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MORAL GERAL – Curso de Filosofia de Jolivet


Curso de Filosofia – Régis Jolivet

PRIMEIRA  PARTE

MORAL   GERAL

249 A geral tem por objeto estabelecer as condições mais gerais do ou, em outras palavras, os princípios universais que determinam a retidão dos atos humanos. Estas condições e estes princípios são:

I.    Extrinsecamente:

1.        O fim último do homem.

2.        A lei, que orienta o homem para seu fim último.

3.        O dever e o , que resultam da lei.

II.   Intrinsecamente:

1.    A vontade livre, condição essencial da moralidade dos atos
humanos.

2.    A moralidade  (ou qualidade moral), que é:

a)         Objetiva, quer dizer, qualifica o ato humano em si mesmo, segundo sua relação com o fim último e com a lei moral.

b)         Subjetiva, quer dizer, que qualifica o ato humano enquanto procede da consciência moral.

3.    As conseqüências dos atos morais, que são:

a)         A responsabilidade.

b)         O mérito e o demérito

c)         A sanção.

d)         A virtude e o vício.

Capítulo Primeiro O   FIM   ÚLTIMO

250 1. O bem e o mal objetivos. — As coisas para as quais tende a atividade humana têm seu valor objetivo próprio. Hã um bem e um mal objetivos, que existem independentemente do querer e que se impõem a este como coisas a perseguir ou evitar.

2.    Codo determinar este bem e este mal objetivos? — O que

é o bem e o que é o mal? Responderemos brevemente que o bem é o que nos faz realizar a perfeição de nossa natureza, quer dizer, atingir o fim último de nossa natureza, e que o mal é o que nos desvia desta perfeição, fim último de nossa natureza.

3.    O problema moral. — O problema consistirá, pois, aqui, em definir qual a essência de nossa perfeição, quer dizer, em que consiste o fim último de nossa natureza. Por isto mesmo conheceremos a lei de’ 7iossa atividade moral e o que fundamenta o seu valor absoluto, como também a natureza do dever.

ART.    I.    EXISTÊNCIA DO FIM ÚLTIMO

251 1. Atos do homem e atos humanos. — Falamos aqui dos atos humanos, quer dizer, daqueles que pertencem ao homem enquanto ser racional e, por conseguinte, que procedem de sua inteligência e de sua vontade livre. Todos os atos do homem não são necessariamente atos humanos (digerir é um ato do homem, mas não é um ato humano).

2. Todos os atos humanos têm um fim. — Com efeito, a inteligência não age ao acaso. As faculdades do homem têm um objeto determinado, que é seu fim particular  (a verdade é o fim da inteligência, a beleza, o fim do sentimento estético etc), e das são por sua vez ordenadas ao bem total do homem, que é o objeto da vontade.

3.       O fim dos atos humanos é conhecido como fim. — Isto é próprios aos atos humanos. Aquele que cumpre estes atos conhece o seu fim: o homem não procura seu fim como a pedra ou o animal; ele o persegue conscientemente pela inteligência que possui da relação de seus atos a seu fim. Quer dizer, ele possui a noção de fim e a noção de bem, noções que coincidem porque a vontade não pode querer senão o bem. Por isto, o fim ou o bem são o princípio e o termo dos atos humanos: princípio, enquanto é o fim conhecido e o bem almejado que determinam o cumprimento dos atos, e termo, enquanto é para a obtenção do bem que tendem todas as atividades do homem.

4.       Todos os atos humanos têm um fim último. — Este designa o que é desejado por si e subordina todo o resto como meio. Aquele que gosta do dinheiro não o faz por ele mesmo, mas pelos bens materiais que lhe proporciona, e estes, por sua vez, são desejados apenas como meios de realizar um fim mais alto e último, único fim verdadeiro, a felicidade. O homem só pode ter, pois, um único fim último.

5.    O fim último,  especifica os atos do ponto-de-vista moral. —

Os atos não são mais do que os elementos materiais da moralidade: o elemento formal, quer dizer, a maneira pela qual os atos procedem da razão e da vontade, em outras palavras, o fim último é o verdadeiro princípio especificador da moralidade, quer dizer, aquele que dá ao ato sua espécie ou sua qualidade objetiva, boa ou má.

