Consciênia - Filosofia e Ciências Humanas
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A VIDA INTELECTUAL – Curso de Filosofia de Jolivet


Curso de Filosofia – Régis Jolivet

SEGUNDA  PARTE

A  VIDA  INTELECTUAL

132     

Da vida sensível à vida intelectual não existe simples continuidade. A atividade sensível é limitada ao presente sensível imediato e desprovida desta universalidade que define a inteligência racional do homem e faz com que as atividades sensíveis se completem num clima racional, que as modifica profundamente, É agora  esta atividade racional que temos de estudar, a um tempo nu suas operações cognitivas e nos movimentos que inspira o governa.

 

 

Capítulo Primeiro

O   CONHECIMENTO  INTELECTUAL

O pensamento ultrapassa o conhecimento intelectual, mas é pelas operações do pensamento, concepção, juízo e raciocínio, que se caracteriza melhor a atividade cognitiva do espírito. É, então, em torno destas noções que temos de ordenar nosso estudo do conhecimento intelectual e de sua função mais geral, que é a atenção.

ART. I:    A ATENÇÃO

§ 1.   Natureza da atenção

133      1. Definição. — As diversas manifestações de nossa vida psicológica podem revestir duas formas diferentes: a forma distraída e a forma atentiva. Na primeira, nossos estados interiores e os acontecimentos exteriores se sucedem sem que lhes apliquemos ativamente nosso espírito. Na segunda, concentramos neles nossas faculdades de conhecimento. Pode-se, pois, definir a atenção como a concentração da consciência sobre seu objeto.

2. Atenção e reflexão. — A atenção pode aplicar-se quer à nossa vida psicológica, quer aos objetos exteriores. Ê à observação ativa dos objetos exteriores que se reserva geralmente o nome de atenção, enquanto que a observação ativa dos estados interiores se chama reflexão. Tudo o que se segue se aplicará a um tempo à observação subjetiva e à observação objetiva.

§ 2.   Formas da atenção

A atenção é suscetível de formas muito diversas, conforme seja encarada  do ponto-de-vista de seu  mecanismo:  distingue-se, então, a atenção espontânea e a atenção voluntária, — ou, do ponto-de-vista das funções psicológicas, nas quais ela se encontre: distingue-se, neste caso, a atenção intelectual, a atenção afetiva etc.

1.    Atenção espontânea e atenção voluntária.

a)         A atenção espontânea é aquela que se impõe por si mesma ao sujeito. Ela não é fruto de nenhum ato de vontade ao contrário, resulta passivamente das preocupações dominantes do momento. Tal é a atenção do pintor às linhas e às cores.

b)         A atenção voluntária é a que resulta de uma concentração ativa e deliberada das faculdades de conhecimento num objeto, seja interior, seja exterior.

2.    Atenção afetiva e atenção intelectual.

a)     A atenção afetiva exerce um papel considerável nos emotivos, apaixonados e nervosos. Ela se aplica aos sentimentos e às emoções de uma maneira por vezes obsedante.

Sob sua forma voluntária, consiste num esforço vigoroso para disciplinar a .

b)     A atenção intelectual é, sob sua forma espontânea, a curiosidade natural dos problemas intelectuais, e, sob sua forma voluntária, o que se chama a contemplação, ou fixação do espírito num objeto de pensamento, com um esforço firme para eliminar as distrações e as preocupações estranhas ao objeto contemplado.

§ 3.   Efeitos da atenção 135      A atenção tem efeitos fisiológicos e efeitos psicológicos. 1.    Efeitos fisiológicos.

a)    A atenção ativa a circulação, principalmente nos centros cerebrais, relaxando-a na periferia.

b)    Relaxa o ritmo respiratório.

c)    Produz fenômenos motores: adaptação dos órgãos dos sentidos, convergência e acomodação dos olhos, contração da fronte etc, paralisação dos movimentos do corpo.

