Arquivo para dezembro 2009

ENCOSTO

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Por décadas, não existia americano que não fosse tranqüilo, graças a um célebre livro de Graham Greene. Nem velha senhora que não fosse indigna, graças a Bertold Brecht. Morte, nos tempos áureos de Gabriel Garcia Marquez, era sempre anunciada , numa reprodução de massa que provocava a desconfiança de que todos os tituladores tinham surtado de vez. O pior era a cara de grande descoberta quando alguém “bolava” algo como “crônica de uma morte anunciada” para qualquer reportagem.



A CHINA É VIZINHA

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Cinema

Still Life, ou Natureza Morta, ou Em busca da Vida, é do cineasta cult chinês, Jia Zhang-Ke, nascido em 1970 e um veterano de boas produções. Esta, ganhou o Leão de Ouro de Veneza de 2006. Nunca o povo chinês mostrado na tela foi tão brasileiro. O mineiro que se engaja nas demolições, as rodas de cigarro e aguardente, a aparente passividade, a malandragem ingênua, a afetividade navegando na frieza, os corpos suados e detonados em meio às ruínas. Zhang-Ke filma lentamente, como Wim Wenders em Paris, Texas, e revela a grande paisagem do interiorzão do país se transformando junto com seus habitantes. Os subúrbios sujos, os edifícios encardidos, os terraços favelados, as salas aglomeradas, as pensões baratas, as conversas intermináveis sobre dinheiro, o barulho, a tristeza sem fim.



LUDWIG, DE LUCHINO VISCONTI

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Cinema

Luchino Visconti encontra em Ludwig sua própria representação. O filme (1972) de quase quatro horas que fez sobre o Príncipe da Baviera foi mutilado, esquartejado, desvirtuado exatamente pelo gabinete dos poderosos, os mesmos que, em mais esta obra- prima de sua lavra, aparecem todos de preto, portando guarda-chuvas sinistros em meio ao aguaceiro para cercar, aprisionar e depois levar à morte o rei que queria um lugar entre os criadores. Visconti filma o deslocamento de Ludwig diante de seus algozes e sua determinação em permanecer fiel a si e a seu reinado de imaginações, apesar de toda oposição e maledicência.



O AVESSO DO EXÍLIO

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

O presidente deposto Mauro Jindre Calvano Castro encontrou no Uruguai seu exílio dourado. Sentia-se no Brasil, para desespero de sua assessoria, que não conseguia explicar direito a confusão que o estadista fazia entre a antiga província Cisplatina, do tempo do Império, e o estado soberano que agora o recebia. Achava que os uruguaios eram riograndenses mais urbanos e cultos e, o que era melhor, habitantes de uma civilização que há muito no Brasil tinha sido destruída. Toda vez que o Doutor Mauro Jindre entrava num café e via aqueles garçons com guardanapos longos pendurados no ante-braço, começava a cantar Noel Rosa.



VIAGENS

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Sou da terra firme. Daí, talvez, venha tanta atração pelo mar, território do movimento e da renovação constante e que nos traz nas ondas recados de náufragos esquecidos, ilhotas sem nome e arquipélagos que foram tragados pelas águas. Aguardo, quem sabe, notícias de Atlântida, onde deverei pousar, quando enfim chegar ao meu destino.



O DRAMA DE MARCOS

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Esportes

Por ter sido um jogo intenso, em que a relação dramática entre expectativa e bola chegou ao seu ponto máximo de tensão, é que aconteceu a tragédia. Pois quando a percepção coletiva foca demais num ponto, quando a cabeças, machucadas ou não, se voltam para aquela comunhão entre golpe de vista e chute no ângulo, fica de fora o improvável. É desprezada a surpresa que pode acontecer quando o lance escolhe o hiato entre a certeza de cada um e os caprichos geométricos do futebol.



CAÇA NO QUARTO CRESCENTE

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Contos

A silenciosa imobilidade une cachorro e caça. As duas cabeças estão penduradas no mesmo olhar fixo. Uma espada invisível cruza as criaturas no instante decisivo da tarde, até agora muda. O fio reúne as atenções terminais da perseguição entre urtigas. O perdigueiro treme porque o tempo desanda e a impaciência começa a devorar sua certeza. Mais um segundo e a presa desatará o vôo rasteiro, que vibra abrindo um rasgo no campo.



GUERRA E MEMÓRIA

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: História Militar

Que lugar ocupa a guerra na história do Brasil? General Osorio e seu tempo, de José Antônio Severo é uma resposta a essa pergunta e uma pá de cal no equívoco de que o país seria fruto apenas de artimanhas e escapatórias, de espertezas políticas e diplomáticas e não da vontade expressa no campo de batalha. Trata-se do levantamento minucioso do envolvimento da nação brasileira numa luta de vida ou morte, ao longo de um período em que se definiu primeiro como Reino Unido, depois como Império e finalmente como República. Os protagonistas desse embate deixaram marcas profundas na terra e no imaginário da população em armas.



NADA MUDA

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Para os longevos, fica estranho observar esse senhor provecto a dar opinião grave sobre a crise, já que ele mantém o tom e os argumentos da época em que nem era nascido. O garoto quarentão, vejam só, é um avô que lembra Tolstoi, mas sente saudades dos anos 80, que aconteceram hoje de manhã. A senhora que brincava de boneca na semana passada assume aquele ar de matrona empedernida, a desferir críticas, principalmente contra os homens, esses imprestáveis. O coronelzão de hoje jogava taco com outros moleques quando passei por determinada rua, há um mês. Isso sem falar nos sacerdotes aeróbicos, mães com cara de bebês, trintões cansados de guerra, aposentados de cabelos pretos que juram ser a fauna de uma idade avançada.



HÁ MEDO NO AR

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Há medo no ar. A intimidade está sendo devassada. Ninguém se sente seguro. Querem saber tudo de você. Na caixa do supermercado, como alertou uma leitora desta revista, aquele que ocupa um lugar atrás na fila se debruça para saber RG, CIC, telefone e endereço de quem está sendo atendido. Mesmo sem ficar interessado nos dados do outro, essa pressão significa que há vontade de ocupar o espaço alheio.