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Roma Antiga: Pompeu – Vidas Paralelas – Plutarco



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XXI Quando voltou à cidade de Útica trouxeram-lhe cartas de Sila, que lhe ordenava arranjar todo o resto de seu exército para ficar ali somente com uma legião, esperando um outro capitão que seria enviado para o suceder no governo do país. Essa ordem irritou-o, embora nada demonstrasse e ficou picado em seu coração; mas seus soldados mostraram evidentemente que estavam descontentes e como lhes pedisse ir à frente, começaram a dizer palavras ultrajantes e injuriosas a Sila, ajuntando que não estavam deliberados, houvesse o que houvesse, a abandoná-lo e não queriam que ele confiasse em um tirano. Mas, vendo que não os podia demover, fez algumas admoestações, desceu de sua cadeira e retirou-se para sua tenda chorando, onde os soldados foram buscá-lo e o trouxeram para seu trono e consumiram uma boa parte do dia insistindo com ele para que resolvesse ficar e comandá-los e ele a lhes pedir que obedecessem a Sila e não se amotinassem, até que, vendo que não cessavam de gritar e insistir, jurou que preferia matar-se caso continuassem a forçá-lo, ainda que não pensasse jamais nisso.

(7)    Sobre a margem esquerda do rio Bagrada.

 

XXII. Foi primeiramente exposto a Sila que Pompeu se havia rebelado contra ele; ouvindo isso, disse a seus amigos: — "Estava, portanto, pelo que eu previa, predestinado que teria de combater com crianças nos dias da minha velhice." Disse isso por causa do jovem Mário que lhe havia dado muito trabalho e o havia colocado em perigo extremo. Mas, quando ficou bem informado da verdade, sentindo que todo o mundo em Roma deliberava ir à sua frente e receber com toda a honra e demonstrações de benevolência que podiam prestar-lhe, quis pessoalmente fazer ainda mais do que os outros, e saindo de casa foi ao seu encontro e abraçando-o mais afetuosamente que pôde, chamando-o Magno, que significa grande, ordenou aos assistentes que o nomeassem do mesmo jeito; todavia, há os que dizem que foi na África onde esse nome lhe foi dado, primeiramente em um clamor público de todo o seu exército, mas que foi depois confirmado e ratificado por

 

Sila. É bem verdade que foi o" último, muito tempo depois, quando o enviaram como procônsul à Espanha contra Sertório, que escreveu em suas cartas particulares e em suas ordens e cartas patentes: Pompeu Magno; porque este nome, com o qual já estava acostumado, não lhe causava mais desejo. É de direito louvar e admirar a sabedoria dos antigos romanos, os quais não recompensavam com tais títulos e nomes pelos altos feitos de armas e proezas de guerra somente, mas também pelas virtudes civis e elogiosas atuações pacíficas; pois houve dois que o povo denominou Máximos, quer dizer, muito grandes, dos quais um foi Valério (8) porque repôs em união e concórdia a plebe com o Senado, com o qual estava em discórdia e o outro era Fábio Rulo, que retirou de entre o número dos senadores, alguns personagens nascidos escravos libertos e que pela sua riqueza, por favor, aí haviam sido colocados.

