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OS ESCRITORES QUE A DITADURA PRODUZ
Published: May 28, 2005 - 08:49 PM
Nei Duclós
Para que o país continue sendo saqueado, a
linguagem precisa se deslocar da nacionalidade, portanto, do sentido.
Esse é o papel da literatura que se consolida a partir da chamada
globalização, ou da entrega do Brasil aos estrangeiros. Insurgir-se
contra isso é ser acusado de patrioteiro, xenófobo e reacionário. Essa
é a grande armadilha dos escritores notórios, que empalmam vastos
espaços na mídia (latifúndios de divulgação, fruto da concentração de
renda): como tornaram-se uma contrafação da vanguarda, sentem-se à
vontade para exercer a exclusão que os compromete até o osso e os enche
de dinheiro. Escrever é mentir e tirar a máscara é assumir personagens
vazios de realidade. Esse pesadelo é justificado pela crítica
comprometida com o círculo vicioso da linguagem artificial, que se
alimenta também do artificialismo acadêmico, que reproduz
indefinidamente as mesmas teorias pretensamente radicais e que no fundo
não passam de álibis para manter os escritores de verdade no ostracismo.
SOBERANIA
- O que são escritores de verdade? Os que não se deixam levar pelos
modismos e escrevem com o espírito livre. Os mais radicais inovadores
da linguagem, os que não fazem parte dessa curriola que se
retroalimenta sem parar, compartilham desse ostracismo. O que dá
dinheiro é cortejar a falta de escrúpulos dos pseudo-escritores, que
fizeram do joguinho de palavras um saco aparentemente sem fundos. A
pseudo-vanguarda hoje vitoriosa em todas as mídias nada tem a ver com a
intensificação e o aprofundamento experimental e teórico que gerou, na
música, a bossa nova, e na literatura a poesia praxis e o concretismo.
Mas o que foi intenso e realmente transformador serve de insumo dessas
vanguardinhas de araque que tomam conta dos cadernos culturais e ainda
se dão o luxo de se acharem marginalizados e perseguidos. É tudo
mentira, claro. A falsidade é tamanha que, além de tomar conta da
cultura oficial (a bem remunerada pelo dinheiro público) ainda
conservam as paranóias das perseguições de gerações anteriores.
LUTA
- A falsa literatura (que sobra em exemplos por toda parte) é essa que
te tira tempo e em nada te retribui. Que te deixa vazio, irritado. E
que não passa de um conjunto de poesias pífias e romancezinhos de
araque, tudo fruto do desespero individualista que tomou conta da
ex-nação, hoje um amontoado de indivíduos. Esse ambiente não aborda
mais os princípios éticos, tornados vilões ou meras excrescências
obsoletas; não cuidam da família, extinta em favor da celebração do
Mesmo e sua tempestade lúdica desconectada do destino, da eternidade ou
da alegria. É um ambiente sinistro e soturno, o dessas palavras que
invadem todos os espaços, deixando de lado os valores que não possuem
incentivo para proliferar. Quantas gavetas amarelam e vão para o lixo,
quantos escritores assassinam a própria vocação, desencantados com
tanto horror, com tantas luzes e holofotes sobre nulidades tornadas
célebres. Vai ler esse cara tão incensado, vai ver o que ele escreveu!
É o reino da baixaria, das palavras sem poder, de âncoras que pegam teu
pescoço de leitor e te jogam para o fundo. E quanto mais escatológicos,
mais fôfos nos seus olhares apertados, a sugerir reflexão, suas
carinhas de anjo, a sugerir juventude, a sua falta de escrúpulos, a
sugerir inovação. Cada um no seu espaço, funcionam como vasos
comunicantes da linguagem que serve à ditadura civil, formada pelo
arrocho financeiro, a exclusão social e o voto de cartas marcadas.

