que aí se encontram. O mesmo lugar foi assim testemunho dos seus mais brilhantes feitos, e de sua mais deplorável calamidade. Sua casa foi além disso, arrasada, edificando-se em seu lugar o templo da deusa denominada Moneta, e publicou-se um edito determinando que daí para o futuro não se permitiria mais a nenhum patrício, morar no monte do Capitólio.

LXIII. Guerra des Preñesestinos e dos Volscos. Temeridade de Fúrio. Valor de Camilo.

LXIII. Tendo sido Camilo chamado novamente para o cargo de tribuno militar pela sexta vez (55), procurava escusar-se, tanto por sentir-se já bem avançado em anos, como também talvez, por temer alguma inveja da fortuna, ou algum desastre, após tanta glória adquirida por êle, e tantas altas empresas que terminara com felicidade. A causa mais aparente todavia, sobre a qual fundava a escusa, era sua indisposição, porque, mais ou menos a esse tempo, êle se achava doente. O povo porém não quis admitir nem perceber suas desculpas, mas gritando que não lhe pedia que combatesse nem a pé nem a cavalo, mas apenas que aconselhasse e determinasse, constrangeu-o a aceitar o cargo, com um dos seus companheiros chamado Lúcio Frurio (56), para conduzir o exército contra os inimigos prenestinos e volscos, que, reunidos, corriam e pilhavam as terras dos aliados romanos. Êle então se pôs incontinenti a campo com o exército, indo alojar-se o mais perto possível dos inimigos, desejando fazer demorar essa guerra, para combater depois, se houvesse necessidade, quando estivesse bem provido. Ao contrário porém, Frurio, por ambição de glória, queria, a qualquer preço, arriscar acaloradamente a batalha, e ia solicitando nesse sentido aos capitães e chefes de tropa. Camilo, temendo por esse motivo, que se pensasse ser por inveja a esses jovens, que êle pretendia tirar-lhes e tolher-lhes os meios de conquistar honra e de praticar qualquer ato digno de memória, permitiu-lhe, contra a sua vontade, fosse o exército alinhado em batalha. Êle entretanto, em virtude de sua indisposição, manteve-se no acampamento com pouca gente.

LXIV. Lúcio, foi assim, levianamente, apresentar batalha ao inimigo, sendo ali rompido, Camilo porém, sabendo da derrota dos romanos, não se pôde conter, e mesmo doente como estava, levantou-se do leito e dirigiu-se com os de sua casa para as portas do acampamento, varejando por entre os fugitivos até encontrar aqueles que os perseguiam. Os romanos que já tinham entrado no acampamento, vendo-o, seguiram-no incontinenti, e os que ainda fugiam do lado de fora, detendo-se subitamente, quando o perceberam, juntaram-se em formação de batalha diante dele, admoestando-se, uns aos outros, para não abandonarem seu capitão, de forma que os inimigos cessaram nesse dia, de apartá-los e persegui-los. No dia seguinte, porém, pondo Camilo em campo toda a tropa, deu-lhes batalha na qual os venceu e prosseguindo em sua vitória, entrou de mistura com os fugitivos dentro do seu acampamento, matando a maior parte deles. Camilo foi advertido, em seguida, que os toscanos tinham tomado a cidade de Sutria (57), passando a fio de espada todos os cidadãos romanos que ali habitavam. Devolvendo a Roma a parte mais pesada do seu exército, êle reteve consigo, por essa razão, os mais decididos e mais leves para assaltar os toscanos que se tinham alojado nessa cidade de Sutria e, retomando-a, matou uma parte deles, salvando-se a outra pela velocidade da fuga. Camilo, depois disso, entrou de volta a Roma com grande quantidade de despojos, fazendo saber, por experiência, terem sido muito sábios os que não tinham temido nem a senilidade nem a doença do bom capitão experimentado e audaz, e haviam-no eleito mau grado êle próprio, embora velho e doente, preferindo-o aos jovens e dispostos que pleiteavam insistentemente o cargo.

