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Curso de Filosofia – Régis Jolivet

Capítulo Segundo

O JUÍZO Ε Α PROPOSIÇÃO

ART.  I.    DEFINIÇÕES

16.      Definição do juízo. — O juízo é o ato pelo qual o espírito afirma alguma  coisa de outra; "Deus  é bom", o "homem  não é imortal" são juízes,   enquanto  um afirma de Deus a bondade, o outro nega do homem a imortalidade.

O   juízo   comporta   então   necessariamente   três   elementos,   a a saber: um sujeito, que é o ser de que se afirma ou nega alguma coisa –  um atributo ou predicado: é o que se afirma ou nega do sujeito;,  – uma afirmação ou uma negação.

O sujeito e o atributo compõem a matéria do juízo e a forma do juízo resulta da afirmação ou da negação.

Definição  da proposição. — A proposição é a  expressão verbal do juízo.

Ela se compõe, como o juízo, de dois termos, sujeito e predicado, e de um verbo, chamado cópula (isto é, elo), pois liga ou desliga os dois termos.

O verbo da proposição lógica é sempre o verbo ser, tomado no sentido copulativo ou relativo, como nesta proposição: "Deus é bom", e não no sentido absoluto, em que ele significa existir, como nesta proposição: "Deus é". Muitas vezes o verbo gramatical compreende a um tempo o verbo lógico e o atributo. Assim, esta proposição: "Eu falo" se decompõe, do ponto-de-vista lógico, nesta: "Eu sou falante". Da mesma forma, "Deus existe" se decompõe assim: "Deus é existente".

ΑRT. II.    ESPÉCIES DE JUÍZO E DE PROPOSIÇÕES

Classificação dos juízos

do ponto-de-vista de sua forma e do ponto-de-vista de sua matéria.

a)    Do ponto-de-vista da forma. Distinguem-se os juízos afir-mativos e os juízos negativos.

 

b)    Do  ponto-de-vista  da  matéria.   Distinguem-se  os  juízos analíticos e os juízos sintéticos.

Chama-se analítico um juízo em que o  atributo é ou idêntico1 do sujeito  (o que é o caso da definição; "O homem é um animal racional"), ou  essencial ao sujeito   ("O homem é  racional"), ou próprio  (1) ao sujeito  ("O círculo é redondo").

Chama-se sintético um juízo cujo atributo não exprime nada de essencial, nem de próprio ao sujeito: "Este homem é velho", "O tempo está claro".

 

2. Classificação das proposições. — Podemos classificar as. proposições do ponto-de-vista da quantidade e do ponto-de-vista da qualidade.

A.    A quantidade de uma proposição depende da extensão do> sujeito. Pode-se então distinguir:

a) As proposições universais: aquelas cujo sujeito é um termo universal, tomado universalmente. Por exemplo: "O homem (ou: todo homem) é mortal".

b)    As proposições particulares: aquelas em que o sujeito ê um termo particular: "algum homem é virtuoso".

c) As proposições singulares: aquelas cujo sujeito ê um termo singular: "Pedro é sábio", "esta árvore é velha". Estas proposições, pela razão dada anteriormente (12), devem ser assimiladas, às proposições universais.

 

B. A qualidade de uma proposição depende da afirmação ou da negação, conforme a relação do atributo ao sujeito seja uma relação de conveniência ou de não-conveniência.

(1)    A propriedade em lógica é um caráter que não pertence à essência do sujeito, mas decorre dela  necessariamente.

3) As quatro proposições - Como toda proposição tem no mesmo tempo uma quantidade e uma qualidade, podem se distinguir quatro espécies de proposições, que os lógicos designam por vogais, a saber:

a)     A universal afirmativa (A) : Todo homem é mortal.

b)     A  universal negativa   (E) :   Nenhum homem   é  puro espírito.

c)     A particular afirmativa (I) : Algum homem é sábio.

d)     A particular negativa (O) : Algum homem não ó sábio,

4.    Relação  dos termos do  ponto-de-vista   da   extensão,  nas universais.

a)     Nas afirmativas  (A), o sujeito é tomado em toda a sua extensão, mas o predicado é tomado apenas em parte de sua extensão. "O  homem é mortal" significa que o homem é um dos mor tais, isto é, uma parte dos seres mortais.

b)     Nas negativas   (E),  o  sujeito  e o atributo  são tomados um e outro em toda a sua extensão: "Nenhum homem é puro espírito" significa que o homem não é nenhum dos puros espíritos.