2.    Efeitos psicológicos.

a)         Retração do campo da consciência. Na atenção somente conta o objeto considerado: ele absorve, unicamente para si quando a atenção é verdadeiramente grande, toda a consciência, que se esvazia momentaneamente de qualquer outro conteúdo.

b)         Multiplicação dos atos perceptivos. A atenção normal não é um ato absolutamente contínuo. Compõem-se, ao contrário, de uma série de observações ativas e de reflexões concomitantes. De fato, ela se renova continuamente, e se desenvolve segundo um ritmo de tensão e afrouxamento sucessivos.

§ 4.    da atenção

136      Deste estudo da atenção se seguem naturalmente duas conseqüências importantes, do ponto-de-vista prático.

1.       Desenvolver a atenção voluntária. — É esta a verdadeira atenção humana, se for exato que a atenção espontânea é comum a nós e aos animais. Ora, desenvolver a capacidade de atenção voluntária é ainda, como já o notamos mais acima, a propósito do "sujeito" (97), tornar-se alguém cada vez mais senhor de si, substituindo as diversas atrações que o enredam por sua própria força, se permanecer passivo diante delas, pela atividade refletida que não se deixa distrair de sua tarefa, e que empresta a nossas faculdades o máximo de seu poder.

2.       Dirigir a atenção voluntária. — Pois não basta ser capaz de atenção, mas é necessário ainda fazer um bom uso dela, Há toda uma educação a dar à nossa faculdade de atenção.

 

a)         No estudo, é sabido que se aprende com muito mais facilidade aquilo a que nos "aplicamos", como se costuma dizer, do que se percorre distraidamente.

Na vida moral, por outro lado, um dos preceitos mais importantes é desviar a atenção das imagens e dos sentimentos que solicitam nossas piores inclinações, para aplicá-la com força e perseverança às idéias e às tendências elevadas, como às sugestões do dever. As tentações não têm de nos vencer, a não ser que encontrem em nós a cumplicidade de uma atenção malsã, e, de resto, freqüentemente "fugir à tentação" não é nada mais do que recusar atenção.

c) Relativo/mente à sensibilidade. Enfim, por meio de uma atenção voluntária, metódica e contínua, ajustada aos princípios do dever e às grandes idéias morais, é possível chegar a criar em si uma sensibilidade tão disciplinada e reta, que a prática do bem se torne uma obra cada vez mais fácil e agradável.

ART. II.     O PENSAMENTO EM GERAL

§ 1.    Noções gerais

137 1. Imagem e idéia. — Ao analisarmos os conhecimentos que já adquirimos, não podemos deixar de distinguir ditas categorias bem distintas. Umas aplicam-se às realidades concretas’, singulares, e têm uma posição definida no espaço e no tempo; por exemplo, esta mesa em que escrevo, esta casa em que habito, este sentimento que experimento neste instante. As outras, ao contrário, são gerais e aplicáveis a um número indefinido de objetos: uma casa, uma mesa, um triângulo, um sentimento. As primeiras são imagens, as outras idéias  ou conceitos.

2.       O conhecimento abstrativo. — O conhecimento intelectual é o que se orienta por idéias gerais e abstratas. Isto não significa que não tenha relação com o conhecimento sensível. Ao contrário, apóia-se nele e dele extrai seus próprios materiais, por um processo que se chama abstração, que estudaremos mais adiante.

3.       Os dois aspectos da vida intelectual. — A inteligência compreende uma dupla série de funções. Umas (concepção das idéias, juízo, raciocínio) têm por objeto a elaboração dos materiais (ou imagens) fornecidos pelos sentidos externos e internos: estas funções compreendem o que se chama pensamento. As outras têm por objeto a conservação dos materiais do conhecimento, imagens e idéias, e a associação espontânea ou ativa desses materiais: estas funções são as da memória e da associação das idéias.

 

§ 2.   O Pensamento

A.    Noção.

138 1. Que é pensar? — Pensar, em geral, consiste em conhecer em que consistem as coisas e que relações têm entre si. Ver o triângulo que está inscrito no quadro-negro é uma percepção sensível. Definir o triângulo por uma noção aplicável a todos os triângulos universalmente (ou a todos os triângulos de uma espécie dada) é um ato de pensamento. Assim, também, ocorre com o juízo, que enuncia que a soma dos ângulos de um triângulo é igual a dois retos, como também com o raciocínio, pelo qual se estabelece esta asserção. Da mesma forma, ainda, determinar a causa de um fenômeno é formular uma relação que é acessível apenas à inteligência. Poder-se-ia dizer, de maneira mais geral, que pensar é compreender, isto é, compreender as coisas, tanto em si mesmas, como em suas razões de ser.

