Cap. 10 – A Origem do Idealismo – Fundamentos de Filosofia de Manuel Morente

Cap. 10 – A Origem do Idealismo – Fundamentos de Filosofia de Manuel Morente

Fundamentos de Filosofia de Manuel Garcia Morente
Lições Preliminares

Lição X

A ORIGEM DO IDEALISMO

68. O
CONHECIMENTO E A VERDADE NO REALISMO. — 69. CRISE HISTÓRICA AO LIMIAR DA IDADE
MODERNA. — 70. NECESSIDADE DE COLOCAR DE NOVO OS PROBLEMAS. — 71. O PROBLEMA
DO CONHECIMENTO SE ANTEPÕE AO METAFÍSICO. — 72. A DÚVIDA COMO MÉTODO. — 73. EXISTÊNCIA INDUBITÁVEL DO PENSAMENTO. — 74. TRÂNSITO DO EU ÀS
COISAS.

68.    O conhecimento e a verdade no realismo.

Uma
das etapas de nossa excursão pelo campo da filosofia terminou em lição
anterior.

Entráramos
no campo da filosofia pelo caminho da metafísica.. Havíamos formulado a
pergunta fundamental da metafísica, que é a pergunta: que existe? quem existe?
e tropeçáramos logo depois com a resposta que o espírito humano dá espontânea,
naturalmente, a essa pergunta. Esta resposta está contida na metafísica realista,
no realismo. Quem existe? Pois existem as coisas, o mundo das coisas e eu entre
elas. Víramos que essa resposta dada pelo realismo implica em que o mundo é o
que existe; o conjunto de todos os seres de todas as substâncias; que essas
substâncias, esses seres que existem estão também eles impregnados de
inteligibilidade: são, e além de ser, têm essência; são, e são inteligíveis.

A
relação em que nos encontramos com esse mundo de coisas impregnadas de
inteligibilidade é uma relação de conhecimento. Nós conhecemos essas coisas.
Para conhecê-las, começamos formando conceitos delas; noções, que reproduzem
as essências das coisas. Ao formarmos um conceito de uma coisa, já estamos
armados para seguir pelo mundo, e, cada vez que encontrarmos essa coisa, ter
pronto em nossa mente o conceito que lhe corresponde; e então formular juízos
de conhecimento que nos permitam dizer: isto é tal coisa.

Nada,
pois, surpreende ao sábio, cuja mente está bem provida de conceitos. Saber,
para o realista, consiste em ter na mente uma coleção, a mais variada, vasta e
rica possível, de conceitos, que lhe permitam caminhar pelo mundo entre as
realidades, sem nunca se sentir surpreendido: porque cada vez que encontrar
algo, se for verdadeiramente sábio, terá na sua mente o conceito
correspondente. Se encontrar algo que não conhece,   aproximar-se-á   mais,  
olhará   mais atentamente; e, ou com a maior proximidade saberá encontrar finalmente
o conceito que lhe corresponde ou formará dessa coisa nova, dessa substância
nova que tem diante de si, um conceito novo, e aumentará com isso o cabedal do
seu saber.

O
conhecimento, pois, reflete na mente a mesmíssima realidade. O conhecimento,
para o realista, é isso: reflexo; e dessa maneira entre o pensamento de quem
pensa e a realidade não existe discrepância alguma. O pensamento é verdadeiro;
e isto quer dizer que entre ele e a coisa — objeto do pensamento — existe uma
perfeita adequação. A verdade se define, no realismo, pela adequação entre o
pensamento e a coisa. Essa adequação, como foi conseguida? Foi conseguida mediante
a reta formação dos conceitos. O trato contínuo em nossa vida com as coisas faz
com que a mente forme os conceitos. Se esses conceitos estão bem formados, se
foram formados como é devido, então refletem exatamente a realidade; são
perfeitamente adequados à realidade. Se não estão bem formados esses conceitos,
é necessário corrigi-los.

