Continued from: Lúcio Cornélio Sila - Plutarco - Vidas Paralelas

XXI Quando chegou às imediações de Picines (1),
encontrou-se com uma nova embaixada do Senado, a qual lhe pediu que não se
lançasse bruscamente sobre a cidade, acrescentando que o Senado estava
disposto a conceder-lhe tudo o que pedisse de justo e razoável. Sila concordou; e, após prometer
que acamparia naquele mesmo lugar, ordenou aos seus capitães que marcassem,
como de costume os limites do acampamento. Os embaixadores, confiando nas
palavras de Sila, regressaram a Roma. Todavia, apenas haviam voltado as costas,
Sila ordenou a Lúcio Básilo e Caio Múmio que se apoderassem de uma das portas
da cidade e das muralhas existentes perto do monte Esquilino; ele próprio, logo
depois, seguiu o mesmo caminho. Básilo apoderou-se da porta à força e entrou na
cidade; mas os moradores, que estavam desarmados, subiram aos telhados e atiraram
sobre êle uma chuva de telhas e pedras, impedindo que avançasse, chegando
mesmo a fazê-lo retroceder até junto das muralhas.

(1)
O nome da deusa não figura no texto, e não se pode apontá-lo, pois Plutarco diz
que não sabia qual  era ela.     (C).

(1)
Ninguém sabe que lugar é este. (Vauvilliers). Vide as Observações.     (C).

 

XXII. Entrementes, Sila chega
e, vendo o que se passava, ordenou aos seus soldados que ateassem fogo no
interior das casas; e êle próprio, pegando uma tocha acesa, mostrou-lhes como deviam agir. Ordenou ao mesmo tempo aos arqueiros que lançassem sobre os tetos dardos
inflamados. Assim é que, surdo à razão, não obedecendo senão à sua paixão e
deixando-se dominar pela cólera e pela sede de vingança, e sem qualquer
consideração pelos seus amigos, parentes e aliados, sem se deixar tocar pela
piedade e sem distinguir entre os culpados e os inocentes, abriu caminho
através de Roma a ferro e fogo. Entretanto, Mário, que havia sido repelido até
o templo da Terra, fez uma proclamação, a som de trombeta, na qual dizia
que daria liberdade a todos os escravos que aderissem a êle; mas seus
adversários, avançando, atacaram-no com tanto vigor que êle foi obrigado a
fugir e a abandonar a cidade.

XXIII. Sila reuniu então o
Senado e fêz com que aprovasse um decreto condenando Mário e algumas outras
pessoas a morte, como inimigas da República. Entre os condenados estava
Sulpício, que foi traído por um de seus escravos, e logo depois degolado. Sila
libertou esse escravo, de acordo com a promessa que fizera publicamente;
mas logo depois de restituir-lhe a liberdade, fê-lo saltar do alto da rocha
Tarpéia. Pôs a prêmio a cabeça de Mário, oferecendo uma grande soma de dinheiro
a quem o matasse, praticando assim um ato de ingratidão e desumanidade, pois
que, poucos dias antes, forçado a entregar-se às suas mãos, ao procurar asilo
em sua casa, êle o deixara a salvo. Se, em vez de deixá-lo partir em liberdade,
o tivesse entregue a Sulpício, que queria matá-lo, Mário ter-se-ia tornado
senhor de Roma; no entanto, perdoara-o; e Sila, poucos dias depois,
encontrando-se por sua vez numa posição de superioridade, não demonstrou para
com o adversário a mesma generosidade. Esta atitude desagradou vivamente ao
Senado, que dissimulou, contudo, seu sentimento; o povo, porém, deu mostras
sensíveis de descontentamento e indignação. Recusou, com manifestações de
desprezo, os seus votos a Nônio, sobrinho de Sila, e a Servílio, um de seus
amigos, que, contando com sua proteção, tinham se candidatado a certos cargos;
e, além disso, escolheu aqueles cuja designação lhe pareceu mortificar mais a
Sila. Este, no entanto, dissimulando seus sentimentos, fingiu aprovar a
escolha, e declarou mesmo que, graças a êle, o povo romano estava gozando de
inteira liberdade, podendo fazer tudo o que fosse de seu agrado.

