Psicologia, o sujeito psicológico – Curso de Filosofia de Jolivet



Curso de Filosofia – Régis Jolivet

TERCEIRA   PARTE

O SUJEITO PSICOLÓGICO

152 Até agora, temos estudado apenas fenômenos, propriedades, qualidades ou atividades diversas. Devemos agora considerar o su­jeito destes fenômenos psicológicos. Porque é evidente que todos eles supõem um sujeito, de que procedem, e que manifestam empiricamente: a bem dizer, a imaginação ou os instintos, a inteligência ou a vontade, são apenas instrumentos ou meios pelos quais um su­jeito, homem ou animal, age de conformidade com sua natureza.. Não é a inteligência que pensa, nem a vontade que quer, mas o ho­mem, que pensa pela inteligência e quer pela vontade.

Somos levados, assim, a considerar o sujeito da vida psicoló­gica. Este sujeito nos é dado inicialmente como um eu físico e moral (sujeito empírico), que é constituído, objetivamente, pelo conjunto dos fenômenos orgânicos, fisiológicos e psicológicos que eu apre­endo como meus, — e, subjetivamente, pela consciência de existir como princípio e sujeito destes fenômenos, quer dizer, pela própria consciência de que eles são meus. Por isto, o "eu-objeto", no ho­mem, se torna um "eu-sujeito". — Mas a Psicologia não poderia restringir-se à descrição deste eu-objeto empírico e de suas con­dições. Resta saber qual é a natureza deste sujeito e qual a sua re­lação com os mecanismos orgânicos e fisiológicos pelos quais ele exerce suas atividades. Trata-se, portanto, de definir o sujeito meta­físico da vida psicológica, isto é, a alma humana.

 

Capítulo Primeiro

O SUJEITO EMPÍRICO

ART.    I.    O "EU-OBJETO" E O "EU-SUJEITO"

§ 1.   Análise descritiva

153 1. Distinção do "eu-objeto" e do "eu-sujeito" — Esta distin­ção, que a Psicologia simplesmente elabora, é fornecida pelo senso comum (e pela gramática, que é a sua expressão). Quando dizemos: "Eu me tornei diferente do que era", opomos um "eu-sujeito", que não mudou, a um "eu-objeto", que sofreu uma certa evolução. O "eu-objeto" deve, então, ser definido psicologicamente como o con­junto de conteúdos da consciência: funções, idéias, imagens, senti­mentos, percepções, tendências, emoções, lembranças etc. O "eu-sujeito" é o sujeito ao qual atribuímos todas as modificações do "eu-objeto".

2. Caracteres do "eu-sujeito". — Estes caracteres devem ser apontados cuidadosamente, pois veremos que conclusões tiraremos disto, do ponto-de-vista da natureza da alma. São estas:

a)          A unidade. Nossa vida interior pode estar e está, de fato, em perpétuo movimento, e em perpétua transformação. Todos os seus estados, contudo, extraordinariamente móveis e fugidios, vêm unificar-se no "eu-sujeito", que é seu centro de convergência, e o sinal mais claro da personalidade.

b)          A identidade. Quaisquer que sejam ainda as transforma­ções constantes de nossa vida interior, de nosso "eu-objeto", sentir-nos-emos sempre idênticos a nós mesmos, e, da infância à ve­lhice, sempre "o mesmo", o que quer dizer que é ao mesmo "eu-sujeito", invariável de qualquer forma, em meio ao fluxo móvel de nossa vida psíquica, que atribuímos todos os nossos estados de cons­ciência.

c) A atividade. O "eu-sujeito" nos aparece, por outro lado, como a fonte de todos os nossos estados interiores. É dele que sen­timos brotar nossos pensamentos, nossas vontades, nossas ações, da mesma forma que é neste invencível sentimento que apóiamos a nossa idéia de responsabilidade, enquanto que, ao tornar-se a ati­vidade automática e inconsciente, o sentimento do "eu-sujeito" se atenua até o ponto de tão-somente significar uma consciência con­fusa de espontaneidade vital. Por isso é na atividade voluntária que culmina o sentimento de autonomia e de responsabilidade, sinal de­cisivo da personalidade.

3. A pessoa humana. — ü "eu-sujeito" significa, então, a posse do eu-objeto por si mesmo. Este, de simples objeto experimentado e sentido, que deve ser, para a consciência sensível do animal, se torna, no homem, e cada vez mais, à medida que ele se possui mais pela razão e pela vontade, um "de si" e um "por si", quer dizer, uma pessoa, com os caracteres de unidade e de identidade, de razão e de autonomia, que a definem.