A
evolução, o próprio processo do pensamento realista, é uma correção contínua
dos conceitos que formaram a metafísica de Parmênides. Parmênides faz a
primeira tentativa de formação de conceitos capazes de refletir a realidade.
Essa primeira tentativa é depois aperfeiçoada, superada em perfeição por
Platão. Mas por sua vez o sistema de conceitos platônicos é, em terceiro lugar,
aperfeiçoado por Aristóteles, o qual chega já a uma ramificação,
individualização dos conceitos, capazes pela sua flexibilidade de reproduzir da
maneira mais exata as raízes da realidade mesma. Assim a dialética, a discussão
entre conceitos mal formados e conceitos melhor formados, é o método da
metafísica realista. E na sucessão histórica, que parte de Parmênides e chega a
Aristóteles, encontramos um magnífico exemplo dessa dialética dos conceitos,
na qual se tenta reproduzir fielmente a articulação mesma da realidade.

No
fundo de todo este processo encontramos sempre a mesma hipótese, ou, melhor
dito, o mesmo postulado fundamental, a saber: que as coisas são inteligíveis;
que as coisas são as que têm no seu próprio ser a essência, a qual é acessível
ao pensamento, porque o pensamento se ajusta, coincide perfeitamente com elas.
A inelegibilidade das coisas mesmas é, pois, um dos postulados essenciais do
realismo. E tendo chegado já em Aristóteles o realismo a essa forma flexível,
ramificada, cheia de individualização concreta, é este o momento no qual o
realismo desenvolve o máximo de suas possibilidades e adota a forma mais
perfeita que dele se conhece na história. A partir deste momento o realismo se
apossa completamente dos espíritos, de modo tanto mais fácil quanto a
propensão natural do homem coincide com a hipótese fundamental do realismo. A
propensão natural do homem é a de responder à pergunta metafísica indicando as
substâncias individuais, cujo conjunto constitui o universo; e assinalando-as
não somente no sentido de dizer que existem mas também no sentido de expressar
o que são, aquilo que são, sua essência, além de sua existência. Assim, pois, o
homem espontâneo e natural é aristotélico; e se o homem é aristotélico,
espontânea e naturalmente, nada tem de estranho o espetáculo que nos dá a
História e que consiste em que, a partir de Aristóteles, pouco a pouco, a
concepção metafísica aristotélica do mundo e da vida vai se enraizando cada vez
mais nos espíritos e nas almas, até tornar-se uma crença; uma crença que atinge
o fundo mesmo do intelecto, o fundo mesmo da alma individual. E assim, durante
séculos e séculos, a filosofia sustentou-se nessa crença no realismo.

69.   Crise histórica ao limiar da Idade Moderna.

Mas
chega um momento na história do pensamento humano em que a crença no realismo
aristotélico começa a sofrer desgaste. Para compreender a nova concepção
filosófica que vai substituir o realismo aristotélico não temos mais solução
que relembrar a história.

A
crença aristotélica sofre depreciação a partir do século XV, e esse desgaste
vai sendo cada vez maior. Os alicerces do aristotelismo vão sendo sapados cada
vez mais pelas minas que os fatos históricos e as descobertas particulares
representam para o movimento do pensamento humano. Esses fatos históricos são
principalmente três.

Em
primeiro lugar, a destruição da unidade religiosa, as guerras de religião, o
advento do protestantismo. As lutas entre os homens por distintos credos
religiosos fazem cambalear a fé em uma verdade única que unisse a todos os
participantes na cristandade. O fato histórico das guerras de religião é, ao
mesmo tempo, como todo fato histórico, sintoma de uma mudança de atitude nos
espíritos e causa de que essa mudança de atitude se torne cada vez mais consciente
e clara, mais profundamente visível aos olhos do homem daqueles tempos.

Mas,
além das guerras de religião que destroem a crença na unidade ou na unicidade
da verdade, outros fatos históricos contribuem notavelmente a desgastar a
crença na metafísica aristotélica. Estes fatos são: em primeiro lugar, a
descoberta da terra, e em segundo lugar, a descoberta do céu. Os homens
descobrem a terra. Pela primeira vez se dão conta do que é a terra; pela
primeira vez um homem dá a volta ao mundo e demonstra pelo fato a redondeza do
planeta. Isto muda por completo a imagem que se tinha da realidade terrestre.
Essa mudança radical na imagem que se tinha da realidade terrestre, abala toda
a física de Aristóteles. Este abalo é gravíssimo, porque o abalo numa parte do
edifício arrasta facilmente o resto.