LXV. Êle faz voltar ao dever os rebeldes de Tusculo.

LXV. Tendo vindo, entretanto, ao senado a notícia de que os tusculanos se tinham rebelado, enviaram para ali Camilo, exortando-o a tomar consigo quem bem lhe parecesse (58), dos cinco outros companheiros que o requeriam, desejosos todos de ser escolhidos por êle. Omitindo porém os demais, êle escolheu novamente Lúcio Frúrio contra a opinião e a esperança de todo o mundo, porque fora este quem, havia pouco, tinha querido por toda a força, ontra sua vontade, arriscar a batalha na qual fora batido. Camilo, entretanto, querendo, ao que me parece, cobrir essa falta e a conseqüente vergonha que caíra sobre eles, preferiu-o humanamente, a todos os outros. Os tusculanos, de resto, percebendo que Camilo vinha contra eles, quiseram habilmente dissimular o erro cometido, porque, fizeram ir muita gente para os campos, uns para lavrar as terras, outros para guardar os animais, nem mais nem menos do que se estivessem em plena paz, e conservaram abertas as portas da sua cidade, onde as crianças iam publicamente à escola, os artesãos trabalhavam em suas tendas, a gente de qualidade passeava com suas longas roupas pela praça, os oficiais e governantes iam daqui para ali pelas casas, determinando que se aprontassem alojamentos para os romanos, como se não tivessem medo de nenhum perigo, nem se sentissem culpados de qualquer falta. Todas essas aparências todavia não levaram Camilo a descrer que eles tivessem maquinado rebelar-se contra os romanos, mas fizeram-nos apiedar-se deles, vendo-os arrependidos do que tinham pretendido fazer. Determinou-lhes assim, que fossem a Roma e se dirigissem ao Senado, solicitando-lhe perdão pelo seu erro, e êle mesmo os ajudou, não somente em fazer absolver sua cidade do crime de rebelião, mas também em que lhes fosse outorgado o privilégio da burguesia romana. Esses foram os principais atos praticados por Camilo no seu sexto tribunado.

LXVI. Perturbações provocadas por Licínio Estolo. Quarta ditadura de Camilo.

LXVI. Houve depois um certo Licínio Estolo (59), que provocou uma grande sedição na cidade entre a plebe e o Senado, por querer, a toda a força, que dos dois cônsules eleitos em cada ano, houvesse um, necessariamente, pertencente a estirpe popular, não podendo ser ambos vinculados a antigas famílias nobres, chamadas patrícias. Foram assim, regularmente eleitos os tribunos do povo, mas quanto aos cônsules, a comuna impedia sua eleição, de maneira que a coisa pública ameaçava cair em perturbações maiores do que nunca, por falta de magistrados. Para obviar a isco, o Senado instituiu Camilo ditador pela quarta vez, não o satisfazendo de forma alguma com isso, por ser contra a vontade do povo, não querendo êle entrar em atrito com homens que, por terem estado sob seu comando em muitas guerras e batalhas, podiam franca e verdadeiramente alegar ter êle realizado mais belas coisas na companhia deles em armas, do que com os patrícios em paz, e não obstante, deixava-se instituir ditador, a despeito deles, pela inveja dos nobres. Era assim forçoso para Camilo, ou suplantar e oprimir o povo, caso fosse mais forte nessa dissensão, ou ser êle próprio suplantado, caso se revelasse mais fraco. Apesar disso, procurando .mediar ao mal presente e sabendo o dia em que os tribunos do povo tinham decidido propor o seu edito para fazê-lo passar com a votação da plebe, Camilo proclamou, afixando cartazes, que nesse mesmo dia queria recrutar gente para a guerra, visando assim deslocar o povo da praça para o campo de Marte, onde pretendia realizar a revista,, sob pesadas penas a quem desobedecesse. Os tribunos do povo, ao contrário, se opunham a suas ameaças, e juravam que o condenariam a êle Camilo a uma multa de 50 mil dracmas de prata (60), se não desistisse de tentar impedir, que o povo desse seus votos para sancionar qualquer lei que lhe aprouvesse. Camilo, diante disso, seja temendo ser, ainda uma vez, condenado e banido, o que não lhe convinha como a um homem já velho e senil, que realizara tão belas e grandes coisas, seja por não se sentir bastante poderoso para resistir nem conseguir uma mudança na decisão do povo, retirou-se, nesse dia, para sua casa e, fingindo-se doente nos dias seguintes, demitiu-se finalmente do seu cargo.