Art.    III.    DA OPOSIÇÃO

18        1. Noção. — Quando se tomam as proposições não já em si mesmas, mas em suas mútuas relações, verifica-se que elas podem opor-se entre si de várias maneiras. Definiremos então a oposição como a relação de duas proposições que, tendo o mesmo mi jeito e o mesmo predicado, têm uma qualidade ou uma quantidade diferente, ou seja, a um tempo, uma qualidade e uma quantidade diferentes.

2.    As diversas oposições. — São em número de qualro.

a)    As proposições contraditórias. Chamam-se contraditórias duas proposições que diferem ao mesmo tempo pela quantidade o pela qualidade: uma nega o que a outra afirma, sem que haja in termediário entre a afirmação e a negação:

Todo homem é sábio (A).

Algum homem não é sábio (0).

b)     As proposições contrárias. Chamam-se contrárias duas proposições universais que diferem pela qualidade:

Todo homem é sábio (A). Nenhum homem é sábio (E).

c)     As proposições sub contrárias. Chamam-se subcontrárias duas proposições particulares que diferem pela qualidade:

Algum homem é sábio  (I). Algum homem não é sábio (O).

d)     As proposições subalternas. Chamam-se subalternas duas proposições que só diferem em quantidade:

Todo homem é virtuoso (A). Algum homem é virtuoso  (I). Nenhum homem é puro espírito (E). Algum homem não é puro espírito  (0).

Lei das oposições.

a)     Lei das contraditórias. Duas proposições contraditórias (A e O, Ε e I) não podem ser nem verdadeiras, nem falsas ao mesmo tempo. Se uma é verdadeira, a outra é necessariamente verdadeira, a outra é falsa, a outra é necessariamente verdadeira.

b)     Leis das contrárias. Duas proposições contrárias (A e E) não podem ser verdadeiras ao mesmo tempo; se uma é verdadeira, a outra é falsa. Podem, no entanto, ser falsas ao mesmo tempo

Em matéria necessária (isto é, desde que o predicado seja da essência do sujeito), duas contrárias não podem ser simultaneamente falsas. Pode-se, então, concluir da falsidade de uma a verdade de outra.

 

c)     Lei das subcontrárias. Duas proposições subcontrárias (I e O ) não podem ser falsas ao mesmo tempo. Mas podem ser verdadeiras ao mesmo tempo

Em matéria necessária, duas subcontrárias não podem ser verdadeiras simultaneamente, Pode-se, então, concluir da verdade de uma a falsidade de outra.

 

d)        Leis das subalternas. Duas proposições subalternas (A e I, E e O) podem ser verdadeiras ao mesmo tempo e falsas ao mesmo tempo, assim como uma pode ser verdadeira e a outra falsa.

 

ART.    IV.    CONVERSÃO DAS PROPOSIÇÕES

 

1.     Natureza   da   conversão. — Seja   a   proposição   seguinte:

"Nenhum círculo é quadrado". Podemos enunciar a mesma verdade, invertendo os termos, isto é, fazendo do sujeito, predicado, e, do predicado, sujeito: "Nenhum quadrado é círculo". Desta forma convertemos a primeira proposição, quer dizer, transpomo-la, por inversão dos extremos, em uma outra proposição exprimindo a mesma verdade. A conversão pode então ser definida como o processo lógico que consiste em transpor os termos de uma propondo sem modificar a qualidade.

 

2.    Regra geral da conversão. — A proposição que resulta da conversão não deve afirmar (ou negar) nada mais do que a proposição convertida. Portanto, ora a quantidade da proposição não muda (conversão simples), ora, ao contrário, há mudança de quantidade (conversão por acidente).

