A FORMAÇÃO DO SUPER-HOMEM NIETZSCHEANO ATRAVÉS DA EDUCAÇÃO PELO E PARA O ÓCIO

A FORMAÇÃO DO SUPER-HOMEM NIETZSCHEANO ATRAVÉS DA EDUCAÇÃO PELO E PARA O ÓCIO

A FORMAÇÃO DO
SUPER-HOMEM NIETZSCHEANO ATRAVÉS DA EDUCAÇÃO PELO E PARA O ÓCIO

THIAGO FELIPE SEBBEN

Monografia apresentada à graduação
do curso de Educação Física do Centro Universitário Positivo como requisito
parcial à obtenção dos títulos de Licenciatura e Bacharelado em Educação Física.

Orientador: Mestre Alexandre França
Salomão.

CURITIBA

2007
DEDICATÓRIA

Dedico a inspiração transcrita a seguir a
todas as pessoas que aproveitam seu tempo livre com ócio; aos artistas; aos
criadores; aos destruidores; aos transformadores; aos sábios; aos
contempladores e aos professores – os portadores de toda a riqueza da
humanidade.

AGRADECIMENTOS

Agradeço à amiga Juliane,
artista de incomparável vigor criativo – uma das poucas a entender a magnitude
do transe criativo e o desfrutar desse prazer. A união levada ao extremo, um
ambiente de intensidade descontrolada, o criar novas formas de convívio dia
após dia: em tudo isso vejo a artista por excelência em ti – uma preocupação
com a qualidade, acima de tudo. Da mesma forma que o filósofo degusta-se com o
pensamento, o artista faz com sua obra – degustando-se em sua criação.

Agradeço ao amigo Manoel Roberto, um
erudito original, perspicaz e visitador das entranhas de qualquer pensador.
Obrigado pela sua propensão ao debate e por seus inúmeros questionamentos –
sempre norteados pela coerência. É sabido que tu és um homem da teoria, meu
caro erudito, deixando por muitas vezes de lado a própria prática dessa teoria.
Mas é sabido também que o debate é ação – e ação da mais nobre: o agir
político. E é aí que encontro a nobreza de teu caráter.

Agradeço ao irmão Ivan, um exemplo do
constante auto-superar-se. Dentro de sua mente misteriosa residem as mais
ácidas ironias e sarcasmos – produto de um misto de loucura e razão onde
tramita o mais profundo de teu ser. Mestre no fazer-rir, sela cada momento com
o riso de todos, e está dissipada qualquer gravidade – faça me rir!

Agradeço ao Salomão, mestre no maior
discernimento do termo. Obrigado por ter permitido, confiado e encorajado o
trilhar de meu próprio caminho, de meu próprio estilo. Tamanha dádiva revela o
quanto de mestre há em ti, pois mostra sua intenção em permitir o “tornar-se
quem se é”.

Agradeço ao pai Ivan, pelos contratempos
mais preciosos de minha vida, verdadeiras jóias no corolário que compõe o
amadurecer de si próprio. E também sugiro, querido pai, que preste atenção
quando falo do último-homem: afasta-se dele, que do seu ocaso já está por
surgir o teu verdadeiro ser.

Agradeço à mãe Hilda, por ser sólida como
uma rocha, ao mesmo tempo em que é leve na eloqüência e nas relações humanas.
Estimada mãe, em tal condição está o fechamento do círculo da contradição entre
a gravidade e a leveza, e isso é só afirmar a própria vida.

Agradeço ao amigo Douglas, por ser
parceiro das mais altas experimentações da loucura que vem da natureza. O medo,
o susto, o desespero, ao mesmo tempo em que a vida é pulsar no mais alto grau,
e que a exuberância transbordante da natureza mostra-se infinita – a entrada
numa dessas portas da percepção. Aqueles momentos em que a “loucura-eterna”
parece triunfante e, de repente, tudo se encaixa, tudo faz sentido e do caos
surge uma nova ordem. Talvez seja isso o que os experimentadores possuem de
melhor: cada vez que experimentam a loucura organizam tudo numa nova ordem, num
novo entendimento da vida – e aí está a mais alta criação: o
criar-a-si-próprio.

