Cap. 12 – Análise Ontológica da Fé. – Fundamentos de Filosofia de Manuel Morente
Fundamentos de Filosofia de Manuel Garcia Morente
Lições Preliminares
Lição XII
ANÁLISE ONTOLÓGICA DA FÉ (1)
81. QUATRO ASPECTOS DO ATO DE FÉ. — 82. O OBJETO E O ATO NA FÉ. — 83. EVIDÊNCIA E INEVIDÊNCIA. — 84. AUTORIDADE RELATIVA E ABSOLUTA. — 85. INEVIDÊNCIA RELATIVA E ABSOLUTA. — 86. A OPOSIÇÃO & FÉ RELIGIOSA NA FILOSOFIA MODERNA. — 87. SUA ORIGEM IDEALISTA.
Na presente lição tentaremos levar a efeito uma análise ontológica da fé- Explicaremos primeiramente nosso propósito.
81. Quatro aspectos do ato de fé.
A fé pode ser entendida como virtude e como ato. Prescindimos neste estudo da fé como virtude, para nos limitar exclusivamente ao "ato de fé". Pois bem; o ato de fé é um ato complexo; quer dizer que consta de vários elementos. A análise pode decompô-lo e fazer-nos descobrir que o ato de fé é composto de elementos psíquicos, de elementos lógicos e de objetos reais. Por conseguinte, o ato de fé interessará, por sua complicada estrutura, a três ciências filosóficas: á psicologia, à lógica e à ontologia (teoria dos objetivos reais). Mas, de outra parte, os objetos que no ato de fé propriamente dito apreendemos são objetos muito particulares; pertencem a uma especial modalidade da realidade, que pode ser chamada a realidade sobrenatural ou realidade divina. Deste lado, pois, o ato de fé interessa também à ciência da realidade sobrenatural ou divina, cujo nome é teologia. São, pois quatro facetas que o ato de fé apresenta, dando frente para quatro ciências distintas: a psicologia, a lógica, a ontologia e a teologia. Na unidade de sua essência, o ato de fé apresenta, pois, problemas em grande número de direções diversas. Pode estudá-lo o teólogo; e estuda-o de fato como fundamento primordial da disciplina teológica, a qual é ciência, justa e precisamente porque o ato de fé é ato de conhecimento objetivo. Pode também estudá-lo o psicólogo como ato subjetivo da alma; e indagar se é ato de toda a alma ou de uma ou de várias faculdades da alma e se é ato de todas as almas ou de algumas tão-somente e de quais. Pode estudá-lo, outrossim, o lógico para procurar o fundamento de validez que se deve conceder às afirmações da fé. Por último, pode considerá-lo o metafísico ou o ontólogo quanto à índole da realidade ou objetividade sobre que incide. No estudo completo do ato de fé, teriam, pois, de colaborar amistosamente essas quatro ciências: a psicologia, a lógica, a ontologia e a teologia. As três primeiras pertencem ao conjunto de disciplinas que geralmente se chamam filosofia. O ato de fé oferece-nos, pois, um tema, no qual se verifica, de modo exemplar, a antiga concepção da filosofia como ciência auxiliar ou propedêutica da teologia. Sem tantos eufemismos, diziam singelamente os antigos que a filosofia era a serva ou criada da teologia, ancilla theologiae. Mas, de uns três séculos para cá, a filosofia chamada moderna emancipou-se, por assim dizer e já não quer servir à ciência de Deus. Rebelou-se até mesmo contra a ciência de Deus e ataca-a na sua própria base, negando-lhe seu objeto, pondo em interdição sua possibilidade e realidade objetivas. Por que a filosofia "moderna" julga inválido o conhecimento de Deus? Por que nega a validez objetiva do ato de fé? Qual é o germe primordial dessa sua atitude negativa? Preparar a resposta a essas perguntas é o objeto primordial da presente lição.
(1) Esta lição reproduz a pronunciada com o mesmo título pelo professor Garcia Morente no curso de verão de 1942 da Universidade de Oviedo.
82. O objeto e o ato na fé.
No ato de fé devemos distinguir antes de tudo o ato de uma parte e o objeto de outra. Como fenômeno psíquico, o ato de fé é intencional; quer dizer, refere-se a um objeto, recai sobre um objeto. Foi talvez a principal contribuição de Brentano à filosofia atual esta caracterização do fenômeno psíquico como intencional; quer dizer, como ato subjetivo referido a um objeto ou que recai sobre um objeto. Uma coisa é o pensamento e outra o pensado pelo pensamento; uma coisa é volição e outra o desejado pela volição. Todo pensamento é pensamento de algo; toda sensação é sensação de algo; todo desejo, toda aspiração, toda volição são desejos de algo, aspiração de algo, volição de algo. E este algo pensado, sentido ou pretendido, não pode ser confundido ou identificado com o ato subjetivo do pensá-lo, senti-lo, querê-lo. Esse algo é o objeto intencional do fenômeno psíquico ou, melhor dito, do ato. Com esta singela averiguação, já por si evidente, fica eliminado, a mil léguas do horizonte intelectual, esse vago e desconsertante "subjetivismo" que amorosamente cultivaram, como ninho de benquistas confusões, muitos filósofos modernos.
