Arquivo para dezembro 2009

PEDRA NO REGATO

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Pedra lisa, quase transparente, brilha no fundo de um regato, aquela porção de água pura que desce a montanha tecendo a aventura. Mais preciosa que ametista, mais vistosa que pepita, mais valiosa que diamante bruto. Perdida entre tantas, se deposita sem esperança de ser colhida. Tem apenas a beleza exposta no barulho da pequena correnteza, mudando de lugar conforme a chuva, ameaçando despencar na primeira cascata e que se encolhe ao toque quando a descobrimos quase sem querer, numa curva tomada pelo pedregulho.



A EXPERIÊNCIA

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Contos

Ele entrou com um gravador na mão e foi logo instalando em cima da minha mesa. Tentei ser gentil, mas o seu jeito de andar, se abaixar e pegar os fios era terrível. Na hora em que alcancei a mão no telefone ele fez um movimento tão brusco para me impedir que acabou caindo em cima do lixo. Não riu, só fez uma careta. Levantou-se, puxou o paletó, sempre com aquela expressão torcida. Estava tentando sorrir, lá da maneira dele, só que eu não pude adivinhar, na hora, o que era. Imediatamente começou a me mostrar.



LOURENÇO DIAFÉRIA: A CRÔNICA EM BRANCO

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Memórias

Lourenço Diaféria, que morreu de infarto no dia 16 de setembro de 2008, é um cronista clássico. Faz parte de uma linhagem criada por escritores como ele, que não vieram do romance ou da poesia, como Machado de Assis ou Olavo Bilac, mas que se dedicaram apenas a esse gênero literário essencialmente brasileiro, nascido no jornalismo pátrio, e que é um reduto tradicional da liberdade de pensamento. Numa reportagem, editorial, cobertura, entrevista, o jornalista sofre muito mais limitações do que o livre-pensar da crônica. Diaféria é da mesma espécie de Rubem Braga, que não precisou voar para outras paragens e fez da crônica seu ganha-pão e sua transcendência. Mas, ironia total, ele foi marcado exatamente por uma crônica em branco, que não existiu, mas foi publicada.



A PROFECIA DA VIDA MANSA

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Cinema

Quando falam que tens futuro, e apontam caminhos para chegar lá, é porque querem conduzir teu destino. Qual é o futuro dos dois jovens de classe média baixa londrina (Colin Farrel e Ian McGregor) no filme de Woody Allen, O sonho de Cassandra (2007)? É o tio milionário Howard (Tom Wilkinson), ídolo da irmã, mãe dos rapazes, que não cansa de usá-lo como modelo contra o marido perdedor, enfartado e dono de restaurante. Na mitologia grega, Cassandra é a a belíssima troiana amaldiçoada por Apolo, que não conseguiu faturá-la e por isso determinou que suas profecias jamais teriam credibilidade.



O CINEMA EM BUSCA DAS ORIGENS

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Cinema

Todo filme é sobre cinema. “Um longo caminho” (2005), dirigido por Yimou Zhang e com Ken Takakura e um elenco de atores amadores, não foge à regra. A morte, nessa obra, é representada pela ausência da indústria audiovisual na vida dos personagens. O velho, que depois de perder a mulher se recolhe a uma aldeia de pescadores, não tem sequer televisão. Sua tela, a natureza, que atrai sua atenção durante horas, é a extrema solidão de um mundo sem cinema. Ele só existe porque está sendo filmado por Yimou, cineasta deslumbrante de vários sucessos.



ACROSS THE UNIVERSE: CHEGUE JUNTO

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Cinema, Música

Nada mais é inesquecível, tudo está na mão. A memória era um lugar, hoje é lugar nenhum. Faz parte do consumo. A cena esquecida do filme perdido está no You tube. E o resgate do passado, feito agora, acaba sendo tratado como pão adormecido. É o caso do impressionante Across the Universe, o musical que nasce clássico, lançado em 2007. É tratado como um amontoado de clipes, como diluição das músicas dos Beatles, como “mais do mesmo” dos anos 60, quando não é nada disso. É uma bela obra. Mas ficar impactado com o filme não pega bem. A moda é negligenciar a obra alheia.



BILAC

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas, Livros

Nepotismo, prostituição infantil, violência urbana: nada escapa ao cronista Olavo Bilac na carioca Gazeta de Notícias. Na virada do século 19 para o 20, ele denuncia os exploradores sexuais de crianças de sete e oito anos, ironiza os oligarcas que empregam as famílias nas bocas do Senado e da Câmara, se insurge contra as quadrilhas em ação na Revolta da Vacina. Bilac tem o dom da palavra clara, sem esse azedume que tomou conta da literatura brasileira nos últimos tempos, fruto da desconfiança dos autores em relação aos leitores.



O ADEUS DO INDOMÁVEL

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Cinema

Em Cool Hand Luke (Rebeldia Indomável, 1967), no papel de um presidiário que se insurge contra a cadeia, Paul Newman conseguiu seu passaporte para a eternidade. Agora que não fará mais filmes, e está sendo lembrado pelo seus papéis mais afetados, como o jogador de sinuca de A cor do dinheiro, o gigolô de Gata em teto de zinco quente, o soldado de Exodus ou o bandoleiro simpático de Butch Cassidy, é melhor regular a transmissão para esta obra prima de Stuart Rosenberg, com George Kennedy como coadjuvante, fazendo papel do veterano que protege o garoto recém chegado, Newman, capaz de comer 50 ovos! De condenado a anos de prisão por ter desmontado, bêbado, alguns parquímetros na calçada, ele vira o mito rebelde que busca a liberdade de qualquer jeito e que deixa o sistema carcerário num beco sem saída: ou mata o indomável ou sucumbe com ele.



FONTES DA BOSSA

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Música

Não é que Caetano queira imitar João, Caetano é João, sem deixar de ser Caetano. É emocionante compartilhar a grandeza desse artista que nos brinda com a madura longevidade do seu talento inimitável. A seriedade, a competência e a inteligência como canta é uma questão cultural. Caetano é a ruptura que resgatou muita coisa da tradição, sem abrir mão da ruptura. É vanguarda o tempo todo, até mesmo quando escande as sílabas para homenagear a banda, os músicos, tornando sua voz um instrumento significativo, mas coadjuvante. Em Caetano, é o arranjo, a harmonia, a melodia que contam.



NOSSO DINHEIRO

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas, Política

Recurso público não é propriedade de indivíduos ou empreendimentos. O dinheiro pertence ao Estado e a mais ninguém. Não é mais seu, meu ou nosso. Senão, qualquer um poderia retirar do cofre coletivo o que bem lhe aprouvesse. Pode-se argumentar: sim, mas esse montante pertencia à sociedade, que foi injustamente aliviada do que é seu e agora está à disposição da corrupção oficial. Pertenciam. Esse é o ponto. A sociedade outorga ao Estado a função de dispor do caixa.