LXVII. O Senado, em conseqüência, elegeu para substituí-lo um outro ditador, o qual nomeou para comandante da cavalaria o próprio Estolo, autor e promotor de toda a sedição, permitindo-lhe que propusesse e fizesse passar com os votos do povo uma outra lei, mais irritante para os patrícios que nenhuma outra. Trata-se daquela que proibia a qualquer cidadão romano ter ou possuir mais de quinhentos arpentes de terra. Foi para Estolo uma grande honra ter feito autorizar a lei a despeito do Senado. Pouco tempo depois porém, verificado que êle próprio possuía maior área do que essa sua lei permitia, foi punido com a pena prevista na mesma. Restava ainda a mais delicada questão de toda essa luta, questão que a tinha gerado em primeiro lugar, e que maior preocupação dava ao Senado: a eleição dos cônsules.

LXVIII. Nova invasão dos gauleses. Camilo é nomeado ditador pela ouinta vez. na idade aproximada de oitenta anos. Êle bate os gauleses.

LXVIII. Entrementes, porém, chegaram notícias certas de que os gauleses, partindo de novo da região do mar Adriático, avançavam com grande poderio, diretamente sobre Roma, e simultaneamente os efeitos da guerra repercutiram quase ao mesmo tempo das notícias, porque os inimigos corriam já as planícies do país, e as gentes do campo que não tinham tido tempo de alcançar rapidamente a cidade de Roma, tinham-se dispersado, aqui e ali, pelas montanhas. Essa ameaça apaziguou por um pouco a dissensão, e o povo reunindo-se com o Senado, e os plebeus com os nobres em acordo e consentimento conjunto, elegeram todos a Camilo ditador pela quinta vez (61). Êle estava já muito velho, faltando pouco para atingir oitenta anos. Vendo porém, a necessidade e o perigo presente, sem alegar escusas nem procurar qualquer subterfúgio como fizera antes, aceitou o cargo, e mal acabara de aceitá-lo, se pôs incontinenti a levantar homens e a preparar seu e . rcito. Tendo conhecimento todavia, que a maior violência dos bárbaros consistia nos golpes de talhe de suas espadas, com as quais cortavam cabeças e espáduas, manejando-as pesadamente, sem qualquer artifício, êle fêz forjar para a maior parte de sua gente, seladas e morriões, todos de ferro bem polido por fora, a fim de que as espadas resvalassem de lado, ou se rompessem ao bater sobre eles, e fêz revestir seus paveses em toda a sua orla com uma lâmina de cobre porque a madeira só, não podia aturar nem resistir aos golpes. Advertiu também a seus soldados que levassem longos dardos, para lançá-los por baixo das espadas dos bárbaros quando os vissem em atitude de desferir seus grandes golpes de cima para baixo.

LXIX. Depois, quando os gauleses chegaram bem perto de Roma, tendo estabelecido acampamento à margem do rio Aniano (62), carregados e cheios de toda a espécie de pilhagem e despojos, êle pôs também seu exército a campo, indo alojar-se sobre uma colina fácil de subir e onde havia muitas pequenas cavidades, de forma que a maior parte de sua tropa mantinha-se aí coberta e escondida e o pouco que se via dela parecia ter-se retirado, de medo, para lugar alto e vantajoso. Querendo Camilo estimular essa opinião dos inimigos, permitia que eles viessem exercer pilhagens até ao pé da colina onde se tinha alojado, sem que êle se mexesse para impedi-lo, con-servando-se quieto em seu canto bem fortificado, até que pôde sentir a sua oportunidade, quando a maior parte do exército gaulês se achava disperso pelos campos à procura de reabastecimento. Os que se tinham mantido no acampamento nada faziam a não ser empanturrar-se e embriagar-se de maneira dissoluta e permanente. Camilo enviou então muito cedo, antes do dia, aqueles dos seus, que estavam armados à ligeira, para excitar os bárbaros a saírem do seu campo e impedi-los de alinhar-se em formação de batalha. Ao clarear do dia, fêz também descer os outros à planície e os dispôs para o combate bem armados, em número considerável, muito decididos, e não poucos e atemorizados como supunham os bárbaros.