Por fim, agradeço aos companheiros dessa
viagem – os primos, como dizia um amigo meu do Cabo Verde – que estão lá no
final, arrolados sob o título de “Referências Bibliográficas”.

SUMÁRIO

 

 

DEDICATÓRIA

AGRADECIMENTOS

RESUMO

ABSTRACT

1  INTRODUÇÃO

2 METODOLOGIA

3 GENEALOGIA DO ÓCIO

4 (DES)EDUCAÇÃO: A EDUCAÇÃO E EDUCAÇÃO FÍSICA PELO E
PARA O ÓCIO

5 INTERPRETAÇÕES DO SUPER-HOMEM: QUEM É ELE?

6 CONSIDERAÇÕES FINAIS

7 EPÍLOGO>

8 REFERENCIAL TEÓRICO


RESUMO

Através de uma perspectiva genealógica do
conhecimento que se preocupa com o valor e o sentido das coisas, buscou-se
experimentar o pensamento educacional, transvalorando-o por completo pelo
conceito de (des)educação. Tal proposta vem acompanhada de outras duas: a
transvaloração do ócio face à redução da valorização do trabalho, e a adoção do
Super-Homem – o homem superado por si próprio – como figura apropriada para
este novo paradigma educacional. No capítulo Genealogia do Ócio, discute-se como
se procedeu a mudança de sentidos do ócio ao longo da história e, adiante,
examinam-se os motivos do início da decadência da educação pelo e para o ócio
na Grécia trágica. Traça-se, a partir disso, um esboço de como fazer para
desconstruir a educação hoje existente, em favor da educação pelo e para o
ócio. O método genealógico, levado a uma experimentação diferente e nova,
coloca instrumentos variáveis na genealogia e investiga a noção de Super-Homem
– o que é e como pode ser interpretada no contexto pedagógico. No aspecto
normativo, a presente tese amarra o argumento com fortes nós – para aqueles que
tentem desatá-los, que falhem em sua própria ruína.

 

Palavras-chave:
Educação, Nietzsche, Super-Homem, Ócio, Educação Física.


ABSTRACT

 

 

 

Through a genealogical perspective of knowledge that
is concerned about the value and the meaning of things, sought is trying out
educational thought, transvaloranting it entirely by the concept of (un)
education. That proposal is accompanied by two others: the transvaloration of
idleness in the face of reduced valuation of the work, and the adoption of the
Super-Man, the man overtaken by itself, as appropriate figure for this new
educational paradigm. In Chapter Genealogy of idleness, discusses itself as if
it senses a change in the idleness throughout history and, later, examine the
reasons is the beginning of the decay of education by and for idleness in
Greece tragic. Mapping is, as appropriate, an outline of how to unmake
education exists today in favor of education by and for leisure. The method
pedigree, taken to a different and new experiments, puts instruments variables
in genealogy and investigates the concept of Super-Man – what is and how it can
be interpreted in the context teaching. In the normative aspect, the present
thesis moor the argument with strong us – for those who try unlace them, which
fail in their own ruin.

Keywords: Education, Nietzsche, Super-Man, Idleness, Physical Education.

 


1 INTRODUÇÃO

 

 

Quando Aristóteles escreveu, em sua obra
“Ética a Nicômaco”, que “trabalhamos para poder ter momentos de ócio” (2006, p.
229), ele acabou descrevendo e cunhando de forma universal a relação entre
trabalho e lazer, já que àquela época o ócio era o próprio lazer – encontramos
que “desde os primórdios da sociedade grega, os sentidos de lazer são atrelados
ao ócio” (WERNECK, 2000, p. 27). Como o trabalho é “a atividade correspondente
ao artificialismo da existência humana” (WERNECK, 2000, p. 25) e servia para
produzir somente o que era necessário e útil, e o lazer seria a libertação
desse modo de vida, a relação trabalho e lazer, possui, também, uma
inter-relação mais profunda e verdadeira – “a dialética necessidade-liberdade”
(WERNECK, 2000, p. 27).