Mas,
além de ter descoberto a terra, o homem do século XVI descobre o céu. O novo
sistema planetário, que Kepler e Copérnico desenvolvem, muda também por
completo a idéia que os homens tinham dos astros e de sua relação com a terra.
A terra deixa já de ser o centro do universo, deixa de conter em si o máximo de
preeminência antropomórfica; a terra agora é um planeta, e não dos maiores, com
uma trajetória; é um grão de areia perdido na imensidade’ dos espaços infinitos.
O sistema solar é um dos tantos sistemas de que se compõe a imensidade do céu;
e a terra neste sistema solar ocupa um   lugar   secundário,   periférico,  
que não é, nem de longe, a posição central única e privilegiada que os antigos
e Aristóteles lhe outorgavam. Aí está outro fato que profundamente abala os
alicerces da ciência aristotélica.

Estes
fatos históricos — as guerras de religião, a descoberta da redondeza do
planeta, a descoberta da posição da terra no universo astronômico — são outros
tantos golpes terríveis a ciência de Aristóteles. Este sistema de conceitos
que se ajustam perfeitamente à realidade; esse sistema classificativo de
conceitos que respondem às hierarquias das essências, começa a rachar-se. Por
todos os lados propaga-se a dúvida; discute-se; não se crê já nele; perdeu-se a
crença nele. Neste momento se pode dizer que o saber humano entra na crise mais
profunda que conheceu. Dessa crise nasce uma posição completamente nova da
filosofia. Ê este um exemplo dos mais notáveis, que faz compreender da maneira
mais patente a historicidade do pensamento humano. O pensamento humano, longe
de ser algo que em eternidade e fora do tempo subsista sempre igual a si mesmo,
funcionando nas mesmas condições e capaz das mesmas proezas, está radical e
essencialmente condicionado pelo tempo e pela História. O pensamento humano não
produz qualquer coisa em qualquer momento e em qualquer lugar, mas nasce,
surge numa mente concreta, num homem de carne e osso, num indivíduo, o qual
vive numa época determinada e pensa num lugar determinado; e este pensamento
vem condicionado essencialmente por todo o passado que pressiona sobre a mente
na qual se está destilando.

70.   Necessidade de colocar de novo os problemas.

Quando
no século XVI e começo do século XVII, o desconserto científico e filosófico
chega a termos tais que torna absolutamente preciso colocar de novo os
principais problemas da filosofia, o pensamento que os recoloca não está já
nas mesmas condições em que estava Parmênides. Transcorreram vinte séculos
desde então, e estes séculos que transcorreram não transcorreram em vão, mas
antes, acumulando-se o tesouro das experiências e das teorias filosóficas do
passado, esse tesouro pressiona sobre o presente para que o pensamento que
quer despertar nesse presente não possa estar, não esteja de fato, nas mesmas
condições em que estava na época de Parmênides Ao tempo de Parmênides a
filosofia nasce, a filosofia pensa pela primeira vez, a filosofia não tem um
passado no qual apoiar-se e ao qual depender, mas é livre dos vínculos da
História. Faz o que pode, o que de si mesmo dá o pensamento humano. Parmênides
se encontra virgem; encontra problemas virgens, problemas que não foram antes
dele abordados por ninguém, e, portanto, cujas soluções inexistentes não podem
de modo algum pressionar ou condicionar a direção do seu próprio pensamento.
Parmênides encontra-se com a descoberta (feita pelos Pitagóricos e pelos geômetras)
da razão, do pensamento humano; e entusiasmado com essa descoberta da razão,
confere-lhe integralmente a missão de descobrir o ser. Porque inevitavelmente
pensa também que o ser se deixa descobrir pela razão, que o ser é inteligível;
que as coisas, na sua essência, são inteligíveis.

