jul 202010
 

A Semana – Crônicas de Machado de Assis para a Gazeta de Notícias

Fonte: Clássicos Jackson, 1944. Organização de Mário de Alencar.

1892

30 de Abril

Uma folha diária, recordando que as kermesses tinham sido fechadas por serem verdadeiras casas de tavolagéns, noticiou que ellas começam a reapparecer. Já ha uma na rua do Theatro; o pretexto é uma festa de caridade. E a folha chama a attenção da policia. A noticia — dizemol-o sem offensa — é mui propria de um século utilitário e pratico. Não se poderia achar exemplo mais vivo do espirito da nossa edade, que põe a alma das cousas de lado para só admirar a face das cousas. Invertemos a caridade; ella não é, para nós, o movei da acção, o sentimento da esmola e do beneficio ; é o resultado da collecta. Dou cinco mil réis para comprar uns sapatos de creança (se ha ainda sapatos de cinco mil réis) ; o mundo, se os sapatos não são comprados, grita contra a especulação. Querem a caridade escripturada, legalizada, regulamentada, com relatório annual, contas, receita e despeza, saldo. Onde está aqui o espirito christão?

A kermesse é tavolagem. Que tenho eu com isso, se me convida a fazer bem? Não se trata (reflicta o collega), não se trata de beneficiar a um extranho, mas a minha alma. Vá o dinheiro para um faminto, para a escola, ou simplesmente para as algibeiras do emprezario, nada tem com isso a minha salvação. A caridade não é um effeito, é uma causa. As kermesses são oceasiões inventadas para a pratica do evangelho. O fim d’essas instituições é exercitar a virtude, e tanto melhor se o dinheiro recolhido alimentar um vicio. É o preceito de Horácio e do gazometro: Ex fumo dare lucem.

Um exemplo. Ha em certa rua, por onde passo todos os dias, um homem sentado na soleira de uma porta, chapéo na mão, a pedir uma esmolinha. Esse homem, que deve andar por cincoenta e tantos annos, padece de um pé sujo, — creio que o esquerdo. Quando lhe descobri essa única moléstia, travou-se em minha consciência um terrivel conflicto. Darei o meu vintém ao homem ou não? Fui ao meu grande S. Paulo, ao meu Santo Agostinho, fui principalmente aos casuistas mais celebres, e achei em todos que não se tratava do pé de um homem, mas da alma de outro. A rigor, póde-se dar até a um pé lavado. D’ahi em deante, dou ao homem o meu vintém certo. E não se diga que é porque fui estudar a solução do problema nos livros moralistas. Tenho visto pobres mulheres que passam com o vestidinho desbotado, a sua cor doentia, pararem adeante, e, ás escondidas, tirarem do bolso o vintenzinho ganho á força de agulha ou de gomma, e irem deposital-o no chapeo do homem. Este, em bemol: "Os anjos a ac companhem, minha santa senhora!"

A kermesse pode ter os pés sujos. Não me cabe verificar se os vae lavar; cabe-me sim, dar o dinheiro (e, quanto mais, melhor), para cumprir o preceito de Jesus: "Não queiraes enthesourar para vós thesou-ros na terra, onde a ferrugem e a traça os consome; mas enthesourae para vós thesou-ros no céo, onde não os consome a ferrugem nem a traça.

A terra fez-se para enthesourar algumas cousas, mas só as que não entendem com a nossa consciência moral, os actos que não vêm do coração, mas da cabeça. Que rico thesouro da terra nos deu a commissão de instrueção publica do conselho municipal! No meio dos debates d’aquella casa, — tantas vezes acres e apaixonados, — é doce e consolador elevar o espirito a sentenças como esta: "Foi esta lei (a instrueção) que organizou as sociedades primitivas, que regeu seus principaes destinos, que domina as condições de existencia dos primeiros povos e que os obrigou a esse longo peregrinar dos séculos". E, depois de comparar a instrucção a um elo que liga o passado ao presente e o presente ao futuro, escreve esta ousada e forte imagem, seguida de outra não menos ousada nem menos forte: "A humanidade, porém, é como a hyena faminta e insaciável. É como o Ahasverus da lenda que não pode parar, — tem de caminhar e caminhar sempre!" Não se pode pintar melhor a necessidade crescente da instrucção da especie humana.

