DIAMANTES DO ACASO

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas        

Nei Duclós

O que ficava no fundo, veio à tona. O que era oculto, foi decifrado. Quem estava escondido, deixou de ser tímido. Quem guardava um tesouro, embriagou-se. Quem estocava palavras, desandou. Não há mais segredos, embora persistam os mistérios. O mundo é um enorme divã, mas a angústia permanece. A pobreza de espírito implantada impede que se formem feixes de luz, ambientes habitáveis, grandezas. Há um espalhar de ruínas. Os ventos sopram, invariavelmente, restos de uma estranha ferocidade.

Matamos ilusões, mas adquirimos outras. Somos uma espécie de microorganismos que ganham imunidade às vacinas. Novas obsessões andam aos pares, como almas gêmeas. A certeza de que nada muda convive com a caridade performática: o vazio e o pessimismo geram assim seu antídoto, as boas intenções. A indignação passa para o próximo bloco, mas o ressentimento permanece. O amor dura meia estação, enquanto todos trocam juras em frente às câmaras.

Quem romperá esse círculo de ferro? A criação, tão pouco entendida. Costuma-se confundir os verbos: inventar parece idêntico a imitar. Já que é impossível entender de onde vem a inspiração, a fonte que gera uvas, a liga que viabiliza o ninho, o visgo que transforma o ovo, então se decreta o fim do enigma: basta puxar de um outro nicho a fantasia que concorre em originalidade. É uma confusão perversa, pois nega (e finge que confirma) o que o espírito possui de mais genuíno, que é a capacidade de recolher trapos de espanto a rolar pelo cais.

Destramar as redes que são impostas em discursos e retomar seus fios em novas combinações é, aparentemente, o mesmo que reinventar a roda. A diferença é sutil para quem consome, mas não para quem se toca. É brutal para quem assume o papel de protagonista nesse passe de mágica. O duro é ter optado pela criação, que não tem volta, enquanto participamos de um cruzeiro com cartas marcadas. As emoções baratas, fundadas em imitação, formam o álibi perfeito para a mediocridade triunfante, que se locupleta no Mesmo. Enquanto isso, fica à margem a excelência do ofício: reunir o que está disperso, muito mais urente do que expor as vísceras.

Jogadas pelos cantos, vivência e cultura compartilham o impasse provocado pelo multiuso. De tanto ver triunfar as nulidades, proprietárias do pensamento, a desesperança colhe flores amargas. O que nos deslumbra fica para trás, ou nos engana: é descartável a revelação que deveria transformar vidas, mas não dura um fim-de-semana. Perdemos a noção do perigo: deixamos de abraçar o que nos habita, sob a justificativa de que nada vale a pena, já que nos convenceram da nossa pequenez. Ligamos botões e desligamos o Acaso, essa permissão da divindade, esse esquecimento, o não-lugar de onde é possível renascer.

Onde encontrar a diferença que provoque faísca, onde está a madeira de novas fogueiras? Bóiam sobre o mar os restos dessa tempestade. É neles que encontramos sobrevivência. Juntamos tábuas no alto da maré, raspamos pedras sob a chuva. A intensidade da estação nos provoca: é hora de armar o dia sem medo de errar. Não importa o que digam. Talvez nos cobrem coerência, pose, postura. São armadilhas do vazio. Veja o sol, que interrompe a treva. Tão previsível na sua semeadura de diamantes.

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