O ato e o objeto encontram-se, pois, um diante do outro. O ato de fé recai sobre o objeto, e o recair sobre o objeto é para ele essencial. Se não há objeto sobre o qual incida o ato, não há também ato de fé. Podem ser, pois, duas as causas que anulem ou aniquilem o ato de fé: ou que o ato fique sem objeto, ou que o objeto fique sem ato. Dito de outro modo: ou que queira o homem verificar o ato de fé, mas não encontra objeto sobre o qual possa fazê-lo recair, ou que havendo objeto sobre o qual possa o ato recair, não queira o homem verificar o ato de fé. Assim, por exemplo: se ante um juiz_ se apresenta para depor uma testemunha, na qual, por qualquer razão, está disposto a crer o juiz, e esta testemunha não declara nada concreto, o juiz não pode verificar ato de fé porque não há matéria sobre a qual recaia este ato. Inversamente, se ante o juiz se apresenta uma declaração terminante e concreta prestada por uma testemunha, na qual o juiz, por qualquer motivo, não está disposto a crer, então o juiz não verifica o ato de fé, embora exista objeto sobre o qual pudesse recair este ato.
Exige-se, pois, para que haja ato de fé a confluência do ato e do objeto. O ato, coloca-o o sujeito pensante. Em troca, o objeto encontra o sujeito diante de si — não o põe por si mesmo; pois se o pusesse por si mesmo não seria já o objeto, mas uma posição do sujeito, pertencente ao ato, não ao objeto do ato. Mas uma vez que confluem num mesmo ponto o ato do sujeito e a realidade do objeto; procedendo cada um de origem oposta, como se abraçam e juntam para constituir o ato de fé?
Em primeiro lugar, abraçam-se e juntam-se desta maneira: que o ato consiste em assentir ao objeto. Assentir ao objeto é dizer sim ao objeto, afirmar o conteúdo do objeto. Mas isto não distinguiria o ato de fé de qualquer outro juízo, porque em todo juízo encontramos sempre um ato de assentimento a um conteúdo ideal proposto. Que diferença há, pois, entre o ato de assentir ao objeto quando é juízo e quando é ato de fé? Há a seguinte diferença: que no assentimento do juízo a seu objeto, a causa do assentimento se acha no caráter de "evidente" que tem o objeto: enquanto que no ato de fé assentimos a um objeto que não tem esse caráter de evidência. Por exemplo, no juízo: dois e dois são quatro, o ato do juízo consiste no afirmá-lo: e o objeto do juízo consiste em "dois e dois são quatro". Mas se eu afirmo, quer dizer, se verifico o ato, é porque o objeto: dois e dois são quatro, é evidente. Ao contrário, no ato de fé, o objeto não é evidente. Assim, por exemplo, se verifico o ato de fé consistente em acreditar que Deus é uno em essência e trino em pessoas, afirmo, ou íôja verifico o ato; porém a afirmação recai sobre um objeto -— trindade, unidade — que não é evidente. Mas logo perguntaremos: que é a evidência?
83. Evidência e inevidência.
Prescindindo aqui da discussão, possivelmente complicada, a que daria lugar o levantamento do problema lógico da evidência, digamos simplesmente que a evidência é a presença integral do objeto diante de mim, na minha intuição intelectual. Entendo por presença integral este modo de estar o objeto diante de mim, que consiste em oferecerão à minha intuição ele próprio — e não um substitutivo ou representante seu — e em toda sua integridade — sem faltar-lhe nada, som ser simples fragmento — e em total nudez, sem véus que ocultem sua essência interior e estrutura íntima. Quando tudo isto se cumprir, estará o objeto em presença integral diante de mim e, terei a intuição de sua evidência. Vejo o objeto, diante de mim, por dentro o por fora; conheço-o tal como é, de sorte que não posso conceber como possível que o objeto não seja e não seja precisamente aquilo que é. Assim, quando penso: dois e dois são quatro — ou vejo que este papel é branco, tenho intuição da evidência desses objetos. Ao contrário, quando penso no dogma da Santíssima Trindade, creio e portanto sei que é verdadeiro; porém não tenho a intuição de sua evidência.
