mapa roma itália

Continued from:

L, Diante dessa promessa, Sila consentiu em que êle
partisse. Enquanto esperava pelo seu regresso, penetrou com suas forças na
Médica (1), e, após pilhar o país, voltou à Macedônia, onde Arquelau, indo ao
seu encontro, com êle se avistou na cidade de Fílipos, anunciando-lhe que tudo
ia bem. Acrescentou, contudo, que Mitrídates insistia em ter uma entrevista com
êle. O que o fazia desejar com tal urgência essa entrevista era a aproximação
de Fímbria que, depois de haver morto o cônsul Flaco, um dos chefes da facção
contrária a Sila, e derrotado alguns dos generais do Ponto, avançava contra o
próprio rei, que, temendo este novo ataque, preferiu ligar-se ao general
romano. Eles se encontraram em Dardânia, na região de Troada. Mitrídates
levou consigo duzentos navios, vinte mil infantes, seis mil cavaleiros e um
grande número de carros armados de lâminas. Sila levou apenas quatro coortes e
duzentos cavaleiros.

(1)   Não se trata da
Média, vasta região da Ásia; mas de um território da Trácia oriental.

 

LI
Mitrídates encaminhou-se na direção
de Sila, e estendeu-lhe a mão; mas Sila, antes de tudo, perguntou-lhe se êle
concordava em terminar a guerra mediante as condições negociadas por Arquelau.   
O rei permaneceu em silêncio.     "Mitrídates, acrescentou Sila, ignora
que aqueles que têm pedidos a enunciar devem falar em primeiro lugar, e
que os vencedores não têm outra coisa a fazer senão ouvir em silêncio?"
Mitrídates, então iniciou uma longa justificação de seus atos, e procurou
atribuir as causas da guerra em parte aos deuses, em parte aos romanos.
Todavia, Sila, interrompendo-o, disse: "Já tinha ouvido falar que
Mitrídates era um príncipe muito eloqüente, e o verifico agora, pessoalmente,
ao ver com que facilidade êle disfarça, com palavras especiosas, os atos mais
cruéis e injustos". Em seguida, censurou com acrimônia todas as suas
perfídias, e, forçando-o a concordar com tais censuras, perguntou-lhe de novo
se aceitava as condições negociadas por Arquelau. Mitrídates respondeu que as
ratificava e, Sila, então, respondeu ao seu cumprimento, abraçando-o e
beijando-o. Logo depois, mandou chamar os reis Nicomedes e Ariobarzane,
re-conciliando-se com êle (1). Mitrídates, após entregar as setenta galeras,
com os quinhentos homens de tração, velejou para o Ponto. Sila percebeu que
seus soldados não haviam ficado satisfeitos com esta paz e que não viam, sem
indignação, um rei, o mais mortal inimigo de Roma, o qual, num só dia, tinha
feito degolar cento e cinqüenta mil romanos (2), em diversos pontos da Ásia,
retornar tranqüilamente a seus Estados, com todas as riquezas e despojos da
região que havia pilhado e sobrecarregado com tributos durante quatro longos
anos. Mas êle se justificava junto a seus soldados, dizendo-lhes que, se
Fímbria e Mitrídates se tivessem unido contra êle, não teria podido opor-lhes
resistência.

 

(1)     No ano 670 de Roma.

(2)     No ano 666 de Roma.

 

LII.
Do local da entrevista Sila marchou
contra Fímbria, que estava acampado junto às muralhas de Tiatira (1). Estabeleceu
seu acampamento nas imediações, e mandou que se cavassem trincheiras. Os
soldados de Fímbria, vendo os de Sila, saem de seu campo, vestidos apenas de
túnica, e vão abraçá-los e ajudá-los com ardor em seu trabalho. Fímbria, vendo
a mutação que se operara no ânimo de seus comandados, e não esperando nenhuma
transigência ou mercê da parte de Sila, matou-se em seu acampamento. Sila impôs
sobre toda a Ásia uma contribuição comum de vinte mil talentos; e, além disso,
mortificou os particulares, entregando suas casas à insolência dos soldados,
que nelas viviam à vontade. Ordenou que cada particular pagasse, por dia, aos
seus hóspedes, quatro tetradracmas, e fornecessem ainda uma ceia para os
soldados e os amigos que o acompanhassem. Determinou igualmente o pagamento,
a  cada oficial,  de cinqüenta
dracmas, por dia, além do fornecimento de um traje de usar em casa e outro de
sair.

(1)   Tiatira,  cidade
da  Lídia,  ao norte de Sardes, no caminho de Pérgamo   Era uma colônia dos
macedônios.   Tivera anteriormente os nomes de Pelópia e Evipe.

