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Filosofia Prática, Moral – Curso de Filosofia de Jolivet


de Filosofia – Régis Jolivet

LIVRO III

FILOSOFIA   PRÁTICA

FILOSOFIA DA MORAL — MORAL

FILOSOFIA   PRÁTICA

235 1. Ordem especulativa e ordem prática. — A inteligência, como já notamos várias vezes, comporta uma ordem especulativa e uma ordem prática. A primeira tem por fim o conhecimento das coisas, suas relações e seus princípios. A ordem prática tem por fim direto, não o conhecimento, mas a obra a realizar fora do cognoscente como tal. O conhecimento ainda intervém aqui, é certo, mas como meio, e não como fim.

2. O fazer e o agir. — A ordem prática é dupla. Ela compreende, com efeito, o domínio do fazer e o do agir. Ou bem se trata de fazer ou produzir uma obra sensível (domínio da arte), ou então, de agir ou conduzir-se conforme às exigências do bem (domínio da moral). Donde se conclui que a filosofia prática se compõe de duas partes distintas: filosofia da arte e filosofia moral.

FILOSOFIA   DA   ARTE

236 As principais questões que suscita a filosofia da arte (chamada às vezes Estética) dizem respeito à natureza da arte, — à natureza do belo, objeto da arte, — à divisão das belas-artes, — às regras da arte, — às relações da arte com a moral.

ART.    I.    NATUREZA DA ARTE

1.    A arte em geral. — A arte consiste essencialmente na reta noção das coisas a fazer, isto é, ela tem por função determinar que condições a obra a produzir deve preencher para ser conforme à idéia do artífice.

Deste ponto-de-vista muito geral, não se fará distinção essencial entre as artes úteis e as belas-artes, entre o artesão e o artista. Nos dois casos, trata-se de fazer passar uma idéia (idéia de mesa, idéia de relógio, idéia de uma melodia, idéia de um monumento etc) para a matéria, de encarná-la de algum modo. A arte é sempre o que regula esta impressão da idéia numa matéria sensível.

2.       e belas-artes. — Há entretanto uma diferença a estabelecer entre as artes úteis e as belas-artes. As primeiras visam essencialmente a um fim útil, sem excluir, entretanto, a beleza, não intervindo esta senão como acréscimo, — as segundas são desinteressadas e não visam senão à produção de uma coisa. Quando falarmos simplesmente da arte daqui por diante, será sempre das belas-artes que se trata.

A arte é uma virtude intelectual. — Se, com efeito, a arte consiste na reta noção da obra a erigir, segue-se daí que ela reside a princípio na inteligência, única a ser capaz de conceber a idéia a realizar na matéria, e os meios de realizá-la.

A arte, além disso, é uma virtude (ou habitus), isto é, uma qualidade permanente, que aperfeiçoa a visando à ação fácil, rápida e deleitável. E como a arte tem por fim a obra a realizar, diremos que ela é uma virtude prática que tende a tornar fácil e satisfatório o trabalho do artista. Daí se segue que o verdadeiro artista possui uma espécie de infalibilidade nas coisas de sua arte e também uma espontaneidade criadora que parece fazer de sua atividade artística como que a manifestação de uma segunda natureza.

ART.    II.   A NATUREZA DO BELO

237 As belas-artes têm por fim, como dissemos, a produção do belo. Temos, pois, agora, que perguntar o que é o belo e o que é o sentimento do belo.

§   1.      O  BELO

1. Definição. .— Santo Tomás define o belo id quod visum placet, o que agrada ver. Esta definição encerra dois elementos essenciais, que é necessário considerar separadamente.

a) A beleza é objeto de inteligência ou de conhecimento intuitivo, enquanto resulta de condições que não são acessíveis senão à inteligência. Estas condições são: a integridade do objeto, a proporção ou umidade na variedade, enfim, a clareza ou resplendor da inteligibilidade.