Assentir ao objeto evidente ou do qual tenho intuição de evidência, parece, porém, um ato inevitável. Embora eu não quisesse não poderia evitar de verificá-lo. Ser para mim evidente a intuição do objeto é, automaticamente, afirmá-lo; é pronunciar o juízo, é verificar c ato de conhecimento do objeto. Não intervém aqui a vontade. Eu não posso não afirmar o evidente, se verdadeiramente for evidente. Em troca, quando assinto a um objeto não evidente, teve que intervir necessariamente algo que, não sendo parte do objeto mesmo, tenha inclinado minha vontade a verificar o ato de assentimento. Ao colocar—me eu diante do objeto e intuir sua inevidência, esta me impele a não afirmar o objeto. Se, pois, apesar disto, afirmo o objeto, tem que ser porque algo alheio ao objeto mesmo e ao ato de afirmá-lo ou de negá-lo me inclina a isso. Exemplo: se levanto a cabeça e vejo diante de mim o m|u amigo João, tenho intuição de evidência do objeto chamado meu amigo João; e verifico o ato de juízo consistente em afirmar que aqui está João. Porém, se João me diz que nosso amigo comum Pedro está doente, eu não tenho intuição de evidência de Pedro doente; não está diante de mim em presença integral o objeto: Pedro doente. Então, se apesar desta inevidência creio que, com efeito, Pedro está doente, é por algo que se tenha acrescentado à minha intuição atual da inevidência. Verificarei o ato de fé de acreditar que Pedro está enfermo porque mo disse João. Este "porque mo disse João" é o elemento novo que se acrescenta para inclinar-me a afirmar o objeto do qual não tenho intuição evidente. No ato de fé a afirmação do objeto não se fundamenta, pois, na evidência do próprio objeto — evidência inexistente — mas em outra coisa, alheia ao objeto e a mim. Esta outra coisa não move diretamente meu entendimento à afirmação do objeto, mas persuade minha vontade para que esta verifique o ato do entendimento de assentir ao objeto não evidente. Que coisa é essa que põe em movimento a vontade de assentir intelectualmente?
Acabamos de insinuá-lo quando dissemos que o elemento novo, descoberto pela análise, está nesta frase do nosso exemplo: "porque mo disse João". O elemento novo é uma pessoa que mo diz e na qual eu confio. Se no ato de fé eu assinto a um objeto inevidente, como se fosse evidente, é porque a inevidência do objeto é compensada pela declaração de outra pessoa, à qual concedo crédito. Para que haja ato de fé é necessário, pois, que exista uma declaração ou uma revelação que parta de outra pessoa e chegue até mim. Essa pessoa e sua declaração ou revelação têm que possuir, porém, "autoridade"; quer dizer, que deve haver motivos e razões extrínsecas e gerais que me impulsionem a acreditar aquilo que essa pessoa declara, embora isso não seja para mim evidente. Assim, eu acredito no meu amigo que me diz que Pedro está doente; porque meu amigo tem autoridade, pois vem precisamente da casa de Pedro. Eu acredito no astrônomo que me diz que às 12:15 haverá um eclipse do sol; porque o astrônomo tem autoridade em questões de eclipses. No ato de fé temos, pois, um assentimento do intelecto a um objeto inevidente, assentimento que vem impulsionado pela vontade, em vista da declaração de uma pessoa revestida da autoridade.
84. Autoridade relativa e absoluta.
Ê possível descobrir graus na força com que a declaração da pessoa impulsiona a vontade a verificar o ato de fé. Ou dito de outro modo: o poder persuasivo da declaração é variável. De que depende? Principalmente de três fatores: da pessoa declarante, da própria declaração e da relação entre a declaração e a pessoa. A pessoa declarante, independentemente daquilo que concretamente declare, pode ter mais ou menos "autoridade", ou seja dignidade de ser crida. Pode ser, por exemplo, de escassa inteligência, má observadora, esquecida, distraída, mentirosa etc… Existe toda uma série de propriedades e virtudes — ou vícios e defeitos — intelectuais e morais que calibram a autoridade da pessoa. Mas, ademais, a autoridade pessoal do declarante varia em relação com a coisa declarada. Uma pessoa que por si mesma tem pouca autoridade, porque é reconhecidamente esquecida ou mentirosa, terá sua autoridade muito aumentada se os objetos de sua declaração são coisas pertencentes a seu ofício ou especialidade científica ou profissional. Ao contrário, uma pessoa de muita autoridade própria que fizer uma declaração sobre coisas das quais não entende nada, terá notavelmente diminuída sua autoridade pessoal nesse caso concreto. Por último, o próprio conteúdo da declaração considerado isoladamente e sem relação com a pessoa declarante, pode contribuir para o aumento ou diminuição do crédito que concedermos à declaração, ou seja da autoridade jque lhe prestarmos. Uma declaração precisa, minuciosa, de linhas t’em definidas, porém dada por uma pessoa de pouca autoridade própria, adquire maior autoridade pela índole intrínseca da declaração, que outra declaração vaga, imprecisa e apagada, feita por um pessoa de muita autoridade própria. A declaração de um objeto inverossímil ou contraditório na sua essência não terá autoridade, embora a pessoa que a tenha feito goze pessoalmente de uma autoridade muito grande. Estas relações estruturais — fenomenológicas — entre a força persuasiva da declaração e suas circunstâncias pessoais intrínsecas constituem a base essencial da chamada crítica histórica. E também nos explicam a razão pela qual há tanta variedade e gradação na força com que verificamos os atos de fé. A cada momento estamos verificando atos de fé. Cada pergunta que fazemos prepara o ato de fé na resposta que vai sobrevir. Os jornais, os livros que lemos, os oradores que ouvimos, as notícias que recebemos são outras tantas declarações sobre as quais verificamos atos de fé. Sem os inumeráveis atos de fé que verificamos cada dia não poderíamos literalmente viver A vida no homem alimenta-se essencialmente de atos de fé. E então, perguntamos: por que a filosofia chamada moderna ataca tão denodadamente o ato de fé?
