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ELOGIO DE MONTAIGNE

Ao conde de Tressan 12

Paris, 21 de Agosto de 1746.

Devo passar, senhor, na vossa opinião, por ingrato e preguiçoso. Não sou, entretanto, nem uma coisa nem outra; não passo de um doente cujo espírito se mantém alerta e o

12 Militar e literato (1705-1783), tendo tomado parte na batalha de Fontenoy. Pertenceu à Academia Francesa e à Academia de Ciências.

corpo muito enfermo. Estive, durante quase um mês inteiro, atacado de uma moléstia violenta e, além disso, muita ocupado com uma tragédia que me obrigaram a compor para a bênção da esposa do Delfim. Pela ordem natural das coisas, quem devia morrer era eu; mas foi ela, a esposa do Delfim, quem faleceu, justamente no dia em que conclui minha peça. Eis como a gente se engana em todos os cálculos!

Não vos equivocastes com relação a Montaigne. Agra deço-vos por haverdes tomado a sua defesa. Escreveis com maior purismo do que ele e pensais da mesma maneira. O retrato que traçais inicialmente parece mais o dele do que o vosso próprio. É a um irmão que defendeis, é a vós mesmo. Que clamorosa injustiça dizer que Montaigne não fez mais do que comentar os antigos! Ele cita-os a propósito, o que não se dá com os comentadores. Ele pensa e esses senhores não pensam; apoia suas ideias nas dos grandes homens da antiguidade; julga-os e combate-os, conversa com eles, com o leitor, consigo mesmo; sempre original na maneira de apresentar as coisas, sempre cheio de imaginação, sempre hábil em retratar pessoas e factos, e, o que mais me agrada, sempre disposto a duvidar. Aliás, eu gostaria bem de saber se ele colheu nos antigos tudo que diz de nossos hábitos, de nossos costumes, sobre o Novo Mundo descoberto quase na sua época, sobre as guerras civis de que foi testemunha, sobre o fanatismo das duas seitas que encheram a França de desolação. Não posso perdoar aos que se erguem contra esse homem encantador, senão por terem tais ataques valido a apologia que acabais de fazer. . .

Adeus, senhor; continuai a dispensar a este pobre sofredor a vossa bondade, tão consoladora, e crede que a esperança de ver-vos de quando em quando, de desfrutar o encanto da vossa companhia, me sustenta e anima nestas longas enfermidades.

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