2.    Idéia, juízo, raciocínio. — Vê-se, assim, que o pensamento compreende três operações distintas:

a)         A concepção das idéias, que consiste em apreender o que a coisa é (o triângulo, como figura que tem três lados). Ela se exprime na idéia, ou conceito, que exprime uma essência (ou o substituto de uma essência).

b)         O juízo, que consiste em afirmar (ou negar) uma relação de conveniência entre várias idéias (o círculo é redondo, o tempo está bom,  o homem é racional).

c)         O raciocínio, que consiste em estabelecer liame lógico entre vários juízos.

Estas operações já foram estudadas em Lógica formal. Cumpre, todavia, acentuar que a Psicologia observa de um ponto-de-vista diferente do da Lógica. Ela tem por fim determinar, não, como faz a Lógica, as leis ideais do pensamento correto (6), mas a natureza do pensamento, as condições de fato e as leis experimentais de seu exercício.

3.    Natureza da inteligência. — O pensamento difere, essencialmente,   do   conhecimento   sensível.   Este   efetua-se   por   órgãos corporais, ao passo que a inteligência é uma faculdade inorgânica pela qual a alma conhece as coisas de uma maneira imaterial.

Sem dúvida, a inteligência tem condições orgânicas, que são os nervos e o cérebro, mas condições não são causas. (Para tocar violino, o artista carece de um arco. Mas o arco não é causa da melodia: é apenas a condição). Deve-se, por isso, dizer, com Aristóteles, que "nós pensamos sem órgão  de pensamento"  (88).

139      4.    As formas do pensamento.

a)         Discurso e intuição. Distingiiem-se: o pensameyito discursivo (ou discurso), que consiste em pesquisas múltiplas e sucessivas. O seu tipo é o raciocínio. Ele se impõe cada vez que a verdade não é vista imediatamente; — o pensamento intuitivo (ou intuição), que consiste na visão imediata e global de um objeto ou de uma verdade. (Toma-se também muitas vezes a palavra intuiçõ.-:-no sentido de pressentimento, que é um sentido menos rigoroso.)

b)         Intuição e discurso estão constantemente associados no ato do pensamento. De fato, todo trabalho do espírito parte de uma intuição para chegar a outra intuição, por meio do discurso. Na princípio de nosso conhecimento há objetos (as coisas) e noções (noções de ser, de causa etc, e primeiros princípios), aprendidos por uma intuição espontânea, uma sensível, outra intelectual. J partir destes objetos primitivos, institui-se um trabalho discursivo, que tem por fim aprofundar e precisar o conhecimento do real dado aos sentidos, e descobrir a ordem das coisas e suas razões cc ser. Este trabalho tende a terminar numa nova intuição, que fornece a cada passo uma visão mais rica do real. Saber verdadeiro, mente, afinal de contas, é ver.

140      5. Os instrumentos do pensamento. — Nós somos seres a um  tempo espirituais e corporais, e por isso é que nosso pensamento deve encarnar-se no sensível. Isto se produz por meio da linguagem e da escrita.

a) Natureza da linguagem. A linguagem é um sistema d sinais sonoros (a palavra) ou visuais (o gesto e a escrita), qi têm por fim a expressão dos fatos psíquicos e, mais particularmente, do pensamento.

b) Pensamento e linguagem. Pode parecer inútil perguntar, como fez  de Bonald, o que vem primeiro, o pensamento ou a linguagem, uma vez que a linguagem atesta o pensamento e praticamente se confunde com ele. Contudo, no complexo pensamento-lin-guagem, é sem dúvida possível definir qual o aspecto ou o elemento que tem a primazia formal, quer dizer, definir uma ordem lógica. Ora, deste ponto-de-vista, é evidentemente ao pensamento que compete atribuir o papel essencial, uma vez que, se o pensamento se atualiza na e pela palavra, esta não faz mais do que exprimir o pensamento. Sem pensamento, não existiria linguagem, mas simplesmente reações emocionais estritamente expressivas do estado afetivo de um indivíduo incapaz de se aperceber das diferenças entre ele próprio e o que o cerca.

