Consciênia - Filosofia e Ciências Humanas
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A CIÊNCIA E AS CIÊNCIAS – Curso de Filosofia de Jolivet


Curso de Filosofia – Régis Jolivet

Capítulo Terceiro

A  CIÊNCIA E AS  CIÊNCIAS

Art. I.    NOÇÃO DA  CIÊNCIA

46        1.    Definição. — Devemos aqui precisar  a noção da ciência dada no início deste livro  (1). O termo ciência é encarado de um ponto-de-vista objetivo e de um ponto-de-vista subjetivo.

a)     Objetivamente, a ciência é um conjunto de verdades certas e logicamente encadeadas entre si, de maneira que forme um sistema coerente. Sob este aspecto, a Filosofia é uma ciência, tanto quanto a Física e a Química. Num mesmo sentido, é necessário dizer que ela responde melhor à idéia da ciência do que as ciências da natureza, porque usa princípios mais universais e se esforça por descobrir a razão universal de todo o real.

b)     Subjetivamente, a ciência é o certo das coisas  por suas causas ou por suas leis. A pesquisa das causas propriamente ditas (ou do porquê das coisas) é reservada principalmente à Filosofia. As ciências da natureza se limitam a pesquisar M leis que governam a coexistência ou a sucessão dos fenômenos (ou pesquisa do como).

47        2.    Só existe ciência do geral e do necessário. — Isto resulta da   própria definição da ciência.

a) A ciência tem por objeto o geral. Toda ciência, tendo por objeto descobrir as causas e as leis é, por isto mesmo, conhecimento do que existe no real do mais geral. — O indivíduo e o individual, como tal, não é e não pode ser objeto da ciência propriamente dita, mas  unicamente do conhecimento intuitivo, sensível ou intelectual.

b)     A ciência tem por objeto o necessário, no sentido de que as causas e as leis que atinge são realidades ou relações que são metafisicamente, fisicamente ou moralmente necessárias, isto é, de tal forma que o real, o metafísico, o físico ou o moral seria ininteligível sem elas. — Deste ponto-de-vista, além disto, não existe ciência do individual, uma vez que o individual, como tal, é contingente  (isto é, poderia não ser).                             

c)     Em que sentido o individual e o contingente são objetos da ciência. A asserção de que não há ciência a não ser do geral e do necessário não significa que a ciência não leve em conta o contingente e o individual, mas, somente, que ela visa, no contingente e no individual, ao que é universal e necessário, a saber, as leis a que obedecem, as causas de que dependem, as essências e as naturezas que as definem como parte de uma espécie ou de um gênero.

3. As ciências da natureza são disciplinas particulares, abrangendo os diferentes domínios do real. Seu número é indefinido e elas não cessam de se multiplicar na medida em que o estudo da natureza chega a colocar em evidência a complexidade dos fenômenos naturais.

Podemos, contudo, distinguir entre as ciências da natureza, as grandes categorias que comportam subdivisões mais ou menos numerosas. A classificação das ciências tem por objeto determinar e ordenar logicamente estes grupos ou categorias.

ART. II.    CLASSIFICAÇÃO    DAS    CIÊNCIAS

48        1. As diferentes classificações. — Os filósofos de há muito procuram classificar racionalmente as ciências. Uma tal classificação teria, com efeito, a vantagem de dar uma espécie de quadro ordenado de todo o real. Os principais ensaios de classificação são os seguintes:

a) Classificação de Aristóteles. Aristóteles distribui as diversas ciências em teórica (Física, Matemática, Metafísica) e praticas (Lógica e ).

b)     Classificação de Bacon. Bacon divide as ciências segundo as faculdades que elas fazem intervir: ciências de memória (história), de imaginação  (poesia), de razão (filosofia).

c)     Classificação de Ampère. Ampère classifica as ciências em cosmológicas (ou ciências da natureza) e noológicas (ou ciências do espírito).

d)     Classificação de Augusto  . As  classificações  precedentes  não são rigorosas, porque as divisões  que propõem não são irredutíveis (15). A classificação de Augusto é melhor porque  se baseia num princípio mais rigoroso. Consiste em classifícar as ciências segundo sua complexidade crescente e sua generalidade  decrescente, o que dá a ordem seguinte (corrigindo e completando a de Augusto Comte) : Matemática, — Mecânica, —   Física, — Química, — Biologia, — , — .

2.    Sentido da classificação. — Esta classificação não significa que  possamos passar  de  uma ciência  a  outra sem fazer intervir um elemento novo, isto é, que seja possível reduzir as ciência priores às inferiores. Ao contrário,  cada escala faz intervir um elemento irredutível nos precedentes. É assim que a Mecânica  introduz a idéia de movimento, que não está incluída na noção das matemáticas, que se refere apenas à quantidade. Do mesmo modo a Biologia, introduz a idéia da vida, que nenhuma das ciências precedentes comporta.




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