 

3.    Aplicações.

 

a)     A universal afirmativa (A) se converte em uma particular afirmativa. Seja a proposição: "Todo homem é mortal". Homem é universal, e mortal é particular (17). Teremos então: "algum mortal é homem".

Esta proposição, como não se converte simplesmente, não é recíproca. É necessário abrir exceção para o caso em que a universal afirmativa é uma definição. Neste caso, ela se converte simplesmente: "O homem é um animal racional". "O animal racional é o homem".

 

b)     A universal negativa (E) se converte simplesmente, porque os dois termos são aí tomadas universalmente (17) : "Nenhum homem é puro espírito". "Nenhum puro espírito é homem". Esta proposição é então recvproca.

 

c)     A particular afirmativa (I) se converte também simplesmente, quer dizer que ela é reciproca, porque os dois termos são aí tomados particularmente: "Algum homem é sábio". "Algum sábio é homem".

 

d)     A particular negativa (O) não pode ser convertida regularmente. Seja a proposição:  "Algum homem não é médico"; não

se pode fazer do sujeito homem um atributo, porque ele tomaria uma extensão universal na proposição negativa: "Algum médico não é homem".
Mas podemos converter esta proposição por contraposição, isto é, acrescentando a particular negativa aos termos convertidos: "Algum homem não é médico"; "Algum não médico não é não homem"; isto é: "Algum não médico é homem"




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Capítulo Segundo

A   LEI

4 Após termos falado do fim último do homem, devemos tratar da lei, regra extrínseca dos atos humanos. Estes serão bons ou maus, segundo estejam ou não conformes à lei moral, isto é, conformes, em dependência da lei natural e das leis positivas que a explicam e a determinam, ao plano que Deus estabeleceu em sua sabedoria, para conduzir todas as coisas a seu fim.

ART.    I.    A LEI EM GERAL

Santo Tomás define a lei: uma ordenação da razão, promulgada para o bem comum por aquele que dirige a comunidade.

1.       A lei é uma ordenação da razão, no sentido de que se apóia em considerações que a justificam. É, pois, o contrário de uma ordem arbitrária, baseada no simples capricho.

2.       A lei tem por fim ó bem comum e não tal ou qual bem particular. Sem dúvida, a lei obriga cada indivíduo, mas se dirige a todos, tendo em vista o bem comum de todos. Ora, este bem comum de todos é sempre, e necessariamente, o próprio Deus, fim último d<? universo.

3.       A lei deve ser promulgada, sem o que não poderia obrigar, porque se dirige antes de tudo à inteligência e não pode ser obedecida se não for suficientemente conhecida.

4.       A lei é sustentada por aquele que dirige a comunidade, quer dizer, por aquele a quem compete ordenar para o bem comum: Deus, de início, depois todos os que exercem em seu nome a autoridade que não pertence senão a Ele.

ART. II.    A LEI ETERNA

255      1. Definição. — Toda ordem tem seu princípio em Deus, criador e soberano senhor de todas as coisas. A lei eterna não é nada mais do que a própria ordem do universo enquanto se impõe a cada criatura para a obtenção de seu fim último. Em outras palavras, ela é, diz Santo Tomás, o plano de governo de todas as coisas, tal como existe na inteligência divina.

2.       Existência da lei eterna. — Que esta lei eterna existe é o que ressalta com evidência da consideração dos atributos divinos. Deus não pode dirigir as criaturas para seu fim último a não ser segundo um plano, e um plano conforme à razão (231). A criação não é obra de uma força cega, mas de uma vontade infinitamente sábia, que age em conformidade com a ordem estabelecida pela inteligência divina.

3.       Como conhecemos a lei eterna? — Não podemos conhecê-la tal como existe na inteligência divina. Nós a conhecemos enquanto se acha impressa por Deus em nossa razão, sob forma dos princípios universais, que regulam a conduta moral, — ou ainda pela Revelação.

