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XXXI
Entrementes, espiões de Sila, tendo
ouvido queixas de velhos que palestravam no bairro denominado Cerâmico, os
quais diziam que o tirano não cuidava de guardar a parte da muralha que dava
para o quarteirão de Heptacalco, o único ponto que o inimigo podia escalar com
facilidade, foram incontinenti avisar o general.    Este, aproveitando-se da informação,
dirigiu-se àquele ponto na noite desse mesmo dia, e verificando que podia ser
conquistado facilmente, passou logo à ação, preparando o ataque. Êle próprio
escreveu, em seus Comentários, que o primeiro a subir na muralha
foi Marco Teío (1), o qual desferiu no capacete de um soldado que pretendeu
enfrentá-lo um golpe tão violento que sua espada partiu em pedaços; e êle, não
obstante ficar desarmado, não recuou, mantendo-se firme no lugar a que subira.
A cidade foi tomada por esse ponto, tal como os velhos o tinham previsto. Sila
mandou derribar a muralha que se erguia entre a Porta Sagrada e a do Pireu, e,
depois de todo esse espaço ter sido aplainado, entrou em Atenas à meia-noite,
no meio de um grupo amedrontador, ao som de clarins e trombetas, e entre os
gritos furiosos de todo o exército, ao qual dera inteira liberdade para pilhar
e degolar. Os soldados, tendo se espalhado, com as espadas na mão, por todas as
ruas da cidade, entregaram-se à mais horrível carnificina. Até hoje não se
conhece o número dos que foram massacrados. Para dar uma idéia do que foram as
proporções da matança, costuma-se mostrar o lugar até onde escorreu sangue:
sem falar naqueles que foram mortos em cutros pontos da cidade, somente o
sangue dos que foram trucidados na praça principal banhou todo o bairro do
Cerâmico, até o lugar denominado Dípilo (2).
Vários historiadores afirmam mesmo que êle transbordou, espraiando-se pelos
subúrbios, após atravessar as portas. Mas além do grande número de atenienses
que foram trucidados pelo inimigo, houve outros tantos, ou talvez ainda mais
numerosos, que se mataram a si mesmos, tal a dor e o pesar que lhes causava a
certeza de que havia chegado para a sua pátria a hora da destruição final. Essa
convicção levou ao desespero as pessoas mais honestas da cidade, e fêz com que
preferissem a morte ao risco de cair nas mãos de Sila, de quem não esperavam
nenhuma manifestação de clemência ou de humanidade.

(1)    Alguns estudiosos dizem que se deveria ler
Ateio.

(2) Dípilo
era uma das portas de Atenas, a noroeste da cidade, e que dá para Colona, lugar
que Édipo tornou famoso. Picava a dez estádios de Atenas, segundo Tucídides. O
sábio Meursius pretende que se deve ler quatro estádios, tendo-se em vista um
trecho de Cícero, em suas Tusculanas. Mas Tito Lívio, assim como Tucídides,
contou mil passos da porta de Dípilo até à Academia, na extremidade da qual se
achava o comoro chamado Colona, como se pode ver nos Aticos, de Pausânias.   (V.).

 

XXXII. Entretanto, cedendo
aos rogos de Mídias e Califonte, dois banidos de Atenas, que se lançaram
aos/seus pés, e diante das instâncias de vários senadores romanos que serviam
em seu exército, os quais intercederam em favor da cidade, e sem dúvida também
por já se achar saciado, em sua sede de vingança, êle fêz o elogio dos antigos
atenienses, declarou que perdoava a maioria em atenção à minoria e que
concedia aos mortos a graça dos vivos. Segundo êle próprio conta em seus Comentários, ocupou Atenas no dia das calendas de março (1), que coincide
precisamente com o primeiro dia do mês que denominanos antestérion. Nesta data,
por acaso, realizavam-se em Atenas várias cerimônias sagradas em memória do
dilúvio, que, no mesmo mês do ano, havia submergido a terra, num cataclismo
universal.

 (1)    No ano 668 de Roma.