Precisamente nossa investigação vai-se encaminhando pouco a pouco para responder a esta pergunta. Continuando essa investigação devemos agora advertir que não concedemos o mesmo valor a todos os inumeráveis atos de fé que a cada instante realizamos. Umas vezes concedemos crédito completo a uma declaração; outras vezes aceitamo-la com dúvidas e reservas; outras vezes julgamo-la sumamente improvável e quase não acreditamos nela. Estas diferenças no crédito — ou fé — que concedemos às diferentes declarações dependem, como vimos, da autoridade pessoal do declarante, da autoridade do declarante em relação com o declarado e também do próprio conteúdo da declaração. Mas suponhamos que nos encontrássemos ante uma declaração feita por um declarante de autoridade absoluta. Que sucederia? Consideremos bem o que quer dizer que a autoridade do tal declarante seja absoluta. Absoluto é o contrário de relativo. Por conseguinte, autoridade absoluta será uma autoridade que: 1 o. Não se possa conceber outra maior. 2o. Não possa mudar — aumentar, diminuir, alterar-se quantitativa ou qualitativamente — por nenhuma circunstância intrínseca à declaração ou extrínseca a ela. Se nos encontrássemos, pois, ante uma declaração feita por um declarante de autoridade absoluta, teríamos necessariamente que prestar-lhe o máximo possível de crédito e de fé. E embora o conteúdo mesmo da declaração fosse para nós superlativamente obscuro, incompreensível, inevidente, teríamos que prestar-lhe o mesmo grau máximo de crédito ou fé. Já que se a autoridade do declarante é "absoluta", esta autoridade é invariavelmente a maior imaginável — infinita — e não se altera para mais ou para menos pelo fato de ser o conteúdo da declaração mais ou menos inteligível, verossímil etc. Haveria somente um caso em que poderia não acontecer isto: seria o caso em que o conteúdo da declaração fosse uma contradição pura e simples; como se essa autoridade absoluta declarasse que existem círculos quadrados. Porém este caso não pode dar-se, porque uma pessoa de autoridade "absoluta" não pode emitir uma declaração de conteúdo contraditório. Precisamente quando algum "homem" muito revestido de autoridade emite uma declaração de conteúdo inverossímil, muito estranho ou dificilmente compatível com nossa experiência científica, o que acontece é que essa declaração "diminui" a hipotética grande autoridade pessoal do declarante, até o ponto de nos inclinarmos às vezes a reduzi-la a zero e dizer — ou pensar — que o declarante "ficou louco". Mas se o declarante — por definição — não pode ter ficado louco, sendo como é autoridade "absoluta", então não podemos de jeito nenhum admitir que faça declarações contraditórias, ou que as declarações que fizer, por muito obscuras, incompreensíveis que sejam, não sejam verdadeiras. Ou dito de outra maneira: Deus é o declarante de autoridade absoluta. Portanto, primeiro: não pode declarar nada que seja em si contraditório; segundo: às declarações de sua autoridade absoluta só podemos assentir com crédito ou fé absolutos.
Com isso temos já uma base para classificação dos atos de fé: uma base pessoal. Podemos classificar os atos de fé segundo a espécie de autoridade de que goza a pessoa declarante. E teremos: aqueles atos de fé que realizamos em vista de declarações feitas pelo declarante de autoridade absoluta, Deus; e aqueles atos de fé que realizamos em vista de declarações feitas por declarantes de autoridade relativa, os homens. Atos de fé religiosa, atos de fé humana. Distinguem-se uns dos outros pela índole, absoluta ou relativa, da autoridade que impele nossa vontade a prestar o assentimento ao objeto inevidente. Para nosso propósito, neste estudo, não é interessante prosseguir a análise deste princípio de classificação dos atos de fé. Em compensação seria sem dúvida importante descobrir outro princípio de classificação desses mesmos atos de fé, que estivessem baseados não na autoridade do declarante, mas no próprio objeto da declaração. Tentemos descobri-lo.