LXX. Isso, antes de mais nada, abateu a coragem dos gauleses que consideraram sua honra diminuída, vendo os romanos assaltá-los em primeiro lugar, constrangendo-os, depois, os batedores, que carregaram contra eles, de improviso, antes de terem tempo de colocar-se em ordem de batalha ou de organizar sua tropa, a combater em massa e em desordem na forma em que casualmente se encontravam. Caiu-lhes enfim sobre os ombros Camilo com o grosso de seu exército, contra o qual, apesar de tudo, eles arremeteram com as espadas erguidas. Os romanos porém os receberam com os seus chuços, apresentando-lhes as pontas ferradas para aparar-lhes os golpes em que cegavam suas espadas de lâminas bastante tênues e débeis, forjadas, como eram, com ferro muit . mole, pelo que se curvavam e quebravam imediatamente. E como também seus escudos, furados a golpes de dardo, pesassem muito sobre os braços quando os romanos os puxavam, eles abandonaram as próprias armas, procurando servir-se dos inimigos cujos dardos seguravam com as mãos, experimentando arrancá-los dos punhos, enquanto os romanos, vendo como se descobriam, lançavam mão das espadas. Foi assim feito grande morticínio nas primeiras linhas, e as demais fugiram em todas as direções pela planície, porque Camilo fizera ocupar as encostas e as montanhas das redondezas. Os bárbaros não se retiraram para seu acampamento, porque não o tendo fortificado, por nada temerem antes, sabiam bem que êle seria facilmente conquistado.

LXXI. Esta batalha, assim como é relatado, deu-se treze anos (63) após a tomada de Roma, e depois dela os romanos se afirmaram muito contra os bárbaros a quem antes tinham temido tanto, considerando que da primeira vez não os haviam batido pela força, mas sim por que a peste se pusera de permeio ou por outras estranhas razões. Fora tão veemente o seu medo que eles tinham elaborado uma lei segundo a qual os sacerdotes seriam isentos de ir à guerra, desde que não fosse guerra contra os gauleses. Essa derrota constituiu o último feito de armas de Camilo, considerando que a conquista da cidade de Velitras foi como um acessório dessa expedição, tendo-se rendido a êle sem luta.

LXXII. Quanto aos combates da cidade porém, em matéria de governo, restava-lhe a parte maior e mais difícil em relação ao povo, que voltava a Roma forte e poderoso, em virtude da vitória que acabava de obter e queria por toda a força que um dos cônsules fosse necessariamente eleito dentre as estirpes populares, contra o costume então observado. O senado resistia a isso com toda força e firmeza, não querendo que Camilo se demitisse do cargo, esperando, por intermédio de sua grande autoridade, combater melhor pela dignidade e prerrogativas da nobreza. Mas estando Camilo sentado em seu tribunal na praça, dando audiência e despachando negócios, veio ao encontro dele um lictor enviado pelos tribunos do povo, e determinando-lhe que o seguisse, pôs, ao mesmo tempo, a mão sobre sua pessoa como para levá-lo a força. O fato provocou a maior gritaria e tumulto jamais havido na praça, porque os partidários de Camilo repeliram o lictor para trás da .adeira, enquanto a plebe lhe gritava debaixo, para que êle o tirasse dali, de tal forma que o lictor não sabia mais o que devia fazer nem como orientar-se. Camilo não abandonou assim, sua magistratura, mas reunindo os senadores presentes em torno dele, dirigiu-se para o lugar onde se costumava reunir o senado, onde, antes de entrar, voltou-se para o Capitólio dirigindo uma prece aos deuses para que quisessem conduzir a bom termo essas perturbações, fazendo voto e prometendo, se a revolta e confusão pudessem ser suavemente apaziguadas, que êle faria edificar um templo à Concórdia.