Porém, na sociedade atual o ócio deixou
de ser o próprio lazer, através de um desvirtuamento. O raio que separou os
dois conceitos e fez com que surgisse a dimensão do “lazer
decadente/degenerado” na sociedade atual, foi a supervalorização do labor – e
com a tecnologia e a mecanização do tempo como conseqüências desse mesmo raio.

Conforme encontramos em Camargo (1998, p.
32), essa supervalorização do labor obteve seu auge “na nascente sociedade
industrial capitalista dos séculos XVIII e XIX, na qual a lógica era: produzir
cada vez mais e em menos tempo e custo possíveis, para, claro, gerar mais
lucros.” Essa lógica levou a uma exploração que beirou a escravidão, com
jornadas de trabalho que totalizavam mais de 4.000 horas/ano. Ainda segundo o
mesmo autor, graças à ação comum dos sindicatos de trabalhadores, aliada à pressão
dos movimentos sociais da época e, ainda, à evolução das ciências da gestão e
produtividade, iniciou-se um processo de diminuição da jo4rnada de trabalho.
Nesse ponto, cabe ressaltar que houve também um paralelo aumento no desemprego
– ou seja, na ociosidade -, tendo em vista o desenvolvimento tecnológico
ocorrido. A esse respeito, cabe diferenciar conceitualmente ócio e ociosidade:

Enquanto ócio significa uma opção
nos momentos de lazer; a segunda refere-se ao “nada fazer socialmente
produzido”, seja por meio da exploração em diferentes âmbitos, como acontecia
na sociedade grega; ou por meio da incapacidade do sistema produtivo de
absorver todo o seu potencial humano, como acontece hoje, por exemplo, com os
desempregados em nossa sociedade (MARCELLINO, 1987).

 

Voltando-se à discussão empregada por
Camargo (1998, p. 32), temos que hoje, no Brasil, a jornada de trabalho é de,
em média, 1.800 horas/ano; ao passo que na Europa é de, em média, 1.600
horas/ano. Consequentemente, um tempo livre praticamente inexistente no início
da revolução industrial vem crescendo gradativamente, chegando a 35
horas/semana no Brasil e, nos países desenvolvidos, já sendo maior que o tempo
de trabalho.

Esse tempo livre, pago pelo trabalho –
fato o qual Bramante (1998, p. 11) chama de “tempo conquistado” -, foi
basicamente ocupado com experiências de lazer, de modo que hoje tempo livre e
lazer são tido como sinônimos. Esse processo foi denominado de “revolução
científico-técnica” por Dumazedier. O ócio, neste contexto atual, é tido como
apenas mais uma forma de experiência de lazer, em que o tempo conquistado é
empregado numa atividade ociosa.

Para pensadores mais nefastos/trágicos,
como PIEPER (2004), o ócio simplesmente deixou de existir na sociedade atual.
Após uma exposição das três facetas do demônio da sobrevalorização do trabalho
– a sobrevalorização da atividade em geral, a sobrevalorização do esforço e do
difícil e a sobrevalorização da função social -, o autor revela:


Dirigindo o olhar, depois desta tríplice
sobrevalorização do trabalho, ao conceito "ócio", nota-se logo: neste
mundo do trabalho não há lugar para ele. Ele não é somente absurdo, mas
moralmente suspeitoso. E, de fato, aqui existe uma incompatibilidade absoluta.
A idéia do ócio é diametralmente oposta à idéia totalitária do
"trabalho" e isto sob os três aspectos dos quais falei (PIEPER,
2004).