Art.    II.    NATUREZA DO FIM ÚLTIMO

252 O homem busca necessariamente a felicidade, quer dizer, o bem em geral, enquanto ele é oposto do mal e atraí toda vontade. A felicidade: eis, portanto, o bem supremo. Mas se todos os homens desejam necessariamente a felicidade como o bem supremo, não são todos unânimes em colocar a felicidade nos mesmos bens concretos. Uns pensam achá-la nos bens corporais, outros no exercício das faculdades intelectuais, outros na virtude, outros no conjunto dos bens finitos etc.   É possível, pois, distinguir duas espécies de fins últimos: uma, subjetiva, que consiste na busca da felicidade em geral; outra, objetiva, que consiste no bem concreto, na posse do qual o homem pensa encontrar a felicidade.

1.    O fim último subjetivo. — É, por definição, aquilo a que a natureza tende como ao termo último de sua perfeição, a seu bem total e absoluto, na posse do qual todos os seus desejos serão tranqüilizados e saciados e pelo qual seremos homens, tão perfeitamente quanto possível.

Esta perfeição se traduz para nós pela felicidade completa, porque a perfeição, não é somente o bem, mas também nosso bem. A felicidade: tal é, pois, o fim último subjetivo, o aspecto sob o qual todo bem tomado como fim é visto e desejado. Quaisquer que sejam os bens concretos em que o homem pensa achar sua plenitude e seu repouso lhe aparecem necessariamente como fonte de beatitude e se identificam com a beatitude. Este fim último subjetivo, o homem o quer com uma tendência instintiva e fatal, e diz Pascal, mesmo quando ele vai-se enforcar, é a felicidade, que busca. O homem não pode renunciar tanto à felicidade quanto ao próprio ser,

2.    O fim último objetivo. — Mas qual é, entre todos os bens que solicitam o homem, aquele que lhe trará a felicidade perfeita, para a qual tendem todos os seus desejos? Qual é, objetivamente, o verdadeiro bem, fonte da verdadeira felicidade? Só pode ser um bem absoluto, quer dizer, último e almejado por si mesmo, excluído de todo o mal, estável, e ao alcance de todos. Esta última condição se lhe impõe com evidência, porque o desejo da felicidade nasce da natureza e o bem que o saciará deve ser comum a todos aqueles que participam da mesma natureza, isto é, a todos os homens. Ora, nestas condições:

a)         Nenhum dos bens criados deste mundo pode ser o supremo bem. Ciência, virtude, honrarias, saúde, riquezas: todas estas coisas são bens, mas não o bem perfeito, porque são instáveis, por sua natureza associadas a males diversos, encerram labor e dificuldade, e não são comuns a todos.

O próprio conjunto dos bens criados não pode constituir o bem supremo, nem, por conseguinte, satisfazer ao desejo profundo do homem, porque estes bens tomados em bloco participam da fragilidade e da relatividade dos bens particulares, que eles totalizam.

c) Apenas Deus é nosso bem supremo. Somente Ele nos pode tornar felizes, porque somente Ele realiza o bem perfeito, que a inteligência concebe e ao qual aspira a vontade. "Vós fizestes nosso coração para Vós, ó meu Deus, dizia Santo AgostInho, e nosso coração estará inquieto até que repouse em Vós".

ART.    III.   A OBTENÇÃO DO FIM ÚLTIMO

253        A   obtenção   da  beatitude  é   possível  a   todos   e   obrigatória para todos.

1.       É possível a todos. — Com efeito, todos os homens desejam a felicidade. Ora, repugna que um desejo natural não possa atingir seu fim, porque a natureza vem de Deus e traduz em suas tendências profundas uma ordem desejada por Deus.

2.       É obrigatória para todos. — O homem, como tudo que existe, é feito para Deus, e, para ele, tender para seu fim, isto ê, para Deus, é conformar sua vontade ao fim necessário de toda a criação. O homem não pode, assim, renunciar a seu fim, sem violar a ordem estabelecida por Deus, quer dizer, a ordem natural das coisas, segundo a qual tudo deve estar subordinado ao primeiro princípio do ser.

3.       Começa nesta vida, pelo conhecimento e o amor de Deus, mas a felicidade não pode consumar-se a não ser na outra vida, porque será somente no além que a alma conhecerá a Deus e o amará tão perfeitamente quanto possível.

4.    A vida presente é uma preservação para a beatitude. — É essencialmente o que se chama uma passagem, quer dizer, uma marcha à frente, para um termo que ela não atingirá neste mundo, mas de que aproximará, na medida em que se conformar à ordem moral, condição necessária e suficiente da beatitude.

 

 




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