A Criação – Curso de Filosofia de Jolivet
Curso de Filosofia – Régis Jolivet
Capítulo Segundo
A CRIAÇÃO
228 Do que precede, resulta com evidência que Deus, sendo radicalmente distinto de um universo que não tem e não pode ter em si mesmo sua razão suficiente, deve ser o criador deste universo- O fato da criação não está então mais em questão, mas unicamente o modo da criação. Temos apenas que precisar, então, a noção de criação, e a que lhe é conexa, de conservação.
Art. I. A NOÇÃO DE CRIAÇÃO
1. Que é criar?
a) Criar é fazer alguma coisa do nada. Tal é o sentido próprio da palavra criação. A produção de uma forma nova numa matéria preexistente não se chama senão impropriamente criação. Na realidade, a forma não é tirada do nada, assim como a matéria, Existe simplesmente transformação. Criar é privilégio de Deus, pois a criação propriamente dita exige uma potência infinita.
b) Criação e princípio. É capital compreender que a idéia de criação não está necessariamente ligada à de um tempo inicial. Ao contrário, ela faz abstração completa da idéia de princípio temporal. Não significa mais do que a absoluta dependência do mundo, até o fundo do ser, em relação a Deus.
Na realidade, o mundo, por ter sido criado, tendo tido ou não em primeiro instante temporal, não cessa de começar. Não existindo por si mesmo, mas apenas pela virtude criadora de Deus, e isto em cada instante de sua duração, ao mesmo tempo em seu todo e em cada um de seus elementos, está na sua essência começar sempre.
A hipótese da eternidade do mundo não suprime esta necessidade: se o mundo não tivesse princípio temporal, não cessaria por isto mesmo de ser a cada instante criado por Deus, e, por conseguinte, de receber de Deus o ser que tem (o que é propriamente começar) (205). — Vê-se ao mesmo tempo como, ainda nesta hipótese, a idéia de eternidade não poderia aplicar-se realmente ao mundo, porque, como vimos (220), a eternidade exclui a transformação e a sucessão (quer dizer, qualquer espécie de princípio). Apenas Deus é eterno. Eis por que, se o mundo não tivesse instante inicial, poder-se-ia falar de sua perpetuidade, mas não de sua eternidade.
c) Criação e duração. A noção de criação (na hipótese em que o mundo tivesse um instante inicial) não implica de forma alguma a idéia de uma duração vazia, que precedesse a duração concreta e a existência real. Na realidade, o tempo é coextensivo do real criado: se o universo teve um instante inicial, o tempo começou com ele, e, mesmo, de conformidade com o que já vimos, estudando o tempo (74), o tempo deve ser tomado como logicamente posterior ao mundo como substância móvel, uma vez que não é fundamentalmente senão uma seqüência do movimento.
Se, então, o mundo teve um princípio temporal, antes do mundo nada existia, nem ser do mundo, nem duração temporal, nem vazio, nem matéria preexistente. O ser universal, na sua substância, e todos os atributos que a afetam, compreendido ai o tempo, nasceram de «m ato absoluto e intemporal de Deus.
2. Modo da criação. — Só se pode conceber a origem do mundo, quando se parte da idéia de criação, de duas maneiras: ou Deus tirou o mundo do nada absoluto, ou o fez de uma parte de sua substância.
Esta segunda hipótese fica excluída pela refutação do panteísmo emanatista (224). É absurdo pensar que Deus tenha podido fazer o mundo de uma parte de sua substância, pois Deus é um ser espiritual e perfeitamente simples. Não pode pois ter formado de sua substância um mundo material, composto e perecível.
É, portanto, necessário admitir que Deus criou o mundo, e que Ele o criou do nada. Porque, se quiséssemos supor uma substância preexistente, da qual Deus tenha formado o mundo, o problema apenas se apresentaria de novo: esta substância preexistente ao mundo, de onde vem? Ou Deus tirou-a do nada absoluto, ou a formou de sua própria substância. Como é absurda esta segunda hipótese, não resta mais do que a criação ex nihilo.
