Consciência - Filosofia e Ciências Humanas

ARTISTAS E AVERROÍSTAS: O OUTRO ARISTÓTELES – História da Filosofia na Idade Média




HISTÓRIA DA FILOSOFIA NA IDADE MÉDIA

Johannes HIRSCHBERGER
Fonte: Ed. Herder
Trad. Alexandre Correia

5 — ARTISTAS E AVERROÍSTAS: O    OUTRO    ARISTÓTELES

a)    Caráter da Faculdade dos Artistas

Na Faculdade dos Artistas ternos diante de nós o local onde a filosofia era naturalmente ensinada. Aí se era somente filósofo e só ocasionalmente se debatiam problemas teológicos. Também se podia, um tanto forçadamente, versar a autonomia da filosofia "natural". Mas o que sobretudo se fazia era interpretar e desenvolver Aristóteles. Grabmann mostrou, fundado no anonymus de um manuscrito aragonês, como se organizava a vida na Faculdade das Artes na primeira metade do séc. 13. O campo de trabalho é philosophia rationalis. Aí se insere a metafísica (phil. naturolis), as matemáticas  (quadrivium) e a philosophia rationalis em sentido

estrito (trivium); também a moral, em que se limitavam aos três primeiros livros da Ética Nicomáquica (Ethica nova et vetus). As outras obras oficiais eram o Timeu e o De consolatione philosophiae de Boécio. Mas se dava sobretudo importância aos ramos do trivium: lógica, dialética, gramática e filosofia da linguagem.

b)     Os   primeiros   1ógicos

Guilherme de Shyreswood, Professor em Oxônia e Paris (c. 1294); Lambert Altissiodorense (de Auxerre) (c. 1250), Nicolau de Paris e, sobretudo, Pedro Hispano, Papa em 1276 sob o nome de João XXI, (+ 1277) inauguram a série dos célebres magistri desta Faculdade. Do último são as Summulae logicales, que serviram de manual de lógica na Idade Média. Elaboram a lógica vetus e nova de Aristóteles, de tom acentuadamente formalístico, pretendendo ser um pronunciado manual de dialética, que, na seqüela dos Tópicos e dos Elênquicos aristotélicos, ensinam e descrevem todas as formas e subtilezas da arte dialética de disputar. Obra tida em enorme estima e objeto de um número sem-número de comentários. Depois de durante tanto tempo denegrida a dialética da escolástica, descobre hoje a logística que o formalismo da terminística dialética oculta mais do que antes se julgava. (Para o estudo da lógica medieval consultem-se as investigações capitais de M. Grabmann nos Abhandlungen der Münchener und Berliner Akademie).

c)     Averroístas

A importância da Faculdade das Artes subiu de ponto quando, na metade do séc. 13, os averroístas entram em cena. Os antigos mestres se haviam ocupado sobretudo com a propedêutica filosófica; agora cultiva-se toda a filosofia e, de novo, a aristotélica, considerando-se o autêntico Aristóteles, e não mais sob o aspecto teológico, mas no que como expressamente se afirma. O que surgia em cena não era evidentemente o Aristóteles autêntico, mas o averroísta; pois Averróis veio substituir Avicena, como o comentador puro e simples. A adesão filosófica a Averróis provocou em Paris uma viva atividade — o chamado averroísmo latino  (aristotelismo radical ou heterodoxo). Três doutrinas caracterizam particularmente essa nova corrente filosófica: a da eternidade do mundo, o princípio da dupla verdade e o monopsiquismo.

α) Sigério de Brabante. — A alma do movimento foi Sigério de Brabante (1285-1284). Os seus Comentários de Aristóteles. há pouco descobertos em Munique por Grabmann, mostram que foi um dos mais importantes intérpretes de Aristóteles, homem de juízo autônomo e penetrante pensamento. Já as suas obras anteriormente conhecidas, p. ex., o tratado De anima intellectiva, não são paráfrases simplesmente reprodutores do pensamento aristotélico, mas oferecem uma evolução problemática de largas conseqüências. As investigações sobre Sigério ainda prosseguem ativas; sobretudo, desde os trabalhos de Vau Steenberghen, formula-se a questão da cronologia das suas obras. Pelo que parece hoje, o pensamento de Sigério sofreu mais tarde profunda transformação — de uma interpretação de Aristóteles, radical e audaciosamente averroísta, a uma moderada e, afinal, de acordo com Tomás.

Bibliografia

P. Mandonnet, Siger de Brabant et l’averroisme latin ou XIIIme siècle: Les philosophes Belges VI (21911) e VII (31908). F. von Steenberghen, Les oeuvres et la doctrine de Siger de Brabant (1938). Do mesmo, Siger dans l’histoire de l’aristotelisme  (1942).