Sob este aspecto, diremos que a linguagem nasceu da tripla necessidade que o homem experimenta (e que procede de sua natureza racional) de se exprimir ou de se afirmar a si mesmo diante do mundo, de exprimir o sentido que ambiciona dar ao mundo, de comunicar-se com seu semelhante para realizar seus projetos e, em conseqüência, para atingir sua própria libertação e conquistar sua . — Quanto a saber como é atualizada esta tripla necessidade, pode-se admitir que foram a um tempo o gesto, a mímica, o grito e a imitação dos ruídos naturais (onomatopéias) que serviram de primeiro apoio.

Art. III.    A  IDÉIA

141      1.    A abstração. — A idéia geral resulta de uma operação, que

se chama abstração.

a)         Em geral, abstrair é considerar à parte, num todo complexo, os elementos que o compõem. É esta operação que designamos, em Metodologia, pelo nome de análise  (44).

b)          Enquanto operação que produz a idéia geral, a abstração é o ato pelo qual a inteligência pensa um objeto, deixando de lado seus caracteres singulares. Assim, resultam de uma abstração as idéias de , de bem, de triângulo, de mesa, de homem etc, que excluem a consideração de todos os caracteres pelos quais a é tal (humildade, caridade), o bem é tal bem (esta pêra para quem tem sede), o triângulo, tal triângulo  (este triângulo  isósceles inscrito na mesa)  etc.

c)    A generalização. A idéia abstrata pode ser imediata pensada como aplicável a todos os objetos da mesma espécie. (A idéia de triângulo convém a todos os triângulos, isósceles, escalenos etc., a idéia de homem, a todos os homens, pretos, brancos, João, Tiago etc). Ela é, então, ao mesmo tempo que abstrata e, enquanto abstrata, geral. Dá-se-lhe, muitas vezes, deste ponto-de-vista, o nome de conceito.

É claro que a abstração pode ser mais, ou menos, geral. A idéia de mesa redonda, por exemplo, é menos geral do que a de mesa conceito de suporte é mais geral do que o de mesa (a mesa é uma espécie do gênero suporte); a idéia de homem é menos geral que -de ser vivo. Podemos assim elevar-nos pouco a pouco a uma a: — tração cada vez mais completa, que nos conduz à idéia mais universal de todas, que é a idéia do ser, ou idéia do que é, ou existe (de alguma forma que seja).

2.       Abstração total e abstração formal. — Distingue-se abstração total (ou extensiva), que consiste em considerar o gênero separado da espécie ou a espécie separada do indivíduo (pai exemplo, o animal separado do homem ou que qualquer outra espécie de animal, — o homem separado de Pedro, Tiago etc), — e a abstração formal (ou intensiva), que consiste em considerar a essência (ou a forma) separada do sujeito no qual ela se realiza (por exemplo, a humanidade, a brancura, separada dos sujeitos em que existem, ou a justiça separada dos atos de justiça). A abstração formal compreende por  sua vez vários níveis ou graus.

3.        Os graus de abstração formal. —Aristóteles distinguiu três graus progressivos de abstração formal, que dão três níveis de inteligibilidade crescente. Com efeito, num objeto material a inteligência pode abstrair de início as qualidades sensíveis, considerando-se separadas de suas notas singulares: é o grau de abstração próprio às ciências da natureza, que têm por objeto, por exemplo, o calor, o peso, a força, a velocidade, a vida etc; — depois, a quantidade, como tal, sendo considerada independentemente das qualidades sensíveis que nela influem: é o grau de abstração próprio à Matemática, que tem por objeto os números e as figuras; — enfim, o próprio ser, considerado independentemente de qualquer matéria, unicamente como ser. Este terceiro grau de abstração é o grau próprio à Metafísica.

Segue-se do que precede que os conceitos são cada vez menos determinados à medida que nos elevamos na abstração. A idéia de ser é a menos determinada de todas, uma vez que ela convém a tudo o que é ou pode ser. Inversamente, o indivíduo (Pedro, este cavalo, esta mesa)   é a realidade mais determinada.

