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BRIZOLA, DO VERBO BRASIL
Published: May 13, 2005 - 11:49 AM
Nei DuclósLeonel Brizola lutou praticamente só contra a destruição do Brasil, o paÃs inaugurado em 1930 e devastado a partir de 1964. Nasceu como cidadão quando foi testemunha, ainda no colo da mãe, do assassinato do seu pai, guerreiro da revolução de 1923, que fora desarmado e remetido para casa e perseguido pelos tiranos que tinham jurado a paz das Pedras Altas. Nasceu como polÃtico em 1945, quando Getúlio Vargas foi destituÃdo por um golpe militar, e ajudou a fundar o PTB. Morreu testemunhando o estrangulamento total da nação a qual serviu como ninguém, como o primeiro - e, portanto, jamais o último - dos patriotas.
LEGALIDADE - O vasto desenho do seu rosto estava escancarado num painel em frente à minha casa, no Colégio Santana, em Uruguaiana, para onde acorriam os eleitores naquele distante 1958. Simpatizei com aquela cara boa e limpa e, aos 11 anos de idade, subi no muro da minha casa e berrei seu nome o dia inteiro. Ele foi vitorioso nessas eleições para governador, quando mudou o paÃs. Estatizou a multinacional que monopolizava as telecomunicações do Rio Grande do Sul, fundou uma escola rural a cada cinco quilômetros de estrada e quando terminou seu mandato era o mais importante e prestigiado polÃtico do Brasil. O presidente americano John Kennedy ficou irritado com ele, que tinha pago um Tamandaré (um cruzeiro) para ter de volta a CRT, a Companhia Riograndense de Telecomunicações. Tinha coragem e tinha grandeza. Quando estourou o movimento da Legalidade, improvisamos um quartel no quintal da nossa casa. Empilhamos os estrados que serviam de suporte para as bolsas comercializadas por nosso pai e colocamos bandeiras em cima dessa pilha. Convocamos todos os homens abaixo dos treze anos de idade. DistribuÃmos as armas: paus, pedras, cabos de vassoura. Estas, eram as espingardas que colocamos a tiracolo para montar guarda. Enquanto Brizola fazia sua campanha de mobilização por uma rede radiofônica a partir do porão do Palácio Piratini, nós nos revezamos, por uma longa semana sem aula, mantendo-nos firmes contra os golpistas. Foi nosso exercÃcio de cidadania: uma representação da mobilização armada . Milhares de pessoas moradoras do campo vinham lotando caminhões e carroças para se alistar. E nós, garotos, da cidade, estávamos lá. Crescemos com aquela vitória. Levamos essa disposição para as ruas em 1968. Depois, invadimos as redações com nossa fúria, com nossa ética, com nossa vontade de reverter a guerra.
ANISTIA - Quando voltaste do exÃlio vieste até aqui em Florianópolis, Brizola. Eu trabalhava em propaganda naquela época. Encostei rapidamente o carro na calçada e fui te conhecer pessoalmente. Apertei tua enorme mão e a todos atendias com teu garbo, teu perfil de cavalheiro, tua grandeza, teu carisma. Olhaste rapidamente para mim e sentiste que eu não estava disponÃvel para a polÃtica partidária. Compreendeste, sem eu te falar nada. Eu não podia te abraçar, Brizola, porque o sucateamento do Brasil já estava na minha carne, já tinha me ferido profundamente e eu só fui te conhecer, mas não me alistar, companheiro leal e lÃder da vida que compartilhamos tão à distância, mas neste mesmo território nacional de tanta luta. Virei depois, além de teu correligionário - sempre voto no PDT - teu crÃtico, pois não entendia como puderam te trair tanto, Brizola. Como no samba, foste traÃdo, mas não traÃste jamais. Porque esse era teu destino, Brizola, servir de rocha à beira mar, servir de modelo para a nação, quando encarnaste o verbo Brasil, esse verbo tão pouco conjugado e que precisa ressuscitar. Por que perdemos uma vida inteira, comandante, para tentar resgatar o que nos foi roubado quando ainda éramos tão moços? Éramos crianças quando foste expulso, tu e teu rosto de quase menino, tão determinado quanto um guerreiro pode ser. Por que perdemos aquela eleição de 89, Brizola? Consciente da minha total falta de importância polÃtica, mesmo assim enviei uma carta para ti que ninguém te entregou, assim como não te entregaram tantas cartas de trabalhistas apavorados com o engodo Lula e com a sagacidade da direita. Falei que ias perder a eleição por causa de São Paulo, Brizola. Aquele Airton Soares, quando soube da minha preocupação, pois enviei também uma carta a ele, me telefonou, sondando alguma contribuição financeira, pois eu trabalhava para uma empresa naquela época. Perdeste, Brizola, porque teus aliados eram fracos e não estavam à tua altura. Perdemos contigo, mas continuaste de vela enfunada, capitão de um navio que jamais será derrotado definitivamente.
