A MORAL DOS IDEALISTAS – Introdução de “O Homem Medíocre” de José Ingenieros
O Homem Medíocre (1913)
José Ingenieros (1877-1925)
INTRODUÇÃO – A MORAL DOS IDEALISTAS
i. a emoção do ideal. — ii. de um idealismo com fundamento na experiência. — iii. os temperamentos idealistas. — iv. o idealismo romântico. — v. o idealismo estóico. — vi. símbolo.
I — A emoção do ideal
Quando orientas a proa visionária em direção a uma estrela, e desdobras as azas para atingir tal excelsitude inacessível, ansioso de perfeição rebelde à mediocridade, levas em ti o impulso misterioso de um Ideal. É áscua sagrada, capaz de te preparar para grandes ações. Cuida-a bem; se a deixares apagar, jamais êle se reacenderá. E se ela morrer em ti, ficarás inerte: fria bazófia humana.
Vives apenas devido a essa partícula de sonho que te sobrepõe ao real. Ela é o liz do teu brazão e penacho do teu temperamento. Signos inumeráveis a revelam: — quando se te aperta a garaganta, ao recordar a cicuta imposta a Sócrates, a cruz içada a Cristo, ou a fogueira acendida a Bruno; — quando te abstrais ao infinito, lendo um diálogo de Platão, um ensaio de Montaigne, ou um discurso de Helvétio; — quando o teu coração se estremece, ao pensar na sorte desigual dessas paixões, durante as quais foste, alternadamente, o Romeu de tal Julieta e o Werther de tal Carlota; — quando as tuas fontes se gelam de emoção, ao declamar uma estrofe de Musset, que rima de acordo com o teu sentir; — e quando, em suma, admiras a mente preclara dos genios, a sublime virtude dos santos, o magno feito dos heróis, inclinando-te, com igual veneração diante dos criadores da Verdade ou da Beleza.
Nem todos se extasiam, como tu, ante um crepúsculo, nem sonham ante uma aurora, nem vibram ante uma tempestade; nem todos gostam de passear com Dante, rir com Moliere, tremer com Shakespeare, crepitar com Wagner; nem todos emudecem diante do Davi, da Ceia ou do Partenão.
É dada a poucos essa inquietude de perseguir avidamente alguma quimera, venerando filósofos artistas e pensadores, que fundiram, em sínteses supremas, suas visões do sêr e da eternidade, voando para além do Real.
Os seres da tua estirpe, cuja imaginação se povoa de ideais e cujo sentimento polariza em direção a eles a personalidade inteira, formam uma raça aparte, na humanidade: — são idealistas.
Quem se sentir poeta, definindo sua própria emoção, poderá dizer: — o Ideal ó um impulso do espírito no sentido da perfeição.
II — De um idealismo com fundamento
Os filósofos do futuro, para se aproximarem de formas de expressão cada vez menos inexatas, deixarão aos poetas o famoso privilégio da linguagem figurada; e os sistemas futuros, desprendendo-se de remotos resíduos místicos e dialéticos, irão tomando a experiência como fundamento de toda hipótese legítima.
Não é afoiteza pensar que, na ética do porvir, florescerá um idealismo moral, independente de dogmas religiosos e de apriorismos metafísicos; os ideais da perfeição, fundados na experiência social, e evolutivos como ela própria, constituirão a íntima conexão de uma doutrina de perfetibilidade indefinida, propícia a todas as possibilidades da elevação humana.
Um ideal não é uma fórmula morta, senão uma hipótese perfectível; para que sirva, deve ser concebida assim, atuante em função da vida social, perpetuamente in fieri. A imaginação, partindo da experiência, antecipa juízos acerca de futuros aperfeiçoamentos; os ideais, em todas as crenças, representam o resultado mais alto da função de pensar.
A evolução humana é um esforço contínuo do homem para se adaptar à natureza, que evolue por sua vez. Para isso, é preciso conhecer a realidade ambiente e prever o sentido das próprias adaptações: os caminhos da sua perfeição. Suas etanas se refletem na mente humana, como ideais. Um homem, um grupo ou uma rara, são idealistas, porque circunstâncias propícias determínam que a imaginação conceba aperfeiçoamentos possíveis.
Os ideais são formaeões naturais. Aparecem quando a função de pensar atinge um grau de desenvolvimento tal. que a imaginarão pode antecipar-se à experiência. Não são entidades misteriosamente infundidas nos homens, nem nascem do acaso. Formam-se, como todos os fenômenos acessíveis à nossa observarão. São efeitos de causas, acidentes na evolução universal, investigada pelas ciências e resumida pelas filosofias. E ó fácil explicá-lo. quando se compreende.
O nosso sistema solar é um ponto no cosmos; esse ponto é um simples pormenor do planeta que habitamos; nesse pormenor, a vida é um transitório equilíbrio químico da superfície; entre as complicações desse equilíbrio vivente, a espécie humana data de um período brevíssimo; no homem se desenvolve a função de pensar, como um aperfeiçoamento da adaptação ao meio; uma das suas modalidades, é a imaginação, que permite generalizar os dados da Experiência, antecipando seus resultados possíveis e abstraindo, dela, ideais de perfeição.
Assim, a história do futuro, ao invés de negá-los, permitirá afirmar a sua realidade como aspectos legítimos da função de pensar, e os reintegrará na concepção natural do universo. Um ideal é um ponto e um momento, em meio dos infinitos possíveis que povoam o espaço e o tempo.
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Evoluir é variar. Na evolução humana o pensamento varia incessantemente. Toda variação é adquirida por temperamentos predispostos; as variações úteis tendem a conservar-se. A Experiência determina a formação natural dos conceitos genéricos, cada vez mais sinóticos; deste, a imaginação abstrai certos caracteres comuns, elaborando idéias gerais que podem ser hipóteses acerca do fieri incessante: assim se formam os ideais, que, para o homem, são normativos da conduta, de conformidade com suas hipóteses. Eles não são apriorísticos, sinão induzidos de uma vasta experiência; sobre esta se inclina a imaginação, para prever o sentido em que a Humanidade varia. Todo ideal representa um novo estado de equilíbrio entre o passado e o futuro.
Os ideais podem não ser verdades: são crenças. Sua força se estriba em seus elementos afetivos; influem sobre nossa conduta, na medida em que neles cremos. Por isso, a representação abstrata das variações futuras, adquire um valor moral: as mais proveitosas para a espécie, são concebidas como aperfeiçoamentos. O Futuro se identifica com o perfeito. E, os ideais, por serem visões antecipadas do vindouro, influem sobre a conduta, e são instrumento natural de todo o progresso humano.
