mai 222010
 

A IDADE-MÉDIA E A RENASCENÇA – O mundo Maravilhoso da Literatura

Henry Thomas

Descida ao inferno

DESDE os primeiros dias, têm os homens imaginado o que acontecerá à alma depois que, deixa o corpo. Permanecerá viva? E se fôr assim, para que especie de lugar irá ela? Vários grandes escritores tentaram imaginárias viagens à terra das almas que se foram. O maior deles foi Dante Alighieri, poeta italiano do século treze. Na sua obra-prima, A Divina Comédia, leva-nos em viagem através dos horrores do inferno, cruza as regiões do purgatório e chega às glórias do céu. Tão viva era sua imaginação e tão profundamente se lhe marcava o pensamento no rosto, que um amigo observou uma vez: "Este homem parece, na realidade, ter vindo diretamente do inferno". Eis como Dante descreve sua descida ao mundo subterrâneo:

Um dia, acha-se êle perdido numa sombria floresta. Está a ponto de ser atacado por um leão, uma onça e uma loba, quando o antigo escritor Virgílio vem em seu auxílio. Este escritor, no seu poema A Eneida, fizera outrora uma viagem ao reino de Plutão. Agora oferece-se como guia a outra excursão ao mundo subterrâneo.

Juntos descem eles às profundezas da terra até se encontrarem no círculo mais exterior do Inferno. Aqui Dante encontra as almas dos indiferentes, dos insignificantes, dos que durante toda sua vida não foram exatamente maus, nem tão pouco se deram ao trabalho de ser bons. No Inferno, têm de cumprir a pena que cabe à indiferença. Esse castigo é serem forçados continuamente a trabalhar, sem um momento de descanso, "como grãos de areia revoluteando eternamente no remoinho".

Em seguida, descem às regiões mais profundas do Inferno. Essas regiões estão divididas em três secções: o primeiro círculo contém os criminosos coléricos; o segundo círculo encerra os fraudulentos e embusteiros; e o terceiro e mais terrível círculo aprisiona os assassinos dé sangue frio e os traidores.

E’ um lugar escuro, horrível e desesperante esse a que Dante nos conduz. "Deixai toda esperança, ó vós que entrais." No primeiro círculo, as almas dos coléricos são purgadas de sua cólera, em grandes extensões de areia ardente, sobre as quais chovem continuamente línguas de fogo.

No segundo círculo, as almas dos fraudulentos são conduzidas pelos azorragues dos demônios, através de viscoso charco, cujo fedor é intolerável. Essas almas chafurdam em repugnante sujeira física no Inferno, precisamente como metidas andaram na terra em repugnante sujeira moral. Inclusas nesse círculo estão as prostitutas e os aduladores: as que venderam seus corpos e os que venderam suas almas. Este é também o círculo dos trapaceiros, dos velhacos, dos falsários e dos ladrões — "homens que pareciam não derramar lágrimas de pesar." Seus corpos estão deformados e tomam o feitio de toda casta de animais.

Finalmente no terceiro círculo, observamos o castigo dos traidores, os mais desprezíveis de todos os humanos. Este círculo encerra um imenso mar de gelo, para representar os gelados corações de seus ocupantes. Seus corpos fincam-se como pedaços de palha nesse oceano glacial, e até seus gritos e suas lágrimas se petrificam naquela horrível desolação de geada. Suas esperanças, da mesma forma que suas lágrimas, mudaram-se em gelo. Para eles, não há possibilidade de livrar-se do Inferno.

Estas, pois, são as três regiões do Inferno: fogo, lama e gelo. Correspondem aos três tipos de crimes: paixão, fraude e bestialidade. Dos três, diz-nos Dante, a bestialidade é o pior.

Excursão ao Paraíso

A DIVINA COMÉDIA de Dante está dividida em três livros. O primeiro leva-nos ao Inferno. O segundo guia-nos através do Purgatório. O terceiro nos introduz no Paraíso.

No Purgatório são as almas fiurgaâas de seus pecados e preparadas para sua viagem final ao Paraíso.

O guia de Dante no Inferno é o poeta pagão, Virgílio. Seu guia no Paraíso é a Bem-aventurada Mulher, Beatriz.

De estrela a estrela, essa mulher nos leva, em círculos sempre ascendentes de arroubamento e de glória, até chegarmos ao Céu dos Céus, à residência de Deus. Quantc mais. alto subimos,, mais deslumbrante se torna a luz, e mais radiante se torna a face de Beatriz.

Igualmente, há nove círculos nos reinos do Paraíso. Erguem-se uns sobre os outros como os terraços dalgum jardim encantado, cada qual mais belo do que o que fica por baixo.

Em cada círculo do Céu a luz assume diferente forma. Ora tem a forma duma imensa águia, ora duma vasta cruz e ora a de uma escada de chamas que se alteia até o infinito. Essas figuras são formadas pelos movimentos das almas. Colocam-se elas mesmas formando panoramas de luz, que podem ser comparados aos esplendores empolgantes de uma aurora ou de um pôr-de-sol.

Até mesmo a linguagem de Dante é incapaz de descrever toda a glória do Céu, sua inebriante profusão de flores, de incenso, de música, de luz. O Paraíso, numa palavra, é a Luz — uma luz que é Beleza, urna luz que é Amor. Todas as almas do Paraíso estão reunidas dentro dum oceano infinito de Luz e de Amor. Todas se tornam

Uma na radiosa presença de Deus — "Um universal sorriso de inexprimível alegria."

Das alturas do Paraíso, Dante lança um olhar para a terra e seu rosto se move num sorriso de piedade diante de nossa pequenez:

"O’ insensato afã da humana gente.
Quão falhos são os falsos argumentos
Que ao harro vil da terra vos tem presos!
Uns são legistas, outros medicastros.

Sacerdotes aqueles, por cobiça,
Por força ou por sofisma outros governam.
Fraudulentos uns são, outros ladrões,
Há da luxúria escravos deleitados
E os da preguiça amantes gozadores."

(O Paraíso — canto XI) .

E após esse rápido olhar sobre a terra, o poeta volta para o Céu e dá a última e magistral pincelada na sua Divina Comédia:

"Mas já o desejo e querer meu guiava,
Como roda a girar em giro certo,
O Amor, que move o sol e os outros astros."

(O Paraíso — canto XXIII) (1).

Esse livro, como diz Dante, foi escrito somente para aqueles que podem apreciar o que há de melhor em literatura. Aos demais, aconselha êle que fiquem de fora. "Voltai, escreve êle, porque meu livro é apenas para os poucos que podem apreciar o pão dos anjos."

Parece, porém, que em cada geração há muitas centenas de milhares dos que podem saborear o pão dos anjos. Porque a Divina Comédia de Dante é um dos mais populares livros do mundo.

 

As histórias de amor do Decameron

O DECAMERON de Boccaccio é um dos livros mais divertidos do mundo. E um dos mais atrevidos. Boccaccio viveu na Itália, no século XIV. Sua profissão era a de caixeiro-viajante. Não é de admirar que soubesse tantas histórias!

Não se interessava pelos negócios. O dinheiro significava muito pouco para êle. O amor, dizia, era muito mais importante. "Oh! pensar nos míseros avarentos que teimam em achar melhor amealhar dinheiro que amar!… Seu dinheiro pode ir-se numa hora; mas o amor, uma vez experimentado, é uma alegria sempiterna. Prouvesse aos Céus tirar todo o dinheiro dos avaros para dá-lo aos amorosos!"

Seu Decameron é uma coleção de histórias de amor. A palavra Decameron significa Dez Dias, e ligada a esse nome há interessante história. Supõe-se que as narrativas desse livro foram feitas em dez dias. Havia uma peste em Florença, em 1384. Afim de escapar a suas devastações, numerosas senhoras florentinas e cavalheiros encerraram-se numa propriedade de campo. Ali, durante um período de dez dias, passavam as horas contando uns aos outros suas histórias de amor.

Essas histórias referem-se principalmente a mulheres namoradeiras e a seus ciumentos maridos. Enganar astuciosamente um marido, pensa Boccaccio, é coisa bela e hábil. Mas êle deve ser tão medíocre quanto ciumento. Não há graça em injuriar um homem generoso. A filosofia de Boccaccio pode ser resumida nestas palavras: Se um marido ama sua mulher, que sua mulher o ame; mas se um marido suspeita de sua esposa, que sua esposa lhe dê coniosos motivos de suspeitas.

À maior parte das mulheres de Boccaccio são frívolas. Contudo, ocasionalmente, encontramos uma cuja virtude é igual à sua sabedoria. Tomai esta história por exemplo: O rei se apaixona pela mulher de um de seus ministros. Afim de se aproximar dela, envia o ministro às Cruzadas e convida a si mesmo para jantar em casa dela. A mulher suspeita de seus motivos, mas não ousa desobedecer às suas ordens. Em consequência prepara suntuoso banquete de muitos frangos, cada qual preparado e cozinhado de maneira diversa.

Finalmente chega o rei, ávido de aventura. A mulher é toda sorrisos. Ordena que sirvam o jantar. O rei sente-se deliciado com a comida. "Mas, observa êle em tom de surpresa, por que tanto frango? Não há outra comida nesta região?"

"Há meu senhor, — responde a mulher do ministro, — E’ que as mulheres, como os frangos, por mais diferentemente preparadas que apareçam, são sempre as mes* mas."

O rei entendeu a alusão e voltou para sua própria mulher.

Boccaccio foi apelidado João Tranquilo, porque podia sentar-se sossegadamente e alegremente descrever o espetáculo tumultuoso de seu tempo. Seu Decameron pode ser chamado As loucuras de 1348. E que fascinantes loucuras! Alegres eremitas e monjes descarados, rapazes apaixonados e "mulheres volúveis como folhas de outono", estudantes que põem o Diabo no Inferno e diabos que metem os estudantes em toda espécie de situações comprometedoras. A vida, diz Boccaccio, é afinal uma bem triste coisa. Ganhemos, enquanto pudermos, uma barrigada de risos e de graça, olhando as tolices de nossos semelhantes. "O número dos tolos, diz-nos Boccaccio, é infinito."

Nem sempre, porém, Boccaccio riu das tolices de seus companheiros. Às vezes, chorava diante delas. Muitas das histórias do Decameron são trágicas. Vede, por exemplo, a história de Tancredo. Nessa história, um pai, de coração dilacerado, testemunha a desgraça de sua filha, mata o amante, tira-lhe o coração e envia-o à sua filha numa taça de ouro. A filha deita veneno na taça, bebe-o e cai morta.