85. Inevidência relativa e absoluta.
Em que relação está o objeto do ato de fé com nossa pessoa humana, quer dizer, com nós os homens, que realizamos estes atos de fé? Já vimos que no ato de fé é essencial que o objeto seja inevidente. Se fosse evidente, não haveria ato de fé, mas juízo de razão. Pois bem: esse objeto inevidente, porque é inevidente? Também podemos dar uma resposta a essa pergunta dizendo: é inevidente porque não está presente diante de mim com presença integral. Já explica mos o que é essa presença integral com que está o objeto evidente diante de mim e com que não está o objeto inevidente. Assim, pois, o objeto inevidente é inevidente porque, ao menos parcialmente, está longe de mim, não está em mim, se encontra "ausente". A inevidência do objeto provém de sua "ausência". Mas são vários os modos de estar ausente um objeto: 1o. por estar em outro lugar do espaço; 2o. por estar em outro momento do tempo; 3o. por exceder a capacidade do meu entendimento. E dentro deste último caso podem distinguir-se duas possibilidades: a) que exceda acidentalmente minha, capacidade intelectual; b) que exceda essencialmente minha capacidade intelectual. Ponhamos exemplos que façam intuitiva a classificação: as notícias que recebo e leio das particularidades geográficas etc, de uma ilha do Pacífico — que eu nunca visitei — são acreditadas por mim; realizo sobre elas um ato de fé; o objeto é inevidente porque está ausente: e está ausente porque se encontra em outro lugar do espaço. As notícias que obtenho e leio, numas "Memórias" históricas, de acontecimentos passados, são também objeto de fé, objeto inevidente porque está ausente, está em outro momento do tempo. As notícias que leio da composição íntima do átomo, cujos elementos são eléctrons, pró tons etc, constituem para mim um objeto de fé, porque a estrutura do átomo é um objeto que está ausente do meu campo mental e está ausente porque excede a capacidade de meu entendimento; mas se excede minha capacidade intelectual é porque eu não fiz longos e penosos estudos prévios que me teriam dado a formação intelectual conveniente para ampliar minha capacidade até conter em presença integral este objeto, a estrutura do átomo; se tivesse feito longos e penosos estudos, dito objeto não excederia minha capacidade intelectual; portanto excede não essencialmente, mas só acidentalmente. Por último, pelo contrário, a notícia que tenho recebido de que Deus é um em essência e trino em pessoas, é para mim um objeto de fé, porque a essência da Santíssima Trindade não está presente diante de mim com presença integral; está ausente para mim, e excede minha capacidade intelectual não por acidental falta de preparação de minha pessoa, mas por essencial impossibilidade de ter, homem algum, "presente" nesta vida a Santíssima Trindade.
Podemos, pois classificar também os atos de fé segundo as modalidades dessa "ausência", que caracteriza os objetos inevidentes. Consideremos, porém, os dois princípios de classificação que encontramos para os atos de fé. Segundo o primeiro, os atos de fé se classificam pela autoridade, absoluta ou relativa, do declarante. Conforme o segundo, os atos de fé se classificam pela "ausência" do objeto. Esta ausência manifestou-se-nos de quatro modos: ausência no espaço, quando o objeto não está no lugar em que eu estou; ausência no tempo, quando o objeto não está no momento em que eu estou; ausência mental acidental, quando o objeto não está acidentalmente na área de minha capacidade intelectual; e ausência mental essencial, quando o objeto", por sua própria essência, não pode estar na área de minha capacidade intelectual. Os três primeiros modos de ausência mantêm entre si uma relação de afinidade. Os três são, em princípio, remedíá-veis, ou, dito de outro modo, não são absolutos, não representam uma ausência absoluta. Se eu não visitei nunca a ilha do Pacífico, de que me fala meu amigo, posso, todavia, ir visitá-la; não existe nenhuma impossibilidade absoluta de que a visite. Se eu não "entendo" agora a teoria físico-matemática das estruturas atômicas, posso, todavia, chegar a entendê-la; não existe uma impossibilidade absoluta de que algum dia a entenda. Se eu não presencio agora os acontecimentos históricos passados, é claro que sendo como é o tempo, irreversível, não posso esperar que chegue um dia em que possa eu retornar ao passado histórico; porém a impossibilidade de eu retornar ao passado não significa no objeto histórico uma "ausência absoluta"’, porque outros homens houve que estiveram presentes, outros homens como eu perceberam o fato como. "evidente". A atual "ausência" desse objeto histórico passado é, pois, embora irremediável, relativa; não absoluta. Em suma: nesses três modos de ausência, o caráter atualmente inevidente do objeto o é somente "para mim". Mas pode ser compensado por outras mentes, tão humanas quanto a minha, nas quais o objeto é ou foi evidente. Em definitivo, os três atos de fé sobre objetos relativamente ausentes são retificáveis, comprováveis sempre por outros tantos atos de juízo racional que outros tantos homens realizam agora ou podem realizar quando quiserem ou realizaram no passado. Ao contrário, o objeto que está ausente com ausência "essencial" não pode chegar a estar presente em nenhum intelecto humano e nunca esteve presente em nenhum. Por isso podemos reduzir a dois os quatro grupos em que, segundo o princípio do objeto, classificamos os atos de fé. E teremos no primeiro grupo os atos de fé cujo objeto está "relativamente" ausente, e no segundo grupo os atos de fé cujo objeto está "absolutamente" ausente. Mas então vemos com perfeita clareza que as duas classificações que estruturamos, segundo os dois princípios de classificação são perfeitamente coincidentes. Os atos de fé feitos sobre declarações de autoridade relativa se identificam com os atos de fé em objetos "relativamente" ausentes. Em troca, os atos de fé feitos sobre declarações de autoridade absoluta se identificam com os atos de fé em objetos "absolutamente" ausentes. A autoridade relativa do declarante — humana — refere-se sempre a objetos ausentes com ausência relativa. A autoridade absoluta do declarante — Deus — refere-se a objetos ausentes com ausência absoluta. Por isso coincidem tão perfeitamente as duas classificações.
