mai 012007
 


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HISTÓRIA DA FILOSOFIA NA IDADE MÉDIA


Johannes HIRSCHBERGER
Fonte: Ed. Herder
Trad. Alexandre Correia

2 — ANSELMO DE  CANTUÁRIA: O    PAI   DA   ESCOLASTICA

Anselmo de Cantuária (1038-1109) nasceu em Aosta, foi abade da abadia do Bec, na Normandia, sendo mais tarde bispo de Cantuária. Com ele começa a escolástica primitiva a tomar consciência de si. O que existe antes dele pode chamar-se, como propõe Grabmann, pré-escolástica. Suas duas célebres obras são o Monologium, que trata da sabedoria divina, e o Proslogium, cujo objeto é a existência de Deus. — Nova edição das suas obras: P. Fr. S. Schmitt, O. S. B., 8. Anselmi opera omnia (1938 ss.). — Bibliografia: B. Allers, Anselm von Camterbury, Leben, Lelire und Werk, übersetzt, eingeleitet und, erlautert (1936 —Anselmo de Cantuária, vida, doutrinas, e obras traduzidas e explicadas). A. Stolz, Anselm von Canterbury. Sein Leben, seine Bedeutung, seine Haup-twerke (1937 — Anselmo de Cantuária, vida, significação e obras principais). P.Tulião Alameda, O. S. B., Obras completas (2 vols. B. A. O. 1952-53).

V. a ótima conferência de Mons. Br. Carlos Seutvoul — ‘"O lugar de  Santo Anselmo na história da Philosophia", feita por ocasião de se comemorar o S.’-‘ centenário da sua morte, na Faculdade de Filosofia de S. Bento. Está publicada no "Anuário da Faculdade Livre de Philosophia e Letras de S. Paulo" (S. Bento), 1909, págs. 26-49. — (N. do trad.).

a)    Fides quaerens intellectum

Anselmo é um grande pensador agostiniano; no espírito de S. Agostinho se inspira a divisa que agora porá em curso para toda a escolástica: fides quaeren  intelectura. Mas o que em S. Agostinho era apenas uma grande idéia, é agora, de certo modo apresentado e tratado em particular, e constitui escola. Os dados da fé se tornam racionais, elucidados, no ponto de vista lógico, no seu conteúdo e no seu travamento, sistematizados de modo a poderem deduzir-se um dos outros e, assim, entendidos mais profundamente. Este racionalismo não desvenda os mistérios da crença, mas procura apenas, tanto quanto possível, informar logicamente o patrimônio da fé. Pode-se por conseguinte perguntar se Anselmo é filósofo, pois as suas premissas são afinal sempre teses religiosas. "Não quero saber para crer, mas crer para saber", declara ele. De fato toda a escolástica arrancará desse ponto de partida e, além disso, Anselmo leva a especulação tão longe que, ao y mesmo tempo, versa problemas filosóficos. Embora sob roupagens teológicas, de fato apresenta-se aí uma problemática filosófica.

b)    Provas anselminianas da existência de Deus

Esta problemática filosófica revela-se logo pelo problema que desenvolveu no Proslogium, a sua prova da existência de Deus, que lhe deu um lugar de relevo na história da filosofia. Kant deu a essa prova o nome de ontológica, por considerar apenas a forma que lhe deram Descartes e Leibniz. Mas o mesmo pensamento já aparece em Anselmo e o conteúdo é o seguinte.

a) O argumento. — A razão tem em si mesma a idéia de um ser maior do qual nenhum outro pode ser pensado (id quo maius cogitari non potest). Ora, se tal ser existisse só no pensamento, então não seria o máximo, porque nesse caso poderíamos pensar um maior, a saber, o que existisse não só no pensamento, mas também na realidade. Por onde, a idéia de um ser máximo exige uma existência não só lógica, mas também antológica.

 β) Crítica- e contracrítica. — Já o monge Gaunilão tinha replicado: não é pelo fato de eu supor idealmente existentes as Ilhas Afortunadas, que elas existem. O mesmo dirá Kant mais tarde: a idéia de uma cousa não implica na sua existência. Mas isso já o sabia também Anselmo: não é por um pintor conceber uma obra, que ela já existe, dizia ele- Por isso mantinha a sua prova da existência de Deus e respondia, no seu escrito contra Gaunilão, que exemplo das Ilhas Afortunadas não atinge a questão no seu âmago. Pois, a idéia de Deus é um caso único e incomparável, porque pensamos nele como um ser que necessariamente encerra e de toda a eternidade todas as perfeições, ao contrário de uma ilha, que é um ser limitado. E por aí se mostra o nervo da prova.