A razão pela qual o pai mata o amante não é a de ter sua filha amado, mas a de haver ela amado alguém abaixo de sua posição social. Mas a resposta da filha é que sua conduta se justificava, porque o amor nivela todas as posições.

Nas histórias de amor de Boccaccio são as mulheres, na quase maioria, mais hábeis e mais liberais que os homens. E, o que é bastante interessante, Boccaccio escreveu seu livro para um público feminino. As mulheres pareciam apreciar aquelas histórias apimentadas, mais ainda do que os homens. Formavam pequenos clubes de leitura e discutiam os imorais, porém divertidos, casos amorosos do Decameron, na intimidade de suas alcovas, enquanto os maridos se achavam fora, tratando de seus negócios. Foi isso numa época em que as mulheres levavam seus maridos pelo nariz.

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O encanto das Mil e Uma Noites

AS MIL E UMA NOITES, na tradução inexpurgada de Ricardo Burton, é um dos livros maravilhosos do mundo. Essas histórias eram originariamente contadas pelos Maddahs, ou contadores profissionais de histórias, nas tavernas da Arábia. Essa a razão pela qual estão cheias de odor de vinho, e de mulheres e canções, que, no Oriente, são tão amiúdo o acompanhamento do vinho.

A moldura das Mil e Uma Noites, dentro da qual as histórias estão colocadas como num quadro, é, por si mesma, uma história interessante. O rei Shahriyar foi atraiçoado por sua mulher. Acreditava que em todo o vasto mundo mulher nenhuma havia que merecesse fé. Em consequência, matou sua esposa infiel e traçou um plano por meio do qual pudesse libertar o mundo de todas as belas mulheres da Arábia. Cada noite casava-se com uma nova mulher e cada manhã cortava-lhe a cabeça.

Mas um dia casou-se com Scheherazade, filha do Grão Vizir. Essa donzela é tão formosa como a lua prateada e tão sábia quanto formosa. Bem ciente da sorte das outras esposas do rei, consegue evitar semelhante destino para si. E foi desta forma que ela o conseguiu: Durante mil e uma noites, conservou desperta a curiosidade de seu real esposo, contando-lhe numerosas histórias encantadoras e as arranjou de tal forma que, em cada noite, se interrompia no meio duma delas. E assim, durante mil e uma noites a curiosidade do rei evitou que êle matasse Scheherazada. E quando todas as histórias acabaram, está êle tão encantado com a sabedoria e a beleza dela, que consente em deixá-la viver.

Quasi todas as histórias das Mil e Uma Noites narram maravilhas estranhas. E a mais estranha de todas é esta: que nada no mundo, nem mesmo as entranhas da terra, ou as profundezas do mar, pode frustrar o destino dos homens e a infidelidade das mulheres.

Estas idéias se salientam melhor em duas das histórias. Na primeira, um sultão é avisado de que seu filho será morto a faca, ao chegar aos vinte anos. O sultão, afim de evitar esse fado, coloca o filho numa profunda caverna subterrânea e dá estritas ordens para que jamais faca alguma seja encontrada naquela caverna. Mas no dia fatal, a faca e o anjo da morte acharam meio de penetrar na caverna e dessa forma os severos decretos d« Destino foram cumpridos.

(*) Nomo dado peloe árabes a seres, superiores aos homens, maa Inferiores aos anjos e que tanto podem ser benfazejos, como malfazejos. (N do T.).

Na segunda história, um djinn (*) casa com uma formosa mulher e, afim de assegurar-se de sua fidelidade, aferrolha-a num cofre duplo, com sete ferrolhos. E depois, para tornar a segurança duplamente segura, pega o cofre e deposita-o no fundo do oceano.

Contudo, a despeito de todas essas precauções, a mulher consegue colecionar uma centena de anéis, representando cada um uma conquista amorosa que ela fizera, enquanto seu marido a julgava bem ao abrigo, encerrada em seu cofre de ferro.

São estas apenas amostras dos mistérios, maravilhas, maroteiras e aventuras das Mil e Uma Noites. Essas encantadoras narrativas fazem-nos conhecer os estranhos ifrits, que moram nas cavernas do oceano e djinns, que andam pela terra com as cabeças a topetar com as nuvens. Esses estranhos irmãos da raça humana levam consigo as Chaves do Mundo Invisível. De vez em quando abrem as portas e podem nossos olhos deliciar-se com espetáculos e gozos tais como nunca existiram sobre a terra, nem nas profundas do mar. Porque as Mil e Uma Noites são o tapete mágico que nos arrebata em vertiginosa jornada aos reinos do romance. Muitos de nós já conhecemos familiarmente algumas dessas histórias, tais como Sinâba, o marítimo, Ali Babá e os Quarenta Ladrões, Aladino e sua Lâmpada Maravilhosa. Mas as que não são tão conhecidas, nem por isso são menos fascinantes. Na verdade, para parafrasear Roberto Luiz Stevenson, há um infindável dilúvio de encantamento e delícia nas

Histórias de ousados marujos,
De formosas donzelas
De olentes cabeleiras,
De djinns e de mágicos,
De sultões e rufiões
Dos velhos tempos de outrora.
Histórias de prisões e de fugas,
De praias enluaradas
E de terras encantadas
Onde os castelos se erguiam
Por mãos mágicas, invisíveis

— Das áureas Mil e Uma Noites.

O poeta que glorificou o vinho, a mulher e a canção

UMA das mais estranhas biografias do mundo é a história de Omar Khayyam, autor dos famosos Rubaiyat, que viveu no século XII. Nos seus tempos escolares, Omar travou íntima camaradagem com dois outros jovens persas, Nizam al Mulk e Hassan ben Sabbah. Intelectualmente exibiam os três o mesmo brilho, mas moralmente havia grande diferença entre eles. Um dia Hassan chegou-se a seus dois companheiros e disse: "É crença geral que os alunos do imã, nosso professor, estão todos destinados a ficar famosos. Mas imaginemos que só um de nós três granjeará grande fama e fortuna. Qual será?

"Tens alguma sugestão?" — perguntou Omar.

"Sim" — respondeu Hassan. — "Façamos os três um pacto: Todos por um e um por todos. Qualquer de nós que se tornar rico deve prometer repartir suas riquezas com os outros dois."

Os três amigos estudantes firmaram o pacto e partiram. Durante muitos anos, dois daqueles jovens permaneceram pobres e obscuros. Mas a fortuna sorriu ao terceiro. Nizam al Mulk tornou-se o Grão Vizir do sultão.

Hassan e Omar, quando souberam do êxito de seu amigo, foram a Nizam reclamar sua parte na fortuna. Nizam cumpriu a palavra. Hassan pediu-lhe elevado car-go político e o Grão Vizir lho concedeu. Mas Hassan não ficou satisfeito. Começou a conspirar contra seu velho amigo e benfeitor. Sua conspiração foi descoberta e êle, banido da corte. Imediatamente, reuniu em torno de si um bando de rufiões e pôs-se a roubar e a matar para viver. Entrincheirando-se num castelo fortificado, veio a ser conhecido pelo nome de Velho da Montanha. Seu nome não somente espalhava terror no seu tempo, mas permaneceu como símbolo da violência até nossos dias. Porque se acredita que a palavra assassino se deriva do nome Hassan.

Isso o que diz respeito a Hassan. Quanto a Omar, seus pedidos foram muito mais modestos que os de Hassan. "A maior mercê que me podes conceder, — disse êle a seu velho amigo Nizam — é permitir que eu viva em paz afim de poder estudar e escrever." O Vizir concedeu-lhe pequena pensão e Omar se tornou o homem mais feliz da terra.

Nizam e Hassan morreram ricos e nada deixaram ao mundo. Omar morreu pobre e deixou ao mundo um dos maiores tesouros da literatura persa, os famosos Rubaiyat.

Essas quadras, na tradução de Eduardo Fitzgerald, tornaram-se uma das jóias da literatura inglesa. Contudo são uma jóia descoberta por acaso. Quando o livro foi publicado, ninguém quis adquirí-lo pelo preço comum. O editor reduziu o preço a uns poucos réis e mesmo assim ninguém o comprava. Grandemente desgostoso, o editor lançou toda a edição no monte das coisas sem valor. Um exemplar extraviado, porém, conseguiu chegar até uma livraria de Londres, onde o poeta Rossetti deu com êle e descobriu uma obra-prima.

Daquele dia até hoje, milhões de exemplares dos Rubaiyat têm sido vendidos.

Embora o autor dos Rubaiyat fosse pessoalmente um homem bem otimista, seu poema é a glorificação do pessimismo, e embora tivesse sido êle um homem bem sóbrio, o poema é um convite ao carnaval do vinho. A vida é um jogo de xadrez, nos lembra Omar. Deus é o jogador e nós somos os piões.

"Inermes peças, nós, do jogo que
Êle joga No da Noite e do Dia enorme tabuleiro,
Ora aqui ora ali, nos move, retém, solta,
E depois, um a um, à caixa faz voltar."

Nossa vida é uma taça amarga e acaba no veneno da morte. E nada podemos fazer para mudar esse nosso desamparo. Se estivesse somente em nosso poder refazer este mundo!

"Se, aliados com Deus, pudéssemos nós dois
Deste mundo agarrar o plano todo inteiro,
Como não desfazer o molde, para log
o Refazê-lo ao sabor do nosso coração?"

Mas desde que não podemos mudar este mundo, podemos pelo menos esquecê-lo. Embebamo-nos de vinho, diz Omar. Nada somos senão um bafejo de aragem. Jovem tocadora de flauta, canta ao vento! Somos apenas um punhado de poeira. Escanção, humedece a poeira com vinho! A vida é uma taverna inhóspita. Somos arremessados dentro dela por uma porta, olhamos em redor de nós por instantes, e depois somos lançados por outra porta dentro da noite. Portanto, exclama o poeta persa, bebamos, cantemos e amemos, antes de sermos lançados fora da porta, pela qual não mais poderemos voltar.