86. A oposição à fé religiosa na filosofia moderna.
Pois bem; se relembrarmos o que, essencialmente, é o ato de fé, chegaremos imediatamente à conclusão de que somente os atos de fé religiosa são atos plenos e autênticos de fé. Os outros, os atos de fé humana, os que recaem sobre objetos relativamente ausentes, não são genuinamente e de maneira rigorosa verdadeiros atos de fe. Precisamente porque são tão-só "relativamente" atos de fé; porque são atos de fé que podem tornar-se juízos evidentes da razão. Todo ato de fé humana, em objetos relativamente ausentes, é em potência um juízo evidente de razão. Todo ato de fé humana é susceptível de comprovação ou demonstração, que o torna imediatamente juízo evidente de razão. Essa comprovação ou demonstração poderá ser tão difícil ou complicada quanto se quiser e acessível a muito poucos, e mesmo assim, em princípio, será acessível a todos. Pelo contrário, que homem poderá jamais, nesta vida terrestre, ter a vivência, ou seja a presença integral da Santíssima Trindade? Somente os atos de fé religiosa, quer dizer, os que se referem aos objetos absolutamente ausentes e se fundamentam em autoridade absoluta — de Deus — são atos de fé perfeitos. Os outros, os que diariamente realizamos aos montes para viver e ir vivendo, são todos eles atos de fé imperfeitos, quer dizer, sempre susceptíveis, em princípio, de tornar-se juízos evidentes de razão.
Agora já podemos responder à pergunta que há alguns instantes fazíamos: por que a filosofia chamada moderna ataca tão denodada-mente o ato de fé? A resposta é agora óbvia: porque o ato de fé per-. feito, o ato de fé autêntico, o único ato de fé que verdadeiramente merece este nome é o ato de fé religiosa. Os demais atos de fé são atos de fé, por assim dizer, provisórios; funcionam em substituição do um ato de juízo evidente que eu mesmo não posso realizar por razão de circunstâncias contingentes, porém que outros homens como ou realizaram ou realizam. Todo ato de fé imperfeito tem atrás de ;;1 um ato de juízo evidente, realizado por outro, porém que eu poderia em rigor realizar também. Todo ato de fé imperfeito é como o papel moeda que por si mesmo não vale, mas vale, todavia, como substituto do ouro ou do trabalho que o avaliza. O ato religioso de fé é, pelo contrário, autêntico, definitivo ato de fé. Não existe meio humano de mudá-lo num ato de juízo evidente. Pois bem; a filosofia chamada moderna admite muito bem os atos de fé imprópria ou imperfeita; e os admite porque sabe que sempre pode trocá-los por atos de juízo racional evidente. Não admite porém os atos de fé própria, perfeita, porque não existem atrás deles juízos evidentes que os avalizem. O racionalismo não quer atos de fé perfeita. Mas o ato de fé perfeita é o único que em rigor merece o nome de ato de fé. Podemos, pois, dizer que o racionalismo, em rigor, rejeita o ato de fé. Para a filosofia chamada moderna o ato de crer a fé é impróprio e indigno do homem. Reconhece que muitos homens, muitíssimos homens — todos os homens religiosos, que são legião — o realizam. Porém proclama a invalidez de tais atos de fé propriamente dita. Afirma que não deveriam realizar-se e que se realizam é por ativismo, por tradição de ignorância, incultura, falta de educação do intelecto. Por isso propugna por toda a parte a difusão do saber, a ilustração popular, o livre exame, a crítica racional etc. etc.