Ao mesmo tempo, lembra-me os dias da mocidade. Ó Ahasverus! Também eu te vi caminhar, caminhar, caminhar sempre, n’aquella madrugada dos meus annos, tão linda, e tão remota! De noite, quando a insomnia me arregalava os olhos com os seus dedos magros,—ou de manhan, quando elles se abriam ao sol, via o eterno andador, andando, andando… Lá me sahiu um verso ; ha de ser algum que não me chegou a sabir da cabeça.

Via o eterno andador, andando, andando. Justamente, um verso. Ahi está o que é ter metrificado lendas em creança; não se pode fallar d’ellas sem vir a métrica de permeio. Ó infancia, ó versos! E as associações? Havia algumas n’esse tempo em que se discutiam e votavam theses históricas e philosophicas. Qual foi maior: Cesar ou Napoleão? Este era o mais commum dos debates; e se alguma cousa pode consolar esses dous grandes homens da morte que os tomou, é a certeza de que têm cá em cima da terra verdadeiros amigos e certo equilibrio de suffragios.

Também agora ha theses, mas são outras. Esta semana o Instituto dos Advogados debateu um ponto interessante, a saber, se, em face da Constituição e das leis, os títulos nobiliários dados por governos ex-trangeiros fazem perder a qualidade de cidadão. A maioria adoptou a affirmativa: 16 votos contra 8. Mas, examinando a these, o Instituto esqueceu uma hypothese. O Sr. Germiniano Maia, do Estado do Ceará, recebeu de um governo extrangeiro o titulo de barão de Camocim. Pergunto: esta hypothese entra acaso na these do Instituto? O titulo pelo doador é extrangeiro, mas é nacional pela localidade. Camocim é no território do Brazil. Para mim, que não tenho preparos jurídicos, este titulo não tira a qualidade de cidadão ao sr. Maia: antes o faz mais brazileiro, se é possivel. Maia é um nome commum. Camocim é um nome nacional. Examine o Instituto essa hypothese.

out 102008
 
recenseamento-brasil

 

recenseamento-brasil

 

 

Recenseamento

Enfim, vai o Rio de Janeiro conhecer-se a si mesmo… Uma cidade sem recenseamento é uma cidade que a si mesma se ignora, porque não tem a consciência da sua força, do seu valor, da sua importância.

É mais que um serviço —- e não é dos menores — que o Rio vai dever ao seu prefeito, a esse homem providencial, de quem já se pode impunemente dizer o maior bem, sem o risco de passar por adulador, pois que já não há, em toda a cidade, quem o não admire e o não louve.

Infelizmente, já se descobriu o meio de opor embaraços à realização da bela idéia. No mesmo dia em que o prefeito decretava a organização do recenseamento da população, era publicado um ofício do ministro da Guerra, solicitando a organização do alistamento militar… E o povo, cotejando essas duas medidas, juntando-as, pesando-as na mesma balança, começou logo a atribuir-lhes uma aliança oculta um conúbio escondido, uma identidade de intuitos e de fins. A gente culta (que infelizmente não é legião) sabe- que esses dois serviços nada têm de comum, e que o propósito da prefeitura é, única e exclusivamente, o de saber quando habitantes tem a capital da República — cousa que, por vergonha de todos nós, ainda não se havia tentado averiguar. Mas, para a gente ignorante e desconfiada (a desconfiança e a ignorância são irmãs gêmeas), o recenseamento é o pretexto para o alistamento militar — e já o medo da farda e do serviço de caserna começa a sugerir às almas inquietas a idéia de se recusar a encher as listas censitárias.

Esse terror é natural. Antigamente, o recenseamento apenas era feito para auxiliar dois serviços profundamente antipáticos aos povos de todos os tempos: o do recruta­mento militar e o da cobrança de impostos. O imposto e a farda — dois espectros, dois espantalhos! Já na velha Roma, no remotíssimo tempo de Servius Tulius, quando os curatores tribuum saíam, com as suas tabuinhas ence­radas e os seus estiletes de marfim, a percorrer a urbe, e a recensear os habitantes, separando-os em assidui e proletarii — um medo pânico se alastrava pelas vielas e pelas alfurjas da cidade, e um terço da população, sabendo que aquilo significava guerra ou imposto, cobrança de sangue ou cobrança de dinheiro, transpunha as portas, e ia refu­giar-se no campo.

