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FUNK, CAN-CAN E VELHAS PROFISSÕES
Published: Oct 07, 2007 - 07:56 AM
Nei Duclós
Mirar o rabo para a multidão, sacudindo decididamente os países
baixos ao som do baticum funkeiro em direção a uma platéia apartada do
sexo real (se não fosse, não pagaria pela festa para ter a ilusão do
sexo disponível no palco) é negócio para velhas profissões, como a
prostituição, a segunda mais antiga do mundo, pois a primeira (qual é?)
forneceu os recursos para pagar pela primeira noitada.
O funk ganhou status de cultura marginal de periferia, mas não passa
do velho can-can, quando as mulheres mostravam o que existia embaixo da
roupa e simulavam o ato sexual em forma de dança. Agora invade os
bairros de classe média e está perdendo seu caráter mais radical, mas
mantém a essência: a representação da censura ao sexo num país que
finge gozar e que no fundo apenas expõe sua nudez para que outros
usufruam do prazer.
PERVERSÃO - O efeito é devastador, mas como é apenas um sintoma não
pode ser perseguido pelo moralismo fundamentalista. O que deve ser
confrontado é a origem do evento: num país sem soberania, a população é
treinada para expor suas partes pudendas para que o mundo se convença
que estamos de pernas abertas, é só chegar e entrar.
Não podemos ter, nesta atual fase da ditadura, o que qualquer nação
dispõe: mulheres protegidas por leis e costumes. Quem quer isso? O
negócio é faturar e, claro, fazer análises como a da Rede Record no
programa Domingo Espetacular, que perguntava se aquilo é perversão. Não
é. Perversão é querer um país soberano.A reportagem da Record flagrou
vários grupos de machos estrangeiros (nenhuma funkeira vinda de fora
das fronteiras), como uruguaios e australianos, encantados com las
chicas. É turismo sexual, tratado como fenômeno de comportamento.
MODA - Como virou moda, ninguém se pergunta o que significa simular
a trepada publicamente, como sempre se fez nos velhos cabarés. A
explicação normal é de que tudo isso não tem importância, que é assim
mesmo, que o importante é se divertir, fazer exercício e tudo o mais.
Parece que liberou geral, mas é o contrário. O sexo está vedado para
quem paga para participar do baile funk. O abombado pode se esfregar um
pouco, fazer trenzinho de bunda, fingir que é um grande comedor de
puta, mas não passa de um infeliz. Sexo é de foro íntimo, e quando é
exposto não passa de mercantilização.
Romperam-se os limites entre o prostíbulo e os clubes para a
juventude, pois os negociantes do ramo descobriram que difundir a
putaria é lucro certo. Como não existem espaços gratuitos de lazer e
esportes, com raras exceções, a meninada fica confinada em lugares
artificiais, sendo tonteada pela barulheira eletrônica e pelas vozes
estridentes da falta de talento.
Falam em letras mas não há letras, já que não há poesia. Melodia nem
se fala: é sempre a mesma arenga. Uma das funkeiras diz que faz o que o
povo gosta, que é letra de duplo sentido e com esse expediente foi até
Paris. Certamente foi apresentada como a manifestação da brutalidade
cultural do Brasil sucateado, mesmo não tendo nada a ver com isso, já
que apenas aproveita as portas que lhe abrem (e as cantoras não estão
enquadradas na categoria mais apelativa, o que fica a cargo das
dançarinas) .
O mundo consome nossas ruínas, devora nosso fígado. Na jequice atual
do berreiro sem fim, quando aparece alguém capaz de trinar uma melodia
é considerado gênio. Mas não é. Apenas se destaca num mar de absoluta
mediocridade. Para termos gênios, precisávamos confrontar a origem
política dessa situação. Peitar o poder, que nos corrompe.
AO ANDAR - A Grande Família, da Globo, é um sucesso e dizem que é
pelo texto enxuto, pela fórmula, pelos grandes atores, pelo timing,
montagem ou sei lá o quê. Acho que é pelo andar. Notem como a
personagem Marilda anda. Ela usa o salto alto para arrebitar um pouco o
traseiro e fazer pular o cabelo sempre mal produzido. A Nenê tem aquele
passinho ao mesmo tempo decidido e submisso. Lineu abre os pés em dez
para as duas para navegar a barriga. Tuco anda de maneira trôpega,
representação da sua falta de independência econômica. Agostinho é o
próprio Costinha, com o corpo sendo revirado em sentido oposto ao da
cabeça.
Andar é compor um personagem. Especialmente se o autor do andar é um
ator como Marco Nanini, Pedro Cardoso, Marieta Severo etc. Eles
trabalham o povo, de onde vieram. Seriam caricaturas se só houvesse
esforço de interpretação. Mas há muito mais. Existe o passo do país que
resiste.

