Curso de Filosofia – Régis Jolivet
Capítulo Segundo
A MATÉRIA E A FORMA OU A ESSÊNCIA DOS CORPOS
76. A questão da essência dos corpos não é um problema importante para as ciências físico-químicas. Ultrapassa, com efeito, a competência do puro físico, enquanto se trata de descobrir, não precisamente os elementos dos corpos (moléculas, átomos, íons, elétrons, nêutrons, prótons etc), que compõe o objeto das ciências, mas os princípios intrínsecos de sua constituição. Em outros termos, o físico não vai jamais, ou não pode ir, enquanto físico, além dos corpos, porque mesmo os elementos dos corpos, por menores que sejam, são ainda corpos. A Cosmologia, ao contrário, partindo unicamente da experiência, e utilizando-se dos resultados das ciências físico-químicas,
decide ir além do corpo e determinar os princípios de que resultam, não enquanto são tais ou tais corpos, mas enquanto são, puni e simplesmente, corpos.
ART. I. A TEORIA HILEMÓRFICA
77 O nome de teoria hilemórfica (de duas palavras gregas que significam matéria e forma) foi dado à doutrina, proposta inicialmente por ARISTÓTELES, que define a essência dos corpos como resultante da união de dois princípios chamados matéria e forma.
1. Matéria e forma.
a) Noção. Os corpos comporiam a matéria, que é uniu matéria determinadas a matéria do corpo humano difere da de uma pedra ou da do ar. Mas de onde vem a diferença que existe entre estas diversas matérias? Não vem da própria matéria como tal, pois vemos que esta é suscetível de todas as transformações, em virtude de uma espécie de inércia, ou plasticidade que lhe ê própria. A diferença deve então provir de um outro princípio que se chama a forma substancial e que, apropriando-se da matéria indeterminada (ou prima), faz com que seja tal matéria (matéria segunda: corpo humano, pedra, vegetal). O corpo, como tal, tem então dois princípios constitutivos intrínsecos: a matéria primeira e a forma substancial (assim chamada porque, por sua união, com a matéria, constitui uma substância corporal determinada).
b) A matéria e a forma como potência e ato. Desta análise, vê-se, ao mesmo tempo, recorrendo-se às noções dadas acima (73) sobre o ato e a potência, que a matéria-prima é potência e pura potência, quer dizer, capaz de converter-se em qualquer corpo, graças a sua absoluta indeterminação original. Por sua vez, a forma substancial é ato, porquanto é por ela que a matéria se torna tal corpo. E por isto que se diz que a forma ê ato da matéria. Assim, a alma racional (forma substancial) é o ato que faz da matéria-prima um corpo humano.
c) A matéria e a forma como princípios de ser. É preciso bem compreender que a matéria-prima não existe e não pode existir como tal. Toda matéria real é matéria segunda, quer dizer, determinada por uma forma substancial. Do mesmo modo, a forma, .substancial (salvo o caso da alma humana, como se verá em Psicologia) não existe e não subsiste sem matéria. Com efeito, matéria-prima e forma substancial não são seres, mas apenas princípios de ser.
78 2. União da matéria e da forma.
a) A unidade resultante da união da matéria e da forma é uma unidade essencial, quer dizer que forma uma única essência ou espécie.
b) A união da matéria e da forma se faz sem intermediário, uma vez que a forma substancial é o ato primeiro da matéria. Ou dois princípios do corpo se unem então por si mesmos, sob a ação de um agente físico, e formam por si mesmos um corpo único, uma única substância (o homem, composto de um corpo e de uma alma, é um ser único).
3. Atividade e passividade no corpo. — Os corpos aparecem ao mesmo tempo como ativos e passivos. Estão sujeitos ao que a ciência chama inércia, quer dizer, a uma impotência para modificar por si mesmos seu estado, e ao mesmo tempo manifestam, sob a provocação de agentes físicos, atividades determinadas: o fogo queima, o corpo do animal se move, a árvore cresce e dá frutos. Estes dois aspectos contrários das realidades corporais se explicam pelo duplo princípio que os constitui: a matéria é, assim, princípio de passividade e de inércia, enquanto que a forma é princípio de atividade.