Enquanto a instrução se limita a dilatar as noções que a experiência atual considera mais exatas, a educação consiste em sugerir os ideais que se presumem propícios à perfeição .
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O conceito do melhor é um resultado natural da própria evolução. A vida tende, naturalmente, a aperfeiçoar-se. Aristóteles ensinava que a atividade é um movimento do sêr em direção à própria "entelequia": seu estado de perfeição.
Tudo o que existe, procura a sua "entelequia", e essa tendência se reflete na mente dos seres imaginativos .
Como acontece a todas as outras funções do espírito, a formação de ideais está submetida a um determinismo que, por ser complexo, não é menos absoluto. Não são obra de uma liberdade que escapa às leis do todo universal, nem produtos de uma razão pura que ninguém conhece. São crenças aproximativas- acerca da perfeição vindoura. O futuro é o melhor do presente, posto que sobrevive na seleção natural; os ideais são arremesso no sentido do melhor, enquanto simples antecipações do vir-a-ser.
À medida que a experiência humana se amplia, observando a realidade, os ideais vão sendo modificados pela imaginação, que é plástica e jamais repousa. Experiência e imaginação seguem caminhos paralelos, muito embora aquela se atraze em relação a esta. A hipótese vôa, o feito caminha; às vezes tem a aza má direção; os pés pisa sempre em terra firme; mas o vôo pode ser retificado, enquanto que o passo nunca pode voar.
A imaginação é mãe de toda originalidade; deformando o real, no sentido da sua perfeição, ela cria os ideais, dando-lhe impulso, com o ilusório sentimento da
liberdade; o livre arbítrio é erro útil para a gestação dos ideais. Porisso, tem praticamente o valor de uma realidade. Demonstrar que é simples ilusão devida à ignorância de causas inúmeras, não implica na negação da sua eficácia.
As ilusões têm tanto valor, para dirigir a conduta, como as verdades mais exatas; podem valer mais do que elas, quando intensamente pensadas ou sentidas.
O desejo de ser livre nasce do contraste entre dois móveis irredutíveis: a tendéncia a perseverar no sêr, implícita na herança, e a tendência a aumentar o sêr, implícita na variação. Uma é princípio de estabilidade, outra, de progresso.
Em todo ideal, seja qual fôr a ordem a cujo aperfeiçoamento, tenda, há um princípio de síntese e de continuidade: "É idéia fixa, ou emoção fixa".
Como propulsores da atividade humana, equivalem-se e se implicam reciprocamente, muito embora predomine o raciocínio na primeira, e a paixão na segunda.
"Esse princípio de unidade, centro de atração e ponto de apoio de todo trabalho da imaginação criadora, isto é, de uma síntese subjetiva que tende a objetivar-se, é o ideal", disse Ribot.
A imaginação despe a realidade de tudo o que é máu, adornando-a de tudo o que é bom, depurando a Experiência e cristal izando-a nos moldes de perfeição que concebe como sendo os mais puros. Os ideais são, portanto, preconstruções imaginativas da realidade que virá a ser.
São sempre individuais. Um ideal coletivo é a coincidência do muitos indivíduos num mesmo afã de perfeição. Não é dizer que uma "idéia" os unifique, e, sim, que uma análoga maneira de sentir e de pensar converge todos eles para um "ideal" comum. Cada éra, século ou geração pode ter seu ideal; só ser patrimônio de uma seleta minoria, cujo esforço consegue impô-lo às gerações seguintes. Cada ideal pode incarnar-se num gênio; a princípio, enquanto êle o define ou plasma, só é compreendido pelo pequeno núcleo de espíritos sensíveis ao ritmo da nova crença.
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O conceito abstrato de uma perfeição possível, recebe sua força da Verdade que os homens lhe atribuem; todo ideal é uma fé na própria possibilidade da perfeição. No seu protesto involuntário contra o mal, sempre se revela uma indestrutível esperança no melhor; na sua agressão contra o passado, fermenta uma sadia levedura do porvir.
Não é um fim, sinão um caminho. É sempre relativo, como toda crença. A intensidade, com que tende a realizar-se, não depende da sua verdade efetiva, e, sim, da que se lhe atribue. Ainda quando interpreta erroneamente a sua verdade ou na sua excelsitude.
Reduzir o idealismo a um dogma de escola metafísica, equivale a castrá-lo; denominar idealismo às fantasias de mentes enfermiças ou ignorantes, que crêem sublimar, assim, a sua incapacidade de viver e de se ilustrar, é uma das tantas ligeirezas aventadas pelos espíritos palavreiros.
Os mais vulgares dicionários filosóficos alimentam suspeitas em relação a este embuste deliberado: "Idealismo; palavra muito vaga, que não deve ser empregada sem prévia explicação".
Há tantos idealismos como ideais e tantos ideais como idealistas; tantos idealistas como homens aptos para conceber perfeições e capazes de viver no senti-do delas.
Deve recusar-se o monopólio dos ideais a todos quantos o reclamam em nome de escolas filosóficas, sistemas de moral, credos de religião, fanatismos de seitas, ou dogmas de estética.
O "Idealismo" não é privilégio das doutrinas espiritualistas, que desejariam opô-lo ao "materialismo", denominando, assim pejorativamente, todas as outras; esse equívoco, não explorado pelos inimigos das ciências — temidas justamente como fontanários de Verdade e de Liberdade — duplica-se ao sugerir que a matéria é a síntese da idéia, depois de confundir o ideal com idéia e esta com o espírito, como entidade transcendente e alheia ao mundo real. Tratava-se, visivelmente, de um jogo de palavras, secularmente repetido pelos seus beneficiários, que emprestam às doutrinas filosóficas o sentido que têm os vocábulos "idealismo" e "materialismo", na ordem moral. O anelo de perfeição, no conhecimento da verdade, pode animar, com igual ímpeto, o filósofo monista e o dualista, o teólogo e o ateu, o estóico e o pragmatista. O ideal particular de cada um concorre ao ritmo total da perfeição possível, ao invés de obter o esforço similar dos demais.
E é mais mesquinha, ainda, a tendência a confundir o idealismo que se refere aos ideais, com as tendências metafísicas, que assim se denominam, pela razão de considerarem as "idéias" mais reais do que a própria realidade, ou pressuporem que elas são a realidade única, forjada pela nossa mente, como no sistema hegeliano.