XXIII. Depois disto, Pompeu pediu as honras do triunfo (9) e Sila opôs-se, alegando por suas razões, que não pretendia entrar em triunfo dentro da cidade de Roma senão aos cônsules e outros preto-res; o primeiro Cipião mesmo, tendo derrotado os cartagineses em grandes e fortes batalhas dentro da Espanha, nunca havia pedido esta honra, porque não era cônsul nem pretor, e se Pompeu se obstinasse em querer entrar triunfalmente em Roma, o qual pela falta de idade, não fazia parte ainda do Senado, isso seria causa de fazer dar a ele esta honra e a si seu poder. Eis as razões que Sila lhe alegou e lhe-deu a entender que não estava mesmo resolvido a permitir-lhe, mas que lhe resistiria e o guardaria se se obstinasse em contrário; todavia, isso. não causou medo a Pompeu, o qual lhe disse francamente que devia pensar que maior número de gente adorava o sol levante do que o sol morrendo; como se quisesse dizer, que seu crédito e sua autoridade estavam crescendo e a de Sila diminuindo. Sila não ouviu claramente o que ele disse, mas percebendo rias fisionomias e pela reserva dos presentes, que se admiravam, perguntou-lhes o que ele lhe havia respondido e quando compreendeu, encantou-se com a audácia de um rapaz tão jovem, exclamando por duas vezes, golpe sobre golpe: — "Que triunfo, que triunfo, por deus!" Por este motivo, diversos ficaram irritados e descontentes; Pompeu, segundo dizem, para lhes causar ainda maior" despeito, quis ser levado em um carro triunfal, puxado por quatro elefantes; pois trouxe diversos cativos daqueles que tinham os príncipes e reis que havia subjugado; mas, sendo a porta da cidade muito estreita, foi constrangido a se separar desses animais e contentou-se em fazer-se conduzir pelos cavalos. E como seus soldados não haviam obtido tudo o que esperavam conforme lhes haviam prometido, e intentassem causar, algum tumulto e procurai- algum .impedimento, ele disse que pouco se incomodava e que preferia toda a aparelhagem de seu triunfo do que se por a adulá-los; por esta razão houve um notável personagem chamado Servílio, um desses que mais rudemente se haviam oposto a lhe ceder o triunfo, que disse publicamente, reconhecer que Pompeu era verdadeiramente Magno, isto é, grande e digno do triunfo. E ficando então em evidência, se quisesse, teria sido facilmente recebido no número dos senadores, mas não o desejou, assim como dizem, procurando honra no que era mais estranho e mais afastado do comum; pois seria coisa grandemente maravilhosa, se tivesse sido recebido no Senado antes da idade legítima; mas para ele era uma glória ilustre, antes triunfar do que ser senador; o que ainda lhe serviu muito para ganhar sempre mais e mais as boas graças da plebe; pois era bem agradável vê-lo depois de seu triunfo manter-se na fila dos cavaleiros romanos, e ao contrário, Sila estava muito irritado ao vê-lo subir em tal glória e alcançar tão grande prestígio; todavia, tendo vergonha de o impedir, conteve-se até que, apesar dele e por sua força, Lépido foi elevado ao consulado (10), mediante a oportunidade que lhe fêz deparar em sua discussão, porque o povo foi favorável ao seu pedido e por amor dele somente, ocasião em que Sila, vendo-o voltar da eleição através da praça, seguido por muita gente  que  o  acompanhava  por honra,   não pôde se conter em lhe dizer: — "Vejo, rapazinho meu amigo, que estás muito contente por haveres vencido nesta discussão e também há razão para isto verdadeiramente; pois por teu favor o pior homem do mundo, Lépido, levantou o consulado diante de Catulo, um dos homens mais honrados de toda esta cidade; mas eu quero bem te avisar que precisas guardar-te de dormir agora e ter bem aberto o olho nos negócios, porque armaste e tornaste forte um perigoso adversário contra ti mesmo". Mas no que Sila mostrou principalmente que não desejava bem a Pompeu, foi em seu testamento, pois deixou um legado testamenteiro a todos seus outros amigos, instituindo alguns tutores e curadores de seu filho, sem fazer qualquer menção de Pompeu, o que, todavia, ele suportou muito delicadamente e muito civilmente, de maneira que Lépido e alguns outros, querendo impedir que o corpo fosse exumado dentro do campo de Marte e que seus funerais fossem feitos publicamente, fêz-lhe frente, ao contrário, para que o enterro se fizesse honrada e seguramente.

(8)    Ver as Observações.

(9)    No ano de Roma 673, A. C. 81.

(10)    O  ano de  Roma  676;   Sila morreu  nesse  mesmo  ano.

 

