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LX.
Após ter Sila dado ordem para acampar,
e quando os soldados já se achavam entregues ao trabalho de erguer paliçadas e
abrir trincheiras, Mário surge a cavalo, marchando com arrogância diante
de toda a tropa, na esperança de surpreender o inimigo em desordem e de assim
poder derrotá-lo
facilmente. Mas neste momento a fortuna veio confirmar o sonho de Sila, Seus
soldados, irritados com a bravata de Mário, e interrompendo o seu trabalho,
fincaram as lanças junto às trincheiras e, tomando as espadas, avançaram no
meio de grandes gritos contra o adversário, o qual, após ligeira resistência,
bateu em retirada, seguindo-se uma grande carnificina. Mário fugiu para a
cidade de Preneste, cujas portas encontrou fechadas; mas atiraram-lhe uma
corda do alto da muralha, a qual atou na cintura, sendo assim içado. Alguns
historiadores, entre os quais Fenestela, dizem que Mário não chegou a
participar da batalha; dominado pelo cansaço e esgotado pelas noites sem
dormir, deitara-se sob uma árvore, após ter ordenado o início do combate; e
adormecera tão profundamente que só acordara com o fragor da derrota e da fuga
dos seus soldados. Sila escreveu em seus Comentários que não perdeu
nesse encontro senão vinte e três homens, e que matou vinte mil e aprisionou
oito mil. Igualmente felizes foram seus lugar-tenentes Pompeu, Crasso,
Metelo e Servílio, os quais, quase que sem perdas, dizimaram exércitos
consideráveis do inimigo. Carbão, o principal chefe da facção adversária, fugiu à noite de seu acampamento, e velejou para a África.

LXI O último chefe inimigo que Síla teve de enfrentar foi
Telesino, o Sanita, que, corno um atleta repousado, que tivesse de lutar com um
adversário cansado de muitos combates, acreditou poder subjugá-lo e derrotá-lo
às portas de Roma, Este Telesino tinha se juntado a um lucano chamado Lampônio,
e tinha reunido um exército bastante numeroso. Marchou sem perda de tempo na
direção de Preneste a fim de libertar Mário, que ali estava cercado.
Entretanto, informado de que Sila e Pompeu avançavam rapidamente, o primeiro
para atacá-lo pela frente, e o segundo pela retaguarda; e vendo-se na iminência
de ser cercado pelos dois exércitos inimigos, agiu como um grande capitão, a
quem as situações difíceis tivessem proporcionado uma grande experiência:
levantou acampamento durante a noite com todo o seu exército, e marchou
diretamente sobre Roma, que estava sem defesa, e que teria podido conquistar no
primeiro assalto. Todavia, a dez estádios da Porta Colina, êle se deteve, e
passou a noite diante das muralhas da cidade, vangloriando-se de sua ousadia, e
arquitetando grandes pianos, cheio de esperanças após ter ludibriado tantos e
tão ilustres capitães.

LXIL
No dia seguinte, ao amanhecer, saíram
de Roma, a cavalo, numerosos jovens das melhores casas da cidade, para dar-lhe
combate. Vários deles foram mortos, entre os quais Ápio Cláudio, moço tão
notável pela coragem como pelo nascimento. Estes acontecimentos fizeram com que
o pavor e a inquietação reinassem em Roma; as mulheres corriam nas ruas
soltando altos gritos e já se viam assediadas pelo inimigo. Finalmente, viram
chegar Balbo, enviado por Sila, a toda velocidade, com setecentos cavaleiros.
Êle não parará no caminho senão o tempo necessário para que os animais tomassem
fôlego, retomando lego o galope, a fim de conter o adversário. Logo depois
apareceu também Sila, que, depois de ordenar aos soldados chegados em primeiro
lugar que tomassem uma refeição ligeira, lançou-os logo à batalha. Torquato e
Dolabela exortaram-no a não se expor a um desastre, pois as tropas estavam
extenuadas pelo cansaço; frisaram que êle não- tinha de enfrentar mais um
Carbão ou um Mário, mas os sanitas e os lucanos, os dois povos mais belicosos e
os mais encarniçados inimigos dos romanos, Sila não deu ouvidos a seus
argumentos e ordenou que as trombetas dessem o sinal para o combate, apesar de
já ser quase quatro horas da tarde. Neste combate, um dos mais rudes que foram
travados nesta guerra, a ala direita, co mandada por Crasso, alcançou a mais
completa vitória. Sila, vendo a ala esquerda em situação difícil e prestes a
recuar, correu em seu socorro, montado num cavalo branco cheio de ardor e extremamente
veloz. Dois dos adversários o reconheceram e estenderam os braços para lançar
contra êle os   seus   dardos.   Sila   nada   percebeu,   mas   seu escudeiro, que os vira, deu no cavalo uma forte chicotada,
que apressou tão a propósito o galope do animal que os dardos passaram rente à
sua cauda indo cravar-se na terra. Conta-se que Sila tinha uma pequena imagem
de ouro de Apoio, a qual havia trazido de Delfos, e que conservava sempre junto
ao peito, quando combatia. Nessa ocasião, êle a beijou afetuosamente,
dirigindo-lhe estas palavras: "Ó Apoio Pítico, depois de haverdes cumulado
de honras e de glória o feliz Cornélio Sila, em tantos combates, dos quais o
fizestes sair vitorioso, desejaríeis agora derrubá-lo, vergonhosamente, às
portas de sua pátria, fazendo-o perecer com seus concidadãos?" Após
invocar com estas palavras o auxílio de Apoio, Sila lançou-se no meio de seus
soldados, dirigindo solicitações a uns e ameaçando outros, chegando mesmo a
agarrar alguns, para arrastá-los ao combate. Mas não conseguiu evitar a
completa derrota da ala esquerda; e êle próprio foi forçado a voltar ao acampamento
pela multidão de fugitivos, depois de haver perdido vários de seus oficiais e
amigos. Um grande número de romanos, que haviam saído da cidade para assistir
ao combate, morreram esmagados sob os pés dos homens e cavalos. Já se supunha
que Roma estivesse perdida, e por pouco aqueles que mantinham Mário assediado
em Preneste não suspenderam o cerco. Com efeito, soldados que até ali foram
ter, em sua fuga, insistiram junto a Lucrécio Ofela, que dirigia o assédio,
para que se retirasse sem perda de tempo, e isto porque Sila, diziam eles, fora morto
e Roma caíra em poder do inimigo.

