Arquivo para dezembro 2009

GALO INVENTA A MANHÃ

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

O galo torce o quebranto, ensina a sobrevivência. Ele se espicha, cisca o que tem de mais fundo, se supera. E aos poucos vai acostumando o ambiente à batida do seu pulso, que pressiona a vigília. Cria curiosidade entre os vivos, que torcem para ver quem ganha. No duelo desigual, a tampa noturna luta de um lado. No outro, o cantar do galo ganha ritmo, e aos poucos orquestra o ouvido adormecido da multidão, faminta de luz.



ARTES DIÁRIAS

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Buscamos a excelência no mundo prosaico. Trabalhar bem é uma arte, que aprendemos todos os dias. Funcionamos diante do espelho, os outros. Enxergamos melhor quando vemos a fonte e as conseqüências de ações e gestos dos contemporâneos. E qual é o espaço mais intenso de relacionamento humano? O namoro, o amor, as relações de sangue ou o comércio? Vendemos e compramos sem parar, por uma questão de sobrevivência. Você pode viver no mundo da Lua, apaixonar-se, passar as férias com os pais, mas a presença gigantesca das trocas de produtos e serviços remunerados se impõe na maior parte da nossa vida.



SABEDORIA DE ESQUINA

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Imagino que as pessoas estocam conhecimento sem esperança de passá-lo adiante. Há bastante má vontade em relação ao pensamento autóctene, o que não segue a cartilha e que se perde na multidão. A sacada empírica, fundada na observação direta, a mesma que fez a glória dos fundadores da ciência, foi deixada de lado. Os sabichões abundam por toda parte, calcados no que já foi comprovado, esquecidos de que existe muita estrada ao nosso redor para ser processada por mentes insaciáveis.



O DESTINO NÃO É HUMANO

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Cinema

Há uma seqüência capital de No country for old men, dos Irmãos Cohen, que no Brasil ganhou o improvável título de “Onde os fracos não têm vez” . É quando o facínora persegue o texano, interpretado por Josh Brolin, na fronteira com o México. O assassino não mostra a cara o tempo todo. Os espectadores já estão impregnados de sua presença. Não há mais o que mostrar, a não ser suas ações, seus impactos na vítima em fuga. As balas se sucedem por todo o lado, arrancando pânico e sangue. O rosto animal não aparece, mas somos tomados pelo terror.



VIDA EM MARTE

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

A verdade é que não importa mais quem faz o quê. O que vale é preencher as milhares de horas disponíveis para servir de recheio no sanduíche dos mega-interesses. Não é que o mundo tenha mudado. O mundo, de fato, acabou. Viramos marcianos a olhar, incrédulos, o que fizeram com o lugar onde passamos a maior parte de nossas vidas. A destruição é tão completa que fica difícil explicar para a moçada como foi que aconteceu o desastre. Corremos o risco de ficar falando sozinhos, diante de pelotões infindáveis de celulares.



ARTE AFORA

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Memórias

Ela tinha o dom e procurava, no exercício das charadas, intensificar essa sintonia fina entre trajetória pessoal e sonho, pela larga estrada do verbo impresso. Os livros a acompanhavam desde menina, quando era colocada, aos gritos, para debaixo da cama pela família assustada com revolução nos difíceis anos 1920; e quando era a colegial brilhante que completou a formação em Porto Alegre. A literatura fazia parte dela quando, noiva, posava ao lado do elegante cônjuge de fino bigode e olhar sedutor; e quando, mãe orgulhosa, levantava seus filhos recém nascidos nos braços, como se fossem taças de muitas vitórias. A consolava quando assumia o papel de preocupada vigilante dos estudos que se espalhavam por toda a casa. Temperava sua conversa quando cumpria a função de educada anfitriã na mesa farta, diante das visitas e rodeada de seus rebentos.



IMPROVISO NA OBRA

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

A mão-de-obra brasileira na construção civil, cada vez mais escassa pelo excesso de demanda, está sendo treinada nos padrões internacionais e de qualidade. Mas nas pequenas reformas, onde os contratos apalavrados levantam inúmeras edificações, ainda vigora o improviso e a criatividade. É essa percepção flexível, de tirar o máximo do mínimo de condições, que deslumbra empregadores estrangeiros, acostumados à rigidez e às exigências dos operários de outros países. O Brasil foi feito no muque e temos séculos de uma cultura que se apropria e transmite, pelas gerações afora, soluções cevadas na escassez.



MEMÓRIAS DO VELHO SENTINELA

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Contos

Fui visitar Ossip Grumpf, que vive na divisa do Paraná com Santa Catarina, num sítio onde cultiva begônias. Está recolhido desde 1999, quando encerrou o século e a carreira em Hollywood. É russo de nascimento, ou húngaro, nunca descobri ao certo. Veio para o Brasil porque tinha a imagem de um país longínquo e perdido, onde jamais descobririam sua verdadeira identidade. No fundo, se reconhecia no anonimato do país que escolheu para viver. Por muito tempo, fez o papel dos sentinelas que sempre morrem no primeiro golpe dos atacantes. Achava que ninguém iria querer saber sobre sua biografia, que tipo de ator se transformou por necessidade e, mais tarde, excelência no ofício.



PAZ NA DIFERENÇA

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas, Política

Só existe paz quando as fronteiras estão consolidadas. O Tratado de Versalhes, que humilhou a Alemanha e movimentou as linhas divisórias no coração da Europa retalhada pela Primeira Guerra, resultou na invasão total dos países em conflito. Por isso não adianta sonhar com a paz se houver esse esgarçamento das linhas divisórias, uma fragilidade denunciada inclusive pela construção de muros, como acontece entre México e Estados Unidos. Quando não há garantia de fronteiras, instala-se a barbárie.



DIAMANTES DO ACASO

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

O que ficava no fundo, veio à tona. O que era oculto, foi decifrado. Quem estava escondido, deixou de ser tímido. Quem guardava um tesouro, embriagou-se. Quem estocava palavras, desandou. Não há mais segredos, embora persistam os mistérios. O mundo é um enorme divã, mas a angústia permanece. A pobreza de espírito implantada impede que se formem feixes de luz, ambientes habitáveis, grandezas. Há um espalhar de ruínas. Os ventos sopram, invariavelmente, restos de uma estranha ferocidade.