 

XXXIII Quando o tirano Aristião viu Atenas em poder do
inimigo, refugiou-se na cidadela, onde foi cercado por Curião, por ordem de
Sila, Resistiu durante muito tempo, mas, tendo sido privado de água,
rendeu-se, vencido pela sede. A mão divina fêz-se sentir nessa ocasião de uma
maneira evidente; pois, precisamente no momento em que Curião tirava o tirano da cidadela, o céu, antes sereno, cobriu-se repentinamente de
nuvens, seguindo-se uma chuva tão abundante que o local ficou inundado. Poucos
dias depois, Sila ocupou também o porto de Pireu. Mandou incendiar a maior
parte das fortificações, entre as quais o arsenal, que fora construído pelo
arquiteto Filo, e era uma obra admirável.

XXXIV. Entrementes, Táxiles,
um dos generais de Mitrídates, chegando da Trácia e da Mace-dônia com um
exército de cem mil infantes, dez mil cavalos   e  noventa   carros   de  
guerra   providos   de lâminas, mandou dizer a Arquelau que se aproximasse
dele. Este continuava no porto de Muníquia, não ousando afastar-se do mar; e
como não se atrevesse a medir forças com os romanos, procurava prolongar a
guerra e privar o inimigo de todos os meios de obter víveres. Sila, que
conhecia melhor do que êle o perigo representado pela sua posição, deixou as
terras pobres da Ática, que não poderiam sustentá-lo nem mesmo em tempos de
paz, e seguiu para a Beócia. A maior parte de seus oficiais manifestou a
opinião de que êle cometia um grande erro ao deixar uma região montanhosa, de
difícil acesso aos cavaleiros, para ir lançar-se nas planícies descobertas da
Beócia, quando sabia perfeitamente que a força dos bárbaros consistia sobretudo
na cavalaria e nos carros armados, Mas, como já dissemos, o medo da escassez de
víveres e da fome, levava-o a correr o risco de uma batalha. Êle receava, por
outro lado, pela sorte de Hortênsio, oficial corajoso e atilado, que lhe trazia
da Tessália um considerável reforço, e que era esperado pelos bárbaros junto
ao desfiladeiro das Termópilas. Estes foram os motivos que obrigaram Sila a
seguir para a Beócia. Mas Cafis, que era filho do país, ludibriou os bárbaros;
e, fazendo com que Hortênsio tomasse outro caminho, conduziu-o através do monte
Parnaso, e elevou-o até um ponto situado abaixo de Titora, que não era então a
importante cidade de hoje, mas um simples forte, erguido sobre uma rocha
escarpada, e isolado de todos os lados. Foi nesse forte que os fócios,
perseguidos por Xerxes, refugiaram-se ou-trora, permanecendo em segurança. Hortênsio, após acampar perto dessa fortaleza, repeliu o inimigo durante o dia; e,
quando chegcu a noite, desceu por caminhos difíceis até Patronides, onde se
encontrou com Síla, que avançara com todas as suas  forças.