Mas por trás dessa máscara de bebedeira e desespero, vemos a face do real Omar — um homem cuja filosofia é alegre, cujos desejos são modestos, e cujo espírito está tranquilo. O que êle realmente deseja não é o cinismo, nem a paixão tempestuosa, mas a contemplação e o amor sossegado. Sua melhor filosofia está resumida na seguinte famosa estância:

"Com um livro de verso à sombra da ramada,
Um pedaço de pão e vinho e tu, amada,
A meu lado, a cantar, na triste solidão,
O’ deserto, serás bem vasto paraíso!"

O poeta que era ladrão

FRANÇOIS VILLON (século XV) tem sido chamado "nosso triste, mau, alegre e louco irmão." Foi o mais hábil larápio de Paris e o maior poeta da França. Poucos homens têm sido culpados de crimes mais vis. E poucos homens têm escrito mais perfeitas canções.

Que estranha combinação foi êle de bestialidade e de sublimidade! Aos vinte anos era mestre em surrupiar bolsas de dinheiro; aos vinte e cinco matou um padre; aos trinta era o chefe de uma quadrilha de meliantes. Contudo durante todo esse tempo escreveu poemas que ficaram cantando na memória e no coração do mundo.

Nascido na sargeta, François tornou-se na idade de doze anos, pupilo dum bondoso padre chamado Villon. François adotou o nome de seu benfeitor e começou imediatamente a glorificá-lo com a sua poesia e a infelicitá-lo com seu procedimento. O bom e velho padre conseguiu ensinar-lhe a cultuar a beleza, mas nunca pôde ensinar-lhe a praticar a honestidade.

O tutor enviou Villon para o colégio. Mas o jovem poeta evitou a sociedade de seus companheiros de estudo. Preferiu juntar-se à confraria dos ladrões.

Tornou-se poeta laureado deles. Quando qualquer deles era condenado à forca, Villon enviava-o ao inferno com um poema de bon voyage, de surpreendente beleza e de obcena zombaria.

Estava sempre se metendo em dificuldades, e seu tutor vivia sempre a tirá-lo desses apuros. Sua vida era uma contínua jornada duma prisão para outra. Frequentemente prometia a seu amo que "essa complicação será a última. Dagora em diante, vou mudar de vida." Mas nunca cumpriu sua promessa.

Todo o dinheiro que roubava, gastava-o com mulheres e vinho. Era um belo maroto, e as mulheres da corte, tanto quanto as mulheres das ruas, achavam-no irresistível.

Na véspera de Natal, do ano de 1465, assaltou o Colégio de Navarra. Fugindo de Paris, foi agarrado e preso em Orleans. Duas vezes foi condenado à morte e cm ambas escapou, graças à intercessão de seus amigos. E enquanto seu corpo apodrecia na prisão, seu pensamento florescia no poema do Grande Testamento. É um poema extraordinário, percorrendo toda a distância que separa os charcos das estrelas. A mais famosa passagem desse poema é a Balada das Mulheres Mortas, com sua amarga observação de que todo o encanto deve morrer, e com o obsidente estribilho

"As neves doutrora onde estão?"

Esse Grande Testamento de Villon é uma franca confissão de sua horrenda vida e é igualmente uma franca rogativa do divino perdão. O poema termina com o seu autobiográfico epitáfio:

"Este sujeito inútil, maluco e estouvado nunca teve uma travessa ou coisa que lhe pusesse em cima. Descanso nunca teve até que veio a morte e pô-lo a pontapés para fora do mundo. Senhor de Misericórdia, tende piedade de sua alma e concedei-lhe a eterna paz."

Descanso nunca teve. A última olhadela que lhe pomos é em Paris, numa tarde nevoenta. Sua pena de morte foi comutada em banimento perpétuo. E assim, pondo seu gasto surrão aos ombros, desaparece na escuridão crescente, a mais patética e curiosa combinação, nos anais da literatura, de um pensamento vigoroso e de uma alma deformada.


Tradução e Adaptação de Osmar Mendes.

abr 282009
 
maravilhas das antigas civizações

Breno de Magalhães Bastos

USO E ABUSO DE DROGAS PELO JOVEM: UM BEM OU UM MAL?

- Rio de Janeiro -

2003

UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO

CENTRO DE CIÊNCIAS DA SAÚDE

ESCOLA DE ENFERMAGEM ANNA NERY

DEPARTAMENTO DE ENFERMAGEM EM SAÚDE PÚBLICA

NÚCLEO DE PESQUISA  EM ENFERMAGEM EM SAÚDE COLETIVA

Monografia apresentada à Escola de Enfermagem Anna Nery/UFRJ, como requisito parcial para a obtenção de grau de enfermeiro.

 

Orientadoras: Prof. Dr. Maria Tereza Coimbra de Carvalho

Prof. MS Carla Cristina Perozzo

Prof. Dr. Marilurde Donato

-        Rio de Janeiro -

2003

Às pessoas do Tibet, que vivem em exílio na Índia, por sua história.

AGRADECIMENTOS

Agradeço a Deus, o Grande Artesão, por ter me guiado num trabalho pertinente ao Bem;

Agradeço a São Francisco, o Pobrezinho de Assis,  que, através de sua loucura, resolveu viver entre leprosos e, assim, serviu de fonte permanente de inspiração para minha própria vida;

Agradeço a Santa Clara, a Dama Pobre, que sem temer ou hesitar quanto ao seu futuro, distanciou-se do mundo para nele poder viver melhor;

Agradeço a minha mãe Teresa por me propiciar condições de cursar a Universidade;

Agradeço a Professora Doutora Maria Tereza Coimbra de Carvalho que, solicitamente, muito me ajudou na confecção deste estudo;

Agradeço a Professora Carla Cristina Perozzo e Germanus Strazzeri por terem me mostrado que o homem pode sair da caverna e por terem me guiado no pensamento estóico;

Agradeço a meu amigo Felipe Ramos Pavlidis por, em sua  paciência, muitas vezes me orientar sobre o que eu poderia fazer;

 Agradeço a meu amigo Claudio Arnoldi Carvalho, por ter me ajudado no percurso da Universidade, no CEPUAD e em minha própria vida.

       "Esquecerás tudo em breve, brevemente todos te esquecerão."

-        Marcus Aurélius

RESUMO

O presente trabalho explana, segundo uma abordagem platônica e estóica, o que motiva o jovem para o consumo de drogas.

O jovem busca assim como qualquer pessoa a plenitude. E essa plenitude que deve ser sempre permeada pela virtude, representa um grande prazer e, conseqüentemente, um grande Bem. Entretanto, a busca pelo prazer e pelo Bem através droga é pouco esclarecida porque sempre está diretamente relacionada com a dor. O prazer narcótico não existe, uma vez que está sempre submetido ao devir.

Entretanto, existe um prazer e um Bem muito mais substancial que o narcótico ou qualquer outro que esteja submetido ao devir. Esse é o prazer da virtude. E esse prazer é aquele capaz de gerar a verdadeira felicidade.

Mas como desfrutar de um gozo tão pleno? Além da virtude, outros fatores  também se fazem necessários. Um deles é a apatia (indiferença). Apenas o homem indiferente ao inevitável é capaz de usufruir desse prazer/bem. Por outro lado, todos aqueles que se tornam parciais frente ao inevitável têm necessariamente a dor como conseqüência. Alguns, infelizmente, em sua ânsia de plenitude buscam a droga para suportar aquilo contra que sua ação nada pode fazer.

A apatia gera imperturbabilidade da alma – ataraxia – sem a qual essa felicidade também não se efetiva. Apenas é feliz e desfruta de um Bem aquele que se torna imperturbável.

A auto-suficiência também é fundamental. Aquele que se droga busca a auto-suficiência. E essa auto-suficiência também é essencial para uma vida virtuosa e plena. A diferença consiste no fato de que com o uso da droga esse Bem nunca será atingido.

Temendo o devir, o jovem também teme a natureza e o tempo. Esses dois últimos aliados à auto-suficiência e à ataraxia são fundamentais para todo aquele que busca a felicidade e evita a dor, em toda e qualquer dimensão.

O verdadeiro bem é a expressão máxima do cosmopolitismo. O homem da natureza é aquele apático frente aos acontecimentos. É aquele que não se deixa perturbar por fatores externos a si mesmo e é, por isso mesmo, auto-suficiente e virtuoso.  E nisso consiste o Bem…

SUMÁRIO

                                                                                                      

 

Capítulo I

     Considerações Iniciais ……………………………………………………………….            

Capítulo II

     Referencial Teórico …………………………………………………………………..              

Capítulo III

     Fundamentação Metodológica …………………………………………………….   

Capítulo IV

     Análise Documental …………………………………………………………………..           

Capítulo V

      Considerações Finais ………………………………………………………………….         

Bibliografia………………………………………………………………………………………..        

Referência Bibliográfica……………………………………………………………………..         

CAPÍTULO 1

CONSIDERAÇÕES INICIAIS

 

Dois foram os fatores que me motivaram à realização deste trabalho. O primeiro, de caráter técnico-científico, foi uma conseqüência direta de minha atuação como acadêmico de enfermagem no Centro de Estudo e Prevenção ao Uso e   Abuso de Drogas – CEPUAD -, localizado no Hospital Escola São Francisco de Assis – HESFA -, no qual colaboro com consultas de Enfermagem.

O CEPUAD é um programa desenvolvido pela Universidade Federal do Rio de Janeiro em parceria com a Primeira Vara da Infância e Juventude da cidade do Rio de Janeiro. Sua função é subsidiar a reabilitação e a prevenção ao uso e abuso de drogas de adolescentes, encaminhados ou não, pelo Juizado de Menores.

Embora novo – o CEPUAD foi fundado em agosto de 2001 -, o programa não se caracteriza como um grupo de auto-ajuda, a exemplo dos Narcóticos Anônimos (NA), entre outras. Sua terapêutica é efetivada por uma equipe transdisciplinar, possuindo médicos, enfermeiros, psicólogos, nutricionistas, assistentes sociais e acadêmicos dessas e outras áreas.

O segundo fator que me motivou para a realização deste trabalho nasce de experiências próprias vividas em conventos franciscanos nas cidades do Rio de Janeiro e Petrópolis. Tais experiências, profundamente marcantes para mim, e que me convenceram a um dia fazer seminário entre os Frades Menores, fizeram-me despertar para um ponto: o sofrimento humano.

