Índice

Continued from:

A emancipação da Grécia e a questão do Oriente

Não deixou de concorrer para a revolução de 1830 a libertação da Grécia, inflamando as imaginações. O desejo de emancipação política, geral entre os povos europeus, estendera-se, como era fácil de prever, às populações cristãs sujeitas ao domínio otomano, as quais na Rússia encontraram, a partir do século XVIII, uma protetora devotada se bem que não desinteressada, agindo em nome do pan-esla-vismo, que é uma manifestação do princípio das raças. A Rússia encontrava porém um vivo antagonismo à sua ação por parte da França, cuja influência no Levante dependia do protetorado que lhe fora atribuído sobre os cristãos aí residentes, da Áustria, que exercia jurisdição sobre grandes populações eslavas fixadas nos territórios danubianos, e da Inglaterra, cujos interesses já eram mundiais e para a qual tinha particular importância a questão do caminho para a índia, que a Rússia por longo tempo ameaçou atingir e que a Alemanha moderna projetou alcançar por meio do prolongamento do caminho de ferro de Bagdá, firmando primeiro sua preponderância em Constantinopla.

Esses eram os elementos principais da tão famosa "questão do Oriente", que nunca deixou de perturbar a Europa no decorrer do século XIX e foi em 1914 o motivo imediato da grande conflagração, sem que os arranjos subseqüentes da paz conseguissem eliminá-la como fator de discórdia. O império otomano, outrora tão pujante, cujos janízaros por várias vezes chegaram até as portas de Viena, salva em 1683 pelo rei da Polônia, João Sobieski, apresentava sintomas de debilidade na heterogeneidade das suas populações, no crescente vigor da Rússia, manifestando-se pelo espírito de conquista, na cupidez insubmissa dos seus paxás ou governadores de províncias. O sultão Mahmud, que reinou de 1808 a 1839, iniciou largas reformas no sentido do desenvolvimento material e da abolição dos preconceitos de raça e de religião, mas estes foram mais fortes do que a sua vontade e a roda da fortuna continuou a girar em seu desfavor.

O fermento da revolta contra o poderio muçulmano era sobretudo intenso entre os helenos, cujo passado glorioso mais humilhante fazia parecer a degradação da sujeição em que tinham caído. A insurreição grega, preparada nas sociedades secretas tanto em voga, aderiu à revolta romaica e ambos iniciaram mais uma guerra nacional, feroz e sanguinária. O congresso do Épiro proclamou em 1822 a independência da Grécia que a Europa liberal acolheu com a maior simpatia, atraindo voluntários de todos os países, entre eles lorde Byron, falecido em Missolonghi (1824).

A Santa Aliança não via com bons olhos esse movimento, que tinha para ela o defeito de ser emancipador, e tratou de desanimá-lo. A Grécia sofreu todos os horrores de uma guerra em que turcos e egípcios puseram sua sanha tradicional, até que Nicolau I, sucessor de Alexandre, resolveu intervir em prol dos seus irmãos ortodoxos. Receosas da supremacia que ia assim alcançar o czar, a Inglaterra e a França juntaram-se à Rússia para restaurarem a nacionalidade helénica (Tratado de Londres de junho de 1827), e ainda em 1827 sua esquadra combinada destruiu a esquadra turca nas águas de Navarino, porto no Mar Jônio, na província de Messênia. Forças francesas desembarcaram na Moróia e forças russas chegaram até Andrinopla, onde a 14 de setembro de 1829 se firmou o tratado que constituiu a Grécia em Estado livre, regido por um governo provisório presidido pelo patriota Capo d’ístria; erigiu em principados autônomos a Sérvia, Moldávia e Valáquia (os dois últimos formariam depois a România) sob o protetorado russo, e concedeu à Rússia não só territórios na Armênia, como a livre passagem pelos Dardanelos para suas frotas. Assassinado Capo d’ístria em 1831, a Grécia foi transformada em monarquia regida por Otão, príncipe da Casa da Baviera.

* * *

Deixe um comentário

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.