recenseamento rio de janeiro

Hoje, o recenseamento tem um fim mais amplo, mais nobre, mais belo — um fim social. E uma parte essencial da estatística, que, sendo "o estudo numérico dos fatos sociais", é uma das ciências tributárias e auxiliares da socio­logia. Como explicam os mestres da economia política, a vida social é um movimento perpétuo, uma transformação contínua, e uma constante renovação de fenômenos, que, por mais diversos que pareçam, sempre se podem classi­ficar em um número relativamente limitado de categorias. Não há um só fato individual que deixe de ser interessante, porque os fatos individuais, reunidos, formam os fatos so­ciais; e não há meio de governar sem o conhecimento des­ses fatos. É a estatística que torna possível o governo. Ela é, por assim dizer, a "escrituração social": se uma casa de comércio não pode viver e prosperar sem o registro minu­cioso das suas compras e vendas, e sem* os balanços pe­riódicos que demonstram o bom ou mau çstado dos seus negócios — também a sociedade humana não pode dispensar os seus guarda-livros, que são os encarregados da estatística…

Essa "escrituração social" tem sido até hoje criminosa mente relaxada no Brasil. Os "guarda-livros" do país, ou são incompetentes, ou são indiferentes. Aqui a estatística é um mito. Para não ir muito longe, e apenas citar um fato simples e de fácil verificação, basta lembrar que, no Rio ele Janeiro, a Biblioteca Nacional e o Museu Nacional não têm catálogos! É incrível, mas é verdade… Se nem temos sido capazes de organizar e publicar o catálogo de um museu ou de uma biblioteca, não é de espantar que não tenhamos organizado e publicado até hoje o catálogo geral da nossa população, das nossas riquezas, do nosso trabalho, da nossa vida…

Há pouco tempo,; a Legação Japonesa no Brasil dis-tribuiu, pelas repartições públicas e pelas redações dos jornais, o Anuário financeiro e econômico do Japão relativo a 190$. Lendo esse livro, que é um monumento assombroso e maravilhoso de estatística, é que se pode compreender o estupendo progresso daquela nação.

O que nós costumamos chamar "milagres" não é mais do que o resultado simples e natural da combinação destas duas forças: o trabalho e o método… Nesse anuário, tudo quanto constitui a vida do país está incluído, estudado, dis­criminado, catalogado, classificado: orçamentos, dívida pú­blica, empréstimos, agricultura, indústria, viação, comércio. Há ali cousas que espantam; há, por exemplo, um quadro demonstrativo da produção do fumo, que é um assombro de exatidão e de minúcia: o fumo colhido foi contado de folha em folha… E com esse trabalho e com esse método que as casas de comércio prosperam, que as casas de família têm fartura e conforto, e que as nações enriquecem e se fazem fortes e respeitadas!

Agora reparo que a "Crônica" está perdendo o tom que lhe compete, e enveredando por um estilo que não é o seu.

Estas cousas são tão corriqueiras, que até as crianças das escolas primárias as conhecem…

E parece, realmente, que é pedantaria ridícula, e ridícu­la ostentação de ciência barata, o estar aqui o cronista a demonstrar as vantagens e a utilidade da estatística em geral, e do recenseamento em particular…

Mas estas idéias, tão simples, tão claras, tão vulgares, não podem, desgraçadamente, ser eficazmente incutidas no ânimo de toda a nossa população. Por quê? porque uma grande parte da nossa população não sabe ler…           

Basta lembrar a última bernarda que tivemos no Rio: a de novembro de 1904… Que foi o que causou esses sanguinolentos motins? Foi a intriga perversa de alguns especuladores políticos que excitaram o povo contra a lei da vacinação: e muita gente acreditava que os médicos iam injetar no seu corpo sangue de rato atacado de peste bubônica! Essa balela, que apenas parecia cômica, teve efeitos trágicos. Que utilidade poderiam ter, para destruí-la, os boletins profusamente espalhados pelas autoridades sanitárias, e as explicações dadas pela imprensa? Nenhuma. O papel benéfico da imprensa não pôde deixar de ser quase nulo, numa cidade que conta quase 1 milhão de habitantes, mas na qual todos os jornais diários reunidos não chegam a vender 100 mil exemplares por dia…

Assim,.não há meio de contrariar eficazmente o equívoco, que a publicação simultânea das duas medidas veio criar. Se o Ministério da Guerra houvesse adiado a publi cação do seu propósito — o povo, que confia no prefeito, porque dele só tem recebido benefícios e cuidados, veria no recenseamenro mais uma prova da sua paterna! adminis­tração, c auxiliá-lo-ia. Mas parece que há, neste pais, uma doença orgânica, que leva muita gente, irresistivelmente, a perturbar e estragar, com consciente ou inconsciente mal­dade, tudo quanto se pretende fizer de bom.