XXIV. Mas, logo após o falecimento de Sila, viu-se claramente o que ele havia predito: pois Lépido, querendo se atribuir autoridade e poder que conseguiu sem nada disfarçar, fortificava-se logo com armas, removendo rápido os remanescentes da parte contrária de Mário, que Sila não havia completamente extirpado nem apagado e que há muito tempo estavam às escutas, não pedindo senão alguma ocasião para se renovarem. Verdade é que seu companheiro no consulado, Catulo, que a parte melhor do Senado e do povo seguia, era considerado um homem muito de bem, moderado, sábio e reto; mas era mais apto a governar em tempos de paz do que para comandar um exército e conduzir uma guerra; dessa forma, a situação parecia reclamar Pompeu, o qual não perdia tempo em consultar de que lado se inclinaria, mas colocava-se logo junto das pessoas de bem, e tão logo foi eleito chefe das forças que levantaram para resistir a Lépido, o qual submeteu à sua obediência uma boa parte de toda a Itália e mantinha a de aquém dos montes com um exército que havia posto nas mãos de Bruto. Ora, quanto ao que estava acontecendo, Pompeu chegou facilmente ao termo; mas ficou muito tempo diante de Módena (11) frente a frente com Bruto. E, no entanto, Lépido, tendo ido até Roma e mantendo-se aí, mandou pedir um segundo consulado, assustando aos que estavam dentro da cidade com uma poderosa tropa de gente arrebanhada de todos os lados, mas este pavor foi logo amortecido por uma carta que escreveu Pompeu, contando como havia posto fim a toda esta guerra, sem desferir um só golpe, porque Bruto, seja porque traiu seu exército, ou porque seu exército o tivesse traído, ele mesmo se rendeu e se entregou a Pompeu o qual o passou às mãos de alguns soldados da cavalaria que o levaram até uma cidadezinha assentada sobre o Pó; e, um dia depois, enviou-o a Gemí-nio, que o fez morrer, pelo que Pompeu depois foi muito censurado, porque tendo escrito ao Senado, desde o começo, que Bruto se havia rendido voluntariamente, escreveu depois outras cartas que o incriminavam, depois de o haver feito morrer. Esse Bruto era pai daquele que depois matou Júlio César com a ajuda de Gássio; mas este não se portou como seu pai, nem guerreando, nem morrendo, mas sim como escrevemos por extenso era sua Vida. Lépido, portanto, sendo obrigado a abandonar a Itália, fugiu para a ilha de Sardenha, onde morreu de doença que lhe veio depois, não tanto de arrependimento pela ruína de seus negócios, como dizem, mas pela dor que sentiu ao ler uma carta que lhe caiu nas mãos, pela qual soube que sua mulher mercadejara sua honra.

(11). Grego, . Mutine, entre os rios Scultena à direita e Gabeló à esquerda, na parte da Itália denominada Gália Cispadana,  isto é,  aquém do Pó.

XXV. Ora, restava ainda Sertório, o qual era guerreiro e capitão bem diferente de Lépido e havia ocupado a Espanha, tendo os romanos suspensos em grande temor, – porque todas as forças restantes das guerras civis se haviam a juntado a seu lado e tinha já vencidovários outros- capitães; mas, naquela ocasião,; estava às, voltas com Metelo Pio, que no seu tempo havia sido um guerreiro valente, mas naquela ocasião, por causa de sua velhice, parecia enfrentar um pouco covardemente o trabalho e não abraçar com entusiasmo as lutas, do que se valia Sertório, com sua ligeireza, retirando-lhe das mãos todo o seu poder e encontrando-se em todos os golpes à sua frente, quando menos ele pensava, agindo mais como corsário do que como militar e o perturbava com emboscadas a todo momento, com obstáculos que lhe preparava e corridas que fazia sem cessar ao seu redor; ora, o bom Metelo havia, aprendido a combater a pé firme e em batalha formada, a conduzir soldados pesadamente armados. Por esta razão, Pompeu, tendo sempre seu exército reunido, ia trabalhando em Roma para que o enviassem à Espanha para socorrer Metelo, ao passo que Catulo lhe ordenava conservar seu exército, e assim, nada foi feito, mas por meio de algumas novas desculpas, acabou ficando sempre armado nos arredores de Roma, até que lhe deram o cargo que pedia, do qual foi autor Lúcio Filipe, que o pôs à frente no Senado onde, segundo dizem, tendo um dos senadores achado estranho ouvi-lo propor aquilo, perguntou-lhe: — "Como, Filipe) Consideras que é conveniente enviar Pompeu à Espanha como pro-cônsul?" — "Não, por certo, respondeu Filipe, não como procônsul somente, mas pro consulibus"; isto é, pelos dois cônsules. Queria dizer com isto que os dois cônsules daquele ano eram pessoas de valor nulo.