XXIV.
Para abrandar a ira popular, êle decidiu
fazer com que fosse designado um cônsul da facção contrária, Lúcio Cina, cujo
apoio já havia conseguido com antecedência, e a quem tinha feito jurar, no meio
das maiores imprecações, que favoreceria seus negócios e seu partido. Cina,
após subir ao Capitólio, tendo na mão uma pedra, fez, na presença de toda
gente, um juramento, dizendo que, caso não mantivesse por Sila a amizade que
lhe prometera, rogaria aos deuses que o lançassem fora da cidade, do mesmo modo
como êle atirava longe a pedra que tinha na mão. E, após dizer estas palavras,
jogou a pedra ao chão. Entretanto, apesar de todas estas imprecações, apenas
tomou posse do consulado, começou a modificar tudo o que fora feito. Quis mesmo
mover um processo a Sila, designando para acusá-lo Virgínio, um dos tribunos
do povo. Sila, porém, deixando na cidade os juizes e o acusador, partiu para a
guerra contra o rei Mitrídates,

XXV. Conta-se que, na época da partida de Sila da Itália,
para aquela expedição, Mitrídates, que se achava então em Pérgamo, recebeu, dos
deuses, várias advertências, e, entre outras, a seguinte: os moradores de Pergamo
tinham erigido uma estátua da Vitória, que tinha na mão uma coroa, a qual por
meio de uma máquina, devia descer até à cabeça do rei. No momento em que ia ser
coroado no teatro, a coroa caiu sobre a cena e partiu-se em mil pedaços. Este
acidente provocou terrível medo entre os presentes, e o próprio Mitrídates
pôs-se a. duvidar de sua boa fortuna, embora os seus negócios estivessem
decorrendo melhor do que teria ousado esperar. Êle tinha conquistado a Ásia aos
romanos, expulso de seus Estados os reis da Bitínia e da Capadócia, e vivia
pacificamente em Pérgamo, onde distribuía a seus amigos, riquezas, governos e reinos,
E quanto aos seus filhos, o mais velho reinava sobre vastas regiões que se
estendiam desde o Ponto e o Bósforo até os desertos dos pântanos Meótides,
terras estas que havia recebido de seus predecessores, numa sucessão de pai a
filho, O segundo filho, chamado Ariarates, que tinha sob suas ordens um
numeroso exército, estava submetendo a Trácia e a Macedônia. Seus generais, à
frente de tropas consideráveis, proporcionavam-lhe novas e belas conquistas,
em várias regiões. Arquelau, o de maior renome entre eles, comandava uma
esquadra poderosa que o tornava senhor do mar, e que lhe valera o domínio das
Cícladas, de todas as ilhas situadas ao longo do promontório de Maléia e da
própria Eubéia. Êle apoderou-se de Atenas, e de lá promovia a rebelião, contra
os romanos, de todos os povos da Grécia, até à Tessália. Sofreu, todavia,
alguns reveses perto de Queronéia. Um dos lugar-tenentes de Sêncio, que
comandava na Macedônia, chamado Brúcio Sura, homem dotado de bom-senso e de uma
grande audácia, tomou posição diante de Arquelau, que, como uma torrente
impetuosa, invadira a Beócia, e derrotou-o em três encontros, expulsando-o da
Grécia e obrigando-o a permanecer no mar com sua esquadra. Entretanto, tendo
Lúculo o intimado a ceder o lugar a Sila, e deixar-lhe o comando desta guerra,
da qual fora encarregado por um decreto do povo, Brúcio deixou incontinenti a
Beócia, e retirou-se para junto de Sêncio, não obstante ter alcançado nesta
expedição um êxito que ultrapassara todas as esperanças, e o fato de a Grécia,
devido à estima em que tinha o seu valor, estar muito disposta a colocar-se do
lado dos romanos. Os feitos que aqui narramos são, aliás, os maiores que se
conhecem de Brúcio.