3. Liberdade da criação. — O ato criador é livre. Isto é
uma conseqüência necessária da natureza de Deus. Se Deus é o Ser perfeito e infinito, não pode submeter-se a uma necessidade de produzir o ser, porque isto suporia que estivesse dominado quer por uma força exterior a Ele, quer por um determinismo interno, o que é incompatível com a noção de Ser perfeito e infinito.
ART. II. OBJEÇÕES CONTRA A CRIAÇÃO
229 As observações que precedem permitirão resolver as dificuldades que se levantam, por vezes, contra a noção de criação.
1. A eternidade do mundo e a idéia de criação. — Uma objeção corrente consiste em dizer que, se o mundo é eterno, a criação se torna útil, no sentido que a existência do mundo não tem necessidade de ser explicada.
Esta objeção, como se vê, procede de uma noção errônea da criação, que liga indevidamente esta a um começo temporal. Precisemos então que a hipótese da eternidade do mundo não suprimiria a necessidade da criação, porque o que impõe admitir a criação do mundo não é o fato de haver começado após não ter existido (o que é a verdade de fato, mas que nós ignoraríamos sem a Revelação), é antes de tudo o fato de que o mundo não tem em si mesmo a razão de sua existência, quer dizer, que ele é contingente, como já mostramos no estudo das provas da existência de Deus (207). Se, então, por hipótese, o mundo fosse eterno, não seria menos dependente de Deus eternamente, quer dizer, criado por Deus, até o íntimo do seu ser, e isto em cada momento de sua duração, e em cada um dos seres singulares que o compõem.
2. A objeção de que, do nada, nada se tira. — A objeção baseada neste axioma dirige-se não mais simplesmente contra o fato da criação, mas contra a própria idéia de criação. Esta seria ininteligível.
Aqui, ainda, a resposta à objeção resultará do exato entendimento da noção de criação. Com efeito:
a) A criação é incompreensível, mas não ininteligível. A criação, no sentido próprio da palavra, ultrapassa evidentemente o alcance de nossa inteligência, uma vez que se trata de uma atividade que é privilégio de Deus, enquanto exige um poder infinito. Mas a idéia de criação não é ininteligível, quer dizer, absurda. Ao contrário, a idéia de criação é, antes de mais nada, inteligível por si mesma, uma vez que atribui a Deus a onipotência que pertence logicamente e necessariamente ao Ser perfeito e infinito, — ela é, por outro lado, fonte de inteligibilidade, uma vez que, por ela, o universo se explica ante a razão, a um tempo na sua existência e em. suas propriedades. Inversamente, a negação da criação equivale a elevar o absurdo a lei universal. À razão, repugna este suicídio.
b) Sentido da expressão "ex nihilo". Quando se diz que do nada não pode vir coisa alguma, não haverá erro em dizer que o nada não é uma causa ou uma matéria. Mas a noção de criação não supõe que o ser venha do nada, mas que venha após o nada. Na realidade, vem de Deus e de seu poder infinito. Deus não fez o mundo do nada, como uma matéria preexistente, mas o fez, absolutamente, pelo seu poder.
ART. III. A CONSERVAÇÃO DO MUNDO
230 1. A noção de conservação. — Já vimos (203) que a permanência dos seres contingentes na existência não se explica adequadamente pelo fato de que a existência e a vida lhes foram transmitidas. A todo momento, estes seres e o universo inteiro dependem da Causa primeira: ê esta dependência, que não é 7nais do que a continuação do ato criador, que se chama conservação. A atividade criadora de Deus não cessa, pois, de penetrar até a raiz mesma de nosso ser, para mantê-lo na existência.
2. Conservação e duração. — A conservação, do ponto-de-vista divino, não é um ato temporal: ela se confunde com o ato criador, que não está no tempo. Mas, de nosso ponto-de-vista, ela é o aspecto temporal sob o qual se traduz para nós, que estamos no tempo, o ato único pelo qual Deus nos cria.
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