Penetremos um pouco mais profundamente nos fundamentos desta atitude negativa. À primeira vista não se explica com plena satisfação. Por que a filosofia chamada moderna se opõe dessa maneira ao ato de fé e o julga impróprio e indigno do homem? Por que não admite, junto ao juízo evidente da razão e o ato de fé imprópria — fundamentado em definitivo sobre um juízo evidente da razão — os atos de fé própria para os objetos absolutamente ausentes? Para responder a estas perguntas sem retórica e nem recriminações, devemos considerar agora as condições objetivas peculiares do ato de fé. E encontramos que não pode haver ato de fé sem três requisitos objetivos indispensáveis. O primeiro: que exista uma pessoa declarante. O segundo: que exista uma declaração. O terceiro: que. essa declaração declare algo, dê a conhecer um objeto absolutamente ausente da área intelectual humana. Dito em outros termos: para que haja ato de fé é necessário da parte ontológica: 1.° que exista Deus: 2.° que Deus se revele ao homem, ou seja, comunique ao homem uma revelação ou declaração; 3.° que esta revelação revele, com efeito, ao homem, algo que pelos seus meios naturais de conhecimento, o homem não poderia chegar a conhecer. Em resumo: a existência de Deus, a revelação e o dogma são as três condições ontológicas indispensáveis do ato de fé. Basta que uma destas três condições seja negada para que não possa haver ato de fé perfeito. Se Deus não existe, não há nem revelação nem dogma e não pode haver ato de fé. Se Deus existe, mas não revela nada ao homem, não há declaração, não há revelação e não pode haver ato de fé. Se Deus existe e revela algo ao homem, mas esse algo revelado não é dogma, mas opinião pessoal sujeita à interpretação livre de cada indivíduo humano, então tampouco pode haver ato de fé. O ateísmo que elimina Deus do horizonte humano, impossibilita toda autoridade pessoal absoluta e corta pela raiz o ato de fé. O deísmo, que nega que Deus se revele aos homens, priva o ato de fé de todo objeto possível. Por último o protestantismo, que concede a cada homem o direito de ouvir por si mesmo a palavra de Deus e tirar dela para si mesmo o ensinamento que quiser e puder, anula também o ato de fé. Porque conceder que a revelação de Deus esteja sujeita à interpretação de cada homem é proclamar o caráter subjetivo do conteúdo revelado (dogma)
Mas um dogma subjetivo não é dogma. Uma verdade subjetiva é uma verdade não verdadeira, é uma contradição. A verdade não pode ser subjetiva sem deixar de ser verdade. Se cada homem pode tirar da palavra divina o que lhe aprouver, então sobre o que recai o ato de fé? Não sobre a palavra de Deus, mas sobre essa interpretação pessoal da palavra de Deus. Porém, se o ato de fé recai sobre a interpretação pessoal da palavra de Deus, então não é ato de fé perfeita, porque seu objeto já não está absolutamente ausente, mas foi elaborado pela inteligência humana e de certo modo incorporado com presença integral à área da razão. O subjetivismo do protestante substitui o ato de fé objetivo pelo sentimento religioso pessoal; converte a religião em diletantismo e a fé sólida em vago suspiro da alma.
Mas a dificuldade mais grave levantam-na os que negam a existência de Deus ou a revelação de Deus. Na realidade podem ambas juntar-se num mesmo grupo. O ateísmo e o deísmo negam ambos que "haja" revelação. O primeiro porque nega que "haja" quem revele, o segundo porque nega que Deus queira revelar e até que possa revelar. Mas se examinamos a razão de por que o ateísmo nega a existência de Deus e o deísmo a existência da revelação, descobrimos imediatamente que as razões de ambas negações são no fundo idênticas, são uma e a mesma razão; esta: que o entendimento humano não pode demonstrar que haja Deus nem que haja revelação. A impossibilidade de demonstrar que existam Deus e a revelação é, pois, o motivo comum que leva os ateus, panteístas e deístas a eliminar radicalmente da vida humana o ato de fé.
87. Sua origem idealista.
Não é nosso objeto nesta lição discutir estas posições filosóficas. Estão faz muito tempo estudadas, julgadas e condenadas. Nosso propósito é descobrir a hipótese, absolutamente gratuita e infundada, sobre que se baseiam. E agora já podemos vislumbrar esta hipótese. Os elementos ontológicos — objetivos — da fé, que nossa análise pôs em manifesto, são Deus, a revelação e o dogma. Mas também nossa análise, na parte subjetiva, naquilo que o ato de fé tem de puro ato, nos fez saber que estes objetos da fé estão "absolutamente ausentes" da área mental do homem, e precisamente por isso são objetos de fé. A razão humana pode chegar até conhecer que Deus existe, mas não pode passar a conhecer por si só aquilo que Deus é na intimidade de sua essência. A íntima essência de Deus, da revelação e do dogma são, pois, objetos de fé perfeita, ou seja, objetos "absolutamente ausentes" da área mental humana. Pois bem; a hipótese sobre que, mais ou menos explicitamente, se baseia o ateísmo, o panteísmo e o deísmo etc, é: que aquilo que está absolutamente ausente da área mental humana não existe. No fundo de todas estas doutrinas filosóficas palpita esta suposição primeira: que não existe mais do que aquilo que está presente no pensamento. Somente partindo desta suposição, seria, com efeito, louvável o raciocínio do ateísmo e do deísmo; os quais pretendem demonstrar a não existência de Deus e da revelação derivando-a de sua "ausência absoluta" da área mental humana. Visto que o homem — dizem — não pode conceber clara e distintamente aquilo que é Deus e a revelação, não existem nem Deus nem a revelação. Isto implica no tácito porém muito operante postulado de que aquilo que não pode conceber-se clara e distintamente no intelecto, não é, não existe.
