Catilinárias de Cícero – Oração III

Catilinárias de Cícero – Oração III

ORAÇÃO III DE M. T. CÍCERO CONTRA L. CATILINA – Resumo

Os conjurados que Catilina, ao deixar a cidade, tinha deixado em Roma, articulam-se e tentam tratati vas com os embaixadores dos Alóbrogos, que por acaso se encontravam em Roma, para patrocinar a causa dos seus patrícios contra os governadores romanos. Em consequência de delações, afinal, Cícero consegue provas materiais da conjuração. Na noite do 2 de Dezembro manda prender os principais conjurados. Na manhã do dia 3, reúne o Senado e procede ao interrogatório dos presos. O Senado resolve que os imputados continuem em estado de detenção e decreta que o cônsul seja publicamente agradecido pela sua acção em defesa da pátria. Acabada a sessão do Senado, Cícero pronuncia a terceira catilinária, para informar ao povo, reunido no foro, da marcha dos acontecimentos. Diz que nunca Roma correu perigo maior do que acaba de desaparecer, sem recorrer a medidas militares, sem perturbação da cidade, unicamente por diligência dele, que soube defender a pátria ameaçada pelos conjurados. Exorta os romanos a agradecer aos deuses e a continuar na vigilância contra os maus cidadãos.

Cicero acusando Catilina no senado (Afresco de Cesare Maccari, século XIX)
Cicero acusando Catilina no senado (Afresco de Cesare Maccari, século XIX)

Exórdio.

VENDO estais, romanos, neste dia a República, a vida de todos vós, os vossos bens e interesses, as vossas mulheres e filhos, e a esta felicíssima e belís-suma benevolência dos deuses para convosco, livre do ferro e fogo, e como arrancada da garganta da morte, com meus trabalhos, resoluções e perigos. E não sendo para nós menos gostosos e ilustres os dias em que somos livres de algum perigo, que aqueles em que nascemos; por ser a alegria da conservação certa, e a condição com que nascemos duvidosa, e porque nascemos sem o sentir e nos conservamos com prazer; por certo que se a Rómulo, fundador desta cidade, colocou a nossa benevolência e aclamação no número des deuses imortais, também para convosco e vossos descendentes deve ter honra aquele que conservou esta cidade, depois de fundada e engrandecida; pois extinguimos as chamas que quase prendiam e rodeavam todos os templos, altares, casas e muros de Roma e por nós mesmos rebatemos as espadas desembainhadas contra vós, desviando seus fios de vossascabeças. Sendo tudo isto já aclarado, descoberto e manifesto por mim no Senado, expor-vos-ei agora brevemente, romanos, o modo com que o averiguei a vim claramente a compreender, para que vós que o não sabeis e esperais o possais conhecer.

Os entendimentos com os Alóbrogos.

2. Primeiramente, tanto que Catilina há poucos dias deu consigo fora desta cidade, deixando nela os sócios da sua protervia e capitães desta maldita guerra, sempre estive alerta, procurando como nos poderíamos salvar de tão enormes e solapadas traições. Porque, quando lancei fora da cidade a Catilina (pois já não temo que seja odiosa esta palavra, em tempo em que mais se deve temer o ter ele saído com vida), então que o queria exterminar, julguei que os demais conjurados sairiam com ele, ou que persistindo na cidade, com a sua falta ficariam fracos e debilitados; e tanto que vi que os mais atrevidos e insolentes eram os que estavam conosco e ficavam em Roma, consumei dias e noites em ver o que faziam e maquinavam; porque como entendi que nos vossos ouvidos acharia menos crédito a minha relação, pela incrivel exorbitância do atentado, reduzi o negócio a tais termos que cuidásseis na vossa segurança quando vísseis o mal diante dos olhos. Portanto, assim que soube que P. Lêntulo solicitara os enviados dos Alóbrogos, para acender guerra além dos Alpes e levantar tumultos na Gália; e que estes foram remetidos para seus patrícios, de caminho com cartas e avisos para Catilina; e que lhes deram por companheiro a Voltúrcio, também com cartas para Catilina; entendi se me oferecia comodidade de conhecer e manifestar ao Senado e a vós claramente todo o negócio, como sempre pedia aos deuses eternos. Por cuja causa no dia de ontem chamei à minha presença os pretores Lúcio Flaco e Caio Pontínio, tão valerosos como amantes da República, contei-lhes tudo o que se passava e lhes declarei o que me parecia se fizesse. Aceitaram eles a incumbência sem escusa nem demora alguma, como possuídos dos mais nobres e ilustres pensamentos para com a República, e sobre tarde chegaram disfarçados à ponte Mxilvia, onde se separaram um do outro para as quintas vizinhas, ficando-lhes em meio a ponte e o Tibre. Para este mesmo lugar, sem que ninguém o suspeitasse, conduziram muitos homens de valor; e também eu mandei da prefeitura de Reate muitos mancebos escolhidos com armas, dos que ordinariamente me costumo valer para segurança da Republica. Sendo já quasi três horas da noite, entrando na ponte os enviados dos Alóbrogos, e de volta com eles Vultúrcio com grande comitiva, dão os nossos sobre eles; tiram uns e outros as espadas. Só os pretores eram cientes do negócio, os mais o ignoravam.