Vão agora tirar da cabeça de certa gente que a entrega das listas censitárias há de expô-la ao recrutamento militar!

O que é verdade é que, para, abusivamente, c contra­riando expressamente a letra da lei, pôr em prática o recru­tamento forçado, as autoridades militares não carecem do recenseamento. Ainda há pouco, para organizar a parada espetaculosa de uma guarda nacional que não existe, alguns coronéis de mentira andaram complicando a vida domésti­ca dos cidadãos, privando-os violentamente dos serviços dos seus cozinheiros e dos seus copeiros…

O povo, porém, não compreende isso. Se lhe não de­monstrarem cabalmente que o recenseamento civil, orga­nizado pela prefeitura, nada tem de comum com o alista­mento militar, organizado pelo Ministério da Guerra, ele, apavorado pelo fantasma da Farda, há de mais uma vez fur­tar-se ao cumprimento de um dever social, que tão facil­mente e com tão grande utilidade para todos pode ser cumprido. Como, porém, fizer essa demonstração àqueles que, por culpa e desídia do Estado, continuam aviltados pelo analfabetismo, moralmente cegos, tristemente manti­dos na ignorância, privados da compreensão dos seus direi­tos e dos seus deveres?                                                        

É aqui que tudo vem ter: o problema da instrução é como, nas máquinas, o eixo central, em torno do qual os movimentos de todas as peças se combinam e conjugam. Por isso, é que não deixo de tocar este realejo, cuja música pode parecer enfadonha, mas é indispensável: e "si cette histoire vous embête,/ nous allons la recommencer!". ["se esta história vos aborrece/ nós vamos recomeçá-la” ]

O.B.

Gazeta de Notícias 17/6/1906

set 272008
 
trabalho da mulher bonita

trabalho da mulher bonita

Trabalho feminino

 O sábado, em que está sendo escrita esta crônica, arrasta-se aborrecido e pesado, numa enxurrada de lama, sob o açoite frio dos aguaceiros, cheio de uma melancolia que nada pode dissipar. Oh! estes dias de chuva! Deus sabe quanto suicídio tem por causa a sua fúnebre tristeza…

Deixando cair o livro que lia, o cronista levantou-se, abriu a janela, lançou um olhar entediado ao céu e à rua.

Que céu e que rua! Em cima uma planície cinzenta, manchada aqui e ali de nuvens mais escuras, que crescem, estendem-se em cargas-d’água barulhentas e grossas. Embaixo, lama e deserto… Os bondes que passam trazem as cortinas abaixadas, lustrosas de chuva, bambas, ao áspero vento que as sacode. E não se vê ninguém… Quem há que se atreve a afrontar a dureza desta úmida manhã, toda de. choro e enfaro.

Mas não… Lá vem, cosido à parede, um vulto apressa­do. É uma mulher. Mais perto agora, distinguem-se-lhe as feições, as roupas encharcadas, sob o puído guarda-chuva gotejante. A borrasca envolve-a, agasta-a, enraiva-se sobre ela, com uma crueldade implacável. A velha saia preta, colada às pernas, vem barrada de lama; os sapatos chapi­nham nas poças da água; e sempre cosida à parede, car­regando um grande embrulho, tossindo e tremendo de frio, lutando contra a ventania furiosa, lá se vai a pobre — fan­tasma da pobreza, vítima de uma dura sorte, em busca do pão com que há de alimentar os filhos pequenos, e, quem sabe? talvez também um marido malandro, que fica, no calor da alcova, contando as tábuas do teto e fumando, enquanto a mísera tirita pelas ruas alagadas…

Em geral, nós, que só conhecemos as senhoras da nossa roda, pensamos que todas as mulheres são melindrosos alfenins que qualquer trabalho fadiga. Mas as que conhece­mos são as flores humanas, cuidadosamente criadas na estufa da civilização; são uns encantadores e estranhos ani­mais, metade anjos, metade demônios, tão sedutores e amáveis quando abusam da sua influência celestial como quando abusam da sua influência satânica… Essas são as que nasceram para ser servidas e adoradas, como santas em nichos de ouro e prata, cobertas de alfaias e de jóias.