 

Pois bem, voltando à afirmação de
Aristóteles, no qual claramente a dimensão do tempo de lazer/ócio é soberana
para a existência humana – comparando-se com a dimensão do tempo de trabalho –
e, tendo-se em vista as manifestações e formas decadentes de lazer que
enfrentamos na sociedade atual – resultado da imposição da indústria cultural,
no conceito dos filósofos da Escola de Frankfurt -, faz-se necessário o resgate
praxiológico da forma clássica e superior de lazer: o ócio.

Mas o que vem a ser o ócio?

Para os filósofos gregos, o ócio é a vida
contemplativa e, dessa forma, o caminho para obtenção da sabedoria, tão querida
na sociedade grega. Porém, essa vida contemplativa traduz-se, segundo
Aristóteles, num estado em que o indivíduo está livre da necessidade de
trabalhar. Um autor mais atual que abordou de forma interessante o conceito de
ócio, após revisão do conceito aristotélico, foi De Grazia (1966, p.4). Para
ele, o ócio é o “estado de estar livre da necessidade de estar ocupado”. A
ocupação é aqui uma atividade que persegue um fim, não sendo um fim em si
mesma, e sendo o trabalho considerada a ocupação mais simbólica existente. A
característica da atividade que é um fim em si mesma ficaria reservada ao ato
de fazer o que apetece, ou seja, o que sente desejo – aqui empregado no sentido
de “vontade”. Especificamente nesse estudo, a proposta é que essa vontade se
expresse na “tarefa magna do humano, para dignificar sua humanidade: não é se
autoconhecer, mas tornar-se o que se é” (ONATE, 2004, p.14) – sendo essa a
essência da vida. Dessa forma, o ócio é tido como uma atividade libertadora da
escravidão da humanidade: a necessidade de ocupar-se em atividades que não são e
não levam à essência da vida, ou seja, que não ajudam a tornar-se quem é.

“Para cumprir essa tarefa – ajudar cada
um dos indivíduos a tornar-se quem é – o humano deve converter-se em
Super-Homem” (ONATE, 2004, p. 14, adaptado). O ócio configura-se, nessa perspectiva,
como incentivo à existência de indivíduos contemplativos, criativos e
sentimentais. Contemplativos na medida em que identificam e interpretam os
sentidos e os valores da realidade – aqui manifesta como “vontades de potência
que se constituem e se desconstituem constantemente, sendo, dessa forma, tudo o
que existe” (SOUZA, 2006, p. 15). Criativos para que possam ter meios de
superar os limites – “ir além”, sentido latino de “super” – semânticos desses
valores e sentidos impostos pela própria humanidade a si mesma – permitindo o
desabrochar do Super-Homem nietzscheano. Isto porque:

O Super-Homem nietzscheano não é o
atleta da perfeita soberania sobre si, mas aquele que chega a um domínio
suficiente para ser criador; assim é o artista na posse de seus meios, ou a
criança, referência essencial em ‘Assim Falava Zaratustra[1]
(VALADIER, 2004, p. 6)

 

E sentimentais na medida em que os
sentimentos revelam a máxima expressão subjetiva de qualquer indivíduo, sendo
isso importante para que ele expresse toda a singularidade de sua existência.
Através desses indivíduos, e, somente através deles – os Super-Homens – é que
poderemos ter esperança de construir uma nova realidade no mundo, na medida em
que novas interpretações dos sentidos e valores consagrados pela tradição
ocidental surgirão, na freqüência diretamente proporcional ao número de
Super-Homens existentes.

Dessa forma, quanto mais destes tiverem
por aí, mais instável será o mundo, fruto de um “vir-a-ser” infinito provocado
por eles, substituindo a noção tradicional de “ser”. Isto ocorreria,
precisamente, conforme a interpretação da obra nietzscheana que se segue:

O sujeito unitário, idêntico,
simples, permanente, protótipo das demais ficções erigidas pela longa tradição
metafísica e cultural do ocidente, torna-se obsoleto perante as rigorosas
exigências de um pensamento que procura acolher sem restrições a plenitude e a
inocência do vir-a-ser (ONATE, 2004, p. 9).