Encontradas as cartas comprovadoras da conspiração.

3. Acudindo neste passo Pontínio e Flaco, se apaziguou a principiada peleja; todas as cartas que havia na comitiva, sem se abrirem, ficaram entregues aos pretores, e aqueles que foram presos foram trazidos a mim ao romper do dia. Imediatamente mandei chamar a Cimbro Gabínio, perversíssimo maqui-nador de todas estas maldades, que até então nada suspeitava do sucedido. E depois dele foi chamado o mesmo Lúcio Statílio, após este Cetego, e último de todos veio Lêntulo, que, fora do seu costume, entendo que tinha velado toda a noite antecedente ocupado em distribuir as cartas. Pareceu a personagens mui principais e ilustres desta corte, que com a notícia desta surpresa concorreram a mim em grande número, que melhor seria que as cartas se abrissem antes de as apresentar ao Senado, para que no caso que nada se achasse nelas não parecesse que imprudentemente levantara eu tamanho motim na cidade; mas eu repugnei a tal fazer, não querendo expor a matéria de um perigo público, senão em um congresso público. Pois ainda no caso, romanos, que se não encontrassem as coisas que me tinham denunciado, ainda assim julguei que em tamanhos perigos da República não devia recear fazer demasiada diligência. Convoquei, como vistes, um numeroso Senado. E entretanto, avisado pelos Alóbrogos, ordenei a Caio Sul pício, homem de valor, que fosse à casa de Cetego, donde ele transportou avultadíssimo número de punhais e espadas.

Os conspiradores são interrogados.

4. Fiz que entrasse Vultúrcio sem os gauleses, e lhe prometi por ordem do Senado salvo-conduto, exortando-o a que sem temor dissesse o que sabia. Recobrando ele então um pouco de medo, disse que Públio Lêntulo lhe tinha dado instruções e cartas para Catilina, para que se aproveitasse do favor dos servos, e logo marchasse para Roma com o exército; com o projecto de que, pondo fogo à cidade por toda a parte, como estava delineado e distribuído, e feita uma infinita carniceria nos cidadãos, estivesse ele pronto a embaraçar se salvassem os que fugissem, e a ajuntar-se com os seus capitães da cidade. Introduzidos os gauleses, disseram que Lêntulo, Cetego e Statílio lhes tinham dado cartas para os da sua nação e tomado juramento de fidelidade; e que tanto estes como Cássio lhes tinham ordenado que remetessem para a Itália com toda a presteza a cavalaria, pois que tropas de infantaria lhes não faltariam. E que Lêntulo lhes assegurara que, segundo os vaticínios das Sibilas e respostas dos agoureiros, ele era aquele terceiro Cornélio que forçosamente haveria de ter o governo desta cidade e Império; que Cina e Sila tinham sido os dois primeiros que lhe precederam; e que acrescentara que este ano, o décimo depois do perdão das vestais e vigésimo do incêndio do Capitólio, era o termo fatal desta cidade e Império. Disseram também houvera entre Cetego e os mais este debate: que Lêntulo e outros queriam se executasse a mortandade nos dias saturnais, e que a Cetego lhe parecera demasiada esta demora.

Os acusados confessam a traição.