LEGADO - Mas nós te criticávamos porque assim nos formaste, comandante, porque foi assim que aprendemos contigo. Não a crÃtica dos verdugos que acabaram te empurrando para fora da polÃtica, apesar de tanta resistência. Não esses que agora lamentam da boca fora e esfregam as mãos de felicidade sinistra. Vi a noticia da tua morte pela Globo, Brizola, esse monstro que devorou o Brasil e agora clona o paÃs na sua novela Celebridade, numa desfaçatez sem tamanho, esse monstro endividado até o osso, sugador de recursos públicos, incompetente e que tentou te roubar uma eleição, a de governador do Rio em 1982, Brizola. Todo mundo viu como derrotaste o monopólio, querido amigo que agora nos deixa para todo o sempre. Como enfrentaste as câmaras e lutaste por uma democracia que afinal não veio. Voltamos à ditadura, Brizola. A mesma que te viu nascer, naquela década de 20 tão importante para ser estudada. É a mesma ditadura, querido amigo. Eles entregaram o paÃs, endividam até o osso, pegam dinheiro emprestado sem parar para no fim entregar toda a soberania. Desces à terra como o maior patriota deste paÃs ainda vivo, Brizola, porque não deixaste morrer. Teu nome começa com as mesmas letras de Brasil. Nos ensinaste a conjugar esse verbo, e vamos conjugá-lo todos os dias da nossa vida. Queremos ação, comandante. Não teremos mais tua análise, teu texto, tua advertência, tua lucidez a serviço da honestidade e da nação. Mas temos teu exemplo. Temos teu corpo, comandante, em nossas mãos precárias. E te depositamos no solo da terra amada com todo o mar infinito em nossos olhos. Agora somos tu, Brizola. Agora somos o sonho que carregaste em vida e que iluminas, bem posto na eternidade. Mesmo teus inimigos terão que se curvar. Mesmo teus falsos amigos terão agora que lamentar. Mas o povo te carregará no coração como um fogo sagrado que nada nem ninguém jamais apagará.
Comments
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Anonymous
Jun 10, 2005 |
Re: BRIZOLA, DO VERBO BRASIL
Desde que Brizola morreu, venho pesquisando e agora encontrei o sentimento que _deve ser sililar, pelo menos_ a grande admiração, gratidão, amor mesmo que sinto por Brizola. Ele foi o homem mais perseguido na história desse país e até hoje, tem que se faça de idiota, quando toco no nome dele. Ainda mais aqui, Minas Gerais, que foi onde perdemos as eleições em 89, então é uma ignorância e um pouco caso. Quero declarar que sou carioca. Mas eu quero ver agora, que o governo desse trabalhador está se atolando num pântano que demonstra todo o absurdo desse povinho que preferiu ter esse lulinha a um estadista da dimensão histórica de Brizola. Agradeço de coração pelos seus dois artigos, sendo que o anterior me levou aos prantos, nesse mês em que se completa um ano que me sinto absolutamente só, abandonada,com um mundo de saudades daquele que forjou meu caráter e consciência. |
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Anonymous
Jul 28, 2005 |
Re: BRIZOLA, DO VERBO BRASIL
Infelizmente Brizola não receberá nenhuma homenagem de todo este esquema armado/pseudodemocrático porque ele representava algo bem maior, fora do alcance de aventureiros entregadores da soberania nacional que deram as costas ao seu próprio povo, nem que para isso se escondessem atrás de diplomas, títulos,sindicatos, enfim aquela culta e bem letrada esquerda que a direita gosta e o império apoia. |
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