Este
pensamento filosófico de Parmênides é, pois, um pensamento espontâneo,
autóctone, livre. Porém o pensamento de Descartes, o pensamento dos homens do
século XVI, já não é autóctone, nem espontâneo, nem livre. Vem depois de vinte
séculos de filosofia. Tem atrás de si a filosofia de Aristóteles, que foi crença
da humanidade durante tantos séculos; que foi crença e que é agora também malogro.
Portanto, a posição do problema é completamente diferente. O homem encontra-se
com uma realidade histórica conceptual, mental, que é o sistema de Aristóteles,
o realismo aristotélico que está aí, e que o homem, não pode apagar da
realidade porque ela existe historicamente aí e pressiona numa determinada
direção o pensamento novo.

Começa
neste momento a segunda navegação da filosofia. Parmênides iniciou a primeira;
a segunda inicia-a Descartes. Mas aqueles navegantes — Parmênides, Platão,
Aristóteles — eram navegantes inocentes. Não tinha sofrido ainda a filosofia
desilusão alguma. Pelo contrário, o navegante novo, o navegante Descartes, já
perdera a virgindade, já perdera a inocência. Não estava nas mesmas condições.
Tinha atrás de si um passado filosófico instrutivo, uma experiência prévia, que
fracassou. E então ele teve que começar a filosofar, não com a alegria virginal
dos inocentes gregos, mas com a cautela e a prudência de quem presenciou um
grande fracasso de séculos. Cuidado! — pensa Descartes —. Não vão se enganar!
Muito cuidado! É esta atitude de prudência e de cautela que o lugar e o momento
histórico impõe inevitavelmente a Descartes, que imprime uma marca indelével no
pensamento moderno. O pensamento moderno é tudo quanto se quiser, menos
inocente, é tudo quanto se quiser, menos espontâneo. Começa a surgir já com a
idéia de precaução e de cautela; é essa mesma idéia de precaução, de não
reincidir nos erros do passado, de evitar esses erros, que imprimem uma direção
ao curso do seu desenvolvimento.

Em
que consiste essa cautela? Pois consiste em que o espetáculo histórico da
derrubada do aristotelismo coloca no primeiro plano do pensamento moderno uma
questão prévia, antes de qualquer outra. A questão que nos interessa e que
interessa ao homem é a questão metafísica que formulamos na pergunta: quem
existe? Mas quando Descartes, e o pensamento moderno simbolizado por Descartes,
abordam essa pergunta: quem existe? já não são virgens, já não são inocentes;
dizem: Cuidado! E antes de perguntar quem existe querem assegurar-se de que não
se vão enganar. .Resolvem, pois, primeiramente, procurar a maneira de não se
enganar; resolvem fazer uma pesquisa prévia, preliminar, de propedêutica, que
vai consistir em pensar minuciosamente um método que permita evitar o erro.

 

71.    O problema do conhecimento se antepõe ao metafísico.

 

De maneira que a característica do
pensamento moderno é que, antes de apresentar o problema metafísico
propõe outro problema prévio: o problema de como evitar o erro; o problema do
método que se há de descobrir para aplicá-lo de sorte a não cometer
erros; o problema da capacidade que tem o pensamento humano para descobrir a
verdade; o problema de se o pensamento humano pode ou não pode descobrir a
verdade; o problema dos caracteres que um pensamento haja de revestir para ser
verdadeiro. Em suma, toda uma série de problemas que os filósofos hoje abrangem
sob a denominação de "teoria do conhecimento".