5. Por abreviar, romanos, fiz que apresentassem as cartas que diziam lhes havia dado cada um dos conjurados. Primeiramente mostrei a Cetego o seu sinete, cortei o fio, ali; tinha escrito de sua mão: que ele cumpriria ao Senado e ao povo gaulês o que com seus enviados tinha ajustado; e lhes rogava executassem eles também o que seus legados lhes ordenassem. Então Cetego, que pouco antes inquirido acerca dos punhais e espadas que se lhe acharam, respondera e afirmara que sempre fora curioso de ter boa ferragem; depois de lidas as cartas, desanimado e abatido e convencido da própria consciência, de repente se calou. Introduzido Statílio, reconhecera a sua letra e sinete. Leram-se as cartas que continham quasi o mesmo; confessou. Mostrei depois a Lên-tulo as cartas, e perguntei-lhe se conhecia o sinete. Disse que sim. E lhe tornei dizendo: Bem conhecido é este sinete, por ser a imagem de teu avô, varão esclarecido, que amou cordialmente a sua pátria e cidadãos e que ainda assim mudo como está te devia coibir de semelhante desatino. Pelo mesmo modo se leram as suas cartas para o Senado e povo dos Alóbrogos. Dei-lhe faculdade de dizer o que quisesse sobre a matéria sujeita. Entrou ele primeiro a negar; passado porém algum tempo, vendo todo o enredo declarado e público, se levantou, perguntando aos gauleses que negócio tinham com ele; e semelhantemente a Vultúrcio, e respondendo estes resumidamente e com firmeza que o negócio era o para que bastantes vezes tinham sido conduzidos à sua casa; e como lhe perguntassem se não tinha com eles comunicado nada dos vaticínios das Sibilas, aturdido então com a enormidade do seu delito, deu a conhecer quanto pode o remorso da consciência; porque, po dendo-os contradizer, contra o que todos julgavam de repente se calou. Tanto como isto o desamparou não só aquele talento e eloquência que sempre teve, mas a insolência e audácia em que a ninguém cedia, por força do crime patente e manifesto. Mandou então Vultúrcio que logo se exibissem as cartas que dizia ter recebido de Lêntulo para Catilina. Aqui, pertur-bando-se Lêntulo descompassadamente, reconheceu, não obstante, o seu sinete e letra. Estavam escritas sem firma por estes termos: "Quem eu seja o poderás saber desse que te envio; cuida em portar-te como homem, considera para onde tens de caminhar, vê o que te é necessário e procura agregar o socorro de todos, ainda dos ínfimos." Foi depois introduzido Gabínio, o qual, entrando a principio a responder despropositadamente, por fim não negou nada do que os gauleses o acusavam. Quanto a mim, romanos, tanto tenho por provas certíssimas e indícios de crime as cartas, os sinetes, as notas, e enfim as confissões de cada um deles, como tenho por muito mais certo a cor, os olhos, os semblantes, o silêncio; assim pasmaram, assim pregaram os olhos no chão, assim olhavam de quando em quando uns para os outros às fur-tadelas, que já não parecia que outrem os descobria, mas eles a si próprios.

As deliberações do Senado.

6. Referidas e expostas claramente as provas, romanos, consultei o Senado sobre o que queria se fizesse neste importantíssimo negócio da República. Proferiram os principais aspérrimas e severíssimas sentenças, que sem discrepância seguiu todo o Senado. E porque ainda não está lançado em escritura o decreto, expor-vos-ei de memória o que julgou o Senado. Em primeiro lugar se me deram as graças com honorificentíssimas expressões, por ter com meu valor, conselho e prudência livrado a República de sumos perigos. Depois disto se deram os merecidos louvores a Lúcio Flaco e Caio Pontínio, pretores, por terem executados as minhas ordens com valor e fidelidade: e também ao constante varão meu colega se deu louvor de não ter admitido a seus conselhos e da República, os cúmplices da conjuração. E assim julgaram que Públio Lêntulo, sendo deposto da pretoria fosse preso; e do mesmo modo fossem levados à prisão Caio Cetego, Lúcio Statílio, Públio Gabínio, que todos estavam presentes. 0 mesmo se decretou contra Lúcio Cássio, que pedira para sí a incumbência de pôr fogo à cidade; e contra Marco Cepário, a quem se tinha declarado estar-lhe encarregada a Apúlia, para sublevar os pastores; contra Públio Fúrio, homem daquelas colônias que Sila estabeleceu em Fé-sulas; contra Quinto Ânio Chilo, que sempre andara com Fúrio nesta revolta dos Alóbrogos; contra Públio Umbreno, homem liberto de quem constava ter sido o primeiro que conduzira os gauleses a Gabínio. Deste modo, romanos, se houve o Senado com tal brandura que salva a República de tão enorme conjuração e avultado poder e número de inimigos, com o castigo de nove homens períidíssimos, entendeu se poderia mudar para bem a tenção dos mais. Também em meu nome se decretaram preces públicas aos deuses imortais, em ação de graças pelo singular favor com que me assistiram, coisa que a nenhum togado, senão a mim sucedeu desde a fundação de Roma. 0 decreto era concebido nestes termos: por ter livrado a cidade de incêndio, os cidadãos de mortandade e a Itália de guerra. Cujas preces, romanos, se as compararmos com as outras, acharemos a diferença, que aquelas foram ordenadas por alguma prosperidade da República, estas só pela ter conservado. Portanto, tudo o que principalmente se devia fazer, está feito e acabado; porque Públio Lên-tulo, ainda depois de convencido pelas provas e pela sua própria confissão, sendo por sentença do Senado degredado não só das prerrogativas de pretor, mas de cidadão, ainda assim renunciou o magistrado; de sorte que, se o Ínclito Caio Mário não violou o magistrado quando matou ao pretor Caio Gláucia, de quem o Senado nada decretara, muito menos o violamos nós castigando a Públio Lêntulo.