ART. III.    A  LEI NATURAL

256      1. Definição. — A lei natural é a lei que o homem conhece pela luz natural de sua razão, enquanto implícita na natureza das coisas. É uma participação da lei eterna na criatura racional, uma impressão em nós da luz divina, pela qual podemos discernir o bem e o mal.

2.    Existência.

a) O testemunho da consciência. A consciência testemunha altamente a existência da lei natural. Com efeito, a inteligência não pode deixar de pronunciar certos juízos como também não pode deixar de considerá-los evidentes, qualquer que seja a oposição que eles possam encontrar da parte de nossas paixões e de nossos preconceitos: "É necessário fazer o bem e evitar o mal" (primeiro princípio da moralidade); "é necessário dizer a verdade, respeitar o bem do próximo, ser fiel às suas promessas etc." Todos estes juízos nos são dados como exprimindo obrigações morais às quais não podemos fugir sem incorrer na censura de nossa consciência. É a este conjunto de juízos práticos universais, que se chama lei natural  (ou direito natural).

b) As objeções positivistas. Os positivistas modernos (Durkheim, Lévy-Brühl etc.) pretenderam destruir a noção de uma lei natural ou de um direito natural, observando que o bem e o mal resultam unicamente das influências sociais (educação, leis, costumes etc), — e também que práticas consideradas hoje como más foram outrora tidas por boas e legítimas (poligamia, sacrifícios humanos, assassínio de pais envelhecidos etc).

Estes argumentos não procedem. Com efeito, há atos que reconhecemos como bons (ou maus) em si mesmos e por si mesmos, independentemente da lei humana (como dizer a verdade, ser fiel à palavra dada, amar a seu pais). — Por outro lado, se nós nos reconhecemos obrigados a obedecer às leis humanas e aos preceitos transmitidos por nossos educadores, é em virtude de uma lei natural que nos ensina que é bom obedecer àqueles que estão investidos de uma autoridade legítima. — Enfim, os fatos invocados pelos positivistas estão longe de provar que não há lei natural. Com efeito, eles constituem, ou falsas aplicações da lei natural: os selvagens que matam seus pais, quando estes envelhecem, pensam manifestar-lhes seu amor filial, livrando-os das desventuras da velhice, — ou então estes fatos dizem respeito apenas a aspectos secundários da lei natural: tal o caso da poligamia, que não é absolutamente contrária aos fins primordiais do casamento.

3. Natureza. — Resulta do que dissemos que a lei natural possui:

a) A imutabilidade intrínseca, quer dizer, a lei natural é imutável em si mesma, e seus primeiros princípios não podem desaparecer da consciência: com efeito, a natureza humana, regida por esta lei, não manda, muito menos a razão divina de onde procede esta lei.

É necessário, todavia, admitir a possibilidade e a realidade de certo progresso do direito natural, no sentido de que, pelo avanço da civilização, pelo desenvolvimento e extensão do saber, produz-se ouco a pouco um aperfeiçoamento das exigências da lei natural. Vê-se, além disso, que este progresso diz respeito apenas às aplicações mais ou menos remotas dos princípios gerais do direito natural.

b) A imutabilidade extrínseca. A lei natural é também imutável extrinsecamente, no sentido de que é ilícito tanto ab-rogá-la. transgredi-la, mesmo parcialmente, ou dispensá-la (ao menos em suas prescrições fundamentais), quanto é impossível à criatura humana renunciar, no todo, ou em parte, a sua natureza.

257 4. O primeiro princípio da lei natural. — Este princípio que governa, enquanto primeiro princípio, toda a vida moral, é o seguinte: é necessário fazer o bem e evitar o mal.

a)          Evidência do primeiro princípio. O primeiro princípio da ordem prática, como o primeiro princípio da ordem especulativa (princípio de identidade: o que é, é), exprime uma evidência absoluta e absolutamente primeira, à luz da qual se desenrola toda a vida moral, como toda a ciência se constrói sob a luz do princípio’ de identidade e de contradição.