Este postulado não é outra coisa que o princípio do chamado "idealismo" filosófico. Nenhuma posição, porém, é mais gratuita e infundada do que esta. Identificar a realidade total com a realidade pensada constitui uma atitude que nada avaliza e que muitas considerações menoscabam e destroem. Eu me conheço a mim mesmo como pensante. Porém nem eu sou somente um ser pensante nem há em mim nada que me autorize a identificar todo o ser com o pensamento. Isto é, todavia, o que faz Descartes, e atrás dele todo o idealismo, que, de uma ou outra forma, foi a parte mais importante e influente da filosofia chamada moderna. Para esta filosofia, pois, ser real é ser objeto do pensamento, e aquilo que não é nem pode ser objeto do pensamento não tem realidade. Mas, visto que o objeto do ato de fé própria e perfeita é um objeto "absolutamente ausente", que não pode ser por essência objeto do pensamento humano, não tem realidade alguma; o ato de fé perfeita, é, pois, inválido por falta de objeto real. Seu objeto é simplesmente ilusório, fictício e inventado.
Este postulado do idealismo filosófico nos dá a clave de por que a filosofia chamada moderna admite os atos de fé imprópria e imperfeita e rejeita os atos de fé própria e perfeita. Os primeiros, com efeito, não são autênticos atos de fé; atrás deles, avalizando-os, há atos de juizo evidente; têm, pois, objetos relativamente presentes à área do intelecto, objetos reais, que a razão pensa. Os atos de fé perfeita, pelo contrário, têm objetos que se encontram absolutamente o essencialmente fora do âmbito do pensar claro e distinto, ou seja, objetos que segundo o postulado idealista não existem, não são.
Este postulado do idealismo filosófico nos dá a chave de por que haja podido dar forma, durante algum tempo, aos esforços da filosofia moderna, não é em si mesma uma posição sólida e permanente. O ser — a realidade — refere-se evidentemente a nós com amplidões tais que ultrapassam de muito as fronteiras do pensamento claro e distinto. O idealismo filosófico é hoje em dia, no mundo, um postulado caduco e superado. A ontologia ou teoria do ser não se esgota, nem muito menos, em pura lógica ou teoria do conhecimento. Nem o ser pode reduzir-se a um só modo de ser, ao modo inteligível de ser. Longe disso, o ser designa uma vasta variedade de modos, que são irredutíveis uns aos outros, e cuja descrição corre a cargo da ontologia. Para nos limitarmos a um exemplo — que toca de soslaio em nosso tema — podemos distinguir facilmente entre o ser ideal, o sei físico, o ser vivente, o ser histórico e o ser sobrenatural. E cada um desses modos de ser mantém com o pensamento uma relação completamente diferente. O ser ideal que é o ser próprio dos objetos matemáticos, das relações e das essências, se oferece ao pensamento total e integralmente; é o ser que se acha absolutamente presente e resulta por isso cognoscível com plenitude de evidência racional. O ser físico oferece já à contemplação racional um resíduo refratário à plena evidência; há no ser físico, na matéria, um fundo último de contingência que pode reduzir-se pouco a pouco a pensamento claro, mas que nunca desaparece totalmente. O ser vivente entra, como o físico no âmbito do pensamento evidente; mas também deixa um resíduo que transcende da evidência racional e alude já a desígnios da Providência inescrutável. O ser histórico deixa-se conhecer em parte, na parte que tem de fato físico, material. Mas sua interpretação científica já levanta problemas que apontam por alto e além das faculdades intelectuais do homem. Por último esta gradação de realidades, que desde a ideal, passando pela física, a vivente e a histórica, vão cada vez mais excedendo e ultrapassando a área da inteligência humana, culmina na realidade sobrenatural, a qual já está toda ela totalmente fora da capacidade mental do homem. Mas que esteja fora do pensamento evidente não quer dizer que não seja, que não exista. Quer dizer tão-somente que não pode ser conhecida "naturalmente" pelo homem; quer dizer que não é acessível aos órgãos com que racionalmente conhece o homem as outras realidades. Porém Deus quis dá-la a conhecer ao homem por outros meios: a revelação. Foi este um dom gratuito de Deus ao homem. E mercê deste dom, o homem dispõe de um conhecimento daquilo que, naturalmente, não poderia conhecer, e tem para conhecê-lo um órgão, que é propriamente 0 ato de fé. Rigorosamente falando, pois, pode dizer-se que o ato de fé é um método adequado ao conhecimento da realidade sobrenatural, como a intuição intelectual é o método adequado ao conhecimento da realidade ideal; a experimentação, o adequado ao conhecimento da realidade física; a teologia, o adequado à realidade vivente c a biografia o adequado à realidade histórica. Assim o ato de fé, Pode integrar-se, como peça de função e sentido próprios, na nova lógica do conhecimento, que o pensamento atual há de construir necessariamente sobre a nova ontologia realista, que substitui ao postulado, já obsoleto, do idealismo filosófico.
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