4. Os primeiros princípios. — A idéia de ser, que resulta da primeira visão da inteligência sobre as coisas, dá imediatamente origem a juízos que se chamam primeiros princípios, que só fazem exprimir as leis do ser, intuitivamente apreendidas no ser. São estes: o princípio de identidade; o que é, é, ou ainda: o ser é idêntico a si mesmo, — e o princípio de contradição: a mesma coisa não pode, ao mesmo tempo e na mesma circunstância, ser e não ser.

Cabe citar agora, entre as noções que nos dá intuitivamente, ainda que confusamente, o primeiro contato do espírito com as coisas, as noções de causa, ou "aquilo-que-produz-alguma coisa", — de substância, ou "aquilo-que-subsiste na transformação", de fim, ou "aquilo por que uma coisa é feita". — Como a idéia de ser, estas noções dão origem a princípios universais: princípios de , de substância, de finalidade.

A questão do valor destas noções e destes princípios será tratada na Crítica do conhecimento.

142 1. O problema dos universais. — Este problema, que é um problema crítico, tem também um aspecto psicológico. Sob este aspecto, convém falar dele aqui.

Que valem as idéias gerais, ou universais? O que suscita esta questão, é que nada parece corresponder aos universais, no real, onde não existe mesa em geral, mas somente tais mesas determinadas, nem homem em geral, mas apenas tais homens singulares.

a) O nominalismo. Uns {nominalistas) asseguram que os universais não existem nem no real nem no espírito e que são puros nomes (nomina). — Esta opinião vai contra a evidência, uma vez que pensamos realmente alguma coisa através de idéias gerais.

b)         O conceptualisrao. Outros (conceptualistas) concedem que à idéia geral corresponde certamente uma realidade no espírito, mas não fora do espírito. É esta operação que Aristóteles chamava "indução".

c)         O moderado. A opinião conceptualista não pode ser admitida em sua forma absoluta, porque vemos claramente que aos universais corresponde alguma coisa no real: há no real alguma coisa que responde à idéia de homem, de virtude, de bem etc. Apenas, esta qualquer coisa que corresponde à idéia geral não existi no real da mesma maneira que no espírito, isto é, sob forma universal (como o acreditaram falsamente os Realistas ou Reais), :mas sob forma singular e individual. Eis porque se diz que os universais são abstraídos dos singulares. Esta última opinião é muitas vezes designada sob o nome de realismo moderado.

2.    Intelecto agente e intelecto passivo.

a) Exclusão do inatismo e do ontologismo. O realismo moderado exclui a um tempo o inatismo, segundo o qual as idéias existiriam na inteligência, seja em ato, seja (como o pensava Descartes) virtualmente, antes de qualquer atividade do espírito, como uma espécie de tesouro inteligível do qual a inteligência só teria de lançar mão — e o ontologismo (defendido por Malebranche e ROSMini), que professa que a inteligência apreende suas idéias, não nas coisas, mas na essência divina   (teoria da visão em Deus).

Nem uma nem outra destas pode ser admitida. A experiência prova que nós não temos idéias inatas, nem em ato, quer dizer, plenamente formadas, uma vez que temos consciência de elaborar pouco a pouco nossas idéias por meio da experiência, — nem virtualmente, uma vez que a vontade não é suficiente para adquiri-las, como ocorreria se estivessem virtualmente à disposição da inteligência.

Quanto ao ontologismo, era mister que víssemos a Deus, uma vez que as idéias em Deus nada mais são que o próprio Deus. Ora, é evidente que nós não vemos a Deus e que conhecemos só muito imperfeitamente sua natureza, como o mostraremos na Teodicéia, apenas baseados nos efeitos de seu poder.