γ) Momento histórico-genético da prova. — Está na expressão — "ser que encerra em si todas as perfeições". Não é outra essa idéia senão a idéia de Deus, de Boécio, a do sunimum onimnium bonorum cunetaque bona intra se continens; a de Agostinho do homum omnis boni; a idéia platônica do bem em si, ανυποθετον e ιχαλον. Isso resulta ainda mais claro da sua outra obra, o Monologium, onde são desenvolvidas duas provas de Deus tipicamente platônicas: a dos graus de perfeição e da idéia do ser supremo. Anselmo não caiu na μεταθασιζ ειζ αλλο γενοζ, mas tinha no pensamento a idéia apriori, que todo imperfeito supõe o perfeito, anterior, em toda a linha do ser, ao imperfeito. Ora, sendo o imperfeito uma realidade, com maioria de razão o perfeito, do qual o imperfeito não é senão cópia.

δ) Conceito de Verdade. — Se se aprofundar melhor o conceito de verdade de Anselmo, então mais claro ficará a sua prova da existência de Deus. Verdade significa para Anselmo a "retidão" das essências, a qual consiste em se conformarem com o seu modelo existente na mente divina. Está no espírito e só aí é perceptível {ventas est rectitudo solamente perceptibis); e precisamente quando o espírito descobre  relações  necessárias.    Mas  se a nossa mente descobre na idéia de Deus uma conexão, necessária entre essência e existência, então se nos., revela por isso mesmo uma verdade primeira, pois sc3 poderemos descobrir na cópia à verdade, por existir a verdade-modelo. Por isso não se pode dizer com exatidão que Anselmo passa ilogicamente do mundo conceptual para o real. Para ele não há nenhuma oposição entre o pensamento e o ser, como na filosofia moderna. Era ainda demasiado cedo para ser isso possível. Anselmo está todo penetrado do espírito agostiniano; ora, para este pensador platonizante, a autêntica realidade está na verdade e no bem primeiros, na imagem exemplar e na idéia; e disso vive todo ser e conhecer, de modo que podemos subir para Deus de vários lados.

ε) Influência. — A prova anselmiana de Deus exerceu larga influência na alta escolástica e nos tempos modernos. Se de um lado Tomás de Aquino a rejeita (S. Th., I, 2, 1 ad 2; S. c. g. I, 10: De ver. 10, 12), Guilherme Altissiodorense, Alexandre Halense, Boaventura, Alberto o Grande e Egídio Romano a aceitam. Como se vê, pensadores todos eles de tendência platônico-agostiniana mais ou menos fortemente acentuada, por onde podemos conhecer o caráter histórico-ge-nético desta prova e do seu autor.


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Johannes Hirschberger

  11 Comentários para “Santo Anselmo – História da Filosofia na Idade Média”

  1. ola gostei muito da obra de santo anselmo

  2. obra de santo anselmo muito interessate

  3. nao achei nada do eu queria

  4. PS. Desculpe a confusão com os nomes: Berengar von Tours/ Berengário Turonense

  5. Senti a falta de um texto (ou uma menção) sobre Berengário de Tours, afinal sem ele não haveria Anselmo em toda a sua genialidade… Autores modernos já reconhecem na obra de Anselmo uma influência maior de Berengar do que de seu Mestre Lanfranco!

  6. aqui não tem falando nada sobre o que eu quero

  7. Olá tudo bem gostei do trabalho gostaria que você me enviace um resumo da vida de santo Anselmo,obras,metefisica. obrigado.

  8. esse cara foi um mestre da filofia
    tenho muita admiraçã o por essa pessoa
    ele se supero
    e

  9. Muitas coisas estão faltando sobre as obras dele blz.

  10. Gostaria de saber se vcs tem o resumo de gaunilo q/ fala sob ” o ser do qual não se pode pensar nada maior”.

  11. filosofia ou ideia do Santo Anselmo

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