É certo também que a beleza sensível é acessível aos sentidos e os põe num estado de bem-estar e de satisfação: o ouvido se encanta com uma bela música, os olhos se comprazem nas belas formas plásticas. Mas isso decorre, por um lado, das condições da arte, que é a encarnação de uma; idéia em uma matéria e, por outro lado, dos sentidos do homem penetrados pela, razão, por causa da unidade do composto humano. A inteligência, com efeito, deve sempre intervir, do contrário não haveria mais percepção propriamente dita da beleza, uma vez que toda percepção da beleza supõe um juízo (implícito), que é obra apenas da inteligência (143).

b) A. beleza é fonte de satisfação (placet). O belo é deleitável; encanta e arrebata; gera o desejo e o amor. A saciedade que pode produzir, às vezes, não vem senão das condições subjetivas de sua percepção. Em si mesmo, o belo é fonte de satisfação constantemente renovada.

2. O mito do belo em si. — Filósofos imbuídos de quiseram que a beleza não fosse mais do que o quadro de um mundo ideal, a percepção da invisível essência das coisas, a apreensão de Tipos absolutos e imutáveis.

Estas teses são por demais ambiciosas, porque as coisas são, sem dúvida, mais simples. Há beleza desde que uma idéia (ou forma) se ache encarnada, com as proporções devidas, em uma matéria. O artista não é um visionário, nem um místico, nem tampouco um inspirado   (no sentido profético da palavra).

É verdade, todavia, como Santo Agostinho o mostrou tão bem, que as belezas finitas que contemplamos nas coisas supõem uma Beleza Infinita (208). Mas o artista não tem os olhos fixados nesta Beleza Infinita que, em si mesma, está além de nossa apreensão, e não é apreensível senão nos seus reflexos que descobrimos nas coisas. É, pois, nas coisas mesmas que o artista procura descobrir a beleza.

3.    Teoria da atividade lúdica.

a)         A atividade lúdica. Tem-se tentado, também, explicar a beleza e a emoção estética que ela proporciona pelo fato de que. desligada absolutamente de preocupações utilitárias, a arte se reduziria a uma pura atividade lúdica. O belo exprimiria, pois, o que é inteiramente gratuito (característica do jogo), o que estivesse livre da necessidade e de todas as condições exteriores à pura atividade como tal.

b)         Apreciação. Esta teoria comporta, seguramente, uma parte de verdade. O belo, com efeito, é gratuito no sentido de çcaé não tem, como tal, um fim útil, Ele se basta a si mesmo, e justifica-se por si mesmo. Sem dúvida, o artista pode estar interessado, mas a obra mesma é essencialmente gratuita, sem outra finalidade senão a de proporcionar a satisfação estética.

 

Isto não deve, todavia, levar-nos a confundir o jogo e a beleza. a atividade lúdica e a atividade artística. Com efeito, o jogo não visa a produzir uma obra, mas o puro desenvolvimento da atividade. O jogo não é sério; o sério o arruina, como tal. A arte. ao contrário, aparece como coisa grave, e a beleza pede respeito e veneração. Da mesma forma, a produção da beleza pode tornar-se para o artista uma espécie de ; o jogo não é, entretanto, objeto de nenhuma obrigação.

§ 2.      A EMOÇÃO ESTÉTICA

238        A emoção estética é alguma coisa de complexo. Analisando-a, podem-se distinguir os seguintes elementos:

1.    A satisfação. — As coisas belas, já o vimos, proporcionam satisfação (id quod visum placet). Diz-se comumente, também, que elas são fonte de prazer. Mas a palavra prazer está demasiadamente sobrecarregada de significação sensível para estar aqui perfeitamente adequada. O termo satisfação tem alguma coisa de mais espiritual (sem excluir, entretanto, o elemento sensível sempre presente no sentimento estético) e convém melhor para definir esta emoção tão particular e suscetível de uma tal intensidade que nasce da percepção da beleza.

Entretanto, pode-se discernir também, na emoção estética, o traço de uma certa tristeza, que provém do sentimento do que há de precário, de frágil, de transitório na beleza finita. Ora, toda beleza comporta uma existência de eternidade, como toda satisfação quereria eternizar-se. Aqui, na emoção estética, é manifesta a impressão de que a beleza sensível está submetida às condições de corrupção e dissolução da matéria em que ela se acha realizada. Assim, tem-se podido falar da "pungente doçura" das coisas belas.

2.    A admiração. — As coisas belas provocam a admiração, isto é, o espanto e o respeito. Elas espantam pelo que comportam de perfeição inesperada, de visão original e penetrante, de associações singulares, de combinações audaciosas. Inspiram uma espécie de respeito sagrado, pela revelação que trazem do mundo secreto das formas, e, sobretudo, pela manifestação do poder que exercem sobre a inteligência humana. O homem se sente subjugado pela beleza e reverencia nela uma força espiritual.