Muito maiores teriam sido os perigos se Catilina tivesse ficado em Roma.

7. Agora, romanos, que tendes já apanhados e presos os capitães desta iniquíssima e perigosíssima guerra, estais certos que se arruinaram todas as tropas, todas as esperanças, todas as forças de Catilina. Por certo que quando eu o lancei da cidade, era o meu projecto, romanos, que excluído Catilina, não tinha que temer nem a sonolência de Públio Lêntulo, nem a roncaria de Lúcio Cássio, nem a detestada fúria de Cetego. Aquele era o único entre todos estes que se devia temer, mas só quando estivesse dos muros a dentro da cidade; tudo sabia, com todos tinha entrada, tinha poder e ousadia, havia nele talento capaz de grandes planos, e este talento não era desacompanhado de eloquência e atividade. Para reduzir a efeito seus diversos desígnios, tinha certos sujeitos escolhidos e designados, e quando ordenava alguma coisa não a dava por feita; em tudo era presente, previsto, vigilante, ativo; nem o podia contrastar o frio, a fome ou a sede. A um homem pois (a dizer o que sinto, romanos), tão acre, tão pronto, tão atrevido, tão sagaz, tão esperto para o mal, tão diligente em distúrbios, se não o obrigasse a sair das traições caseiras para o bélico latrocínio, mal poderia impedir que viesse sobre vós tão horrível tempestade. Não havia este pôr-vos por prazo de vossas vidas os saturnais, nem anunciar à República tanto antes o dia do destroço e fatalidade; nem cair no descuido de lhe apanharem o sinete, as cartas, as testemunhas claras do delito. Tudo isto na sua ausência se tem feito de modo que jamais furto doméstico se descobriu nem provou tão claramente como esta horrenda conspiração contra a República. E se Catilina até o presente dia estivesse na cidade (posto que, enquanto esteve me opus e resisti a todos os seus desígnios), contudo, a falar singelamente, me seria preciso brigar com ele; nem com tal inimigo dentro de Roma, livraria de tamanhos perigos a República com tanta paz, sossego e silêncio.

Profecias dos agoureiros.