XXXV. Após reunirem suas
tropas, eles acamparam no meio da planície de Elatéia, sobre uma colina
fértil, coberta de árvores e banhada por um regato. Esta colina chamava-se
Fílobecto, e sua situação, bem como a natureza de seu terreno, foram objeto de
grandes elogios por parte de Sila. Depois de acampados, foi fácil ao inimigo
verificar quão reduzido era o seu número, pois não dispunham senão de mil e
quinhentos cavaleiros e de menos de quinze mil infantes. Diante disso, os
oficiais do exército inimigo, contrariando Arquelau, colocaram suas tropas em
ordem de batalha, e encheram a planície com seus cavalos, carros e escudos. O
ar parecia não bastar para o barulho e os gritos confusos de tantas nações
diversas, cada uma das quais ocupava o seu lugar. A magnificência e o luxo de
seus equipamentos contribuíam para aumentar o espanto dos romanos, não sendo
assim inúteis ou supérfluos. O brilho cintilante de suas armas ornadas com ouro
e prata, a,s cores refulgentes de suas cotas de armas medas e cíticas, tudo
isto misturado com o esplendor do aço e do bronze, fazia, em todos os seus
movimentos e em
todos os seus passos, rebrilhar um fogo semelhante ao dos relâmpagos,
constituindo um espetáculo aterrador. Os romanos, amedrontados, não ousavam
sair das trincheiras de seu acampamento. Sila, cujas palavras não conseguiam
dissipar este medo, e que não podia forçar os soldados a combater nesse estado
de desencorajamento, era constrangido a permanecer inativo, e a suportar, não
sem uma viva impaciência, as bravatas e os risos insultantes dos bárbaros. No
entanto, foi isto que lhe valeu: com efeito, o inimigo, cheio de desprezo pelos
romanos, não observou mais qualquer ordem ou disciplina. A multidão de seus
chefes tornou-se para eles uma causa de insubordinação; nas trincheiras não
permanecia senão um pequeno número de soldados; os outros, atraídos pelas
promessas da pilhagem e da presa de guerra, afastavam-se do acampamento,
caminhando dias seguidos. Diz-se que nessas incursões, eles destruíram Panope;
e que, sem terem recebido ordem de qualquer dos seus generais, saquearam
Lebadia, pilhando seu templo e profanando o oráculo.

XXXVI.
Sila, que fremia de indignação ao ver
tantas cidades serem destruídas e saqueadas, não quis que suas tropas
permanecessem inativas. E, para dar-lhes ocupação, obrigou-as a desviar o curso
do Cefiso, e a abrir extensas trincheiras. Não isentava ninguém do trabalho,
encarregando-se êle próprio da fiscalização, e castigava com extrema severidade
aqueles que esmoreciam, a fim de que os soldados, vencidos pela fadiga,
preferissem a estes trabalhes penosos os perigos do combate, Este expediente
deu bons resultados. Os soldados estavam no terceiro dia do estafante trabalho,
quando, aproveitando-se da presença de Sila, que fora inspecionar as obras,
pediram-lhe todos, em altos brados, que os conduzisse até o inimigo. Êle
respondeu-lhes que esse pedido era motivado menos pelo desejo de combater do
que pelo seu desamor ao trabalho. "Todavia, se é verdade que estais com
tanta vontade de combater, dirigi-vos com todas as vossas armas àquele
lugar", E mostrou-lhes o sítio onde outrora se erguia a cidadela dos
parapotamianos (1), que, depois de haver sido arruinada a cidade, não era senão
uma colina escarpada, cheia de rochedos, separada do monte.Edilião pelo rio
Asso, Este rio, logo ao sopé da montanha, lança-se no Cefiso, cujas águas,
tornando-se mais rápidas, tornavam o local muito seguro e apropriado para um
acampamento. Sila, que viu os soldados inimigos portadores de escudos de cobre
se porem em movimento para ocupar aquele lugar, quis evitar tal coisa e
procurou dele apoderar-se antes, o que conseguiu graças ao ardor e à dedicação
de suas tropas. Arquelau, após o seu malogro, marchou contra Queronéia. Alguns
moradores dessa cidade, que serviam no exército de Sila,  tinham-lhe pedido 
que não a  abandonasse,  e êle para ali enviou um de seus oficiais, Gabínio, com
uma legião. Em companhia deste fêz seguir os moradores de Queronéia, os quais,
embora fosse grande o seu desejo de chegar antes de Gabínio, não conseguiram
passar-lhe à frente. Com efeito, o oficial demonstrou, para salvar a cidade,
maior ardor e zelo do que aqueles que tanto ansiavam por serem salvos. Juba
chama esse oficial de Hírcio, e não Gabínio, Seja como fôr, foi deste
modo que a nossa cidade foi preservada de tão grande perigo.