154 4. A síntese psíquica. — Na medida em que a vontade do­mina o curso da vida psicológica, esta se apresenta cada vez mais como um todo unificado. Esta síntese, que é unicamente pré-formada no organismo físico, é então uma conquista sobre a anarquia natural das tendências, conquistas decorrente do jogo de fatores, psicológicos e sociais.

a)         Fatores orgânicos. É a unidade funcional do sistema ner­voso que fornece a primeira base à unidade da consciência. Mas é claro que não se trata aqui mais do que de uma condição da perso­nalidade. Por mais importante que sejam (sabe-se a que ponto as lesões orgânicas, as secreções internas e o estado físico geral influem no sistema afetivo e mental), os fatores orgânicos não podem ex­plicar a autonomia do sujeito psicológico.

b)         Fatores psicológicos. Psicologicamente, a personalidade é uma síntese de todas as funções psíquicas; ela é uma espécie de organismo imaterial, controlado e dirigido pela razão, unificada no tempo pela memória, e cuja autonomia é obra da vontade livre.

Se a personalidade não se apresenta como um todo desde a origem, não ê apenas porque suas condições orgânicas não este­jam ainda plenamente realizadas, mas também porque é de sua natureza ser uma conquista progressiva. A experiência nos mostra satisfatoriamente por quais vicissitudes passa esta difícil conquista, de resto, jamais completada, sempre mais ou menos ameaçada de uma diminuição do domínio que a vontade exerce sobre os impul­sos irracionais do instinto.

c) Fatores sociais. Durkheim e os sociólogos atribuíram à influência da sociedade o papel essencial na formação da persona­lidade. Para eles, a pessoa é um produto da sociedade. Mas este ponto-de-vista é errado. É certo que o fator social tem vm papel importante mo desenvolvimento da personalidade; mas não o cons­titui, A sociedade nos ajuda grandemente a dominar e ordenar os elementos psicológicos, favorece a conservação da identidade pes­soal, que toda a vida social supõe e exige, mas não representa aqui, apesar de tudo, o papel principal. Este pertence ao progresso da razão e ao domínio de si, que a sociedade favorece, mas não pro­duz, — o que equivale a dizer que a síntese psíquica não é construída do exterior, mas do interior.

§ 2.   As teorias da personalidade

155 Passaremos agora a estudar os caracteres que definem o "eu-sujeito", ou seja, a personalidade. Encontraremos duas espécies de teorias. Umas, ditas fenomenistas, querem explicar a personalidade unicamente pelos fenômenos que constituem o "eu-objeto." As ou­tras, ditas substancialistas, afirmam que a personalidade não pode explicar-se senão por um sujeito de atribuição de todos estes fe­nômenos.

1. As teorias fenomenistas. — Estas teorias foram defendi­das, no século XVIII, por Locke, Condillac, Berkeley, Hume e Kant, e, no século XIX, por Taine.

a) Argumentos fenomenistas. Estes argumentos consistem, de uma parte, em criticar a idéia de substância, reduzida a um subs­trato inerte e imutável, — e, de outra parte, em tentar explicar a experiência do "eu-sujeito", ora pela associação (a substancialidade do "eu-objeto" resultaria finalmente, segundo Hume, da memória), ora por uma função de apercepção que, segundo Kant. reuniria sob o mesmo conceito (o do "eu-sujeito") os estados diversos e múlti­plos da consciência.

b) Discussão. Nenhum destes argumentos é válido. De uma. parte, a idéia de sujeito ou de substância não pode reduzir-se à de um substrato inerte subjacente à transformação. Na realidade, o sujeito não compõe, com suas qualidades, 7iiais do que um único ser concreto, se bem que o sujeito se transforme, constantemente, con­forme o curso dos fenômenos que nele interferem. A permanência não pertence senão à sua essência, e não à sua realidade concreta. — Pelo contrário, o eu-coleção de HUME ou o eu-série de Taine são totalmente ininteligíveis: jamais se chegará a explicar, assim, a ex­periência do "eu-sujeito", quer dizer, a experiência de um ser que se conhece como uma unidade idêntica a si mesma, através da du­ração.

Do outro lado, KAnt nada explica além disto, afirmando que os estados de consciência tomam a forma do "eu-sujeito" porque são percebidos como constituindo uma unidade, que ele chama "unidade formal". Como já é necessário um sujeito para esta percepção, se­gue-se que é o sujeito que explica o que deveria explicá-lo. O argu­mento de Kant é, pois, uma petição de princípio, pura e simples­mente.