LXXIII. Conciliação da nobreza e do povo. Sexto, primeiro cônsul saído do povo. Fundação de templo da Concordia.

LXXIII. Quando a coisa veio a ser proposta no senado, houve ali o mesmo choque e grande contrariedade de opiniões. Prevaleceu finalmente a mais benigna entretanto, isto é, a que cedia ao povo, permitindo-lhe que um dos cônsules fosse eleito dentre os cidadãos plebeus. O ditador tendo comunicado publicamente diante do povo, a conclusão a que chegara o senado, alegrou-se este, de tal forma, que se esqueceu imediatamente de toda a má vontade contra a nobreza e o senado, reconduzindo Camilo à sua casa, com grandes gritos de alegria e palmas. No dia seguinte, na praça, em plena assembléia popular, foi decidido que o templo da Concórdia seria construído a expensas da coisa pública, conforme o voto de Camilo, em lugar de onde se pudesse ver essa mesma praça, na qual se faziam as assembléias do povo em conselho, bem como que se acrescentaria um dia mais às férias latinas, festejando-se daí por diante quatro dias sem trabalhar, e ainda que se fariam, presentemente, sacrifícios aos deuses em todas as igrejas em ação de graças, com as cabeças cobertas de chapéus floridos, em sinal de alegria por essa reconciliação.

LXXIV. Peste que devasta Rema. Morle de Camilo.

LXXIV. Procedendo pois Camilo à eleição, foram instituídos dois cônsules, (64) Marco Emílio pelos nobres patrícios e Lúcio Sexto pelo povo. Foi este o último ato de Camilo, porque, no ano seguinte (65) sobreveio a peste em Roma, a qual, além de uma incontável multidão de gente, levou também muitos magistrados e oficiais da cidade e entre eles, Camilo, o qual, muito embora tivesse vivido assaz longamente, encerrando notável curso de vida e estivesse tão maduro para a morte como nenhum outro, foi todavia, mais lamentado e sentido sozinho pelos romanos, do que, em conjunto, todos os demais vitimados pela peste.