Mas, por uma dessas, quantas mil existem que são a providência doméstica, o amparo [*.**] da família [****] que as formigas, mais infatigáveis do que as abelhas, mourejando da primeira luz do dia às horas cerradas da noite, entisicando sobre a máquina de costura, perdendo as forças sobre a tábua de engomar, tisnando a pele junto das chamas do fogão!

Ninguém pensa nisso… Só, de quando em quando, um cronista melancólico, levado pela própria tristeza a cuidar das tristezas alheias, demora a atenção sobre a dureza da vossa negra sorte — ó mulheres pobres, que sois tão mais fortes do que nós, na moral como no físico!

Ainda não há três dias publicava A Notícia esta local: "Pela primeira vez, foi enviado ao Ministério da Fazen­da um requerimento de uma senhorita pedindo para ins­crever-se [***] concurso, a fim de exercer um emprego [***] Fazenda.

"Esse requerimento foi à diretoria do contencioso, a fim de ser informado, e combateu a pretensão, pelo que o sr.ministro da Fazenda resolveu indeferir o mencionado requerimento."

Ora, as leis humanas não podem ter a infalibilidade que a Igreja atribuí às leis divinas. A sociedade não pode sujeitar-se ao império de uma lei absurda, somente porque ela é uma lei.

Sempre que se agita esta questão das reivindicações femininas, escovam-se e [***] os velhos chavões, e, com um grande ar de importância, os filósofos decidem sem apelação que a mulher não pode ser mais do que o anjo do lar, a vestal encarregada de vigiar o fogo sagrado, a depositária das tradições da família… e das chaves da despensa. Todo esse dispêndio de palavras inúteis serve ape­nas para encobrir a fealdade da única razão séria que podemos apresentar contra as pretensões das mulheres: o nosso egoísmo, o receio que temos de que nos despojem das nossas prerrogativas seculares — o medo de perder as posições, as regalias, as honras que o preconceito bárbaro confiou exclusivamente ao nosso século. Compreende-se: quem se habituou a empunhar o bastão do comando não se resigna facilmente a passá-lo a outras mãos: é mais fácil deixar a vida do que deixar o poder.

Por que não há de a mulher poder exercer "um emprego da Fazenda"? Que há de misterioso e sagrado de recôndito e impenetrável no exercício dessas funções que, não possa ser devassado e apreendido pelo espírito de uma mulher?

Amar o próximo e praticar o bem, praticar a caridade nos hospitais de sangue e nos asilos civis., educar crianças — são tarefas infinitamente mais sérias do que alinhar algarismos em livros, calcular taxas de cambio, aplicai tarifas e computar perdas e ganhos. É pois preciso ter o cérebro de um Dante, de um Comte, de um Bacon, para poder trazer e>m dia o livro do protocolo de uma repartição pública ou para saber somar quatro colunas de algarismos?

Entretanto, que bela experiência a tentar! O espírito da mulher tem sobre o nosso uma incontestável superioridade: não é feito, como o nosso, de imaginação, de poder criador, de invenção; é feito de bom senso, de prudência de tenacidade, de paciência. Já alguém escreveu que  "a mulher que dedicasse à execução de um plano financeiro a inteligência minuciosa e clara que costuma dedicar à execução de um complicado plano de toalete, desbancaria talvez os melhores economistas do mundo".

Em bom senso, não as vencemos, como não as vencemos em economia.

Se todos quisessem ser sinceros, ou antes se não quisessem enganar a si mesmos, quantos homens confessariam que os melhores atos de toda a sua existência foram inspi­rados no recesso do lar, entre dois carinhos — nessas horas de intimidade em que as mulheres sabem influir sobre o nosso espírito sem mostrar o que estão fazendo, e cm que nós, inconscientemente, sem humilhações para o nosso desmarcado orgulho, vamos pouco a pouco adotando as suas idéias e abandonando as nossas, de maneira que, daí a pouco, exclusivamente parece nosso aquilo que é exclusiva­mente delas!

Em economia, então — que abismo entre elas e nós!

Não se trata, está claro, destas lindas e adoráveis senho­ras do grande clã, deusas deliciosas, cujas mãos perfumadas foram feitas apenas para dissipar o dinheiro…

Mas, nas casas pobres, que maravilhas de zelo, de poupança, de milagroso comedimento nas despesas! Não têm conta as donas de casa que reproduzem diariamente o milagre da multiplicação dos pães!