2. O ponto-de-vista suhstancialista. — Não há outra expli­cação possível da experiência e dos caracteres do "eu-sujeito" a não ser por um sujeito substancial.

a)     O fundamento da unidade e da identidade do "eu-objeto". A unidade e a identidade do "eu-objeto" só se compreendem pela realidade de um sujeito individual, que, a um tempo, esteja subme­tido à transformação e permaneça transformando-se.

A autonomia do "eu-sujeito", por seu turno, encontra na indi­vidualidade sua condição necessária (mas não suficiente), porque apenas um indivíduo (e não uma colônia, ou uma série) pode ser uma pessoa, isto é, um ser inteligente e livre senhor de si.

b)     A intuição do eu. O sujeito que somos é, para nós, uma verdadeira experiência. Existe uma intuição do eu-sujeito que é coexistência a toda a nossa vida psicológica. Esta consciência de si é habitual: para que se torne atual, é necessário um ato de reflexão sobre si. Mas mesmo quando ela é atual, o sujeito não se apreende jamais o, não ser nos seus atos e por seus atos, — e além disto esta intuição de si não nos revela imediatamente a natureza do sujeito que somos. Para conhecer esta natureza, é necessário usar o racio­cínio, a partir da experiência psicológica que nos dá, sem justifi­cá-la metafisicamente, a realidade a um tempo complexa e una de um eu físico e psíquico.

Art. II.    O CARÁTER

156    1.    Noção de  caráter.

a)          Caráter e personalidade. A palavra caráter, do ponto-de-vista moral, é mais ou menos sinônima de personalidade: é o que nos distingue moralmente dos outros, o que nos dá nossa fisionomia própria. Neste sentido, cada um tem o seu caráter.

b)          Caráter e vontade. Isto, porém, não significa que em cada qual exista "caráter". Ter caráter significa não tanto possuir um conjunto de qualidades (ou de defeitos), pelos quais nós nos dis­tinguimos dos outros, mas ser dotado de uma vontade firme e constante.

O problema da educação moral consiste, então, em agir sobre o caráter a fim de dar ou adquirir um caráter.

2. Os elementos do caráter. — Pode-se determinar um ca­ráter segundo seus elementos fisiológicos e psicológicos.

a) Elementos fisiológicos. Estes elementos compõem o tem­peramento ou "personalidade fisiológica". Os antigos distinguiam quatro temperamentos fundamentais: linfático, sangüíneo, bilioso e nervoso. Divisão evidentemente muito restrita para aplicar-se, tal qual, ao real: de fato, a personalidade fisiológica participa dos di­versos temperamentos e, além disto, a base desta divisão parece muito arbitrária.

Qualquer que ele seja, na base do caráter há sempre um certo complexo fisiológico, que o educador não deve negligenciar, e, muitas vezes, a formação do caráter deverá começar por um tratamento médico.

b) Elementos psicológicos. Estes elementos podem ser dosa­dos conforme a predominância de uma ou de outra de nossas fa­culdades.

A sensibilidade é o elemento mais característico; o que mais nos individualiza são nossos gostos, nossas inclinações, nossa emo­tividade, nossos impulsos. É o conjunto de tudo isto que se designa pelo nome de natural, e de que se diz:

"Chassez le naturel, il revient au galop." ("Afastai o natural, ele voltará a galope.")

A inteligência exerce apenas um papel muito restrito no dis­cernimento do caráter. Ela é, com efeito, alguma coisa de impes­soal. Sem dúvida, é necessário reconhecer diversos tipos de inte­ligências: inteligências abstratas, inteligências concretas etc, donde resultam tendências e gostos que nos diferenciam uns dos outros. Mas, ao lado do "natural", estas diferenças não são muito sensíveis, e são, de fato, geralmente negligenciadas.

A vontade, esta, exerce um papel considerável, porque é ela, afinal de contas, que faz a personalidade de cada um de nós. Isto é tão verdadeiro que a linguagem corrente chega a definir o ca­ráter pela vontade, falando de "homens de caráter", quer dizer, homens que sabem ser em tudo eles mesmos, e cujos atos levam a sua marca própria.

Assim o caráter poderá definir-se pelas tendências instintivas, pela natureza da inteligência e pelo grau de vontade.