"Ideólogos" não pode ser sinônimo de "Idealistas", embora o mau vezo induza a crer que assim seja. Nem poderíamos restringí-lo ao pretendido idealismo de certas escolas estéticas, porque todas as modalidades do naturalismo e do realismo podem constituir um ideal de arte, quando são seu sacerdotes Miguel Ângelo, Ti-ciano, Flaubert ou Wagner; o esforço imaginativo dos que buscam uma ideal harmonia de ritmos, de cores, de linhas ou de sons, se equivale, sempre que a sua obra revele uma atitude de beleza ou uma personalidade original.
Não o confundiremos, enfim, com certo idealismo ético, que tende a monopolizar o culto da perfeição em favor de alguém dos fanatismos religiosos predominantes em cada época, pois, além de não existir um único e inevitável, Bem ideal, dificilmente êle caberia nos catecismos para mente obtusas. O esforço individual no sentido da virtude, pede ser tão magnificamente concebido e realizado pelo peripatético, como pelo cirenáico, pelo cristão, como pelo anarquista, pelo filantropo como pelo epicureu, pois todas as teorias filosóficas, são igualmente compatíveis com a aspiração individual no sentido do aperfeiçoamento humano. Todos eles podem ser idealistas, quando sabem iluminar-se em sua doutrina, e em todas as doutrinas podem albergar-se os dignos e os parasitas, os virtuosos e os sem vergonha. O anelo e a possibilidade da perfeição não são patrimônio de nenhum credo: recordam a água daquela fonte, citada por Platão, que se não podia conter em nenhum vaso.
A Experiência, e só ela, decide na legitimidade dos ideais em cada tempo e lugar. No curso da vida social, selecionam-se naturalmente; sobrevivem os mais adaptados, os que melhor prevêem o sentido da evolução, isto é, os coincidentes com o aperfeiçoamento efetivo.
Enquanto a Experiência não dá o seu veredicto, todo ideal é respeitável, embora pareça absurdo. E é útil, por sua força de contraste. Se é falso, morre por si, não causa dano.
Todo ideal, por ser uma crença, pode conter uma parte de erro, ou ser errado totalmente; é uma visão remota e, portanto, exposta a ser inexata. O único mal â carecer de ideais e escravizar-se às contingências da vida prática imediata, renunciando à possibilidade da perfeição moral.
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Quando um filósofo enuncia ideais, para o homem ou para a sociedade, a compreensão imediata deles é tanto mais difícil, quanto mais se elevam sobre os prejuízos e palavreados convencionais do ambiente que o rodeia; o mesmo acontece com a verdade do sábio e com o estilo do poeta.
A sanção alheia é fácil para o que concorda com rotinas secularmente praticadas; é difícil, quando a imaginação põe maior originalidade no conceito ou na forma.
Esse desequilíbrio, entre a perfeição concebível e a realidade praticável, se estriba na própria natureza da imaginação, rebelde ao tempo e ao espaço. Desse contraste legítimo, não se infere que os ideais lógicos, estéticos ou morais, devam ser contraditórios entre si, embora sejam heterogêneos e marquem passo em ritmo desigual, segundo os tempos: não há uma Verdade amoral ou feia, nem nunca foi a Beleza absurda ou nociva, nem o Bom teve suas raízes no erro ou na desarmonia. Do contrário, conceberíamos perfeições imperfeitas.
São convergentes os caminhos de perfeição. As formas infinitas do ideal são complementares; jamais contraditórias, embora pareçam. Si o ideal da ciência é a Verdade, da moral o Bem, e da arte a Beleza, formas proeminentes de toda excelsitude, não se concebe que possam ser antagônicas.
Os ideais estão em perpétuo vir-a-ser, como as formas da realidade, às quais se antecipam. A imaginação os constrói observando a natureza, como um resultado da Experiência; mas, uma vez formados, já não estão nela, são antecipações dela, vivem sobre ela, para assinalar o seu futuro. E, quando a realidade evolui no sentido de um ideal previsto, a imaginação se aparta novamente da realidade, dela afasta o ideal.
A realidade nunca pode igualar o sonho, nessa perpétua busca da quimera.
O ideal é um "limite": toda realidade é uma "dimensão variável", que se lhe pode aproximar indefinidamente, sem alcançá-la nunca. Por muito que o "variável" se aproxime do seu "limite", concebe-se que poderia aproximar-se ainda mais; só se confundem no infinito. Todo o ideal é sempre relativo a uma imperfeita realidade presente. Não há ideal absoluto. Afirmá-lo implicaria na abjuração da sua própria essência, negando a possibilidade infinita da perfeição. Erravam os velhos moralistas cuidando que, ao ponto onde estava o seu espírito, nesse momento, convergiam todo o espaço e todo o tempo; para a ética moderna, livre dessa grave falácia, a relatividade dos ideais é um postulado fundamental. Só possuem um caráter comum: a permanente transformação no sentido de aperfeiçoamentos ilimitados.
Toda moral alicerçada em superstições e dogmatismos, é própria de mentes primitivas. E é contrária a todo idealismo, além de excluir todo ideal. A cada momento e em cada lugar, a realidade varia; com essa variação, desloca-se o ponto de referência dos ideais. Nascem e morrem, convergem ou se excluem, empalidecem ou se acentuam; são, também eles, viventes como os cérebros em que germinam ou se radicam, num processo sem fim. Não havendo um padrão final e in superável de perfeição, também não há dois ideais hu mamos. Formam-se por mudança incessante; evoluem sempre; sua palingenésia é eterna.
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Essa evolução dos ideais não segue um ritmo uni forme, no curso da vida social ou individual. Há climas morais, horas, momentos, em que toda uma raça, um povo, uma classe, um partido, uma ceita, concebe um ideal e se esforça no sentido da sua realização. E os há na evolução de cada homem, isoladamente considerado.
Há também climas, horas e momentos em que os ideais murmuram apenas, ou se calam; a realidade oferece imediatas satisfações aos apetites, e a tentação da saciedade sufoca toda ânsia de perfeição.
Cada época tem certos ideais que pressentem melhor o porvir, entrevistos por poucos, seguidos pelo povo ou sufocados pela sua indiferença, ora predestinados a orientá-lo como pólos magnéticos, ou a ficar latentes, até encontrarem a glória, em momento e clima propícios. E outros ideais morrem, porque são crenças falsas: ilusões que o homem forja a respeito de si mesmo, ou quimeras verbais que os ignorantes perseguem, tateando na sombra.