 

E talvez aí exista um temor: o temor do
diabólico, que separa, divide, aparta. Mas o que não é visto é a potencialidade
do ser humano adentrar num novo conhecimento: a compreensão do infinito. E
somente numa humanidade que compreende o infinito é que o ócio poderá
manifestar-se de forma pura e real, incentivando a existência de mais Super-Homens,
que existirão “pelo e para” o ócio, criando-se uma espiral infinita de
conservação do ócio.

É interessante notar que esse infinito
poderá ter duas formas: partilhada ou unida – e tudo só depende de qual visão
pretende ter. Na verdade, o infinito possui e é as duas formas, como num
mosaico em que existem milhares de pequenas peças que formam um todo unido e
infinito; ou como na observação de uma sociedade constituída em nação, em que
existem milhões de indivíduos que formam um todo unificado em pátria; ou, até
mesmo, na contemplação de um ser vivo, constituído de bilhões de células
microscópicas que, unidas, dão vida e uniformidade ao mesmo.

Dessa forma, resta a delimitação do
problema em forma de pergunta norteadora desta pesquisa, coisa que faço abaixo:

De que forma a Educação e, especificamente a EDF,
podem contribuir na formação de indivíduos que dedicam seu tempo livre ao ócio?

A forma mais elementar de resgatar
praxiológicamente o ócio, e formar Super-Homens, é através da educação. Mas
como uma educação que, atualmente, possui o interesse na formação de pilhas
fornecedoras de energia para o sistema capitalista – a ironia é que ainda dizem
querer formar “cidadãos” – pode contribuir dando forma ao resgate do ócio? A
resposta a essa pergunta é a instauração de uma filosofia do inferno na
Educação, baseada toda ela na filosofia experimental do pensamento criada por
Nietzsche, e na qual temos que sua tarefa específica é:

Ser capaz de pensar o impensável, o
intratável, o impossível, o não-pensado do pensamento educacional. Embaralhar a
sintaxe e organizar o pensamento numa lógica ás avessas, constituindo-se como
um pensamento outro da Educação. Pensamento que ignora as verdades recebidas,
metamorfoseia o valor das opiniões estabelecidas, busca suspender e transvalorar
o valor de todos os valores herdados. Liberta-se do culto à totalidade,
transcendência, dialética, metafísica, humanismo, bem como dos casais de
tensões certo/errado, culpa/castigo, bem/mal, morte/vida. Foge do pensamento
único para tornar as singularidades possíveis, afirmar o múltiplo, multiplicar
os devires (CORAZZA, 2002, p. 31).

 

E a isso, soma-se, ainda, a
transdisciplinaridade, conceito que apresenta vantagem em relação ao conceito
da interdisciplinaridade, conforme temos abaixo:

Sabemos cada vez mais que as disciplinas se fecham e
não se comunicam umas com as outras. Os fenômenos são cada vez mais
fragmentados, e não se consegue conceber a sua unidade. É por isso que se diz
cada vez mais: “Façamos interdisciplinaridade”. Mas a interdisciplinaridade
controla tanto as disciplinas como a ONU controla as nações. Cada disciplina
pretende primeiro fazer reconhecer sua soberania territorial, e, à custa de
algumas magras trocas, as fronteiras confirmam-se em vez de se desmoronar.
Portanto, é preciso ir além, e aqui aparece o termo “transdisciplinaridade”
(MORAN, 2001, p. 135)

 

Tendo esses dois conceitos como
fundamentos desse formato de educação, parece ser possível essa transformação
profunda e elevada, simultaneamente – de uma formação técnica para o trabalho
mudar para uma formação para o ócio.

Nesse novo contexto, a Educação Física e
seu acervo de conhecimentos, podem contribuir com o resgate das vivências
lúdicas, numa expressão significativa de sentimentos naturais, estimulados
pelos sentidos. Nesse contexto, o lúdico é uma forma de “fruir a vida social,
marcada pela exaltação dos sentidos e das emoções” (RECHIA, 2004).

