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DE REPENTE, O GÊNIO
Published: Oct 18, 2007 - 04:19 PM
Nei Duclós
A vida é estranha. Consegue se realizar pelo detalhe, amparado pela
obra. O que você faz enquanto vive é uma arquitetura anterior e anônima
ao momento do brilho extremo, o detalhe. Robinho pedalou a vida toda,
mas só no jogo do dia 17/10/07, no Maracanã, contra o Equador, definiu
seu destino no grande concerto da criação. Todo mundo viu. Ele levou o
adversário para o canto sem ângulo, o que dá, em princípio, um pouco de
tranqüilidade ao oponente. Este, confiante de que a bola não encontrará
o caminho do gol (a geometria disponível não permite) dedica-se a uma
impossibilidade: tirar a bola dos pés do gênio.
Robinho
conseguiu metade do que queria. Demarcou seu território longe dos
outros defensores, tendo como obstáculo apenas o cara marcado para
morrer. Precisava que fosse intensificada a certeza de que não
conseguiria fazer nada ali naquele pedaço morto de área. Por isso
desenhou a letra, quando o corpo todo se retorce para que os pés
troquem de posição. A letra significa que o pé direito funciona como o
esquerdo ou vice-versa. Costuma ser execrada como firula, perda de
tempo. Quase sempre dá errado. No caso da partida de ontem, com uma
seleção sub suspeita depois do zero a zero contra a Colômbia, a letra
era, mais do que nunca, fora de hora.
O chute de
letra tem como princípio desarmar as expectativas dos inimigos. O lance
aparentemente desengonçado de Robinho, no lugar de lançar a bola para o
miolo do drama, manteve a leonor a seus pés. Foi sorte, pensaram todos,
quis chutar acabou driblando sem querer. E agora? O "certo" seria
avançar naquele espaço criado pela letra surpreendente, ir em frente,
pedalar novamente. Mas Robinho fez o contrário. Mergulhou ainda mais
fundo nesse ponto morto da pequena área, onde o destino certo é
desperdiçar tudo pela linha de fundo.
Essa
insistência no buraco negro da jogada fez com que o adversário mais
próximo aumentasse em confiança, pois um raio não cai duas vezes na
mesma cabeça. Já tinha havido os dribles, a firula, o sarro. Agora era
simplesmente decidir, tirar-lhe o biroço dos pés e recomeçar tudo com
um tiro de meta. Mas Robinho, ao contrário dos outros, tem duas pernas,
dois pés, que jogam simultaneamente. Não se trata da idéia comum do
ambidestro. Mas o da coreografia dispondo de cada pé como um ser à
parte, que jogam um com o outro como dois moleques em rua de terra em
declive.
Um pé passa para o outro, fazendo com
que o equatoriano enfrente dois Robinhos de uma só cabeça. Ele já está
batido e o gênio, em curva e diagonal, se livra da sua marcação para
chutar lá onde a coruja pia. Caprichosa, orgulhosa do momento, a bola
fez justiça e sobrou nos pés de Elano, que saiu de braços abertos para
ninguém. Todos caíram em cima de Robinho, que tinha chegado ao detalhe
supremo da sua obra, arduamente construída em anos e anos de exercício.
Poderia
dar tudo errado. Poderia até ser tudo sorte. Mas sabemos que não foi.
Simplesmente sobrou, foi fora da ordem mundial. A jogada pertence,
desculpem a insistência, ao Brasil soberano, o país que ensina a voar.
Kaká foi perfeito no seu gol colocado longe de toda a quadratura, no
ângulo extremo do seu talento. Foi merecidamente aplaudido como o
melhor do mundo. Kaká se enquadra nesse universo do futebol. Robinho é
de outra têmpera.
Robinho é uma rara manifestação do gênio. E quando o gênio se manifesta, voltamos a ter esperança.