LXIII Entretanto, altas horas da noite, chegaram ao
acampamento de Sila correios enviados por Crasso, pedindo-lhe uma ceia, para
êle e seus soldados. Mandava-lhe dizer, ao mesmo tempo, que, depois de haver
vencido o inimigo, perseguira-o até à cidade de Antena, perto da qual acampara.
Sila, tendo sido igualmente informado de que a maior parte dos soldados
inimigos perecera, partiu no dia seguinte, ao amanhecer, para Antena. No meio
do caminho, recebeu emissários da parte de três mil adversários, os quais
mandaram dizer-lhe que se rendiam, pedindo-lhe graça ao mesmo tempo. Sila
prometeu que lhes pouparia a vida, mas com uma condição: a de causarem danos
consideráveis aos seus companheiros, antes de virem ao seu encontro. Estes três
mil homens, confiando na sua palavra, lançaram-se contra seus camaradas,
matando-se, em grande número, uns aos outros. Sila, no entanto, após reunir o
que restou destes três mil homens, e dos outros, até o total de seis mil, mandou
encerrá-los no Hipódromo, e convocou o Senado no templo de Belona. Quando
começou a falar aos senadores, soldados que haviam recebido anteriormente
ordens suas, investiram contra os seis mil prisioneiros, mas-sacrando-os. Os
gritos de tantos infelizes não podiam deixar de ser ouvidos de longe, e os
senadores não ocultaram o seu espanto, procurando saber de que se tratava, Sila,
continuando a falar com o mesmo sangue frio e sem alterar a fisionomia, disse-lhes
que prestassem atenção apenas no seu discurso e que não se preocupassem com o
que se passava fora do recinto. E acrescentou que não se tratava senão de
indivíduos maus que mandara punir.

LXIV, Estas palavras fizeram compreender aos mais estúpidos
dos romanos que eles não se tinham libertado da tirania, e que não tinham senão
trocado de tirano. Mário, no entanto, desde o começo se mostrara duro e cruel,
e, com o tempo, a sua severidade natural apenas aumentara; o poder não alterara
o fundo de seu caráter. Sila, ao contrário, fazendo uso de sua fortuna como
cidadão moderado, deu lugar à opinião de que, caso viesse a exercer a
autoridade soberana, favoreceria a nobreza, mas sem deixar de proteger o povo.
E como tivesse sido, desde a sua juventude, amante dos divertimentos e dos
gracejos, e se mostrasse sensível à piedade a ponto de derramar lágrimas com
facilidade, levou os cidadãos, com suas crueldades, a dizer, censurando-as, que
as grandes fortunas modificam os costumes e o caráter dos homens, tornando-os
orgulhosos, insolentes e cruéis. Mas será uma mudança real a que a fortuna
produz no caráter, ou não se tratará, antes, de um desenvolvimento que uma
grande autoridade dá à maldade oculta no fundo do coração? É esta uma questão a
ser examinada numa outra espécie de tratado.