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Sem ideais, seria inexplicável a evolução humana. Sempre existiram e existirão sempre. Palpitam atrás de todo esforço magnífico realizado por um homem ou por um povo. São faróis sucessivos na evolução mental dos indivíduos, bem como das raças. A imaginação os acende, ultrapassando continuadamente a Experiência, antecipando-se aos seus resultados. Essa é a lei do vir-a-ser humano: os acontecimentos destituídos de significação, de per si, para a mente humana, recebem vida e calor dos ideais, sem cuja influência jazeriam inertes, e os séculos seriam mudos. Os feitos são pontos de partida: os ideais são faróis luminosos que, de trecho em trecho, iluminam a rota. A história da civilização mostra uma infinita inquietude de perfeições, que os grandes homens pressentem, anunciam ou simbolizam. À frente desses arautos, em cada momento da peregrinação humana, adverte-se uma força que obstroi todas as sendas: a mediocridade, que é uma incapacidade de ideais.
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Assim concebido, convém reintegrar o idealismo em toda filosofia científica. Talvez pareça estranho aos que usam palavras sem definir o seu sentido, bem como aos que temem complicações nas logomaquias dos verbalistas.
Definido com clareza, separado de suas maldades seculares, será sempre o privilégio de todos quanto honram, por sua virtude, a espécie humana.
Como doutrina de perfectibilidade, superior a toda imaginação dogmática o idealismo ganhará, certamente. Tergiversando pelos míopes e pelos fanáticos, rebaixa-se. Eram os que olham o passado, determinando rumos em direção a prejuízos mortos e vestindo o idealismo com andrajos que são a sua mortalha; os ideais vivem na Verdade, que se vai fazendo; nem pode ser vital aquele que o contradiga quanto ao tempo. É cegueira opôr a imaginação do futuro à experiência do precedente, o Ideal à Verdade, como se fosse conveniente apagar as luzes do caminho, para não se desviar da meta. É falso: a imaginação e a experiência marcham de mãos dadas. Sòsinhas, não andam.
Ao idealismo dogmático, que os antigos metafísicos colocaram nas "idéias" absolutas e apriorísticas, opomos um idealismo experimental, que se refere aos "ideais" de perfeição, incessantemente renovados, plásticos, volutivos, como a própria vida.
III — Os temperamentos idealistas
Nenhum Dante poderia elevar Gil Blas, Sancho e Tartufo até o rincão do seu paraíso, onde moram Cyrano, Quixote e Stockmann. São dois mundos morais, duas raças, dois temperamentos: Sombras e Homens. Seres desiguais não podem pensar de maneira igual. Haverá sempre um contraste evidente entre o servilismo e a dignidade, a necessidade e o engenho, a hipocrisia e a virtude. A imaginação dará, a uns, o impulso original, no sentido do perfeito; a imitação organizará, nos outros, os hábitos coletivos. Sempre haverá, por força, idealistas e medíocres.
O aperfeiçoamento humano se efetua com um ritmo diferente nas sociedades e nos indivíduos. A maioria possue uma experiência submissa ao passado: rotinas, preconceitos, domesticidades. Poucos eleitos variam, avançando para o porvir; ao contrário do Anteu, que tocando a terra, recebia novo alento, os poucos eleitos o buscam cravando suas pupilas em constelações longínquas, e, na aparência, inacessíveis. Esses homens predispostos a se emanciparem do seu rebanho, procurando alguma perfeição mais para além do atual, são "idealistas".
A unidade do gênero não depende do conteúdo intrínseco dos seus ideais, e, sim, do seu temperamento; a gente é idealista perseguindo as quimeras mais contraditórias, sempre que elas impliquem um sincero afã de elevação qualquer. Os espíritos convulsionados por algum ideal, são inimigos da mediocridade: sonhadores contra os utilitários, entusiastas contra os apáticos, generosos com os calculadores, indisciplinados contra os dogmáticos.
São alguém, ou alguma cousa, contra os que não são ninguém, nem cousa alguma. Todo idealista é homem qualitativo; possue um sentido das diferenças que lhe permite distinguir, entre o mau, que observa, e o melhor, que imagina. Os homens sem ideais são quantitativos; podem apreciar o mais ou menos, mas nunca distinguem o melhor do pior.
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Sem idealistas, seria inconcebível o progresso. O culto do "homem prático", limitado às contingências do presente, importa numa renúncia a toda perfeição. O hábito organiza a rotina, e nada cria no sentido do porvir; só dos imaginativos é que a ciência espera as suas hipóteses, a arte, o seu vôo, a moral, os seus exemplos, a história as suas páginas luminosas. São a parte viva e dinâmica da humanidade; os práticos nada mais fizeram do que aproveitar do seu esforço, vegetando na sombra. Todo porvir tem sido uma criação dos homens capazes de o pressentir, concretizando-o numa infinita sucessão de ideais. A imaginação, construindo sem tréguas, fez mais do que o cálculo, destruindo sem descanso. A excessiva prudência dos medíocres paralizou sempre as iniciativas mais fecundas. E isto não quer dizer que a imaginação exclua a experiência: esta é útil, mas, sem aquela, é estéril. Os idealistas aspiram conjugar, em sua mente, a inspiração e a sabedoria; por isso, com frequência, vivem peados por seu espírito crítico, quando os entusiasma uma emoção lírica, e esta lhes empana a vista quando observam a realidade. Do equilíbrio entre a inspiração e a sabedoria, nasce o gênio. Nas grandes horas, de uma raça ou de um homem,
a inspiração é indispensável para criar; essa faísca se acende na imaginação, e a experiência a converte em fogueira. Todo idealismo é, por isso, uma ânsia de cul-tura intensa: tem, entre os seus inimigos mais audazes, a ignorância, madrasta de obstinadas rotinas.
A humanidade não chega até onde querem os idea-listas, em cada perfeição particular; contudo, sempre chega mais além de onde teria ido sem o seu esforço. Um objetivo que foge diante deles, converte-se em est ímulo para perseguir novas quimeras. O pouco que todos podem, depende do muito que alguns anhelam. A humanidade n ão possuiria seus bens presentes, se alguns idealistas não tivessem conquistado, vivendo com a obsidente aspiração a outros melhores.