Quando rompe a manhã, já a abelha humana anda há uma hora zumbindo e trabalhando. Não há recanto da casa que escape à vigilância do seu olhar, não há providência que seja esquecida pela sua inteligência sempre alerta. Oh! o doce milagre! com um punhado miserável de dinheiro, é preciso alimentar os filhos, é preciso vesti-los, é preciso educá-los, é preciso consolar o marido e cercá-lo de con­forto quando ele é infeliz, é preciso viver com decência… O trabalho não se faz sem lágrimas… A tarefa é rude, os pulmões se enfraquecem, calejam-se as mãos, vai-se a beleza, perdem-se as graças — mas a casa prospera… E. quando à noite, derreada e quase morta de cansaço, a heroína vai sentar-se junto à máquina Singer para dar conta do serão, uma doce auréola paira sobre a sua pálida cabeça de mártir do dever.

Ah! que orgulho o nosso! e não há homem que reco­nheça esse sacrifício! e não há homem que deixe de atribuir à sua própria competência enfatuada a prosperidade e con­forto que brotaram no seu lar, quando, quase sempre, esses doces frutos são devidos às lágrimas e às gotas de suor com que as mártires regaram o solo…

É singular! nega-se a quem é capaz de fazer tudo isso o direito de aspirar a um lugar de amanuense de secretaria! Mas, por todos os santos do Paraíso! se há uma lei que determina isso, revogue-se quanto antes essa lei absurda!

Abram-se às mulheres todas as portas! Porque, enfim, nós, os homens, já temos contribuído tanto para plantar  na Terra o domínio da tolice e da injustiça — que não era mau saber se o outro sexo não é capaz de ter mais juízo do que o nosso!…

s. a.

Gazeta de Notícias 18/8/1901

set 192008
 
quem foi antonio conselheiro
quem foi antonio conselheiro

Antônio Conselheiro – Olavo Bilac

Confesso que nunca entendo bem as cousas que se pas­sam aqui. Tenho viajado tanto, que já não há canto da terra que os meus pés de cabra não tenham calcado, nem recanto de horizonte em que não tenham pousado os meus olhos satânicos: e tenho, em todas as terras, entendido tu­do; aqui, porém, o mais insignificante caso se reveste de tão extraordinárias circunstâncias e se complica de tão sin­gulares episódios, que a minha pobre cabeça de diabo, com as idéias baralhadas, se perde, delira, ensandece… Vede-me, para exemplo, este caso do Antônio Conselheiro…1

O Conselheiro é (dizem-no todos) um fanático, um desequilibrado, um histérico. Em criança, tinha crises de epilepsia. Casou. A mãe dele desandou logo a ter conflitos, e bate-línguas, e troca de insultos ásperos com a nora. En­tre as duas, Antônio Conselheiro penava, querendo em vão reconciliá-las. Um dia, desesperado, foi-se à velha: "Por que briga a senhora com minha mulher? que lhe fez ela? por que não a deixa em paz?".

A velha, alma danada, para reconquistar o amor e a confiança do filho, não trepida em se valer de uma calúnia. E convence Antônio de que a mulher o engana: "Queres a prova? finge uma viagem, volta depois às escondidas, ocul­ta-te na chácara, e espreita! Verás que, às horas tantas da noite, há de chegar aquele que é mais amado do que tu!".

Aceita o moço o conselho, diz que vai jornadear, beija a mulher, e parte. Mas, à boca da noite volta, e, dentro de uma moita, fica à espreita. Daí a pouco, vê que um vulto de homem salta o muro e, com passo de gatuno, leve e abafado, se aproxima da casa. Antônio (em todo homem há sempre a fúria de um Otelo!),2 Antônio não resiste ao primeiro impulso da cólera: põe à cara o clavinote e dis­para-o. Cai o vulto, baleado. E quando o desgraçado vai ver de perto quem matou, vê estendida por terra, numa poça de sangue, a própria mãe, vestida de homem. A mísera, querendo iludir o filho, tivera a diabólica idéia de combinar toda esta aventura, cujo êxito pagou com a morte…

Isso é o que diz a lenda. E diz mais que Antônio, deses­perado, internou-se nos matos bravios, transformando-se desde então neste Conselheiro que é hoje diretor de 3 mil fanáticos que, armados de carabinas Chuchu, devastam a Bahia e estão dando que fazer às tropas do general Sólon.1

Há desgraçados que o remorso transforma em frades, ou em criminosos relapsos, ou em suicidas, ou cm idiotas. Outros, muda-os o remorso em apóstolos… E o Conselheiro não foi impelido para o Apostolado unicamente pelo re­morso. Este já achou o terreno preparado na alma do Antônio — alma de inquieto, de agitado, de nevrótico. Podia dar para outra cousa o homem: mas deu para se julgar Enviado de Deus, encarregado de regenerar o mundo, de redimir a humanidade, de combater os governos existentes.