Daí se segue que se tenha podido falar de "religião da arte" ou de "religião da beleza" (Ruskin), já que certas belezas produzem efeitos do que é sagrado. Mas isto não é mais do que uma maneira de dizer. A arte não pode ser uma religião, e se a beleza merece nossas homenagens, é como reflexo da Beleza Infinita, princípio de toda beleza finita.

3. A simpatia. — O sentimento estético aparece como eminentemente social. Ele é fator de simpatia ou de gozo em comum Quem quer que goze a beleza aspira a comunicar a outro sua emoção, a compartilhar sua admiração. A beleza consegue realmente fazer vibrar as almas em uníssono, criar uma espécie de unidade espiritual, em virtude justamente de seu caráter gratuito. A beleza, como tal, está além das causas de diversões e de conflitos.

ART. III.    AS BELAS-ARTES

239        Considerando o objeto próprio de cada uma  das belas-artes, obtém-se a seguinte divisão:

1.    O grupo   das artes plásticas.  — As artes plásticas são as que utilizam as formas sensíveis compactas e sólidas e produzem as obras  imóveis.  Este grupo compreende:

a)        A arquitetura, que atinge à beleza pelo equilíbrio e as proporções  agradáveis das massas pesadas que ela utiliza.

b)        A escultura, que atinge à beleza pela perfeição com a qual chega a expressar as atitudes e os sentimentos das formas vivas, e particularmente do homem. Ela pode exprimir o movimento (o> Discóbolo), mas fixando-o num de seus momentos.

c)        A pintura, que visa a exprimir, pelo jogo de cores, as relações das formas sensíveis entre si. A pintura pode obter, por seus próprios meios, certos efeitos que envolvem a arquitetura ou. a escultura. Ela consegue, em particular, fixar de uma maneira mais suave do que a escultura, e até em suas variações mais úteis, as expressões da face.

2. O grupo das artes de movimento. — As artes deste grupo (música, dança, poesia) produzem obras que são essencialmente móveis, situadas no tempo.

a)    A música. A arte musical comporta, como elementos constitutivos, o ritmo, elemento fundamental, resultante da desigualdade dos tempos, — a melodia, que se origina no acento, e surge diretamente da linguagem, espécie de canto, — a harmonia, fundada na simultaneidade de melodias.

A música pode visar a exprimir sentimentos (música expressiva), ou transcrever sensações auditivas (música descritiva ou impressionista). Na verdade, a música não faz, nos dois casos, senão sugerir, e ela implica, por essência, uma transposição.

b)         A coreografia. A arte da dança tem qualquer coisa de mista; a dança, com efeito, participa da escultura, pelas atitudes de movimento que põe em jogo, — da arquitetura pelos equilíbrios de grupos, que realiza, — enfim, da música, de que toma o ritmo próprio, dando-lhe uma espécie de tradução plástica.

c)         A poesia. O que se chama arte literária é alguma coisa de complexo, que oscila, entre a expressão das idéias abstratas e a poesia, que é uma das belas-artes.

A poesia pode tender, quer, como a música, a exprimir sentimentos, quer, como a pintura, a descrever formas sensíveis. Ela possui seu encanto próprio, devido ao ritmo mais ou menos suave e harmonioso que dirige o desenrolar do discurso verbal e que é, quando não independente do sentido, ao menos outra coisa diferente do sentido das palavras.

ART.   IV.   AS REGRAS DA ARTE

240 Quando se fala das regras da arte, é necessário distinguir entre as regras que dirigem a concepção da obra de arte e as regras que governam a execução da obra de arte.

§ 1.     A CONCEPÇÃO DA OBRA DE ARTE

1. As condições subjetivas. — Não há regras que permitam criar com certeza uma obra-prima,  mas há condições a realizar para colocar-se em estado de conceber e produzir a beleza. Estas condições podem, por sua vez, resumir-se na formação ou aperfeiçoamento do habitus operativo de que já falamos acima (236). Um certo dom inato, que consiste acima de tudo nas aptidões, manifesta-se geralmente no artista. Mas a atividade artística requer sempre trabalho, meditação das obras-primas da arte cultivada, o recolhimento, a reflexão paciente, o gosto da perfeição.