XXVI, À chegada de Sila à Grécia, todas as cidades enviaram
embaixadores ao seu encontro, solicitando a sua presença, com exceção de Atenas
que, forçada pelo tirano Aristião a servir os interesses do rei Mitrídates,
quis resistir, Sila marchou incontinenti contra ela, com todas as suas forças,
assediou  o   Pireu, e,   utilizando   a   totalidade   das máquinas de guerra
de que dispunha, atacou-a com ímpeto. Se êle tivesse tido paciência para
esperar mais algum tempo, ter-se-ia tornado senhor sem perigo da cidade alta, a
qual, devido à falta de víveres, fora reduzida à última extremidade; todavia,
ansioso por regressar a Roma, onde receava novidades, mais dia menos dia, foi
levado a enfrentar grandes perigos, numerosos combates e a arcar com despesas
de vulto, para terminar rapidamente a guerra. Sem contar o seu equipamento
ordinário, êle tinha, para o serviço das baterias, dez mil parelhas de mulos,
que trabalhavam todos os dias, sem interrupção; e como começou a faltar
madeira, porque suas máquinas a consumiam grandemente, seja por se quebrarem devido
ao peso excessivo, seja por serem destruídas pelo fogo lançado continuamente
pelo inimigo, êle desrespeitou os bosques sagrados e mandou cortar as árvores
dos parques do Liceu e da Academia, que, pela beleza de suas alamedas, eram o
ornamento dos arrabaldes de Atenas. Finalmente, para fazer frente a todas as
despesas da guerra, não poupou nem mesmo os tesouros dos templos, e mandou
retirar de Epidauro e Olímpia as jóias mais ricas e preciosas que ali se
achavam.

XXVII, Sila
escreveu ao conselho dos anfictiões, que se reunia na cidade de Delfos, aconselhando-o
a lhe enviar os tesouros existentes no templo de Apoio, os quais estariam mais
seguros em suas mãos; e, no caso de ser obrigado a deles se servir, afirmou, devolver-lhe-ia o seu valor depois da guerra.
Enviou àquela cidade um de seus amigos, Cafis, o Fócio, com a ordem de pesar
tudo aquilo de que se apoderasse. Cafis, chegado a Delfcs, não ousou
tocar nas coisas sagradas; e, instado pelos anfíctiões a respeitá-las,
deplorou, vertendo lágrimas abundantes, a sua situação, pois era obrigado a
praticar um ato contra sua vontade. E corao alguns dos presentes disseram que
ouviam no interior do templo o som da lira de Apoio, Cafis, seja que
acreditasse realmente no que lhe diziam, seja porque quisesse incutir no
espírito de Sila um temor religioso, escreveu-lhe uma carta, advertindo-o. Sila
zombou dele em sua resposta, e manifestou-lhe a sua surpresa por não ter
compreendido que o canto e o som da lira eram sinais de alegria e não de
cólera. É uma prova, acrescentou, que o deus vê com prazer a remoção dessas
riquezas, e de que deseja mesmo oferecê-las como presente; deste modo, tudo
poderá ser retirado sem qualquer receio. Teve-se o cuidado de ocultar do povo
a retirada destas riquezas; no entanto, o mesmo não pôde ser feito em
relação ao tonel de prata maciça; que restava das oferendas dos reis, pois que
não pôde ser transportado em nenhum carro, em virtude de seu tamanho e de seu
peso; assim, os anfíctiões foram obrigados a reduzi-lo a pedaços, o que não
pôde ser mantido em segredo. Este sacrilégio
fêz os gregos se lembrarem dos antigos capitães romanos, como Tito Flamínino,
Mânio Acílio e Paulo Emílio, dos quais o
primeiro, depois de expulsar Antíoco da Grécia, e os dois outros, depois de
derrotarem os reis da Macedônia, não se contentando em respeitar os templos,
enriqueceram-nos com donativos, e demonstraram para com esses lugares sagrados
a maior veneração.