Utilizei-me, assim, da filosofia como abordagem entendendo que seria um agente facilitador para tentar compreender o homem, já que este  tem, como principal preocupação o próprio homem. Assim, decidi-me trabalhar com o Platonismo e o Estoicismo, em virtude de suas próprias características e que tanto têm a ensinar ao homem e em especial a esta clientela de adolescentes o exercício de bastar-se e de resignar-se frente às intempéries da vida.

Como este trabalho é permeado pelas atividades desenvolvidas no CEPUAD, nada mais justo do que começar a dissertar sobre o adolescente e, em seguida, sobre a dependência química. Na análise documental é que iniciamos em si a discussão com os autores: Platão, Sêneca e Marco Aurélio.

Tentarei expor como o Bem se coloca como algo a ser almejado e como apatia, ataraxia, e autarquia se relacionam entre si com o fim de educar o desejo, proporcionando prazer e felicidade e a cessação da dor. Nesse ponto, o homem é o próprio sujeito do estudo, com sua carência, sua fragilidade, seu sofrimento.

O objeto de estudo é, portanto:

              A Busca do Bem Através do Uso e Abuso de Drogas

Como questões norteadoras, temos:

     – como a droga se torna um bem para o dependente?

     – porque a droga se coloca como algo a ser desejado?

Os objetivos são:

     – explicar como o bem se apresenta como uma questão fundamental para a toxicomania e para a filosofia;

     – discutir de que forma a incompletude é capaz de motivar o jovem para o uso de drogas;

     – inserir a filosofia como uma medida terapêutica no que se refere ao uso e abuso de drogas.

A justificativa de tal estudo é pautada na tentativa de se compreender o adolescente usuário de drogas, à luz dos antigos pensadores, podendo contribuir, talvez num futuro próximo, para um novo modelo assistencial para tais jovens.

CAPÍTULO II

REFERENCIAL TEÓRICO

O ADOLESCENTE

 

 

 

                    O primeiro problema pelo qual nos deparamos ao tentar discutir sobre o adolescente consiste justamente em delimitar quando a  adolescência começa e quando termina. Assim, apesar das diferentes conceituações que pudermos encontrar, encontramos uma inclinação natural dos autores a contextualizar o jovem num processo de transformação obrigatória.

          WHALEY & WONG (1985, p. 348) dizem que o início ocorre dos 11 a 12 anos e término entre 18 e 20 anos. Não pensando da mesma forma, ALBERASTURY & KNOBEL  (1992, p. 89) ressaltam que a  adolescência ocorre entre 12 e 21 para as meninas, e entre 14 e 21 para os rapazes. Do ponto de vista legal, o Estatuto da Criança e do Adolescente (2000, p. 7) ressalta que  adolescentes são todos aqueles que possuem entre 12 e 18 anos de idade, podendo, em casos excepcionais, essa margem de idade ser postergada a jovens de 18 a 21 anos de idade.

          Seja como for, a  adolescência é inaugurada com o advento de um fenômeno bastante evidenciável: a puberdade. O desenvolvimento de caracteres sexuais primários e secundários e o notável crescimento somático indicam que o corpo daquele que, outrora, fora uma criança, gradativamente se torna um adulto, graças ao aumento da gonadotrofina, dos esteróides sexuais e do hormônio do crescimento.

          Em meninos, o processo principia pelo aumento do epidídimo, das vesículas seminais, da próstata e dos testículos, indo desde a modificação da vascularização da pele do escroto, até o crescimento do pênis, o surgimento de pêlos pubianos à volta da base do pênis e de pêlos na face, tórax, abdome e membros, além do agravamento da voz e, principalmente, com a semenarca.

          Nas meninas, prossegue um crescente aumento dos ovários. O útero, as tubas e os ovários vão tomando gradativamente o seu lugar na parte inferior da pelve, à medida que a mesma se alarga. Os seios tornam-se paulatinamente protrusos. Os pequenos lábios aumentam e a mucosa vaginal se espessa, surgindo secreções vaginais. Os pêlos que se distribuem inicialmente pelos grandes lábios, vão-se espalhando pelo púbis. O ápice do processo é  evidenciável pela menarca.

Além de fatores puramente biológicos, outros fatores igualmente apreciáveis são notados na adolescência. MAAKAROUN  (1991, p. 4) diz que:

"O advento das modificações corporais da puberdade leva o indivíduo a perceber que, inexoravelmente, vai tornando-se um adulto."

          Do ponto de  vista psicológico, destacamos a importância do estabelecimento de uma nova relação com os pais e com o mundo, para que ele possa ser considerado um adulto.

          A auto-imagem construída ao longo dos anos da infância tem se reformulado a partir de novos esquemas corporais. As dificuldades de se conviver com um corpo novo, que se modifica a cada dia, mobilizam ansiedade e depressão, porque, nesse desabrochar de personalidade, o indivíduo nega o próprio corpo ou o sente como algo que está sendo destruído.

          O adolescente, por outro lado, vive num mundo que, para ele é dicotomizado. Ao mesmo tempo em que nega o evidente, o mesmo se lhe mostra como um grande atrativo, considerando sua natural curiosidade pelo novo. Ao mesmo tempo em que detesta todas as modificações a que está sendo submetido, ama todas as novas portas que se abrem à sua frente, diante de uma perspectiva de liberdade e de auto-afirmação.

          Ao mesmo tempo em que briga, questiona, reclama privilégios e direitos, acha as responsabilidades correspondentes muito onerosas, porque lhe parecem marcos de sua posição subordinada e são sentidas como opressivas e degradantes, uma vez que são impostas pelos pais.

          Caem, em outras palavras, numa grande cilada: se, por um lado, querem continuar como crianças, não assumindo as responsabilidades que a  adolescência lhe proporciona, por outro, tentam de todas as formas conquistar sua independência, com atitudes e frases do tipo: "eu posso, eu vou".

          Algo que mais cedo ou mais tarde  sempre acontece é o conflito com ao pais. MAAKAROUN  (1991, p. 5) diz que:

"… para os adolescentes, enfrentar os pais é enfrentar o mundo (…) Agora, os momentos de refeição se transformam em guerrilha, quando os pais cobram dos filhos a criança perdida e os filhos destronam os ídolos e os heróis da infância."

          Conflitos como esses não são característicos da sociedade moderna atual. Ao contrário, são mais antigos que se possa imaginar. CAVALCANTE (1997, p.43) ressalta que:

"foram encontradas inscrições em túmulos egípcios, dos faraós, dizendo que o fim do mundo estava próximo porque os jovens estavam perdidos e sem rumo."

          Idéias revolucionárias e/ou políticas sempre estão na mente dos adolescentes, mesmo que de forma implícita. Suas atitudes são conduzidas, muitas vezes, frente a movimentos estudantis reivindicatórios, diante da frustração de se verem mudando sem ter sido consultados e de, impotentes, assistirem suas próprias transformações. Uma vez que não podem intervir na revolução do próprio corpo, pelo menos anseiam pela possibilidade ideal de reformar  o mundo externo.

          Observa-se o predomínio de uma intelectualização onipotente, que é expressa numa postura provocadora do adolescente, onde ele é o "dono da  verdade".

          Entretanto, os discursos e especulações intelectuais em que os adolescentes se deliciem não constituem tentativas concretas de se resolver um dado problema, mas sim pelo simples prazer de criticar dizendo que a forma previamente elaborada não é a real.

          Muitos jovens recusam esquemas convencionais de vida e afirmam, às vezes com violência, a vontade de serem diferentes. Também não é incomum que pais pensem que seus filhos, por inclinações naturais de movimentos de contra cultura, e ainda à medida que são cabeludos, usam tatuagens ou brincos, se gostam de ouvir música alta, se gosta de se isolar no quarto, se dorme muito ou se usa óculos escuros, são marginais e estão se drogando. CAVALCANTE (1997, p. 44) contrapõe todas essas idéias ressaltando que:

"… o jovem, curiosamente, muitas vezes precisa de tudo isso, justamente e simplesmente porque é jovem."

          Uma situação pelo qual muitos pais não sabem como se portar é o amadurecimento das funções sexuais de seus filhos. Mesmo pais que pretendem ser esclarecidos e informados sobre o assunto, se surpreendem com as manifestações da sexualidade dos filhos, perguntando-se como proceder – o que permitir, como reprimir, quando orientar? É o que acontece com freqüência diante da masturbação, das primeiras praticas sexuais, diante de perguntas que se revelam desafiadoras.

          O desejo do adolescente não consiste apenas em saber como se da a reprodução humana, mas, principalmente, em conhecer tudo aquilo que, outrora, somente conhecia nos livros e nas inúmeras conversas com outros jovens.

          Percebe-se um período em que meninos e meninas passarão de um convívio predominantemente com colegas do mesmo sexo para um gradual processo de socialização. Simultaneamente, o grupo fechado dará lugar a uma progressiva individualização, numa realidade que culminara com a realidade de casais e novas unidades familiares.

O sexo para o adolescente está quase sempre associado a relações afetivas. Sua primeira relação sexual – a chamada sexarca – costuma acontecer sem planejamento prévio, nas férias, feriados ou fins de semana. O ambiente escolhido geralmente é sua própria casa, quando os pais estão ausentes. O significado desta primeira relação sexual difere entre o sexo feminino e o  masculino.  Enquanto as moças querem comprovar seu poder de sedução e correspondem mais aos estímulos emocionais, os rapazes querem afirmar sua potência, e respondem mais aos estímulos corporais.

Depois da fase do despertar sexual começa uma tumultuada fase de encontros e desencontros, namoros e novas fases de experimentações sexuais e sociais. As paixões são intensas – com frequentes juras de amor eterno -, rápidas e descompromissadas, onde o prazer, a conquista e a sedução merecem agora importante destaque em suas atividades de lazer, e esse se transforma no principal assunto nas conversas de fim de semana e burburinhos dos intervalos escolares.

Um tema que impressiona muito os adolescentes é a homossexualidade. Deve-se notar que os primeiros grupos de amizade tendem a ser do mesmo sexo, sendo comum a vivência de contextos corporais íntimas – na adolescência, experiências homossexuais acontecem com 50% dos meninos e 30% nas meninas. Por necessidades instintivas e por medo de relacionar-se com indivíduos do sexo oposto, ocasionalmente, pode haver masturbação mútua ou mesmo o coito propriamente dito.

Bastante comum é o relacionamento homossexual numa etapa mais precoce da adolescência, o que obviamente não denota de modo algum uma definitiva tendência às relações com indivíduos do mesmo sexo na vida adulta, o que não significa também que todo jovem tenha, obrigatoriamente, que passar por tais experiências.