A
característica do pensamento moderno é que em lugar de começar pela própria
ontologia, ensaia por uma epistemologia, por uma teoria do
conhecimento. E por que o pensamento moderno começa por aí, quando o pensamento
antigo começara pelo contrário, pela metafísica, pela ontologia? Eis por que o
pensamento moderno germina depois de um longo passado histórico. Essa é a sua realidade
histórica. Surge e se desenvolve no século XVI. O pensamento humano não é
nunca, em nenhum instante, a-histórico, fora do tempo e do espaço; não é
pensamento que esteja lançado

com
o momento histórico, mas antes o pensamento é uma realidade histórica, tem uma
realidade histórica. O momento em que um pensamento nasce se compreende pelo
que o antecedeu. Todo o passado está projetado nele. Assim como o passado atua
sobre nós, ou seja, negativamente, dizendo-nos o que se não deve fazer, o que
há de se evitar, assim também o pensamento moderno tem que começar por uma
teoria do método, por uma teoria do conhecimento. E os primeiros alvôres do
pensamento moderno são constituídos por estudos sobre o método. Já antes de
Descartes existe um certo número de obras sobre o método. Existem ensaios de
filósofos anteriores a Descartes que tomam como principal objeto de meditação a
procura e a excogitação de um método apropriado. Não vou citar mais do que um,
o inglês Bacon de Verulam, que escreveu o Novum Organum, todo um novo
método mais ou menos complicado para evitar os erros e descobrir a verdade.

Assim
pois, essa característica histórica do pensamento moderno altera por completo a
posição do problema. Por isso o problema se recoloca para Descartes, não como
nós o colocamos, não como o colocou Parmênides, mas desta outra forma: como
descobrir a verdade? E por que pergunta Descartes como descobrir a
verdade? Pois pergunta porque as verdades que até agora vinham valendo não
valem mais; revelaram-se falsas. Houve, para duvidar delas, motivos poderosos.
Por conseguinte, o que vai interessar agora ao pensamento não é tanto
descobrir muitas proposições verdadeiras mas achar uma só, uma só talvez, mas
que seja absolutamente certa, da qual não se possa duvidar. O que interessa ao
pensamento moderno é a indubitabilidade; é que aquilo que se afirma
tenha uma solidez tão grande, que não possa ser posta em dúvida, como
aconteceu com o sistema de Aristóteles. Não reincidamos naquelas ilusões.

72.   A dúvida como método.

Assim
Descartes busca uma verdade primeira, que não possa ser posta em dúvida, que
resista a toda dúvida. Quer dizer que, por um movimento sutil do seu espírito,
Descartes converte a dúvida em método. Como? Negativamente, aplicando a dúvida como uma peneira, como um crivo que coloca ante qualquer proposição que se
apresente com a pretensão de ser verdadeira; e então exige das verdades não
somente que sejam verdadeiras, mas também que sejam certas. Tudo o que o
preocupa é buscar a certeza, e o critério de que se vale é a dúvida. A mesma
dúvida que derrubou o pensamento aristotélico, essa mesma lhe serve para
encontrar o seu; porque se a dúvida corroeu o sistema aristotélico e o tornou
inservível, tentemos agora aplicar a dúvida, para que tudo aquilo em que a
dúvida (levada a termos de exagero rigoroso) provoque impressão, tudo isto
fique eliminado das bases da filosofia, A dúvida se converte, pois, em método;
e o que se tenta aqui descobrir é uma proposição que não seja duvidosa, que não
seja dubitável.

Colocado
já neste plano, no plano de não se interessar pela quantidade do conhecimento,
mas de obter mesmo que seja um só, mas indubitável; colocado já nesse plano, a
marcha do pensamento cartesiano não pode ter mais que um destes dois
resultados: ou encalhar na esterilidade completa, naufragando no cepticismo
total, terminando assim a navegação filosófica no pélago do cepticismo, ou chegar
forçosamente a descobrir pela primeira vez na história do pensamento humano
algo completamente novo: o imediato. Descartes tinha que descobrir o imediato,
ou fracassar na sua empresa. Com efeito, descobriu o imediato. Vou explicar o
que isto quer dizer.