2.    A imitação da natureza. — A arte é uma imitação da natureza? Será necessário negá-lo resolutamente se, por imitação,
quiser-se significar cópia. A arte não é simples cópia dos objetos da natureza (senão a fotografia seria o cúmulo da arte).

Existe, contudo, um sentido em que se pode dizer que a arte imita a natureza, a saber, enquanto visa a produzir a beleza pela manifestação de uma forma numa natureza sensível, Esta forma, o artista não a pode descobrir, senão graças à penetração e à argúcia de sua visão, na natureza exterior ou interior, que é um imenso receptáculo de formas. A arte, mesmo deste ponto-de-vista, é mais uma criação do que uma imitação, porque, aqui, ver é, propriamente, descobrir, inventar e construir.

3.    A arte e o ideal. — Uma concepção contrária à da arte imitação da natureza afirma que a arte tem por objeto a manifestação do ideal. Esta concepção está ligada à teoria do belo, que discutimos mais acima (237), e se choca com as mesmas dificuldades.

A fórmula que faz do ideal objeto da arte seria falsa, se este ideal fosse considerado como dentro ou fora da natureza. De fato, o artista é mesmo um caçador de idéias ou de formas, na sua própria natureza, e o ideal que tem em vista é menos uma coisa preexistente à sua procura, um modelo ou um tipo, do que a figura interior da obra a realizar na matéria sensível.

§ 2.   A execução

241       1. A prática. — A execução é o domínio da prática e da habilidade manual. O artista deve ser um artesão, quer dizer, um homem de prática. A obra a produzir exige, com efeito, o de utensílios apropriados, cujo manejo é objeto de aprendizagem, conhecimento preciso dos materiais, posse das técnicas operativas. Sem prática, a obra não será mais do que um esboço informe.

2. A arte e a prática. — A prática é necessária ao artista, mas extrínseca à arte. A perfeição da prática não poderá jamais substituir a virtude ou o habitus artístico. É, contudo, a mais séria tentação que ameaça o artista de trabalhar no vazio, quer dizer, de exercer com habilidade suas aptidões técnicas, sem ter uma idéia original e nova a exprimir, como um orador equilibra harmoniosamente seus períodos e multiplica seus gestos expressivos sem ter nada a dizer.

A prática está ao serviço da arte e a ela se subordina inteiramente. A obra de arte perfeita é aquela em que a prática mais sábia chega a não se distinguir da própria idéia e a desaparecer na expressão desta idéia ou desta forma. Assim J. S. Bach nas suas Cantatas, Rafael nas telas das salas do Vaticano, Racine em Athalie. A admiração vai diretamente, então, ao objeto, e o artista, enquanto artesão, se faz esquecer em favor de sua obra.

Art.    V.      ARTE E MORAL

242 1. A independência da arte. — A arte é, num certo sentido, independente da moral, a saber, enquanto não visa a outro fim senão produzir uma obra bela,

2.    A dependência do artista. — Se a arte é independente da moral, o artista não o é nem poderia sê-lo. A obra de arte que produz é uma manifestação da atividade que deve, como toda atividade humana, orientar-se para o fim último universal, que é Deus. Se o artista tomasse por fim último de sua atividade a beleza a produzir, cometeria uma espécie de idolatria.

3.    As condições concretas da obra de arte. — A obra de arte encerra condições concretas de tempo e de meio que lhe impõem
restrições acidentais e a colocam na dependência acidental da .

Em si, a obra de arte não poderia comportar imoralidade sem sair por isto mesmo do domínio da arte, que é o da serenidade, mesmo na pintura das paixões. Mas a obra de arte pode, acidentalmente, ter efeitos maléficos, desde que seja proposta a homens incapazes, ou, por falta de cultura suficiente, ou, por uma falha de retidão moral, a elevar-se à pura emoção estética. É o que torna o nu perigoso na maioria das vezes, na escultura e na pintura, e o que comunica na poesia, na descrição das paixões de amor, um encanto de caráter tão equívoco.

O artista deve sempre lembrar-se de que a arte não se realiza mim mundo de puros espíritos, mas se apresenta a homens em que as paixões más acobertam facilmente as satisfações puras do sentimento estético.




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