b)         A condição radical da formação das idéias. Esta condição é realizada pelo concurso de uma faculdade que Santo Tomás, seguindo Aristóteles, designou sob o nome de intelecto agente (ou ativo). Com efeito, as imagens formadas nos sentidos pelo conhecimento sensível não são capazes de agir por si mesmas na inteligência, que é completamente imaterial, porque permanecem submetidas às condições da matéria, enquanto representam objetos materiais determinados. É o que se exprime ao dizer que elas não são inteligíveis em ato, quer dizer, cognoscíveis como tais pela inteligência. Para tornarem-se inteligíveis em ato, é necessário que as imagens sejam elevadas ao nível de {materialidade da inteligência, e, por conseguinte, despojadas de suas condições sensíveis, singulares e concretas. Esta operação se realiza por uma espécie de iluminação das imagens sensíveis, que é a função própria do intelecto agente, e que constitui a abstração intelectual.

c)         O conhecimento intelectual propriamente dito. O intelecto agente é, assim, uma faculdade ativa, que age como condição de intelecção. A inteligência propriamente dita (faculdade passiva) recebe o nome de intelecto passivo, enquanto recebe as espécies inteligíveis formadas pelo exercício do intelecto agente. Estas espécies inteligíveis fecundam, por assim dizer, a inteligência, que pode desde então produzir o ato de intelecção ou ato de conhecimento intelectual.

ART. IV.    JUÍZO, RACIOCÍNIO E CRENÇA

143      1.    Natureza do juízo.

a) Originalidade do juízo. Dissemos que o juízo realiza uma síntese. Ora, esta síntese não resulta, como afirmou Condillac, da presença de duas sensações simultâneas à consciência, nem, como quiseram os associacionistas (HUME, Stuart Mill), da simples associação de realidades que têm entre si uma relação de contigüidade.

Estas concepções pecam por fazer do juízo um processo de passividade, ao passo que o juízo resulta, ao contrário, da aplicação do espírito ao real para apreender e afirmar as relações das coisas entre si.

b) O juízo, ato de perceber uma relação. É verdade que muitos juízos se formulam espontaneamente. Mas isto pouco interessa, porque o que caracteriza o juízo é o ato de afirmar uma relação entre idéias, ato que não se encontra, nem na justaposição mecânica das sensações, nem na associação espontânea de imagens ou de idéias.

2.    Natureza do raciocínio. — Os filósofos que pretenderam reduzir o juízo a uma associação mecânica de idéias formularam a mesma tese a propósito do raciocínio. Mas esta teoria é igualmente insustentável, por ser o raciocínio autêntico í> desenvolvimento da atividade intelectual, e obra construtiva do espírito.

3.    A crença.

a)    Noção. Julgar é afirmar uma relação, aderir ativamente a uma relação percebida. É esta adesão consciente que designamos pelo nome de crença.

Este sentido técnico da palavra crença deve ser distinguido dos outros sentidos que são dados freqüentemente à mesma palavra. É empregado para designar uma simples opinião provável (creio que o tempo estará bom amanhã), — um juízo aplicado a verdades certas, mas não suscetíveis de prova experimental (domínio das crenças morais: crê-se na justiça, no progresso, no primado do espiritual etc.) — enfim, as verdades que repousam no testemunho, seja humano   (verdades históricas), seja divino   (crenças religiosas).

b)    Papel da inteligência e da vontade. É um fato que a crença não depende da, inteligência apenas, ao contrário do que afirma Spinosa, salvo nos casos em que a evidência é absoluta (caso do princípio de identidade, por exemplo), porque, nestes casos, ver e aderir ao objeto seriam uma só coisa. De outro lado, a afirmação ou a negação são geralmente condicionadas, em maior ou menor quantidade, por influências que provêm da sensibilidade ou da vontade, e que se exercem sobre a inteligência.

A crença não depende, tampouco, apenas da vontade, ao contrário do que afirma Descartes : a prova disso está em que invocamos sempre, para justificar nossas crenças, não nossa pura vontade, o que seria risível, mas motivos de ordem intelectual ou sensível.

A crença depende ao mesmo tempo da inteligência e da vontade, mas de modos diversos. O papel principal e direto pertence à inteligência, que percebe a relação e lhe dá seu assentimento. Ã vontade, pertence um papel indireto: é ela que mantém e desvia a atenção, que aplica a inteligência ao objeto, e repele as distrações, afasta os preconceitos e as paixões. Entretanto, professam-se tais ou tais doutrinas por não se ter jamais querido aplicar a inteligência ao exame das razões contrárias a estas doutrinas, ou, ainda, porque elas encontram a cumplicidade de nossos sentimentos e de nossos interesses. Os sentimentos podem exercer uma tal influência sobre o pensamento, que eles organizam o raciocínio, não segundo as exigências lógicas do objeto, mas segundo a conclusão escolhida inicialmente. Quantos homens dão por demonstrado o que desejam! A inteligência, neste caso, abdica de sua prerrogativa essencial.