XXVIII,        Mas
estes grandes homens tinham sido legitimamente escolhidos para os seus postos,
e comandavam tropas disciplinadas que obedeciam em silêncio às ordens
recebidas; eram simples particulares pela modéstia de seu modo de vida e
verdadeiros reis pela elevação de seus sentimentos. Assim é que não faziam
consigo senão as despesas necessárias, evitando todo o supérfluo, persuadidos
de que é mais vergonhoso para um general adular seus soldados do que temer o
inimigo. Ao contrário, os generais da época de Sila, desejos os de ocupar o
primeiro lugar nos negócios públicos, não pela virtude, mas pela força, e mais
preocupados em guerrear uns aos outros do que combater os inimigos do exterior,
eram obrigados a agradar ao-s soldados e a garantir os seus serviços através
de liberalidades e despesas excessivas. Assim agindo, não viam que tornavam
servo o seu próprio país, e que se transformavam em escravos dos piores homens
do mundo, ao procurarem por todos os meios dominar aqueles que valiam mais do
que eles.

XXIX.        Foi
assim que Mário foi expulso de Roma, para voltar-se depois contra Sila; foi
assim que Cina  foi levado a matar Otávio e  Fímbria a eliminar Placo, Sila
contribuiu mais do que qualquer outra pessoa para estes males e desordens: a
fim de corromper e atrair os soldados do lado contrário, êle cumulava os seus
de liberalidades e dádivas sem limites. Assim, para provocar a traição de uns e
satisfazer a intemperança de outros, necessitava de somas imensas, necessidades
que se fez sentir principalmente para completar o cerco de Atenas. Êle nutria
o mais violento dos desejos de apoderar-se dessa cidade, e obstinava-se no seu
propósito, seja pela vaidade de combater contra a antiga reputação do que ela
não conservava senão a sombra, seja para vingar-se das injúrias e das zombarias
mordazes, das palavras picantes e obscenas que o tirano Aristião lançava todos
os dias do alto das muralhas contra êle ou contra sua mulher Metela, o que o
ofendia seriamente.

XXX. A alma deste tirano era constituída de depravação e crueldade, tendo reunido em sua pessoa
as imperfeições e os vícios mais detestáveis do rei Mitrídates. E a cidade de
Atenas, depois de haver escapado de tantas guerras, de tantas tiranias e
sedi-ções, viu-se reduzida por Aristião, como por um flagelo devastador, à mais
lamentável situação. Enquanto que o medimno (1) de trigo era ali vendido por
mil dracmas, que os habitantes não tinham outro alimento senão as ervas que
cresciam em volta da

(1)    Medida para
secos, no sistema ático, criada por Sólon, e que valeria, aproximadamente, 53
litros.    (N. do T.).

cidade, o couro das sandálias e dos vasos destinados a
guardar o óleo, que punham nágua para cozer, Aris-tião, entregue à devassidão e
aos festins, passava os dias e as noites a dançar, a rir, a zombar dos
inimigos. Viu com indiferença a lâmpada sagrada de Minerva extinguir-se por
falta de óleo; e quando a grande sacerdotisa lhe pediu um quarto de alqueire de
trigo, êle lhe enviou um de pimenta. No dia em que os senadores e os sacerdotes
foram suplicar-lhe que tivesse piedade da cidade, e que propusesse a Sila uma
capitulação, êle mandou afastá-los a dardadas, Não foi senão no último extremo
que se resolveu, com muita pena, a mandar fazer propostas de paz a Sila, por
intermédio de dois ou três companheiros de libertinagem, os quais, em vez de
falar na salvação da cidade, não fizeram em seus discursos senão elogiar Teseu
e Eumolo, e enaltecer os feitos dos atenienses contra os medos. "Grandes
oradores, disse-lhes Sila, voltai à vossa cidade com os vossos belos
discursos. Os romanos não me mandaram a Atenas para receber lições de
eloqüência, mas para castigar rebeldes".

Deixe um comentário

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.