Numa palavra, antes da puberdade, a criança não percebia a si mesma como um ser vivente, estando totalmente voltada para fora, para impressões vindas do mundo exterior. Na adolescência, ela toma consciência de si mesma, toma consciência de inexprimível e passa a sofrer pela vivência da grande solidão, tentando fazer valer o que estava escrito no templo de Apolo Delfo: conhece-te a ti mesmo. E, finalmente, diz JOUBREL( 1992, p.236 ):

"O homem quer ser maior que Deus, esquecendo-se de que ele não conhece o próprio homem."

USO E ABUSO DE DROGAS

Vimos até o momento como se dá o complicado processo de adolescer, bem como procuramos discutir os inúmeros fatores inerentes a esta etapa da vida do homem. Vejamos agora como se dá o uso de drogas pelos jovens.

Desde há muito tempo – e os homens que viviam na caverna que o digam – diversos tipos de plantas eram utilizadas para várias coisas diferentes. A cada nova planta que utilizavam, verificavam efeitos distintos, podendo ser depressoras, estimulantes ou alucinógenas. Poderia, por exemplo, utilizar plantas depressoras ou alucinógenas com o intuito de suavizar dores; plantas com efeitos estimulantes poderiam ser utilizadas para potencializar a resistência física, o que seria muito útil numa caça, ou ainda, para atravessar regiões muito distantes à procura de água.

Dessa forma, podemos dizer que esses homens apenas usavam e não abusavam de drogas, uma vez que a experiência lhe mostrou que o uso exagerado de tais extratos poderia deixá-lo impotente perante uma  invasão de tribos inimigas ou animais selvagens. O consumo excessivo de plantas de efeitos estimulantes ou alucinógenos poderia gastar tanto suas reservas de energia a tal ponto de deixá-lo à mercê de ambientes hostis.

Algumas sociedades utilizavam/utilizam plantas alucinógenas em seus rituais e cerimônias religiosas, embora somente alguns indivíduos tenham permissão de usar tais substâncias: são aqueles já iniciados na vida religiosa da tribo, os pajés.

Quem também não se lembra daqueles homens que vivem em meio à floresta amazônica e cuja cultura e religião se baseiam no culto de plantas psicoativas, comandados por um líder espiritual chamado Sebastião Mota? Embora desconhecido por algumas pessoas, o Santo Daime tem sido considerado o caminho correto para alguns, em termos de ascensão espiritual.

Se, nas situações supracitadas, fazia-se uso de drogas apenas em algumas situações, o mesmo não se dá quando falamos de sociedade moderna. Não há controle social oficialmente e nossos jovens – e não somente nossos jovens – têm consumido drogas em proporções cada vez maiores, por  quaisquer motivos que sejam, embora o estatuto da criança e do adolescente (2000, pág. 25) saliente em seu artigo 81, incisos II e III, que:

"’é proibido a venda à crianças ou adolescentes de bebidas alcóolicas e produtos cujo componentes possam causar dependência física ou psíquica, ainda que por  utilização indevida."

Nenhum jovem consome drogas por uma causa única. As fontes de consultas bibliográficas são unânimes ao considerar a inter-relação de três situações que favorecem o indivíduo jovem a utilizar entorpecentes, sendo-os: o ambiente em que vivem os adolescentes; a droga que é usada; e o indivíduo que a usa e/ou abusa.

Quando o assunto é dependência química, costuma-se comentar sobre o "mal das drogas",  ou os "problemas das drogas". O mal e o problema consistem em se achar que as drogas possuem males ou problemas. Quem os possui é o homem. Em termos ontológicos, a droga apenas é o que é, não podendo a ela ser atribuídos valores e qualificações – como o mal e o problema -, uma vez que os mesmos apenas podem existir frente a natureza humana. Assim sendo, o uso  das drogas é conseqüência de uma séria de fatores sociais, familiares e pessoais não resolvidos.

COELHO NETO (1962) diz que:

"O homem, por curiosidade, desceria ao fundo do inferno se lhe descobrisse o caminho, ainda que ele fosse assoalhado por piche ardente."

De fato, a vontade de conhecer o que não se conhece é tão forte no homem que, por ele – o conhecimento – o homem foi até expulso do paraíso, conforme relata  Gênesis.

A curiosidade pela droga se dá a partir do momento em que o jovem se depara quotidianamente com o assunto. Os pais geralmente tratam desse assunto com verdadeiro tabu, ou então, proibindo, amedrontando. Os meios de comunicação falam a todo instante da ação do tráfico e da ação policial. Os colegas, por outro lado, falam da própria experiência, do "barato", da "curtição" ou mesmo do "bode" (experiência ruim). É natural que o jovem, portanto, diante de tantos dados se pergunte e se cobre por igual experiência.

BUCHER (1989, pág. 64) afirma existirem outros fatores contribuintes para a experimentação, como:

"para ser melhor aceito em determinados grupos, pelo desejo de viver experiências diferentes, sair da rotina, etc. (…) O importante em tudo isso é nos atermos ao ao fato de a maioria das pessoas que experimentam drogas usarem-na uma ou poucas vezes e pararem. E como se, não havendo mais curiosidade nem sedução do novo e do segredo, não existisse mais necessidade de recorrer a ela."

A curiosidade sobre a droga e seus efeitos exerce forte atração para quem quer conhecer o mundo e passar por emoções fortes. Qualquer coisa nova, diferente, desperta a curiosidade do jovem – principalmente  se o objeto da curiosidade for proibido e quando se conhece alguém que a usa.

Quanto mais se adentra na adolescência, maior é a influência do grupo de amigos na vida do jovem. O adolescente necessita de aprovação, reconhecimento e  aceitação deles. Num grupo, portar uma droga pode conferir status. Seja por ser diferente, por mostrar uma rebeldia contra valores sociais, moralistas ou familiares, portar um cigarro de maconha ou uma revista pornográfica, em geral, faz o jovem crescer perante seus amigos.

Quando o grupo adota algum valor ou atitude, é estipulado que todos os seus membros devem seguir à risca o que foi determinado. O adolescente demonstra grande preocupação em não interrogar aquele que assume o papel de "chefe" do grupo acerca da natureza daquilo a que acreditam. Os apelidos como "maricas, cagão, bundão, careta" marcam muito o adolescente e podem minar sua atitude de resistir aos desejos do grupo para tomar drogas, entre outras coisas.

A personalidade do jovem matura em função de suas relações familiares, escolares e afetivas. Tal maturação lhe confere certo grau de segurança frente às adversidades da vida. Opostamente, a imaturidade lhe confere uma indesejável insegurança e dificuldade em lidar com os estímulos da sociedade contemporânea. É necessário segurança para dizer NÃO a um grupo de amigos ou conhecidos que oferece gratuitamente certa droga. MAAKAROUN  (1991, p. 80) ressalta que:

"Apenas uma personalidade com certo grau de estrutura resiste a pressão."

De fato, dizer SIM à droga e ao grupo requer muito mais comodidade, haja vista que evita as pressões, as gozações e apelidos.

A droga produz, embora egoísta e narcísicamente, uma sensação de prazer e bem-estar solitário. O grupo fornece apenas uma idéia de segurança no ato. O que se espera é que essa sensação seja imediata, desfazendo quaisquer desconfortos físicos e psíquicos que o usuário pensa existir. Dar prazer e eliminar o desprazer – ou a dor – é o que faz a droga. Assim ela passa a ocupar um espaço dentro de um jovem ainda em desenvolvimento, culminando em uma dependência. Com isso, diminui ainda mais, a capacidade do jovem de tolerar frustrações.

Usar drogas como revolta  a satisfações políticas ou familiares é um consenso geral entre os usuários. Nessa ânsia por liberdade e mudança, entretanto, existem um paradoxo, pois, ao se protestar e rebelar contra isso, pode-se ficar dependente e submisso às drogas. Troca-se a submissão à família e à sociedade pela submissão à droga.

Não entrando no mérito da questão no que se refere à liberdade pelo uso de drogas – isso será explanado posteriormente -, o jovem busca alimentar sonhos e fantasias que, no mundo em que vive, não consegue encontrar. A rotina, a insatisfação do mundo adulto, ameaças de atentados terroristas, a corrida armamentista, o consumismo exagerado, a desvalorização da moeda corrente, a fome, a doença, a morte, tudo isso pode constituir para o adolescente um manancial de coisas desprovidas de prazer. Pode ser até que um jovem diga "eu não quero, eu não escolhi este mundo." Diante de tanta dor e insatisfação, a única forma de sobreviver em meio à guerra parece ser usar uma determinada droga que,  pelo menos momentaneamente, o fará esquecer o que existe ao seu redor.

CAPÍTULO 3

FUNDAMENTAÇÃO METODOLÓGICA

Sendo este trabalho fundamentalmente um estudo bibliográfico, possui natureza qualitativa. Para tanto, apoiei-me na discussão dialética.

Quanto à bibliografia, foram consultadas fontes primárias relacionadas aos adolescentes e às drogas. Para o Pórtico[1] e para o Platonismo utilizei fontes primárias e secundárias.

No desenvolver da discussão, os seguintes pontos-chave serão abordados:

- drogas                                     – felicidade

- bem                                        – ataraxia

- virtude                                     – autarquia

- incompletude

CAPÍTULO 4

ANÁLISE DOCUMENTAL

                                                                    …   Potest beatus dici qui nec cupit

                                                                     nec timet beneficio rationis …

 

“… Podes considerar feliz quem, graças à  razão,  não   alimenta   desejos nem temores …"      

                         (SÊNECA, 1991, p. 30)

Tal sentença, austera, talvez, mas com sentido bem conciso, pode parecer estranho ao homem que, guloso, ávido, impaciente, quer no mínimo a paz, se possível a felicidade, com toda a certeza o bem-estar.

Pode-se adquirir flores, livros ou copos de Veneza, ou talvez, no raio de ação de nossos sentidos, automóveis Jaguar, roupas, vinhos de Bordeaux, como em  nossas sociedades ditas "de consumo". O corpo nos faz sentir nossos bens, mas também os nossos males.