Na evolução humana, os ideais se mantêm em equilíbrio instável. Todo melhoramento real é recebido de tentativas e ensaios de pensadores audazes, postos em tensão no sentido dele, rebeldes ao passado, embora sem a intensidade necessária para violá-lo; essa luta é um refluxo perpétuo entre o mais concebido e o menos realizado. Porisso, os idealistas são forçosamente inquietos, com tudo o que vive, como a própria vida: contra a tendência pacífica dos rotineiros, cuja estabilidade parece inércia de morte. Essa inquietude se exacerba nos grandes homens, nos próprios gênios, se o meio é hostil às suas quimeras, como acontece freqüentemente. Não agita os homens sem ideais, informe argamassa da humanidade.
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Toda juventude é inquieta. Só dela é que se pode esperar o impulso no sentido do melhor: jamais dos bolorentos e dos senis. E só é juventude, sadia e iluminada, aquela que olha para a frente e não para trás; nunca os decrépitos de poucos anos, prematuramente domesticados pelas superstições do passado.
O que, nestes, parece primavera, é tibieza outonal, ilusão de aurora que já é amortecimento de crepúsculo. Só há juventude nos que, com entusiasmo, trabalham para o porvir; por isso, nos caracteres excelentes, pode persistir e sobrepujar a acumulação dos anos.
Nada se deve esperar dos homens que entram na vida sem se entusiasmarem por algum ideal; aos que nunca foram jovens, parece desvairado todo sonho. Não se nasce jovem; é preciso adquirir a juventude. E, sem ideal, não é possível adquirí-la.
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Os idealistas soem ser esquivos ou rebeldes aos dogmatismos sociais que os oprimem. Resistem à tirania da engrenagem niveladora, aborrecem toda coação, sentem o peso das honrarias com que se tenta domesticá-los, e torná-los cúmplice dos interesses criados, dóceis, maleáveis, solidários, uniformes, na comum mediocridade. As forças conservadoras, que compõem o subsolo social, pretendem amalgamar os indivíduos, deca-pitando-os: detestam as diferenças, aborrecem as exceções, anatematizam aquele que se aparta, em busca da própria personalidade.
O original, o imaginativo, o criador, não teme ódios; desafia-os, mesmo sabendo que são terríveis, porque são irresponsáveis. Por isso, todo idealista é uma vivente afirmação de individualismo, muito embora ande em busca de uma quimera social: pode viver para os outros, nunca dos outros. Sua independência é uma reação hostil a todos os dogmáticos. Concebendo-se incessantemente perfectíveis, os temperamentos idealistas querem dizer, em todos os momentos de sua vida, como (Quixote: "eu sei quem sou!".
Vivem animados por esta ânsia afirmativa. Cifram a sua ventura suprema e a sua perpétua desgraça nos seus ideais. Nestes, purificam a paixão que anima a sua té; esta, ao ir de encontro à realidade social, pode parecer desprezo, isolamento, misantropia: a clássica "torre de marfim", exprobada em todos quantos se eriçam ao contacto dos obtusos.
Dir-se-ia que Teresa de Ávila deixou escrita a eter-na imagem deles:
"Gúsanos de seda somos nós, pequeninos gusanos que fiamos a seda de nossas vidas; e no pequenino casulo de seda nos encerramos para que o gusano morra e do casulo sáia voando a mariposa".
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Todo idealista é exagerado; precisa sê-lo. E deve ser quente a sua linguagem, como se a personalidade se transvasasse sobre o impessoal; o pensamento sem calor é morto, frio, carece ae estilo, não tem cunho ca-racterizador. Nunca foram débeis os gênios, os santos e os heróis. Para criar uma partícula de Verdade, de Virtude, de Beleza, é mister um esforço original e violento, contra alguma rotina ou preconceito; da mesma forma que, para dar uma lição de dignidade, é necessário deslocar algum servilismo.
Todo ideal é, instintivamente, extremoso. Deve sê-lo com conciencia, se fôr preciso, por logo se rebaixa ao incidir na mediocridade da maioria.
Diante dos hipócritas, que mentem, tendo em vista objetivos vis, o exagero dos idealistas é, apenas urna verdade apaixonada. A paixão é o seu atributo necessário, mesmo quando parece desviar-se da verdade; conduz à hipérbole, ao erro, até; nunca, à mentira.
Nenhum ideal é falso, para quem o professa; este o crê verdadeiro, e coopera em prol do seu advento, com fé, com desinteresse. O sábio procura a Verdade, pelo gosto de a procurar, e tem prazer em arrancar à natureza segredos para êle inúteis ou perigosos. E o artista procura também a sua, porque a Beleza é uma verdade animada pela imaginação, mais do que pela experiência. E o moralista a persegue no Bem, que é uma reta lealdade da conduta para consigo mesmo e para com os outros. Ter um ideal, é servir à sua própria Verdade. Sempre.
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Alguns ideais se revelam como paixão combativa» e outros com pertinaz obsessão; de igual maneira, distinguem-se dois tipos de idealistas, de acordo com o que neles predomina: o cérebro ou o coração. O idealismo sentimental é romântico: a imaginação não é inibida pela crítica, e os ideais vivem de sentimento. No idealismo experimental, os ritmos afetivos são veiculados pela experiência, e a crítica coordena a imaginação: os ideais tornam-se reflexivos e serenos. O primeiro é adolescente, cresce, faz esforços, luta; o segundo é adulto, fixa-se resiste, vence.
O idealista perfeito seria romântico aos vinte anos, e, estóico aos cinquenta; é tão anormal o estoicismo na juventude, como o romantismo na idade madura.
O que, a princípio, inflama a sua paixão, deve cristalizar-se depois, em suprema dignidade: essa é a lógica do seu temperamento.
IV — O idealismo romântico
Os idealistas românticos são exagerados, porque o insaciáveis. Sonham o mais, para realizar o menos; compreendem que todos os ideais contêm uma partícula de utopia, e perdem alguma coisa, quando se realizam: de raças ou indivíduos, nunca se integram como se pensam. Em poucas coisas o homem pode chegar ao Ideal que a imaginação assinala; sua glória está em mar-char na direção dele, sempre inatingido e inatingível.
Depois de iluminar o seu espírito com todos os respendores da cultura humana, Goethe morre pedin-do mais luz; e Musset quer amar incessantemente depois de ter amado, oferecendo a sua vida por uma caricia, e o seu gênio por um beijo, Todos os românticos parece que perguntam a si próprios, como o poeta:
"Por que não é infinito o poder humano, como o desejo?"