8. Todo este negócio, romanos, tenho conduzido de modo que parece não se ter nele executado nem disposto coisa alguma, senão por vontade e conselho dos deuses imortais; o que não só podemos conjecturar, por parecer superior à capacidade humana a direção de tão relevantes coisas, como porque nos acudiram, no presente tempo, com auxílio e socorro tão oportuno que parece quasi os podíamos ver com os olhos. Pois ainda omitindo o que se refere, de serem vistas da parte do Ocidente fogueiras de noite, e o céu ardendo em fogo, como também raios e terremotos, e tantas outras coisas que têm sucedidas neste meu consulado, que parecia predizerem os deuses imortais o que atualmente sucede, o que agora direi não se deve omitir nem deixar em silêncio. Lembrados estais como, sendo cônsules Cota e Torquato, caíram raios sobre muitas torres do Capitólio, quando os simulacros dos deuses imortais foram derribados, as estátuas dos varões antigos despedaçadas, e as tábuas de bronze das leis derretidas, e ferido também com um raio aquele que fundou esta cidade, Rómulo, que, como sabeis estava dourado no Capitólio, em figura de menino, aos peitos da loba. Em cujo tempo, concorrendo os agoureiros de toda a Toscana, disseram estarem próximas mortandades, incêndios, ruínas das leis, guerra civil e doméstica, e que se vinha aproximando o ocaso desta corte e Império, se os deuses imortais, aplacados de todo o modo possível, não desviassem com o seu poder este destino. Por cuja causa, segundo as respostas daqueles, se celebraram jogos por dez dias, não se omitindo coisa que parece conveniente para aplacar os deuses; os mesmos agoureiros mandaram que o simulacro de Júpiter se fizesse mais avultado, e colocasse em pedestal alto e se voltasse para o Oriente, ao contrário do que antes estava; e acrescentaram, dizendo, se persuadiam que, se aquele simulacro que vedes visse o nascimento do Sol, o foro e cúria, todos os projetos que clandestinamente se planejavam em prejuízo da corte e Império se patenteariam de sorte que o Senado e povo romano os veriam claríssimamente. Mandaram pois os cônsules que na dita forma se colocasse; mas tanta foi a morosidade da obra que nem os cônsules passados nem nós o colocamos antes do presente dia.

Os acontecimentos obedeceram à vontade dos deuses.

9. Nestas circunstâncias, romanos, quem haverá tão inimigo da verdade, tão inconsiderado e insensato, que negue serem todas estas coisas que vemos, e em especial esta corte, governadas pela disposição e poder dos deuses imortais? pois sendo respondido que péssimos cidadãos maquinavam mortandades, incêndios e a assolação da República, o que então a alguns parecia incrível, por ser uma tão exorbitante maldade, agora os vistes não só projectado, mas empreendido por cidadãos perversos. E porventura não se está vendo o que parece feito por ordem de Júpiter, mandar eu que o simulacro se colocasse ao mesmo tempo em que os conjurados por minha ordem foram levados ao templo da Concórdia? o qual, assim que foi colocado e voltado a vós e ao Senado, tanto o Senado como vós vistes tudo o que se ordira contra o bem comum descoberto e patenteado. Nisto se fazem eles dignos ainda de maior ódio e castigo, pois não só inteiraram queimar as vossas casas, mas os mesmos templos e altares dos deuses com funestos e sacrílegos incêndios; se a estes eu disser lhes resisti, demasiado louvor me atribuirei a mim próprio, nem merecerei que me sofram; aquele Júpiter foi quem lhes resistiu, ele salvou o Capitólio, ele estes templos, ele esta cidade, e o que a todos vos quis salvar; guiado dos deuses imortais, entrei neste projecto e demanda, e cheguei a conseguir tão importantes provas. Quanto à solicitação dos gauleses, nunca Lêníulo nem os mais inimigos domésticos confiariam coisas tão importantes, nem entregariam cartas a homens bárbaros e desconhecidos, se os deuses imortais não enfatuassem um conselho tão desenfreado e atrevido. E parece-vos que, chegando a desordenar-se uma cidade vizinha, os gauleses, que são os únicos que só podem e querem fazer guerra ao povo romano, desprezariam a esperança de um Império e coisas tamanhas, que lhe ofereciam varões patrícios, e antepor a vossa conservação às suas riquezas, se não entrasse aqui o poder divino? principalmente poden-do-nos vencer não pelejando mas calando?

Os romanos devem agradecer aos deuses.