3.    Pode-se formar o caráter?

a)          Teoria da imutabilidade do caráter. Diversos psicólogos supunham que o caráter é imutável, e o senso comum parece dar-lhes razão. Este repete como La FontainE: "Afastai o natural, ele voltará a galope", e diz-se comumente de uma pessoa: "Ele é como é, e ninguém o transformará."

b)          O caráter pode ser modificado e corrigido. Nesta maté­ria, as teorias não significam grande coisa. Os fatos falam mais alto e nos mostram com evidência que o caráter pode ser modifi­cado pela educação ou pela vontade pessoal. Além disto, isto res­salta claramente da análise que fizemos dos elementos do caráter.

Por outro lado, o , que está na base do caráter, pode sofrer a influência de um tratamento apropriado.   Uma  higiene metódica pode diminuir o nervosismo do nervoso, e pode acal­mar a impulsividade do sangüíneo, e, além disso, o temperamento varia mais ou menos profundamente conforme a idade, a profis­são, o clima etc… Tudo isto prova que o temperamento não é imutável.

Mas, por outro lado, e sobretudo, podemos agir sobre cada um dos elementos do caráter, sobre a sensibilidade, sobre a inte­ligência, sobre a vontade, e todas as regras práticas que fomos levados a formular, tanto a propósito das faculdades de conheci­mento, quanto das faculdades de ação, não são mais do que meios de formar ou de transformar nossas faculdades e, portanto, o cará­ter que seu conjunto compõe.

Pode-se, pois, agir sobre o caráter de outro, e cada um pode agir sobre seu próprio caráter.

4. Como dar caráter? — Dissemos que o que faz o homem de caráter é a aliança de convicções fortes e vontade firme. Logo, preparar-nos-emos para tornar-nos "um caráter" adquirindo bons princípios de ação e uma vontade enérgica, Mas, neste caso, for­mar um caráter não constituirá, propriamente, uma tarefa espe­cial: é o próprio conjunto da educação, formação intelectual e for­mação moral, que deverá contribuir para isto, e esta não estará verdadeiramente terminada senão quando se estiver bem armado de princípios sólidos e de energia lúcida para afrontar corajosa­mente as lutas da vida.

Art.    III.    A CONSCIÊNCIA

157 O estudo do eu e da personalidade nos introduz naturalmente no estudo da consciência, pois o "eu-objeto" e o "eu-sujeito" são consciência de si mesmo, como sujeito e princípio da vida psico­lógica. Os problemas que surgem por esta capacidade de se conhe­cer a si mesmo referem-se a sua natureza, suas formas e seus graus.

§ 1.   Natureza da consciência

1. Definição. — A consciência psicológica é a função pela qual conhecemos nossa vida interior, isto é, nossos diversos estados psicológicos, na mesma medida em que se desenvolvem em nós. Esta função recebe muitas vezes o nome de consciência subjetiva, por oposição à consciência objetiva, que é o conjunto de nossos es­tados psíquicos.

2.    Caracteres. — Os dados da consciência são:

a)        Imediatos e intuitivos, porque, graças à consciência, não. há intermediário entre aquele que percebe e o que é percebido. A consciência realiza, propriamente, a identidade do sujeito e do objeto.

b)        Certos, porque a própria ausência de intermediário entre aquele que percebe e o que é percebido torna impossível qualquer deformação dos dados da percepção. Assim, se é possível duvidar, por exemplo, da veracidade de minha sensação de vermelho, é para mim impossível duvidar da própria sensação, enquanto simples es­tado de consciência.

c)        Pessoais e impenetráveis, porque não podem ser apreen­didos senão por aquele que os experimenta.

í

3.    Objeto.

a)         Tudo aquilo que pertence à experiência interna, quer di­zer, o eu-objeto, com toda a diversidade de seus estados: idéias, sentimentos,  imagens, vontades, tendências etc.

b)         Nada do que pertence à experiência externa, quer dizer, nada ue nos venha de fora, compreendendo neste exterior até o nosso próprio corpo. Dizemos com razão, é verdade, que temos consciência do calor ou do frio. Mas isto não é mais do que uma forma de expressão. Na realidade, temos consciência é de sentir calor ou frio ou, mais exatamente ainda, de ter calor ou frio.

§ 2. Formas da consciência

158       A consciência pode ser espontânea ou refletida.

1. A consciência espontânea. — Chama-se espontânea a cons­ciência   que   acompanha   todos   os   estados   propriamente   psicológicos, e sem a qual todos estes estados permaneceriam estranhos para nós, como os fenômenos da vida vegetativa.