Têm uma curiosidade de mil olhos, sempre alerta, para não perder a mais imperceptível titilação do mundo que a solicita. Sua sensibilidade é aguda, plural, caprichosa, artista, como se os nervos tivessem centuplicado a sua impressionabilidade. Seu gesto segue prontamente o caminho das inclina ções nativas; entre dez partidos, adotam aquele sublinhado pelo latejar mais intenso do seu coração. São dionisíacos. Suas aspirações se traduzem por esforços ativos sobre o meio social, ou por uma hostilidade contra tudo o que se opõe aos seus impulsos do coração e aos seus sonhos. Constituem seus ideais sem conceber nada à realidade, recusando-se à fiscalizarão da experiência, agredindo-a, si ela os contraria. São ingênuos e sensíveis, fáceis de se comoverem, acessíveis ao entusiasmo e à ternura; com essa ingenuidade sem dobrez, que os homens práticos ignoram. Um minuto lhes basta para decidir toda uma vida. Seu ideal se cristaliza em firmezas inequívocas, quando a realidade os fere com mais crueldade.
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Todo romântico está por Quixote contra Sancho, por Cyrano contra Tartufo, por Stokmann contra Gil Blas: por qualquer ideal contra toda mediocridade. Prefere a flor ao fruto, pressentindo que este não poderia existir, jamais, sem aquela. Os temperamentos acomodaticios sabem que a vida norteada pelo interesse abunda em proveitos materiais; os românticos crêem que a sunrema dignidade se enclausura no sonho e na paixão. Para eles, um beijo de tal mulher vale mais do que cem tesouros de Golconda.
Sua eloqüência está no coração: dispõem essas razões que a razão ignora, como dizia Pascal. Nelas se estriba o encanto irresistível dos Musset e dos Byron; sua tempestuosidade apaixonada nos estremece, nos sufoca, como se uma garra apertasse o nosso pescoço; faz sobressaltar as veias, humedece as pálpebras, entrecorta a respiração. Suas heroínas e seus protagonistas povoam as insónias juvenis, como se eles as tivessem descrito com vara mágica molhada no cálice de poetisa grega; Safo, por exemplo, a mais lírica. Seu estilo é de luz e de côr, sempre inflamando, queimando às vezes. Escrevem como falam os temperamentos apaixonados, com essa eloqüência das vozes enrouquecidas por um desejo ou por um excesso, essa "você é calda que enlouquece as mulheres finas, e faz um Dom Juan de cada amante romântico. São eles os aristocratas do amor; com eles sonham todas as Julietas e Isoldas. inutilmente conspiram contra eles as embuçadas hipocrisias mundanas: os espíritos sáfios desejariam inventar uma balança para pesar a utilidade imediata de suas inclinações. Como não a possuem, renunciam a adotá-las.
O homem incapaz de alimentar nobres paixões, foge do amor. como se fosse um abismo; ignora que o amor acrisola todas as virtudes, e é o mais eficaz dos mora-listas. Vive e morre sem ter aprendido a amar. Ridiculariza este sentimento, guiando-se pelas sugestões de sordidas conveniências. Os outros é que lhe elegem primeiro as namoradas, e lhe impõem, depois, a esposa. Pouco lhe importa a fidelidade das primeiras, enquanto lhe servem de adorno; nunca exige inteligência na outra, se fôr um degrau no seu mundo. Seu amor se in-cuba na tibieza do critério alheio. Musset parece-lhe pouco sério, e acha que Byron é infernal; queimaria George Sand, e a própria Teresa de Ávila parecer-lhe-ia um pouco exagerada. Persigna-se, se alguém supõe que Cristo pode amar a pecadora Madalena. Crê firmemente que Werther, Jocelyn, Mimi, Rola e Manon são símbolos do mal, criados pela imaginação de artistas en-fermos. Aborrece a paixão profunda e sentida; detesta os romanticismos sentimentais. Prefere a compra tranqüila, à conquista comprometedora. Ignora as supremas virtudes do amor, que é sonho, anelo, perigo, toda a imaginação concorrendo para o embelezamento do instinto, e não simples vertigem brutal dos sentidos.
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Nas épocas de depressão, quando a mediocridade está no seu apogeu, os idealistas se enfileiram contra os dogmatismos sociais, seja qual fôr o regime dominante. Algumas vezes, em nome do romanticismo político, agitam um ideal democrático e humano. Seu amor, todos os que sofrem, é justa animosidade contra os que oprimem a sua própria individualidade. Dir-se-ia que chegam até a amar as vítimas, para protestar contra o verdugo indigno; mas ficam sempre fora de toda hoste, sabendo que nela se pode incubar uma canga para o porvir.
Em tudo o que é perceptível, cabe um romantismo; sua orientação varia com os tempos e com as inclinações. Há épocas em que mais floresce, como nas horas de reação que se seguiram à arrancada libertária da revolução francesa. Alguns românticos jugúlam-se providenciais, e a sua imaginação se revela por um misticismo construtivo, como em Furier e Lamennais, precedidos por Rousseau, que foi um Marx calvinista, e seguidos por Marx, que foi um Rosseau judeu. Em outroi, o lirismo tende, como em Byron e em Ruskin, a converter-se em religião estética. Em Mazzini e em Koussouth, toma côr política. Fala em tom profético, e transcende pela boca de Lamartine e de Hugo. Em Stendhal, acossa com ironia os dogmatismos sociais, e, em Vigny, desdenha-os, amargamente. Queixa-se de Mus-set e se desespera com Amiel. Fustiga a mediocridade com Flaubert e Barbey d’Aurevilly. E, em outros, converte-se em rebelião aberta, contra tudo que dimi-nue e domestica o indivíduo, com Emerson, Etirner, Guayau, Ibsen ou Nietzsche.
V — O idealismo estóico
As rebeldías românticas são embotadas pela experiência; esta refreia muitas impetuosidades falazes, e dá aos ideais uma firmeza sólida. As lições da realidade não matam o idealista: educam-no. Sua ânsia de perfeição se toma mais centrípeta e digna, busca os caminhos propícios, aprende a passar por cima das ciladas que a mediocridade arma.
Quando a força das coisas se sobrepõe à sua inquietude pessoal, e os dogmáticos sociais coíbem seus esforços no sentido de as corrigir, o seu idealismo se torna experimental. Não pode sujeitar a realidade aos seus ideais, mas os defende contra ela, procurando isentá-lo de toda diminuição ou envilecimento. O que antes se projetava para fora, polariza-se no próprio esforço, in-terioriza-se.