LXV. Desde o momento em que Sila começou a fazer correr sangue, não pôs mais limites à sua crueldade, e encheu a
cidade de crimes que pareciam não ter mais fim. Um grande número de pessoas foi
vítima de ódios particulares; Sila, que, pessoalmente, nenhuma queixa tinha
contra essas pessoas, sacrificava-as para satisfazer os ressentimentos dos
amigos e daqueles que o rodeavam. Até que um dia, um jovem romano, chamado Caio
Me-telo, ousou perguntar-lhe, em pleno Senado, quando seria posto termo a tantos males, e até que ponto pretendia levar suas crueldades, a fim de que se
soubesse, pelo menos, que não se teria de recear novas. "Não vos pedimos,
acrescentou, que salveis aqueles que já decidistes levar à noite, mas que
tireis da incerteza aqueles que resolvestes poupar". E como Sila lhe
respondesse que ainda não sabia quais as pessoas que seriam poupadas, Metelo replicou:
"Pois bem: dizei, então, os nomes daqueles que decidistes
sacrificar". E Sila: "É o que vou fazer". Alguns historiadores
dizem que a última réplica não foi feita por Metelo, mas por um certo Aufídio,
um dos aduladores de Sila. Este, incontinenti, publicou os nomes de oitenta
cidadãos que resolvera condenar a morte sem entender-se com qualquer
magistrado. Como viu que a indignação era geral, deixou passar um dia,
publicando depois uma segunda lista com os nomes deduzentas e vinte pessoas; no
dia seguinte publicou outra lista com igual número de nomes. Falando ao povo, disse
que havia condenado todos aqueles cujos nomes se haviam apresentado à sua
memória, acrescentando que os demais iriam sendo enumerados à medida que deles
se recordasse.

LXVI. Todos aqueles que recebiam em suas casas um condenado,
para tentar salvá-lo, eram incluídos nas listas fatais, sendo assim punido com
a morte o seu ato de humanidade; e não se excetuavam aqueles que tivessem dado
abrigo aos pais, filhos ou irmãos. Chegou mesmo a pagar dois talentos pelo
assassínio de um condenado, fosse um esrravo que matasse seu senhor, fosse um filho
que eliminasse seu pai. Mas o que foi considerado o cúmulo da injustiça foi o
ter êle infamado os filhos e os netos dos condenados, confiscando seus bens. As
condenações não se limitaram a Roma, esten dendo-s? a todas as cidades da
Itália. Tanto os templos dos deuses como os altares domésticos, os recintos de
hospitalidade como as casas paternais foram manchadas pelo sangue e
conspurcados pelos crimes. Os maridos eram degolados nos braços de suas
esposas, as crianças junto ao seio de suas mães; e o número de vítimas
sacrificadas à cólera não se aproximava sequer do daqueles que pereciam por
motivo de suas riquezas. Assim, os assassinos podiam dizer: "Este, foi a
sua bela casa que lhe causou a morte; aquele, os seus magníficos jardins;
aquele outro, seus banhos soberbos".   Um romano chamado Quinto Aurélio,
homem que sempre se mantivera afastado dos acontecimentos da cidade, e que não
esperava ter outra participação nos males públicos senão a consistente no dó
que sentia pelas vítimas, tendo ido à praça pública, pôs-se a ler os
nomes dos condenados, e viu o seu nas listas. "Ó, exclamou, como sou
desventurado! É a minha casa de Alba (1) que me persegue!" E, mal dera
alguns passos, foi assassinado por um homem que o seguia.

(1) Nos
arredores da antiga cidade de Alba havia numerosa.s casas de recreio, entre as
quais se tornaram particularmente famosas a de Pompeu e a de Domiciano.

 

LXVIL
Entrementes, o jovem Mário, vendo que
não podia escapar, matou-se. E Sila, tendo seguido para Preneste, fêz
primeiramente julgar e executar, um por um, os moradores da cidade, observando
de algum modo as normas da justiça; em .seguida, vendo que estas formalidades
lhe tomavam muito tempo, mandou reunir todos os restantes num mesmo lugar, num
total de doze mil, e mandou degolá-los na sua presença. Exceptuou apenas seu
hospedeiro, dizendo-lhe que decidira poupar-lhe a vida. Mas esse homem
disse-lhe, com uma admirável grandeza de alma, que jamais deveria a vida ao
carrasco de sua pátria; e, atirando-se no meio de seus compatriotas, fêz-se
matar com eles. Lúcio Catilina deu, nestes acontecimentos, um exemplo inaudito
de crueldade.    Antes de terminar a guerra civil, matou seu irmão com as próprias mãos; e quando
Sila começou as execuções, pediu-lhe que colocasse seu irmão entre os degolados
como se estivesse vivo. Sila satisfez-lhe de bom grado a vontade. Catilina,
em sinal de reconhecimento por esse serviço, foi matar um homem da facção
contrária, chamado Marco Mário, e levou sua cabeça a Sila, que estava na
ocasião sentado na praça pública; depois disso, foi lavar as mãos manchadas de
sangue no vaso de água lustrai, que estava nas proximidades, perto da porta do
templo de Apolo.