Notas

  • (1) A familia Fúria se partilhava entre patrícios é plebeus.
  • (2) No ano 323 de Roma –
  • (3) Leia-se veietaneanos, segundo a correção de Shylander em muitos manuscritos.
  • (4) O cerco de Veios começou no ano 349 de Roma.
  • (5) Foi no ano 351 de Roma que cs romanos começaram a acampar no inverno.
  • (6) O lago de Alba se encheu no ano 356 de Roma. Essa montanha é cheia de fontes que correm de todos os lados. Não há dúvida de que as águas que abastecem essas fontes se lançaram no lago. Os ventos e fermentações que fazem com muita freqüência debaixo da terra, puderam também contribuir para essa enchente. Essas causas são muito naturais e foram verificadas pelo exame de lugares que o padre Kircker e outros fizeram Mas tudo era prodígio para os antigos
  • (7) As férias se celebravam em honra a Júpiter Latial sobre o monte de Alba.
  • (8) No ano 358 de Roma.
  • (9) Sua festa é marcada nos antigos calendários Romanos, no dia 11 de junho, Matrália, isto é, festa da deusa mãe Matuta.
  • (10) Tito Lívio, livro V — cap XXII. C.
  • (11) Plutarco éra sacerdote de Apolo. É o que se deve recordar quando êle noticia ou faz valer prodígios imaginários.Não obstante seus preconceitos, suas reflexões são sábias e judiciosas
  • (12) No ano 359 de Roma.
  • (13) Pode-se traduzir "e que era sem fortuna", segundo a correção de Reiske, que me parece assaz provável embora não seja autorizada por nenhum manuscrito.
  • (14) Consta do grego, "a este deus"; o que não significa nada a menos que se suponha, como o faz Bryant, que Plutarco escrevia em Delfos, onde era sacerdote de Apolo. Sabe-se com efeito, por intermédio de Tito Livio, liv. V, cap. XXIII, que era a este deus que Camilo votara o dízimo dos desnoios. C.
  • (15) Avaliando-os segundo c pequeno talento romano que pesava sessenta libras, os oito talentos equivalem a quatrocentos e cinqüenta e três mil libras da nossa moeda. Isso pode dar a conhecer a randeza e a forma dessa "cratera", que era um vaso e não uma taça como traduziu Amyot. Se o cálculo fôr feito segundo o grande talento romano, ela equivaleria a 630 mil libras em nossa moeda.
  • (16) Vejam-Se as observações do capítulo XV. C.
  • (17) No ano 360 de Roma.
  • (18) No texto: "sargens" — em nota: "lictores".
  • (19) Correspondem mais ou menos a 150 escudos. Amyot. Esses quinze mil asses correspondem a 7.875 libras da nossa moeda. Plutarco enganou-se não os avaliando senão em 1.500 dracmas de prata, que não correspondem a mais de 1.167 libras da nossa moeda. Êle confundiu o asse do tempo de Fábio Máximo com o asse do tempo de Camilo. Eis a fonte de seu erro. O sábio Ruauld, que tratou dessa questão pormenorizadamente, na sua grande edição grega e latina de Plutarco, não a compreendeu
  • (20) Em uma dissertação sobre os feitos e a glória dos gauleses, eu expliquei esta expedição e outras que a=?!nalaram a coragem da nação na Europa e na Africa. Veja-se Taciti Opera, tom. I, pág. 367. ed. in-12.
  • (21) Separam a Rússia da Sibéria.
  • (22) Esta jornada infeliz era assinalada nos antigos calendários romanos, no dia dezoito de julho, como Aliensis. O ribeiro de Alia se chama agora Torrente di Catino. A batalha se deu no ano 364 de Roma. Os trezentos Fabianos tinham perecido no ano 277 de Roma. A dezenove de julho, havia ainda uma festa chamada Lucária, em memória do refúgio que os romanos tinham encontrado na mata. depois de batidos pelos gauleses
  • (23) Em um tratado perdido, que Plutarco escrevera sobre os dias. Sobre o mesmo assunto êle diz também qualquer coisa nas questões romanas, cap. XXXV.
  • (24) Segundo ano da centésima-segunda Olimpíada.
  • (25) A batalha de Geresto, ou antes de Ceresse, se deu por ocasião da de Termopilas e, por conseqüência, nas proximidades do ano da septuagésima-quinta olimpíada. Ela não precedeu senão de 108 anos a batalha de Leuctres. Deve haver portanto um erro no grego de Plutarco. Parece também haver um erro no nome de Geresto. Trata-se de um promontorio da Eubeia: não se conhece região com esse nome na Beócia. Mas há perto de Tespias, cidade da Beócia, uma praça forte chamada Ceresse. Foi lá que os beocianos se defenderam outrora contra os tessalonianos que haviam pretendido invadir seu país Veia-se Pausanias. DC, 14
  • (26) Amyot devia ter conservado os nomes dos meses gregos. A batalha de Maratona foi travada no dia 6 do mês Boedromion. como nota Plutarco, no terceiro ano da septuagésima segunda Olimpíada.
  • (27) As batalhas de Plateia Micale são do segundo ano da septuagésima quinta Olimpíada.
  • (28) A batalha ds Arbela é do segundo ano da centésima décima segunda Olimpíada.
  • (29) A batalha naval, travada perto da ilha de Naxos, se aeu por ocasião do plenilúnio do mês de Boedromion no quarto ano da centésima olimpíada.
  • (30) Veja-se a vida de Temístocles, cap. XXX.