"Uma grande vida — escreveu Vigny — é um Ideal da juventude realizado na idade madura".
É inerente à primeira a alusão de impor seus sonhos, rompendo as barreiras que a realidade lhes opõe; quando a experiência adverte que a mole não se des-
morona, o idealista entrincheira-se em virtudes intrínsecas, custodiando seus ideais, realizando-os até certo ponto, sem que a solidariedade possa conduzí-lo a tôr-pes cumplicidades.
O Idealismo sentimental e rom ântico se transforma em idealismo experimental e estóico; a experiência re-guia a imaginação, tornando-o ponderado e reflexivo. A serena harmonia clássica substitue a pujança impetuo-sa; o idealismo dionisíaco se converte em Idealismo apolíneo,
É natural que assim seja. Os romancistas não resistem à experiencia crítica: si persistem ainda depois de passados os limites da juventude, seu ardor n ão se equivale à sua eficiência. A avançada idade em que D. Quixote empreende a busca da sua quimera, é um erro de Cervantes… É mais lógico D. Juan casando-se à mesma altura em que Cristo morre; as personagens que Murger criou, na vida boêmia, se detêm nesse limbo da madureza. Não pode ser de outra maneira. A acumulação dos contrastes acaba por coordenar a imaginação, orientando-a, sem rebaixá-la.
E se o idealista é uma mentalidade superior, seu ideal assume formas definitivas: plasma a Verdade, a Beleza ou a Virtude, em crisóis mais perenes, tende a fixar-se e a persistir em obras. O tempo o consagra, e, o seu esforço se torna exemplar. A prosperidade julga-o clássico. Todo classicismo provém de uma seleção natural entre idéias que foram a seu tempo românticas, e que sobrevivem através dos séculos.
* * *
Poucos sonhadores encontram tal clima e tal ocasião, para lhe exaltar a genialidade. A maioria torna-se exótica e inoportuna; os acontecimentos, cujo determinismo não pode modificar, esterilizam seus reforços. Daí resulta certa aquiescência às coisas que não dependem do próprio mérito, a tolerância de toda fatalidade inevitável. A sentir a coerção exterior, certos indivíduos não se abaixam, nem se contaminam: apartam-se, refugiam-se em si mesmos, para se elevarem a um extremo, de onde contemplam o arroio lamacento que corre murmurando, sem que, no seu murmura, se ouça um grito. São os juízes de sua época: vem de onde vem e como corre o turbilhão enlameado. Descobrem os relapsos que se deixam empanar pelo limo, os que procuram os enaltecimentos falazes, contendentes com o mérito e com a justiça.
O idealista estóico se mantém hostil ao seu meio, como o romântico. Sua atitude é de aberta resistência à mediocridade organizada, de resignação desdenhosa ou de renúncia altiva, sem compromissos. Pouco lhe importa agredir o mal que os outros consentem; prefere estar livre, para realizar toda perfeição que só dependa do seu próprio esforço. Adquire uma "sensibilidade individualista", que não é egoismo vulgar, nem desinteresse pelos ideais que agitam a sociedade em que vive.
São notórias as diferenças entre o individualismo doutrinário e o sentimento individualista; um é teoria, outro é atitude. Em Spencer, a doutrina individualista é acompanhada de sensibilidade social; em Bakounine, a doutrina social coexiste com uma sensibilidade individualista. É questão de temperamento, não de idéias; aquele é a base do caráter.
Todo individualismo, como atitude, é uma revolta contra os dogmas e os valores falsos, respeitados pelas mediocracias; revela energias ansiosas de expansão, con-tidas por mil obstáculos opostos pelo espírito gregário O temperamento individualista chega a negar o prin-cípio de autoridade, subtrai-se aos preconceitos, desaca-ta qualquer imposição, desdenha as hierarquias independentes do mérito. Os partidos, as seitas e as facções são, para éle, coisa igualmente indiferentes, enquanto não descobre nelas ideais que tenham consonância com
os seus próprios. Crê mais nas virtudes firmes dos ho-mens do que na mentina escrita dos princípios teóricos; enquanto não se refletem nos costumes, as melhores leis de papel não modificam as tolices dos que as suportam.
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A ética do idealista estóico difere radicalmente desses individualismos sórdidos que recrutam as simpatias dos egoístas. Duas morais essencialmente distintas podem nascer da estimação de si mesmo. O digno elege a elevada, a de Zenão ou a de Epicuro; o mediocre opta sempre pela inferior, e se encontra com Aristipo. Aquela se refugia em si, para acrisolar-se; este se ausenta da maioria, para deslizar na sombra. O individualismo é nobre, si um ideal o alimenta e o eleva; sem ideal, é uma queda a um nível mais baixo do que a própria mediocridade.
Na Cirenaica grega, quatro séculos antes do evo cristão, Aristipo anunciou que a única regra da vida era o prazer máximo, obtido por todos os meios, como se a natureza ditasse ao homem a saciedade dos sentidos e a ausência do ideal. A sensualidade, erigida em sistema, conduzida ao prazer tumultuoso, sem seleção. Os cirenáicos chegaram a desprezar a própria vida; seus últimos apregoadores elogiaram o suicídio. Esta ética, praticada instintivamente pelos céticos e pelos depravadores de todos os tempos, não foi lealmente erigida em sistema depois de então. O prazer — como simples sensualidade quantitativa — é absurdo e imprevidente; não pode sustentar uma moral. Seria guindar os sentidos à categoria de juízes.
Estaria a felicidade na consecução de um interesse bem ponderado?
Um egoísmo prudente e quantitativo, que elegesse e calculasse, substituiria os apetites cegos. Ao invés do prazer espesso, ter-se-ia o deleite requintado, que prevê, coordena, prepara, goza antes e infinitamente mais, pois a inteligência gosta de centuplicar os gozos futuros com sábias alquimias de preparação. Os epi-cureus já se apartam do cirenaísmo. Aristipo colocava a dita nos grosseiros gozos materiais; Epicuro exalta-a na mente, idealiza-a pela imaginação. Para aquele, valem todos os prazeres, conseguidos por todos os meios, desabridos, sem freio; para este, devem ser recolhidos e dignificados por um cunho de harmonia. A moral origin ária de Epicuro é toda requinte; seu criador viveu uma vida respeitável e pura. Sua lei foi buscar a felicidade e fugir à dôr, dando preferência às coisas que deixam um saldo a favor da primeira. Esta aritmética das emoções não é incompatível com a dignidade, com o engenho e com a virtude, que são perfeições ideais; permite cultiv á-las, se nelas pode encontrar-se uma fonte de prazer.