 

LIII Tomadas essas medidas, Síla partiu da cidade de Éfeso
com toda a sua esquadra, chegando três dias. depois ao porto de Pireu, onde,
após iniciar-se nos Mistérios, apossou-se da biblioteca de Apelicão de Téios,
na qual figuravam a maior parte das obras de Aristóteles e de Teofrasto, que
não eram ainda muito divulgadas. Afirma-se que, tendo sido levada para Roma
essa biblioteca, o gramático Tiranião (1) arranjou meios de subtrair grande parte
das obras, e que Andrônico de Rodes, a quem êle cientificou da existência dos
manuscritos, publicou-os, acrescentando-lhes os sumários que neles vemos agora.
Os antigos discípulos do Liceu, gente de espírito e de saber, conheciam muito
pouco os tratados de Aristóteles e de Teofrasto; e as cópias então existentes
não eram corretas, e isto porque a herança de Neleu de Cépsio, a quem Teofrasto
deixara por testamento todas as suas obras, foi ter às mãos de ignorantes, que
delas não fizeram nenhum caso.

(1)   Vide as Observações.

 

LIV, Sila, durante a sua estada em Atenas, foi acometido de
uma dor nos pés, acompanhada de uma sensação de peso e entorpecimento, o que
Es-trabão disse ser o balbuciar da gota, ou seja, a sua primeira
manifestação.    Êle se fêz transportar por mar para
Edepsa, a fim de tomar banhos quentes. Passou ali dias inteiros na companhia de
atores e músicos. Um dia em que passeava à beira-mar, pescadores ofereceram-lhe
belos peixes. Satisfeito com o presente, perguntou-lhes de onde eram. "Da
cidade de Ales", responderam. "Que me dizeís, exclamou Sila, ainda
resta gente de Ales?" É que, após a vitória de Orcomene, ao perseguir o
inimigo, êle havia destruído três cidades da Beócia: Ante-dão, Larimna e Ales.
Os pescadores, atemorizados, permaneceram calados. Sila, todavia, disse-lhes,
sorrindo, que nada receassem, e que se fossem sem qualquer preocupação.
"Trouxestes, acrescentou, intercessores poderosos, que não merecem ser desprezados".

LV. Após ouvirem estas palavras, os moradores de Ales
recuperaram a coragem e voltaram para a sua cidade. E Sila, depois de
atravessar a Macedônia e a Tessália, desceu para o mar a fim de embarcar em
Dirráquio (1), e seguir de lá para Brundúsio, com uma esquadra de mil e
duzentas velas. Perto de Dirráquio fica a cidade de Apolô-nia, em cujas
redondezas existe um lugar sagrado chamado Ninféia (2), onde, do meio de um
vale coberto por belas campinas, brotam fontes de fogo, que jorram
continuamente. Foi ali, conta-se, que um sátiro adormecido foi surpreendido,
tal como os pintores e os escultores o representam. Foi conduzido à presença de
Sila e interrogado’ por diversos intérpretes, que lhe perguntaram o nome; mas
êle nada respondeu de articulado ou inteligível; sua voz não era senão um grito
rude e selvagem, um misto do relinchar do cavalo e do berrar do bode. Sila, tomado
de pavor, ordenou que o afastassem de sua presença, como se tratasse de uma
coisa monstruosa.

LVI. Quando Sila estava para embarcar suas tropas, a
fim de atravessar o mar, pareceu recear que os soldados, uma vez chegados à
Itália, desejassem debandar e retirar-se cada um para a sua cidade; mas todos
os combatentes lhe juraram, espontaneamente, que permaneceriam nas fileiras, e
que não praticariam qualquer violência em seu país. Em seguida, sabendo que
Sila necessitava de muito dinheiro, eles contribuíram", cada qual de
acordo com suas possibilidades, e levaram-lhe a soma assim reunida. Sila não
quis receber tal contribuição; e, depois de louvar a boa vontade dos soldados,
e de encorajá-los, atravessou o mar, para marchar contra quinze chefes de
facções, todos seus inimigos, e que tinham sob suas ordens quatrocentos e
cinqüenta coortes, como contou em seus Comentários. Mas os deuses lhe proporcionaram os presságios mais seguros do
êxito que lhe destinavam. Após chegar a Tarento, êle fêz um sacrifício,
no qual o fígado da vítima pareceu ter a forma de uma coroa de louros, da qual
pendiam duas bandeirolas. Pouco antes de seu embarque, foram vistos, em pleno
dia, perto do monte Efeão, na Campânia, dois bodes enormes, em luta, fazendo os
mesmos movimentos que fazem dois homens que combatem; mas não era coisa real, e
sim uma visão que, erguendo-se, aos poucos, da terra, ganhou altura, e, como os
espectros tenebrosos, que, às vezes, aparecem, desfez-se no ar, desaparecendo.
Pouco tempo depois, o jovem Mário e o cônsul Norbano conduziram até esse mesmo
local dois poderosos exércitos; e Sila, sem dispor de tempo para colocar suas
tropas em ordem de batalha e designar-lhes as posições, e valendo-se apenas do
ardor e da audácia de seus soldados, derrotou aqueles dois generais, pondo-os
em fuga; e depois de matar seis mil homens de Norbano, obrigou-o a refugiar-se
na cidade de Cápua.

(1)    
Hoje Durazzo, na Alb ânia.

(2)     Nome próprio que significa: consagrado às ninfas. Este
fogo, segundo Dion Cássius, não crestava nem a terra, nern as árvores ou as
ervas que cresciam no local.

