A DIALÉTICA EM JOÃO PAULO II

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Política        

Nei Duclós

João Paulo é um nome que vem de dois papas, o revolucionário João 23 e o conservador Paulo VI. João Paulo I teve a idéia de encarnar essa contradição, mas não durou um mês no trono. Seu sorriso permanente era a máscara de uma impossibilidade, o de unir duas tendências incompatíveis. João Paulo II teve um longo papado e encarnou a fertilidade dessa dialética. Fortaleceu os frouxos laços do conservadorismo, que tinha sido abalado, primeiro, pela crise da fé que originou a radicalidade de João 23 e, depois, pelo Vaticano II, o Concílio que mudou tudo.

“Levaremos 40 anos para desfazer o que ele fez em quatro”, disse uma vez um cardeal da igreja. Ao mesmo tempo, Woytila disseminou a idéia de uma igreja atuante, sintonizado com as mudanças do tempo, criativa nos métodos de abordagem (a peregrinação permanente) e tolerante em relação às outras religiões. Conseguiu assim alinhar-se às principais propostas do concílio revolucionário: os rituais continuaram modificados, não houve um retrocesso para a missa em latim e a igreja aprofundou-se no ecumenismo, aproximando-se dos ortodoxos gregos e reconhecendo em Alá o mesmo Deus dos cristãos.

FUTURO – Ele soube aplacar a linha ultraconservadora dando-lhe o que mais gosta e precisa, poder, e reprimindo os excessos da teologia da libertação (filha direta da igreja transformada nos anos 60). E definiu o perfil de uma Igreja flexível e atuante, corajosa, que foi a campo para enfrentar a própria crise (encontrou saídas no rebanho disperso, no planeta indefeso, nas terras devolutas do mundo em transformação). Essa dupla natureza que soube ser uma só criatura, encarnada no próprio Papa, é a herança principal do Cardeal Woytila, o homem que assumiu as contradições do seu tempo e agiu dialeticamente.

A contradição entre o estadista e a santidade resolvem-se em João Paulo II de maneira polêmica. Os conservadores adoram colocá-lo como o homem que acabou com o comunismo, mas o comunismo não acabou, o que implodiu foi a ditadura soviética, implantada pelo stalinismo. Nesse trabalho o Papa teve sua contribuição, mas nenhuma análise séria pode colocar exclusivamente nos seus ombros uma tarefa que depende, como nos ensina a História, de inúmeras confluências.

Mais importante que o Papa foi o próprio Gorbatchev, um estadista radicalmente inovador. Com Gorbatchev tivemos a primeira oportunidade real de um mundo transfigurado pela transformação coletiva. Mas os americanos colocaram tudo a perder e retrocederam aos tempos anteriores à guerra fria, intensificando o ódio entre nações e o domínio dos outros povos. Eles acharam que a História tinha acabado, com a vitória dos Estados Unidos. Sonharam com uma Pax Americana idêntica à imaginada pelo Terceiro Reich, que queria o domínio do nazismo por mil anos. Até hoje acham que vão conseguir.

CHANCE – Por um tempo, com Gorby e Woytila, tivemos a chance de sonhar com uma outra vida, mas essa oportunidade se foi. A História não brinca em serviço. Por colocar-se no miolo de todos os conflitos, e nele manter sua integridade e a força do que representava, João Paulo II atingiu a santidade. Tivemos sorte.

Vimos como se comporta alguém para tornar-se um verdadeiro santo: o homem que interrompeu uma missa para ouvir o chamado dos fiéis de uma mesquita; que calçou tênis, que beijou o planeta, que ouviu o coro do Exército Vermelho, em plena ditadura soviética, cantar ave Maria; que veio ao Brasil falar de reforma agrária e de crianças assassinadas; que riu sinceramente dos palhaços que se apresentavam para ele; que chamou Alá de Deus; que falou em medo e coragem; que perdoou o assassino que atentou contra sua vida; que viu e foi visto por todos os habitantes da terra.