Ainda se ele parasse aí! se os 3 mil homens se limi­tassem a correr os desertos, e a comer gafanhotos como são João Batista, e a jejuar e a orar como santo Antão, na Tebaida!… Mas, não! os fanáticos de Antônio Conselheiro, apesar de se dedicarem à penitência e à reza, e à reforma dos costumes dos homens — não podem passar sem pão, sem carne, sem cachaça, e sem mulheres. E, pois, saqueiam as vilas, assolam as aldeias, matam os ricos, escravizam os pobres, defloram as raparigas, e assim vão vivendo bem, bem combinando os sacrifícios do viver religioso com as delícias do comer à tripa forra.

Ora bem! chegamos agora ao ponto principal do caso. Pelo que todo mundo diz do Conselheiro, ele não é só um fanático: é também um salteador; e salteadores, além de fanáticos, são também todos os seus sequazes. E, em qual­quer outra parte do mundo, esse pessoal seria baleado, cor­rido a pedra e a sabre, sem complicações, sumariamente.

Aqui, não! Aqui tudo é política. Aqui não se compreende que se faça alguma cousa., ou boa ou má, sem ser por política. Houve um incêndio? política! Um bonde elétrico matou um homem? uma senhora fugiu de casa? política. Caiu um andaime? o Prudente tinha uma pedra na bexiga? política! E, assim, o Conselheiro, na opinião da imprensa indígena, nem é um fanático, um Jesus de fan­caria — nem é um salteador, um Fra Diavolo4 da Bahia: é um homem político, é um conspirador, é um restaurador da monarquia…

A Liberdade cala-se sobre ele: manha de monarquista. A República diz que ele é emissário do príncipe do Grão-Pará: recurso de jacobino.

Entre essas duas manias, quem lucra é o nosso Conse­lheiro, que, sendo, ao mesmo tempo, um maluco acabado e um refinadíssimo patife, deixa de ser tudo isso, para ficar sendo, graças à mania política da terra, um agitador, um Kossuth,5 um Montt,6 um não sei quê!

Viva a política! Nada há mais sobre a Terra, debaixo do clarão esplendido do sol!

O Diabo Vesgo

A Bruxa 11/12/1896

 

Notas

1. Antônio Vicente Mendes Maciel, o Conselheiro (1828-97): nascido em Quixeramobim, no Ceará, Antônio Conselheiro liderou a rebelião de Canudos, no interior da Bahia. Este episódio de nossa história, ocorrido entre 1896 e 1897, foi a base de Euclides da Cunha para escrever Os sertões (1902).

2.  Otelo, o Mouro de Veneza, é personagem de peça homônima de Shakespeare  (1564-1616). Casado com a bela Desdemona, Otelo mata-a num acesso de ciúme, persuadido de que ela o traíra com Cássio. Depois de saber-se enganado, Otelo se mata.

3 General Frederico Sólon Ribeiro (1842-1900): comandante do Dis­trito Militar da Bahia, sob cuja responsabilidade deu-se a Ia Expedição a Canudos, encabeçada pelo tenente Pires Ferreira, em novembro de 1896. Depois dessa derrota em Uauá, armou-se um conflito de interesses entre o governador Luís Viana e o general Sólon.

4 Fra Diavolo (Frei Diabo) (1771-1806): aventureiro de origem italia­na, Pca Diavolo em o apelido de Micbele Pezza, que foi executado no reino de Nápoles, a mando dos franceses.

5 Lajos Kossuth (1802-94): político húngaro, Kossuth batalhou pela independência de seu pais e por medidas aduaneiras que protegessem a indústria e o comércio da Hungria.

6  Manuel Montt (1808-80): político chileno, Manuel Montt foi presidente do seu país entre 1851 e 1861, quando implantou uma política de modernização e de reformas.