A filosofia ocidental, embora fundamentalmente ascética, nos repetiu uma lição de caráter antropológico: o homem deseja. E mais, esse desejo é insaciável. O desejo – de sexo, de bebida, de comida, de dinheiro, de prazer – é tal que se submeter a ele é mergulhar no abismo, entregar-se a um tirano sem meias medidas. Em busca de uma sensação de plenitude, procuramos poupar, armazenar, ingerir. E, entretanto, permanecemos vazios. Nunca satisfeitos, porque, por mais que incorporemos, jamais julgamos suficiente o que incorporamos. O vazio é um estado estável, desenvolvido por um movimento de encher-sem-nunca-encher, que apenas a plenitude é capaz de curar. Muito apropriadamente, numa linguagem tecida de imagens, Platão representa a parte desejante de nossa alma como um vaso furado, razão pelo qual nunca nos saciamos.

Através de seus meios culturais, quer o saiba quer não, todo consumidor de drogas dá uma resposta prática à questão humana do bem-estar. Por isso, deve ser compreendido como alguém que executa um ato malcalculado: anular as inquietações, negociar com o incompleto, a dificuldade, o vazio, o sofrimento. Mas como resistir ao remédio que materializa a tranqüilidade de espírito? O prazer narcótico é fascinante porque é duplamente negativo: para além da sensação da dor física, ele é a sedação do mal de viver. Toda droga é paradoxalmente anestésica, mesmo as euforizantes.

Antes de continuar com a explanação, seria-nos imperioso descrever sobre um dos diálogos platônicos que, ao nosso ver, poderia nos ajudar muito. Trata-se do Banquete ou, em grego, Sympósion.

O jovem Agatão teve premiada a sua tragédia. Para festejar o prêmio, amigos são convidados à sua casa para um banquete – festa onde os gregos homens reuniam-se para beber, comer, ouvir música, dançar, conversar e, além de tudo isso, o mais importante: filosofar.  E o tema do dia era o amor.

Chegado o momento de Sócrates discursar, o mesmo se propõe a dizer a verdade  sobre Eros, o amor. A fala de Sócrates modifica assim, o sentido e a finalidade do discurso sobre o amor. Não será seu elogio, mas aquilo que o amor necessita para que seja o amor: sua essência.

Sócrates toma a figura de uma mulher experiente nas coisas do amor – Diotima. Muito jovem, é ele que a questiona sobre o amor, elaborando uma teoria que pode ser resumida da seguinte forma.     

Eros, afirma Diotima, não é um deus – não é belo nem bom -, nem é mortal – não é feio nem mau. Nem imortal nem mortal, Eros é um daimon[2], intermediário entre deuses e homens, criador de laços entre eles. Qual sua origem?

Quando nasceu Afrodite, a bela, todos os deuses foram convidados para o festim, esquecendo-se de convidar Penia (a penúria). Escondida do lado de fora, ao término da festa, Penia esgueirou-se pelos jardins para comer os restos. Viu, adormecido pelo vinho, Póros (o recurso), filho de Métis. Desejou um filho dele. Deitou-se ao seu lado e concebeu Eros. Por haver sido concebido no dia do nascimento de Afrodite, a bela, Eros ama o belo. Triste é seu destino: como sua mãe, vive maltrapilho, sem teto, sem leito, dormindo pelas ruas e nos umbrais das portas, sempre carente, faminto; como seu pai, é audaz, engenhoso, astuto, grande caçador que não larga a presa. Maquinador, hábil feiticeiro e sofista, deseja tudo o que seja belo e aspira a tudo conhecer. "No mesmo dia, floresce e vive, morre e renasce, nunca opulento, nem completamente desvalido", diz Diotima.

Não sendo deus nem tolo, ama a sabedoria. Se fosse um deus, não poderia amá-la, pois não se ama o que já se possui;  se fosse tolo, julgar-se-ia perfeito e completo e não poderia desejar aquilo cuja falta não pode notar. Eros é o desejo: carência em busca de plenitude. Eros ama. O que ama o amor? O que dura, o perene, o imortal. Ama o bem, pois amar é desejar que o bem nos pertença para sempre.

O amor dos corpos concebe e engendra a imagem da imortalidade: os filhos também mortais. O amor das almas belas concebe e engendra o primeiro acesso à verdadeira imortalidade, as virtudes. Os corpos  mortais geram filhos mortais. As almas imortais geram virtudes imortais.

Que deseja o desejo? Que ama o amor? A beleza imperecível, seu supremo e único Bem. Que é desejar-amar o Belo-Bem? Desejar possuí-lo, participando de sua bondade-beleza. Desejar é unir-se, completar-se, fazer com que tudo dure, tudo permaneça, negar a mutabilidade das coisas, negar o fluxo heraclitiano, negar o devir[3].

Drogar-se significa, antes de tudo, temer a mudança. Em sua carência, os adolescentes – e não apenas eles – amam os narcóticos. O querem – e querer é desejar -, estabelecem uma relação de philia, de amizade, de cumplicidade, de união.  Unir-se não com o homem-duplo, a mulher-dupla ou ao homem-mulher outrora divididos[4], mas com a droga. Drogar-se é unir-se, é completar-se é antes de tudo, fazer cumprir o legado que Penia determinou aos mortais através de seu filho Eros: saciar-se sempre. Drogar-se é, em última análise, consolidar-se ao Bem.

Chegamos agora num ponto que merece profunda reflexão. Que é, afinal, o Bem? Qual a relação exata entre o Bem e o narcótico? Para tanto, vejamos antes o que dizem os estóicos. SÊNECA (1991, p. 35) ressalta a importância do bem à medida que diz que o mesmo reside no:

"…juízo correto e nos hábitos morais da mente reta, que completado seu curso e fixado seus limites, sente-se feliz e de nada necessita."

O Bem é alcançado à medida que fixamos limites às ações, que são sempre tendenciosas e parciais. Esses limites, por outro lado, norteiam nossas ações, as fazem compreender que não necessitam de nada e que podem por isso mesmo, alcançar a plenitude de forma cada vez mais rápida. O hábitos morais da mente reta fazem do homem uma criatura incrivelmente rica, porque, em virtude de não necessitar de nada, por mais que possamos subtrair coisas desse homem, ele jamais se tornará pobre. Desse modo, para o Pórtico o Bem está intimamente ligado à virtude, sem a qual não se obtém um juízo correto. Ora, como aquele que não tem fixado seus limites alcançaria a felicidade, visto como o resultado final do Bem? A eudaimonia[5] é uma conseqüência direta daquele que não tem necessidades, daquele que se basta a si mesmo, daquele que, como Sócrates, anda pelos mercados meditando o quanto feliz é por não necessitar de nada. Em outras palavras, feliz é aquele que completa seu curso e alcança a autarquia[6] e a ataraxia[7].

De fato, é difícil fazer uma distinção precisa entre o soberano Bem e as virtudes; a virtude e o Bem são, no fundo, uma e a mesma coisa; não se é em primeiro lugar virtuoso para esperar o Bem em seguida. A virtude é a presença do Bem numa pessoa, é a perfeição em comum com o Todo. Tal como a ripa ou é torta ou é direita, e não mais ou menos direita, do mesmo modo não há grau na virtude, ou ela existe ou não existe e não há meio termo entre virtude e vício.

"Conhece-te a ti mesmo", talvez seja a sentença que mais nos faz lembrar de Sócrates e que teve importância fundamental em todos os seus atos. A todo instante, Sócrates interroga, segundo nos conta Platão, os cidadãos da pólis, como  escravos, prostitutas e sofistas, a respeito da idoneidade do que pensavam e faziam. À medida que os discursos começavam, seus interlocutores descobriam que não sabiam exatamente aquilo que achavam que sabiam. Eram ignorantes. E o que era pior, eram movidos pela ignorância.

No livro A República, Platão explica a Alegoria da Caverna. Nele Sócrates filosofa com Glauco e o faz pensar do seguinte modo: imaginemos, diz Sócrates, uma caverna subterrânea separada do mundo externo por um alto muro. Entre este e o chão da caverna há uma fresta por onde passa alguma luz exterior, deixando a caverna na obscuridade quase completa. Desde seu nascimento, geração após geração, seres humanos ali estão acorrentados, sem poder mover a cabeça na direção da entrada, nem locomover-se, forçados a olhar apenas a parede do fundo, vivendo sem nunca ter visto o mundo exterior nem a luz do sol, sem jamais ter efetivamente visto uns aos outros, pois não podem mover a cabeça nem o corpo e sem se ver a si mesmo porque estão no escuro e imobilizados. Do lado de fora, pessoas passam conversando e carregando nos ombros figuras ou imagens de homens, mulheres, animais cujas sombras também são projetadas na parede da caverna, como um teatro de fantoches. Os prisioneiros julgam que as sombras das coisas e pessoas, os sons das suas falas e as imagens que transportam nos ombros são as próprias coisas externas, e que os artefatos projetados são seres vivos que se movem e falam.

Nesse ponto, Sócrates diz que os prisioneiros "são semelhantes a nós". E prossegue. Os prisioneiros se comunicam, dando nome às coisas que julgam ver (sem vê-las realmente, pois estão na obscuridade) e imaginam que o que escutam, e que não sabem que são sons vindos de fora, são as vozes das próprias sombras e não dos homens cujas imagens estão projetadas na parede. Tomam sombras por realidade. Que ocorreria, entretanto,  a esses homens se pudessem sair da caverna e ver as coisas como de fato elas  são?

Essa pergunta é grave. O único mundo real é o da caverna e, portanto, a obscuridade da qual não podem se ver nem ver os outros não é percebida como tal e sim experimentada como realidade verdadeira. E a caverna é para todos o mundo real, pois não sabe que o que vêem na parede do fundo são sombras de um outro mundo, exterior à caverna. Ora, se para os prisioneiros o mundo real é o da caverna, como poderiam sair da ilusão se não sabem que vivem nela?

Um dos prisioneiros, inconformados com a sua condição, fabrica um instrumento e quebra seus próprios agrilhões. Caminhando em direção à saída da caverna, resolve escalar o muro. Enche-se de dor por causa dos movimentos que seu corpo realiza pela primeira vez e pelo ofuscamento de seus olhos sob a ação da luz externa. Fica dividido entre a incredulidade e o deslumbramento. Incredulidade porque será obrigado a decidir  onde se encontra a realidade: no que vê agora ou nas sombras em que sempre viveu. Deslumbrados porque seus olhos não conseguem ver com nitidez as coisas iluminadas. Seu primeiro impulso é retornar  à caverna para livrar-se da dor e do espanto. Esse homem necessita aprender a ver e esse aprendizado é doloroso, fazendo-o desejar a caverna, onde tudo lhe é familiar e conhecido.