 

XXVI. Tendo chegado Pompeu à Espanha, os homens, conforme acontece à chegada de todos os novos governadores, tiveram nova esperança, o que não tinham anteriormente, de tal forma, que as cidades e os povos que não estavam muito firmes com Sertório, rebelaram-se logo e se viraram contra ele, ocasião em que Sertório semeou algumas palavras orgulhosas e altivas contra ele, dizendo em tom de caçoada, que não queria varas para castigar a criança e que também não temia a velha, querendo se referir a Metelo; mas alguma coisa que disse mais, era que se sentia melhor em sua guarda e que iria mais seguro à guerra, do que anteriormente fazia pela dúvida que tinha a respeito de Pompeu. Pois Metelo era muito dissoluto em sua vida (o que não teriam imaginado) tendo-se por completo deixado ir para o lado das delícias e para a volúpia (12) ; mas viram subitamente uma grande mudança nele, tanto na diminuição da gravidade e da pompa e magnificência de outrora, como no corte das superfluidades de sua despesa. Isto, além de significar grande honra a Pompeu, aumentava-lhe ainda mais e mais o amor e a benevolência do povo, quando viram que Sertório diminuía ainda mais a simplicidade de seu viver comum. Não teve muito trabalho para se habituar, porque era por natureza homem   controlado  e  ordenado   em   seus   apetites.

(12) Leia-se segundo o grego: — «e havia mudado subitamente entregando-se ao luxo e às despesas supérfluas, de maneira que Pompeu adquiriu não somente a admiração mas ainda a amizade de todo o .mundo, aumentando ainda a simplicidade de sua maneira de viver; não teve necessidade de muitos esforços para isto, porque, etc».  C.

 

XXVII. Ora, deram-se nesta guerra diversas aventuras e vários acidentes, naturais quando duas facções se chocam, mas não houve nada que irritasse tanto a Pompeu como a tomada da cidade de Laurao (13), que Sertório lhe arrebatou, quando julgava tê-lo vencido e já lhe haviam escapado da boca algumas palavras de jactância; ficou, então, surpreso por se encontrar ele mesmo envolto por trás, de maneira que não ousou mover-se de onde estava acampado e foi obrigado a ver queimar-se a cidade diante de seus olhos; mas depois venceu-o numa batalha junto de Valência (14). Herênio e Perpena, ambos guerreiros e tenentes de Sertório, foram por ele enfrentados e nessa arremetida matou-lhes mais de dez mil homens. Esta vitória, levantando-Ihe a coragem, fê-lo apressar-se ao encontro de Sertório em pessoa e a combatê-lo só, a fim de que Metelo não tivesse parte nas honras da vitória. O combate se deu junto do rio Sucron (15), aproximadamente ao cair do sol, cada qual temendo que Metelo aparecesse, um porque desejava combater sozinho e o outro porque desejava combater a um só.   O resultado desta batalha foi duvidoso, pois que houve tanto de um lado como do outro, algumas vantagens em uma das pontas; quanto ao comando, porém, Sertório levou a palma, pois desmantelou tudo que se apresentava à sua frente; e, quanto a Pompeu, enfrentando um guerreiro inimigo que, a pé, se dirigira ao seu encontro, começaram a lutar; as espadas cruzando-se, escorregaram até suas mãos, mas não do mesmo modo, pois Pompeu ficou apenas um pouco ferido e o soldado teve a mão cortada na hora; então atiraram-se diversos sobre êle, porque ali os soldados já se haviam virado em fuga; mas êle se salvou de uma maneira estranha contra sua esperança, abandonando aos inimigos o seu cavalo, o qual estava ricamente arreado com uma sela de ouro e coberto com uma capa valiosa, e enquanto os inimigos repartiam entre si o cavalo e a arreata, êle fugiu. No dia seguinte, ao amanhecer, Pompeu e Sertório colocaram suas tropas em linha de batalha, para confirmar a vitória que cada um deles pretendia fosse sua; Metelo, porém, apareceu no momento, o que foi causa de Sertório se retirar em debandada; pois seu campo se rompia facilmente e depois se reunia também rapidamente, de maneira que Sertório, algumas vezes errante, ia sozinho pelos campos e depois, de repente, encontrava-se com cento e cinqüenta mil combatentes, dando a impressão de uma torrente, que algumas vezes seca e depois se enche num instante.

 

(13)    Ver  a        vida  de  Sertório  e  as  Observações,  L. V,- cap. XXVII. 

(14).    Idem.

(15)    Idem.