 

LVIL Esta vitória, segundo êle próprio disse, impediu que
seus soldados se dispersassem e se retirassem para suas cidades,
inspirando-lhes, ao mesmo tempo, o maior desprezo pelas forças inimigas, que
lhes eram, no entanto, muito superiores em número. Sila conta ainda que na cidade de Sílvio, o escravo de um cidadão chamado Pôncio,
tomado de um furor profético e divino, dirigiu-se a êle e assegurou-lhe que
vinha da parte da deusa Belona anunciar-lhe a vitória; acrescentou, entretanto,
que se êle não se apressasse o Capitólio séria incendiado.

E
isto aconteceu, com efeito, no mesmo dia em que o homem o predissera, isto é,
no dia seis do mês denominado então Quintilis, e que passou a ser
chamado depois julho.

LVIII Marco Lúculo, um dos lugar-tenentes de Sila, acampado
perto de Fidência (1) com dezesseis divisões, tinha de enfrentar cinqüenta, do
inimigo. Êle confiava na boa vontade de seus soldados; mas como a maior parte
destes não’ possuía armadura completa, hesitava em travar a batalha. E enquanto
pesava os prós e os contras, sem ousar tomar uma resolução, soprou subitamente
um vento suave que, arrastando de uma campina vizinha uma grande quantidade de
flores, levou-as até o lugar onde se achavam suas tropas; parecia que elas iam
sozinhas colocar-se sobre os escudos e os capacetes dos soldados, de maneira
que estes pareciam, aos olhos do exército inimigo, estar coroados de flores.
Encorajados por esta espécie de prodígio, caíram sobre o adversário com tal
energia que alcançaram completa vitória, matando-lhe mais de dezoito mil homens
e apoderando-se de seu acampamento. Este Lúculo era irmão do outro Lúculo que,
algum tempo depois,     venceu     Mitrídates     e     Tigranes.     Sila, que se via cercado por vários acampamentos e exércitos
numerosos, sentindo-se em situação de inferioridade, recorreu à astúcia, e
mandou fazer a Cipião, um dos cônsules, propostas de entendimento. Cipião não
recusou o convite, e teve com êJe várias conferências; mas Sila encontrava
sempre um pretexto para alongar as conversações; e, enquanto isso, procurava
corromper as tropas do cônsul por intermédio de seus próprios soldados, que,
como seu general, estavam acostumados a todas as espécies de ardis e
estratagemas. Eles penetraram no acampamento do inimigo, misturaram-se com os
combatentes, conquistando uns por meio de dinheiro, outros por meio de
promessas e outros ainda por meio de lisonjas. Finalmente, Sila, tendo se
aproximado do acampamento do adversário, com vinte coortes, os seus soldados
saudaram os de Cipião, que lhes responderam à saudação, e se juntaram a eles.
Cipião, que permaneceu sozinho em sua tenda, foi detido; porém, pouco depois,
deixaram-no partir. Sila, que se servira destas vinte coortes para atrair
quarenta em suas redes, como os passarinheiros fazem cair os pássaros em suas
armadilhas, por meio de aves domesticadas, levou-as todas para seu acampamento.
Este acontecimento levou Carbão a dizer que, tendo de combater ao mesmo tempo
o leão e a raposa que moravam na alma de Sila, fora a raposa que lhe dera mais
trabalho.

 

 

(1) Hoje
Borgo de San Donino. Apiano coloca a cena deste acontecimento em Piacenza; o
que não constitui propriamente uma contradição, pois as duas cidades são
vizinhas, Fidência, com efeito, encontra-se entre Piacenza e Farma.

LIX.
Pouco tempo depois, o jovem Mário,
acampado perto de Sígnio (1), com vinte e cinco coortes, ofereceu batalha a
Sila, que estava desejoso de combater nesse dia, e isto porque havia tido um
sonho na noite anterior. Vira, sonhando, o velho Mário, morto já havia alguns
anos, dirigir-se ao filho, para adverti-lo, dizendo-lhe que tivesse cuidado com
o dia seguinte, que lhe deveria ser fatal. Ardendo de impaciência, tal o desejo
de travar o combate,, mandou chamar Dolabela, que estava acampado muito longe
dele. Mas o inimigo apoderou-se das estradas, que guarneceu com cuidado, com o
objetivo de impedir a junção das duas forças. As tropas de Sila procuraram
desalojá-lo, a fim de abrir caminho para seus camaradas. Os soldados já estavam
fatigados, tal o esforço que tiveram de desenvolver, quando caiu uma forte
chuva que lhes retirou o que restava de disposição para a luta. Os oficiais,
vendo-os nesse estado, foram procurar Sila, e, mostrando-lhe os homens vencidos
pelo cansaço e deitados no chão sobre seus escudos, pediram-lhe que adiasse a
batalha. Sila assentiu, embora com pesar.

(1)   Séstio, segundo
Apiano.   Mas as duas cidades eram vizinhas ficando ambas no Lácio.

 

Deixe um comentário

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.