Sentindo-se sem disposição para regressar à caverna por causa da rudeza do caminho, o prisioneiro permanece no exterior. Aos poucos, habitua-se à luz e começa a  ver o mundo.  Encanta-se, tem felicidade de finalmente ver as próprias coisas, descobrindo que estivera prisioneiro a vida toda e que em sua prisão via apenas sombras. Doravante, desejará ficar longe da caverna para sempre e lutará com grande força para jamais regressar a ela. No entanto,  não pode evitar a sorte dos outros prisioneiros e, por fim, toma a difícil decisão de regressar ao subterrâneo sombrio para contar aos demais o eu viu e convence-los a se libertar também.

De volta à caverna, o prisioneiro fica cego novamente, mas agora por ausência de luz. Ali dentro, é desajeitado, inábil, não sabe mover-se entre as sombras nem  falar de modo compreensível para os outros, não sendo acreditado por eles. Torna-se objeto de zombaria e riso, e correrá o risco de ser  morto pelos que jamais se disporão a abandonar a caverna.

O jovem que se droga age como um prisioneiro. Não conhecendo o exterior da caverna, acredita que o interior representa o mundo real. É aí que ele vive. É aí que ele toma decisões, embora de modo necessariamente viciado porque dentro da caverna. Não toma outras atitudes, uma vez que não as conhece. E além de não as conhecer, acha-as impertinentes e confusas. Como poderia viver dessa forma?

Como pensar que o prazer obtido com as drogas poderia lhe causar dor? Não conhecendo a luz, toma esse prazer como aquele capaz de resolver seus problemas, suas misérias, seus padecimentos. Entretanto, esquece que esse bem também pode lhe causar um grande mal, já que passageiro. No exato momento em que o efeito da droga se vai, temos a dor novamente, a ansiedade, a angústia, o vazio.

Sair da caverna significa compreender que ele se encontra submetido ao devir e que, por isso, a dor sempre estará presente um instante depois do consumo de drogas. Sair da caverna significa entender que a felicidade verdadeira não se obtém com  o uso de drogas e que, dessa forma, ele cada vez mais estará se interiorizando na caverna. Essa felicidade verdadeira, que tanto é aspirada, apenas se encontra, como já disse Sêneca, na imposição de limites aos desejos, sendo expressa pelo fato de nada precisar.

Mas como sair da caverna. Quanto a isso,  Sócrates propunha um parto das idéias[8], através do qual se pudesse gradativamente desatar as amarras da caverna e, ao invés de apenas ver as sombras de seu exterior, que possuíam apenas formas imprecisas e incertas, contemplar o Ser utilizando-se o sol do conhecimento. Em outras palavras, através do conhecimento, o toxicômano é capaz de descobrir o que o perturba e, dessa forma, ele é capaz de optar de maneira esclarecida por um novo estilo de vida, sem fronteiras, barreiras, preconceitos e meras opiniões. E, por isso, ele se sente feliz. Por outro lado, toda e qualquer recomendação que se possa dar ao dependente (?) se torna pelo menos duvidosa; afinal, como reconhecer algo cuja natureza nunca se conheceu? Desse modo, a reabilitação ao toxicômano é sempre demorada, estando o  mesmo sujeito a inúmeras recaídas.

Aquele em que consentimos em acalmar os desejos e aquele em que impomos aos desejos uma ordem e uma correção são movidos pela eudaimonía. O homem  que segue suas inclinações não é mau, mas infeliz. Infeliz porque, morando na caverna mesmo achando que fora liberto para contemplar a luz, a impressão que ele tem de acumular momentos de gozo, toda vez que acredita estar enchendo um vazio, é objetivamente enganadora. O gozador da vida não sabe que não goza. O filósofo está lá para revelar-lhe que nunca atingirá o estado para o qual tende.

 A experiência da satisfação escapa-lhe sistematicamente, de acordo com o tipo de droga e em função do tempo. Para conhecer essa condição de suficiência, não mais a alegria de um presente pouco durável, mas sim um estado permanente de felicidade, seria preciso se desviar do fluxo, do escoamento, do fluido em movimento que despenca para baixo, no continuum do desejo não satisfeito. E se desviar desse fluxo, sim, é se libertar da caverna, ter uma vida reta e feliz, porque virtuosa.

Platão propõe um gênero de vida em que se aceite os limites – assim como Sêneca e os demais estóicos -, ensinando os homens a estarem sempre satisfeitos com as coisas presentes e a nada pedir. Esse gênero de vida permite uma saciedade durável, prolongada, idêntica a si própria. O instante se prolonga, se prolonga, se solidifica sob a forma de duração contínua. Nada escorre, nada muda, não se tem necessidade de mais nada. Nessa articulação do desejo e do tempo há presente porque sempre há o bastante. Há até de sobra. E mais: esse bastante se prolonga para sempre porque esse presente é capaz de se dilatar, deixar-se viver sob a forma de serenidade, de repouso. Aquele que saiu da caverna, o sábio, possui jarras que retém bem o conteúdo, repletos de alimentos preciosos, e não pensa mais nisso. Fez  seu estoque, para sempre.

O problema não é que o prazer seja agradável mas muito curto. É, sobretudo, que o prazer seja inseparável do sofrimento que, acompanhando-o no mesmo sentido, torna-o inatingível. O resultado da análise platônica conserva uma frase de aspecto enigmático: o prazer é devir.

"Não temos ouvido dizer, a respeito do prazer, que ele é apenas devir perpétuo e não tem nenhuma existência? Àquele que revela que o prazer é um vir-a-ser constante, mas não tem jamais uma existência, devemos ser reconhecidos, por que ele deixa cair num ridículo escandaloso os que proclamam que o prazer é um bem." (PLATÃO em Filebo in Sissa, p 32)

Ao prazer falta substância, apesar de sua intensidade, justamente porque ele não pode absolutamente subsistir no tempo, durar um único instante. Dizer que o prazer é devir significa ainda uma vez exprimir o não-ser do ponto de vista da temporalidade. Todos os que perdem o seu tempo acreditando desfrutar prazer são os que tomam seus desejos pelos prazeres reais. O prazer é devir. O prazer é, portanto, dor.

Logo, o desejo tem esse poder, o de saciar, de quebrar inquietações de natureza carencial existente na alma. Mas se o prazer da droga não existe, uma vez que é um fluxo, que existe afinal? Como destruir as amarras que tanto denigrem a liberdade e acabar, assim, com todas as inquietações? Sêneca responde a essas perguntas de forma bastante simples, citando seu exemplo:

"Entretanto, como todos os sábios, saibas que sigo a natureza: é sábio não se distanciar dela e obedecer a seu exemplo e lei." (SÊNECA,1991, p. 25)

A natureza é concebida como um conjunto de leis providenciais que regem o Todo. Viver em conformidade com a natureza significa respeitar o tempo, o espaço, a morte. Meditar sobre a natureza significa meditar sobre nós mesmos e nossa relação com o mundo que nos cerca. O pensamento sobre a natureza é capaz de gerar resignação e controle sobre si mesmo. Autarkéia: aqui se encontra o melhor e mais apetitoso dos alimentos; caso contrário,

"Se o prazer o domina, como resistirá ao cansaço e ao perigo, à pobreza  e às ameaças que pairam sobre a vida? Como suportará a visão da morte, as dores, a fúria dos elementos, e tantos inimigos obstinados, ele que se deixa vencer por tão débil adversário?" (SÊNECA, 1991, p. 25) 

O prazer em si não é o mal. O homem e mesmo os animais tendem a repulsar a dor e procurar o prazer. O problema reside na obtenção  de prazer sem limites, sem fronteiras, que tem como objeto motivador algo que os sentidos podem captar. Marco Aurélio admoesta o homem, incentivando-o a todo instante  a uma introspeção, conforme a seguinte referência:

"Olhe para o teu interior. Aí reside a fonte do bem inesgotável." (MARCO AURÉLIO, p. 15)

          

Os desejos provocam maior ou menor grau de servidão, e é este o núcleo que os estóicos querem tocar, pois um homem submetido a escravidão de uma paixão não pode escolher. O homem apaixonado é sempre parcial, estando afastado da escolha de uma ação moral por um subjugo. Ou, dizendo melhor, "escolhe de modo necessariamente viciado". 

Consta que Zenão de Cício tinha uma grande paixão por Cremônides e, em certa ocasião, estando sentado com Cleanto, seu discípulo e futuro mestre da Stoa, à aproximação do amado, tão logo pôde vê-lo, esquivou-se, o que espantou Cleanto. E Zenão teria dito sobre o fato:

"…Ouço dizer, pelos bons médicos, que o melhor dos remédios contra as inflamações é a calma…" (DIÓGENES LAÉRCIO, VII, p. 13)

O homem escravo das inflamações da alma deve procurar curar-se ou, profilaticamente, esquivar-se da doença. Isto se efetiva tendo como pano de fundo a figura do outro, quer seja homem, coisa ou situação.  Aquele que se escraviza acha-se impedido, nesse estado, de seguir a ordem do Todo. O Pórtico "deseja", talvez "apaixonadamente", a ausência das grandes perturbações da alma mediante o esvaziamento do outro como lugar de diferença. Isso nada mais é que aphatia[9].

Então, como médicos da alma, previnem, nos limites possíveis, tais inflamações pela ataraxía. Obter a ausência das inflamações, como disse Zenão, é também conseguir a autarckéia, ter o poder de si mesmo, estado que no sábio é possível sempre. A ataraxia é, portanto, o apaziguamento das agitações e inquietações. Quanto a autarquia, um bom exemplo de homem autárquico, no sentido estóico, foi Epicteto. Como se sabe, foi escravo e ganhou a liberdade por sua responsabilidade e inteligência. Estando no domínio efetivo do outro – de seu dono -, era reto e pregava apesar de sua situação de vida, o domínio de si. Não se considerava escravo do outro nem de si mesmo, dentro dos princípios da Stoa. Contam os historiadores que, enquanto escravo de Epafrodite, Epicteto foi submetido à tortura – torceram-lhe a perna – para reconhecer que era escravo e tinha um dono. Durante a tortura, advertindo ao seu senhor que a perna se quebraria, o que de fato aconteceu, continuava a dizer que era senhor de si mesmo.