2. A consciência refletida. — A consciência refletida consiste em voltar deliberadamente aos estados psíquicos a fim de observá-los. Ela não é possível evidentemente a não ser pela consciência espontânea, ou pela memória, que faz reviver os estados passados. Este desdobramento, que ela realiza, é privilégio do ser inteligente. Apenas pode voltar aos seus próprios estados para observá-los e, por isto mesmo, escapar ao determinismo das representações, e to­mar posse de si.

§   3.     OS GRAUS DA CONSCIÊNCIA

A.    O problema do inconsciente.

Surgiu uma dúvida sobre se a consciência se estendia realmente a todos os fatos psíquicos, isto é, se não existiam fatos psicológicos inconscientes, não percebidos, no momento em que se produziam, pelo próprio sujeito.

1.    Noções do inconsciente e do subconsciente. — Para resol­ver o problema, convém começar por fazer uma distinção impor­tante, ordinariamente negligenciada. O termo inconsciente pode, com efeito, ser tomado quer no sentido estrito, quer no sentido lato.

No sentido estrito, designa uma realidade psicológica, que es­capa completamente ao sujeito no qual esta realidade existe. É o inconsciente absoluto.

No sentido lato, inconsciente não significa mais do que uma consciência diminuída e mais ou menos fraca, mas não igual a zero. É o inconsciente relativo, ou subconsciente. — Para suprimir qual­quer equívoco, empregaremos a palavra "inconsciente" para signi­ficar o inconsciente relativo.

2.         Natureza do inconsciente psicológico. — Houve quem qui­sesse, por vezes, resolver a priori o problema do inconsciente, di­zendo que um fato de consciência inconsciente seria uma coisa contraditória e que então não existe inconsciente psicológico. Mas este é um puro jogo de palavras. Quando se fala de "inconsciente psicológico" não se quer evidentemente dizer que existem fatos incons­cientes que seriam conscientes (o que é absurdo), mas que podem existir fatos internos e subjetivos (ou fatos na consciência) que escapam ao sujeito no qual se produzem.

B.    Existem fatos psicológicos inconscientes?

159 Eis aí uma questão de fato. Ora, não parece que se possa provar a realidade de tais fatos psicológicos. Os argumentos que se apresentam são inoperantes.

1.       A noção dos fatos psicológicos. — Cumpre inicialmente notar que o problema se refere aos fatos psicológicos, quer dizer, a atos, e atos psicológicos. Portanto, quando se alega, como pro­va do inconsciente psicológico, a existência de estados psicológicos, ou de virimulidadcs psíquicas (como nas disposições morais), — ou ainda quando se cita, com o mesmo propósito, fatos fisiológicos (como os processos cerebrais, a circulação do sangue etc), foge-se completamente do problema. Estas realidades internas são de fato inconscientes, mas não são atos psicológicos. Trata-se de saber se existem, por exemplo, juízos ou raciocínios inconscientes.

2.       Argumentos em favor dos fatos inconscientes. — Exami­nemos brevemente os diversos argumentos propostos em favor dos fatos psicológicos inconscientes:

a)    Argumento das pequenas percepções. É o argumento de Leibniz. O ruído do mar é feito de uma infinidade de ruídos, de que não temos nenhuma percepção consciente, se bem que o perce­bamos realmente, pois que percebemos o ruído total, soma de todos os ruídos singulares.

Este argumento não é válido, porque pode-se supor que as im­pressões múltiplas causadas pelos diferentes ruídos nascem de uma única impressão global no órgão da audição.

b)    Argumentação do hábito. O hábito, como se diz, está na base do inconsciente. Nós não sentimos o atrito de nossas vestes sobre o corpo; lemos sem ter consciência das palavras e das letras como sinais; não percebemos, no nosso quarto, o tiquetaque do relógio, nem na rua os ruídos múltiplos que se produzem ao redor de nós.

Na verdade todos estes fatos provam a realidade de um in­consciente relativo ou subconsciente A consciência que temos do peso ou do atrito de nossas vestes, das palavras como sinais, dos ruídos da rua, é uma consciência extremamente fraca, mas não igual a zero.

c) Argumento da invenção. Citam-se aqui os casos tão nume­rosos em que um sábio vê surgir de uma vez ante seu espírito a solução completamente inesperada de um problema, já longamente estudado, mas abandonado após longo tempo por questões comple­tamente diversas. (Igual observação, mais freqüente ainda, na criação artística.) Julga-se por necessário que o trabalho de pes­quisa ou de invenção se tenha processado à revelia do sábio, na sua própria consciência.