79 4. A noção de espécie.
a) Definição. Todo corpo pertence a uma espécie determinada, quer dizer, a uma categoria de seres com a mesma natureza (espécie mármore, espécie carvalho, espécie lobo, espécie humana). É a forma substancial que é, no corpo, o princípio específico, quer dizer, o princípio que, unindo-se à matéria, produz um ser de uma iluda espécie.
b) A forma é o fundamento da diferença específica. É então a forma substancial que servirá para definir o que se chama a diferença específica, quer dizer, o caráter essencial, que situa um ser numa dada espécie. Assim, a diferença específica do homem (animal racional) será o caráter de racional, que define a forma substancial do homem ou alma racional.
c) As formas substanciais e, por conseguinte, as diferenças específicas da maior parte dos seres permanecem desconhecidas na sua essência. Daí se definirem estes seres por suas propriedades ou, mesmo simplesmente, em certos casos, por seus caracteres exteriores: é assim que se definirá a espécie carvalho descrevendo a forma das folhas e do fruto deste vegetal.
5. A forma acidental. — Todo ser corporal pode receber formas acidentais, que não mudam sua natureza, mas apenas sua maneira de ser. Assim, o mármore (matéria segunda) pode tornar-se estátua ou coluna, ou bacia, estátua de Júpiter ou estátua do Mercúrio. A água pode tornar-se vapor ou gelo. As formas acidentais são atos segundos em relação ao corpo, que está em potência destes atos diversos.
Art. II. O PRINCÍPIO DA INDIVIDUAÇÃO
80 1. O problema da individuação. — Apresentou-se a questão de saber se a individuação (o fato de ser um indivíduo, quer dizer, um ser uno em si mesmo e distinto dos outros) provém da matéria ou da forma substancial. Esta questão se apresenta com o fim de explicar como uma espécie (por exemplo, a espécie humana) pode comportar indivíduos múltiplos (João, Tiago, Paulo etc), quer dizer, comportar seres ao mesmo tempo idênticos (uma vez que têm todos a mesma natureza) e distintos (uma vez que um não, é o outro).
2. A individuação pela matéria. — Responde-se comumente que é a matéria que é o princípio da individuação. Com efeito, a forma, por si mesma, é universal (assim, a razão, que faz o homem, nada tem por si de individual; uma razão que não seja mais do que razão formaria por si só uma espécie). Ao contrário, recebendo a forma, a matéria, por estar dotada de quantidade, quer dizer de dimensões e, por conseguinte, de finitude, limita e restringe a forma, determina-a, e, portanto, a individualiza.
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Fórum de Discussões
agosto 31st, 2008 at 1:05 pm
[...] “Identidade nacional” só não é uma metáfora no sentido de que o governo federal brasileiro e o território (supostamente) defendido por ele são idênticos a si mesmos. Tirando esse sentido, todos os demais são metafóricos. Não existe uma identidade nacional cultural que ultrapasse o domínio da ficção, nem pode existir. Não digo isso por anti-brasileirismo, mas por não agüentar mais a interferência de parâmetros políticos e geográficos em domínios diversos. Naturalmente, como me interessa sobretudo a literatura, o que me causa mais repulsa é a idéia de tentar entender as literaturas como se fossem fenômenos nacionais, quando esse critério é alheio à produção literária. Não nego que um escritor possa ter uma idéia de nação e sentir-se inspirado por ela. Isso não muda o fato de que não existem fronteiras nacionais dentro da literatura. Para estudar qualquer objeto, é preciso levar em conta… o próprio objeto. O que confere unidade à obra literária é a língua, daí que seja muito mais razoável falar em literatura de língua X ou Y feita no lugar A ou B, sempre. Literatura de língua portuguesa feita no Brasil, em Portugal, em Angola ou Moçambique. Literatura de língua inglesa feita na Inglaterra, nos EUA, na Austrália etc. Tirando diferenças ortográficas e lexicais, que não são suficientes para que uma língua se torne ininteligível (brasileiros compreendem o português europeu e vice-versa), o local de produção de uma obra, bem como o regime político sob o qual ela é produzida, não são fatos literários. Os lugares e governos variam; a língua permanece. Ela é que confere unidade tangível e suficientemente incontroversa a uma literatura. Pense comigo: será possível que exista alguma coisa além da língua que confira unidade a todas as obras literárias brasileiras? E essa mesma língua não está nas portuguesas? Que qualidade é essa que, não sendo o idioma, e pertencendo ao domínio específico da literatura (entendida simplesmente como arte da palavra), poderá distinguir entre uma literatura e outra? Parece, na verdade, que essa é a mesma questão do princípio de individuação pela matéria. [...]
dezembro 1st, 2007 at 6:21 pm
Olha só Mais um beijos
elis