  • (31) Em grego mês de Targelion. Amyot deveria ter traduzido mês de maio, como o fêz acertadamente, na vida de Timoleon, cap. XXXVI. A batalha de Granico se deu no ano terceiro da centésima-décima primeira olimpíada.
  • (32) Amyot calcula mal o fim dos meses que se devem contar retrogradando assim, o sétimo dia do mês Targeldon ao terminar, não cai no dia 27 mas no dia 23.
  • (33) Em grego o mês Metaginion. É o segundo mês do ano ateniense: corresponde ao mês de agosto. A batalha de Cranon se deu no terceiro ano da centésima décima quarta olim^ piada.
  • (34) Filipe, pai de Alexandre o Grande, ganhou a batalha dê Queronéia no terceiro ano da centésima-décima olimpíada.
  • (35) Arquidamo, rei da Lacedemônia. Ele ia levar socorro aos tarentinos, quando foi morto em Maduria, cidade perto de Casal Nuevo, na Calábria.
  • (36) Amyot comete aqui um duplo engano. Há no grego, referência ao dia 9 do mês que terminava, e não ao dia sétimo. Oabeida traduzir vigésimo segundo e não vigésimo sétimo
  • (37) Foi no segundo ano da centésima décima primeira Olimpíada que Alexandre destruiu a cidade de Tebas na Beócia, um pouco antes da festa dos mistérios dedicada a Elêusis, no templo de Ceres, no mês de Boedromion, ou setembro.
  • (38) Esta procissão de Baco ia de Atenas a Elêusis, no sexto dia da festa dos mistérios, no dia 20 do mês de Boedromion.
  • (39) Trata-se de um erro. É preciso corrigir para Cepion. Êle foi batido pelos Cimbros no ano 649 de Roma. Falei longamente dessa derrota, onde os romanos perderam oitenta mil homens, nas notas sobre Tácito De Moribus Germ., cap. 37.
  • (40) O dia seguinte das calendas e o dia seguinte das nonas eram os outros dois dias reocontados nefastos
  • (41) Nas "Questões Romanas", oap, XXXV
  • (42) Eis a origem do culto do fogo tão antigo e espalhado no Universo. Perpetuou-se o uso de conservar fogo nos templos.
  • (43) Este local se chamava Doliola. Veja-se, em relação a essa palavra, Festo Pompeu e Tito Lívio, liv. V cap XL. C
  • (44) No ano 364 de Roma
  • (45) Essas mil libras de peso em ouro equivalem a 65.362 libras da nossa moeda Brotier. Há erro nesse cálculo; a libra romana pesava um pouco mais de dez onças em nossa medida de peso; assim, as mil libras devem equivaler a mais de um milhão em moeda atual. C.
  • (46) Poucos dias depois do dia quinze de julho, de acordo com o texto grego. Veja-se a batalha de Alia no cap. XXXII.
  • (47) Esta libertação da cidade de Roma está marcada no dia 13 de fevereiro, nn calendário de Polemo Silvio
  • (48) Ano 365 de Roma
  • (49) Este bastão augurai é representado em inúmeras medalhas, sobretudo nas de Júlio César e de Augusto.
  • (50) É um erro de Amyot. Em grego, o dia das nonas. Elas não se dão no dia 5 mas no dia 7 de julho. O calendário de Polemo Sílvio conservou-nos a lembrança dessa festa com alguns pormenores particulares. Esse calendário marca no dia 7 de julho: festa das servas da Síria. Foi estabelecido em memória de, após a tomada de Roma pelos gauleses, terem as nações vizinhas já vencidas, pedido esposas das melhores famílias de Roma. A conselho de Filotis enviaram-lhes servas vestidas com roupas de suas patroas. Essas servas fizeram sinais. Os povos em apreço foram surpreendidos mergulhados no sono, e vencidos. Macróbio fala também dessa festa Saturnal I, II.
  • (51) Macróbio as chama Nonas Caprotinas.
  • (52) Vida de Rómulo, cap. XLVI.
  • (53) Ano 369 de Roma.
  • (54) Ano 370 de Roma.
  • (55) Ano 373 de Roma.
  • (56) Èle se chamava Lúcio Fúrio.
  • (57) Trata-se da cidade de Sátria que não era na Toscana mas estava situada entre os volscos. Plutarco confundiu as cidades Sútrio e Sátria. Parece mesmo que êle não descreveu exatamente esta campanha de Camilo. É melhor ater-se a Tito Lívio, VI. 22. Não foi senão por força de uma passagem mal entendida desse autor, que Plutarco imaginou a doença de Camilo. Vejam-se as reflexões de M. Secousse na História da Academia das Inscrições, tom. V, pág. 172.
  • (58) Dentre seus cinco colegas.
  • (59) Ano 378 de Roma.
  • (60) É um erro de Plutarco e Amyot. Não havia por esse tempo moeda de prata em Roma. É preciso corrigir para 50.000 asses que equivalem a 2.250 libras de nossa moeda.
  • (61) No ano de Roma 387.
  • (62) Esse rio que os romanos chamavam Anio chama-se agora Teverone. Falou-se já sobre isso na vida de Publícola, cap. XXXVIII.
  • (63) É erro do texto grego de Amyot. É preciso corrigir para 23 anos.
  • (64) Ano 388 de Roma. Os dois cônsules se chamavam Lúcio Emílio Mamerco e Lúcio Sexto.
  • (65) Ano 389 de Roma.

 

Fonte: PLUTARCO, Vidas dos Homens Ilustres. Edameris. Tradução de Paulo Edmur de Souza Queiroz, baseado na edição francesa de Amyot com notas de Brotier, Vauvilliers e Clavier.

 

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