73.   Existência indubitável do pensamento.

Nosso
conhecimento das coisas, na filosofia de Aristóteles, consiste em possuir
conceitos, em preencher nossa mente de conceitos, que se ajustem às coisas. Um
conceito é verdadeiro quando o que o conceito diz e o que a coisa é,
coincidem. Assim, no sistema aristotélico nossa relação com as coisas é uma
relação mediata. Por quê? Porque está fundada num intermediário. Esse
intermediário é o conceito. O conceito nos serve de intermediário entre nossa
mente e as coisas. ‘"Mediante" o conceito conhecemos as coisas. Nosso
conhecimento é mediato. Por isso o conhecimento aristotélico era sempre ,
discutível; porque sempre cabia discutir se o conceito se ajustava ou não se
ajustava à coisa. Visto que a verdade do conceito consistia em ajustar—se à
coisa sendo o conceito a mediação ou o intermediário entre nós e a coisa,
sempre cabia discutir a verdade do conceito. Quer dizer, que neste sistema
aristotélico, o conhecimento oferece sem remédio o flanco à dúvida.

Mas
o que busca Descartes é um conhecimento que não ofereça o flanco à dúvida. Não
terá, pois, outro recurso senão fracassar e cair no cepticismo absoluto ou
chegar a um conhecimento que não seja mediato, que não se faça "por
meio" do conceito, mas que consista numa posição tal, que entre o sujeito
que conhece e o conhecido não se interponha nada. Pois bem: que coisa há tal
que não necessite eu um conceito entre mim e ela? Que coisa há capaz de ser
conhecida por mim com um conhecimento imediato, com um conhecimento que não
consista em interpor um conceito entre mim e a coisa? Pois bem: o único
elemento capaz de preencher essas condições de imediatismo é o pensamento
mesmo. Nada há mais que o pensamento mesmo. Se eu considerar que todo
pensamento é pensamento de uma coisa, eu poderei sempre duvidar de que a coisa
seja como o pensamento a pensa. Mas se eu dirigir meu interesse e meu olhar não
à relação entre o pensamento e a coisa mas à relação entre o pensamento e eu;
se tomar o próprio pensamento como objeto, então aqui já não poderá penetrar a
dúvida. A dúvida pode instalar-se no problema da coincidência do meu pensamento
com a coisa; mas a dúvida não pode, não tem morada possível no pensamento
mesmo. Dito de outro modo: se eu sonhar que estou metido numa barca e remando
num rio, meu sonho pode ser considerado "falso", pois eu não estou
realmente em nenhuma barca e em nenhum rio, mas metido na cama; porém o que não
é falso é que eu estou sonhando isto. Se eu então disser: "estou sonhando
isto", não me enganarei. Se eu pensar um erro, uma falsidade, e disser:
"penso isto", sem tentar averiguar se isto é verdade, mas que o
penso, não poderei duvidar de que o estou pensando. Em suma, o fenômeno de
coincidência, o pensamento mesmo, é indubitável. O dubitável é que o pensamento
coincida com a coisa que está atrás dele. Mas no pensamento mesmo a dúvida não
tem sentido.

Por
isso Descartes, lançando-se a procurar que é aquilo que é indubitável, não tem
mais recurso que fazer um giro de conversão para dentro de si mesmo e situar o
centro de. gravidade da filosofia, não nas coisas, mas nos pensamentos. Então
Descartes, à pergunta da metafísica: que é o que existe? quem existe? não
responde já: existem as coisas, mas responde: existe o pensamento; existo eu
pensando; eu e meus pensamentos. Por quê? Porque a única coisa que há para mim
de imediato é o pensamento; por isso não o posso pôr em dúvida. O que posso pôr em dúvida é o que está além do pensamento; o que não atinjo mais que
"mediante" o pensamento. Mas aquilo que sem mediação alguma posso ter
na mais íntima posse é algo do qual não posso duvidar; não posso duvidar de que
tenho pensamentos. Se fizermos a hipótese extravagante — que faz Descartes — do
gênio maligno dedicado a enganar-me, se me engana é que penso. Se os pensamentos
que tenho forem todos eles falsos, é certo que tenho pensamentos. Por
conseguinte, eis aqui que a necessidade histórica da apresentação do problema,
o fato de que o problema seja proposto por um pensamento não inocente, mas
prudente e cauteloso, instruído por vinte séculos de tradição
filosófica, esse fato histórico impele o pensamento moderno a propor-se
inicialmente o problema de uma verdade indubitável, o problema da
indubitabilidade, ou seja o problema da teoria do conhecimento; e logo a procura
traz a verdade indubitável e o obriga a fazer um giro de conversão para
encontrar a única coisa indubitável, a única rigorosamente indubitável, que é o
pensamento mesmo. Eu posso pensar que estou sonhando, que nada do que penso é
verdade; porém, é verdade que eu penso. Eu posso estar enganado por um gênio
maligno; porém, se estiver enganado, os pensamentos falsos que este gênio
introduziu em mim são pensamentos, eu os tenho.