Art. V.    A EDUCAÇÃO INTELECTUAL

144 "Mais vale uma cabeça bem feita do que uma cabeça bem cheia", dizia , a propósito da memória. É que o fim da educação intelectual é, antes de tudo, a formação do juízo: aprender a ver bem as coisas e a bem apreender suas verdadeiras relações, eis o que convém realizar. E isto é tanto mais importante quando a educação intelectual se subordina à educação moral como um meio a um fim. Com efeito, não devemos separar nossas diversas atividades em compartimentos estanques; formar o espírito é uma maneira de formar a vontade, afinando a consciência, dando-lhe mais esclarecimentos sobre seus deveres, alargando seu horizonte.

A.    A concepção das idéias.

A idéia é abstrata e geral. Já dissemos quanto os espíritos jovens têm dificuldade em assimilar o que é abstrato. Devemos agora voltar a este ponto, para precisá-lo.

1.    A abstração.

a) Um bom método de formação intelectual quer que partamos, em tudo, do concreto: a criança experimenta uma verdadeira antipatia pela abstração, porque não a compreende e só representa para ela palavras mais ou menos vazias de sentido.

b) As noções gerais, fim da formação do espírito. Faz-se mister, contudo, sair do concreto e do singular, pois o que a educação intelectual nos pretende dar são as noções gerais, portanto, necessariamente abstratas. As lições de coisas devem encaminhar as lições de idéias; do contrário serviriam de quase nada para a cultura intelectual. Chegar-se-á até aí progressivamente e tomando o cuidado de sempre manter contato com os fatos, as observações particulares, nas quais se apóiam as idéias abstratas. Pouco a pouco, chegar-se-á a habituar-se a pensar por idéias, em vez de pensar por imagens, e, pois, a grupar seus conhecimentos de maneira lógica.

2.    A generalização. — A criança generaliza cora uma extrema facilidade, mas, muitas vezes, atabalhoadamente, apóiando-se nas semelhanças mais longínquas e mais fantasistas. Já para a criança pequena, todos os homens são "papás". Numa idade mais avançada, esse instinto generalizador se torna mais circunspeto, mas permanece facilmente prematuro e arbitrário, sem que a experiência seja bem sucedida em corrigir este defeito.

As causas destas generalizações indiscretas, na criança, iremos encontrá-las  na deficiência de vocabulário, na falta de reflexão e de conhecimentos precisos. No adulto, a causa é a irreflexão. Por isto é necessário aprender a refletir, coisa menos comum e menos fácil do que se pensa, porque supõe que se resista, graças a um esforço mais ou menos árduo, à tendência ao menor esforço e à precipitação, e, sobretudo, que nos premunamos cuidadosamente contra a tendência a reduzir as coisas familiares para nós aos clichês feitos, que nos são habituais. O pensamento não se acomoda de forma alguma à confecção! Na ordem prática, que diz respeito às coisas singulares, é importante estar atento às diferenças das coisas e das pessoas, e não existe pior fonte de desinteresse do que substituir as realidades da vida por esquemas que se per imitem uns aos outros.

3.         O psitacismo. — As palavras carregam idéias, e, como dissemos, lhe dão rigidez e estabilidade. São indispensáveis. Mas
têm os seus perigos: perigos de que todos nós somos mais ou menos vítimas, ao falar sem pensar, usando fórmulas feitas, cujo sentido exato nos escapa, e palavras ressonantes: Liberdade, Justiça, Tolerância etc, que dissimulam idéias bastante vagas. Jamais se desconfiará suficientemente desta tendência a contentar-se com palavras, sem ir às idéias. Devemos, por isso, estar prevenidos contra a propensão natural ao psitacismo, aplicando-nos em definir o sentido das palavras que empregamos para evitar a utilização de palavras cujo sentido ignoramos, para afastar as palavras sonoras que só escondem noções confusas e que não são apenas indício de um pensamento pobre e vago.