LXVIII. Depois de tantos assassínios, nenhum acontecimento
provocou maior revolta do que a decisão de Sila de nomear-se a si próprio ditador
(1), restabelecendo para êle uma dignidade que havia sido abolida em Roma havia
cento e Vinte anos. Proporcionou-se a si mesmo uma abolição geral de todo o
passado, e, quanto ao futuro, arrogou-se o direito de vida e de morte, o poder
de confiscar bens, de dividir as terras, de construir e destruir cidades, de
apoderar-se de reinos e dá-los a quem lhe aprouvesse. Vendia em leilão os bens
que confiscava; do alto de seu tribunal, presidia em pessoa a estas vendas, e
com tal insolência e despotismo, que as adjudicações que fazia pareciam ainda
mais odiosas do que a própria confiscação. Cortesãs, músicos farsantes e
libertos, os mais celerados dos homens, recebiam países inteiros, ou todas as
rendas de uma cidade.   Chegou mesmo a mandar raptar esposas aos maridos, a fim
de fazê-las casarem com outros homens, contra a sua vontade.  Como
ambicionava  a  aliança  do  grande   Pompeu,   obrigou-o   a  repudiar  sua  
mulher  para   casar-se   com Emília  (filha de Escauro e de Metela, mulher de
Sila),  e que arrebatara de Mânio Glábrio, apesar de achar-se grávida; mas ela
morreu ao dar à luz na  casa  de Pompeu.     Lucrécio Ofela,  aquele  que
havia   cercado   Mário   em   Preneste,   apresentou-se como candidato às 
funções de cônsul.     Sila mandou-lhe dizer, primeiramente, que desistisse de
sua pretensão; Lucrécio, que se via apoiado pelo povo, dirigiu-se um  dia,  apesar
da  advertência,  à  praça pública,   acompanhado   de  numerosas   pessoas  
que sustentavam sua candidatura.   Sila para ali mandou um dos centuriões que
sempre o acompanhavam, a fim de matá-lo.     E,  do alto de seu  tribunal,  no
templo de Castor e Pólux, assistiu ao assassínio.   O povo,  em  tumulto, 
agarrou  o  centurião,   e levou-o até o tribunal; Sila ordenou que se fizesse
silêncio, e declarou que fora em obediência  a ordens suas que o assassmio
havia sido cometido.    E determinou, em seguida, que deixassem o centurião
tranqüilo.

(1)   No ano 672 de Roma.

 

LXIX. A sua entrada triunfal, que se realizou nessa época,
foi uma das mais imponentes até então conhecidas, e isto devido à magnificência
e à novidade dos despojos dos reis da Ásia; mas o que constituiu o mais belo ornamento do desfile, tornando-o
um espetáculo dos mais comovedores, foi o grande número de banidos que dele
participaram. As primeiras e mais ilustres personagens de Roma acompanhavam o
carro de Sila, coroadas de flores, chamando-o de seu salvador e de seu pai, a
quem deviam a sua volta à pátria e a satisfação de rever os filhos e as
esposas. Terminado o triunfo, êle fêz, na assembléia do povo, a apologia de sua
conduta, e relembrou com maior cuidado os favores da fortuna do que suas
proezas; acabou ordenando que, no futuro, lhe dessem o cognome de Félix, ou
seja, o feliz, o bem-aventurado. Depois desse dia, êle próprio, quando escrevia
aos gregos, ou quando com eles tratava de negócios, usava o cognome de Epa frodite,
ou seja, o amado, o favorito de Vênus. Os troféus que ainda hoje se
vêem na Beócia apresentam esta inscrição: Lucius Cornelius Sylla Epaphtoditus.
Metela, sua mulher, deu à luz a dois gêmeos, um menino e uma menina; e êle
deu ao menino o nome de Fausto e à menina de Fausta, nomes que, entre os
romanos, designam tudo o que é feliz e de bom augúrio. Mas nada prova melhor
que êle tinha mais confiança em sua boa fortuna do que em suas ações, do que o
fato de, após haver mandado degolar tantos milhares de cidadãos, após haver
feito tantas modificações e introduzido tantas inovações na República,
renunciar voluntariamente à ditadura (1) e restituir ao povo o direito de
eleger os cônsules. Êle não compareceu ao comício eleitoral, permanecendo
tranqüilamente na praça pública, no meio da multidão expondo-se à investida de
qualquer pessoa que quisesse pedir-lhe contas pelos atos do passado.

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