b)          Origem do primeiro princípio. Como o primeiro princípio da ordem especulativa, o primeiro princípio da ordem prática é apreendido no ser, por uma intuição imediata. Do mesmo modo, como a inteligência apreende imediatamente, no ser objetivo que se oferece a ela, a lei universal do ser, que é a de ser conforme a si mesmo (141, 177), assim também ela apreende imediatamente, no ser que se apresenta como o termo de nossas tendências, quer dizer, como bem, a lei universal do bem, que é a de ser querido e possuído, enquanto o mal aparece como o que contraria nossas tendências e compromete nossa perfeição, devendo, portanto, ser evitado. Estas noções de bem e de mal são, pois, absolutamente primitivas como a intuição do ser, embora sejam submetidas, como o desenvolvimento da razão, a uma explicitação e uma precisão progressivas.

5. Os preceitos da lei natural. — A lei natural compreende, como o primeiro princípio, algumas aplicações muito gerais deste primeiro princípio. São as seguintes:

a)         Enquanto ser vivo, o homem deve respeitar o ser que recebeu de Deus, o que o obriga a zelar pela manutenção de sua vida e de sua saúde e o proíbe matar-se a si próprio.

b)         Enquanto ser racional, o homem deve conduzir-se como uma pessoa, quer dizer, desenvolver sua razão pela busca do verdadeiro, sua liberdade pelo domínio de suas paixões, sua vida moral pela religião.

c)         Enquanto membro de uma espécie, o homem deve poder contribuir pelo casamento (se tal é sua vocação), pela procriação e educação das crianças, à conservação da espécie humana.

d)         Enquanto ser social, o homem deve obedecer às autoridades encarregadas de assegurar o bem comum da sociedade.

ART. IV.    A LEI POSITIVA

258      1.    Natureza.   — A lei natural   devem-se   acrescentar as   leis

positivas, divinas e humanas, para explicá-las, e determinar-lhes as diversas aplicações. Com efeito, a lei natural se estende a todos os atos humanos, mas seus preceitos, sendo muito gerais, se ressentem dti falta de determinação. Esta insuficiência se faz sentir especialmente na sociedade, que não pode viver e prosperar a não ser por meio de prescrições numerosas e precisas. Donde a necessidade das leis positivas.

A lei positiva é, pois, uma ordenação da razão, decorrente da livre vontade do legislador, e que se acrescenta à lei natural, para determinar-lhe as aplicações.

259      2.    Divisão. — A lei positiva pode ser:

a)         Divina. Esta nos é ensinada pela Revelação e estudada pela Teologia moral.

b)         Humana. É o conjunto das leis civis, contidas nos Códigos.

3. Condições de legitimidade. — Para ser legítima, não basta que a lei positiva exprima a vontade do chefe ou a do maior número.  A lei positiva deve, de início:

a)         Ser conforme à lei natural e não violá-la em nada. É necessário, em todo caso, que todas as decisões do poder civil possam ser justificadas por alguma lei natural.

b)         Ser ordenada ao bem comum e à sociedade, e não ao bem particular de um indivíduo, de um grupo ou de um partido. Cumpre frisar que o bem comum não é a soma dos interesses particulares, mas o bem da sociedade, como tal. Todavia, como é a sociedade feita para assegurar a perfeição da pessoa humana, esta se beneficia sempre, de algum modo, do bem comum, ainda quando lhe deva sacrificar seus interesses individuais imediatos.

c)         Não exceder o poder do legislador e não ordenar senão o que é exeqüível.




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PRIMEIRA  PARTE

MORAL   GERAL

249 A Moral geral tem por objeto estabelecer as condições mais gerais do dever ou, em outras palavras, os princípios universais que determinam a retidão dos atos humanos. Estas condições e estes princípios são:

I.    Extrinsecamente:

1.        O fim último do homem.

2.        A lei, que orienta o homem para seu fim último.

3.        O dever e o direito, que resultam da lei.

II.   Intrinsecamente:

1.    A vontade livre, condição essencial da moralidade dos atos
humanos.

2.    A moralidade  (ou qualidade moral), que é:

a)         Objetiva, quer dizer, qualifica o ato humano em si mesmo, segundo sua relação com o fim último e com a lei moral.

b)         Subjetiva, quer dizer, que qualifica o ato humano enquanto procede da consciência moral.