Mas por que através do lúdico e não de
outra forma?

Porque essa é a forma de Educação Física,
especificamente, que permite o desabrochar do Super-Homem nietzscheano.
Conforme citação anterior[2], o
Super-Homem é aquele que chega a “um domínio sobre si suficiente para ser
criador; assim é o artista na posse de seus meios, ou a criança”. Ora, se o
Super-Homem possui traços afins com as crianças – acrescento a inocência e a
alegria perante a tragédia da vida -, e se as crianças gostam de brincar,
imaginar e criar; temos que os Super-Homens gostam das mesmas atividades.
Portanto, nada mais adequado e coeren444te do que proporcionar vivências
lúdicas para esses indivíduos, já que essa é a forma de encarar a vida pelos
Super-Homens: como um jogo. Nesse sentido, o “pai da criatura” revela que: “não
conheço nenhuma outra maneira de se relacionar com grandes tarefas a não ser o
jogo: ele é, como indício de grandeza, um pressuposto fundamental” (NIETZSCHE,
2003, p. 67).

A presente pesquisa justifica-se por
tratar-se de uma alternativa a essa educação às avessas – em que forma-se para
o labor com um conjunto de técnicas coercitivas que destroem o senso crítico, a
manifestação criativa e a subjetividade dos indivíduos. Essa destruição e
deformação dos indivíduos na sociedade atual encontram ecos em episódios
depressivos cada vez mais freqüentes – que levam mais de 400 milhões de pessoas
a ter insônia todas as noites e pensarem em dar fim às próprias vidas durantes
todos os dias -, em pessoas que não possuem noção de seu próprio esquema
corporal e acabam por desenvolver anorexia, entre outras patologias. Além dessa
negação da vida, ainda temos a negação das condições necessárias à vida – como
exemplo disso, existe milhões de pessoas que passam fome no mundo, apesar da
quantidade de alimentos produzidos em escala global ser suficiente para suprir
essa necessidade.

A correção e aniquilação desse pesadelo
criado pelo próprio ser humano é a educação que visa formar o indivíduo
Super-Homem, ou seja, aquele que procura ir além-do-homem – “envolvendo-se na
exploração dos limites que o constituem e simultaneamente esperando pelo evento
de sua superação” (ONATE, 2004, p. 14). Esse tipo é composto por três
qualidades principais e fundamentais: contemplativa, criativa e sentimental.

Acreditamos que tentar localizar a EDF
nessa perspectiva filosófica e educacional, em quê seu conteúdo pode favorecer
e contribuir para a formação dos Super-Homens, parece ser interessante para o
futuro da área, encontrando uma verdadeira causa para a EDF e, também, sua
importância nesse cenário.

O objetivo geral dessa pesquisa é apontar caminhos
para o resgate praxiológico do ócio como experiência de lazer na sociedade
atual com a finalidade de formar o Super-Homem nietzscheano, através do acervo
de conhecimentos que compõem o conteúdo da Educação Física, bem como dos
conhecimentos que o nutrem – isso para não negar a característica transdisciplinar
do conhecimento.

Já os objetivos específicos, elenco abaixo, a serem
contemplados no decorrer da pesquisa:

·   
Delimitar o sentido e o valor do
conceito de ócio na contemporaneidade.

·   
Articular o conceito de Educação
e Educação Física pelo e para o ócio em

seus sentidos e valores.

·   
Considerar a formação do Super-Homem nietzscheano e sua importância para a Educação Física.

·   
Caracterizar o Super-Homem
nietzscheano, incluindo seus sentidos e valores.

·   
Analisar imagens à luz do referencial teórico explicitando
contradições, simi
laridades e
complementaridades.


[1] NIETZSCHE, F. Assim falava Zaratustra. São Paulo: Ed. Hemus,
2002.

[2] Na página 9 da Introdução da presente pesquisa.

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