B.    O juízo.

145        Formar o juízo: eis o essencial da educação intelectual.

1.    Deve-se cultivar o  juízo? — Pareceu por vezes que isto estava sendo contestado pela afirmação de que "o é o que há no mundo de mais bem compartilhado" (Descartes), e um mora lista diz que "se todo mundo se lastima de sua memória, ninguém lamenta o seu juízo". Este último argumento não tem valor, evidentemente, porque o amor-próprio seria suficiente para dissuadir-nos de proclamar nossa deficiência de julgamento, e, por outro lado, aqueles que dele mais carecem são sempre os que se crêem melhor aquinhoados.

A verdade é que os homens são muito desigualmente dotados quanto ao juízo, enquanto que alguns parecem ter o juízo naturalmente falso. Isto significa que cultivar o juízo é uma necessidade. Mas, como fazê-lo?

2.    Como cultivar o juízo?

a) O espírito de discernimento. Formar o juízo vem a ser, em suma, formar o que se chama o "espírito crítico" ou o espírito de discernimento, a fim de chegar a substituir por crenças espontâneas e irrefletidas crenças apóiadas em razões claras e fortes. A confiança nos é natural, ei a disposição, tão poderosa na criança em crer nas afirmações de outrem ou em adotar passivamente as maneiras de pensar e de sentir da sociedade em que vivemos, resiste na maior parte dos homens às desilusões mais graves. A credulidade nos é essencial, uma vez que somos seres sociais. Mas pode acarretar perigos, e deve ser constantemente temperada pelo espírito crítico, que cumpre, portanto, formar ou afinar.

b) Os instrumentos do espírito crítico. A bem dizer, não há método especial para formar o espírito crítico. Tudo, na educação, deve contribuir para isto: o estudo da gramática e das línguas, o das letras e das ciências, e, antes de tudo, o estudo da Filosofia. Tudo nos deve servir para adquirir o gosto da prudência na afirmação, da precisão nas idéias, da modéstia, da finura e penetração, qualidades estas que determinam a retidão do juízo.

A vida social será também de grande auxílio. Se ela nos impõe, sob certos aspectos, um conformismo perigoso para o espírito crítico, força, sob outros, uma perpétua confrontação de nossos pensamentos e de nossos sentimentos com os de outrem e, por isso mesmo, cria-nos a necessidade de apóiar nossas asserções e nossas crenças em razões precisas e claras, para convencer aos outros ou responder a suas dificuldades. Daí resulta, para os espíritos ativos, uma constante atualização de seus juízos espontâneos, um enriquecimento e um aprofundamento de suas crenças refletidas.

 

 

146   C. O RACIOCÍNIO

 

1. Raciocínio e razão — O raciocínio não é a razão, e existem  muitos raciocínios que são um desafio à razão, sem deixar de ser, em si mesmos, de uma lógica inatacável. Os loucos, como se sabe, são muitas vezes maravilhosos lógicos: o mal está em que as premissas de seus raciocínios são  absurdas.

Muitos homens se lhes assemelham, mais ou menos, quando raciocinam sobre noções incompletamente elaboradas, sem nenhum cuidado de relacionar à experiência suas imprudentes deduções. Os utopistas como Rousseau são desta espécie, e muitos espíritos revolucionários não foram, se assim se pode dizer, senão maníacos do raciocínio vazio ou do contra-senso. Na vida corrente, nada é mais freqüente do que esses raciocinadores improvisados.

2.    Espírito de  geometria e espírito de  sutileza. — O raciocínio não poderá, portanto, valer absolutamente por si mesmo. A aptidão lógica, o rigor no encadeamento das idéias são qualidades preciosas, desde que acompanhados pelo bom-senso, pela atenção à experiência, previsão das exceções, vivo sentimento da complexidade do real, que impedem de considerar as coisas da vida com a rigidez própria da matemática, É o que PASCAL queria dizer, quando aconselhava que estivessem sempre associados o espírito de geometria e o espírito de sutileza.

 

 




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