3.    As conseqüências dos atos morais, que são:

a)         A responsabilidade.

b)         O mérito e o demérito

c)         A sanção.

d)         A virtude e o vício.

Capítulo Primeiro O   FIM   ÚLTIMO

250 1. O bem e o mal objetivos. — As coisas para as quais tende a atividade humana têm seu valor objetivo próprio. Hã um bem e um mal objetivos, que existem independentemente do querer e que se impõem a este como coisas a perseguir ou evitar.

2.    Codo determinar este bem e este mal objetivos? — O que

é o bem e o que é o mal? Responderemos brevemente que o bem é o que nos faz realizar a perfeição de nossa natureza, quer dizer, atingir o fim último de nossa natureza, e que o mal é o que nos desvia desta perfeição, fim último de nossa natureza.

3.    O problema moral. — O problema consistirá, pois, aqui, em definir qual a essência de nossa perfeição, quer dizer, em que consiste o fim último de nossa natureza. Por isto mesmo conheceremos a lei de’ 7iossa atividade moral e o que fundamenta o seu valor absoluto, como também a natureza do dever.

ART.    I.    EXISTÊNCIA DO FIM ÚLTIMO

251 1. Atos do homem e atos humanos. — Falamos aqui dos atos humanos, quer dizer, daqueles que pertencem ao homem enquanto ser racional e, por conseguinte, que procedem de sua inteligência e de sua vontade livre. Todos os atos do homem não são necessariamente atos humanos (digerir é um ato do homem, mas não é um ato humano).

2. Todos os atos humanos têm um fim. — Com efeito, a inteligência não age ao acaso. As faculdades do homem têm um objeto determinado, que é seu fim particular  (a verdade é o fim da inteligência, a beleza, o fim do sentimento estético etc), e das são por sua vez ordenadas ao bem total do homem, que é o objeto da vontade.

3.       O fim dos atos humanos é conhecido como fim. — Isto é próprios aos atos humanos. Aquele que cumpre estes atos conhece o seu fim: o homem não procura seu fim como a pedra ou o animal; ele o persegue conscientemente pela inteligência que possui da relação de seus atos a seu fim. Quer dizer, ele possui a noção de fim e a noção de bem, noções que coincidem porque a vontade não pode querer senão o bem. Por isto, o fim ou o bem são o princípio e o termo dos atos humanos: princípio, enquanto é o fim conhecido e o bem almejado que determinam o cumprimento dos atos, e termo, enquanto é para a obtenção do bem que tendem todas as atividades do homem.

4.       Todos os atos humanos têm um fim último. — Este designa o que é desejado por si e subordina todo o resto como meio. Aquele que gosta do dinheiro não o faz por ele mesmo, mas pelos bens materiais que lhe proporciona, e estes, por sua vez, são desejados apenas como meios de realizar um fim mais alto e último, único fim verdadeiro, a felicidade. O homem só pode ter, pois, um único fim último.

5.    O fim último,  especifica os atos do ponto-de-vista moral. —

Os atos não são mais do que os elementos materiais da moralidade: o elemento formal, quer dizer, a maneira pela qual os atos procedem da razão e da vontade, em outras palavras, o fim último é o verdadeiro princípio especificador da moralidade, quer dizer, aquele que dá ao ato sua espécie ou sua qualidade objetiva, boa ou má.

Art.    II.    NATUREZA DO FIM ÚLTIMO

252 O homem busca necessariamente a felicidade, quer dizer, o bem em geral, enquanto ele é oposto do mal e atraí toda vontade. A felicidade: eis, portanto, o bem supremo. Mas se todos os homens desejam necessariamente a felicidade como o bem supremo, não são todos unânimes em colocar a felicidade nos mesmos bens concretos. Uns pensam achá-la nos bens corporais, outros no exercício das faculdades intelectuais, outros na virtude, outros no conjunto dos bens finitos etc.   É possível, pois, distinguir duas espécies de fins últimos: uma, subjetiva, que consiste na busca da felicidade em geral; outra, objetiva, que consiste no bem concreto, na posse do qual o homem pensa encontrar a felicidade.