10. Portanto, romanos, já que se determinou se dessem graças em todos os templos, celebrai estes dias com vossas mulheres e filhos; pois sendo certo que muitas vezes se têm dado aos deuses imortais os justos e devidos cultos, também é certo que mais justos nunca se deram. Fostes livres de uma morte crue-líssima e infelicíssima, e livres sem mortes, sem sangue, sem exército, sem batalha. Venceste sendo eu o vosso único capitão e general togado. Se vos lembrardes, romanos, de todas as discórdias civis que ouvistes e vistes, achareis que Lúcio Sila matou a Públio Sulpício, desterrou da pátria a Caio Mário, que a havia defendido, e a muitos homens de valor uns desterrou, outros matou. O cônsul Cneu Octávio com mão armada lançou fora de Roma a seu colega; todo este lugar se alastrou de cadáveres e nadou em sangue de cidadãos. Venceu depois Cina com Mário, e sucedeu que, assassinados os varões mais esclarecidos, se extinguiram as luzes desta corte. Vingou de* pois Sila a crueldade desta vitória, não é preciso dizer com que diminuição de cidadãos e calamidade da República. Desconcordou Marco Lépido com o pre-claríssimo Quinto Catulo; não chorou a República tanto a morte daquele como a de todos os mais. Advertindo, romanos, que aquelas discórdias não eram sobre extinguir a República, mas mudar de governo; não queriam que não a houvesse, mas ser nelas príncipes; nem a queriam abrasar, mas florescer nela. E ainda assim, não intentando nenhuma daquelas discórdias a destruição da República, foram tais que a não apaziguou alguma amigável concórdia, mas o estrago dos cidadãos. Porém nesta guerra, a mais enorme e cruel de quantas há memória, guerra tal qual nunca gente bárbara fez à sua nação, e na qual foi por Léntulo, Catilina, Cássio, Cetego posta lei que todos que se pudessem salvar da cidade fossem tratados como inimigos, me portei de sorte, romanos, que todos ficassem salvos; e entendendo os vossos inimigos que só ficariam os cidadãos que escapassem de uma infinita carnicería, e da cidade aquilo a que não pudesse escapar o fogo, eu conservei sãos e salvos a cidade e cidadãos.

Cícero pede aos romanos que lembrem o seu zelo na defesa da República.

11. Por tão relevantes serviços vos não peço outro prêmio de meu valor, nenhuma insígnias de honra, nenhum monumento de glória mais que a perpétua lembrança deste dia; nos vossos ânimos quero depositar todos os meus triunfos, todos os adornos de honra, monumentos de glória e insígnias de louvor; nada amortecido me pode deleitar, nada mudo, nada do que outros menos dignos podem conseguir. A vossa memória, romanos, perpetuará minhas ações, as vossas relações as engrandecerão, e as histórias perpetuarão e estabelecerão; e o mesmo dia que creio será eterno, se dedicará à conservação da República e memória do meu consulado; e se dirá houvera no mesmo tempo nesta cidade dois cidadãos, dos quais um puzera limites ao Império, não com os fins da terra, mas do céu, e o outro conservara salda a morada e trono deste mesmo Império.

Peroração.

12. Porém como é diferente a condição e fortuna das ações que eu obrei, e a daqueles que fizeram guerra estranhas, por ter eu de viver com aqueles mesmos que venci e subjuguei, e aqueles deixaram os inimigos mortos ou sopeados, a vós compete, romanos, cuidar em que, sendo aos outros de utilidade as suas ações, as minhas me não sejam de detrimento. Eu acautelei que as danadas e malignas tenções de homens atrevidíssimos vos não prejudicassem; a vós pertence cuidar em que a mim não me danifiquem; posto que, romanos, nenhum mal me podem eles fazer, pois tenho grande favor nos bons, que ganhei para sempre, grande reputação na República, que sem falta me defenderá, o testemunho da consciência, que se for desprezado pelos que me quiserem ofender a sí próprios se manifestarão. Também, romanos, me acho em tal valor que não só não hei-de ceder a nenhum atrevimento, mas resolutamente arcar com todos os facinorosos. E se todas as violências dos inimigos domésticos, repelidos de vós, se voltarem contra mim só, a vós toca, romanos, mostrar qual há de ser a recompensa dos que pela vossa conservação se expuseram ao ódio e a todos os perigos. Quanto a mim, que posso eu mais conseguir pela utilidade da vida, principalmente não vendo, acima das dignidades e glória com que me tendes honrado, para onde subir? Sendo particular, me haverei de sorte, romanos, que conserve e dê novo lustro ao que obrei no consulado, para que, se alguma malquerença contraí, no governo da República, só prejudique aos inimigos, e a mim me aumente a glória. Enfim, me portarei na República de modo a lembrar-me das ações que fiz, procurando mostrar procederam de virtude e não de acaso. Vós, romanos, pois já é noite, rendei veneração àquele Júpiter, guarda dessa cidade e vosso, e retirai-vos a vossas casas; e posto que já não haja perigo, contudo as defendei como na primeira noite, com guardas e vigias; e eu darei providência para que não seja preciso fazê-lo assim mais tempo, e possais viver em perpétua paz.


 

Tradução do Padre Antônio Joaquim. Fonte: Atena Editora, 1938.

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