Esta conclusão, contudo, parece duvidosa. Não será mais simples admitir que como todos os elementos necessários foram fornecidos pelo trabalho anterior, a solução venha a ser encontrada instantânea e inopinadamente, sob a influência de certas condi­ções externas (repouso intelectual e físico), ou de certos fatos em relação mais ou menos próxima com o problema científico ou artístico já abandonado, e que liberta de uma vez, numa espécie de automatismo, a solução? Pode-se, de resto, supor, fora desta alternativa, uma espécie de maturação, evidentemente inconsciente, mas que nada tem de comum com uma atividade propriamente psicológica.

3. O subconsciente. — Na realidade, os exemplos que se apre­sentam provam apenas a existência de fatos subconscientes, mas não de fatos inconscientes. O domínio do subconsciente 6 muito extenso. Existe, em torno de nossa consciência clara, toda uma gama de percepções secretas, que vão diminuindo cada vez mais sem chegar ao zero psicológico. A atenção é suficiente para con­duzi-las ao centro da consciência, o que seria impossível se se tra­tasse de um verdadeiro inconsciente.

C.    O domínio do inconsciente.

1. A realidade do inconsciente. — O que acabamos de dizer não visa senão a eliminar a noção mítica de fatos ‘psicológicos inconscientes, mas não a realidade de um inconsciente psicológico.

Existe, abaixo da consciência, um campo extremamente extenso: é o domínio dos estados e das virtualidades: disposições, tendên­cias, inclinações, lembranças, que compõem o fundo de nosso ca­ráter e o tesouro de nossa memória. Estes estados e estas virtua­lidades são, por definição, inconscientes, uma vez que apenas são possibilidades de atos e não atos propriamente ditos. As próprias lembranças não subsistem, no inconsciente, a não ser sob a forma de virtualidades.

2. O papel do inconsciente. — Seu papel é imenso, porque o inconsciente psicológico é como Qpe a fonte profunda de onde procedem nossas atividades conscientes, o terreno de que elas tiram suas substâncias. Este papel foi posto em evidência sobretudo pela psicanálise (análise da consciência), cuja finalidade é revelar, pelos atos descontrolados (lapsos, sonhos etc), a natureza moral e as tendências obscuras do sujeito.

§   4.     DO CONHECIMENTO DE  SI

160 Sócrates dizia que o princípio da Moral estava em conhecer-se a si mesmo. E, de fato, se se pretende agir eficazmente sobre si, corrigir seus defeitos, subjugar suas paixões, conhecer suas apti­dões, a fim de colher o máximo proveito, é necessário começar por observar atenta e metòdicamente a si mesmo. É necessário estudar o "eu-objeto" a fim de retificar ou fortalecer o "eu-sujeito".

1. É necessário estudar o "eu-objeto", quer dizer, é necessá­rio, para a consciência refletida, ter uma noção clara e precisa daquilo que nós somos. É o que os mestres da vida espiritual sem­pre recomendaram com insistência sob o nome de exame de cons­ciência. A consciência espontânea nos informa corretamente sobre nossos estados interiores, mas não de uma maneira suficientemen­te clara: ela coincide com estes próprios estados. Para bem conhe­cer-nos, é necessário tornar-nos deliberadamente a nós mesmos como assunto de estudo, e utilizar para tanto, pelo emprego inte­ligente do método psicanalítico, os atos descontrolados que reali­zamos. Inclinamo-nos muitas vezes a não dar nenhuma atenção a certos atos ou gestos, sob pretexto de que "nos escaparam". Ora, estas atividades não controladas têm, ao contrário, grande importância para aperfeiçoar nosso conhecimento de nós mesmos, reve-lando-nos o que somos profundamente, nas nossas tendências e inclinações fundamentais.

2. É necessário corrigir e fortalecer o "eu-objeto", quer di­zer, tornarmo-nos cada vez mais senhores de nós mesmos, domi­narmos, pela vontade, a corrente de nossos estados interiores, e afirmar-nos assim, conforme a palavra tão expressiva de Aristó­teles, como "pais de nossos atos". Podemos realmente viver mais ou menos como estranhos a nós próprios, deixando-nos conduzir, de certo modo passivamente, pelo determinismo de nossos estados psíquicos, enquanto que a verdadeira vida humana consiste em .substituir o "eu" empírico por um "eu" voluntário e refletido, através do qual a unidade de nossa vida intelectual e moral é refor­çada, a identidade material de nossa existência submetida a um desenvolvimento harmonioso, e sua atividade dirigida e regulada de acordo com os princípios superiores da Moral.

 




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