(1)    Cidade situada na fronteira entre a Beócia e a
Fócida;

 

XXXVII.
Entrementes, os romanos recebiam
diariamente de Lebadia e da caverna de Trofônio notícias favoráveis, bem como oráculos e profecias anunciando-lhes a vitória. Os moradores do lugar narram ainda
hoje muitas dessas predições. Todavia, Sila, no Livro X de seus
Comentários, diz somente que, após ter ganho a batalha de Queronéia,
Quinto Tito, um dos comerciantes mais importantes da Grécia, procurou-o e
anunciou-lhe que Trofônio lhe predissera dentro de poucos dias, e no mesmo
lugar, uma segunda batalha e uma segunda vitória. Acrescenta que um soldado
legionário, chamado Salvênio, procurou-o igualmente para anunciar-lhe, da parte
dos deuses, o êxito que teriam as suas ações na Itália. Ambos asseguravam que
não repetiam senão aquilo que tinham ouvido de fonte divina, acrescentando que
haviam visto uma figura, que pela sua majestade, tamanho e beleza, parecia-se
com Júpiter Olímpico.

XXXVIII.         Sila, deste modo, depois de atravessar o rio Asso, avançou até o monte
Edílio, e acampou perto de Arquelau, que tinha estabelecido e fortificado seu
acampamento entre essa montanha e a de Acôncio, perto da cidade dos assianos. O
lugar onde acampou tem hoje o nome de Arquelau. Sila ali permaneceu um
dia inteiro; em seguida, deixando no acampamento Murena, com uma legião e duas
coortes, para perseguir o inimigo, em cujas fileiras remava a desordem, foi
oferecer um sacrifício às margens do Cefiso, de onde seguiu depois para Queronéia,
para pôr-se à frente das tropas que ali havia deixado, e, ao mesmo tempo para
proceder a um reconhecimento num lugar denominado Túrio, que tinha sido ocupado
anteriormente pelo inimigo. Tratava-se do alto de uma montanha muito escarpada,
e que terminava em ponta, como uma pinha. Damos-lhe o nome de Ortópago. Ao sopé
da montanha corria um riacho denominado Mórío (1), à margem do qual fica o
templo de Apoio Turiano, cognome que este deus recebeu de Turo, mãe de Queronte,
o fundador de Queronéia. Dizem que a novilha dada por Apoio Pítico a Cadmo
apresentou-se a êle nesse lugar, o qual recebeu o nome de Túrio, pois os
fenícios dão à novilha o nome de Thor

 

(1)   
Um pouco mais adiante se chama Molo.

.

XXXIX.            Sila aproximava-se de Queronéia quando  o  oficial   que  enviara  para 
defender  essa cidade
veio ao seu encontro, à frente das tropas, tendo na mão uma coroa de louro.
Sila recebeu-a, e dirigiu depois uma saudação aos soldados, exortando-os a se
mostrarem corajosos no perigo a que se iam expor. Enquanto falava, dois
moradores de Queronéia, chamados Homolcico e Anaxidamo, dirigiram-se a êle e
ofereceram-se para expulsar o inimigo de Túrio, para o que necessitavam de
apenas um pequeno número de soldados; disseram que havia um caminho não
conhecido dos bárbaros, o qual, de um lugar denominado Petroco, levava, ao
longo do templo das Musas, ao cume do Túrio, num ponte situado acima da posição
ocupada pelo adver-* sário; acrescentaram que dali seria fácil atacá-lo com
pedras, ou então forçá-lo a descer para a planície. Tendo Gabínio-
testemunhado a fidelidade e a coragem destes dois homens, Sila disse-lhes que
executassem o seu plano; e, ao mesmo tempo, dispôs sua infantaria em ordem de
batalha, colocou a cavalaria nas duas alas, conservando a direita para si e confiando
a esquerda a Murena, Galba e Hortênsio, seus lugar-tenentes, colados na última
fileira, com seu corpo de reserva, ocuparam as alturas, a fim de impedir que o
inimigo tentasse, pela retaguarda, envolver os romanos. Com efeito, êle já começava
a desdobrar a sua cavalaria e suas forças ligeiras, nas alas, para recuar em
seguida, e poder, dando uma grande volta, cercar os oponentes.

 

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