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A LARANJA E O BAGAÇO

A Mme. Denis

Berlim, 2 de Setembro de 1751.

Tenho ainda tempo, minha cara filha, de enviar-lhe um novo pacote; nele encontrará uma carta de La Mettrie 14 ao marechal de Richelieu, implorando-lhe a protecção.

Embora leitor dedicado do rei da Prússia, La Mettrie arde de desejos de regressar à França. Este homem tão alegre, que passa por galhofar de tudo, chora às vezes como uma criança, por estar aqui. Pede-me para que me empenhe junto ao marechal, a fim de obter-lhe o perdão15. Na verdade, não se deve julgar pelas aparências. La Mettrie, nos seus prefácios, ufana-se da extrema felicidade de encontrar-se ao lado de um grande rei, que lhe recita, de vez em quando, seus versos, mas em segredo chora comigo. Ele gostaria de voltar, ainda que fosse a pé; mas eu!… Por que estou aqui? Vou deixá-la espantada.

Esse La Mettrie é um homem inconsequente, que conversa familiarmente com o rei, após a leitura. Fala-me com inteira confiança; jurou-me que, falando ao soberano, um desses dias, do pretenso favor de que gozo e do ciúme que isso desperta, aquele lhe respondera: "Tenho necessidade dele por mais um ano, no máximo; espreme-se a laranja e joga-se fora o bagaço".

Fiz La Mettrie repetir essas doces palavras; fiz-lhe outras perguntas; ele renovou seus juramentos. Acredita você em tal coisa? Devo acreditar? Será isso possível? Depois de dezesseis anos de contínuas demonstrações de bondade, de solicitude, de promessas; depois da carta que ele quis que você guardasse como penhor inviolável de sua palavra! E em que ocasião! Faça-me o favor!. . . No momento em que me sacrifico para servi-lo, em que não somente lhecorrijo as obras, como lhe faço à margem uma retórica, seguida de uma poética composta pela sequência de todas as reflexões sobre a propriedade de nossa língua, nos pequenos erros que posso notar; não procurando senão ajudá-lo a desenvolver o espírito, esclarecê-lo e pô-lo em condições de dispensar, com efeito, os meus cuidados!

14 Médico e filósofo francês. Banido da Holanda por causa de suas ideias materialistas, refugiou-se na Prússia, obtendo a protecção de Frederico II.

15 La Mettrie havia sido banido da França, por ter escrito contra os médicos.

Eu considerava, certamente, um prazer e uma glória cultivar-lhe o espírito; tudo servia a essa minha ilusão. Ele, um rei que ganhou batalhas e conquistou províncias, um rei do Norte, que fez versos em nossa língua, um rei, enfim, que eu não procurara e que dizia estimar-me, por que então me cercava de tantas cortesias? Perco-me em conjecturas! Não concebo coisa alguma. Fiz os maiores esforços para não acreditar no que La Mettrie me dissera.

Pairo em dúvidas, por conseguinte. Relendo-lhe os versos, deparei com uma epístola a um pintor chamado Pesne 10, que frequentava a corte. Eis aqui os primeiros versos:

"Quel spectacle étonnant vient de frapper mes yeux! Cher Pesne, ton pinceau te place au rang des dieux" 17

Esse Pesne é um homem a quem ele não parece dar muita atenção. Entretanto, trata-o aqui de "caro Pesne" e de "deus". Podia dar-se a mesma coisa comigo, quero dizer, bem pouca coisa. Talvez que em tudo que escreve, ele seja conduzido unicamente pelo espírito, tendo o coração bem distante. Talvez que todas as suas cartas, em que me prodigalizava amabilidades tão vivas e tão tocantes, nada significassem no final de contas.

10 António Pesne, membro da Academia Francesa de Pintura. Nasceu em Paris, em 1683, e morreu em Berlim, em 1757. Era sobrinho do célebre gravador Jean Pesne.

17 Que espectáculo maravilhoso me vem ferir os olhos! Meu caro Pesne, teu pincel te coloca no número dos deuses.

Eis as terríveis armas que lhe dou contra mim. Eu estaria condenado a sucumbir de tantos afagos. Você me toma por Monsier Jourdain 18, que dizia: "Posso recusar alguma coisa a um nobre da corte que me trata de caro amigo?" Mas eu responderei: "É um rei ponderado".

Você pode bem imaginar que reflexões, que desfalecimento, que embaraço e, numa palavra, que mágoa a confidência de La Mettrie fez nascer. Você vai dizer-me: "Parti"; mas eu não posso dizer: "Partamos". Quando se começa uma coisa, é preciso concluí-la. Estou a braços com duas edições e compromissos assumidos para dentro de alguns meses. Estou acossado de todos os lados. Que fazer? Ignorar o que La Mettrie me falou, não confiar senão em você e tudo esquecer, tudo esperar? Você será, certamente, meu consolo. Não direi a seu respeito: "Ela me enganou, jurando que me estimava". Mesmo que você fosse rainha, seria sincera.

Mande-me dizer, peço-lhe, tudo que pensa, pelo primeiro correio de milord Tyrconnell.

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