Arquivo para dezembro 2009

A FALA DE PROMETEU

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Nada existe, a não ser a linguagem. Tudo finda, com exceção da palavra. O que nos ocupa não tem importância, o que pega é o texto, o verso, a frase, a letra. As falas são os únicos sobreviventes do massacre. O dito é o que ressurge, cria, funda. O amor é seu filho, a dor sua prova. Passam os séculos, mas tua sílaba fica. Como um fígado que renasce diante do abutre. És ladrão do fogo, Prometeu acorrentado, a cuspir no medo. De tua boca sai a metáfora, a sentença, o desafio da pitonisa, a salva de canhões, o grito.



MENSAGEIROS ESPIRITUAIS

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Eles não pregam a verdade, não possuem nenhuma vaidade em direção à eterna busca do Absoluto. São puro movimento em forma de gente. Agem na vigília e no sonho. Na imaginação e na evidência. Na vitrine e na escada rolante. No cartório e na escola. Na rua e na torre. Não são capazes, como os anjos, de tomar alguém pelos braços e levá-lo a um hospital. Não possuem carne os mensageiros espirituais.



PALÁCIO INTERIOR

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

O problema é que o mundo transformado em mercadoria faz de tudo para que as pessoas esqueçam a fonte da vitalidade: o exercício pleno do estado de arte, da forma como bem entendemos. Não apenas o consumo cultural, importante, mas não decisivo. O que vale é a criação, fruto da transcendência que devemos buscar em vida. Não se trata de pegar um filminho para o fim-de-semana (e sair comentando “a fo-to-gra-fia!”), ou se reunir com os amigos para arriscar um banquete sob o fragor de charutos e vinho (suspirar por lareiras não salva ninguém do tédio).



VIDA ADULTA

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

O cinema é a soma de todos os talentos. Precisa interagir com a vida de verdade, como está voltando a acontecer no mais comercial dos países. A nós, cabe perguntar por que somos tão pobres em abordagens sérias. Nossos filmes, com honrosas exceções, estão confinados ao deboche, à miséria, à eterna mocidade, ao sexo fácil, à violência desmesurada. O máximo que alcançamos é a brutalidade geral, a memória imóvel, o relacionamento amoroso pautado pelo egoísmo. Às vezes, alguém acerta, mas é raro.



OS CONSULTORES

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

A indignação é moeda corrente que compra qualquer tipo de solução para os males do mundo. O bom-mocismo, essa falta de caráter vestida para a missa, hoje movimenta milhões em reclames e eventos. No fundo, todos querem a salvação da humanidade, mas tudo fazem para que o planeta se exploda, desde que o saldo bancário esteja garantido.



A DIALÉTICA EM JOÃO PAULO II

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Política

Ele soube aplacar a linha ultraconservadora dando-lhe o que mais gosta e precisa, poder, e reprimindo os excessos da teologia da libertação (filha direta da igreja transformada nos anos 60). E definiu o perfil de uma Igreja flexível e atuante, corajosa, que foi a campo para enfrentar a própria crise (encontrou saídas no rebanho disperso, no planeta indefeso, nas terras devolutas do mundo em transformação). Essa dupla natureza que soube ser uma só criatura, encarnada no próprio Papa, é a herança principal do Cardeal Woytila, o homem que assumiu as contradições do seu tempo e agiu dialeticamente.



NEM PENSAR

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Produzir pensamento é ofício raro. Ainda reiteramos idéias de milhares de anos atrás e devemos agradecer por isso, pois as mais recentes (de alguns séculos) nos deixam de cabelo em pé. Átomo, idéia, república são conceitos milenares que fazem parte da nossa natureza. Já capitalismo, fundamentalismo, bigbrother são emergentes, adotados como definitivos, mas como os terremotos, devem passar, mesmo que persista o estrago que provocam.



CENAS INESQUECÍVEIS

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Contos, Crônicas

Atulhadas de imagens, nossas mentes selecionam o básico para a sobrevivência. Formatamos uma rotina compatível com nossas condições cardiovasculares. O olho é traiçoeiro e só enxerga o que está acostumado a ver. É por isso que alguns cineastas, sabedores desse vício, conseguiram criar imagens de impacto usando uma cena familiar instalada num entorno diferente.



MÁXIMO GORKI: CENAS DE “INFÂNCIA”

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Livros

Todos os personagens são impressionantes. A avó gorda e com imensa cabeleira, ágil como uma gata e que sabia todas as lendas da Rússia de cór. O avô ruivo e horrível, que o açoitava todas as semanas e que o ensinou a ler. A mãe ausente, que o deixou para trás, viúva que casou com um agiota e morreu de fome e desgosto. Os irmãos recém nascidos mortos. O mestre tintureiro cego, que era perseguido pelos tios e primos de Gorki, que deixavam os dedais em brasa para ele se queimar. O químico que foi seu primeiro amigo e que acabou expulso pelo avô. A mãe do padrasto, que se vestia toda de verde e tinha também a cara e os dentes da mesma cor. E assim por diante.



ACIMA DAS ÁGUAS

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Idéias fixas jamais cedem. Uma é a de que o Sul precisa ser um país à parte, já que o resto do Brasil não teve a “sorte” de ser colonizado por povos considerados mais nobres. Ou que devemos prestar tributo apenas aos ascendentes europeus, esquecendo os índios, que ensinaram a sobrevivência aos invasores, e com eles se confundiram, como notam Sérgio Buarque de Holanda e Darcy Ribeiro.