XXVIII. Mas Pompeu, depois desta batalha, indo saudar Metelo, quando chegaram bem perto um do outro, ordenou aos seus sargentos que abaixassem os ramos das varas e os machados que traziam, para honrar a Metelo como personagem de maior dignidade do que ele, o que este não quis permitir; e nisto, como em todas as outras coisas, mostrou-se bom e eqüitativo para com Pompeu, sem atribuir nada de mais à sua pessoa por ter sido cônsul ou por ser mais velho; assim, quando acampavam juntos, era ele quem dava a senha a todo o campo; todavia, a maior parte do tempo, acampavam separados, porque seu inimigo, que se removia continuamente, não parava nunca num lugar e em pouco tempo se fazia ver em diversos lugares, constrangendo-os a se separar e dividir para prover a tudo, tirando-os rapidamente de um combate para outro, de tal forma que, afinal, cortando-lhes os víveres de todos os lados, pilhando todo o país e tomando a praia, ele expulsou os dois e os fez sair para fora das províncias que tinham na Espanha, obrigando-os a se retirarem por falta de víveres. Entretanto, Pompeu, que havia empregado e despendido a melhor parte de seus bens nessa guerra, pediu dinheiro ao Senado para pagar os soldados, ameaçando que se não lho enviassem, voltaria à Itália com seu exército; pelo que Lúculo que então era cônsul (16) ainda que adversário de Pompeu, todavia, como procurava manter-se no cargo para poder guerrear o rei Mitrídates, solicitou lhe remetessem o que pedia, temendo dar oportunidade a Pompeu, o qual não pedia outra coisa senão deixar Sertório e virar suas forças contra Mitrídates, cuja derrota lhe seria mais gloriosa, e não tão difícil nem tão perigosa.

 

(16)    O ano de Roma 680, A. C. 74.

 

XXIX. Entrementes, morreu (17) Sertório, assassinado à traição por aqueles que considerava seus amigos, entre os quais Perpena era o principal, que quis, depois de sua morte, experimentar fazer como ele, dispondo dos mesmos meios, o mesmo equipamento e as mesmas forças, mas não com o mesmo entendimento. Pompeu, marchando então direito contra ele e vendo que não sabia qual a direção a dar aos seus combates, investiu com dez coortes, que enviou a pilhar o campo, tendo-lhes ordenado que se mantivessem separados uns dos outros e se espalhassem o mais que pudessem. Perpena não trepidou em cair-lhes no encalço e persegui-los, mas Pompeu, que o esperava na passagem, surgiu de repente à sua frente com todo o seu exército em boa ordem e lhe deu batalha, na qual obteve a vitória final de toda aquela guerra, porque a maioria dos capitães foram mortos na hora e Perpena, o chefe, foi feito prisioneiro, e logo condenado à morte por Pompeu; não merece ser censurado por isso nem condenado por ingratidão, como se estivesse reconhecendo mal o que Perpena lhe havia proporcionado na Sicília, como alguns o acusam; antes, merece louvor, como tendo praticado um ato de grande magnitude e usado de conselho salutar para o bem público, porque Perpena, que se apoderara dos papéis de Sertório, mostrava as cartas particulares dos maiores e mais poderosos homens de Roma, os quais, desejando mudar o governo, chamavam Sertório à Itália; pelo que Pompeu, temendo isso tornar-se causa para excitar ainda maiores sedições e guerras civis, do que aquelas que estavam adormecidas, fez morrer Perpena o mais cedo que pôde e queimou todas suas cartas e todos seus papéis, sem ler coisa alguma.

(17)    O ano de Roma 681, A. C. 73.

 

XXX. Isto feito, ficou ainda algum tempo na Espanha, até que houvesse extinto as mais violentas emoções e que os negócios, os mais embrulhados e mais tormentosos, se normalizassem e se acalmassem, levando depois seu exército para a Itália onde, chegando, encontrou a guerra civil que ardia ainda com o seu maior vigor. Crasso, a quem tinham entregue o cargo, apressou-se a travar batalha (18), onde ganhou e matou uns doze mil e trezentos homens dentre os escravos fugitivos; mas a sorte, querendo que Pompeu ainda tivesse parte na decisão dessa guerra, fez com que cinco mil dos fugitivos, que se haviam salvo  da batalha,  lhe caíssem nas mãos e escreveu ao Senado que Crasso havia derrotado em batalha alinhada os gladiadores, mas que ele havia cortado até o fundo todas as raízes da guerra, no que os romanos se sentiam à vontade para dizer e ouvir, tanto lhe devotavam amor e benevolência.

(18)    O ano de Roma 683.

 

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