O Papa sempre nos emocionou por ser o que sempre foi, mas principalmente porque vivemos numa época em que as pessoas admiráveis pertencem ao passado. Quem você admira hoje? Muito poucos. João Paulo II era uma das minhas predileções, não por eu ser católico desde o nascimento, já que sempre desgostei de Pio XII e achava o Paulo VI algo sem vida. Gosto sinceramente do cardeal Woytila. Ele se foi e é nosso privilégio invocá-lo em nossas orações, pedir que interceda diretamente ao Altíssimo para que tenhamos a mesma coragem de cumprir nosso destino.

BASE – Precisamos lembrar rapidamente o significado e o sentido de dialética, que, como explica Leandro Konder em O que é dialética (Brasiliense, 1986) é “o modo de compreendermos a realidade como essencialmente contraditória e em permanente transformação”. O livro básico é A Ideologia Alemã, de Marx e Engels (Hucitec, 1986).

A dialética veio de longe, dos gregos, de Zenon de Eléa e Sócrates, fundadores, que a definiam, segundo Konder, como arte do diálogo, ou a arte de, no diálogo, demonstrar uma tese por meio de uma argumentação capaz de definir e distinguir claramente os conceitos envolvidos na discussão. A dialética de origem marxista aportou na esquerda para engessar-se num fundamentalismo sem igual. Em compensação, o conceito filosófico de mais de dois mil anos, grego ou transformado pelo pensamento filosófico dos séculos 19 e 20, migrou para Igreja, que, como toda instituição humana (para os fiéis, de origem divina), não pode impedir que seja vista sob esta ótica. João Paulo II encarnou a dialética como ninguém.

CONFLITO – Francisco Antônio de Andrade Filho explica : “Para Heráclito de Éfeso, a realidade é um constante devir, tudo existe em constante mudança – que o conflito é o pai e o rei de todas as coisas – luta dos opostos: frio-calor, vida-morte, bem-mal, saúde-doença etc. Um se transformando no outro”. Conflito é a palavra chave que define Woytila, o homem que soube assumir seu cargo de estadista e, por ter-se colocado no conflito de maneira surpreendentemente vitoriosa, nele atingiu a santidade.

É bom que o pensamento progressista acolha urgentemente ao conceito de santidade em Woytila para que ele não fique confinado ao conservadorismo e à direita. Parece bobagem, mas não é (como assim, a esquerda reconhecer a santidade? perguntará o sabichão que reside em nós). Pois submetam-se, faz bem à saúde. Senão estaremos à mercê do marxismo de galinheiro de gente como Tariq Ali, tido como historiador, ensaista e romancista, que numa entrevista na Folha para a jornalista Sylvia Colombo disse que “movimento que ele promoveu nos rumos da Igreja Católica funciona como um espelho da atual situação mundial, refletindo exatamente o que aconteceu nos últimos anos na esfera político-econômica”.

A dialética não funciona assim, como se a Igreja espelhasse o Consenso de Washington. Isso é de uma pobreza mental sem limites. O Papa rompeu o bloqueio a Cuba, visitando Fidel Castro (que, como lembrou o Papa, estudou em colégio jesuíta), na mais bela transmissão (boicotada pela TV brasileira) audiovisual do nosso tempo. Foi contra a guerra do Iraque, pediu perdão pelos pecados da Igreja ( a condenação de Galileu, a Inquisição, entre outros), lançou pontes sólidas para todas as igrejas. Seu ecumenismo (bandeira maior do Concílio Vaticano II, de João 23) é antológico e profundo.

Diz Tariq: “Foi um papa autoritário que deixou abandonados religiosos que, no Terceiro Mundo, travavam uma luta pelos direitos humanos”. Mandou o Leonardo Boff e o Ernesto Cardenal (que levou um pito em público) calarem a boca. A arrogância de certas pessoas, que se arvoram a gerar teologia por conta própria! Arrostem então a própria teologia, mas a Igreja nada tem a ver com isso. Aqui no Brasil, o Papa cobrou a reforma agrária e denunciou o assassinato das crianças.

MÍDIA – Há uma chuva de análises sobre o poder midiático do Papa. Queriam que o Papa saísse de aldeia em aldeia com seu cajado anunciando bulas por meio de papiros. A Rede Globo pode, o Papa não. Por favor, dêem licença. Woytila tinha noção da majestade do cargo e comportou-se à altura.

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