Continued from:

ESCOLHA DE LEITURA PARA UMA LIVRE-PENSADORA

À Sra. Marquesa Du Deffand

Delícias, 13 de Outubro de 1759.

Perguntais-me o que deveis ler, como os doentes perguntam o que devem comer; mas é preciso ter apetite, e vós tendes pouco apetite e muito bom gosto. Felizes os que têm bastante fome para devorar o Velho Testamento! Não ride: esse livro nos faz, cem vezes mais que Homero, conhecer os costumes da Ásia antiga; é de todos os monumentos antigos o mais precioso. Mas vós, que não vos preocupais com a história do vosso país, que prazer encontrareis na dos Judeus, dos Egípcios e da Babilónia? Aprecio os costumes dos patriarcas, porque eles cultivavam a terra, como eu. Deixai-me ler a Escritura Sagrada e não falemos mais nisso. Mas vós, senhora, pretendeis ler como quem conversa? Tomar de um livro como quem pede notícias? Lê-lo e abandoná-lo? Tomar um outro sem nenhuma relação com o primeiro e deixá-lo por um terceiro? Nesse caso, não podereis encontrar grande prazer na leitura.

Para ter esse prazer torna-se indispensável um pouco de paixão, o interesse por um grande objectivo, uma vontade determinada de instruir-se ocupando continuamente a alma;

isso é difícil de encontrar-se e não se pode dar a ninguém. Estais entediada e quereis apenas distrair-vos, bem o percebo; e os divertimentos são ainda muito raros.

Se tivésseis a felicidade de saber o italiano, um bom mês de prazer intelectual vos seria garantido com Ariosto; experimentaríeis um transporte de alegria; veríeis a poesia mais elegante e mais fácil, ornada sem esforço pela mais fecunda imaginação de que a natureza já dotou algum homem. Todo romance torna-se insípido ao lado de Ariosto; tudo é rasteiro diante dele, sobretudo a tradução do nosso Mirabaud.

Se apreciais um quadro fiel deste mundo pérfido, encontrá-lo-eis algum dia na História geral das tolices do género humano 19 (que concluí com toda imparcialidade). Resolvi fazer, por amor-próprio, o esboço dessa história, porque já haviam sido publicados alguns fragmentos; mas tornei-me mais audacioso do que sempre fui; pintei os homens como eles são.

A semiliberdade com que se começa a escrever na França não passa ainda de grilhões vergonhosos. Todas as vossas grandes Histórias da França são diabólicas, não somente pelo fundo árido e acanhado, mas porque os Daniel 20 são mais acanhados ainda. É bem tolo preconceito pretender que a França tenha sido alguma coisa no mundo desde Raul e Eudes até Henrique IV e o grande século de Luís XIV. Éramos uns bárbaros idiotas em comparação com os Italianos, no terreno de todas as artes. Não temos mesmo, senão de uns trinta anos para cá, aprendido um pouco de boa filosofia com os Ingleses. Nenhuma invenção existe vinda de nós. Os Espanhóis conquistaram um novo mundo; os Portugueses encontraram o caminho das índias pelos mares da África; os Árabes e os Turcos fundaram os mais poderosos impérios; meu amigo o czar Pedro 21 criou em vinte anos um império de duas mil léguas; os Citas de minha imperatriz Elisabeth acabam de bater meu rei da Prússia, enquanto que nossos exércitos são perseguidos pelos camponeses de Zell e Wolfenbuttell22.

19 Essai sur les moeurs, cuja primeira edição apareceu em 1756.

20 Alusão ao Padre Daniel, autor de uma grande Histoire de France, publicada em 1713.

21 Trata o czar Pedro, o Grande, de seu amigo, por haver entrado na intimidade do mesmo ao escrever-lhe a história.

Tivemos o rasgo de espírito de nos instalarmos no Canadá, sobre a neve, entre ursos e castores, depois que os Ingleses povoaram com suas florescentes colónias quatrocentas léguas da mais bela região da terra; e nos expulsaram ainda do Canadá.

Construímos ainda, de tempos em tempos, navios para os Ingleses, mas os construímos mal, e quando eles se dignam a comprá-los, queixam-se de que lhes fornecemos maus veleiros.

Julgai, depois disto, se a história da França é uma bela coisa para ser tratada amplamente e para se ler.

O único grande mérito da França, sua única superioridade, consiste num pequeno número de génios sublimes ou amáveis, que fazem com que se fale hoje francês em Viena, Estocolmo e Moscou. Vossos ministros, vossos intendentes e vossos administradores não têm nenhuma parte nessa glória.

Que lereis, pois, senhora? O duque de Orléans, regente, dignou-se um dia dirigir-me a palavra no baile da Ópera, e fez-me um grande elogio de Rabelais. Tomei-o por um príncipe influenciado por más companhias, que tinha o gosto estragado. Nutria eu, então, um soberano desprezo por François Rabelais. Voltei a lê-lo mais tarde, e como me aprofundei em todas as coisas que lhe servem de gracejo, confesso que, exceptuando as baixezas de que sua obra está eivada, a leitura causou-me um prazer extremo.

Se quereis fazer um estudo sério, isso depende unicamente de vós. Mas receio que não sejais nem bastante sagaz, nem bastante aplicada para tanto.

22 Zell, cidade do Hanover; Wolfenbuttell, cidade do Brunswick. Alusão amarga à derrota infligida aos generais franceses em Minden pelas tropas do Hanover, sob o comando de Ferdinando de Brunswick.

Deixe um comentário

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.