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Ê em outra moral helénica, sem dúvida, onde o idealismo experimental encontra os seus moldes perfeitos. Zenão deu à humanidade uma suprema doutrina de virtude heróica. A dignidade se identifica com o ideal: a história não conhece exemplos mais belos de conduta. Séneca, digno na corte do próprio Nero, além de pregar, com arte requintada, a sua doutrina, aplicou-a, com esplêndida coragem, na hora extrema. Somente Sócrates morreu melhor do que êle, e ambos morreram mais dignamente do que Jesus. São estas as três grandes mortes da história.
A dignidade estóica teve o seu apóstolo em Epíteto. Uma convincente eloquência de sofista caldeava a sua palavra de liberto. Viveu como o mais humilde, satisfeito com o que tinha, dormindo em casa sem portas, entregue ao trabalho de meditar e de educar, até o dia do decreto que proscreveu de Roma os filósofos. Ensinou a distinguir, em todas as coisas, o que depende e o que não depende de nós. Os primeiros, ninguém pode coibir; o resto está subordinado a forças estranhas. Colocar o ideal no que depende de nós, e se indiferentes a tudo o mais: eis aí uma fórmula para o idealismo experimental.
É desdenhável tudo o que o egoísta pode desejar ou temer. Se as resistências, no caminho da perfeição, dependem de outros, convém fazer delas um caso omisso, como se não existissem e redobrar o esforço enaltecedor. Nenhum contratempo material desvia o Idealista. Se desejesse influir, de imediato, sobre coisas que não dependem dele, encontraria obstáculos por toda a parte; contra essa hostilidade de seu ambiente, só pode rebelar-se com a imaginação, olhando cada vez mais em direção ao seu interior. O que serve um ideal, vive dele; nada o forçará a sonhar o que não quer, nem o impedirá de ascender até seu sonho.
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Esta moral não é uma contemplação passiva: apenas renuncia a participar do mal. Seu assentimento ao inevitável não é apatia, nem inércia. Apartar-se não é morrer; é, simplesmente, esperar a possível hora de agir, apressando-a com a prédica ou com o exemplo. Em chegando a hora, pode ser afirmação sublime, como foi para Marco Aurélio, nunca igualado em reger destinos de povos: só êle é que pode inspirar as páginas mais profundas de Renan, e as mais líricas de Paul de Saint Victor. Delicado e penetrante, seu estoicismo foi mais propício para temperar caracteres, do que para consolar corações. O pensamento antigo alcançou, com êle, a sua mais tranqüila nobreza. Entre perversos e ingratos que o circundavam, ensinou a dar seus racimos, como a vinha, sem reclamar preço algum, preparando-se para carregar outros, na vindima futura.
Os idealistas estóicos são homens de sua estirpe: dir-se-ia que ignoram o bem que fazem aos seus próprios inimigos.
Quando aumenta a torrente dos domesticados, quando mais sufocante se torna o clima das mediocridades, eles criam um novo ambiente moral, semeando ideais: uma nova geração, aprendendo a amá-los, enobrecendo-os.
Em face das burguesias febricitantes para atingir o nível do bem-estar material — ignorando que a sua maior miséria é a falta de cultura — eles concentram seus esforços para aquilatar o respeito das coisas do espírito e o culto de todas as originalidades preeminentes. Enquanto a obscuridade obstrói os caminhos do gênio, da santidade e do heroísmo, eles aparecem para restituí-los, mediante a sugestão de ideais, preparando o advento dessas horas fecundas que caracterizam a ressurreição das raças: o clima do gênio.
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Toda ética idealista transforma os valores, e eleva a categoria do mérito; as virtudes e os vícios trocam seus matizes, para mais ou para menos, criando equilíbrios novos. Esta é, no fundo, a obra dos moralistas; e sua originalidade está nas mudanças de tom que modificam as perspectivas de um quadro cujo fundo é quase impermutável. Em face da chatice comum, que impele a ser vulgar, os caracteres dignos afirmam com veemência o seu ideal. Uma mediocracia sem ideais — como um indivíduo, ou um grupo — é vil, cética, covarde: contra ela cultivam profundos anelos de perfeição. Diante da ciência tornada ofício, a Verdade como um culto; diante da honestidade de conveniência, a Virtude desinteressada; diante da arte lucrativa dos funcionários, a Harmonia imarcescível da linha, da fore ma e da côr; diante das cumplicidades da política me-diocrática, as máximas expansões do indivíduo, dentro de cada sociedade.
Quando os povos se domesticam e calam, os gran- dos criadores de ideais levantam a sua voz. Uma ciência, uma arte, um país, uma raça, estremecidos pelo seu eco, podem sair do seu curso habitual. O Gênio é um guião que o destino põe entre dois parágrafos da história. Se aparece nas origens, cria e funda; se aparece nos ressurgimentos, transforma ou exorbita. Nesse instante, retomam seu vôo todos os espíritos superiores, adestrando-se e temperando-se em pensamentos latos, para obras perenes.
VI — Símbolo
No vai-e-vem eterno das éras, o porvir é sempre dos visionários. A interminável contenda entre o idealismo e a mediocridade tem seu símbolo: Cellini não pode encravá-la em lugar mais digno do que a maravilhosa praça de Florença. Nunca mão alguma de ourives plasmou conceito mais sublime: Perseu, exibindo a cabeça de Medusa, cujo corpo se agita em contorções de réptil sob seus pés alados. Quando os temperamentos idealistas se detêm diante do prodígio de Benevenuto, anima-se o metal, revive a sua fisionomia, seus lábios parecem articular palavras perceptíveis…
E diz aos jovens que toda luta, em prol de um ideal, é santa, ainda que o resultado seja ilusório; que é louvável seguir o seu temperamento, e pensar com o coração, se isso puder contribuir para a criação de uma personalidade firme; que todo germe de romantismo deve ser alimentado, para engrinaldar de aurora a única primavera que não volta nunca.
E os maduros, cujas primeiras cãs salpicam de outono as suas mais veementes quimeras, instigam a custodiar seus ideais, sob o pálio da mais severa dignidade, em face das tentações que conspiram para enlameá-los no Estige, onde se abismam os medíocres.
E, no gesto de bronze, é como se o Idealismo decapitasse a Mediocridade, entregando sua cabeça ao juízo dos séculos.
Fonte: Livraria Paratodos, 1953
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