1.    O fim último subjetivo. — É, por definição, aquilo a que a natureza tende como ao termo último de sua perfeição, a seu bem total e absoluto, na posse do qual todos os seus desejos serão tranqüilizados e saciados e pelo qual seremos homens, tão perfeitamente quanto possível.

Esta perfeição se traduz para nós pela felicidade completa, porque a perfeição, não é somente o bem, mas também nosso bem. A felicidade: tal é, pois, o fim último subjetivo, o aspecto sob o qual todo bem tomado como fim é visto e desejado. Quaisquer que sejam os bens concretos em que o homem pensa achar sua plenitude e seu repouso lhe aparecem necessariamente como fonte de beatitude e se identificam com a beatitude. Este fim último subjetivo, o homem o quer com uma tendência instintiva e fatal, e diz Pascal, mesmo quando ele vai-se enforcar, é a felicidade, que busca. O homem não pode renunciar tanto à felicidade quanto ao próprio ser,

2.    O fim último objetivo. — Mas qual é, entre todos os bens que solicitam o homem, aquele que lhe trará a felicidade perfeita, para a qual tendem todos os seus desejos? Qual é, objetivamente, o verdadeiro bem, fonte da verdadeira felicidade? Só pode ser um bem absoluto, quer dizer, último e almejado por si mesmo, excluído de todo o mal, estável, e ao alcance de todos. Esta última condição se lhe impõe com evidência, porque o desejo da felicidade nasce da natureza e o bem que o saciará deve ser comum a todos aqueles que participam da mesma natureza, isto é, a todos os homens. Ora, nestas condições:

a)         Nenhum dos bens criados deste mundo pode ser o supremo bem. Ciência, virtude, honrarias, saúde, riquezas: todas estas coisas são bens, mas não o bem perfeito, porque são instáveis, por sua natureza associadas a males diversos, encerram labor e dificuldade, e não são comuns a todos.

O próprio conjunto dos bens criados não pode constituir o bem supremo, nem, por conseguinte, satisfazer ao desejo profundo do homem, porque estes bens tomados em bloco participam da fragilidade e da relatividade dos bens particulares, que eles totalizam.

c) Apenas Deus é nosso bem supremo. Somente Ele nos pode tornar felizes, porque somente Ele realiza o bem perfeito, que a inteligência concebe e ao qual aspira a vontade. "Vós fizestes nosso coração para Vós, ó meu Deus, dizia Santo AgostInho, e nosso coração estará inquieto até que repouse em Vós".

ART.    III.   A OBTENÇÃO DO FIM ÚLTIMO

253        A   obtenção   da  beatitude  é   possível  a   todos   e   obrigatória para todos.

1.       É possível a todos. — Com efeito, todos os homens desejam a felicidade. Ora, repugna que um desejo natural não possa atingir seu fim, porque a natureza vem de Deus e traduz em suas tendências profundas uma ordem desejada por Deus.

2.       É obrigatória para todos. — O homem, como tudo que existe, é feito para Deus, e, para ele, tender para seu fim, isto ê, para Deus, é conformar sua vontade ao fim necessário de toda a criação. O homem não pode, assim, renunciar a seu fim, sem violar a ordem estabelecida por Deus, quer dizer, a ordem natural das coisas, segundo a qual tudo deve estar subordinado ao primeiro princípio do ser.

3.       Começa nesta vida, pelo conhecimento e o amor de Deus, mas a felicidade não pode consumar-se a não ser na outra vida, porque será somente no além que a alma conhecerá a Deus e o amará tão perfeitamente quanto possível.

4.    A vida presente é uma preservação para a beatitude. — É essencialmente o que se chama uma passagem, quer dizer, uma marcha à frente, para um termo que ela não atingirá neste mundo, mas de que aproximará, na medida em que se conformar à ordem moral, condição necessária e suficiente da beatitude.

 

 




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