E
assim a filosofia moderna muda por completo seu centro de gravidade e dá ao problema
da metafísica uma resposta inesperada. Quem existe? Eu e meus pensamentos.
Então, por acaso o mundo não existe? É duvidoso. A coisa é grave, muito grave,
porque agora acontece que se exige de nós uma atitude mental completamente
distinta da natural e espontânea. Espontânea e naturalmente todos acreditamos
que as coisas existem; todos os homens somos espontânea e naturalmente
aristotélicos: acreditamos que esta lâmpada exista e que seja lâmpada, porque
eu tenho o conceito de lâmpada em geral e encontro nesta coisa o conceito de
lâmpada. Todos acreditamos que o mundo exista, ainda que eu não exista. Porém,
agora se nos propõe uma atitude vertiginosa; propõe-se-nos algo desusado e
extraordinário, como uma espécie de exercício de circo. Apresenta-se-nos nada
menos que isto: que a única coisa de que estamos certos que exista sou eu e
meus pensamentos; e que é duvidoso que além dos meus pensamentos existam as
coisas. De maneira que o problema, para a filosofia moderna, é tremendo,
porque agora a filosofia não tem mais solução senão tirar as coisas do
"eu".

74.   Trânsito do eu às coisas.

E
vamos supor que consegue tirá-las, que consegue sair da prisão do eu e chegar
à realidade das coisas. Será esta sempre uma realidade derivada; nunca será uma
realidade primária. (De modo que eis aqui uma série de condições que
o idealismo nos impõe e que são extraordinariamente difíceis. A filosofia
começa a ser difícil. É agora que a filosofia começa a ser difícil; porque
agora é que a filosofia, por necessidade histórica e não por capricho, volta as
costas ao sentido comum; volta as costas à propensão natural e nos convida a
realizar um exercício acrobático de uma extrema dificuldade, que consiste em
pensar as coisas como derivadas do eu. Eis onde chegamos com a nova tese do
idealismo; ao problema mais tremendo e mais difícil. Como o vamos resolver? De
início vamos escutar reverentemente as soluções que se deram.

A
partir de Descartes, a filosofia moderna não fez senão pensar sobre este
problema: como tiraremos o mundo exterior do pensamento e do eu? como
extrairemos o mundo exterior do pensamento? A esse problema fundamental do
idealismo moderno, as soluções que se deram são muitas. Podem agrupar-se em
dois grandes grupos: primeiro, o grupo das soluções psicológicas, que consistem
em investigar a alma humana, suas leis internas, por introspecção e ver como a
alma humana opera com seus pensamentos para deles extrair a crença no mundo
exterior. Foram principalmente ingleses os que desenvolveram esta solução
psicologista. Em contraste há outro grupo de soluções que chamaremos lógicas.
Essas soluções tentam fundar a objetividade da realidade e das coisas sobre
leis do pensar mesmo, do pensar racional, lógico. Esta solução logicista ou
epistemologista — teoria do conhecimento — encontrá-la-emos desenvolvida
especialmente na Alemanha. Podemos simbolizar em dois nomes os dois pontos de
vista contrários: Hume, na Inglaterra, explicará o mundo das coisas exteriores
como produto das leis psicológicas da nossa alma; Kant, na Alemanha, explicará
o mundo da realidade sensível como resultado ou produto das leis de síntese
lógica do nosso pensamento. Porém num e noutro se adverte que as palavras
"ser" e "pensamento" têm agora uma significação
completamente distinta daquela que tiveram para Parmênides, Platão e
Aristóteles.

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