αα) Primeiro período. — No seu primeiro período trilha Sigério um caminho bastante caprichoso. Deus é, certo, o primum ens; sua existência se prova também com o argumento aristotélico do movimento, o princípio de causalidade e também com o raciocínio neoplatônico sobre os graus de perfeição. Deus é também o criador do mundo; mas se trata de uma criação eterna e Deus não cria tudo, mas somente o que lhe está a ele, a Unidade, imediatamente chegado. Não é esse o caso da matéria que, por isso, escapa à influência e, portanto, à providência divinas. As esferas são eternas e eternamente movidas pelos espíritos que as regem, de existência separada e subsistente (os aristotélicos automotores relativos). Também os seres vivos na terra são eternos. A geração dos seres não teve começo; eles também existem eternamente.   Também  se  admite o antigo ano  cósmico regrediente. E como por natureza tudo é eterno, não há nenhum sentido em distinguir essência e existência; por isso se rejeita a distinção real de Alberto e Tomás. Mas Sigério ainda era mais chocante pelo seu monopsiquismo: com Averróis ensina a existência de um só intelecto para todos os homens. O homem é um ser vivo sensível pela sua alma vital,única forma substancial do corpo. As idéias universais, próprias ao "espírito", correm por conta do intelecto uno e único da humanidade que, em oposição ao indivíduo e à sua sensibilidade, é "separado, eterno e imortal". Como separada, a alma não pode ser individuada por nenhuma matéria e multiplicada; deve portanto ser necessariamente uma. Não há logo almas individuais nem nenhuma individual, mas só é imortal a alma da humanidade. Como se vê, os vários dados em Aristóteles (De an. I, 5) são aqui bem determinados e largamente completados. Se nos lembrarmos de Klages e das suas teses sobre a sensibilidade e o espírito do homem, essas doutrinas medievais assumirão um aspecto bem moderno. Tudo isso conduzia a conseqüências profundamente incisivas. Assim, o homem já não vive com uma finalidade no além, mas deve buscar o supremo bem nesta vida, no bem da comunidade. As teorias de Sigério eram chocantes para o seu tempo e provocaram revides tanto de Alberto como de Tomás. Boaventura adverte que destroem toda a ordem cósmica e humana. Compreende-se que entrassem em conflito com a Igreja.   Sigério foi condenado em 1277.

ββ) A conversão. — Num segundo período processa-se nele uma conversão. No seu comentário sobre o De anima aristotélico, faz as suas reservas no tocante às doutrinas averroístas e afinal concede que, com a admissão de uma única alma espiritual, já não tem o indivíduo um pensamento próprio. Dever-se-ia portanto dizer: pensa-se nele (homo non intelligit, sed intelligitur). Fez assim justiça ao argumento que Tomás articulou contra ele? Já agora aceita a alma espiritual como forma do corpo, individual e imortal. E também já o movimento não é eterno mas pode ter tido um começo. Mas, no domínio puramente filosófico, não se pode provar com certeza nem uma nem outra cousa. Isto implica em admitir o ponto de vista tomista. Além disso, agora, pode Deus conhecer a multiplicidade e agir sobre ela. E se antes era um representante do determinismo, agora é pela liberdade da vontade. A  conversão  é  quase  completa.   E  poderíamos  assim  conjeturar que, no total da "conversão", ainda mantém praticamente a antiga teoria das duas verdades: a filosofia e a teologia têm ambas o seu domínio próprio e o que é verdade para esta pode não ser para aquela. Dois mundos com sua vida própria, ambas sem relações mútuas, mas em ambas pode a gente ajeitar-se bem. Teria causado prazer aos teólogos fazendo-lhes uma visita e dizendo-lhes o que ouvem com agrado, porque com eles não se pode falar de outra maneira, mas guardando para si o seu pensar "filosófico’? De Wolf assinala o caráter complicado de Sigério mas lhe tem como séria a conversão.

β) Boécio de Dácia. — Outro mestre de grande nomeada é Boécío de Dácia. Suas doutrinas foram condenadas junto com as de Sigério em 1277. ”Não há nenhuma forma de vida mais elevada que a filosófica", reza uma das suas teses. E outra: "Os filósofos são os únicos filósofos deste mundo". As mais soam do mesmo modo. Ouve-se aí claramente o paganismo aristotélico, autenticamente terreno.

γ) Mestres mais comedidos. — Mestres mais comedidos e achegados a Tomás e Alberto foram: Tiago de Douai, Raul de Bretone, Pedro de Alvérnia, Henrique de Bruxelas e, na Inglaterra, Simão de Faversham (+ 1306).

A tradição averroísta manteve-se longo tempo em Paris. No século 14 o representam João de Janduno e Marsílio de Pádua, o autor do Defensor pacis que, inspirando-se na doutrina aristotélica da naturalidade do Estado, defende a autonomia do poder deste, em face de qualquer tutela eclesiástica, e proclama a soberania do povo como a fonte única da autoridade pública e das suas leis.

δ) De Paris para Pádua. — Então a tradição averroísta se transfere para Bolonha (Taddeo da Parma, Angelo d’Arezzo, após 1330) e sobretudo para Pádua, onde se conserva até o séc. 17 adentro. Defende a ferro e fogo Aristóteles e a sua física contra quaisquer inovações; mas na Renascença veio a ser completamente o que sempre quis ser — uma filosofia puramente naturalista no estilo desses novos tempos.


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