Aqui chegamos a um ponto ímpar: a importância e o predomínio que o "eu" deve ter em relação ao "outro". Quanto a isso, muito sabiamente, Epicteto nos ensina que:

"… qualquer que seja a coisa exterior, estimá-la é sujeitar-se ao outro… Agir com reserva, com segurança, evitar todo desejo e toda aversão a respeito das coisas exteriores são os limites que é preciso respeitar…" (EPICTETO, 1948, p. 24 )

Com isso, Epicteto indica o quão escravo o homem é capaz de se tornar do meio. Não que o homem seja invariavelmente uma vítima do meio. Ao contrário, ele possui os elementos certos para ter uma vida mais virtuosa e feliz. Somos educados desde criança a querer algo. E mais, a brigar por esse algo como se ele fosse indispensável.  Não há nada de mau nisso, desde que o "outro" não subjugue o "eu", retirando sua capacidade de escolha e o seu maior bem.

O prazer é tomado como o fruto do meio, do outro. Com isso, ignoramos as verdadeiras potencialidades do ser humano. Assim, o homem é rebaixado à condição das feras, sempre guiadas pela satisfação, onde o "eu" é praticamente inexistente. Mas como desfrutar de uma vida virtuosa se o "eu" não é? Como poderia o "eu" não-ser? Como poderiam as paixões ser, se elas nos conduzem ao não-ser, ao á-logos?

Por mais que algumas drogas possam determinar momentos – mesmo transitórios – de serenidade, definitivamente não representam o melhor méthodos[10]. Sua transitoriedade denuncia isso. As drogas com poder euforizantes denunciam mais ainda. Não há caminho melhor que o da natureza. Com a natureza, o homem alcança o que era inalcançável com as drogas, o verdadeiro Bem, a fonte inesgotável de bem-aventurança.

Se as circunstâncias nos perturbam – como nossa situação financeira, como o desejo por um objeto inalcançável, como a doença de um ente querido, como a morte de um filho que consumia drogas -, como poderemos compartilhar de algo maior, sublime, puro? Se a particularidade nos afeta, como poderemos compreender a ousía[11] do Todo, da natureza, do sublime? Submeter-se ao inevitável é á-logos[12]. Perturbar-se ao inevitável é a maior de todas as tolices.  Quanto a isso, a aphatia  se faz presente sempre. A indiferença é o único phármakon[13]  para os males da vida, que tanto nos faz revoltar contra nosso próprio destino.

Marco Aurélio nos coloca uma questão fundamental quanto ao nosso por vir:

"Não desdenhes da morte, acolha-a, todavia, como uma das coisas que a natureza deseja. Igualmente a mocidade, a velhice, o crescimento, a maturidade, o nascer dos dentes e da barba, os cabelos brancos, a procriação, a gestação, o parto e as demais funções físicas trazidas pelas estações da vida. Assim também a dissolução. Cabe pois ao homem sensato não se mostrar, diante da morte, nem temeroso, nem impaciente, nem desdenhoso, mas aguardá-la como um fato natural. Da mesma forma como esperas que teu filho saia do útero da mãe, espera a hora em que tua alma deixará seu invólucro." (MARCO AURÉLIO, p. 37)   

Se o inevitável se faz presente, nada se pode fazer senão contorná-lo e continuar vivendo como se ele não tivesse muita importância. Ser apático significa tomar o ser pelo não-ser.

Viver bem significa viver em conformidade com a ordem natural das coisas. Cabe ao sábio não se utilizar de artifícios, como o ato de drogar-se, com o intuito de fugir de algo contra o qual ele nada pode fazer. Isso seria tolice. O phármakon reside na apatia, na resignação que anda em conformidade com a natureza. Negar o natural é á-logos. Perde-se dessa forma muitas oportunidades de desfrutar de eudaimonía.

Para os estóicos não há nada pior que negar o tempo. Assim como a natureza, o tempo nos oferece bons mecanismos que nos norteiam para a virtude e para o bem. Por isso, mais uma vez o Imperador Marco Aurélio nos admoesta:

"Não te conduzas como se fosseis durar milhares de anos. Enquanto vives e podes, esforça-te para tornar-te homem de bem." (MARCO AURÉLIO, p. 36)

Tudo passa, tudo muda, nada permanece idêntico a si mesmo, nem mesmo o homem. Apoiar-se em algo submetido ao devir implica necessariamente ao sofrimento, à medida que o objeto tão querido pode não se fazer presente no dia de amanhã. A única coisa que realmente pertence ao homem é o próprio homem, haja vista que até o seu corpo é capaz de perecer.

O tempo tem esse poder. O de transformar tudo. O de fazer com que o homem se torne cada vez melhor em relação ao dia anterior. O tempo nos faz entender o quão completo é o homem e o quão feliz ele pode ser. Por mais estranho que possa parecer em nossa sociedade, que a todo momento insiste em afirmar a supremacia do homem em relação ao tempo – através de academias de ginástica, de salões de estética, da inquietação que pode nos induzir a usar drogar – o tempo é superior ao homem. A mitologia nos mostra o Titã Chónos[14] devorando seus filhos. A única coisa que fica é a lembrança dos que se foram e o bem que se pôde fazer. Nada sobrevive, nada fica. "Mas se a vida não tem sentido, se tudo têm um termo, então por que não enamorar minha única amiga fiel, a droga?", podem pensar alguns. Por que o homem deve agir com ética – não a ética humana -, mas a ética da natureza, cabendo a ele suportar tudo aquilo que vier. E mais, essa ética não conhece fronteiras, limites, nem muralhas. O sábio é chamado a administrar o pharmakón nos enfermos, fazendo-os compreender o quão fútil e desprezível é a condição humana. É chamado a constituir um reino, onde cada cidadão é um sábio. E esse reino, é o mundo. Por isso, Zenão de Cício se insurge contra uma organização do mundo dividida em cidades e povos, possuindo cada um leis particulares e vendo nos outros estrangeiros e inimigos. Todos os homens são iguais, pois que todos são cidadãos da República de Zeus, devendo viver unidos sob uma lei comum, como um rebanho guiado por um pastor. Não há divergências; não há guerras; não há dificuldades políticas; não há clínicas para drogados pelo simples fato de não existir motivos para o consumo de drogas. Para esse reino, o único limite é o espaço. O único conselheiro, o tempo. O único objetivo, o Bem.

CAPÍTULO 5

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Os jovens, principalmente em função de características que lhe são próprias, estão altamente propícios às influências inerentes ao meio. Seu motor é a práxis (ação, ato), preocupando-se muito mais com o gozo imediato do aqui e agora que especulações sobre o que o leva a pensar e agir de tal modo. E o que é pior, sofrem as conseqüências disso.

A filosofia, entretanto, vem mostrando algo novo para eles, algo com o qual nunca tinham se deparado. Novas perspectivas  se abrem . Platão e a filosofia do Pórtico a todos o momento tentam lhe mostrar que o único meio de alcançar aquilo que, de fato, todos buscam – a felicidade -, é desprezando velhos hábitos, condicionamentos e preconceitos.

A fórmula é simples: bastar-se a si mesmo, vivendo em conformidade com a natureza, amando o tempo e sendo indiferente frente ao inevitável. Todo tipo de vivência, por mais conveniente e confortável que seja, deve ser desprezado, já que transitório.

Esse phármakon prescrito é o único capaz de curar uma alma acostumada a um gênero de vida afeita aos prazeres. Mas, a pretexto disso, esse phármakon  nos mostra qual o único prazer e, por isso, o único Bem: aquele que não conhece a dor.

A virtude é o caminho. E cabe ao homem virtuoso não se refugiar nas drogas frente as intempéries do dia-a-dia, mas aceitar incondicionalmente tudo aquilo que o Todo coloca à nossa frente. E o que é melhor, retirar desses fatos inevitáveis algo que seja capaz de cooperar de modo significativo com a nossa própria vida.  

BIBLIOGRAFIA

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REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

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[1] .  Zenão de Cício foi o fundador dessa escola. Por isso,  no início, seus discípulos eram chamados de zenonianos. Entretanto, como era de costume da época assumir o nome do local onde era fundada (como a Academia de Platão), a escola passou a ser chamada de Estoicismo. Zenão a fundou nas redondezas de um pórtico de Atenas. Como em grego pórtico se escreve Stoa, muitas vezes o Estoicismo é chamada de Stoa ou Filosofia do Pórtico.

[2] . Um espírito, um gênio ligado a uma cidade com o seu protetor, ou a uma pessoa, determinando seu caráter a ser destinado. (in Chauí)

[3] HERÁCLITO DE ÉFESO : pré-socrático considerado por muitos o mais importante filósofo até Sócrates. Seu pensamento baseia-se na idéia de que o mundo é formado pelo devir, isto é,  pela transformação do contrário no seu oposto.

[4] . Segundo o discurso de Aristófanes, em O BANQUETE.

[5] . Felicidade com perfeição ética, como resultado da vida virtuosa (in Chauí)

[6] . Autárkeia em grego, a autarquia é o ideal mais alto da ética e da política porque significa liberdade. É livre quem encontra em si mesmo o princípio de uma existência e da sua ação e possui por si mesmo o poder para agir e para julgar. (in Chauí)

[7] . Imperturbabilidade da alma.

[8] . A palavra maieuía significa parto.  Dessa forma, Platão criou maieutiké – parto das idéias -, querendo indicar o processo pelo qual Sócrates alcançava o conhecimento verdadeiro. A mãe de Sócrates era parteira.

[9] . Indiferença quanto ao inevitável.               

[10] . Investigação que segue um modo ou maneira planejada e determinada para conhecer alguma coisa (in Chauí)

[11] . Essência, ser, realidade. Em latim o verbo esse (ser) corresponde ao grego einai (infinito de eimi,  eu sou); também em latim, essentia corresponde ao grego ousía.

[12] . A palavra logos sintetiza vários significados que, em português, estão separados, mas unidos no grego. O logos dá a razão, o sentido, o valor, a causa, o ser da coisa. Ao adicionarmos o prefixo de negação, temos à-logos que é o que não tem sentido, o não-ser.  

[13] . Fármaco, toda substância capaz de produzir uma alteração benéfica ou maléfica na natureza de um homem.

[14] . O tempo na mitologia grega, Chónos  era o deus supremo do Olimpo, sendo destronado por Zeus